Opostos escrita por Tina Granger


Capítulo 12
Capítulo 12





Quando se ama não é preciso entender o que se passa lá fora, pois tudo passa a acontecer dentro de nós.

Clarice Lispector

Sirius não acreditou em seus ouvidos, quando, a tia de Catarina disse aquelas barbaridades. Bem, Catarina descrevia a tia, madrinha, prima da sua mãe, ele nem queria pensar no parentesco que ela tinha com Catarina e Samira, como uma pessoa tímida, porém de opinião forte.

Se bem que a preocupação da mulher com a família era evidente, afinal, a primeira pergunta, se Samira precisava de um rim, demonstrava o cuidado de alguém que se interessava pelo bem-estar de alguém que gostava.

Quando Catarina veio na sua direção, com um ar altamente inocente, ele lhe jogou o telefone e resolveu sair para esfriar a cabeça, afinal, se ele encontrasse com a mulher, seria capaz de mandar a pervertida para algum bordel, hospício... qualquer coisa assim para alguém com o tipo de problemas mentais dela. Resolveu ir ate a praia, ignorando o frio ainda maior que o por do sol trazia.

As ondas do mar, fazendo seu eterno movimento, prenderam sua atenção por um longo momento. Sentindo-se mais calmo, ele levantou-se, indo em direção ao hotel de Samira, quando viu Catarina apoiando uma mulher, pouco mais alta que a jovem. Ela usava um casaco vermelho enorme, aberto na frente, que deixava ver um vestido de verão de matizes escuras. Usava os tênis ridículos que Samira apenas colocava quando ia para a academia, com as meias amarelas, que provavelmente apenas um elfo livre gostaria. Ou alguém de gosto duvidoso...

Os cabelos dela eram castanhos, cortados de forma a criar suaves ondas ao redor do rosto, que devido a distancia, ele não conseguia ver direito e calculava que deviam estar logo abaixo dos ombros, tinha no ombro uma enorme bolsa vermelha.

Sirius engoliu em seco, passando o olhar pelo corpo dela. Sentiu o coração disparando, enquanto por alguns segundos, fixou os olhos nas pernas expostas. Eram pernas muito bonitas, concluiu ele, voltando o olhar para o resto do corpo, lentamente.

Sorriu quando ela acenou e quando ela puxou a varinha, por um momento temeu ser estuporado. Ao momento, que ela desapareceu, ele ficou desapontado. Suspirou, balançando a cabeça. Pela primeira vez em três anos, ele via uma mulher que ele considerava atraente e... pela primeira, ele não sentia o cordão que trazia ao pescoço queimando.

Puxou-o, encarando com atenção o cordão simples de ouro. Ele passaria totalmente desapercebido, se não tivesse como pingente, uma pérola, que tinha o tamanho da sua unha do polegar. Encarava a pérola, quando sentiu tudo ao seu redor rodear. Mal teve tempo de colocar um joelho no chão, quando percebeu que estava em uma lembrança e ao contrário das outras vezes, sua dama loira, Beatrice não estava nela.

Havia uma outra jovem, que lhe sorria. Ela tinha o cabelo até o meio das costas. Usava uma blusa transparente, onde o sutiã negro com detalhes em lilás aparecia.

– Amigo da Beatrice Stalker? E aquela lá tem amigos?

– Não apenas amigos. - ele deu um sorriso debochado. - Ela também tem um namorado que é absolutamente louco por ela. - falou com um pouco mais de enfase que ela merecia.

A mulher a sua frente, pareceu levar um susto. Então riu, como se tivesse achado enorme graça. Se aproximou dele, erguendo o busto, como se tentasse fazer que ele percebesse. Sirius sorriu, sentindo pena da criatura. O que Beatrice tinha em quilinhos que a deixavam sexy, na sua opinião, era o equivalente em personalidade para ela.

