Issues escrita por Ana Hel Black


Capítulo 8
Oitava Parte




Fez sol nos dias seguintes. Sol demais. A minha madrasta assistia televisão com aquele ventilador barulhento e de hélices empoeiradas virado diretamente para ela. “Bom dia” Eu cumprimentei e ela arqueou a sobrancelhas, surpresa. Nosso relacionamento nunca fora amigável. Então ela sorriu, respondeu minha saudação e me desejou uma boa aula, acrescentando que na semana seguinte ela iria começar um emprego de secretária em uma imobiliária no centro da cidade. Desejei meus parabéns e alcancei a rua, imaginando que não havia sido tão difícil assim. Era como se mudar minhas atitudes em relação ao cotidiano fosse uma forma de saudar a memória de minha mãe. Por um momento, achei que a visita ao túmulo da falecida progenitora fosse por-me para baixo, mesmo que a incursão fosse o resultado de ter desabafado tudo que me perturbava para alguém confiável. Porém, ao contrário, estava plenamente disposto a me esforçar em resolver todos meus problemas, pelo menos naquilo que dependesse de mim mesmo.


Procurei por ◊ do momento em que cheguei a escola, até que o sinal tocasse. Estranhei a falta dela. Ela nunca faltava e estava ansioso para contar que além do esforço em relação à minha madrasta, na noite anterior eu havia recolhido tudo que pude encontrar de remédios e drogas e joguei no lixo. Ainda não estava curado da dependência, mas durante todo o tratamento tive esses surtos de livrar-me do que fazia mal. Naquele momento achava que tudo ficaria bem, porque o sol aquecia meu corpo e estava tranquilo.

Estava tão compenetrado nesse objetivo de mudança que sequer me importei com o Boi e alguns outros rapazes falando coisas realmente ofensivas. Estavam dizendo algo sobre eu achar que ia sair impune até o final do ano. Até hoje não compreendo porque eu fora o escolhido para tanta implicância. Não era um aluno excepcionalmente bom que causasse inveja, tampouco possuía uma aparência terrível o suficiente a ponto de constranger meus colegas. Talvez fosse porque era aquele cara calado e solitário, que por não pertencer a nenhum grupo, acaba se tornando notável demais por não ter se protegido em um ambiente hostil.


Estava acostumado levar tapões e pancadas, em geral nas aulas de Educação Física e os valentões galgavam sua popularidade ameaçando, roubando material e me impedindo de fazer coisas como atravessar o pátio na hora do intervalo. Não tinha certeza se eles passariam disso, se seriam capazes de cercar alguém na rua, depois do horário de saída, para espancar covardemente essa pessoa. Bom, eles eram covardes, mas por algum motivo, não quis dar todo esse poder a eles. Havia começado a me ocorrer, e depois desenvolvi esse pensamento, que o que garantia a opressão por esse tipo de gente, era o medo que eles implantavam em suas vítimas. Ninguém gosta de ser linchado verbalmente, enquanto atiram garrafinhas de refrigerante vazias e bolas de papel. Se acontece uma vez, você vai tomar todo cuidado para não repetir a situação. Você tem medo de voltar aos lugares onde sabe que será agredido. É uma merda se submeter a isso, mas quando você está sozinho entre inimigos, não há muito o que se fazer. Já bastava isso dentro dos limites escolares, não queria começar a andar olhando por cima do ombro pelas ruas também.


Ainda assim, nem isso, que era algo que vinha remoendo desde o primeiro dia naquela escola, era capaz de abalar minha convicção que havia dado o passo final para o acertamento das coisas. Então eles começaram a falar dela.


“E onde está aquela putinha intrometida, hein, Viado?”


“Você bem que meteu o pau nela, né?”


“Espera só, vamos dar um jeito na Aberração também.”


“O que você vai falar se me ver comendo sua namoradinha?”


 “Aposto que vai gostar. Ele não dá conta nem de uma merdinha daquelas.”


