The 75th Hunger Games - Fanfiction Interativa escrita por Driokjin


Capítulo 4
Carter Trent I: Lobo solitário




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Ela está nos jogos, consigo vê-la na tela, esbelta, alta e loira como sempre, o brilho em seus olhos é evidente, ela estava bem ansiosa por isso, nos últimos dias só falava no quanto queria ganhar os jogos para poder nos dar um vida melhor. Ela é maravilhosa, melhor que todos os outros, o jeito como luta, parece até uma daquelas amazonas sobre as quais estudei na aula de historia na escola, sinto tantas saudades, mas sei que logo ela estará de volta, com as cantigas, as piadas e as broncas, a alguns dias não sou posto de castigo por ela, fugir durante a noite não é a mesma coisa sabendo que ela não estará aqui para enlouquecer. Um barulho, o canhão, o fim. O ruído dentro de minha cabeça me faz acordar, era um sonho. Melhor, um pesadelo.

Acordo ofegante meu despertador ainda nem havia soado, o relógio cuco na parede marca cinco e meia da manhã, ponho os pés no chão, uma metáfora para me auto afirmar de que estou com os pensamentos organizados e nem um pouco abalado pelas imagens e emoções que acabaram de explodir dentro da minha mente. Preciso levantar, tentar seguir com a rotina diária, pelo menos até as oito da manhã, quando a colheita se inicia. A cozinha ainda está escura, fria e solitária, procuro pelo bule no armário e tropeço em algumas panelas, preencho o espaço vazio do bule com água, e coloco-o para ferver, meus olhos queimam quase que com a mesma intensidade da chama acesa no fogão, quero chorar, mas não posso, prometi que não choraria mais, recosto na pia e respiro fundo. Em seguida procuro pelo pó escuro que dá origem ao néctar que me mantém sóbrio por pelo menos boa parte do dia. Um barulho, um canhão, o fim. Novamente me assusto, mas dessa vez o barulho não está na minha cabeça, mais fora dela vou até o segundo andar e ele está lá estirado ao chão.

– Vovô. - Ele não respondeu.

À Algum tempo não falo com meu avó, ele possui um tipo raro de reumatismo que além de afetar seus movimentos, também atinge boa parte do cérebro humano. Isso começou a alguns anos atrás quando ela não estava mais aqui. Durante o sono o cérebro num tentativa de reação a movimentos externos produz espasmos de diferentes graus, eu diria que esse foi um nove, posso contar nos dedos as vezes que ele atingiu um nove, e nessas poucas vezes sempre caiu da cama.

O levanto e o coloco na cama novamente, em repouso constante, levo o cobertor até sua cintura e acho que consigo perceber a tristeza que ele tem dentro de si, eu também me sentiria assim se estivesse preso a um casca como ele.

– Tudo bem? - Pergunto numa tentativa em vão, mas preciso escutar algo, mesmo que seja proferido por mim.

– Vovô, tenho que ir a taverna para comprar seus remédios Rhedyn ficara com você até eu voltar. - Posso ouvir um gemido que provavelmente significava que entendia. O beijei na testa e fui até a a casa de Rhedyn Copperskin, nossa vizinha.

Ao sair de casa sou recepcionado pelo vento frio da madrugada, apesar de a primeira luz já evidenciar a linha do horizonte, as nuvens cobrem o céu por inteiro e a luz do sol torna os tijolos acinzentados da calçadas em manchas negras no solo, encontro meu caminho por entre as moitas até a porta do fundo da sua casa, as luzes da cozinha estão ligadas, mas isso não é nenhuma surpresa, o pai de Rhedyn trabalha nas minas de ouro do Distrito e sempre sai muito cedo de casa, provavelmente já deveria estar dentro do ônibus descendo as ladeiras em direção ao buraco negro do qual provia seu sustento, bato na porta e espero alguns segundos até que a garota loira de cabelos ondulados apareça a porta, ainda com olhos inchados e avermelhados.

– Rhedyn, você pode ficar com vovô até eu voltar da Taverna? - Ela me olhava entre os longos silios semicerrados. - Estou preocupado, vovô atingi outro nove e estou com medo de que possa piorar.

– Claro. - Ela assente com a cabeça. - Só preciso trocar de roupas. - Apontou para o pijama. Ela era uma garota divertida e nossos pais sempre acharam que nos casaríamos, mas não consigo pensar assim, apesar de achar que ela tem uma quedinha por mim. - Entra, fiz café para o papai, pode se servir. - Disparava enquanto atravessava o corredor até a escada da sala de estar. - Ainda temos ovos na geladeira prepare alguns. - Agora sua voz já estava distante. Me ocupei apenas com a xícara de café preto, para me manter quente e atento.

