About Sirius Black escrita por Ster


Capítulo 69
Depois - 1991




MONSTER

1991

POV NINFADORA

– Então, Srta. Tonks... Quem é você? – a entrevistadora sorriu a fazer a pergunta. Normalmente eu tinha todas as respostas na ponta da língua, mas aquela pergunta me pegou de surpresa. Meus olhos percorreram o escritório e pararam na foto de uma garotinha, com um sorriso enorme para a câmera.

Quem sou eu...

– MÃE!

Quem sou eu?

– MÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃE! – eu lembro que eu adorava gritar. Chamava a atenção de todos para mim. Eu também fingia não ter controle sobre minha forma metaformaga, o que me permitia ter o cabelo da cor que eu gostasse. A escada era meu santuário, repleto de bichinhos de pelúcia e bonecas sem cabeças. Eu vivia prendendo a cabeça de Carlinhos na escada.

– Ninfadora, pare de gritar! – meu nome me assombrava. Eu o detestava porque era estranho e cumprido demais. Parecia uma máquina de lavar. Máquinas de lavar me assustavam. Na minha inocência, eu vivia muito bem para uma criança de cinco anos. Eu não tinha noção do que estava acontecendo ao meu redor... Como a guerra.

– Eles fizeram mais alguma coisa? – perguntou vovó Tonks.

– Não... A Lestrange atirou uns feitiços bem ofensivos e Dolohov explodiu o prédio. Houve muitos feridos. Tiveram coragem de matar um garoto, mal tinha quinze anos... – papai tinha seu cabelo escuro como bréu enquanto relatava suas imagens sobre a guerra. Eu tive a sorte de nascer em uma família que lutava contra e não a favor dela.

– Quando eu crescer, vou ser Ministra da Magia! – eu gostava de interrompê-los quando sussurravam coisas sobre o tal de Voldemort. Fazia meu pai sorrir, mas irritava minha mãe. – Vai ser permanentemente proibido crianças serem mortas, todos os mendigos terão uma casa e um trabalho, Voldemort terá que morar em Azkaban e os Weasley receberão uma casa maior.

– Não vejo a hora de você poder comandar, princesinha. – então papai me pegava no colo e eu me sentia a criança mais completa do universo.

– Se tudo pudesse se resolver assim... – lamentava mamãe.

– Por que vocês simplesmente não prendem esse Voldemort? – Eles se entreolhavam e eu com toda a minha ingenuidade, não compreendia que Voldemort era apenas um nome ou um rosto. Mas papai, pacientemente me explicou, e eu entendi. Havia pessoas morrendo, muitas e estava tudo fugindo do controle. O Beco Diagonal cinza que eu conhecia desde que nasci, na verdade não era daquele jeito. E o mundo bruxos era um lugar agradável de se viver, onde as pessoas não se escondiam em suas casas com medo, onde todos os dias milhares de pessoas perdiam seus entes queridos pela guerra.

Aurores frequentavam as festas dos McKinnon, e eu observava aquelas mulheres e homens que expiravam tanto... Poder. Eu os via como se fossem grandes deuses cujo o mundo habitava em suas varinhas. Eu queria seu poder. Eu também queria ser Deus.

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– Ted, peguei Dora tentando bater no garoto dos Nott! – injustiçada, eu me sentia como uma justiceira sendo presa se julgamento. As grades da janela transformavam meu quarto em uma cela completa. Presa sem julgamento, que tipo de mundo vivemos?

– Dora, isso é verdade? – eu constantemente conversava com Deus. Talvez eu falasse sozinha, pois minha mente nunca estava quieta. Mas ele tirava minhas dúvidas constantemente. Quando eu não entendia a conversa dos meus pais, ou não compreendia algo da guerra, lá estava Deus para me esclarecer tudo.

– Mas Nathan é filho do homem que segue Voldemort.