Uma fúria imensa tomou conta de meu ser. Até o momento, reagia passivamente às agressões, certo de que quanto mais tentasse revidar, pior ficaria. Mas agora não estavam falando de mim. Eles já haviam feito comentários malvados sobre ◊, mas todas as vezes ela tinha ouvido bem e deixado claro que não se importava em ser considerada estranha, inclusive por andar comigo. Só que dessa vez era diferente, ela não estava lá e eles estavam fazendo ameaças abomináveis, amontoados perto da entrada da sala de aula. Eu seria uma pessoa pior que eles se não reagisse. Sim, você que lê minha história, ◊ era tão especial para mim – mesmo que eu ainda não tivesse me dado conta da extensão disso – que dessa vez não fui capaz de ignorar ou de reagir que nem o covarde bundão que vinha sendo desde muito tempo. Caminhei até eles sem dizer nada. Pude notar os demais alunos interrompendo suas conversas vazias para assistir o que quer que fosse acontecer. Parei diante do Boi. Os amiguinhos dele cruzaram os braços em frente ao corpo e fizeram aquela pretensa expressão de marginais.



Eu não estava ouvindo as palavras do inspetor disciplinar. Ele estava falando uma porção de coisas sobre problemas comportamentais que se estendiam a longo prazo, que eu devia ter ido procurá-lo (Como se algum dia ele tivesse feito alguma coisa) e não ter tentado resolver com as próprias mãos. Não sei como estava vivo ainda. Alguém tinha chamado a direção e quase todos funcionários da escola chegaram a tempo de me puxar para fora da sala antes que o Boi fosse para cima de mim. Eu tinha enfiado um soco no meio da cara gorda dele. Não sei de onde tirei a força necessária, mas sentia um certo prazer encarniçado em ver o vermelho do sangue grudando meus dedos.


Nem estava me importando em saber que ultrapassara aquela “linha do medo” da qual falei a pouco. Eles iam por minha cabeça a prêmio e provavelmente até o fim da semana eu estaria novamente em um hospital, dessa vez enfaixado da cabeça aos pés. Eu ri. Se algum deles viesse me procurar, iria lutar. Naquela hora, mudei um pouco a filosofia adotada durante a manhã – Peço que me perdoem, era apenas um adolescente – Faria parte da mudança tentar me impor de alguma forma. A adrenalina explodia em meus ouvidos e eu queria ser um herói de um filme de ação que derruba a horda de inimigos.


“Não sei o que se passa na cabeça de vocês para agirem assim. Você será suspenso, rapaz.”


Ótimo.


“Vá lavar esse sangue, então pegue suas coisas e vá para casa. Não se preocupe com os outros, estão na sala da coordenação e já vou lá lidar com eles.”


Confesso que experimentei uma sensação de vitória quando voltei para a classe, agora vigiada por um professor, e todos me encararam com os olhos arregalados e parecendo meio chocados com minha reação. Não esperavam isso de mim, malditos? Algum engraçadinho riscou círculos de  giz no chão, onde havia respingado o sangue do nariz do Boi. Fiz um esforço muito grande para não sorrir. Então pensei que queria a ◊ ali. O que ela acharia disso?



“Você agiu como um idiota, mas ele mereceu” Bom, ela não tinha muitos problemas em dizer o que pensava com precisão e devo dizer que fui obrigado a concordar com ela. Pelo menos foi melhor que meu pai, que depois de assinar a carta de suspensão, comentou que eu certamente acabaria na cadeia. No dia seguinte ao incidente, fui diretamente à casa de minha amiga, esquecido do horário escolar, mas lá estava ◊, novamente faltando a aula. Senti-me um pouco culpado ao perceber que ela estava gripada, muito provavelmente por conta do dia chuvoso em que havíamos passeado pelo cemitério. Ela disse que não era tão ruim assim, porque ela ficaria o resto da semana em casa e eu também, então poderíamos tirar uma “semana do saco-cheio”. Não que ela estivesse suficientemente doente para tudo isso, mas foi fácil pedir para a mãe arranjar uma licença médica e então, falsificar assinaturas. Achei aquilo meio surpreendente. Nunca imaginei que ◊ fosse capaz de forjar documentos para matar aulas. Então lembrei que ela havia se transferido de um colégio particular para a pocilga que frequentávamos. Ela era uma pessoa incomum afinal. Perguntei se os pais dela não ficariam bravos se descobrissem, mas ◊ respondeu que o pai mal sabia dela desde o divórcio com a mãe, que também pouco se importava. Ela pediu para que eu contasse mais um pouco como estava me sentindo, depois dos últimos acontecimentos. Falei que estava esperando que alguém tentasse me atacar na rua, mas que não tinha importância depois do que havia feito, e também que isso não ia mudar meus planos luminosos de superação pessoal. “Que bom” ela disse, deitada sobre as almofadas coloridas espalhadas pelo piso do quarto e olhando para algum ponto qualquer para além da janela aberta. Alguma coisa a estava aborrecendo e por mais que insistisse, ela não queria contar. Tinha algo a ver com os pais ausentes, certo, mas parecia ir além disso. Tinha alguma coisa que não conseguia perceber o que era e isso me fazia sentir como um perfeito idiota e insensível.


