Diário Do Azar escrita por Cínthia Zagatto


Capítulo 5
IV - O time de hóquei




07 de março de 2012

No caminho de volta ao prédio do ensino médio, vesti novamente meu agasalho. Ainda me lembro de como o tecido da camiseta dos Habs estava frio por causa da temperatura do lado de fora e demoraria a aquecer, já que todo o prédio não era tão bem ambientado quanto o dos pequenos. Minha atenção estava quase nula antes de ser tirado da sala, então minha preocupação seria toda e qualquer uma que não tivesse relação ao conteúdo que a professora passava. O que me conquistou de fato foi o que ele tinha esfregado em meu nariz há alguns...

Apenas poeira, reafirmou Pierre ao girar o boné branco em mãos e encontrar a mancha acinzentada perto da aba. Checou-se pelo espelho do banheiro uma vez. Ajeitou a parte de trás do cabelo castanho arrepiado com gel, como sempre usava, percebendo que devia ter sido amassada pelos bracinhos do menor enquanto o carregava de um lado para outro. Com um pedaço de papel toalha do banheiro, conseguiu esfregar a sujeira até que o tom cinza caísse já para algo quase inidentificável. Nada que sabonete e água não limpassem em segundos.

Com as mãos cheias de espuma, ele não percebeu quando um sorriso leve cresceu em seu rosto, mas sabia exatamente sobre o que estava pensando. Nunca havia tido tanto contato com alguém sequer parecido com Sebastien, uma criança tão boa. Ele nunca tinha ido buscar alguém na sala de aula por sair dez minutos mais cedo e não aguentar esperar para ir embora, mesmo que a carona deles ainda não estivesse à espera ali em frente. Nunca tinha sido procurado por uma professora e se sentido importante por conseguir fazer algo que ela não conseguia. Nunca tinha tido a chance de ganhar um sorriso tão grande e sincero por um pedaço de bolo ou qualquer chocolate barato.

Afundado dentro da própria cabeça, também não percebeu quando a porta do banheiro abriu e fechou de novo atrás de si. Foi apenas alguns minutos depois, enquanto enxaguava aquela pequena parte do boné e se certificava de que ela ficaria limpa depois de seca, que levantou os olhos e viu o namorado através do espelho que antes refletia apenas a própria imagem. Com um pulo, girou o rosto por cima do ombro e se perdeu nos próprios pés enquanto tentava se virar de frente a ele. Precisou se segurar na pia para não perder o equilíbrio.

─ Calvin! Quando chegou aí, que eu não vi? ─ Esfregou a testa com a mão ainda molhada, depois se lembrou de secá-la e tentar fazer o mesmo com o boné. Pegando mais alguns pedaços de papel toalha, voltou a olhar o menino do outro lado do banheiro. Pela primeira vez, não pensava no quanto ele era bonito com as calças mais justas que o necessário e a franja negra caindo por cima da usual bandana amarrada à testa; hoje, de cor vermelha.

─ É claro, você tava perdido demais nos seus pensamentos molhados. Eu espero que fossem comigo pra tantos sorrisos, não com o pirralhinho ─ comentou antes de se aproximar e olhar o boné em suas mãos. Não precisava perguntar, pois sabia que não era dele e tinha visto minutos antes na cabeça do pequeno que abria um berreiro no corredor do colégio. As sobrancelhas do namorado se arqueavam levemente.

─ Eu espero que você não esteja insinuando que eu tenho pensamentos eróticos com um garoto de seis anos ─ mudou um pouco o tom enquanto continuava a secar o tecido, e os olhos sérios subiram para encará-lo. ─ Isso é ridículo. Você com ciúmes de um garotinho que para de chorar em troca de chocolate!

─ O que você ta fazendo? ─ Ele desviou do assunto como se não estivessem em uma discussão, e Pierre estava cansado de como Calvin sempre fazia aquilo da mesma forma. Simplesmente fazendo, sem sequer um pedido de desculpas ou um sorriso para dizer que estava brincando. E era isso o que mais o tirava do sério: imaginar que talvez não fosse mesmo uma brincadeira.