Ao voltar do quarto ela estava em vestes mais apropriadas para um passeio e saímos de volta para minha casa, espero-a trancar a porta e refazemos o caminho que eu mesmo fizera a pouco só que em sentido contrario. Chegando a minha porta repasso as instruções que ela já deve ter decorado, pois sempre me ajuda com o vovô na colheita, pelo menos até eu voltar das compras e leva-lo ao retiro de ex-militantes do Distrito dois, um lugar para os heróis da guerra que já não podem contribuir nas batalhas.

– Eu só vou até a taverna conseguir alguns mantimentos e voltarei dentro de meia hora, certo? - Ela apenas assente. Me despeço e finalmente possa seguir com a rotina de pré-colheita.

Gostaria de ir diretamente até a Taverna, mas tenho pouco dinheiro e não daria para comprar metade das coisas que preciso para vovô, primeiro tenho que passar na floresta e ver se consigo algo que possa vender.

No oco de uma arvore quinze passos floresta adentro tenho um material de caça guardado, recolho com cuidado investigando o perímetro para não ser pego, já que a caça é considerada crime em todos os distritos, mas apenas acho que a Capital quer nos matar de fome. Mas parece que hoje não será um dia produtivo pois sequer nenhuma codorna consigo avistar no meio do amarelado da floresta em decadência devido a chegada do outono. Tenho que me contentar com batatas azuis e feijões de mercúrio que crescem próximos dos lagos do Distrito e alguns esquilos abatidos no caminho até a mercado de trocas, mas foram suficientes para duas caixas de remédio, uma de vitaminas e alguns grãos que serão doados para o instituto onde meu avô ficara até que eu retorne dos jogos.

Na volta para casa penso no que devo fazer durante a colheita e se estou preparado para isso. Mas sei que é o certo, me oferecendo para os jogos poderei ficar tranquilo quanto a despesas com comida e medicamentos de vovô, pois a herança que meus pais deixaram para mim e as joias da minha irmã já não podem suprir nossas necessidades. Darei um jeito de vencer isso e trazer algumas melhorias para nossas vidas. É difícil pensar no contrario, se não fizer nada a respeito sobre nossa situação logo até eu terei que me mudar para o abrigo dos ex-militantes.

O cansaço em minhas pernas é o sinal de que já estou próximo de casa, consigo até mesmo enxergar os tijolos de nossa chaminé, a dois metros de distância percebo a figura preguiçosa estirada sob as poltronas da varanda, um livro pousado em seu colo e a cabeça arqueada para trás.

– Acorda, vai se atrasar para a colheita. - Disse jogando alguns gravetos em seu cabelo.

– Adoraria se isso acontecesse. - Debochou.

– E como explicaria isso para a Capital? - Retruquei. - Oh, senhor presidente, eu estava tão cansada que cai no sono durante as festividades. - Ela apenas riu.

– Ok, estou indo. - Falou levantando-se. - Tenho que decidir o que usar para o show. Você acha que fico melhor com vermelho sangue ou azul melancólico?

– Se ofereça com tributa e pergunte ao seu estilista. - Brinquei.

– Adoro suas piadas. - Zombou do segundo degrau da varanda. Enquanto ela se distanciava e eu abria a porta para poder falar com vovô. Ele estava exatamente como o deixará, cobertor até a cintura, cabelo bem penteado e olhar pesaroso. Peguei sua mala no armário e coloquei tudo que ele precisaria durante minha ausência, no momento em que eu o coloquei na cadeira de rodas pude ver o quanto sua expressão se enrijeceu, a foto do casamento dele e de vovó pintada a mão estava sob o criado mudo, e naquele instante percebi que aquele era o único objeto do qual ele precisava. Uma lembrança boa. Depois de ter aprontado tudo o deixei no retiro, prometendo voltar e deixando recomendações claras e redundantes sobre ele e seus medicamentos.

