O Lado Bom De Ser Invisível escrita por Maga Clari


Capítulo 1
Capítulo 1 - Querido amigo




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24 de Agosto de 1991

Querido amigo,

Hoje aconteceu a pior coisa que poderia acontecer na minha vida; se é que podia ficar pior. Normalmente, eu teria medo de falar sobre isso (ou escrever) porque dizem que a tendência é realmente piorar. Mas hoje nem que um raio caia na minha cabeça e eu morra eletrocutado eu conseguiria sentir-me pior.

Você deve estar se perguntando o motivo de eu enviar-lhe esta carta, provavelmente. Afinal, nunca nos vimos antes. Não sei nem seu nome... Mas apesar disso, não vejo mal algum em contar-lhe o meu. Meu nome é Charlie, muito prazer. Ou melhor, você pode me chamar de Charlie.

É, eu sei que disse que não havia mal algum, mas eu estava mentindo. E eu não gosto de começar relações baseadas em mentiras, eu fico me sentindo mal, sabe. Eu escolhi este nome porque você precisa se situar. Mas se eu lhe desse meu nome verdadeiro, você poderia saber quem eu sou.

E é aí onde mora o problema.

Não me leve a mal, mas eu ficaria imensamente envergonhado caso você me encontrasse pessoalmente depois de ter escrito tanta coisa pessoal para você.

Bem, algumas pessoas me aconselharam a te escrever porque acham que talvez você possa me ajudar. Talvez, você seja do tipo que ouve e entende e não julga. E se você for mesmo assim, certamente não se assustará com o que irei lhe contar agora. Mas se você não for, peço que guarde seus comentários para si mesmo porque já tem muita coisa atormentando minha mente no momento.

Como o fato do meu melhor amigo ter se matado.

É isso aí.

Meus pais me internaram nesta clínica porque eles têm medo do que eu possa fazer. Mas eu estou tão confuso que não sei de onde eles tiraram essa ideia. Claro que nós éramos muito amigos e tudo o mais e... É, talvez eu também me preocupasse se fosse meu pai.

Eu só queria que o Michael estivesse aqui.

É tudo culpa minha, eu devia ter sido um amigo melhor; sempre a culpa é minha. Que nem a tia Helen. Às vezes, eu penso que aquele raio devia mesmo cair, sabe. Eu merecia estar no lugar dele, ele era tão bom e eu sou tão... eu...

Minha irmã está preocupada comigo, ela disse que eu devia ter consciência de que eu fiz o que pude e que não tenho motivos para me sentir assim. Em ambos os casos. Mas é só que é tão difícil, entende? As visões estão me deixando louco! Talvez eu esteja mesmo. Mas quem liga para isso? Quem liga para qualquer coisa?

Engraçado como consegui me expressar tão facilmente, né? A conversa fluiu com você... E talvez estivessem mesmo certos quando disseram que você é um bom amigo e que poderia me ajudar.

Se você leu até aqui, posso tentar sua confiança. Se é que isso é possível.

Eu não costumo confiar nas pessoas, não sou muito de conversar, sabe? Eu apenas observo.

Olha, preciso terminar logo esta carta, a enfermeira está vindo. Provavelmente com alguma coisa para eu comer, embora eu não esteja nem um pouco com fome.

Desejo o melhor para você.

Com amor,

Charlie

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24 de Agosto de 1991

Querido amigo,

Aposto que te deixei triste assim que recebeu o envelope. Eu sei que prometi parar de escrever assim que eu melhorasse, mas, infelizmente, não melhorei. Me desculpa. Eu sei que está desapontado comigo.

Meus pais já não aguentam mais, e os meus colegas dizem que eu devia trocar a ficha de endereço para esse hospital, veja só! Claro que acho todo mundo divertido aqui, mas não é por isso que ainda não me deram auta, entende?

