Perfectly Wrong escrita por Juliiet, Nana


Capítulo 17
Não sou seu amigo


Notas iniciais do capítulo

Ok, desculpem-me pela demora. Tenho muita coisa pra dizer aqui, então peço que leiam, por favor!
Primeiro, eu já agradeci a Isa Cipriano pela recomendação que ela fez? Se não, foi linda, baby, adorei *.* Muito obrigada!
Outra coisa, vocês sabem que a Nana é o segundo cérebro em tudo isso aqui, certo? Ela não escreve com suas próprias palavras e tals, mas várias ideias das coisas que acontecem na historia são totalmente obra dela, então PW é de nós duas. Maaaaaaaas...infelizmente, esses dias ela não pode me ajudar, então esse, o bônus, o cap passado e alguns próximos estão saindo sem ajuda dela, porque ela está muito mal...na Inglaterra. Hhuasheuahse nossa, muito mal mesmo *cof cof*. Enfim, enquanto a Nana curte a vida na Inglaterra (nem tanto, ela está lá - teoricamente - pra estudar, então...), vamos nos virar sem ela. Mas quando ela voltar, espero que tenha a cabecinha cheia de ideias pra PW - ou eu vou mandar ela de volta pelo correio.
Bom, era isso, espero que gostem do capítulo. Não é meu preferido, mas sei que algumas pessoas (leia-se: Madu) vão gostar do final :)



Enquanto eu limpava o que podia do tapete destruído – com luvas e máscara cirúrgica – e enrolava-o para mandar à lavanderia no dia seguinte, ponderei sobre meu triste destino.

Ok, não era tão triste quando você pensava que existiam pessoas no mundo que desconheciam a importância do álcool em gel. Mas mesmo assim era bem triste.

Eu podia estar tendo uma noite maravilhosa. Eu podia estar rolando pelo chão – antes de ele ter sido vomitado – com meu namorado, tendo horas de sexo extraordinário e selvagem. Não que James fosse exatamente selvagem – mas era extraordinário.

Mas não. Eu estava ajoelhada no chão – e nem era pra fazer nada sexual, e sim para limpar o vômito do meu colega de trabalho e do cara com quem, infelizmente, eu morava. Limpar. Vômito.

Quando estavam distribuindo desgraça, eu devo ter entrado duas vezes na fila.

Coloquei o material contaminado em um saco plástico grande e o amarrei bem, apenas para colocá-lo em mais dois sacos. Tudo para ficar o mais longe possível do alcance daquele cheiro horrível. Joguei minhas luvas no lixo e, aproveitei que estava só de toalha e fui tomar outro banho. Eu sabia que estava limpa, e sabia que a sala estava limpa – eu tinha passado a última meia hora esfregando o chão – mas eu ainda sentia um cheiro de vômito imaginário, então fui, infeliz, gastar mais um terço do meu shampoo de pera e do meu óleo corporal de flor de cerejeira.

Não demorei muito e, quando saí, coloquei um short e uma camisa grande o suficiente para cobri-lo, com a estampa do Tom, de Tom e Jerry, e velha o bastante para já ter ido para o lixo. Penteei meu cabelo com os dedos, já que ele quase não fazia nós depois que eu o cortara e abri a porta para ir para a sala, mas dei de cara com um JJ com o punho levantado, prestes a bater.

– Ahn – ele começou, parecendo miserável. Ficar sóbrio em um instante faz isso com você. – O Lockwood já está dormindo, então eu acho que já vou...

Depois que James foi embora, JJ me ajudou a carregar um Asher muito bêbado e muito sortudo por estar bêbado. Se ele estivesse sóbrio, estaria a caminho da sala de cirurgia – com um martelo enfiado no cérebro. Enfim, eu o deixei sozinho para colocar meu colega de apartamento na cama depois que o desgraçado fez outra de suas insinuações.

– O idiota está bem? – me obriguei a perguntar.

JJ passou os dedos pelos cabelos e apertou um pouquinho os olhos, que estavam avermelhados.

– Ele vomitou um pouco mais – falou.

Gemi.