Passamos muito tempo juntos durante essa semana. Não chegamos sequer um pouco perto das cercanias da escola, em vez disso, fomos caminhar pelo campo aberto que se estendia para além da região onde ficava a casa de ◊. Era uma área de pastagem que agora estava a venda na forma de lotes imobiliários, mas por enquanto havia apenas um mar de grama dourada e algumas árvores esparsas até sair em uma auto-estrada. Eu nunca tinha ido para esse lado da cidade, e por isso a considerava um lugar cinzento e sem graça. Parecia aquela coisa meio besta de sonho: eu e ◊ sentados sob a sombra de uma grande árvore, então ela encostava a cabeça em meu ombro e ficávamos lá até o sol se por.


Quando chegou o sábado, essa impressão de paraíso idílico deixou claro que não era muito mais que isso. Eu não tinha dormido bem a noite anterior, por conta de uma abstinência grave. Meu corpo não estava aceitando bem o acordo de não ser mais anestesiado e isso provocava reações desagradáveis. Meu pai chegou a me ouvir, então me carregou para o pronto-socorro. Acho que o médico disse que eu devia ser internado, não lembro bem, mas naquela hora neguei categoricamente, então voltei para casa depois de tomar algum medicamento para baixar a febre. Óbvio que a intenção do médico foi me dar alguma coisa induzisse a uma sensação semelhante às coisas que vinha tomando. Eles fazem isso em doses cada vez menores em certos casos, até que o paciente conseguisse lutar sozinho. Pelo menos eu já estava começando a admitir que era uma doença.



Estava amanhecendo quando voltávamos de ônibus para casa, eu e meu pai. Ele não havia dito uma palavra desde que deixamos o pronto-socorro. Perguntei como ele estava se saindo no emprego. Então ele contou que se tornaria um funcionário regular da oficina, pois sairia alguém e ele estava cotado para preencher a vaga. “Aquele cara que você bateu na escola, bem que mereceu, não foi?” Respondi que ele havia ofendido a ◊ e aí meu pai riu e perguntou se ela era minha namorada. “Não, somos amigos, mas não podia deixar o desgraçado falar que...”. Meu pai passou o braço em torno do meu ombro e comentou que eu era corajoso em defender o que me era precioso e concluiu dizendo que deveria ter lutado para que não tivessem tirado a mamãe da gente. Penso que meu pai se sentia muito culpado, na verdade, por ter aceitado que minha mãe fosse coagida pela família dela a nos deixar. Ele nunca mais falou nesse assunto, era um homem reservado e que não aceitaria demonstrar fraqueza diante do filho. Talvez ele estivesse errado, mas era o jeito dele e eu conseguia entender. Seria bom se chegássemos a algum tipo de acordo e essa conversa foi um início de desculpas mútuas.




Dormi o dia todo e tive a impressão de ter ouvido minha madrasta conversar pelo telefone com alguém. Foi mais de uma vez que ouvi a campainha irritante tocando lá da sala. Estava bastante zonzo, mas tive certeza que uma das pessoas era ◊, talvez perguntando porque não tinha aparecido na casa dela. É esquisito passar o dia todo dormindo, porque várias vezes você se percebe meio acordado, meio sonhando e não consegue separar bem os dois mundos. A outra conversa, da qual consegui captar algumas palavras, pareceu ser séria. “Hoje ele não está bem. Talvez você devesse vir amanhã... Eu entendo que é urgente, mas o garoto não pode falar hoje, entendeu?” O que estava acontecendo? Mas o sono me venceu e só fui descobrir no outro dia. Até hoje penso que teria sido melhor se minha madrasta resolvesse não ter sido gentil e tivesse me acordado para resolver aquele assunto de uma vez. Teria causado menos... problemas.





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