Bloody Mary escrita por Mariced


Capítulo 1
Capítulo único




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O grito estridente rompeu o silêncio. Mais uma morte. Encolhidas contra a parede, as três amigas prenderam a respiração. Megan havia sido a única corajosa o suficiente para tentar pegar o pequeno aparelho celular até então esquecido no primeiro andar, e agora estava morta, assim como as outras duas.

O som de passos no corredor seguido pelo o da porta sendo aberta as fez engolir em seco, temerosas. Sem se preocupar com o barulho que fazia, o homem abriu o armário, jogando as roupas pelo quarto, acertando, intencionalmente, um casaco de pelos em Kathy. Com uma expressão engraçada, a garota espirrou. As três fecharam fortemente os olhos quando a pequena cômoda foi arrastada. O assassino sorriu e...

– AAAAAH – a garota gritou, tampando os olhos com a mão, tentando ignorar o que se passava na televisão. Nunca havia visto tanto sangue junto! – Foi uma péssima ideia assistir esse filme.

– Por quê? – perguntou a amiga, pegando um punhado de pipoca.

– Ah, não sei, Sam. Assistir filme de terror em plena noite de Halloween é sempre uma ótima ideia – ironizou.

– Vira homem, Cami! É só um filme – exclamou, fazendo pouco caso da amiga – Agora fica quietinha que eu quero assistir.

– Não, nada de filme essa noite – retrucou, levantando-se rapidamente e desligando o aparelho no exato momento em que o serial killer matava a terceira garota. Que rápido, pensou Camila.

– Oi? Acho que não entendi – perguntou Sam olhando sem acreditar para tela escura.

– Não entendeu o que, Samantha? A casa é minha e estou dizendo que não vamos assistir.

Samantha bufou e cruzou os braços.

Sentadas uma de frente para a outra, ambas se encaravam em silêncio. Enquanto uma parecia contrariada, a outra parecia completamente satisfeita. Antes que Samantha tentasse fazer a amiga mudar de ideia, um som alto soou seguido por um apagão.

– Isso só pode ser brincadeira – bufou Sam.

– Deve ter sido algum gerador – comentou Camila, se levantando – Vamos na cozinha pegar as velas.

– Mas e o meu celular...? – a garota tateava no sofá, a procura do aparelho.

– No meu quarto, junto com o meu. Nem morta subo essas escadas no escuro. Vamos logo.

Na rua, os vizinhos saiam de suas casas para entender o que estava acontecendo e as crianças menores eram amparadas pelas mais velhas, esquecendo momentaneamente dos doces. Algumas choravam e chamavam pelos pais. O bairro estava uma loucura. A noite de Halloween estava oficialmente arruinada. Nada de doces e travessuras.

No estreito armário ao lado da geladeira, elas encontraram duas velas brancas. Voltando para a sala, Samantha parou em frente ao grande espelho que decorava o corredor. Camila demorou alguns segundos para perceber que a amiga não a seguia e voltou, olhando para o espelho que Sam encarava fixamente.

– Sabe o que seria legal? – perguntou Samantha. Seu cabelo escuro parecia ter vida própria em seu reflexo e seu rosto, mais pálido que o normal.

– O que?

– Invocar a – seu tom diminuiu e se tornou suave, como se não ousasse dizer o nome em voz alta – Bloddy Mary.

– Você e suas ideias – riu – Até parece.

– É sério – disse e desviou o olhar do espelho pela primeira vez em minutos para a amiga – Tô falando super sério. Seria tão divertido – sorriu e encarou o espelho novamente.

– Eu não acho que seja uma boa ideia... – começou Camila ao mesmo tempo que Samantha invocava, com a voz forte: – Bloody Mary, Bloody Mary, Bloody Mary.

Por um instante, nada aconteceu. Camila abriu a boca para fazer piada sobre a tentativa frustrada e as velas se apagaram. A escuridão mais uma vez reinava. A casa, que até então estava quente e aconchegante, parecia ter caído a temperatura.

– Samantha? – chamou Camila com a voz trêmula.

Ninguém respondeu.

De repente, sua vela acendeu. O alívio inundou seu peito. Levantou a cabeça e se viu olhando novamente para o espelho. E um grito ficou preso em sua garganta.