Oh não.

JJ percebeu meu drama e se apressou em me acalmar.

– Não se preocupe – falou –, eu limpei tudo enquanto você estava no banho.

Eu teria que inspecionar essa limpeza depois, mas... que diabos? Eu não teria que inspecionar merda nenhuma! Era o quarto daquele demente, se ele quisesse decorar com bosta de elefante, o problema era dele. Contanto que o cheiro não atingisse outras partes do lugar, eu não me importava com o que acontecia naquele quarto nojento.

Não muito.

Quer dizer, sempre existiam emergências. E se um dia eu precisasse dormir no quarto dele de novo?

Oh Deus, eu não podia acreditar que tinha acabado de pensar aquilo.

Mas... tinha acontecido uma vez... e não dava para prever as desgraças que podiam acontecer comigo, desde que eu perdi a última gota de sorte que tinha no corpo. E se um cano estourasse no banheiro e alagasse meu quarto? Ele era do lado do banheiro, ia ser a destruição máxima. Aí eu poderia precisar dormir no quarto do Asher... então era melhor que estivesse limpo...

Oh, quem eu estava enganando? Eu iria inspecionar aquela limpeza e me certificar de que não havia sobrado nem uma gotinha dos resíduos estomacais daquele babaca pela casa.

– Bom, eu já vou – repetiu JJ, balançando a mão na frente dos meus olhos, tirando-me dos pensamentos que me distraíam.

Suspirei. Sim, eu estava puta com aquele amigo maldito e ele iria escutar muito no trabalho na próxima terça, mas ele ainda estava com álcool no sangue e eu não o deixaria sair dirigindo pelas ruas de Nova York apenas para bater no caminhão do lixo e morrer.

– JJ, não posso deixar você ir – falei, abraçando-me quando uma corrente de ar gelada balançou as cortinas. – Está ridiculamente tarde e você ainda está meio bêbado.

Ele sorriu, balançando a cabeça.

– Não se preocupe, eu não vou dirigir. Er...hum...

– O quê?

– Eu talvez tenha ligado para o Ryan mais cedo – admitiu com um gemido de frustração. – Ele ficou preocupado e agora está vindo me pegar.

– Oh JJ – falei, sentindo pena pelo meu amigo e puxando-o para um abraço, mesmo que ele não merecesse.

Ryan Montgomery era basicamente o maior atraso na vida do meu amigo. Não que o cara fosse um cretino ou algo assim, bem o contrário. Ele era bonito, sexy, simpático e gentil. Eu já o havia encontrado algumas vezes nas festas de abertura da galeria e ele pareceu ser um cara legal. O único problema era que JJ era apaixonado por ele desde o ensino médio, que eles cursaram na mesma escola.

O único problema era que o cara era hetero. E tinha uma noiva. E via o meu pobre JJ como um irmão. JJ costumava evitá-lo na maior parte das vezes, porque sempre ficava mal depois que o via, mas os dois eram meio que “família”. Seus pais eram amigos e eles, além de terem estudado juntos, cresceram na mesma rua ou algo assim. Não era a toa que Ryan via JJ como um irmão – eles meio que foram criados assim.

– Da próxima vez que beber, jogue seu celular na privada – recomentei, antes que ele fosse.

– Vou lembrar disso – falou e foi embora.

Depois que a porta bateu, eu ainda fiquei encostada na minha soleira, olhando para o sofá da sala e, mais adiante, a porta fechada do quarto de Asher.

E embora eu estivesse cansada, irritada, confusa, triste e chateada, algo me fez sorrir. Algo na visão daquela porta fechada, com aquela sala no meio. Algo no fato de saber que o meu maldito, desgraçado, bandido, safado, sem escrúpulos e, a partir da manhã seguinte, futuro ocupante de uma câmara mortuária, colega de quarto estava lá dentro, dormindo e provavelmente cheirando pior que a axila cabeluda do pedreiro que estava trabalhando na padaria da esquina no meio do verão passado, fazia algo dentro de mim respirar fundo depois de muito tempo sem ar. Sei lá, talvez eu só estivesse acostumada a saber que Asher estava no quarto ao lado.

