Salve O Herói! escrita por Lunah


Capítulo 1
Capítulo 1 - O Inesperado


Notas iniciais do capítulo

Meus Deus, eu nem acredito que voltei a escrever! Achei que nunca mais teria tamanha força de vontade.rs. Muito bem, eu lhes apresento Salve o Herói!. Ainda que agora não pareça uma fanfic legal, ou diferente, peço um voto de confiança e apoio para continuá-la. O primeiro capítulo é para apresentar parte dos personagens e enredo, mas muita coisa ainda surgirá nessa fic. Espero que possamos nos divertir e sonhar juntos, é só o que quero. Boa leitura.




Salve o Herói!

Capítulo 1 - O Inesperado

Manhattan, NY, 2:45 am

| Narração Bella |

No mundo existem cerca de 7 bilhões de pessoas. É um número grande demais para toda a sua rotina ser afetada por apenas uma pessoa, certo? Errado! Descobri isso depois que alugaram um apartamento em cima do meu.


Deitada no meu quarto escuro escutei passos, que foram seguidos por risadas abafadas e murmúrios distantes. Tentando não me incomodar com o barulho provocado pelo vizinho de cima, peguei no criado mudo um frasco de calmantes e rapidamente engoli dois. Fiz tudo o que podia para ficar indiferente, cobri os ouvidos com o travesseiro, fechei bem os olhos e implorei: sono, me possua!


A grande razão pela qual vinha me entupindo de calmantes era que, há mais de uma semana, participava de forma torta das aventuras promíscuas do novo morador. Sem se importar com ninguém, o depravado excedia-se ao promover um festival de gemidos. Quisera eu poder dizer que sua baderna se limitava às madrugadas, mas, para o meu desespero, durante o dia, sofria com a música alta e o enervante quicar de uma bola de basquete. Embora não o conhecesse pessoalmente, já o considerava uma das pessoas mais desagradáveis do planeta.


Depois de muito rolar na cama e cansada de ouvir um “conversarei com o morador” vindo da síndica — que nunca fez nada em meu favor —, saltei da cama e marchei apenas de pijama rumo à porta da frente. Quem me flagrasse subindo as escadas àquela hora da madrugada até poderia pensar que sou só uma recalcada, uma mal-amada e outras coisas, porém garanto que não é bem assim. Estou apenas tentando levar ao pé da letra o ditado “o seu direito acaba onde começa o do outro”.


Chegando ao terceiro andar, fiz as contas e descobri que o apartamento 21 era o responsável pelas minhas dores de cabeça e persistente mal humor. Numa insensatez sem tamanho, apertei a campainha com firmeza e aguardei. Nada, ninguém apareceu. Como já estava diante da porta, não podia simplesmente voltar para a cama, tinha uma missão a cumprir.


Novamente desafiei o bom senso e pressionei a campainha por alguns segundos. O problema foi que o troço continuou tocando. Simplesmente disparou. O estridente e ininterrupto som ecoava por todo o andar, deixando-me numa situação pra lá de ridícula.


Nervosa e arrependida, comecei a cutucar o botãozinho, que se desprendeu do interruptor e caiu no chão. Tendo uma das ideias mais idiotas do mundo, apanhei o botão, lambuzei com saliva e o coloquei de volta no interruptor. Enquanto insistia no impossível me bateu um desespero, porque nesses momentos você sabe que vai passar vergonha, mas não pode fazer nada para evitar. Já até podia imaginar todas as pessoas do andar levantando de suas camas para reclamar da confusão. Para quem chegou ali se sentindo a dona da razão, eu agora tinha que sair correndo ou enfrentar a vizinhança. O que fazer?


Ok, corre! CORRE LOGO!


Não deu tempo. Fui pega com a boca na botija, ou melhor, com a mão na campainha. 


— Qual é a emergência? — rosnou o novo morador, tão irritado que as veias da sua testa quase explodiram.


Intimidada recolhi a mão e dei um passo atrás. Ao piscar os olhos tive a incomum sensação de que já o conhecia, mas de onde?


Surpreendendo-me, o homem deu uma cotovelada no interruptor fazendo a campainha parar de vez. Confesso que na mesma hora, parte da minha coragem para confrontá-lo foi para as cucuias. Não imaginei que o encontraria pelado, somente com uma garrafa de whisky cobrindo os “documentos”.


Determinada a contornar a situação, fixei meus olhos nos dele, que estavam mergulhados na vermelhidão causada pela embriaguez. Notando sua impaciência, me adiantei antes que ele proferisse alguns xingamentos.


— Bom dia — procurei ser educada.


— O que quer?