Eu juro que estou me esforçando, mas é difícil! Às vezes, eu paro para pensar e vejo como nada mais importa... Com que objetivo eu vou sair daqui, voltar pra casa, ir à escola, fazer as coisas de sempre, se um dia vamos todos morrer e talvez não tenha valido a pena, hein?

Além do mais, gosto de como me tratam aqui. Fiz alguns amigos, como o Bobby e o Craig. Mas vamos mudar de assunto porque não gosto de falar nele.

E se quando eu sair cada um seguir sua vida e ninguém lembrar mais que eu existo? E se tudo isso não tiver passado de uma mentira, ou de um sonho, ou pior, de um delírio? Talvez eu acorde a qualquer momento depois do efeito dos medicamentos.

Se isso for mesmo verdade, prefiro continuar dormindo.

Em todo o caso, não quero parar de te escrever. A doutora Minerva disse que seria bom pra mim começar, e agora inventou que também seria melhor eu parar; disse que já está na hora de parar mesmo, sabe. Mas eu não quero.

Vou te escrever escondido, não se preocupe!

Com amor,

Noelle

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26 de Agosto de 1991

Querido amigo,

Passei uns dois dias dopado. Parece que tive outro ataque nervoso, ou algo assim. Cansei desse lugar, cansei já de tudo... E o pior é que eu sei que meus pais devem estar torrando todas as economias só pra me manter aqui e olha o que eu dou em troca: nada. Apenas fico aqui reclamando...

A minha médica falou que eu não posso sair do quarto ainda, mas eu não aguento mais isso! Essa salinha está me sufocando, talvez mais do que meus próprios pensamentos, sabe. E sinto que se eu ficar mais um minuto aqui trancado, minha cabeça vai explodir! Daí tudo vai ficar bem melhor; vou parar de pensar, de sofrer... É, talvez seja melhor eu ficar e esperar esse momento.

Não conta pra ninguém, mas eu não tenho mesmo comido essa coisa sem gosto que chamam de comida. Quando a enfermeira sai, eu simplesmente jogo pela janela, ou no lixo, ou ainda, pela descarga. Eu sei, existem um monte de crianças morrendo de fome na África e eu me sinto um lixo em pensar no que estou fazendo, mas eu realmente não quero comer.

Não é que eu esteja esnobando, entenda bem. É só que as coisas começaram a perder o sentido para mim. Tenho preguiça, além de ter perdido o paladar, ou sei lá...

Desculpa ter dito tanta coisa, mas aposto que você não se importa em receber minhas cartas, não é? Tem sido legal fazer isso, quase como uma terapia pra mim. Acho que vou te escrever mais vezes.

Com amor,

Charlie

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28 de Agosto de 1991

Querido amigo,

Preciso te contar uma coisa engraçada que aconteceu comigo ontem.

Eu estava na oficina de música com o pessoal e nós estávamos ensaiando "Heroes" do David Bowie. Ah, nem estava assim tão ruim. O fato é que apareceu um garoto novo. Ele era engraçado, tinha cabelos despenteados e um olhar profundo...

Ele nos observou de esguelha um tempão, encostado na porta. Eu sorri para ele, mas o garoto estranhamente não retribuiu. Quando ele apareceu, não tínhamos começado o ensaio propriamente dito, estávamos só conversando e fazendo barulho com os instrumentos.

O garoto novo sentou longe, numa mesa sozinho e não disse nada. Eu resolvi enturmar ele, claro. Então começamos o ensaio e fomos tocar perto dele. Assim que chegou o refrão, ele começou a chorar. Eu não entendi nada... Continuei tocando, achei que fosse passar, né? Eu sei que não sou tão boa assim, mas não imaginei que era tão ruim a ponto de fazer alguém chorar! Haha.

Enfim, ele não aguentou e saiu correndo... Aquele garoto era muito esquisito, sabe. Se bem que estamos numa clínica, ele pode ser doente... Mas de todo jeito fiquei triste por ter feito ele chorar, entende?

Você acha que eu devo pedir desculpas?

Com amor,

Noelle

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