E eu sorri por ele estar lá novamente.

...

– Ai! Já pedi desculpas, por favor, para!

Sorri maquiavelicamente e comecei mais uma série de batidas com a colher de pau na panela.

– Vamos repassar as regras só mais uma vez – falei, batendo com a colher na panela a cada palavra dita e ficando satisfeita ao ver Asher estremecer a cada vez que o som aumentava sua dor de cabeça. – Da próxima vez que você me prometer algo?

– Vou cumprir – respondeu, apertando os olhos e com as mãos nos ouvidos.

– Da próxima vez que meu namorado estiver aqui?

– Vou dar uma de Harry Potter e fingir que não existo.

– Da próxima vez que pensar em me obrigar a usar um biquíni dourado?

– Bater na minha cabeça com um martelo.

Sorri, só faltava uma coisa.

– E quando pensar em me pedir para lavar suas roupas? – perguntei, batendo a panela agora bem próxima ao seu ouvido, fazendo-o gemer de dor.

– Fazer um favor a sociedade e meter uma bala no meio da testa.

Fui até a cozinha e guardei a colher de pau e a panela enquanto Asher continuava encolhido de dor no sofá.

– Muito bem – falei alegremente.

– Satisfeita? – ele grunhiu, abrindo apenas um dos olhos para me fitar, já que a claridade machucava seus olhos.

Fiz questão de abrir todas as cortinas antes que ele acordasse.

– Muito – respondi. – Você pode vir tomar seu café agora.

Asher se levantou meio cambaleante e veio até o balcão, onde havia uma xícara de café fumegante esperando por ele, que se sentou no balcão e me encarou com raiva, dessa vez com os dois olhos, ainda que estivessem apertados e meio escondidos por seu cabelo revolto.

– Você é realmente um monstrinho perverso – murmurou, enquanto tomava grandes goles do seu café.

– Melhor que ser um otário com ressaca – retruquei, tirando os pratos limpos do lava louças e secando-os antes de guardá-los no armário.

Ele suspirou e se virou, apoiando as costas no balcão.

– A garota tem um ponto.

Revirei os olhos e sequei minhas mãos depois de terminar, depois fui saindo da cozinha, mas parei antes de chegar ao meu quarto e me virei.

Asher estava de olhos fechados, uma expressão de prazer no rosto enquanto tomava o café. Estava, como sempre ao acordar, com uma calça larga, sem camisa e descalço. Sua pele era pálida como se ele nunca tivesse visto a luz do sol, seu cabelo estava uma bagunça e círculos escuros embaixo dos seus olhos lhe davam uma aparência de zumbi doente. Seu corpo não era musculoso como o de James ou mesmo o de JJ e Mitch. Ele era esguio – mas não magrelo – o suficiente para eu ter quase certeza de que suas calças não ficariam muito folgadas em mim. Mas apesar de não ser alto e forte como meu namorado, Asher era muito masculino. Em cada movimento, em cada olhar, em cada pedacinho do seu corpo, ele era um homem bonito, desejável.

E eu não tinha nenhum ponto além desse. Asher era lindo. E eu sabia disso. E detestava saber.

– Por quê? – perguntei, de repente, fazendo-o abrir os olhos e me fitar, ainda parecendo como se tivesse levado uma surra.

– O quê? – seu olhar era confuso.

Eu realmente queria saber?

– Por que você fez toda aquela cena aqui ontem, Asher? Por que não fez o que prometeu? Por que... – minha voz foi ficando menor – ...por que não ficou longe?

Ele ficou calado por um momento, mas sério. Terminou de tomar seu café e deixou a caneca suja em cima do balcão, como sempre. O homem era incapaz de colocar qualquer coisa na lava louças. Levantou-se e sua calça escorregou um pouco, mostrando o osso saliente do seu quadril e a barra da sua cueca boxer preta. Meu olhar desceu por seu corpo magro e dividido, prendendo-se naquele maldito osso do seu quadril.

Por que diabos aquele osso era atraente?