— Sou Isabella Swan. Moro no apartamento embaixo do seu — ergui bem a cabeça para não parecer tão baixinha e inofensiva.


— E qual o problema?


— O sex... — comprimi os lábios, retendo a resposta inadequada: sexo. — O barulho. É o barulho, seu moço.


Seu moço?


— Não sei do que está falando — ele abafou um arroto com a mão e tremulou as pálpebras de um jeito estranho.


— Você está bem? — acreditei que fosse desmaiar. — Oi? Seu moço?


De repente, o estranho se apoiou no meu ombro esquerdo e inclinou-se. Sem saber como proceder, permiti que aproximasse o nariz e inspirasse lentamente.


— Mas que fedor é esse? Está saindo de você?


— De mim? Não! — menti empurrando-o pela barriga e acidentalmente toquei numa cicatriz com cerca de seis centímetros.


Como era de se esperar, me senti insultada, claro, acho... Ah, eu sei lá. Honestamente, não sei se tinha esse direito. Há quase dois anos vivia em reclusão. Em outras palavras, não precisava, não me forçavam e absolutamente não queria sair do prédio. Basicamente minha vida se resumia a semanas ruins e outras péssimas. Como estava no meio de uma semana péssima, trocar de roupa parecia um sacrifício desnecessário.


Apesar de não me incomodar tanto com a ofensa, foi estranho perceber que meu olfato se acostumara com o mau cheiro. Quase tão estranho quanto ser questionada sobre ele.


— Mais uma vez, meu nome é Isabella Swan e o seu é...? — voltei ao propósito inicial.


— Edward — ele esfregou o nariz ainda incomodado com o meu cheiro. — Edward Cullen, mas também sou conhecido como Lucky — torceu a boca, talvez por não gostar do apelido.


De repente, praticamente do nada, percebi que estava tudo errado.


— Pode repetir, por favor — pedi quase certa de que ouvi mal.


— Edward Cullen.


Parei. Olhei para a cicatriz. Pensei. Respondi:


— Que calmante poderoso — perplexa, procurei o frasco no bolso do pijama e não encontrei. — Pois é, que droga! Estou sonhando. Maravilha, Bella — debochei de mim mesma.


Nunca em toda a minha vida conheci pessoalmente alguém com o sobrenome Cullen, especialmente um com apelido de Lucky. O apelido era uma alusão sarcástica à sua má sorte em apostas. Sei disso porque foi a minha irmã quem o apelidou. Isso sem falar na cicatriz. Pelo que eu acabara de lembrar, ela tinha sido adquirida em uma briga de faca quando ele ainda era adolescente.


 — Hora de acordar — dei tapinhas em minhas bochechas. — Acorda, filha! Acorda!


— Espera aí — o bêbado ergueu a mão em protesto. — Eu te conheço?


— Deveria, moço. Eu inventei você — esclareci. — Corrigindo... Na verdade, minha irmã inventou e eu colaborei o máximo que pude — ainda espantada comecei a rir. — Nossa, depois de tantos anos só agora sonho contigo? Devo confessar que não é exatamente como imaginei — analisei o personagem dos pés à cabeça.


— Quanto eu bebi? — encarou desconfiado a garrafa de whisky.


A figura correspondia a quase todos os requisitos que Helena e eu definimos. Edward não tinha mais do que 25 anos, era alto com cabelos loiros rebeldes, olhos verdes, corpo atlético, mas apesar de sua aparência, não possuía o carisma e a irreverência que o tornava especial para nós. Ele se mostrou tão decepcionante e desinteressante quanto uma adaptação cinematográfica ruim do meu livro favorito. 


— Sabe de uma coisa, preciso acordar agora — avisei conformada. — Foi divertido, Luckyy. Até nunca mais — acenei sorridente antes de abandoná-lo.


Nem pensei muito, apenas deixei para trás aquele pedaço da minha imaginação que — talvez eu nunca descubra o porquê —, se manifestou em meu subconsciente.

(...)


— Bora! Acorda, muchacha! — reconheci a voz da diarista Alice Brandon. — Estica as canelas pra fora dessa cama que eu trouxe suas compras.


Após ser fortemente sacodida, abri os olhos, contrariada.


— Bom dia — bocejei fazendo um esforço para levantar da cama.


— Outra noite mal dormida? — investigou seguindo-me até o banheiro.


Parada diante da pia, eu encarei o espelho e não vi nada além de uma simplória moça de 23 anos, pálida, com olheiras profundas e cabelos castanhos ressecados. Tão diferente da linda e sempre tagarela diarista.


