Nemela escrita por Metan


Capítulo 4
"Duovahkiin"


Notas iniciais do capítulo

Acabei atrasando um pouco no capítulo. Planejava entregá-lo na sexta, mas alguns trabalhos e listas de exercício precisavam ser terminados. Felizmente, consegui intercalá-los a tempo, e aqui segue mais um capítulo da história de Nemela, a Nascida do Dragão! :D



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Olhou para trás mais uma vez para se certificar se ainda estavam lá, parados, olhando para a ex-companheira, mas eles já tinham ido embora. Abaixou o olhar, suspirou e voltou a andar em direção a estrada. Eu passei um tempo considerável com eles, pegou-se pensando. Devemos as nossas vidas uns aos outros, mas agora é hora de partir. Lembrou-se da despedida como se fosse ontem, mas na verdade tinha acabado de acontecer.

– Cuide-se – disse Ralof -, e não seja pega pelos Imperials. Se bem que eles nem devem saber quem você é. – Não sabia se devia se sentir azucrinada ou agradecida. – Confirme a notícia da maneira que for possível, desde que o Jarl acredite em suas palavras. Se conseguir algum trabalho em Whiterun, pode ser que consiga se equipar – adicionou.

– A ferreira de lá sempre foi generosa, apesar de ríspida, mas acho que isso faz parte do sangue – comentou Ulfric. – Daríamos nós mesmos equipamentos para você mas, como pode ver, não temos nem para nós, a não ser o machado de orc.

– Não se preocupem quanto a isto. Serei aprendiz da ferreira e, quem sabe, eu forje equipamentos para vocês – e deu um pequeno sorriso que foi retribuído. – Então, até mais.

– Adeus.

Acenaram com a cabeça e seguiram os seus próprios caminhos: Ulfric e Ralof atravessaram a ponte a oeste daonde se separaram, enquanto Nemela seguiu a leste. Estava na frente do que parecia ser uma produtora de bebidas quando voltou a andar. Confirme a noticia da maneira que for possível, lembrou, desde que o Jarl acredite em suas palavras. As palavras ecoaram em sua mente. Cumpra o seu dever. Nemela sempre foi ensinada a cumprir o seu dever, sem se importar com as circunstâncias. Desde sempre, fazia o que era necessário para sobreviver: barganhava o preço de algumas sementes e utensílios para arar a terra e, quando o dinheiro na sua bolsa não comportava os preços oferecidos, roubava. Só foi pega algumas vezes, quando criança, e ainda assim conseguia escapar com as palavras ou na força. Hoje em dia, ninguém reconheceria aquela mulher com cabelos dourados, soltos até abaixo dos ombros e roupas de donzela.

Mas o guarda mais à frente não pareceu se importar com o seu visual.

– Perdão, senhora, mas os portões de Whiterun estão fechados. Ordens do Jarl Balgruuf, para manter a proteção da cidade. – A cota de malha do guarda era coberta por um cachecol que se extendia como uma faixa do seu ombro esquerdo até tocar nos joelhos. Vestia botas revestidas por couro e a sua mão esquerda estava ocupada por um escudo redondo com o símbolo do feudo de Whiterun: um cavalo envolto por um elo de correntes. O elmo ocultava todo o rosto, de modo que mesmos os olhos não podiam ser vistos por trás das sombras das viseiras. Oito outros guardas se vestiam da mesma maneira, logo atrás dele. Sem sinal de manto vermelho ou azul.

– Eu venho de Helgen, aonde o dragão atacou. Preciso falar com o Jarl – tentou parecer convincente.

– Não se parece com quem fugiu de um dragão – retrucou. A muralha às suas costas parecia alcançar apenas uns treze metros de altura, mas a espessura não permitia que a sua aparência se tornasse menos imponente ou intimidadora. À esquerda dos portões, uma porta normal se acomodava na espessa barreira. Deve ser a entrada para a casa dos guardas, imaginou.