Muitos dos homens que ele conhecia, que sabia serem do convívio de Beatrice, já tinham sido alvo da língua afiada da loira... Que aliás, estava demorando para ir sabe-se lá onde. Se ele tivesse a mínima noção de onde a mulher estava, não estaria aguentando...

quando um som de raiva estrangulada foi feito as suas costas, um imenso sorriso apareceu no rosto de Sirius, que virou-se para ver Beatrice apertando as sacolas com força.

– Oi amor. Sua vizinha estava me dizendo que você tinha ido ao mercado. - ele ampliou o sorriso, a medida que percebia a raiva dela aumentando.

Beatrice olhou-o por alguns segundos, antes de bufar.

– Não encontrei a estricnina para botar no seu prato.

– É mesmo? Que pena... - Sirius balançou a cabeça ligeiramente antes de aproximar-se dela. - Acho que vou ter que me contentar com veneno de rato mesmo. O que de gostoso você comprou? - Ele pediu, enquanto pegava as sacolas. - Caramba, eu também estaria fulo da vida, se tivesse que carregar todo esse peso, se tivesse dois braços magrelas e...

– Eu não tenho braços magrelas. - Beatrice protestou, encarando a vizinha trouxa com o canto de olho.

– Eu não me referia aos seus bracos. Eu me referia aos meus. - Sirius passou as sacolas que tinha na mão esquerda para a direita, em seguida abraçou Beatrice. - Se bem que com um braço magrelo posso fazer aquela brincadeirinha... - Sirius passou a sussurrar no ouvido dela. - que vai fazer você me explicar que diabos falou com o meu chefe.

– Ah, está se referindo ao fato do seu chefe dizer, que acha que estamos dormindo juntos, só porque você tem algo que eu acho atraente?

– Estou me referindo ao fato de você ter dito aquelas... coisas para ele. - Sirius ainda sussurrava em seu ouvido.

Beatrice ergueu o rosto, encarou-o com o cenho franzido por alguns segundos antes de sorrir amplamente.

– O que eu disse foi a mais pura verdade. - ela falou normalmente, antes de puxar o rosto de Sirius, beijando-o levemente.

– Verdade? - Sirius rosnou para ela.

– Já que você tem a minha comida nas suas mãos, vai ter que me ajudar a cozinhar e comer. O que acha?

– Vai fazer outra vez ovos voadores? - ele brincou, mas os olhos estavam com raiva ainda do primeiro assunto.

– Você mereceu os ovos que eu joguei em você. E convenhamos que se de doze, eu acertei nove, com certeza...

– Você não sabe o quanto que eu agradeço a Merlim por você não gostar de voar.

– Se você acha, que eu gosto de ter uma vassoura enfiada na minha... Ah, esquece. - Beatrice falou, vendo o humor começar a surgir nos olhos dele. - O que o seu amado chefinho disse exatamente, para você vir aqui com a cara de quem ia me fazer pagar pelos pecados do mundo?

– O fato de você ter dito que eu sou ruim de cama!

A loira abriu a boca para retrucar, antes que do nada, a expressão que era de surpresa mudou para de malícia.

– Bom, talvez... Você... Se tiver a tarde e a noite livres pode tentar fazer com que eu mude de ideia.

– E você muda de ideia facilmente?

– Prometo pensar no seu caso muito seriamente. - ela prometeu, um brilho travesso nos olhos. Quando passaram pela vizinha trouxa, Sirius percebeu o sorriso arrogante que Beatrice dirigiu a ela, antes de inocentemente, passar o braço pela cintura dele. - Então, aquele imbecil disse pra você que eu disse que você era ruim na cama?

– Você está realmente pensando em dar todo o dinheiro que a loja precisa?

– Eu não estou pensando. Eu já mandei fazer a retirada da minha conta para depositar na conta dele... perante óbvio a assinatura de alguns documentos que mandei redigir perante os acordos que aquele linguarudo e eu concordamos.

– Quer dizer que vou passar a dormir com a minha chefe? - Sirius questionou, franzindo a testa. - Estou começando a me sentir um cachorro calhorda por ter contado a você sobre isso.

A loira riu...