Quando decidi não sair mais de casa, Alice se tornou minha única amiga e colaboradora. A nova-iorquina, mas com sangue porto-riquenho por parte de mãe, nunca conseguia encontrar um emprego bem remunerado em Nova York. O que desanimaria a maioria das pessoas, não afetava a batalhadora garota, que sustentava seu bom humor com as músicas que escutava no seu inseparável iPod.


— Depois do calmante até que dormi bem — expliquei enquanto lavava o rosto. — Mas tive um sonho tão estranho... — voltei a encarar o espelho, perdendo-me em pensamentos.


Minha irmã Helena foi definitivamente uma garota especial. Uma pessoa cativante, sonhadora e extremamente talentosa. Em tudo obteve êxito, desde os estudos à sua breve carreira como advogada. De algum modo esteve sempre à frente de todos, com ideias bem originais e peculiar intuição, por isso não estranhei quando aos 16 anos acordou-me numa manhã de Outono, completamente alvoroçada, alegando que teve um sonho maravilhoso. Por toda aquela manhã conversamos sobre o sonho detalhado e complexo que tivera, mas ainda assim ela temia esquecê-lo, então naquele mesmo dia começou a transcrevê-lo em um diário.


Como eu era igualmente jovem e sonhadora, ajudá-la na empreitada passou a ser divertido. Nos primeiros dias escrevemos resumos vagos e, a partir deles, textos mais elaborados. Em nossa ânsia por mais daquele mundinho do sonho, desenvolvemos diálogos e dos diálogos, capítulos. Por fim, depois de várias semanas, inventamos trechos para preencher as lacunas e completar a história.


Sim, era uma excelente história sobre as diferentes fases da vida de um rapaz do interior. Suas desilusões, momentos conturbados, outros cômicos e até mesmo seu romance proibido. Deliciamo-nos com as emoções que o personagem principal nos proporcionou por vários meses, mas, como tudo na vida, a nossa súbita obsessão pela história foi substituída pelo novo: novo ano letivo, novos desafios, novas obrigações. O tempo passou e Edward Cullen caiu no esquecimento. Eu nunca mais pensei nele... Não até a noite passada.


Água. Alice respingou água no meu rosto e imediatamente despertei.


— Ei, para com isso — reclamei chateada.


— Está fazendo aquilo de novo — resmungou.


— Fiz aquilo? Desculpa.


Como se eu já não fosse bizarra o bastante, ainda por cima tinha o irritante hábito de me desligar do mundo. Bastava a minha cabeça ficar cheia de preocupações, lembranças e dúvidas para minha atenção se desviar do que se passava à minha volta, e focar em minhas caraminholas.


— Trouxe as compras? — indaguei pegando uma toalha de rosto.


— Se tu não fosse a única cliente que me paga direito eu desceria a porrada na tua carcaça agora! Não ouviu nada do que te falei, né?


— Não. — lamentei com um sorriso fraco.


— Resumindo... — Alice tomou fôlego. — Ô raça ruim! Que bando de maloqueiro. Cara, eu odeio a gentalha desse prédio.


— O que aconteceu?


— A bandoleira do apartamento 18 teve a afoiteza de me barrar na portaria, numa verdadeira enchessão escrotorial — minha amiga também era esquisita, desde o modo de falar à maneira de se vestir. Apesar de inteligente, gostava de usar palavras intrigantes ou que nem existiam. — Cê me acredita que ela queria saber se usei o perfume francês dela?!


— E usou?


— É óbvio! — bateu o pé no chão. — Já não basta esconderem a comida pra eu não comer? Pela lazeira que ganho tenho o direito de mexer nos perfumes, fazer uns interurbanos e roubas umas calcinhas. Flor, a vida num tá fácil pra ninguém!


— Nem vou argumentar — ergui as mãos rendendo-me. — E o que pretende fazer a respeito?


— Por horamente nada, mas aquela cachorrenta que me aguarde — sorrindo, a maluca começou a bater no pulso direito. — Mal sabe ela que nessas veias corre o sangue de Pancho Villa!


Alice realmente acreditava que o revolucionário mexicano era seu bisavô. Como isso seria possível? Só Deus sabe.


— Café da manhã? — mudei logo de assunto.

(...)


Sentada na pia da cozinha, encarei uma tigela de cereal sem a menor vontade de comê-lo. Alice, por outro lado, devorou rapidamente dois pãezinhos, alguns morangos e ainda perguntou se podia comer um resto de lasanha que encontrou na geladeira. O apetite voraz da diarista já era conhecido pelos moradores, mas ninguém sabia explicar como ela continuava esbelta.


Derrotada pela obrigação de me alimentar, coloquei uma colherada de cereal na boca e no mesmo segundo a campainha tocou. Imediatamente troquei um olhar com minha amiga, que tratou de me tranquilizar alegando que era apenas o entregador com o restante das compras. Assim que ela saiu para atender a porta, pulei da pia e guardei o cereal na geladeira.


