Mais Do Que Você Imagina escrita por RoBerTA


Capítulo 5
Eu tenho uma filha!


Notas iniciais do capítulo

Oooi gente linda! :3 Fiquei tão feliz com os reviews, que resolvi postar logo ^^ Eu caprichei nesse capítulo, então espero que gostem :)
BjxxxxxxxxxxxxxxxX
Boa leitura!!! ♥



— Ok, pode começar a falar. — Encaro meu irmão com os olhos semicerrados. Estamos no meu quarto, sentados na minha cama de frente um para o outro. A janela está aberta, e sinto a brisa noturna adentrar, carregando um sutil perfume de verão. A maioria das pessoas me lança um olhar estranho quando falo sobre perfumes. Eu sinto o perfume de tudo, algo que se cria dentro da minha cabeça, por mais impossível que possa parecer. O meu preferido é o cheiro da lua. É lírico. É poético. É impossível. E eu sempre fui apaixonada pelas impossibilidades.

Jimmy se remexe inquieto, e passa a mexer na minha colcha lilás de crochê. Ele fica alisando as pequenas margaridas. Estou ficando sem paciência, quando ele finalmente fala.

— Eu tentei beijá-la. — Fico sem saber o que dizer. Para mim isso não parece grande coisa, mas a menina era mais nova, e certamente pensava de um jeito diferente. Talvez tenha ficado ofendida.

— Só isso? — Ele suspira.

v Eu coloco uma poesia diferente em sua mochila todos os dias.

— E...

— Toda sexta feira eu deixo uma rosa vermelha em sua mesa.

Assobio.

— Uau, você realmente gosta dela, hein. Nunca te vi se esforçando tanto assim antes.

Seu suspiro é melancólico, enquanto ajeita seu loiro bagunçado.

— Sim, o pior é que gosto. Mas ela nem dá bola para mim. — Ele funga. Tristinho desse jeito, ele fica tão fofo, que tenho vontade de dar uma mordida nele.

— Ei, não fica assim não. Eu prometi que iria te ajudar, não prometi? A gente vai dar um jeito, você vai ver.

Ele sorri para mim, e parece um anjo. Essa Bianca não é normal. Ninguém em seu estado normal rejeitaria o Jimmy.

— Obrigado, Tina. Você é a melhor. — E me abraça. Ele é a única pessoa que eu conheço que me chama de Tina, e só quando está querendo algo, ou agradecendo algo. Ou seja, quase sempre.

— Ok, ok, eu sempre soube que era a melhor. Mas agora preciso dormir. Tenho aula amanhã. E detenção depois. — Aponto para meu pijama, uma regata branca com um ursinho engolindo a lua, e minha calça com estampas de moranguinhos. Meu pai quase pirou quando ficou sabendo da detenção. Minha mãe me surpreendeu sendo mais compreensiva, e quando eu perguntei o motivo, ela deu uma risadinha, e depois disse: “Ah, na sua idade...” Na minha idade o que, mãe? Eu perguntei, e ela deu outra risadinha como resposta. Mães.

— Tudo bem, amanhã a gente se vê antes de ir para a escola. Boa noite.

— Boa noite, Jimmy, bons sonhos. — Dou um beijinho em seu rosto, e ele vai para seu quarto. Suspiro e deito de costas na cama, e começo a contar as estrelas fluorescentes que colei no teto. Mas isso não dura muito, porque logo ouço pequenas coisas baterem contra minha janela. Rolo os olhos e vou até a janela.

Sou atingida em cheio no meio do rosto por uma pequena pedrinha. Gemo de dor enquanto esfrego o local atingido.

— Ops, foi mal. — Eric se desculpa, mas não parece muito culpado. Ele está sentado no parapeito da sua janela, que fica de frente para a minha. O destino não é muito gentil comigo, quando se trata de Eric.

— Sei, óbvio que sim. O que você quer, peste? — Pergunto mal-humorada.

— Eu ouvi a sua conversa com o Jimmy.

— Você o quê?! — Pergunto indignada. Ele dá de ombros, como se ouvir a conversa alheia não fosse nada demais.

— Sabe, fiquei até com pena do Jimmy. — Eric fica me olhando, incitando-me a perguntar o porquê. Tudo o que menos quero é satisfazê-lo, ao perguntar. Mas minha curiosidade vence.