– Ah minha doce Dora. – Deus sorria em sua grande nuvem flutuante. Ele era grande e tinha uma barba tão grande quanto Dumbledore. – Nathan não tem culpa dos erros do pai dele. Então você não pode castiga-lo. Tem que perdoá-lo. Paz e amor, Dora, paz e amor. – Deus fazia o símbolo da paz com os dedos e desaparecia, me deixando cheia de pontos de interrogação.

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Mo cuishle

Era isso que estava escrito na jaqueta de couro que Bigode havia me dado de aniversário. Todas as crianças tem seus heróis quando são pequenas. Normalmente são os pais, ou alguém aparentemente poderoso. Mas o meu era Bigode. Era meu marido, meu namorado, meu inimigo... Ele era tudo em uma única pessoa. O único adulto no universo que me compreendia muito bem. Eu o idolatrava.

Ele tinha cortado o cabelo e feito a barba, sequer tinha sentido continuar a chama-lo de Bigode. Tinha um ar sério e preocupado, havia deixado de ser o mesmo há muito. Após a morte de sua namorada Piper, só vieram desgraças. Metade de seus amigos morreram também, o que fizeram mudanças drásticas no Bigode que eu costumava conhecer.

– Hogwarts está chegando. – sorriu ele agachando-se para ficar do meu tamanho. – Ansiosa?

– Estou com medo, Bigode. – lamentei-me, prestes a chorar. Ele pareceu triste.

– Por que, princesa? Não precisa ter medo, Hogwarts é incrível.

– Mas... Mas em que casa eu vou cair se não me encaixo em nenhuma? – Bigode sorriu enormemente, uma coisa que estava ficando muito rara nele.

– Você é tão ambiciosa quanto uma Sonserina, corajosa como uma Grifinória, inteligente como uma Corvinal e leal como uma Lufa-Lufa... Seja qual for a casa que te receber, será a mais sortuda de toda Hogwarts. – ele enxugou minhas lágrimas carinhosamente. – Me perdoe, mas agora eu realmente preciso ir. Mas juro solenemente que irei te levar para comprar os materiais semana que vem, ok?

– Para onde está indo?

– Meu amigo Pedro está sumido, vou na casa dele ver onde ele está.

– E o bebê Harry?

– Por isso mesmo preciso ir atrás de Pedro, pois caso ele não esteja bem, bebê Harry corre perigo. – Bigode levantou-se e arrumou sua capa, avaliando-me com um sorriso. – E você está ótima com essa fantasia de Dumbledore.

– Obrigada. – sorri.

Era Halloween, 31 de Outubro.

A última vez que eu vi Bigode.

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– Filha, você entende que Sirius foi preso? – eu apenas chorava. Pois nos livros, era claro que quando uma pessoa era mandada para Azkaban, era para morrer. Eu implorava, chorava e fazia todo o possível, mas não era permitido visitas de crianças em Azkaban. Uma auror amiga de papai disse que Sirius queria que eu fosse visita-lo.

Mas como eu poderia fazer tal façanha só com meus poucos dez anos de idade?

Briguei com Deus, o xinguei e mandei que fosse embora para que nunca mais voltasse. Eu me sentia abandonada. Por que Sirius fez seja o que for e foi preso? Por que me abandonou? Por que jurou solenemente que voltaria, mas nunca voltou? O mundo parecia estar desabando em cima de minha cabeça. As dúvidas não podiam ser respondidas nem por Deus.

Sorria, pequena Ninfadora... Sorria.

Voldemort caiu.

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– Ei, Mandy. – eu lembro de levar discos escondidos para Hogwarts. Agora eu tinha uma nova jaqueta de couro, mas eu bordei o Mo Cuishle nas costas, mesmo ainda não sabendo seu significado. E se me consideravam rebelde aos cinco anos, mal podiam me ver aos quinze. Eu era a única menina que usava botas de exército no lugar das delicadas sapatilhas habituais. A jaqueta de couro era indispensável, os piercings faziam parte de mim. O próximo passo eram as tatuagens.