— Bella, faz a gentileza de vir aqui — Alice gritou empolgada. — Sua mãe veio te visitar.


Droga! Zanguei-me por não ter a menor chance de escapar. Minha mãe continuava morando em minha cidade natal, Atlanta, por isso desconhecia completamente o meu estilo de vida. De modo algum podia deixá-la desconfiar que eu não tinha mais emprego, amigos, namorado, ou qualquer coisa que me classificasse como uma garota “normal”. Nos últimos anos a sua maior satisfação era a certeza da minha felicidade, mentira que eu sustentava com um telefonema semanal.


Atordoada, comecei a desamassar o pijama sujo. Tentei também desembaraçar os cabelos com os dedos e não funcionou.


— Se desembesta logo daí, Bella! — Alice me apressou.


Convencida de que o melhor modo para justificar a minha aparência seria simulando um resfriado, peguei um lenço de papel e, cabisbaixa, marchei até a sala fingindo espirrar. Com os cabelos e lenço encobrindo meu rosto pálido, soltei outro espirro ao adentrar o cômodo.


— Saúde.


Ergui os olhos e avistei a figura masculina junto à porta. Dessa vez eu tinha 99% de certeza de que não estava sonhando. Edward Cullen disse mesmo “saúde”.


— Aaaaahhhh! — entrei em parafuso.


Instintivamente afastei-me, mas sem força nas pernas, perdi o equilíbrio e caí sentada. Ao vê-lo dar um passo em minha direção, o pânico aumentou e com ele os meus gritos. A sensação era semelhante à de ver um fantasma e o medo do desconhecido se manifestou com força total. 


— Vade retro! Volte pro lugar de onde saiu — apontei para ele como se estivesse expulsando o próprio tinhoso.


O homem recuou, porém continuou encarando-me como se eu é que fosse a assombração. Perdi completamente o discernimento e quando Alice tentou me agarrar, na defensiva, engatinhei até um canto de parede, onde me encolhi toda.


— Calma, Bella. Só disse que sua mãe estava aqui pra te desarraigar da cozinha — ela se ajoelhou ao meu lado, sem entender nada.


Alarmada como nunca antes, cessei com os berros e tomei fôlego. Estendi então minha mão trêmula e tateei o braço de minha amiga, que enxergando a confusão em meus olhos, me incentivou a falar.  


— Eu vejo gente que não existe — balbuciei.


— Chega de assistir O Sexto Sentido — arqueou uma sobrancelha. — Mulher, deixa de frescagem, aquele é só o novo morador, não o cantor Psy.


— Ele não é real — alertei segurando-a pela camiseta. — Não pode ser!


— Com licença, garanto que se eu não fosse real — o personagem se inclinou na nossa direção e concluiu com sarcasmo — eu saberia.


Alice, feio uma idiota, gargalhou e fui obrigada a assistir boquiaberta.


— Não foi boa ideia vir até aqui — Edward relanceou os olhos pelo apartamento e encerrou fitando-me com estranha superioridade. — Só queria me desculpar pelo incidente dessa madrugada. Só isso. Bom dia — ele saiu fechando a porta.


Não fui capaz de me mover. Embora a cada segundo ficasse mais evidente que nosso encontro foi real, meu cérebro não encontrava coerência em absolutamente nada.


(...)


Alice preparou-me um chá, cobriu-me com um cobertor e começou o interrogatório. Expliquei-lhe tudo que conseguia, contei sobre a história que Helena e eu escrevemos e como o novo morador parecia ter emergido dela. Minha amiga escutou-me atentamente, contudo, identifiquei em seus olhos a mais pura incredulidade.


— Arreganha os ouvidos, Bella. Por favor, me entenda — recolheu a xícara vazia. — Está isolada a tempo demais. É fácil deixar a imaginação fluir quando se passa os dias e as noites entre livros e filmes. Edward é um nome bem comum, e por pura coincidência você encontrou um com o apelido de Lucky.


— E a cicatriz? — enfatizei.


— Outra banal coincidência.


— Tudo bem, eu admito, não faz o menor sentido. É impossível e certamente estou perdendo a sanidade — gemi inconformada. — Só que eu o reconheço, Alice. Reconheço como um artista reconheceria sua obra dentre várias. Não estou falando de razão e sim de intuição, e a minha grita que é ele.


A apelação nos jogou no mais puro silêncio. No minuto seguinte, Alice empenhou-se em encontrar motivos para não aconselhar a minha mãe a me internar. Quanto a mim, fiquei presa no mesmo dilema.


— Se é assim, me deixa colocar os olhos nessa história — enfim se pronunciou.


— Não está comigo — desviei o olhar para as janelas.


— E tá com quem?


— Peter.


Pronunciar o nome era quase tão difícil quanto recordar o passado.


...


— Todas as crianças crescem, menos uma — quem leu foi Peter, mas não o Pan, o Devon, meu vizinho de onze anos. — Elas logo descobrem que vão crescer, e a maneira como Wendy descobriu isso foi a seguinte. Um dia, quando tinha dois anos, ela estava brincando no jardim e, depois de colher mais uma flor, correu para junto de sua mãe. Acho que devia estar linda, pois a Sra. Darling levou a mão ao coração e exclamou: "Ah, se você ficasse assim para sempre!"... — Peter bocejou, entediado por sempre ler o mesmo livro para mim.


Lembro-me que eu também tinha onze anos e que já era bem tarde da noite. Devia estar dormindo, mas não queria sair da varanda da casa de Peter. Sabia muito bem que ficaria de castigo caso minha mãe não me encontrasse na cama, entretanto, preferia isso a escutar meus pais discutindo... De novo.


Quase todos os finais de semana eles brigavam e, na maior parte das vezes, por meu pai vender as poucas coisas que tínhamos. Viciado em jogos de azar, ele era conhecido por sua falsa elegância. Diante dos amigos mostrava-se próspero e gentil, mas em casa, era diferente.


Nas vezes em que as discussões se arrastavam noite adentro, eu sempre escapava pela porta dos fundos. Só de pijama e descalça, rodeava a casa correndo até alcançar a cerca de arame que dividia meu jardim do de Peter. Atravessava a cerca por um pequeno buraco e me refugiava na varanda dos Devon.


Peter e eu éramos muito unidos. Falo do tipo de amizade em que você não sabe explicar como começou, mas sente que a pessoa sempre esteve lá. Sempre.


— ... Wendy continuou embaixo da coberta, mas ouvindo-o com toda a atenção. Então, numa voz à qual nenhuma mulher conseguiria resistir, ele declarou: Uma menina vale mais do que vinte meninos...


— Não! — interrompi chateada. — Você pulou um monte de páginas. Isso não vale!


Assim como Alice, Peter sabia que muitas vezes eu me desligava da realidade. Sempre que podia ele se aproveitava desses lapsos para me pregar peças.


— Não pulei coisa nenhuma — encarou-me com seus olhos azuis bem arregalados. — Você que não estava prestando atenção — fechou o livro com força. — Não vou ler mais nada. É chato.


— Trapaceiro — resmunguei pelo canto da boca. — Já que é assim eu vou pra casa — levantei do chão.


— Espera! — Peter se apressou e colocou-se na minha frente. Mesmo sendo tão jovem, eu sabia que aquele garoto faria qualquer coisa para me manter longe da tristeza que era ouvir meus pais se agredindo.  — Tá bom... — revirou os olhos de um jeito engraçado. — Eu trapaceei.


— Agora vai ler direitinho? — contive o entusiasmo enfiando as mãos nos bolsos do pijama.


Primeiro Peter bufou meio insatisfeito, em seguida, foi certificar-se de que seus pais ainda dormiam. Ao voltar, a primeira coisa que encontrou foram os meus esperançosos olhos. Vencido, abandonou a expressão séria e abriu um largo e matreiro sorriso. Aquele adorável jovem de cabelos loiros encaracolados já derretia os coraçõezinhos de muitas meninas da rua. Inclusive o meu, ainda que eu não entendesse o porquê.   


...


— Ô doidinha — Alice me cutucou. — Se é pra apagar de novo, faz isso na cama que eu preciso trabalhar — levantou-se colocando os fones do iPod nos ouvidos.


— Só isso? Vai sair sem dizer se acredita ou não em mim? — voltei a ficar apreensiva.


— Deixa o papo pra outra hora, porque ao contrário de você, não tenho milhares de verdinhas numa poupança. Além disso, soube que ontem teve festinha de aniversário no apartamento 6 e quero ver o que sobrou na geladeira — a diarista fugiu antes que eu pudesse abrir a boca.


As horas passaram, o dia se foi, só que a minha aflição não. No começo da noite levei meu notebook para cama e digitei na barra de busca do Google: como saber se estou enlouquecendo. Surgiram aproximadamente 485.000 resultados, o que me apavorou o bastante para não checar nenhum dos sites. No fundo, preferia não saber a resposta.


Pouco tempo depois me bateu uma crise de ansiedade. Comecei folheando alguns livros, mas não li nenhum. Então fiz a cama e no minuto seguinte, desarrumei só para arrumá-la novamente. Caminhei algumas vezes pela sala e durante todo esse tempo não ouvi um só ruído vindo do apartamento de cima. Naquele momento preferia uma barulheira indicando presença humana, do que a dúvida se existia realmente um Edward morando ali.


Feito a retardada que já provei que sou, esperei até cair sonolenta na cama. Fechei os olhos só para abri-los um segundo depois, despertando abruptamente com a maldita música alta. Sim, ele havia chegado e já me aborrecia batendo a droga da bola de basquete no piso.


Infelizmente meu desejo foi atendido, o homem se manifestou confirmando que era tão real quanto o travesseiro que eu abraçava. Sem saber como lidar com a situação, fixei meus olhos no teto e tentei refletir sobre quatro importantes questões:


1ª - Porque ninguém mais parecia se incomodar com a desordem?

2ª - Se minha intuição estivesse correta, e aquele Edward fosse o mesmo da história, então Helena teria sonhado com um sujeito real? Embora nunca o tivesse conhecido?

3ª - E se o universo estivesse bagunçado o bastante para tal conexão ser possível, seria também possível que a maioria dos eventos descritos no diário coincidisse com antigos acontecimentos da vida de Edward?

4ª - De todas as pessoas do mundo, por que justo ele foi revelado em sonho à Helena?


As quatro questões só escancararam a porteira para muitas outras. Quanto mais eu pensava menos entendia. Sentia-me dentro da série Além da Imaginação.


— Minha cabeça vai explodir — choraminguei afundando o rosto no travesseiro.


Os ponteiros do relógio no criado mudo quase me enlouqueceram enquanto tentava ceder ao sentimento de negação. Fiz um esforço para rejeitar as coincidências, apagar o incidente e seguir com minha rotina. Mas como sufocar a intuição? Se eu estivesse enganada isso não faria mal a ninguém, todavia, se estivesse correta, teria encontrado no mundo algo verdadeiramente extraordinário. Talvez um caso único que merecia ser analisado a fundo.


Em meio a tantos pensamentos enxerguei apenas duas escolhas: podia ficar em casa chupando o dedo e batendo a cabeça na parede alegando insanidade, ou me aproximar de Edward e investigar sua vida para, quem sabe, compreender a razão de Helena ter sonhado com ele.


— Todo mundo gosta de cupcake, certo? — mordi o lábio na dúvida.


(...)


Traumatizada com a campainha, preferi bater na porta do apartamento 21. Achei que esfolaria os dedos na madeira, mas na sexta batida finalmente Edward atendeu-me.


— Olá. Eu sei que começamos com o pé esquerdo e pode até ser tarde demais para isso, mas vim te dar as boas vindas — com um sorriso forçado, estendi o prato com quatro cupcakes. — Pode pegar, preparei agora a pouco.


Descamisado, com os cabelos bagunçados e o rosto inchado, o novo morador estreitou os olhos ao dizer:


— São cindo da manhã.


— Viu só, está na hora do café — ergui o prato até o seu rosto. — Prove, são light.


E ele provou, mas não o cupcake e sim a satisfação de dar com a porta na minha cara. Rude!


— Salgadinhos então? — insisti em voz alta.


Retornando ao apartamento entendi que por conta da má impressão que, certamente, Edward já possuía a meu respeito, o único jeito para conseguir sentar e conversar com ele seria atraindo-o até mim. Mas como?

***

| Narração Edward |


Rolei na cama ouvindo o aspirador de pó. Inicialmente ignorei o barulho por estar sonolento demais, só que depois lembrei que eu não tinha aspirador e abri os olhos.


— Mas o que é isso?! — transtornado, rapidamente puxei o edredom para encobrir a nudez.


A moça que antes dançava enquanto aspirava, desligou o aparelho e retirou os fones de ouvido. Com um sorriso abobalhado ela puxou do bolso um pedaço de papel e me entregou. Nele estava escrito a lápis ‘Vale Faxina’.


— Qual o problema com as pessoas desse prédio?! — vociferei incrédulo. — Como entrou aqui?


— Sua amiga que foi embora me deixou entrar — a baixinha explicou e sua voz infantil ativou minha memória. Tratava-se da diarista que conheci no apartamento da vizinha sujismunda. 


— Dá o fora! — fechei a cara.


— Mas eu ainda não terminei.


— AGORA! — bradei levantando-me e a invasora saiu correndo com o aspirador. — Que gente mais louca! — grunhi me livrando do edredom.


— Posso pegar as roupas pra lavar? — a mulher reapareceu.


— NÃO! — fiquei estarrecido com a insistência.


(...)

Após o banho decidi tomar uma providência e procurei a síndica. Já estava farto de ser importunado e alguém ali teria que pôr um fim nisso.


— Não é a primeira vez que se queixam da Srta. Swan — esclareceu a síndica me servindo uma xícara de café em sua sala repleta de plantas de plástico.


— Posso apostar que não — provei do café que estava tão amargo quanto a cara da síndica.


Descendente de alemães, a Sra. Strauss era demasiadamente magra e de baixa estatura. De postura aparentemente íntegra e formal, a senhora de 60 anos vestia-se com um recato que beirava o exagero.


— Os moradores sentem... Como posso explicar...? — com um prolongado suspiro sentou-se na poltrona à minha frente. — Digamos que se sentem incomodados com o estilo de vida da moça. Aqui no prédio ela é conhecida como a neurótica do 12. Já a criançada a chama de ‘a noiva cadáver’.


— É mesmo? — não fiquei nada surpreso. Que a garota era doente mental eu já sabia, afinal ninguém sai por aí alegando na sua cara que você não existe. — Qual exatamente o problema dela? Esquizofrenia?


— Eu não sei. Ela comprou o apartamento há dois anos e desde então nunca mais saiu do prédio. Os rumores são de que, às vezes, de madrugada, vaga pelos corredores vestida de noiva. Para ser honesta, eu mesma nunca vi.


— Inacreditável — lamentei balançando a cabeça. Tantos prédios em Manhattan e escolhi justo um dominado por uma “noiva zumbi”. — E a mulher é violenta?


— Até agora não agrediu ninguém, mas isso não diminui a sensação se insegurança de alguns pais.


— Entendo — apoiei os cotovelos nos joelhos e baixei a cabeça. Lutei o quanto pude contra a curiosidade e acabei sendo vencido. — A senhora sabe qual a história da urna mortuária que ela guarda em casa?


Quando fui me desculpar com a sujismunda por tê-la atendido pelado, tive a oportunidade de analisar sua residência. O lugar possuía certa atmosfera sombria, talvez porque todas as cortinas estavam fechadas, e a única iluminação provinha de velas espalhadas em cima da lareira. A quantidade era tanta que a cera transbordava para fora da superfície, solidificando em cascatas. Em meio à variedade de velas havia uma urna negra que me chamou a atenção. Apesar de não ser uma prática tão rara guardar cincas mortais, eu nunca tinha conhecido alguém que as colocasse em exposição na sala.


— Até onde sei, são as cinzas do noivo dela. Desconheço como e quando ele morreu, mas alguns acreditam que ela o matou. Sr. Cullen, eu sei que soa como mera fantasia de cabeças desocupadas, porém hoje em dia... Vai se saber?!


A síndica esperou por minha reação e ao ver-me indiferente, procurou disfarçar a frustração. Provavelmente costumava tecer teorias com os moradores e pensou que eu entraria para o time.


— Ao menos agora sei com quem estou lidando — levantei-me e apertei a mão da senhora. — Obrigado por me atender.


Apressei o passo antes que insistisse para que eu tomasse todo o café.


— Espere! — pediu quando eu já estava na porta.


— Sim? — receoso olhei para trás.


— Não vai assinar o abaixo-assinado?


— Hein?


— Francamente, Sr. Cullen — se chateou. — O abaixo-assinado para a Srta. Swan deixar o prédio. Faltam pouquíssimas assinaturas.


Franzi o cenho na dúvida. Também preferia a mulher longe da minha casa, só que não queria me envolver nos problemas de outros, eu já tinha os meus.


— Depois volto — saí fechando a porta.


(...)


Não tinha planos de ficar em casa, precisava correr atrás de dinheiro. Apanhei minha carteira e chaves no criado mudo, mas não achei meu celular. Procurei na sala, na cozinha, no banheiro e não o encontrei. Impaciente, peguei o telefone e liguei para o celular. Quando começou a chamar voltei a vagar pelo apartamento, mesmo sem escutar o toque. Inesperadamente, atenderam a chamada, mas não reconheci a voz do outro lado da linha.


— Quem fala? — averiguei.


Por favor, seu moço, não se aborreça. Eu posso explicar.


Desliguei imediatamente.


— Só pode ser brincadeira! — enfurecido, joguei o telefone no sofá.


Impelido pela raiva, saí de casa e rapidamente desci as escadas. Os poucos degraus pareciam centenas diante da minha ansiedade para chegar ao apartamento 12. Farto de ser educado, arrumei a gola da jaqueta e logo depois apertei a campainha com força. Quase que instantaneamente, a sujismunda abriu a porta e temeu minha expressão desgostosa.


— Vamos com calma, Lucky — pediu afastando-se.


Com um passo largo invadi o apartamento e, sem rodeios, comecei a despachar a verdade sem me importar com sua condição mental. 


— Olha aqui, moça... Eu não sei quem você pensa que é, ou quem pensa que eu sou, só sei que você passou dos limites. Não tem o direito de me importunar ou mandar uma faxineira furtar o meu celular — diminuí ainda mais a distância entre nós. — Sinto muito por seus problemas, mas não me envolva neles. Se estiver procurando alguém para aborrecer, sugiro que procure um psiquiatra.


— Pra trás, Edward Cullen! — replicou sem hesitar. — Sei que sempre foi tempestuoso, mas não precisa extrapolar na grosseria.


— Falou e disse — concordou a diarista, sentada no sofá agarrada a um pote de sorvete.


— Tem certeza que me escutou? Se não, apenas entenda: me deixe em paz! — arranquei o celular de sua mão.


— O que aconteceu? — reclamou decepcionada. — Você costumava ser tão... legal.


Retrocedi para conter a fúria, estabelecendo uma distância segura entre nós.


— Por favor, não fique agindo como se me conhecesse.


— Mas eu conheço.


— Não, não conhece! — acentuei.


— Sim, eu conheço!


— Não, não conhece!


— Ih, essa discussão vai longe... — resmungou a diarista, lambendo uma colher.


— Tudo bem, eu sei que está confuso — a neurótica sacodiu as mãos para aliviar a tensão. — Começamos mal e agora está difícil de te fazer compreender que sou sua amiga. Claro, uma amiga que nunca viu antes, mas que, talvez, te conheça melhor do que ninguém.


— Como? — cruzei os braços, indignado. — Diz isso por que bisbilhotou o meu celular?


— Não, eu só... — ela diminui a voz.


Observei as inquietas mãos da vizinha descerem até a barra do pijama branco. Visivelmente instável, murchou perante os meus olhos. Um segundo atrás me enfrentara com atrevimento e agora mal podia sustentar o meu olhar. Acreditei que não teria mais nada a acrescentar, que se dera por vencida, entretanto voltou a desatinar.


— Minha irmã escreveu uma história sobre a sua vida — ela fechou os olhos para não ver minha reação.


Tudo o que eu fiz foi assentir com a cabeça, lastimando o tempo perdido com a discussão. Censurei-me por ter estendido o bate-boca, claramente o melhor a fazer seria evitar e ignorar a transtornada.


Sem mais, dei meia volta e deixei o apartamento. Infelizmente, a mulher me seguiu alucinada, tagarelando que ela mesma mal acreditava no que acabara de me contar. Que em alguns momentos sentia uma inabalável certeza, enquanto em outros, preferia comer os dedos a tentar me convencer do impossível.


Mantendo-me indiferente, continuei subindo os degraus e a diarista fez o que há muito eu desejava, tapou a boca da louca e implorou para ela ficar quieta. Segui meu caminho pelo corredor, mesmo sentindo as duas em meu encalce. Voltei para casa e tranquei a porta, depois me direcionei até o elevador e apertei o botão. Enquanto aguardava, reparei, pela minha visão periférica, que Swan estudava-me. Algo no meu cabelo a instigou a ponto de tocá-lo.


— Com licença — esquivei-me e ela recolheu a mão, reprimindo uma risada.


Assim que as portas do elevador se abriram, corri para dentro esperando ficar sozinho, porém as inconvenientes não desgrudaram de mim. Desconcertado, não sabia exatamente como despistar as mulheres, pois eu costumava assediar e não ser assediado. Necessitei repetir mentalmente: fica frio, isso vai passar.


— Se lembra de como foi esfaqueado? — a indiscrição partiu da mais pirada.


— Pelo amor de Deus, Bella! — a diarista a repreendeu. — Não se pergunta as pessoas como foram esfaqueadas!


Salvo pelo gongo, abandonei o elevador logo que ele parou. Cobri a cabeça com o capuz do blusão e rompi prédio afora. Entretanto, na calçada, não resisti à curiosidade e discretamente olhei para trás. Swan não ultrapassou a soleira, ficou há centímetros das portas de vidro. A visão me lembrou do que a síndica falou: ela comprou o apartamento há dois anos e desde então nunca mais saiu do prédio.


Satisfeito em constatar que me livrara temporariamente da neurótica do 12, atravessei a rua focando-me em preocupações maiores, muito maiores.


(Continua...)



Notas finais do capítulo

Agora é com vocês, me ajudem comentando e recomendando. Vou responder todos os reviews. Nesse cap não teve música, mas no próximo sim. Agradeço às pessoas que nunca me deixam desistir do que me faz feliz: namorido, Tammy Telles e Luísa G.

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Até mais,

Lunah.