— Por quê? — Pergunto cansada, ciente de que tenho que acordar cedo, e já deveria estar no sétimo sono.

Ele sorri de modo convencido, enquanto se ajeita na janela. Só agora percebo seu pijama, que é constituído de uma calça flanela azul, e uma camisa do Scooby Doo. Faço força para não rir, mas um sorriso acaba escapando, e quando ele o vê, sorri de volta.

— Bianca fez um voto de castidade. — Espera, o quê? — Ela quer ser freira, e essas coisas religiosas.

— Não.

— Sim.

— Não. — Repito.

— Você não espera que eu diga sim de novo, né?

— Ah, vai te catar. — Mas não estou prestando atenção nele. Estou pensando no pobre Jimmy, que finalmente estava realmente apaixonado dessa vez.

— E agora? Pergunto para ninguém em particular. Mas Eric responde.

E agora que ele deveria desistir dela. E você tem que ir dormir, doçura. Te vejo na escola.

Com isso Eric entra em seu quarto, e dá uma piscadela antes de fechar a janela e a cortina.

Deito na cama aturdida, olhando para as estrelas sem realmente vê-las.

Quando menos espero, o sono me apunhala, e viajo entre sonhos, dos quais sei que não me recordarei.

***

Pisco algumas vezes, tentando espantar o sono. Resmungo qualquer coisa, e saio rápido da cama, porque sei que se me demorar mais, não saio é nunca.

Fico com preguiça de me arrumar decentemente, com o sono ainda impregnado em mim, então coloco um vestido floral e uma jaqueta jeans por cima. Passo a chapinha nos cachos que começam a se formar, e após um pouco de rímel e gloss, declaro-me pronta.

No caminho para a porta pego minha mochila, e antes mesmo de descer, sinto o delicioso cheiro de café da manhã. Um dos meus cheiros preferidos.

— E aí, família? — Interprete isso como um “bom dia”. Eles me dão oi, e continuam comendo.

— Passa a manteiga, Jimmy. — Digo enquanto coloco café na minha xícara. Ele me passa, e eu pego alguns pães torrados perto da mamãe. Conversamos sobre banalidades, e não demora muito para que terminemos.

— Vamos, Jimmy. — Digo enquanto me levanto. Apenas escovo os dentes, e então saio de casa com meu irmãozinho. Ele detesta quando o chamo de “irmãozinho” ou “maninho”. Tudo o que faço é ignorar, e ser impertinente chamando-o novamente, só que com mais ênfase.

Andamos até o ponto de ônibus, e esperamos. Quando aquele monstro verde está dobrando a esquina, quase chegando, um Eric arfante chega correndo.

— Ufa, essa foi por pouco. — Ele diz, enquanto se recompõe. Apenas reviro os olhos. — E aí, Jimmy? Pegando muitas gatinhas? — Meu irmão cora feito um pimentão, e os olhos de Eric brilham com a desgraça alheia. Dou-lhe uma cotovelada.

— Ai! Porque fez isso, criatura satânica? — Ele esfrega o braço, no local onde lhe atingi, fingindo uma dor inexistente. Acho que Eric ainda vai pegar algum tipo de câncer nesse braço, se somar todas as inúmeras cotoveladas, tapas e socos que já recebeu no braço direito. De mim.

Sou poupada de responder quando o ônibus para à nossa frente. Eric faz um gesto exagerado para eu subir antes.

— Primeiro as damas. — E inclina a cabeça de modo debochado.

— Há! E por último os trouxas. — Puxo Jimmy, que sobe logo depois de mim. Sento em um banco no meio do ônibus, devido à minha teoria. Se você sentar na frente, quando o ônibus bater, você se ferra. Se você sentar atrás, e o ônibus levar uma batida, você se ferra. E se você sentar no meio, você só se ferra se tiver trem por perto. A boa notícia é que não tem um único trem onde moro. E nenhum trilho. De trem. Ah, tanto faz.

Sentamos, e Eric vai para o fundão, onde tem um amigo seu. Antigamente ele costumava sentar atrás de mim, para ficar me perturbando. Puxando meu cabelo. Batendo no meu banco. Recebendo socos de mim. O normal.

Não é um trajeto longo até a escola, e nesse meio tempo falo com Jimmy sobre um filme que havíamos assistido na semana anterior.

Quando o ônibus para, ficamos por último.

Descemos, e cada um vai para um lado. Eu dou um tchau que não é recíproco.

— Oi Bea, oi Daniel, oi Calli.

Calli é tipo minha melhor amiga. Ela chegou de viagem ontem de noite, por isso não foi para o primeiro dia de aula. Aliás, o nome dela é Callilda. E se você quiser continuar com vida, nunca a chame assim. Dessa vez seu cabelo está em um estranho tom de rosa pink. Ela está sempre mudando a cor de seus cabelos, de acordo com seu humor. O bom é que ela é uma pessoa sempre alegre, ou seja, as cores sempre são coloridas e vibrantes.

— Oi Chris! — Ela sorri, e esse é seu modo de dizer que sentiu saudades e que está feliz por me ver. Ela não é do tipo chegada em abraços ou demonstrações de afeto. Mas seu sorriso sempre diz tudo.

— Então, detenção hoje? — Daniel ergue uma sobrancelha, e tenho vontade de atirá-lo naquela lixeira laranja. Ela é a mascote da nossa escola, e seu laranja está quase inexistente por debaixo de tantas assinaturas e desenhos que a cobrem. Como quase todo mundo, ela também tem uma história.

— Sim, detenção hoje e amanhã. E depois da manhã. E depois, e...

— Ok, já entendi. — Bea me corta. Sempre tão prática.

— Por que você está de detenção? — Calli pergunta curiosa.

— Professor Borges. — Digo, e ela solta um “Ah”, como se aquelas duas palavras explicassem tudo. O que é verdade.

— Pergunta pra ela quem mais vai fazer detenção com nossa amiguinha. — Daniel me provoca.

— Quem? — Calli fica me olhando, curiosíssima, esperando uma resposta.

— Eric. — Murmuro baixinho.

— Quem?

— Eric! — Digo alto demais, e umas patricinhas que passam por nós me olham de um jeito estranho.

Então Calli começa a rir. E se dobrar de tanto rir. Tento não ficar irritada, mas é inútil.

— Bela amiga que você é, Callilda.

Ela para imediatamente e me atira um olhar indignado.

— Ei! — Reclama.

— O que foi? — Pergunto de uma forma inocente.

— Problemas no paraíso? — Adivinha quem é o dono dessa frase? Dou uma balinha para quem acertar. Se bem que não teria balas o suficiente.

— Mas você é metido, hein. — Reclamo.

— Mas você é uma chata mal-humorada, hein. — Ele rebate, e me cutuca no ombro. Ele sabe que eu odeio quando me cutucam. Principalmente no ombro. Acerto outra cotovelada nele, que começa a rir de mim.

— Não tem graça!

— Na verdade tem sim, — Bea interfere — parece que você chupou um limão azedo.

Atiro um olhar acusatório para ela, que ignora enquanto fica praticamente secando aquele amigo do Eric, o Bruno.

— Que isso azedinha, fica assim não. — Eric diz isso em um tom que as pessoas usam para falar com bebês, e passa o braço por cima do meu pescoço. Empurro-o irritada, e nesse momento todo mundo está rindo de mim.

Sério, parece que todo mundo está sempre do lado daquele cretino. Argh.

Saio pisando duro e bufando ao mesmo tempo, e naquele momento o sinal toca, anunciando o início da aula. Sou a primeira da minha turma a chegar à sala.

Sento no meu lugar de sempre, e fico encarando o quadro negro. Aos poucos meus colegas vão chegando e preenchendo os lugares vazios. Então a professora Gina chega. Eu a adoro, e adoro sua matéria também, português.

Logo sou distraída por uma sacola preta que ela traz atrás de si, e larga ao lado de sua mesa.

— Bom dia turma! — Ela exclama animada. — Hoje tenho uma surpresinha para vocês!

Vish, surpresinhas, escola, professores, falta de sorte. Matem-me, e me poupem da tortura que virá a seguir.

— Então turma, eu andei pensando, e resolvi dar uma atividade diferente, que também irá ajudá-los futuramente. — Ela faz uma pausa, e pega a sacola do chão. Despeja seu conteúdo em cima à sua mesa. Revelam-se bonecas, tipo bebê. Acho até que já tive uma dessas. Faz um barulho infernal quando se aperta aquele botão para que chorem. São muitas, algumas em ótimo estado, e outras um pouco maltratadas. Começo a ficar confusa. Mas isso é por pouco tempo, já que depois do que Gina diz, fico em pânico. — Vocês serão mamães e papais por seis meses!

Seu tom é eufórico, e ela transborda de alegria. Não se ouve um pio do resto da turma.

— Vamos gente, cadê a animação?

— Professora, eu vou ser papai. E nem tenho uma namorada. Como você quer que eu fique animado? — Jaques, meu colega que sempre perde as oportunidades de ficar calado, exclama ultrajado.

Ela suspira, prevendo confusão.

— Isso não tem nada a ver com vocês terem um parceiro ou não. E no final do semestre, vocês terão que me entregar um relatório de como foi a experiência de ser pais.

— Eu posso abandonar meu filho na porta de alguém? — Eric brilhantemente pergunta. Só então percebo que ele está sentado ao meu lado. Tento manter mais distância, mas encontro nada mais que a parede atrás de mim.

— Claro que pode! — Ela diz alegremente. — Mas duvido que vá conseguir abandonar na porta de alguém o zero que vou te dar.

Alguns riem dele, enquanto Eric faz um gesto dramático exagerado.

— Vocês estarão em duplas. Uma mãe e um pai. — Quando as pessoas começam a se combinar, Gina logo acaba com nossa felicidade. — Será por sorteio.

Fecho os olhos com força. De um jeito inexplicável, eu sabia com quem ia acabar ficando. Falta de sorte era uma das minhas características mais marcantes.

— Eu já escrevi o nome de todas as meninas da turma, e os garotos irão tirar desse potinho — ela balança um pote preto em sua mão esquerda.

Ela começa passando pela minha fila, o que aumenta as possibilidades de certo alguém tirar meu nome.

John, um garoto que consegue ser mais chato e mal-humorado que eu, é o primeiro a tirar o papel.

— Callilda. — Ele diz em sua voz extremamente máscula. Olho para minha amiga, que nem parece se importar em alguém dizer seu nome em voz alta para toda a turma. Ela tem uma queda pelo John desde a oitava série. Mesmo ela sendo super alto astral, e ele é um chato do caramba. Vai entendê-la. Bom, pelo menos alguém vai sair feliz dessa situação.

Mais três garotos tiram os nomes das garotas, até que chega a vez do Eric. Cruzo os dedos, praticamente fazendo um pacto com as forças ocultas. Ele olha concentrado para o pote, e tira um papel lá de dentro.

Meu coração para quando o ouço.

— Christina. — E me dá um sorriso de orelha a orelha.

— Merda. — Digo baixinho. A turma começa a rir baixinho, fazendo piadinhas, mas ignoro.

Fico de braços cruzados e expressão emburrada até que todo mundo tenha um par.

— Então, vocês podem vir pegar seu filho! — A professora diz alegre. Continuo sentada, e é Eric quem vai pegar “nosso filho”. Argh.

Quando ele volta com um bebê menina, estrangulo-o com os olhos.

— Olha só nossa filhinha! — Ele diz alegre. — A sua cara!

Pego a boneca de suas mãos.

— Ei, — ele reclama — não trate assim a Caolha.

— O quê?! — Exclamo indignada. — Você não vai chamá-la de Caolha!

Então algo me ocorre. Ele deve ter tido um motivo para chamá-la assim. Olho para a boneca, que está perfeitamente conservada, com exceção do olho esquerdo que está faltando.

— Minha filha não tem um olho! — Exclamo indignada.

— Nossa filha. — Ele corrige.

— Por que diabos você foi pegar uma boneca sem um olho!?

Eric tira o brinquedo das minhas mãos, e o segura no colo como se realmente fosse um bebê.

— Não fale assim. Você vai magoar a Caolha.

Abro minha boca, mas não digo nada. Só fico lá, o encarando. Então percebo o silêncio que chega a ser quase palpável.

Está todo mundo prestando atenção em nós, como se nossa discussão fosse digna de atenção.

— Estão olhando o quê! — Indago braba, e imediatamente eles desviam o olhar. A professora limpa a garganta, em frente à sala, para chamar a atenção.

— Bom, espero que isso se torne divertido e produtivo para todos.

Ah, sim, penso, enquanto Eric continua a balançar a “nossa filha” sem um olho, e me lança um olhar maroto, com certeza isso vai ser muito divertido. E produtivíssimo.