Um Sopro De Felicidade escrita por Mihara


Capítulo 35
Capitulo 35 - João Ninguém


Notas iniciais do capítulo

Desculpem pela demora, realmente estou muito ocupada, mas não deixei de escrever em nenhum momento. Decidi cortar um pouco os capítulos finais, mas sem problema. Espero que gostem!



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Capitulo 35

João Ninguém

"O tempo muitas vezes funciona ao contrario, torna-se tão lento que fica insuportável aguentar, ou se passa tão rápido que não percebemos o avançar das horas. O que seria o tempo? Envolto de muitos mitos e lentas, misterioso e insaciável, ele não espera por ninguém. Seria tão poderosa a pessoa que domina o tempo, mas esta pessoa não estaria procurando a felicidade através do tempo?"

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Alguns anos depois...

A multidão assistia impressionada, vibrando com tanta força e batendo os pés, que fazia as arquibancadas ranger, pessoas gritavam e batiam nas grades, fazendo apostas de todos os tipos e valores.

—GAIOLA!

Gritava a multidão num coro unido. A grande gaiola. Um ringue central cercado por grades, trancado por fora com um cadeado que só era aberto após um dos lutadores estarem nocauteados. Era conhecida por suas famosas brigas de galo no submundo, sendo caçadas pela polícia, no entanto, era mantida fora do conhecimento do publico.

Syaoran limpou o canto da boca, riu um pouco, não fora nada aquele soco. Seu corpo se tornara forte, por mais que a vista de um de seus olhos estivesse perdida, estava com os reflexos afiados. Olhou para o cara a sua frente, era grandão. Claramente estava irritado, vendo que seus socos não estavam fazendo o efeito que queria, mas é claro, Syaoran não tinha partido para o ataque ainda.

Rodeou um pouco o ringue e deixou as mãos em frente ao rosto, em posição de guarda. Queria terminar logo com isso, pegar seu dinheiro e ir embora. Estudou um pouco o grandalhão, ele mantinha sempre a perna direita na frente como apoio, sinal que era canhoto, pois chutava com a outra perna com mais força. Chute potente. Mantinha as mãos um pouco mais a baixo do queixo, sinal de que estava zangado e esquecera-se de proteger a guarda. Seu soco do lado direito deveria estar um pouco mais fraco que o normal, pois seu ombro estava com um hematoma grande, o músculo bíceps e tríceps deveriam estar doloridos. Uma abertura.

Chegou mais perto e deixou o grandalhão fechar o resto da distancia, ele deu um passo com o pé direito preparando o chute, mas Syaoran o desequilibrou dando um pequeno empurrão em seu pé, depois ele tentou dar um soco com o braço esquerdo, mas foi bloqueado, recebendo um soco no diafragma, deixando-o sem ar. Segurou o ombro com o hematoma e deu uma torção de braço, forçou até sentir um estalar de ossos, depois deu um chute em suas costas empurrando-o contra a grade. Era o fim da luta.

—Desculpe amigão, nada pessoal. Sei que você vai se matar depois com outras lutas mesmo. Pode considerar que te dei um tempo a mais de vida.

E como sempre, metade da plateia começou a bater nas grades, revoltados por terem perdido a aposta, provavelmente pessoas recentes, que não tinham visto suas lutar anteriores, quem iria apostar em um magrelo ao invés de um grandalhão cheio de músculos? Mas não se importava com isso. Queria apenas seu dinheiro.

—Vejo que você esta em boa forma ainda, preparasse para outra luta, vai ser contra o ganhador da rodada anterior. Ele vem ganhando rodadas seguidas há semanas.

O gordinho a sua frente era o organizador das lutas, ele que era responsável por seu dinheiro também. Olhou para o outro lado do ring, onde estava o cara com que lutaria na próxima rodada. Não muito robusto, com um sorriso irônico no rosto, encarando de volta. Típico lutador de vale tudo, suas vitórias seguidas o deixara confiante, seria fácil ganhar dele, bastava analisar seu comportamento para saber no que sucederia a luta.

—Estou fora, já juntei dinheiro o suficiente.

Syaoran nunca lutava mais que o necessário, ganhava apenas o que precisava para sobreviver. A América era um lugar difícil para estrangeiros como ele, ainda mais alguém com sua reputação. Era meio difícil arrumar um bom emprego, pois ele não tinha mais um nome para usar.

—Você não pode fazer isso mais uma vez! – disse o gordinho o seguindo. – Já esta sendo conhecido como covarde!

—Não me importo, quero apenas que me pague!

—Não pagarei nenhum centavo até a próxima luta – o gordinho começou a sorrir – escute, posso te pagar dobrado, e com um adicional.

Ele retirou do bolso um pequeno saquinho com um pó branco dentro e colocou nas mãos de Syaoran, que analisou o conteúdo.

—Tem muito mais de onde esse veio.

Syaoran apertou o saco, estourando-o, e esmurrou o muro atrás do gordinho, que se encolheu, suando frio. Isso já tinha acontecido antes, ele sabia que não podia com Syaoran sozinho.

—Quero apenas meu dinheiro!

—Isso ainda vai atrás de você Syaoran, você é do submundo, nunca vai escapar dessa vida!

Pegou o dinheiro que queria e saiu andando antes que acabasse esmurrando o gordo sem vergonha a sua frente.  No banheiro, olhava para o espelho encarando seu próprio reflexo, a frase do gordo havia ficado em sua mente. Por mais que lavasse as mãos, tinha a sensação que elas ainda estavam imundas. Vestiu um moletom e contou o dinheiro dentro do saco.

—Gordo desgraçado, me passou a perna de novo.

Mas não importava mais, já tinha o que precisava. Quando estava perto da saída uma mão agarrou seu ombro.

—Eu já não disse que não vou mais...

—Muito bom te rever, Syaoran!

Como um quadro de memórias, suas lembranças voltaram à tona, todo seu passado estava ali na sua frente naquelas duas pessoas.

—Lieng, Watanuki?!

Syaoran os levou para uma sala privada onde poderiam conversar a vontade. Surpreendeu-se ao encontrar aquelas duas figuras juntas, pareciam até de mundos diferentes. Se parasse para analisar direito, eles realmente eram de dimensões paralelas. Lieng parecia muito diferente, carregando um semblante calmo, como se toda a raiva que sentia antes tivesse se extravasado, seu cabelo crescera até os ombros e sua estatura estava um pouco maior que antes. Quanto a Watanuki, o mesmo rosto de sempre, até parecia muito mais feliz e animado do que antes, depois de tanto tempo em um mundo que não era seu, convivendo com pessoas como aquelas, não estranharia se ele tivesse ficado louco.

 

—Passaram-se quantos anos desde a ultima vez que nos encontramos Syaoran? – perguntou Watanuki. – cinco talvez? E pensar que você sumiria sem avisar, mas que coisa!

—É muito bom ver vocês também, você também primo – ele repensou por um momento – ou quase, deve estar com raiva não é?

—Eu? Descobrir que meu rival na verdade nunca foi herdeiro do clã e que eu sempre tive o direito ao poder? Foi revelador – ele baixou a cabeça tirando o tom de sarcasmo – Sinto falta de você lá. Toda aquela minha arrogância era apenas estupidez. Você tinha coragem para enfrenta-los, coisa que nunca consegui fazer. E agora que estou no poder eles montam em cima de mim que nem cavalo com cela.

—Você esta no poder?

—Yeilan não te contou? Ela renunciou a posição como chefe do clã, pensei que ela tivesse te contado, você mandava cartas pra ela não é?

—Eu parei há muito tempo!

Syaoran nunca mais teve coragem de mandar cartas para sua mãe enquanto frequentava os rings de luta para ganhar dinheiro, desde o inicio nunca fora um trabalho honesto. Sentia que estava usando tudo o que ela lhe ensinou para coisas erradas, era vergonhoso.

—Não sei o que a fez mudar de ideia, largou toda a família e foi embora. Precisou muita coragem pra fazer isso, esta morando no campo agora. Foi uma grande decisão. Então, eles sucederam a mim, mas querem apenas um burro de carga.

—Acho que não tem pessoa melhor do que você para governar aquela gente, pise em cima deles como tentava fazer comigo, sem do e piedade. Sei que você consegue.

—Tento sempre segurar as rédeas.

—As coisas têm sido muito difíceis? – perguntou Watanuki a Syaoran.

—Vou levando a vida – ele riu – ou quase.

—Esta lutando em rings Syaoran, você é praticamente um mestre nas artes marciais, isso é um desperdício. – disse Lieng.

—Eu sei, também odeio isso, mas é a única coisa que sustenta no momento.

Ambos os amigos olharam piedosos para o chinês, sabiam que não era nada fácil para o garoto.

—Syaoran, temos uma oferta para fazer a você. – disse Watanuki.

—Se pensam que vou procurar Sakura podem esquecer! Ela esta melhor assim.

—Não, não. Já sabemos que você é teimoso feito uma mula – disse Lieng. – mas ainda assim, é uma boa proposta, pelo menos, você vai conseguir viver melhor do que se encontra agora.

—Venha para o Japão conosco Syaoran, apenas uma oferta de trabalho.

—Oferta de trabalho? Sabe que não posso aceitar, não posso me vincular a nada que tenha a ver com o clã.

—Não é nada com o clã, apenas estou ajudando na abertura, já que o Watanuki disse que não entende nada de negócios. – disse Lieng.

—Vamos Syaoran, é uma grande oportunidade. – Watanuki insistiu.

—Eu não sei.

—Você já pagou o preço pra Yuko, Sakura esta vivendo uma vida feliz ao lado da família, e até mesmo sua mãe decidiu fazer algo, esta na hora de correr atrás de sua vida. – insistiu Lieng.

Os três ficaram em silencio, aguardando uma resposta. Syaoran não queria alimentar falsa esperança, sabia que se fosse para o Japão, a cada rua que virasse esperaria se deparar com Sakura. Ela já devia ter uma vida feita, terminado os estudos, com uma boa pessoa para cuidar dela, quem sabe até casada. Não aguentaria ver isso.

—Syaoran! Se você acha que realmente fez certo em suas escolhas com relação a Sakura, então tudo bem, mas não quer dizer que você deva se isolar por causa disso. Corra atrás de sua vida, você tem amigos e pessoas que te apoiam. – disse Watanuki.

—Você esta livre agora Syaoran, pode montar uma vida boa sem depender do clã, ser um alguém com seu próprio esforço. – completou Lieng. – Sabe que eu e Meiling sempre vamos te apoiar, você também tem Yeilan que te ama como um filho.

Muitas memórias vieram em sua mente, apesar de poucas, ele também teve pessoas importantes em sua vida. Olhou para os dois, que o encaravam esperando uma resposta. Seria uma chance? Ser alguém na vida.

—É apenas uma oferta de emprego, pense nisso. – insistiu Watanuki.

Se ele saísse por daquela sala sozinho, voltaria para a Gaiola mais uma vez, e acabaria lutando com o cara de sorriso irônico que havia visto, e depois com muitos outros. Também era uma grande chance para se estabilizar financeiramente, encontrar sua mãe e pedir desculpas por não entrar em contato por tanto, ser alguém na vida. Mesmo assim, ainda sentia um grande medo de aceitar, medo de encontra-la, pois ainda a desejava, tão apaixonadamente quanto antes. Mas agora ele era um João Ninguém.

—Qual a sua resposta Syaoran – perguntou Lieng.

O chinês apenas abaixou a cabeça e encarou os próprios pés, apertando as mãos apoiadas nos joelhos com força. Respirou fundo e encarou as pessoas a sua frente, tomando uma decisão.

—Eu acho melhor...

—Syaoran-san! – bateu alguém na porta. – Syaoran-san! Estão chamando seu nome no ring central.

Syaoran levantou confuso, abriu a porta e ouviu a segunda chamada para o ring. Olhou para Watanuki e Lieng que esperavam por uma resposta sua.

—Minhas lutar por hoje já acabaram. – informou ao homem baixinho a sua frente.

—Bom, não é o que parece. Ande logo, aquele publico é difícil.

    Antes que Syaoran fosse arrastado, Lieng correu e segurou o braço do primo.

—Syaoran, depois dessa luta, venha conosco. Por favor – o chinês foi empurrado pelo informador, Lieng gritou do final do corredor – Ainda hoje!

Não teve muito tempo para pensar, o barulho da multidão era quase insuportável. Assim que ele apareceu, muitos gritaram. De longe, Syaoran pode ver o gordinho safado que lhe passou a perna, sentado e sorrindo abertamente, isso era coisa dele. Foi empurrado diretamente para dentro da gaiola mais uma vez.

—SENHORAS E SENHORES, FAÇAM SUAS APOSTAS! DE UM LADO DA GRADE, ELE! VENCEDOR DE TODAS AS LUTAS ATÉ AGORA, DEGOLADOR E DESTRUIDOR, SEUS OPONENTES NÃO SOBREVIVERAM PARA CONTAR HISTORIA. O GLADIADOR!

E mais uma vez, a multidão grita alvoroçada, como uma grande onda, todos começam a bater as mãos em punho nas pernas e os pés no chão, como um ritual. O gladiador entrou na plataforma com os braços para o alto, demonstrando seu obvio nível de popularidade.

—E ELE, VINDO DIRETAMENTE DA CHINA, TERRA DAS ARTES MARCIAIS MILENAR. MESTRE DO KUNG FU SEM PIEDADE. PEQUENO LOBO.

     Syaoran notou que muitos aplaudiam apenas pela emoção, mas era obvio por quem estariam torcendo. Não importava, seria fácil acabar com aquela luta, depois ia ensinar umas lições ao gordinho sem vergonha.

—QUE COMECEM A LUTA!

Posicionou colocando uma das mãos para trás e outra a em guarda, vendo a personalidade de seu oponente, sabia que seria um ataque direto. E assim foi feito. No entanto, antes que pudesse se defender, dois braços o agarraram por trás das grades, prendendo-o firmemente. O gladiador atacou seu estômago sem descanso, sempre revezando entre seu estômago e seu rosto. Então era esse tipo de luta, queriam se livrar dele. Tentou se defender, usando as pernas, mas o homem estava muito perto para poder chutar direito. Quando levantou uma perna para tentar acertar o golpe, mais duas mãos seguraram seus pés.

Syaoran estava apanhando feio, mas por algum motivo, via tudo em câmera lenta, o som dos espectadores estava abafado, devia ser efeito do sangue que escorria por seus ouvidos. Lembrou-se primeira maior surra que levou quando moleque, em que os meninos o cercaram. Foi quando Syaoran aprendeu a realidade do mundo. Nunca teve nome próprio, era um João ninguém. O gladiador parou para respirar, olhou para Syaoran, que se mantinha em pé apenas pelos braços que ainda o seguravam contra a grade. Olhou para a multidão, levantou os braços novamente e todos gritaram.

Mais um valentão no mundo, pensou Syaoran. Sentiu raiva, não era justo. Porque ele tinha que apanhar? Porque tinha que sofrer? Não tinha, não ia. Não deixaria mais as coisas escaparem por seus dedos novamente. Não pisariam nele de novo. Ele também tinha aprendido a bater.

Sentiu o peito queimar, algo de dentro dele queria sair, e ia deixar. Uma grande explosão de chamas incendiou o ring. Os braços o largaram no mesmo momento. Syaoran correu contra o gladiador e chutou seu estômago, socando seu rosto fazendo com que ele fosse para o chão. Ia socar até que arrebentasse as mãos, mas parou quando viu apenas um homem amedrontado, colocando os braços sobre o rosto para se defender. Syaoran olhou em volta, a multidão estava calada, olhando para ele assustados.

Ele estava em chamas.

Assim como na infância, Yeilan falou que aquele era um poder dele próprio. O fogo se espalhou por todo o seu corpo, lambendo sua pele. Mas não queimava, apenas aquecia. Tentou se controlar para conter as chamas, respirou fundo e contou até dez.

Viu Lieg abrir a gaiola à força, ele entrou no ring e conduziu Syaoran pelo braço. Ele estava estático, se dera conta que se não tivesse parado, poderia acabar matando o pobre coitado.

—Acho que tudo isso é um sim, né?

   Lieng e Watanuki saíram carregando Syaoran até de volta ao hotel em que estavam hospedados antes que a confusão aumentasse.


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Notas finais do capítulo

E chegamos ao fim de mais um capitulo, logo colocarei o outro, em breve. Obrigada uma vez.



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