Eu vivia uma adolescência complicada, cheia de altos e baixos. Grandes guerras particulares e problemas que pareciam o mundo ser pequeno. Primeiramente, ser apaixonada por Gui Weasley, que sempre me viu como a irmãzinha mais nova e indefesa. E a eterna sensação de estar sempre algo faltando em mim era constante.

– Radiohead? Radiohead é pra bichinhas. – sussurrei na aula de Transfiguração. – Bom mesmo é Iron Maiden. Isso é som de macho!

– Senhorita Tonks! – chamava professora McGonagall. Minha casa era no escritório da professora Pomona, chefe da casa Lufa-Lufa. Todos mês eu levava uma detenção por estar no lugar errado fazendo coisas erradas. Erradas no conceito deles, claro. Eu gostava de ficar na sala de troféus e observar o time da Grifinória em 1977. O lindo garoto voando ao lado do capitão sorria para a câmera. Ele parecia o dono do mundo. Todos naquele time pareciam imortais... E todos estavam mortos.

Eu tinha medo de parecer imortal.

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Há um pedaço em minha mente, que sempre está em branco.

É como se a linha do tempo tivesse pulado toda aquela fase, a deixando vazia. Por anos eu procurei vestígios e pequenas coisas que pudessem me levar de volta a essa época, mas não havia nada lá. Nada o que ver. Apenas memórias distorcidas e brancos sem explicações.

– Eu sei qual é a resolução disso. – Carlinhos tinha o maior sorriso que eu já vi. – Você é louca.

– Idiota!

– Nada aconteceu, Dora, eu me lembro da sua infância: Você era insuportável. Espera, eu disse era? – O Weasley gargalhava. Eu amava Carlinhos incondicionalmente. Não mais do que eu amava Gui, mas ele nos deixou. E agora, ele também estava me deixando. – Olha, se isso te incomoda tanto, você devia perguntar pra sua mãe novamente.

– Ela muda de assunto. Com certeza ela sabe de algo. Ah, sabe o que eu descobri? Vou trabalhar perto das pessoas que eram próximos dos Potter. – Carlinhos arregalou seus olhos castanhos.

– Impossível!

– Juro! – cruzei os dedos e beijei. – Vamos juntas todas as peças do caso Potter agora. Seria mais divertido se Guilherme não tivesse...

– Ele volta hoje. – Carlinhos enfiou as mãos no bolso e disse aquilo como se fosse a coisa mais simples do mundo. Dei um grito de indignação no meio da rua, assustando os pedestres.

– E você só me fala isso hoje, cabeça de cenoura! – gritei, indignada.

– Por que tanta empolgação? É só Guilherme! – retrucou Carlinhos, irritado. Girei os olhos, colocando as mãos no bolso também. Gui era o que ficaria mais feliz com a finalização no caso Potter. Quando estávamos em Hogwarts, nós três vivíamos falando sobre histórias macabras e mórbidas, chamávamos as chacinas dos Comensais de “casos”, meu preferido de todos era o da família Bones, onde Bellatrix quebrou os membros do filho mais velho de Edgar Bones, torturou e depois executou. Mas para Carlinhos, nada supera os McKinnon, onde a mais velha dos irmãos foi estuprada, torturada e morta. Mas Gui é apaixonado pelos Potter. Carlinhos e eu não gostamos muito pois não há nada de mórbido nele, mas Gui adorava inventar teorias e motivos para tudo ter acontecido. Adoramos fazer uma psicanálise nos psicopatas que vagavam pelo mundo bruxo quando mal sabíamos andar.

E após saber que meu Auror seria ninguém menos que Alastor Olho-Tonto Moody, todos esses casos seriam detalhadamente contados e eu mal podia esperar para poder ver isso de perto. Em seu escritório, ele tinha vários recortes do Profeta Diário. Minhas mãos tremiam quando eu achei o de Sirius.

