Pedaço De Pano escrita por EscritorB


Capítulo 5
A receita


Notas iniciais do capítulo

Espero que gostem desse novo capítulo de Pedaço de Pano.



Aproximei da boneca, andando pelo corredor de madeira, com apenas uma vela iluminando o lugar. Minhas pernas ainda tremulas, me levaram ao encontro do brinquedo,eu me agachei e um raio atravessou a janela e alcançou o rosto da boneca, que aparentava estar sorrindo em um tom de deboche, mas ao mesmo tempo assustador.

Olhei para as portas ao fim do corredor, uma com cada maçaneta diferente. Levantei e voltei-me para minha avó que parecia ter visto um fantasma e aparentava ter dez anos amais do que sua idade. Com o cetro na mão, despertou do susto de alguns minutos atrás. Naquele momento tudo o que eu queria saber era uma boa explicação de tudo o que havia acontecido nesse meio tempo, e a única certeza, era que Lucia sabia.

Mas antes disto, queria acabar com a suposta fonte desses problemas... Corri em direção à boneca, lhe peguei e sai em disparada à janela, quando consegui abrir a tal, senti uma presença vinda ao meu encontro; era minha avó e antes que pudesse reagir, ela disse:

-Não faça isso criança... Não vai resolver nossos problemas.

Sem atender seu pedido, joguei a boneca janela à fora; minha avó acenava com a cabeça fazendo um sinal de não. Isso me fez entristecer rapidamente. Segui ao começo do corredor e desci a escada a rumo da sala de estar, afim de que Lucia me desse alguma explicação favorável. Como esperava ela desceu, sentou se no sofá frente ao meu. Foi então eu lhe disse:

-Me diga, por favor, o que você sabe sobre a boneca.

-Criança, ainda não está na hora de você saber...

-Mas eu quero saber!

-Acalme-se, criança!

Silenciei, e não tive resposta. Alguns minutos se passaram, quando tive a idéia de falar alguma coisa, o primeiro raio de Sol atingiu minha face, e então percebi que a madrugada havia passado e não tinha reparado. Quando finalmente disse algo, acho que não era o que Lucia esperava que eu falasse:

-E aquele cetro, na sua mão? O que era?

-Aquilo? Aquilo era uma bengala antiga de seu avô.- ela disse sorrindo.

-Uma bengala?- perguntei suspeitando.

-Sim.

Levantei do sofá e fui até a cozinha para ver se tinha alguma coisa para comer como café da manhã. Quando cheguei lá, havia pães e uma jarra vazia; peguei o suco na pequena geladeira. Preparei um lanche para mim e fui em direção à sala de estar, e observei Lucia na sala, bocejando com uma aparência mais velha. Esta imagem me entristeceu, voltei para cozinha preparei um café e levei um pão quente sobre uma bandeja e levei para ela.

Sorrindo ela recebeu a simples refeição que eu preparei como café da manhã, e me agradeceu. Comemos ali na sala de estar; uma fazendo companhia para outra, mas caladas. Terminei rapidamente e fui a varanda em frente ao casarão, olhei para as janelas, e imaginei uma presença me observando, foi então que escutei um barulho: TAC TAC. Lucia estava vindo em minha direção e acabou tropeçando e eu nem havia percebido isso. Ajudei a se levantar e em decorrida disse sem notar:

-Você precisa dormir vovó. Deixa que eu te ajudo a subir as escadas.

-Não precisa criança...

Sem responder, levei-a para o segundo andar subindo vagarosamente a escada de madeira, reparei novamente sua velha mão que se apoiava na minha. Quando chegamos ao corredor caminhamos um pouco mais acelerado, até que fomos até o quarto dela.

Entrando lá, notei a grande quantidade de quadros antigos e recentes, além de móveis desbotados como seu guarda-roupa; havia também objetos raros , que não se via pela casa, como ampulhetas e um velho jogo de xadrez de madeira. Deitei-a sobre a cama macia, esperei ela adormecer para deixá-la sozinha dormindo.

Fui até o banheiro, subi uma pequena escadinha e peguei um termômetro, quando sai de lá fui até o quarto de Lucia que estava despertada, porém deitada. Aproximei dela e lhe coloquei o pequeno termômetro, aguardei poucos instantes, e o termômetro confirmou minha suspeita: minha avó estava doente. Eu não sabia o que fazer com ela, por isso fiz a perguntei:

-Vovó, você... Você está doente. Eu não sei o que posso fazer... será que a senhora poderia me dizer se você tem algum remédio?