Nele refletido, havia uma mulher. Ela tinha por volta dos setenta anos, encurvada. Usava um lenço acinzentado que escondia grande parte de seu curto cabelo grisalho. A boca velha estava retorcida no que parecia ser um sorriso. Faltavam vários dentes e os que restavam estavam em péssimas condições, manchados e com buracos. E, por fim, o que mais assustava a garota: a falta dos olhos. Em seus lugares, havia apenas um enorme vazio, um poço sem fundo que parecia querer arrastá-la para as profundezas.

Camila deu um passo para trás e tropeçou em algo, caindo. Tomada pelo pânico, a garota tentou se levantar. Apoiou-se no que a fez cair e, com a ajuda da vela que permanecia acesa, pôde dar uma boa olhada naquilo. Sentiu sua cabeça rodar, como se fosse desmaiar, e colocou a mão livre na boca.

Estirada no chão, Samantha tinha a perna esquerda num ângulo estranho, nada natural. Sua expressão era de puro terror e sua boca, aberta num grito silencioso. Do nariz escorria sangue, que pingava no chão. E no lugar de seus olhos, assim como na velha, havia apenas o vazio.

O grito que estava preso, até então, na garganta de Camila cortou o silêncio, agudo e estridente. Ela olhou para o espelho, mas a velha não estava mais lá. Levantou-se e correu rapidamente até a porta principal e girou a maçaneta. Estava trancada.

O pequeno espelho ao lado do cabide refletia o rosto enrugado da velha. Com outro grito, Cami largou a vela e voltou-se para as escadas, tropeçando nos degraus. Ela correu pelo corredor até a última porta, onde ficava seu quarto. No percurso, evitou olhar para os lados. Havia um enorme espelho do lado direito e sabia que a velha estaria ali.

A garota entrou rapidamente no quarto e trancou a porta em seguida. Apoiada nela, Camila ofegava. As imagens de Samantha morta apareciam em flash atrás de seus olhos fechados. O sangue escorrendo. Os olhos – ou a falta deles. A expressão.

Um barulho vindo do banheiro a tirou do transe. Cami fixou o olhar na porta entreaberta. O medo gelava seus ossos. Hesitante, ela foi até lá. O espelho que ficava acima da pia encontrava-se quebrado no chão. A garota se ajoelhou ao lado dos cacos, fitando a si mesma. Os fios tingidos de vermelho formavam um emaranhado em sua cabeça e suas bochechas estavam num tom mais claro que o cabelo, também avermelhadas. Atrás de si, um vulto negro surgiu para, em seguida, transformar-se na velha.

A mulher era baixa e robusta. Um manto de retalhos envolvia seu corpo e seus pés rechonchudos estavam descalços. Ela conseguia ser mais assustadora fora do espelho. Afinal, aquilo era real. E essa constatação fez o sangue fugir do rosto de Camila.

– Não pode ser! Você... Fora... Espelho... Não! – ela tentava formular uma frase, afastando-se.

A velha sorriu e ergueu algo que brilhou na pouca luz que vinha da rua. Uma faca. Ensanguentada. O sangue de Samantha, percebeu com nojo. Antes que pudesse tentar fugir, Camila sentiu a faca penetrando sua barriga e gritou.

– AAAAAAH – sentou-se abruptamente, ofegando. Com os olhos arregalados, se viu novamente em seu quarto. Dessa vez, deitada dentro de seu pijama.

Ela colocou a mão no local onde a faca foi enfiada. Não tinha ferimento. O relógio em cima da cômoda apitou. 6:40 da manhã. Estava atrasada para o colégio.

Quando a realidade a atingiu, Camila começou a rir. O alívio inundou seu peito e pouco a pouco foi se acalmando. Foi tudo um pesadelo. Um maldito pesadelo, pensou.

Quinze minutos depois, ela descia as escadas, pronta para o dia cheio. Evitou olhar para o espelho do corredor que levava a cozinha e ignorou o calafrio que percorreu seu corpo. Sua mãe a esperava com uma bolacha, que ela logo pegou. Acenou e foi até a porta principal. Pegou o casaco que estava pendurado no cabide e se olhou no pequeno espelho ao lado para arrumar a gola. Seus olhos se arregalaram e toda cor de seu rosto de esvaiu.

– Bloody Mary – sussurrou e a mulher no espelho sorriu.


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Notas finais do capítulo

Espero que tenham gostado!
Comentem :D