─ Não é da sua conta. ─ Amassou o papel e o jogou no cesto de lixo a caminho da porta. Conseguiu escutar o garoto chamar diversas vezes por seu nome, ameaçá-lo e até ofendê-lo um pouco por trás de suas costas, mas não daria o braço a torcer daquela vez. Calvin tinha que aprender que nem sempre seria o centro das atenções e teria, sim, que dividir sua atenção dali em diante. Ou Pierre teria que continuar disponível sempre que ele quisesse ligar e esperá-lo ligar quando ele decidisse sumir para todo o sempre, como vinha sendo desde que tinham se conhecido?

Quando chegou à sala, descobriu que a professora havia encerrado a aula minutos mais cedo. O motivo era o time de hóquei, que teria que escolher seus substitutos e precisava fazer aquilo antes do treino que aconteceria à tarde. As carteiras estavam vazias quando se aproximou do grupo de meninos reunidos ao redor da mesa do professor.

─ Até que enfim, Pierre. A gente pensou que fosse ser babá pelo resto do dia! ─ Um deles usou um tom debochado para avisar aos outros que o capitão do time havia acabado de chegar.

─ Não fode, Charlie ─ resmungou com os olhos estreitos, depois desviou os passos e foi juntar o próprio material escolar dentro da mochila, então poderia se reunir com eles e já sair de lá para dar a notícia aos mais novos, em seguida. O boné sempre segurado pela aba, sendo chacoalhado às vezes para secar o mais rápido que pudesse. ­─ O que vocês já decidiram?

─ A gente tava pensando em Mark, Tony, Bob e Harry. ─ Phil apontou a lista de nomes e anotações que haviam feito durante os diversos testes.

─ Eu não lembro quem são. ─ Pierre coçou o queixo só o suficiente para fazer um som arranhado dos poucos pontos de barba mal feita na mão grossa por culpa dos treinos e da falta de cuidado ao andar de skate. ─ Quem era aquele moleque ruivo?

Muitos deles se olharam, e Jeff foi o primeiro a se lembrar e apontar a lista. Todos eles sabiam que tinham se esquecido de tirar fotos para completar as fichas, mas também sabiam que conseguiriam se lembrar dos inscritos, com um pouco de esforço e a ajuda das anotações que tinham feito e dos comentários sobre cada um deles durante os jogos. O treinador, no caso o professor de educação física, já havia aprovado todos os candidatos, mas a escola dava aos atuais jogadores o direito de escolher os próximos, e era comum que eles se enrolassem com isso na hora da organização.

─ Harry.

─ Harry que vocês escolheram? ─ questionou de novo e teve cabeças assentindo para a pergunta. Coçou a própria com uma careta de desgosto antes de continuar. ─ E o menino alto do piercing no septo, que fez o teste com ele?

─ James, Johny, Jared... ─ Outro deles deu de ombros, enquanto o restante apenas confirmava que não se importava muito com ele. Ele não era bom, não dava motivos para que se importassem.

─ Eu não gosto deles. Dele e desse tal de Harry. Quem era o loiro baixinho, metido a Backstreet Boy? Ele era bom.

─ Sério? Qual é o problema com o Harry? ─ Charlie arregalou os olhos e os girou ao redor para saber se tinha o apoio de algum dos outros no pensamento de que aquele garoto loiro destruiria a imagem do time.

─ Eu não gosto dele.

─ Ele é bom!

─ Olha, eu não gosto dele ─ insistiu e alternou o olhar entre Charlie, Phil e Jeff, que tinham mais voz, assim como ele próprio. ─ Se eu tenho que escolher alguém para vir ver jogar no nosso lugar, no ano que vem, alguém que eu sei que, quando for embora da escola, também vai querer deixar alguém bom pro time, é ele, não o Harry. Harry vai pegar uma das nossas jaquetas e sair atrás das garotas. E o... O... Qual é o nome do menino? ─ perguntou com um pouco menos de paciência.

─ Kyle... ─ Pierre ouviu a resposta, mas mal reconheceu a voz.