Asher pigarreou e eu voltei meu olhar para seu rosto, sentindo o sangue se acumular nas minhas bochechas, esperando alguma piadinha a respeito de eu estar secando seu corpo, mas ele não disse nada disso. Apenas, ainda sério, respondeu minha pergunta:

– Porque eu quis – deu de ombros e foi arrastando os pés para o banheiro.

...

Estava sentada na minha cama, com as pernas cruzadas e Nero enroscado em cima delas. O gato meio que tinha desaparecido no final de semana, provavelmente se engraçado com as gatas da vizinhança. Era tão safado quanto seu dono. Eu sabia que provavelmente a presença de um estranho na casa o havia perturbado. O maldito animal era sensível a estranhos e um dos motivos para Asher ter me aceitado ali, meses atrás, foi porque eu não planejava me mudar em pelo menos um ano. E o gato precisava de constância ou algo assim.

Agora Nero estava de volta. E me seguindo pela casa como se para me punir por ter trazido um estranho para dentro. Já havia quase me feito tropeçar um monte de vezes. O capeta provavelmente só ficaria satisfeito quando eu torcesse o tornozelo.

Eu já o havia empurrado duas vezes do meu colo, mas ele voltava na maior cara de pau e ainda ficava balançando aquela cauda peluda na frente do meu nariz, fazendo-me espirrar. Decidi que não adiantava tentar me livrar dele, a não ser que eu estivesse disposta a atirá-lo pela janela. O que eu até estaria, se não soubesse que o seguiria logo em seguida, quando seu dono descobrisse minha maldade e me jogasse ele mesmo pela janela.

Bufei, irritada, e comecei a acariciar o pelo macio de Nero, sem nem saber por que. Eu detestava aquele gato. Minha outra mão segurava o celular, na tela o número de James parecia me desafiar a ligar para ele. Era o que eu tinha em mente fazer, mas hesitava.

Eu não queria falar com meu namorado. Não queria ouvir sua voz. Não queria me obrigar a ter uma conversa com ele, falar sobre mil coisas, sem dizer absolutamente nada do que realmente se passava por minha mente.

Era...cansativo.

Mas era o que eu precisava fazer.

Cansei de ser covarde e liguei, rezando para que Nero ficasse quieto durante a ligação para eu não ter que recorrer novamente à desculpa do filme pornô meio estranho. A última coisa que eu queria mencionar durante essa conversa era sexo. Ou minha vida sexual.

Ou sua patética não existência.

As pessoas gastam tanto tempo falando de homens e suas necessidades que esquecem que mulheres saudáveis de 23 anos também ficam indóceis depois de muito tempo sem sexo. E eu estava num ponto tão crítico que nem conseguia lembrar a última vez que tinha tido um bom...

– Max? – a voz hesitante de James me tirou de minhas divagações, o que era ótimo. Eu não queria divagar. Não por aquele caminho.

– James – só isso. Só o nome dele. Eu nem sabia o que diria para ele. Nem sabia o que queria dizer. Para que havia ligado mesmo?

– Max – só isso. Só meu nome. E de repente, estávamos na mesma página, como acontecia quando éramos adolescentes. Quando subitamente líamos os pensamentos um do outro, como se estivéssemos sempre sintonizados.

Sorri, não conseguia lembrar da última vez que aquilo havia acontecido. Ouvi a leve risada dele do outro lado da linha e ri também. Aquilo acontecia tão raramente nos últimos anos que eu havia esquecido como éramos bons juntos. Como sempre tínhamos sido certos um para o outro.

– Não precisa dizer nada – ele disse, a voz mais leve, não hesitante como quando atendeu ao telefone. – Eu sei. E eu me sinto do mesmo jeito.

Suspirei e continuei acariciando Nero.

– Mesmo assim quero dizer – insisti. – Me desculpe, eu não deveria ter te expulsado daquele jeito.

Depois de uma pausa mínima, ouvi sua respiração um pouco mais forte e sua voz, clara e honesta, como se ele estivesse ali ao meu lado:

– Se você vai dizer, eu também vou. Me desculpe por ser um babaca sobre a sua tatuagem. É claro que você é dona de si e pode fazer o que quiser, mas às vezes... – ele hesitou.