– O dragão queimou toda a vila e quem estava nela, mas eu sobrevivi. Fui encontrada desmaiada na estrada pela população de Riverwood, e lá eles me acolheram. – O guarda a fitou por algum tempo, ou pelo menos era o que parecia. Por fim, respondeu:

– Você pode entrar. Guardas – virou-se -, abram os portões.

Os dois grandes portões foram abertos. Como era de se suspeitar, as muralhas eram tão espessas quanto os portões comportavam vários cavaleiros alinhados. Passar por baixo dela foi como atravessar um portal mágico.

Whiterun era, de longe, mais bonita do que Riften; a cidade dos gatunos tinha um córrego que, de vista, era até bonito, mas dava de cara com os esgotos da cidade e exalava um fedor difícil de se acostumar, e os gatunos também não ajudavam na beleza. Whiterun, porém, era conhecida pela guarnição pesada, e era uma atitude sábia; por não tomar nenhum partido na guerra, o Jarl precisava depender apenas dele mesmo. As ruas não estavam empoeiradas e vários matinhos e árvores eram bem-vindos na cidade. Uma ponte a esperava logo à sua frente, e rapidamente entendeu o por quê: um rio cortava caminho por debaixo da pequena ponte e reproduzia um barulho agradável. Mas não era o suficiente para Nemela; a mulher foi mais atraída pelo som do martelo beijando o metal, logo ao seu nordeste. Entre os intervalos das marteladas, porém, um segundo som idêntico se aproximava, tímido e quase sumindo no ar. Parou para observar o dono do martelo e descobriu uma mulher negra, de roupas leves, trabalhando sem parar na forja. Deve ser de quem eles falaram, raciocinou. Posso falar com ela depois. O guarda a mostrou o caminho.

– Siga reto pelo Distrito Plano, toda esta rua aqui. Depois, vire à sua esquerda e suba as escadas, e estará perto do Distrito das Nuvens. Continue indo reto e suba as escadas até chegar em Dragonsreach.

Nemela seguiu o caminho como lhe foi ensinada. Antes de subir as primeiras escadas, deu de cara com quitandas e barracas de acessórios. Um mendigo apenas observava uma das barracas, cheia de carne à venda. O vendedor lhe lançou um olhar ríspido e o mendigo foi embora. Atrás das barracas, encontrava-se o que parecia ser a estalagem. Enquanto subia as escadas, não pôde deixar de notar nas correntes de água que corriam nas extremidades dos degraus abaixo. Uma árvore enorme, protegida por cercas, se erguia no centro da praça quadrifurcada, todos interligados pela praça por pontezinhas para permitir a passagem da água, que rodeava a praça toda; dois dos caminhos levavam para lances de escadas que eram seguidas de grandes construções; a terceira, à sua esquerda, não parecia ter nada de mais além de residências; o quarto era daonde vinha. Contornou metade da praça para seguir caminho até Dragonsreach. Nemela não pôde deixar de notar a queda d’água sobre as pedras, quase que no mesmo nível do final da escadaria, que terminava numa bela fonte que seguia destemina pelas extremidades da praça e se separavam na descida para as lojas e no terceiro caminho. Ao terminar de subir as escadas, uma ponte interligava o palácio com a cidade e, ao olhar à sua direita, viu mais uma fonte, por onde a água descia. Típico de terras fluviais, pensou, mas a beleza desta cidade é incomparável. Enquanto a seguia, guardas se comportavam como as Pedras Guardiãs, até finalmente chegar aos portões do palácio.