─ E o Kyle obviamente vai se preocupar em, daqui a dois anos quando estiver aqui no nosso lugar, escolher alguém bom pro time, tanto pros jogos quanto pra imagem. Eu não quero saber se o Harry é bom. Ele não tem cara de que vai ser bom quando já estiver no time, quando não precisar provar mais nada a ninguém por já ter conseguido o status. Nós não somos um bando de idiotas com uma jaqueta legal, que sai por aí enfiando as cabeças dos menores na privada. Kyle quer jogar, quer jogar pra valer. Não é culpa dele, se ele nasceu como nasceu, de cabelo enroladinho e olhos azuis. Não quer dizer que um bad boy qualquer vai ser melhor que ele. ─ A sala se manteve em silêncio por alguns segundos. Pierre pôde ver a troca de olhares entre os outros três que sairiam do time consigo no próximo semestre, mas não obteve nenhuma resposta. ─ Ótimo. Vocês façam o que quiserem e vão dar a notícia, depois venham ver os jogos do próximo ano.

─ Ok, ok! ─ Phil foi mais rápido que o pensamento de Pierre de ajeitar a mochila nos ombros e sair da sala. ─ Eu concordo com o Pierre. Harry parece ser bom pras aulas de educação física da sala dele, mas não pros treinos.

Ainda levou um minuto de tensão até que Jeff concordasse e Charlie acabasse por assentir também, por último. Com a lista em mãos, eles atravessaram o corredor e bateram na porta dos alunos dois anos mais novos. Os garotos da série logo abaixo da deles e que também já faziam parte da equipe a ser renovada, seguiam-nos mais de longe. O sinal da saída tocou no exato minuto em que obtiveram autorização do professor para conversar com a sala. Pierre pegou a lista nas mãos e falou alto só o suficiente para que todos pudessem escutar:

─ Nós temos os nomes dos quatro jogadores que vão começar a treinar com a gente. Só levantem a mão pra gente lembrar da cara de vocês, da próxima vez ─ pediu com um riso baixo e foi seguido por quase toda a sala. Todos eles sabiam que tinham sido escolhidos por número ou qualquer coisa assim, mas também não imaginavam que seu desempenho tivesse sido tão irrelevante a ponto de não serem lembrados. ─ Kyle. Mark. Tony. Bob. Ok, legal, até quinta-feira. ─ Fechou a pasta e olhou de novo para eles. ─ Vocês outros são bons, mas a gente só podia escolher quatro de vocês. Vocês ficam para a seleção do ano que vem, se precisar de substituição. Todos menos... ─ checou novamente a lista, como se realmente precisasse confirmar os nomes, mas só precisava descobrir qual deles começava com a letra J. ─ Menos Harry e Jared. E vamos vetar também qualquer outro que virmos jogando bonés de menininhos por aí. Só, obrigado. ─ Olhou de novo o professor e foi o primeiro a sair da sala debaixo dos olhos arregalados dos meninos com quem conversou por último.

─ Pierre! ─ Phil chamou assim que correu para fora atrás dele, apontando na direção da porta enquanto era rodeado também pelos outros dois amigos mais próximos. Nenhum deles sabia o que estava acontecendo. ─ Que droga foi aquela?

─ Eu não posso conversar agora, Phil, eu to atrasado. ─ Devolveu a pasta na mão de qualquer um deles e voou escadas abaixo para fugir antes que fosse cercado para explicar o que tinha acabado de fazer. Tudo estaria bem, se conseguisse escapar naquele momento. Até onde Pierre os conhecia, eles nunca se lembrariam do acontecimento no dia seguinte. E conseguiu. Logo estava andando até a sala em que havia deixado Sebastien há cerca de meia hora. O boné ainda estava úmido, mas nada que fosse impedi-lo de colocar na cabeça do menor, que vinha saltitante em sua direção, como era sempre fora da escola, mas nunca havia sido ali dentro.

─ Pierre pierre! ─ Ele chamou enquanto corria até o maios velho com a pequena mochila nas mãos, depois esticou os braços para ganhar colo. Pierre bateu uma palma enquanto se inclinava, preparando as mãos preparadas para recebê-lo, logo fazendo um som de esforço ao trazê-lo para cima. Segurou a mochila dele com uma das mãos e ele com a outra. Acenou para a professora que começava a formar a fila das crianças e passou a andar com ele na direção do portão. ─ Adivinha! ─ Ele começou.