– Às vezes... – incentivei-o.

A pausa não foi mínima dessa vez, e eu quase senti James colocando todos os seus pensamentos em ordem, como ele costumava fazer. Sempre editando o que iria me dizer, com medo de dizer a coisa errada.

– Às vezes eu sinto que você está me deixando de fora, Max. Às vezes eu sinto que não sei mais nada da sua vida, que não sei mais nada sobre você. Você não é mais a Max que eu conheci na escola...

Nero se remexeu no meu colo, se levantou e olhou para mim como se realmente estivesse me vendo. Seus olhos amarelados pareciam quase me acusar, insinuar que tudo o que eu estava pensando era verdade. Gemi e me deitei de costas na cama, ouvindo o gato pular da cama e ir para a janela. Era só minha paranoia e minha consciência pesada. Eu devia estar realmente mal para ver acusação nos olhos de um gato.

Porque era verdade. James nunca havia sido um namorado ruim. Nunca. Eu era a errada. Eu sempre fui. Eu fui embora e fiz uma vida longe dele, eu fiz todas as merdas que quis fazer – e aquelas que não tive intenção também –, eu me machuquei e ele cuidou de mim. Ele sempre esteve lá, mesmo no momento em que deveria ser a última pessoa a me apoiar, a limpar as lágrimas dos meus olhos e me assegurar de que tudo ficaria bem.

Mas ele fez isso mesmo assim.

E, enquanto eu o afastava lentamente da minha vida, ele sonhava com um futuro comigo.

O quão ferrada eu podia ser? Como alguém pode ser cruel sem notar? Mas isso não era desculpa, eu sabia que não era.

– James, eu te amo – falei, não percebendo que minha voz estava embargada. Eu não estava chorando, mas faltava pouco. – Me desculpa.

Uma pausa tão longa que eu achei que ele tinha desligado.

– Eu te amo, pequena – ele falou.

– Eu não sou pequena – ri.

– Perto de mim, é sim.

Depois disso conseguimos conversar quase normalmente. E não foi ruim. Não totalmente. James era engraçado e gentil, e eu conseguia me divertir com ele, mas... eu nem sabia o que dizer depois desse “mas”. Só sabia que havia um “mas”.

– Você já voltou para a faculdade? – perguntei, depois de terminarmos o tópico sobre se seria sábio chamarmos o pai dele para o Natal. Os pais de James eram separados e os dois se odiavam apaixonadamente. Sempre que ficavam juntos por mais de vinte minutos em qualquer lugar, o risco de uma terceira guerra mundial era iminente.

– Voltei – respondeu, a voz neutra. – Consegui mudar meu voo para um ontem à noite mesmo.

Fiquei calada por um tempo, sentindo-me culpada por tê-lo obrigado a fazer aquilo.

– James? – chamei, finalmente.

– O quê?

– Feliz aniversário de namoro – desejei.

Ele riu e disse que gostaria de estar comigo.

Eu não disse nada. Eu o amava mais quando ele estava longe.

...

Depois de passar mais de uma hora com James no telefone, tomei um banho, vesti meu moletom mais confortável e a camisa Max’s Kansas City – recém saída da secadora. Ignorei todas as ligações e mensagens de Erin, Mitch, JJ e até, surpreendentemente, Cherry. Aparentemente, todos queriam saber como eu estava. JJ deve ter dado com a língua nos dentes, aquele desgraçado. Por um momento, desejei que Ryan se mudasse com a noiva para o prédio dele, mas depois percebi que estava sendo muito malvada e parei.

No final, acabei mandando uma mensagem para todos dizendo que queria ser deixada em paz e que todos podiam voltar a pegar no meu pé no dia seguinte, menos Cherry – eu só trabalhava para ela de terça a sábado, então ela que não viesse com uma das suas na segunda feira.