Quando entrou, não imaginava que seria tão grande quanto tinha lido nos livros. Um carpete dourado cobria o caminho da porta até alguns degraus à sua frente, enquanto algumas aias limpavam o grande salão com vassouras. Subiu-os até dar de cara com duas mesas enormes que começavam da metade do caminho entre uma escada até outros pequenos degraus, dezenas de metros à frente. Uma grande fogueira retangular cujos menores lados apontavam para a entrada e para o trono, onde o Jarl jazia, observando a visita da desconhecida, separava as duas mesas. Algumas pessoas se deliciavam com alguns pratos e vinhos, o suficiente para ativar o seu estômago. Tinha andado tanto que nem se lembrara de que já era hora do almoço, tampouco da fome que tinha. O cheiro de carne de galinha e ganso quase a fez perder os sentidos enquanto andava até o Jarl, mas conseguiu resistir. Uma mulher vestida de armadura que guardava do lado do Jarl andou até a sua direção.

– Quem é você? Não lembro de ter marcado alguma visita à Vossa Graça. – A armadura da mulher era do mais puro e refinado ébano. O metal negro estava presente em todas as partes da mulher, menos na cabeça, cujo elmo não se encontrava ali. As manoplas e as ombreiras tinham formato de escamas, ao passo que as grevas eram tão pontudas que nem era preciso de uma espada. Mas ela estava lá, embainhada na fivela, junto com um escudo pesado, que parecia estar abrindo asas, segurado firmemente pela mulher. A armadura absorvia toda e qualquer luz que ousasse dirigir-se à ela. O seu rosto denunciava a sua raça, Dark Elf, com cabelos ruivos e olhos mais vermelhos do que uma piscina de sangue.

– Venho de Helgen com notícias do dragão – respondeu rapidamente. Vossa Graça?, pensou. Não é como se ele fosse o Grã Rei. A mulher demonstrou interesse, mas em momento algum deixou de ficar menos agressiva. Por um momento, sentiu todos os olhares caindo a ela.

– De Helgen, hã? Então as notícias são verdadeiras. – disse o Jarl. Balgruuf, o Grande, como era conhecido, tinha as mesmas características de um Nord comum. A barba do seu queixo media três dedos enquanto que a do resto da face mal crescia. Vestia um gibão azul escuro afivelado na altura da cintura e forrado do centro do peitoral até o final da roupa por seda carmesim com desenhos dourados, botas que davam a sensação de conforto só de olhá-las e um sobrepeliz feito de peles de ursos. Uma coroa adornava a sua cabeça com uma ametista impecável, bem no centro, e duas safiras hexagonais pequenas à direita e à esquerda da joia. Um grande nariz enfeitava o seu rosto. Talvez seja por isso que é conhecido como O Grande. – O que mais me traz, além das notícias do dragão?

– Ulfric Stormcloak foi sentenciado à morte, como o milorde deve saber, mas conseguiu escapar na confusão – aprendeu um pouco de cortesia com a sua mãe, no caso de ser questionada por algum Black-Briar em Riften ou até mesmo na sua própria fazenda.

– Pelos Deuses, essa guerra não vai acabar nunca! – Bateu a mão direita com força no pulso do trono. - Por que não o decapitaram de uma vez por todas?

– Não coube a mim julgar a ordem das sentenças, milorde. Estava apenas guardan…

– Tanto faz, estava apenas refletindo sozinho – interrompeu. – Para onde o dragão se moveu, depois de transformar o vilarejo em labaredas?

– Eu o vi voando a norte, na direção da cidade. A população de Riverwood também confirma a informação.

O Jarl fez uma careta e pôs-se a pensar por um tempo.

– Temos homens o suficiente para matar um dragão? - perguntou para todos e para ninguém.

– Podemos ter homens, mas temo que não tenhamos estratégia contra tal criatura, meu senhor – respondeu o homem à sua direita. Era careca, com algumas entradas negras nas extremidades do que fora um dia um couro cabeludo completo e feições engraçadas. Vestia um sobretudo acinzentado e afivelado junto com o que parecia ser seda vermelha por baixo. Botas finas de couro cobriam os seus pés. Uma grande espada estava presa às suas costas. – Helgen estava guardada por Imperials e dois Legates, mas isso não a impediu de ser queimada.

– Helgen foi pega de surpresa. Nós sabemos que um dragão está a solta e, por isso, devemos nos preparar.