─ Você... Fez aquele desenho muito bonito que prometeu que ia me dar! ─ Fez um som de surpresa após comemorar em antecipação e arqueou as sobrancelhas, com o melhor ar de empolgação que podia usar para fazê-lo acreditar que estava mesmo esperando por aquilo.

─ Não... ─ O pequeno alongou a palavra. ─ Ainda não. Mas eu vou ser o Harry Potter no teatro do final do ano! A tia me escolheu! ─ Ele assentiu com a cabeça, os olhos grandes como se perguntassem se ele conseguia acreditar nisso.

Pierre podia entender que ele nunca esperaria por aquilo, tanto por ser discreto e ter uma educação tão contida, quanto por ainda não ter amigos depois de algumas semanas de aula. Ele também percebeu que talvez aquilo fosse um incentivo para que o pequeno gostasse um pouco mais de ir para a escola. Não que pensasse que a professora o tivesse escolhido por isso, já que ela mal parecia notá-lo, a ponto de deixar meninos o zoarem durante o intervalo, mas a peça podia trazer um pouco mais de interesse da parte dele.

─ Uau! Parabéns! ─ Arregalou os olhos a exemplo de como ele havia feito, mas tentou não parecer tão surpreso quanto ele. Preferiu soar como se estivesse orgulhoso, exatamente como estava, e demonstrou isso com um sorriso grande, quase enorme, que nem precisou forçar. Antes que conseguisse continuar, percebeu uma pontinha de desanimação no rosto do menor, quando ele virou os olhos para baixo, e também não precisou questionar. Ele parecia mais confiante em lhe contar qualquer coisa que fosse.

─ Pat disse que é porque eu sou estranho igual o Harry Potter e ficou rindo com os amigos dele ─ desabafou com um bico nos lábios, e Pierre o jogou levemente para cima apenas para chamar sua atenção. Conseguiu seu olhar de volta enquanto atravessava a rua e devolvia o boné em sua cabeça.

─ Ta um pouquinho molhado, mas eu limpei ─ sussurrou para que a mãe dele não ouvisse, já que se aproximavam cada vez mais do carro dela, estacionado na esquina. ─ E você não é estranho, Seb seb. Esse Pat só está com inveja porque você é melhor que ele, foi escolhido, e ele não. Não precisa fazer bico, ele é só um menino bobo. Você tem que ficar feliz e contar pra todo mundo! ─ Beijou sua testa e se aproximou da Sra. Laurier quando ela desceu do carro para receber o filho com um sorriso três vezes menor que qualquer esboço de felicidade que Pierre demonstrava quando o assunto era ele. “Olha a mamãe, conta pra ela!”

Sebastien gritou empolgado e ergueu os bracinhos com a voz fina para contar as novidades. Pierre lhes assistiu um pouco de longe, como sempre fazia quando ela estava por perto. Algo nela, em toda aquela família exceto o próprio Sebastien, dizia que ele não era exatamente bem-vindo, mas isso não o impedia de rir baixo de toda a empolgação do pequeno, enquanto tinha a própria mochila nos ombros e levava a pequena bolsa dele nas mãos. Depois, entrou no carro, no banco de trás com ele, como ele sempre pedia que fizesse, mesmo com a mãe reclamando que pareceria um chofer. Entre agradá-la e agradar ao Seb, ele ficava no banco de trás tentando segurá-lo quieto na cadeirinha enquanto ele quicava empolgado, gesticulava e puxava os assuntos mais aleatórios que nem o próprio Pierre pensaria para uma conversa de vinte minutos até em casa.



Notas finais do capítulo

Meninas, obrigada pelos comentários, eles me ajudam muito! É muito bom saber que estão gostando da história, já que eu gosto tanto dela.Sobre os capítulos: talvez eu não consiga colocar muito mais coisas dentro deles por ter decidido quebrá-los em cenas quando comecei a escrever. Mas posso tentar um intervalo menor entre as postagens, talvez um capítulo todo dia (quando possível)? Assim uma coisa compensa a outra. =)



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