Depois disso, trabalhei um pouco em uns documentos sobre a exposição de Christopher Hawk. Quando acabei, peguei meu exemplar quase destruído de The Mysteries of Udolpho, de Ann Radcliffe e tentei ler. Não deu muito certo, minha cabeça não estava quieta o suficiente para literatura. E eu simplesmente não podia sair do quarto para ver TV na sala, nem ficar observando os vizinhos pela janela. Nunca fiquei tão irritada pela janela do meu quarto não dar para o prédio da frente como naquele momento.

O ponto era que Asher estava em casa. Mesmo enquanto conversava com James, enquanto encarava Nero até ele sair dignamente pela minha janela até a escada de incêndio, enquanto trabalhava e enquanto tentava inutilmente colocar minha mente no livro que tentava ler, eu podia ouvi-lo do outro lado da parede que nos separava. Ouvi quando ele esquentou alguma coisa no micro-ondas, ouvi quando ele riu de alguma sitcom idiota na TV e até ouvi quando ficou bem quietinho para ver Alienígenas do Passado – eu já até reconhecia a musiquinha daquele programa estúpido.

Talvez fosse a ressaca, mas Asher raramente passava os finais de semana em casa, pelo menos não sozinho. E não, não era a minha companhia que eu estava me referindo. E eu não queria vê-lo, então não saí do quarto nem para comer, acabei almoçando umas barras de cereal com gosto de areia que havia guardado na gaveta do meu criado mudo, para emergências.

Estava tão mal que não resisti e liguei meu notebook, passando a hora seguinte me divertindo com meu mais secreto e vergonhoso vício, um do qual apenas Erin tinha conhecimento e até ela descobriu por acaso, quando me pegou no flagra quando quase entrei em depressão no último ano da faculdade.

Mas eu não tinha culpa! Eles eram fofos demais e, quando eu começava, não conseguia parar! Era mais forte do que eu! Sim, era ridículo e eu tinha vergonha de mim mesma, mas continuava mesmo assim.

Vendo vídeos de bebês pandas no youtube.

E o triste era que, quando eu chegava a esse ponto, era porque a coisa estava indo mal de verdade.

Então depois de entorpecer minha tristeza desconhecida com milhares de vídeos de bebês pandas comendo, brincando em escorregadores, brigando uns com os outros, dançando e fazendo um milhão de coisas fofas, eu não podia mais ignorar minha barriga que roncava e tive que sair do quarto.

Asher estava jogado de qualquer jeito no sofá, assistindo Ben-Hur – pela milésima vez. Acho que era o único filme que havia sido filmado há mais tempo do que ele tinha de vida que o cara gostava. Ele havia tomado banho e trocado a calça por outra quase igual. Continuava sem camisa, mesmo com o frio que se esgueirava pelas janelas escancaradas. Ele tirou os olhos da TV apenas por uns segundos para me olhar, depois voltou a prestar atenção no filme.

Arrastei-me até a cozinha e fiz um sanduíche com pão de forma e queijo. Cortei as bordas lenta e cuidadosamente, depois enchi um copo com Coca-Cola. Quando me sentei no balcão e levei meu sanduíche à boca, senti uma presença atrás de mim. Asher passou o braço pela lateral do meu corpo e pegou as bordas do pão que eu havia descartado.

Virei-me para olhá-lo enquanto ele enfiava as bordas do pão na boca e se sentava ao meu lado, balançando os pés. Ele pegou minha Coca-Cola despreocupadamente e tomou metade de uma vez.

Ignorei-o e voltei a me concentrar em comer meu sanduíche. Voltei meus olhos para Ben-Hur e tentei fingir que Asher Lockwood não existia...

... o que seria difícil em qualquer dia, mas impossível quando o próprio queria ser notado.

Sem cerimônia nenhuma, arrancou o sanduíche das minhas mãos e mordeu mais da metade de uma só vez, olhando-me inocentemente com aqueles olhos cinzentos. Ou pelo menos, o mais inocentemente que aqueles olhos eram capazes.

Respirei fundo, determinada a continuar ignorando aquele cara irritante. Pulei do balcão e comecei a fazer outro sanduíche, mas Asher me seguiu e começou a arrancar os ingredientes das minhas mãos – as fatias nuas de pão, os pedaços de queijo que eu cortava – e a enfiar tudo na boca, até que eu perdi a paciência.