Depois de checar se estava tudo bem com ele e suas instalações segui para a praça a duas quadras do instituto e pela movimentação era possível notar o meu atraso, não havia mas ninguém nas filas de checagem, apenas pacificadores emburrados por estarem perdendo toda a festa. Cheguei até um das mesas para a o escaneamento de DNA. A pacificadora me olhou de cima a baixo como se disse que eu não teria chances nos jogos, cuspiu no chão e logo depois perguntou meu nome, furou meu dedo sem delicadeza e carimbou minha digital ensanguentada numa maquina sem fio, após alguns segundos fui liberado e pude atestar meu atraso quando vi uma garota de cabelos negros em cima de um dos pedestais dos tributos. Não podia acreditar que minha brincadeira com Rhedyn um dia fosse me servir como um chapéu. Só me lembro de ter ouvido a voz de um garoto dizendo que se oferecia, foi como despertar de um devaneio, tratei de pronunciar as mesmas palavras antes de encontrar aquele que queria roubar minhas chances, um garoto moreno corria pelo corredor principal e algumas pessoas me olhavam sem entender nada, atropelei algumas antes de alcançar meu adversário. Meus olhos queimavam não sabia se de ódio ou medo, medo de perder a chance de dar a meu avô o melhor tratamento e medo de ficar e definhar sem ter o que comer, ir para os jogos valia o risco, então percebi que havia um jeito de eliminar a concorrência, um tributo morto não podia concorrer aos jogos. Não era bem a morte, mas qualquer coisa que o inabilitasse de concorrer. A mulher espalhafatosa no palco se pronunciou.

– Ora, ora. O que temos aqui? - Perguntou. O garoto parecia que finalmente notara minha presença posto ao seu lado e me olhava igualmente a pacificadora que checara minhas digitais a instantes atrás. - Parece que temos dois candidatos se oferecendo esse ano. - Falou olhando para o publico. - Será que isso tem haver com o fato de termos uma linda tributa no palco? - Todos riram, não entendia pois riam como se fosse uma piada, quando a garota realmente era bonita. - Mas sabemos que só um terá o privilegio de embarcar no trem para Capital. - Suas palavras soavam como um desafio e era tudo que eu precisava ouvir, as palavras dela soaram como um canhão em minha cabeça, tudo a minha frente tomou um tom avermelhado e investi contra meu usurpador, dei vários socos em seu rosto e fui acertado por alguns dos deles, consegui imobilizar seu tronco e desferir uma sequencia de socos até que alguns pacificadores me tiraram de cima dele, como o rosto ensanguentado e com alguns dentes da frente faltando meu adversário foi retirado de batalha.

– Agora só tem um. - Falei com todo o escárnio possível.

– Suba até o palco querido. - Disse ela com um sorriso nos lábios, podia saber o quanto ela tinha gostado daquilo pelo tamanho do formato de lua minguante em seu rosto, segui suas orientações para que eu subisse ao palco e me aproximei dela. - Qual seu nome meu jovem?. - Perguntou.

– Carter Trent. - Pela empolgação dos demais atestei o quanto haviam se divertido com aquilo.

– E estes são os nossos tributos. - Falou empolgada. - Victoria Grey e Carter Trent!

Após os aplausos e reverencias retumbantes dos moradores do Distrito 2, fui levado até uma pequena sala de espera. Apenas ri, quem poderia me visitar além de meus pais e irmã mortos e meu avô doente? Mas acho que a Capital não se preocupa em saber todos os detalhes de nossas insignificantes vidas, minha surpresa foi ver a porta abrir e não ver um pacificador e sim Rhedyn.

– O que você esta fazendo aqui? - Perguntei surpreso.

– Vim saber o que te deu na cabeça de se oferecer para essa loucura. - Raiva era palpável em suas palavras. - Você endoidou de vez?

– Era o único jeito. - Retruquei. - As reservas que tenho para mim para o vovô já estão acabando e será um inverno difícil se ele passar toda a temporada tendo ataques em cima daquela cama mofada.

– Podia ter pedido ajuda a papai. - Explicou.

– Nem pensar já sei o quanto é difícil seu pai sustentar a você. Seria injusto obriga-lo a nos adotar. - O silencio sentou em seu trono reinando sobre nós. Nada mais podia ser dito.

– Então só posso desejar a você que a sorte esteja sempre a seu favor. - Falou e quase conseguiu fazer sair como uma piada. Rimos. Fui surpreendido mais uma vez agora por seu abraço. - Ganha esse negocio e volta logo pra casa. - A voz sussurrava em meu ouvido.

Fomos interrompidos por um pacificador, e queria muito que ele não tivesse entrado e me feito distanciar do abraço aconchegante dela. O que não foi possível, pois fomos tirados as pressas do cômodo arrastados em direções opostas. Ela para praça e eu a plataforma de embarque.


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