– Fogo não será exatamente um problema, para a nossa felicidade. Água é o que não nos falta.

– Isso não vai impedir que os nossos soldados morram em chamas… - começou Balgruuf.

– … nem que a nossa querida cidade pereça. – interrompeu uma quarta pessoa, vindo de um dos salões das extremidades. – Os dragões possuem a mais pura das magias. A ressurreição de sua raça também ressuscita a antiga magia, o seu verdadeiro poder. Quando percebi que as minhas magias estavam mais poderosas, eu sabia que havia algo de errado. Então os dragões renascem, e um deles foi visto em direção à nossa cidade. O meu sonho finalmente se realizará, mal posso acreditar – e soltou uma risada histérica.

– Repita isso quando a tal magia pura derreter a sua carne, mago – cortou em tom ríspido a mulher.

– É para isso que aprendemos magias protetores, que também se fortaleceram, minha cara – respondeu calmamente. – Qual é o plano?

– Assemelha-se a uma grande criança baderneira quando falam de dragões, Farengar – reclamou Balgruuf. – Não sabemos nem aonde ele se meteu, quanto mais o que faremos quando chegar.

– E pretende esperá-lo bater educadamente na porta do seu palácio para criar um plano?

– Você ouviu a nossa conversa, por acaso? Pois um plano era o que estávamos propondo. Se veio aqui para retrucar, que volte para a sua mesa com as suas “arcanices”.

– De maneira alguma. Como um bom historiador de dragões, vim dar-lhes uma dica: água não vai adiantar.

– Como não, se a água apaga o fogo?

– O fogo normal, sim, mas, como eu havia dito, o dragão utiliza magia pura, e apenas magia pode parar magia.

– Você é o único mago da cidade, eu acredito – o Jarl fez uma careta e bufou.

– Os sacerdotes do Templo de Kynareth conhecem algumas magias básicas de destruição, o suficiente para tomar conta das chamas. Prepare também arqueiros nas torres. Precisamos alvejar o dragão, se quisermos impedir o seu vôo e, consequentemente, matá-lo. Avise os Forts do nosso feudo para manterem mensageiros e corvos prontos para mandar qualquer mensagem sobre a movimentação da criatura…

Crááá, ouviram crocitar de uma das janelas do andar superior. Crááá. O corvo abriu as asas e desceu até cair num prato vazio em uma das mesas. Começou a andar e a cacarejar ao mesmo passo. O homem careca foi até a ave e delicadamente ofereceu a mão. A ave aceitou a oferta e subiu na sua palma. O homem, então, desamarrou da ave um papel enrolado, mas, quando começara a ler, um segundo corvo apareceu na janela. Crááá, crocitou também, e a cena se repetiu novamente. Asas negras, palavras negras, repetia a mente de Nemela incessantemente, um provérbio tão antigo quanto os próprios Imperials. Asas negras, palavras negras.

– Provenus, o que os corvos dizem?

– Notícias do dragão. Mas… Vieram de locais diferentes. Um dos corvos veio de Whitewatch Tower, enquanto que o outro veio de Western Watchtower.

– Não precisamos mais avisar os Forts, afinal – concluiu o mago. Os corvos levantaram vôo com o barulho dos portões sendo abertos. De lá, um senhor com trajes de guarda levemente superiores se apresentou um tanto brutalmente. Seu rosto instigava terror, e respirava como se o ar estivesse prestes a acabar.

– Senhor Comandante? O… O que aconteceu? – o homem ainda puxava ar com força, com as mãos nos joelhos, como se tivesse corrido quilômetros. Até ele conseguir recuperar o fôlego, o Jarl já havia adivinhado. – Não me diga que o dragão…

– Muito pior. – puxou mais uma dose de ar. – São dragões.

Dragões? ­– Balgruuf levantou-se num salto. – Precisamos preparar as nossas tropas. Agora! Aonde eles se encontram?

– Estão sobrevoando a cidade. Dois. Precisamos… atraí-los para campo aberto, se quisermos… - puxou mais ar – vencê-los.

– Pois façamos isso – ordenou Balgruuf. - Reúna todos os seus soldados. Use alguns como iscas para atrái-los para fora da cidade. Traga todas as pessoas da cidade para cá, eu disse todas. Não quero cidadãos mortos. – Virou-se para Nemela. – Você tem alguma experiência, já que conseguiu fugir de um deles. Irileth, arrume equipamentos para esta mulher.

– Às suas ordens, meu senhor. – desatou a correr até uma escada que se encontrava a alguns metros à direita do trono. Nemela a seguiu, e então entraram nos quartéis do Jarl. Alguns guardas estavam por ali.

– Qual tipo de arma você prefere?

– Espada e escudo. Armadura pesada, se possível – respondeu Nemela.

– Podemos te oferecer armaduras leves da nossa guarda, no máximo. Aqui – pegou uma chave e abriu uma caixa que continha o escudo, botas, elmo e armadura de Whiterun. – Não temos espada… acho que o Jarl não se importará com aquela – abriu outra caixa e puxou uma espada élfica de lá. – Não temos tempo a perder. Vista-se. Não tenha receio, não tem ninguém olhando – aumentou o tom de voz e, assim, os guardas obedeceram a ordem. Viraram-se de costas para as duas. Nemela retirou as roupas que havia conseguido em Riverwood e colocou a armadura dos guardas. Agora eu me sinto melhor, pensou. – Vamos.

E elas foram.

Ao sair de Dragonsreach, os dois dragões estavam apenas sobrevoando e rugindo. Desceram as escadas até a praça, cortando caminho pelas pessoas que corriam em direção daonde haviam acabado de sair. Alguns guardas arqueiros estavam atirando e correndo, atirando e correndo, sem muito sucesso na tentativa de fisgá-lo a atenção. No entanto, quando os dois perceberam Nemela, desceram aos poucos na sua frente. Ela logo entendeu o que aquilo significava.

CORRAM! – o fogo do dragão não a atingiu por pouco, mas pôde sentir o calor nas suas costas. Aonde o fogo tinha alcançado, os sacerdotes de Kynareth jogavam magia de gelo para diminuir as chamas. Dois guardas se debatiam e corriam, numa vã tentativa de sobrevivência. As chamas os consumiram rapidamente. Os dragões agora estavam seguindo a mulher, que agora corria escada abaixo rumo ao Distrito Plano e virava a curva para os portões.

Eu não fiz nada, pensou, desesperada, por que querem me queimar? Enquanto pensava, um dos dragões pousou bem na sua frente, e Nemela viu-se perdida enquanto cambaleava para trás. Avançou, pata por pata, e tentou mordê-la, mas deu um pulo pra trás e, num ato de imprudência, aproveitou o impulso para pular na sua cabeça. O dragão agora se balançava rebeldemente, mas Nemela segurava com força. Puxou a espada fora da bainha, mas quando tentava mirá-la em sua cabeça, a criatura alçou vôo. Foi obrigada a pular desajeitadamente e cair rolando antes que se tornasse impossível. Levantou-se, ágil como uma gata, e correu até os portões. Eu vou conseguir, pensou, vou atraí-los para o campo aberto, e então Whiterun estará protegida.

Os portões não estavam trancados; apesar disso, requerera certa força para abrí-los sozinha. Correu pela ponte e, ao invés de seguir pela estrada, pulou e rolou pelos campos que se seguiam abaixo. Olhou para trás e viu tropas a seguindo, flechas sendo atiradas, mas apenas um dos dragões a seguia. Não se preocupou com atrair o segundo, apenas continuou a correr. E correu.

Quando julgou estar longe o suficiente de Whiterun, parou. Irileth e o Senhor Comandante da Guarda a seguiam, junto com as suas tropas. O Senhor Comandante começou a organizar uma formação, enquanto Irileth o ajudava com alguns posicionamentos. Então avistaram o segundo dragão, que estava atrás de um homem. Pobre rapaz.

O primeiro dragão, de cor amarronzada, planou no ar e soltou baforadas de fogo. Todos conseguiram desviar, mas o campo começou a queimar. Algumas flechas o acertaram, mas ele não pareceu se incomodar com elas. Os dois dragões começaram a sobrevoar a área, e então começaram a atacar pra valer: rasantes em conjunto que arrastavam dezenas de pessoas, acompanhadas de baforadas de fogo que pegavam alguns guardas de surpresa. As flechas não pareciam adiantar em nada.

Farengar havia finalmente alcançado o grupo. Conjurou uma criatura, em forma de golem, imbuída com o poder dos relâmpagos, que lançava raios poderosos no dragão ao mesmo passo que o seu dono arremessava bolas de fogo atrás de bolas de fogo. Um dos dragões fora atingido na asa e se obrigou a pousar. Conseguiu realizá-lo sem muito problemas e agora jorrava fogo de sua boca. Metade da tropa o cercou e agora o atacava com espadas, machados e tudo o que era possível. O dragão não parecia se render, e agora tinha a sua atenção virada para Nemela, que avançava na criatura alada. O dragão tentou mordiscá-la, mas ela girou e provocou um corte em arco na sua boca. Em fúria, soltou mais fogo, e desta vez foi certeiro.

Mas o fogo não a consumiu.

Sentiu-se confusa ao ver o fogo se dissipando até mesmo dos seus equipamentos, mas não se mostrou tola. Correu até uma das suas asas e começou a espetá-la e a cortá-la com a sua espada élfica. O metal mostrava efeitos sobre as escamas do dragão, que agora rugia de dor enquanto os outros soldados se mostravam em fúria, numa mistura de gritos de guerra, de dor e metal cortando escamas. Alguns foram pegos de surpresa quando abriu as asas e as bateu com fúria no chão. Nemela teve de usar o escudo para se proteger, mas mesmo o escudo de carvalho fora destruído com o impacto. Apesar disso, não sofreu grandes danos. O segundo dragão fez um rasante desajeitado, mas efetivo, para dar uma chance de fuga ao seu parceiro, que agora levantava as asas para voar de vez.

– Não desta vez, monstro – gritou Nemela, que mais uma vez avançara imprudentemente. Não conseguiu segurar a asa, então correu para alcançar a cauda e agarrou-se nela. O animal começou a voar numa velocidade absurda, apesar da asa danificada. Nemela começou a escalar as escamas do animal, pouco a pouco, e logo depois encontrava-se nas suas costas. O animal rugia em socorro, mas nada podia fazer o seu parceiro draconiano.

Sua quase falha foi olhar para baixo. Era possível ver pequenos pontos organizados no campo, a cidade de Whiterun, e uma imensidão de campos, florestas e rios. Se eu matá-lo aqui, significará o meu fim, pensou. Sentia-se desesperada, e por um momento quase caiu das costas do dragão. Era morrer ou morrer. Não tenho escolha. Escalou mais as costas dele, e então chegou até a sua cabeça. Segurou-se com uma das mãos o pescoço do dragão, que se mostrava inquieto. Mirou bem a espada e fincou-a na sua cabeça. O animal rugiu e rugiu, até um sangue azul tomar conta da sua boca e do buraco na sua cabeça. Não satisfeita, fincou-a de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Sua espada estava agora com uma coloração azulada, e o sangue que saía da boca do dragão agora caía na terra em quantidade exuberante, formando uma pequena chuva. Nemela percebeu que estavam perdendo altitude demasiadamente rápido, mas não havia nada a fazer. Apenas morrer.

O chão se aproximava cada vez mais rápido, e Nemela subiu os seus pés para deitar-se sobre o dragão morto. Se era pra morrer, que pelo menos não fosse esfolada. Fincou a espada no buraco inicial com tanta força quanto pôde para se segurar com mais firmeza. O corpo do dragão estava quase beijando o chão quando ela fechou os olhos.

Quando bateram no chão, o corpo de Nemela, do pescoço pra baixo, subiu e quase fez as suas mãos se separarem do pescoço do dragão. As suas pernas se chocaram com tudo sobre as suas escamas, e Nemela não soube como não gritou; talvez tenha gritado, mas não tenha ouvido. O barulho do corpo se arrastando sobre a terra era absurdamente alto, e sentiu alguma coisa se chocando com a cabeça do cadáver que quase a fez abrir os olhos, tamanho foi o baque. Alguma coisa bateu na sua cabeça, dura como carvalho, e por um momento soltou uma das mãos. O medo a fez abrir os olhos e, justo quando estava prestes a voltar a mão solta, o seu corpo saltitou, e desta vez o impacto obrigou-a a soltar a outra mão. O impulso a fez dar um mortal enquanto voava, e desta vez se imaginou morta. Felizmente estavam se arrastando com uma velocidade menor o suficiente para que a queda não lhe custasse alguns ossos. Fechou os olhos mais uma vez e saiu rolando pelo que fora um dia um gramado. Não durou muito até o corpo de Nemela terminar de rolar pelo chão.

Abriu os olhos e descobriu-se viva. Não soube como, mas estava viva, depois de tudo aquilo. Quis chorar, gritar de felicidade, de dor, mas o seu próprio corpo recusou as suas propostas e obrigou-a a se levantar. Sua armadura estava destroçada, suas pernas, vermelhas de sangue humano, e as suas mãos, azuis de sangue draconiano. Quando olhou pra trás, viu metros e metros do rastro que o dragão deixara enquanto arrastava o terreno. Viu também restos do que fora um dia o corpo de um guarda que provavelmente estava perdido. As tropas chegaram até ela às pressas.

Mulher - gritou o Senhor Comandante -, como você sobr... Pelos Deuses– exclamou quando a viu. - Venha comigo. Você - apontou para um dos guardas -, ajude-me a levá-la até o dragão.

Até o dragão?, quis gritar, eu quero ir pra casa, ver minha mãe viva, meu pai, para algum lugar seguro, não ver aquela merda morta. Não encontrava forças nem para olhar pra frente. Agora que a adrenalina abandonara o seu sangue, a fome voltou a assolá-la, agora acrescida de dor e cansaço. Quando chegaram até o cadáver do dragão, o Senhor Comandante pôs um guarda em seu lugar e assumiu a frente.

– Conseguimos... ou melhor, ela conseguiu derrotar o dragão - apontou para Nemela –, mas ainda falta um…

Quando olharam para cima, o dragão remanescente rugiu e começou a voar o mais longe dali. Os guardas brandaram as suas armas e começaram a comemorar, mas não por muito tempo. Uma energia começou a tomar conta do local. Começou a se concentrar acima do corpo do dragão, que estava perdendo as escamas aos poucos. Pura magia, ouviu alguém comentar; provavelmente veio da boca de Farengar. A energia se dividiu em dois e começou a apontar para Nemela e mais alguém. A mulher sentiu-se quente, extremamente quente, mas não se incomodava nem um pouco com o calor; sentia-se até renovada, mesmo com a fome terminando o trabalho da dor e do cansaço. Foi depois que só restaram os ossos do dragão e depois que a energia parou de rodopiar ao redor de Nemela que se lembrou das conversas com Ulfric e Ralof.

– Dovahkiin – pensou demasiadamente alto. A palavra provocou sussurros entre os guardas. Finalmente percebeu que a energia tinha se dividido em duas partes, e os seus olhos arregalados encontraram a segunda pessoa, que se encontrava em silêncio. Soltou-se dos guardas para andar até um homem careca e com barba por fazer, vestido de armadura de aço por cima de couro fervido. – Você… Nós somos... Nascidos do Dragão... - tombou na frente do homem. Descanso, pensou, antes dos seus olhos se fecharem.


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Notas finais do capítulo

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