– O que diabos você quer?! – quase gritei, virando-me para ele e colocando as duas mãos na cintura.

Ele estava perto o suficiente para eu contar os farelos de pão que haviam escapado dos seus lábios. Ele parecia patético com a boca cheia de comida e os lábios sujos com farelo de pão, então eu estiquei minha mão e limpei os ditos lábios – mas apenas porque, se eu continuasse encarando-o daquele jeito, iria começar a rir. E eu não queria rir na frente dele.

Depois de engolir a maior parte do que tinha na boca, Asher respondeu:

– Queria que você falasse comigo, mas se quiser me tocar em vez disso, não tenho do que reclamar.

– Você é um idiota – falei, arqueando uma sobrancelha.

– Eu sei – ele respondeu, me surpreendendo. – Me desculpe.

E eu não podia explicar o que aconteceu. Talvez tenha sido a fome que eu estava sentindo, ou o fato de eu ter passado a última hora amolecendo meu coração com bebês pandas, ou a culpa que eu sentia com a forma que tinha tratado James, ou a saudade que eu tinha dos meus pais, ou o fato de eu me sentir atraída por um cara que eu não podia ter, que era totalmente errado para mim em todos os jeitos.

Eu comecei a chorar.

E não aquele choro bonitinho, em que as lágrimas simplesmente escorrem dos olhos como se não tivessem nada melhor para fazer. Eu simplesmente abri o berreiro, do jeito que as crianças que querem que os pais comprem a nova Barbie Malibu fazem.

Asher me olhou estupefato por um momento, enquanto eu derrubava a faca que tinha na mão e começava a me enrolar em mim mesma, segurando meu corpo com medo de que eu fosse desmontar. Eu nem sabia porque estava chorando.

Estava doendo e eu nem sabia que tinha me machucado.

E de repente, as mãos de Asher estavam sobre mim, tirando-me do chão com alguma dificuldade e me puxando para aquele corpo quente e agradável. De algum modo, ele conseguiu me carregar e cambalear comigo até o meu quarto – eu não era exatamente leve e ele não era o sr. Músculos – sem me derrubar. Gentilmente, me colocou na cama e se deitou ao meu lado, abraçando-me tão perto de si que eu sentia todo o seu corpo grudado ao meu.

– Desculpe – ele repetia, os lábios em meu cabelo. – Desculpe.

E isso só me fazia chorar mais.

Não sei quanto tempo durou aquele momento em que perdi totalmente a compostura. Mas quando finalmente tomei consciência do que estava fazendo e de quem estava me consolando, tentei me livrar daqueles braços e daquela presença. Empurrei-o levemente, mas Asher apertou ainda mais seus braços ao meu redor.

– Ei, tudo bem – falei, tentando manter o tom leve, embora minha voz soasse anasalada pelo choro. – Pode me soltar agora.

Quando ele não se moveu um milímetro nem falou nada, eu tentei novamente.

– Obrigada por isso. Mas eu realmente estou bem agora. Eu só precisava de um amigo e...

Isso fez com que ele tivesse uma reação. Se afastou o suficiente para poder olhar meu rosto – que devia estar uma desgraça – embora suas mãos ainda estivessem bem pressionadas contra minhas costas.

– Você não precisa de um amigo – ele disse, a expressão tão intensa que eu não conseguia entendê-la. Havia raiva, remorso, dor. E mais raiva. – Você precisa de mim. E eu não sou seu amigo.



Notas finais do capítulo

Heeeeeeeey, já comecei a responder aos reviewwws! Sim, eu demoro, mas estou respondendo, então sejam legais, mandem mais e não me processem. Btw, o outro bônus já está em processo de criação - não vai ser legal quanto o passado, mas as pessoas que mandaram reviews merecem um presente só pra elas :3
Obrigada pela atenção e vou tentar não demorar tanto.
Ah, qualquer erro, me avisem, por favor :)
Beijooos :**