E a imagem desvaneceu-se, dando lugar a imagem de onde ele se encontrava agora. Sirius respirou por alguns minutos, pesadamente. Todas as lembranças com exceção de uma, ele e Beatrice estavam vivendo um romance aparentemente quente...

O que havia acontecido para que eles se distanciassem? Ele por acaso lembraria antes que eles se encontrassem novamente ou... algo negro teria acontecido a ela?

Opostos Opostos opostos

– Daria para você gritar um pouco mais alto? Talvez os mortos que estão no necrotério não estejam lhe escutando. - Otto Schineider falou secamente, fazendo Samira olhar com ódio para o avô.

– O SENHOR TEM IDÉIA DO QUE ESTÁ FAZENDO? - Samira gritou mais alto, fazendo a filha ao lado de Otto se encolher. Beatrice apenas suspirou. Era bom Samira desabafar um pouco. - ESTÁ INCENTIVANDO CATARINA A CONTINUAR A SER DESOBEDIENTE, MANIPULADORA, ESTÁ FAZENDO QUE ELA... - Samira passou a mão nos cabelos. - Ela está ficando igual a você!

– Vou encarar isso como um elogio, mocinha. Só que antes de berrar como se fosse uma...

– cuidado com o que vai falar. - Beatrice interferiu. - Somos duas e garanto Otto, agora que a Catarina está bem longe do meu braço, não vou errar a pontaria dessa vez.

Como se tivessem combinado, todos olharam para a cristaleira, que até o momento estava destruída, desde o momento que havia recebido a maldição da morte.

Otto arrumou os óculos de armação grossa, que não deixava os olhos azuis pálidos, do mesmo tom dos de Beatrice, escondidos. Ele levantou-se, porém perante a expressão de severidade das duas netas, o fez erguer uma sobrancelha.

– As duas matracas vão ficar ainda me incomodando ou esse pobre velho pode ir descansar os velhos ossos naquela cama grande e fria lá em cima.

– Pode enfiar o seu traseiro nesse sofá. Samira berrou toda a raiva dela, agora o senhor vai me escutar, por livre e espontânea vontade ou... - Beatrice balançou a varinha. - Amanhã de manhã quem vai berrar com o senhor vai ser a tia Guida, porque ela vai ser chamada na polícia, porque você tirou esse casaco roxo e essas calças verdes e saiu andando pelado e cantando o hino alemão em alemão.

Otto fez uma expressão de raiva.

– Merlim, o pior é que se eu ofender você vou estar ME ofendendo, porque você tem a minha cabeça! Pensa do mesmo jeito que eu!

– Mas graças a Merlim, como você diz, eu tenho a coragem da minha vó e pode ter certeza, que se você tivesse tentado fazer comigo o que fez com ela e com a minha mãe, ninguém teria me impedido de te matar!

O silêncio tomou conta da sala, Catarina olhando para todos os adultos tentando entender o que aquilo significava, até que Samira ergueu-se de repente.

– Catarina, vá para o quarto que sempre ficamos. Agora.

– Eu vou perder a parte mais divertida da conversa! - Catarina protestou.

Beatrice apontou a varinha para Catarina.

– Vou contar até cinco. Um. Dois. Três. - Contava de maneira lenta, dando espaço para que a jovem saísse dali.

Catarina fez um som que lembrava um rugido, antes de sair correndo para subir as escadas.

– Se ele está ensinando animagia para ela, eu dou um jeito de denunciar pro ministério e... - Beatrice bocejou. - ele só sai morto da prisão.

– Bia, estamos no Brasil e o vovô não é ladrão de galinha. - Samira sentou-se, suspirando.

– Mas não deixa de ser ladrão. - como se tivesse se lembrado naquele momento que Catarina podia escutar a conversa, Beatrice com esforço, levantou-se e apoiando-se na poltrona que estava sentada, criou uma barreira para que a jovem não escutasse a conversa.

Otto revirou os olhos, enquanto Beatrice voltava a sentar-se.

– Vocês não tem respeito mesmo por mim não é?