Descreviam um homem que eu não conhecia. Uma pessoa que seria incapaz de fazer tudo que o acusavam. E minha mente se dividia em dois, indecisa em que acreditar. No meu herói, ou no vilão para o mundo.

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BLUE MORGAN - MILLION DOLAR BABY

– Senhorita Tonks? – despertei dos meu devaneios, notando a mulher a minha frente. Eu ainda não fazia ideia de quem eu era.

– Desculpe... Eu não faço ideia. – ela ergueu as sobrancelhas. – Eu sei que isso é suicídio em um processo seletivos, mas... Eu não sei. Nasci na explosão da guerra... E eu mal era uma sementinha e já era odiada e desejada morta. Eu vi meus pais lutarem na guerra e temerem serem mortos, se perguntando quem cuidaria de sua filha hiperativa. Eu tive um herói, que na verdade é um vilão. Sobrevivi a uma guerra, mas uma paixão clichê quase me matou. Sou bem difícil de ser esquecida. Mas quase impossível de ser lembrada... – acabei sorrindo. – Black Tonks. Por mais que o segundo sobrenome não se encaixe em mim.

Anos mais tarde, eu descobri que Mo Cuishle significa “Minha querida, meu sangue”. Minha mãe um dia me disse que se Sirius tivesse um filho, ele jamais sobreviveria. Mas eu sobrevivi. Talvez minhas dúvidas na adolescência tivessem sido diminuídas se ele ainda estivesse ali para responde-las. Talvez o sol fosse brilhar mais... Não sei. Mas durante o treinamento para Aurores, nós conhecemos o local onde iremos mandar boa parte das pessoas que combatermos. E cada passo naquele corredor gélido e escuro faziam meu estômago embrulhar.

E quando finalmente passamos no corredor mais “perigoso” de toda Azkaban, a sombra de um homem olhando para a parede dentro de uma cela conseguiu me quebrar em pedaços. Foi como se todos os sorrisos, todos os abraços, cada fragmento do heróis que eu conhecia tivessem derretido lentamente em meus olhos. Fechei os olhos com força e continuei caminhando com todo o time.

Minha querida... Meu sangue. – o sopro de voz me rondou. E mesmo aterrorizada pela presença dos Dementadores, não me atrevi a olhar para trás. Aquilo era uma sentença, eu estava enterrando meu herói...

E enxergando meu vilão.



Notas finais do capítulo

Eu tive que usar um trecho de Moustache porque ele pertencia aqui originalmente hahahahahahaha

Andei olhando as estatisticas da fanfic... O capítulo mais acessado é o da morte da Marlene, as pessoas simplesmente adivinham hahahahaha

Sempre que eu escrevo sobre Ninfadora/Bigode eu vejo trechos do filme Million Dolar Baby, do Clint Eastwood, não tem nada a ver com os dois a não ser o amor do Boss pela Maggie. Ele é durão, não é de demonstrar sentimentos, só que a Maggie é simplesmente maravilhosa, não tem como não se apaixonar. E no fim de tudo, quando ele finalmente aceita Maggie, começa a gostar dela, amá-la como uma filha... Ela morre. Dei um puta spoiler, mas ainda vale muito a pena ver.

E é um amor tão bonito que eu quero que seja a mesma coisa pra Bigode/Dora. Quando o Sirius foi preso, ela não fazia ideia do porque. Mas eu deixei uns furos que eu mesma não sabia como preencher sem estragar tudo: Os Tonks em geral nunca acreditaram que o Sirius era o espião, consequentemente a Dora também não, mas quando ela vê o Sirius em Azkaban, ela percebe que talvez ela esteja presa em uma mentira.

De qualquer forma, é isso.

Próximo capítulo é do Snape, vamos ver se eu consigo hahahaha

MUAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH