Cinzas do Crepúsculo escrita por Lady Slytherin


Capítulo 5
O Falante


Notas iniciais do capítulo

E... Eu estou de volta. Não postei semana passada porque, convenhamos, todo mundo estava viajando, seria menos reviews para mim e mais leitores sem ler a fanfic para vocês. Então, deixei segunda feira passar (porque segunda feira sucks) e postei na terça, o dia em que eu costumo receber mais reviews por um motivo desconhecido.
Ok, agora, uma pequena explicação para quem se pergunta por que eu demoro duas semanas para postar:
1- Os capítulos são grandes. Meu récorde foi de 5200 palavras.
2- Problemas emocionais. São vários, e por exemplo, não consegui escrever nem ontem nem hoje, ontem eu estava apavorada, hoje eu estava meio que... sem emoção nenhuma. E depois virei uma chorona :P
3- Gosto de manter um grande estoque de capítulos para evitar ocasiões como essa, onde fiquei sem escrever por dias.
4- Sou preguiçosa. Pronto, falei.
Agradecimentos a Leticia Sampaio, que me mandou uma mensagem me lembrando da existência dessa fanfic. Não que eu tivesse esquecido dela, mas é bom saber que alguém se importa.
Esse capítulo NÃO foi betado. Caso encontrem erros, favor os indicar para que possam ser corrigidos.
Sem (mais) demoras, ao capítulo!



CAPÍTULO 5

THE SPEAKER

1988

Tudo parecia bem no orfanato Wool’s. A estrutura começava a melhorar com a doação de uma empresa, as crianças ficavam cada vez mais inteligentes com as escolas melhorando a cada dia, e havia um sol pálido no céu, que mal iluminava a grama seca com o inverno mas fazia as crianças felizes. Todos aproveitavam a oportunidade para brincar e parecer adoráveis para os pais. Isso é, quase todos.

Harry estava sentado em uma pedra junto as grades que levavam para o mundo exterior. Ele suspirou. Não faltava muito para ele completar dez anos. Alguns anos, sim, mas não uma eternidade. Assim que seu décimo aniversário chegasse, Harry poderia passar os fins de semana longe do orfanato, com a condição de que estivesse de volta na segunda feira. Suas mãos apertaram as grades com força, e ele observou uma menina passear alegremente com os pais do lado de fora. Não era exatamente aquilo que ele queria, mas... Qualquer coisa seria melhor do que sua atual vida.

Uma bola de basquete voou para atingir a cabeça de Harry, mas os reflexos melhorados dele (como pode uma criança que havia sido espancada diariamente por um ano não ter bons reflexos?) ele conseguiu desviar a bola, levitando-a no ar e fazendo-a cair do outro lado. A bola pingou algumas vezes e parou. Harry se virou para as crianças que haviam jogado a bola, e manteve a face neutra ao ver a expressão triste delas, apesar de querer rir de sua miséria. Eles haviam pedido por isso.

Harry encostou a face nas grades, se lembrando dos momentos, muitos anos atrás, quando ele era amado por sua família. Eles não podiam ver que o que havia acontecido fora um acidente? Tudo o que ele queria era ter uma família. Não, não qualquer família. Suas noites eram preenchidas com sonhos onde ele se encontrava com Tom e ele o adotava. Em outras, sonhos que se tornavam pesadelos, onde Tom dizia que ninguém, nem mesmo um bruxo, iria querer alguém como Harry.

Seus pensamentos foram interrompidos por um sibilo que veio de debaixo da pedra onde ele estava sentado. Harry levantou as pernas, suspeitando que o sibilo vinha de uma cobra, e esperou pacientemente para vê-la.

Tão frio...

Harry inclinou a cabeça, concordando com a voz. De fato, estava muito frio. O agasalho fino que ele usava não fazia nada para evitar os arrepios. Harry tinha tentado aquecer a pedra, mas viu que ou ele passaria frio, ou seria queimado. E ele não estava disposto a torrar por causa de uma coisa que ele mesmo fez.

Harry parou. De onde a voz tinha vindo? Estreitando os olhos, ele retrucou com uma voz suave que não usava havia muitos anos:

“De fato.”

Harry observou curioso quando uma cobra com escamas verdes saiu de debaixo da pedra e olhou para ele com pequenos olhos negros. A cobra circulou Harry, a língua bifurcada para fora, e comentou surpresa:

“Você fala!”

“É claro que falo!” resmungou Harry cruzando os braços. “Eu não sou mudo.”

A cobra balançou a cabeça para os lados como se estivesse rindo da estupidez do menino. Ela se aproximou dele, se enrolando na perna direita de Harry e suspirando com o calor. Não passou pela mente da cobra nem por um instante comer o garoto; ele podia falar com ela, e a cobra adoraria mais alguém para conversar. Principalmente alguém que pudesse lhe providenciar calor.

“Menino tolo” sibilou. “Você fala comigo. Até hoje só encontrei uma outra pessoa que pudesse falar comigo.”

Harry não entendia. Talvez fosse o fato de que a cobra estava enrolada nele até a cintura, ou talvez porque, bom, ele estava falando com uma cobra, mas, eles estavam apenas conversando. Harry tinha certeza de que qualquer criança do orfanato poderia conversar com a cobra. Exceto se...

“Apenas pessoas com poderes podem falar com você?”

“Não.” Sentindo a rigidez do menino, a cobra contrariada voltou a se enrolar apenas na perna dele. “Apenas ofidioglotas podem falar comigo.”

Ofidioque? Não era fácil para Harry ser surpreendido com uma palavra nova, porque ele passava todo o seu tempo livre lendo e estudando para continuar a ser o melhor da classe, não, o melhor do orfanato, mas ele odiava admitir que nunca havia ouvido aquele nome antes.

Ele faria algo que não fazia já havia um tempo. Ele faria uma pergunta. “O que é um ofidioglota?”

“Alguém que fala a língua das cobras.” A cobra revirou os olhos, como se aquilo fosse óbvio. E Harry percebeu que as palavras que saíam da boca da cobra não eram inglês, a única língua que ele conhecia. Alguma coisa dentro dele pareceu se quebrar. Harry não sabia se queria ser o único outro ofidioglota que a cobra conhecia. Isso faria mais difícil para Harry ser adotado.

Ele se moveu desconfortavelmente, e reunindo toda a sua coragem, o menino removeu a cobra da perna. Ela sibilou, brava por perder sua fonte de calor, mas deixou o menino retirá-la.

“Eu tenho que ir.” Murmurou Harry, prestando atenção em suas palavras. Era estranho. Definitivamente não era inglês, e ainda assim ele entendia tudo que saía da própria boca e da boca da cobra.

Assim que se viu livre da longa serpente verde, Harry correu, correu mais rápido do que já havia corrido em toda a sua vida, até chegar em seu quarto. Ele fechou a porta e a trancou com um movimento de mão a distância (um dos truques que ele mais apreciava fazer) e depois de garantir que ninguém poderia entrar lá, Harry removeu a caixa de Tom de debaixo da cama e procurou freneticamente por algo que pudesse falar sobre ofidioglotas.

Harry não encontrou nada com a palavra, mas seus olhos localizaram a palavra cobra várias vezes. Depois de separar as notas, Harry se deparou com algo que acalmou seu coração:

As cobras falam comigo. Dizem que sou especial. Encontrei uma cobra hoje no quintal, tivemos uma boa conversa antes de Sra. Cole pegá-la e matá-la com uma faca de cozinha. Ela me ignora a maior parte do tempo, mas não aceita maluquices no orfanato.

Harry sorriu, se sentindo mais tranquilo. Se Tom falava com cobras, então aquilo não era uma coisa ruim. Melhor, isso significava que os dois tinham mais alguma coisa em comum, não apenas a magia.

Ele sabia, com o conhecimento de alguém de sete anos, que não era saudável ter uma adoração tão grande por alguém que ele não conhecia, mas o que ele poderia fazer? Tom Riddle havia ensinado para ele tudo que Harry sabia, e garantido sua sobrevivência no orfanato. Sem ele, Harry estaria perdido.

Com pesar no coração, ele se lembrou de que adorar Tom Riddle não faria mal. Ele provavelmente estava morto, e mesmo se não estivesse, por que iria querer alguma coisa com Harry? O menino tinha certeza que haviam outras pessoas que poderiam ser aprendizes melhores para Tom.

Apesar disso, no dia seguinte depois da escola Harry se encontrou na mesma pedra de ontem, tremendo debaixo do casaco a espera da cobra. Se alguém poderia informar Harry sobre o mundo bruxo, seria a cobra. E conhecimento era poder.

Ao chegar lá, a cobra já esperava por ele, enrolada e tentando se esquentar, mesmo com a chuva fina que caía. Ela levantou a cabeça e deslizou até a perna do menino, quase suspirando com o conforto recém achado, e sibilou: “Você voltou.”

“Assim como você” replicou Harry, tomando liberdade para acariciar a cabeça da cobra com os dedos trêmulos. Era bom, demonstrar algum tipo de emoção para alguém, alguma coisa. Por anos Harry havia aperfeiçoado sua máscara, e deixá-la cair por um momento sem que ninguém pudesse manipulá-lo era uma mudança bem vinda.

Conversando, Harry descobriu que o nome da cobra era Nagini. Ela exibia o nome com orgulho, sempre se endireitando quando o nome era repetido. Nagini. Harry saboreou o nome; parecia alguma forma de língua das cobras traduzida para o inglês. Ele não estava disposto a dizer seu nome completo, então simplesmente disse que se chamava Harry. Se a cobra não diria o último nome dela (e Harry ignorou o fato de que a cobra não tinha um), Harry não daria nenhuma informação adicional que pudesse ser usada contra ele.

“O que está fazendo aqui?” ele perguntou, se permitindo relaxar mesmo podendo estar prestes a ser estrangulado por Nagini.

“Estou procurando um corpo” respondeu a cobra como se aquela fosse uma tarefa normal atribuída para répteis.

Harry piscou, surpreso. Ele havia se acostumado com muitas coisas ao longo dos anos, mas nunca em sua vida havia ouvido falar de uma cobra que procurava corpos. O menino se perguntou para o que serviria o corpo. Comida, talvez?

“Talvez você pudesse olhar no cemitério” disse Harry com um pequeno sorriso. Ele adorava respostas espertinhas, talvez pelo fato de não ter sido capaz de dizê-las por muito tempo. “E se precisar de alguém vivo, você tem esse orfanato inteiro de criancinhas para escolher.”

Nagini se pôs a explicar que não seria qualquer corpo que ela planejava dar a seu mestre. Era necessário um corpo forte, poderoso e com vida para dar. Harry deu de ombros, percebendo que não poderia ajudar a nova amiga na tarefa. As crianças do Wool’s eram fracas, estúpidas e irritantes. Nenhum deles serviria o propósito de Nagini.

A cobra é claro não mencionou que Harry poderia servir de corpo para seu lorde até que um melhor fosse encontrado. Se ele não fosse ofidioglota, ela pensou, com certeza ele seria uma vítima de seu veneno, mas havia uma estranha atração para o menino que ela só havia sentido antes com o lorde das trevas, e, com cada palavra que os dois trocavam, ficava claro que Harry era um pequeno comensal.

A chuva começou a cair com mais força, com a presença de raios e trovões, e Harry sabia que teria que sair de lá logo se não quisesse ficar doente. Ainda assim, ele continuou a acariciar a cobra, não querendo deixar a única companhia para voltar para a solidão do quarto.

“Eu tenho que entrar” suspirou Harry, removendo a cobra do braço e a colocando no chão antes que ela tivesse tempo de sibilar uma reclamação. “Não quero levar bronca de Sra. Hudges.”

E foi aí que veio a proposta.

“Você não precisa ficar aqui.” Nagini se dirigiu para as grades, por onde uma cobra do tamanho dela poderia facilmente passar. Não um menino do tamanho de Harry, mas os dois concordaram que, se ele precisasse escapar por algum lugar, era melhor já ter o trabalho começado. “Venha comigo. Meu mestre irá te conhecer e te dar uma casa.”

Aquela era uma oferta tentadora. Não era uma oportunidade que se conseguia todos os dias, e... Ele poderia sair do Wool’s. Não importava como o mestre de Nagini fosse, ele teria uma casa. Uma casa, ele repetiu para si mesmo. Onde ninguém se livraria dele.

Seu lado astuto pulou antes que ele pudesse dar uma resposta. “Como sei que não é uma armadilha?”

A cobra balançou a cabeça como se aquela ideia fosse impossível de se imaginar. Com uma voz sábia, ela retrucou: “E que tipo de armadilha seria pior do que a que você atualmente está vivendo?”

Aquilo finalmente encaixou as peças na cabeça de Harry. Ele iria embora, precisava ir. Combinaram de se encontrar de noite, depois que todos estivessem dormindo. Isso daria tempo para Harry reunir suas coisas, ter uma refeição decente e descansar. De acordo com Nagini, seria uma longa viagem, mas isso não influenciou a decisão de Harry. Uma casa, longe do orfanato. 

O menino caminhou tranquilamente até o quarto, fazendo o possível para não atrair atenção para si no caminho. O jeito despreocupado dele funcionou, as poucas pessoas que o olhavam recuavam em medo de mexer com ele ou apenas não querendo gastar seu tempo com alguém que não merecia atenção. Harry não reclamou.

No quarto, ele separou as melhores roupas que tinha (que, infelizmente, era o uniforme do orfanato) e rasgou o símbolo que denunciava de onde vinha o melhor que pode com as unhas e dentes. Depois, foi tomar um banho quente. Harry não sabia o que seria uma “viagem longa” para uma cobra, mas talvez ele não pudesse ter um chuveiro tão cedo. Melhor prevenir do que remediar, ele pensou ao fechar os olhos e apreciar a água que corria por seu corpo.

A janta não poderia passar mais devagar. Mesmo comendo tudo o que pode (o que não era muito) não muito rápido para não ficar com dor no estômago, ele terminou antes que os outros órfãos e teve que ficar encarando a mesa de madeira por dez minutos antes de todos se levantarem e irem para os quartos.

Aproveitando a confusão, Harry se apressou para o seu quarto, onde pegou a caixa de Tom Riddle, o cartão rasgado que servia de lembrança da antiga vida de Harry e uma troca de roupas. Enquanto os últimos alunos subiam, Harry foi no sentido oposto, em direção a porta dos fundos. Quando indagado por Sra. Swass onde estava indo, ele respondeu que iria dar uma caminhada. Em sua mente, ele completou: Da qual ele nunca retornaria.

“Nagini?” sibilou Harry, encarando a escuridão. É claro que ele poderia acender uma luz magicamente, mas isso iria denunciá-lo (afinal, quem não olharia um ponto de luz no escuro?) e ele queria passar despercebido pelo máximo de tempo possível. Harry duvidava que haveria uma procura por ele, mas se houvesse, ele queria estar longe.

“Aqui, cobrinha.” Veio o sussurro, do outro lado das grades. “Apenas use sua magia para entortar essa grade” Nagini indicou uma grade de ferro com a cauda “e você poderá passar.”

Harry fez isso sem muita dificuldade, apenas usou o feitiço que anteriormente havia usado para aquecer a pedra, dessa vez aquecendo o ferro ao ponto dele amolecer, formando um buraco que permitia que uma criança do tamanho de Harry passasse, e os dois saíram.

O menino esperava algum tipo de realização quando saísse do odiado orfanato, algum tipo de liberdade, ou talvez alívio. O que ele realmente sentiu foi mais ódio pelo lugar, conforme ele corria até um beco próximo para se esconder da chuva.

“E agora?” ele perguntou ao ver a cobra se enrolar nele.

“Se segure firme” foi a resposta de Nagini, antes que eles desaparecessem no ar com um estalo quase inaudível. Harry reconheceu a sensação do ano passado, de ser apertado por um tubo, mas dessa vez foi melhor do que a anterior. Seu estômago reclamou, não o suficiente para perder os conteúdos do jantar, mas fez Harry se apoiar por um instante na parede.

Harry congelou. Ele levantou o olhar para ver que estavam na frente de um casarão abandonado, com janelas quebradas e a porta solta para o lado de fora. Ao contrário do que se esperava, o jardim e a grama estavam bem cuidados, e os olhos de Harry localizaram uma pequena cabana nos fundos. Nagini rapidamente explicou a ele que aquela cabana pertencia a Frank Bryce, o responsável pelos jardins bem cuidados.

“Se meu lorde decidir te manter” Nagini explicou enquanto Harry abria a porta da frente e observou a sala de estar ao redor dele. “Você vai precisar tomar cuidado. A última coisa que precisamos é de um trouxa gritando sobre um espírito por aí.”

Harry não entendeu o que a cobra queria dizer por espírito, mas ignorou, porque sua cabeça estava ocupada tentando obter informações sobre a casa. Tudo estava coberto de pó e teias de aranha, e Harry sentiu arrepios quando pensou que viveria ali. Melhor do que Wool’s, ele repetiu para si mesmo várias vezes. Melhor do que Wool’s.

Eles subiram as escadas, e o segundo andar parecia tão inabitado quanto o primeiro, do que Harry pôde notar de imediato. No chão haviam rastros frescos de algo longo e fino, Nagini, Harry presumiu, mas fora isso não havia sinais de vida.

Harry começou a se preocupar quando viu que o terceiro andar da casa, um corredor cheio de quartos, não exibia uma única pegada sequer, e cortinas velhas voavam com a força do vento que entrava livremente, levantando pó e fazendo Harry espirrar.

A mudança foi notada assim que chegaram no corredor do quarto e último andar da casa. O chão estava limpo, havia muito mais marcas de Nagini, e as tabuas de madeira não rangiam tanto quando Harry andava. O barulho sinistro do vento não chegava lá porque a janela do corredor estava fechada, e a opinião de Harry mudou quando uma porta se abriu magicamente para eles depois de um sibilo de Nagini.

“Mestre” ela alertou, indo para perto da lareira. Um homem de trinta e poucos anos olhava o fogo ajoelhado, e se levantou ao ouvir a voz da cobra. “Eu te trouxe algo.”

Ao se aproximar, Harry percebeu que não era um homem. Era um homem, mas não... humano. Harry podia ver através dele como se o homem fosse feito de fumaça, e quando o homem se movimentou, ele deixou uma trilha de sua... substância para trás.

“É um presente?” perguntou o homem, olhando para Harry como se ele fosse um animal. Harry sentiu como o homem desceu os olhos fantasmagóricos pelo corpo de Harry, examinando cada parte dele. “É poderoso, mas não vai durar muito tempo.”

Harry engoliu em seco. Ele havia saído do inferno para encontrar a morte? Não parecia justo, mas então ele se lembrou de que a vida não era justa. Se fosse, por que teria sido condenado a viver tantos anos em miséria?

“É um presente, sim, mestre, mas não para ser morto” a tensão dos ombros de Harry sumiu por um tempo, até ele parar para pensar sobre que tipo de presente ele seria. A próxima frase da cobra respondeu a pergunta dele: “Acredito que nós acabamos de achar nosso pequeno espião.”  

O coração de Harry perdeu uma batida e uma onda de tristeza o invadiu. Era isso que ele seria para Nagini e seu mestre? Um simples espião?

“Deixe me olhá-lo” sussurrou o fantasma, levantando os dedos translúcidos até que eles tocaram na testa de Harry. O menino sibilou de dor ao contato, mas quando fez menção de recuar, ele sentiu o corpo de Nagini atrás dele impedindo-o de se mover. Era desconfortável sentir alguém dentro de sua cabeça, como se um mosquito tivesse entrado e cavasse em seu cérebro por informações.

Depois de alguns minutos, a dor parou quando o dedo foi removido da testa de Harry. O fantasma sorriu maliciosamente, e depois deu uma gargalhada que congelou a espinha do menino.

“Harry Potter!” o sorriso do homem se contorceu em uma careta conforme ele mudava para o inglês. “Irmão de Nicholas Potter, o Menino que Sobreviveu!”

Harry franziu a testa. Ele já havia ouvido aquela frase vezes demais para toda a sua vida. Ele queria ser reconhecido por seus próprios méritos, não por um irmão estúpido que Harry mal se lembrava de conhecer.

“O que você pretende, Nagini?” sibilou o fantasma para a cobra, parecendo furioso. “Eu pedi um corpo, não uma criança!”

Ele indicou Harry como se ele estivesse prestes a chorar como qualquer criança de sete anos faria ao ver um homem como aquele. Harry não entendia, para falar a verdade. O homem falava como se fosse importante, e ainda assim mal podia ser visto. Sua voz era como um eco, mas a fascinação de Harry pelo fantasma crescia. Talvez não fascinação, mas curiosidade.

Os olhos dele correram por Harry novamente até se depararem com o uniforme rasgado. Alguma coisa faiscou nos olhos dele, e sua face de repente se tornou mais gentil. Aquela era outra vítima do abuso do orfanato onde ele tinha gastado sua infância, e parecia reter grande poder para aquela idade. Quase tanto poder quanto ele tinha naquela idade, pensou amargurado.

“Você precisa de alguém que possa ser visto” explicou Nagini, se aproximando da lareira para aproveitar o calor. Não era tão bom quanto a perna de Harry, mas ela não queria enfurecer seu mestre ao demonstrar carinho pelo garoto. “E em alguns anos, Harry estará indo para Hogwarts. Dumbledore nunca suspeitará de uma criança abandonada.” Ela fez uma pausa, para garantir que seu mestre não estava ficando irritado com o rumo da conversação. “Temos quatro anos para ensiná-lo. Ele pode dar lições a Harry de como viver nas sombras, já que é tão bom nisso.”

O espírito se sentou na poltrona, pensativa. Harry ficou em silêncio, trocando o peso do corpo nas pernas. Segundos se tornaram minutos e as pernas de Harry começaram a doer, mas ele não se moveu. Ele não queria passar a impressão de fraco para um homem que parecia disposto a acolhê-lo.

“Tudo bem.” Disse o homem finalmente. “Apresentações. Eu sou Voldemort, ou o que resta dele. Considere-me parte de um espírito. Ainda assim, não me subestime.” Como prova, ele invadiu a mente de Harry mais uma vez, porém sem tomar cuidado. Harry caiu no chão em dor. Quando Harry se levantou, Voldemort continuou: “Se vai ser nosso espião, precisamos de uma identidade para que Harry Potter não esteja do lado negro. Meu nome é conhecido pelo mundo bruxo, e eu não posso treiná-lo.”

Antes que Harry pudesse perguntar então quem iria treiná-lo, Voldemort foi para a lareira e fez com que as chamas se tornassem verdes ao levitar um pó que Harry mal se recordava. “Regulus?” ele chamou. “Você tem um novo herdeiro e aprendiz.”



Notas finais do capítulo

Regulus... Alguém tinha adivinhado o Comensal misterioso? Ideia da Jana! Ela tem ótimas ideias, na verdade. Eu queria deixar o Harry com o Nott, mas com o Regulus eu consegui criar uma trama tão legal...
Por favor, eu adoraria bater o récorde de 22 reviews que recebi no último capítulo. 25, please?
Vou-me, com promessas de voltar mais cedo agora que não dependo mais da beta (mais preguiçosa que eu) para postar os capítulos. Reviews ajudam... Se batermos a margem, quarta que vem tem capítulo novo, com ou sem criatividade!