– O meu respeito por você acabou, quando você começou a querer empurrar maridos para Samira e para mim. - Beatrice declarou, o olhando severa.

– Faço das palavras da Bia as minhas! Vovô, o senhor fez o inferno das vidas das suas filhas e está querendo estragar as nossas também!

– Vocês são mulheres jovens. Sei que as duas já tem filhos crescidos, mas...

– Eu posso não ter tido um marido, mas ninguém vai conseguir ocupar que é do pai de Catarina. É difícil para o senhor acreditar, que apesar dele ter se tornado um comensal da morte, ele realmente me amou? Eu! Uma trouxa!

– A nomenclatura apropriada para você é aborto, Samira. - Otto a interrompeu. - Apesar das minhas três filhas terem nascido como abortos e...

– Psiu. - Beatrice botou a mão nos próprios lábios. - Agora o senhor vai escutar. Samira e o pai de Catarina, não se casaram. Mas pelo que eu conhecia dele, pode ter certeza que se ele não tivesse sido morto, ele teria voltado aqui, para buscá-la, junto com Catarina. E a sua sogra, teria infartado mais rápido que pudesse se apaixonar pela coisinha linda que era a sua filha. Agora, Otto, imagina a cena. Samira casa com um filho da mãe qualquer... - Beatrice respirou fundo. - E daí, a Catarina crescendo, fica uma mulher bonita. Ela é linda! Só cego não percebe isso. Imagina, se a Samira tivesse casado com um filho da mãe, que repara nas curvas da mocinha... E resolve, num palavreado bem chulo... comer a menina. Não estou dizendo que a Samira fez a melhor opção, mas ela fez uma opção para proteger a menina... E não estou dizendo que o Samuel é um tarado, viu? Eu adoraria ter ele como marido da Samira... Do mesmo jeito que eu me sinto MUITO BEM CASADA com Sirius. Nós podemos não ter tido tempo, de ir até um juiz, bispo, padre, papa, o diabo que fosse, que tivesse a autoridade para nos casar formalmente, MAS tanto Sirius como eu juramos, um para o outro, que... - Beatrice bocejou, piscando com lágrimas nos olhos. - a partir daquele momento, estaríamos casados, que a única coisa que verdadeiramente iria nos separar, seria a morte. - Beatrice ergueu a cabeça. - Ele colocou esse anel – ela ergueu a mão para que ele visse sua mão. - na minha mão para que eu pudesse exibir a todos, a prova do amor dele. Do mesmo jeito que ele está usando uma...

Otto revirou os olhos, antes de interromper Beatrice.

– Escute aqui, Beatrice! O Schwarz que está na casa de Samira é muito parecido com o outro Schwarz cachorro que deixou Samira grávida! E também, o seu garoto ele...

– Não meta Dean no meio da história, que ele não tem nada a ver com isso, Otto! - Beatrice se exaltou. Levantou-se e apontou o dedo para Otto. - A única razão para que eu obrigasse Dean a estudar aqui, foi por conta que eu não consegui modificar os documentos sobre ele.

– Não teria nada aa ver com a aparencia do menino, não e? - Otto pediu com um ar sonso.

– Dean é a cara da Bia, vovô. Do que o senhor está falando?

Pode ter certeza que quem herdou o meu cérebro foi a Beatrice. E você não tem mesmo nada a esconder sobre a aparencia do Dean, hein? - Otto debochou. - Eu estou sem paciencia para os melindres das madames. Se não quiserem dormir, virem corujas. Mas eu sou um idoso que tem um sério encontro com a cama e quando eu descer amanha de manhã quero a cristaleira da Helga consertada, escutou bem, Beatrice?

Sem falar mais nada, Otto levantou-se e sob os olhares perplexos das mulheres, apoiando-se na bengala, desfez a barreira com um gesto da bengala e subiu sem dizer uma palavra.

– Eu detesto dizer... mas você é mesmo mais parecida com ele. - Samira falou, suspirando.

– Boca fechada ajuda a conservar os dentes. - Beatrice retrucou mau-humorada.





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