-Sim criança. Vá até à cozinha na gaveta de ferro abaixo da pia. –disse ela sussurrando.

E então escutei um barulhinho vindo da janela: Tic Tic Tic. Cheguei perto da janela e abri a cortina branca: um belo gato preto estava arranhando o vidro desta. Mandei-o embora, e ele foi correndo e pulou no telhado da próxima casa. Não me leve a mal por ter o espantado, não acredito em superstições, melhor não arriscar...

Cheguei à cozinha no primeiro andar, procurando a tal gaveta de ferro, lembrei me do que Lucia havia dito “ Vá até à cozinha na gaveta de ferro abaixo da pia.” No mesmo instante voltei o meu corpo para a pia e avistei a gaveta, me aprecei para pegar o remédio e quando abri a gaveta lá estava: um livro velho. Peguei o livro e o abri onde estava marcado com uma fita vermelha, no alto da página estava escrita “Receita para melhorar a Velhice.”. Achei estranho um título assim, mas não impliquei até ler a última frase “ver ingredientes no porão”, isso me deu calafrios; mas eu sabia que deveria fazer algo para ajudar vovó.

Andei o corredor até o seu fim onde dava para o porão, quando abri a porta de madeira, um vento gelado veio sobre mim, balançando o meu cabelo sobre meus ombros. Desci a escada barulhenta, até que pisei no último degrau e ascendi a luz: um lugar cheio de pequenos vasinhos com algumas substâncias e paredes pintadas de branco com faixas cinzas. Olhei novamente a receita e procurei os ingredientes, com sorte achei todos, abri um armário no canto do cômodo e lá tinha uma bacia, onde coloquei as substâncias e as misturei, colocando em um frasco e o guardei no bolso.

Subi até o corredor do primeiro andar, andando lentamente até a cozinha, procurei uma colher a achei uma no canto da pia, e fui para a escada subindo e me apressando para dar a vovó. Chegando ao quarto me deparo com Lucia sentada olhando para a porta, me aprecei e coloquei o remédio na colher e ofereci para vovó e ela bebeu logo se deitou e adormeceu. E eu me sentei na poltrona de leitura olhando para minha avó, e nisso se passou alguns dias...

-Que dia é hoje?- perguntou Lucia ao se despertar.

-Hoje é segunda-feira...

- E então o que ainda está fazendo aqui? Você deveria estar se arrumando para a escola!

Foi então que me toquei que havia se passado uma semana, e hoje começaria as aulas. Olhei para o relógio de ponteiro sobre a porta do quarto antigo de vovó era meio-dia. Eu precisava me arrumar em menos de uma hora, então sai em disparada para meu quarto, sem falar nenhuma palavra com Lucia.

Cheguei ao meu quarto e logo me troquei colocando o uniforme; com uma fita azul amarrei meu cabelo, e fui caminhando ao quarto de Laura, abri seu guarda-roupa e lá estava uma velha mochila, a peguei e voltei para meu quarto e guardei um caderno e uma pequena bolsinha nela.Ao sair do quarto uma coisa estava diferente: a boneca de pano estava sobre o meu guarda-roupa, isto me assustou, mas não tinha tempo para reagir...

Já era meio-dia e meia quando fui ao quarto de vovó me despedir. Quando desci as escadas ao primeiro andar observei todo o lugar e sai, olhei para cima e vi toda frente da casa, fixando os olhos na janela do quarto de Lucia. Despertei do meu pensamento e andei mais apressadamente para chegar à escola. Andei somente duas quadras para chegar a frente do lugar, quando subi o primeiro degrau uma mão segurou o meu ombro e eu cambaleei para o lado:

-Oi, meu nome é Paula Rockenbach. Percebi que você está meio perdida, posso te ajudar?

Era apenas uma garota que aparentava ser um pouco mais nova do que eu, não me parecia má pessoa, então continuei conversando com ela:

-Ah... bem oi, sim você poderia me dizer onde é a turma 803?

-Claro! É a minha turma!

Continuamos conversando e andando adentrando à escola, apesar de ter distraído por um momento, nunca me desligava da idéia em que Lucia estava sozinha com a boneca de pano...





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