Issues escrita por Ana Hel Black


Capítulo 1
Primeira Parte




 

 

Tudo tem um começo...

 

O nosso não foi dos melhores, mas ainda assim não foi um mal começo. Eu achava que a felicidade não era pra mim e provavelmente qualquer pessoa diria que isso é um tremendo engano, afinal a felicidade é para todos. Posso rir? Deixe-me rir, a ironia é da boa! Se quer saber, quando tudo começou eu me sentia um cara morto.

 

Era assim: para mim tudo era ruim. Não tinha muita explicação, ou pelo menos que fosse relevante contar agora. Eu nunca fui no analista – nem meu pai se preocupava, nem eu tinha a menor vontade – cheguei sozinho à conclusão que era algum tipo de depressão crônica e como eu era um moleque burro pra diabos comecei a encher a cara com os remédios que tinha no armário da minha madrasta.

 

Nessa época a minha banda da “moda” era o Korn, conhece? Não era todo mundo que gostava, na verdade, mas acho que éramos a geração Prozac e eu tinha tantas coisas parecidas com o Jonathan, o vocalista... Pelo menos foi o que ela me disse, quando depois de entrar na sala pela primeira vez e olhar de um a um, resolveu sentar do meu lado. “Oh, puxa, você é a cara do Jonathan Davis!” Até hoje não sei porque fui deixar ela sentar lá e começar a falar sem parar da banda. E foi por exatamente isso que eu comecei essa minha história com “nosso”, porque não é sobre mim, mas sobre ela e sobre mais um monte de outras pessoas, incluindo a própria banda.

 

Agora sim, o começo...

 

Eu estava sentando num canto escuro qualquer, mergulhado na minha existência mortiça. Cara... Como eu detestava aquela escola... Eu era do primeiro ano do ensino médio, numa sala cheia de pessoas “amáveis”. Saca os exemplos: tinha o Boi, um grandão com ares de skinhead e a gangue de seguidores – Rato, Dinho e o Lucimar – todos grandes e burros e nota máxima em educação física. Mesmo assim as garotas os adoravam então eles sempre eram vistos juntos com as patricinhas populares, fãs de axé e da falta de cérebro. A “chefe” das patricinhas poderia ser capa de revista de mulher pelada (confesso que eu compraria a referida revista) ela era peituda e pintava o cabelo de loiro, nem parecia que tinha 15 anos, ela chamava Alissa e eu devia ser mais um idiota que pagava pau pra ela. Tinha também o Japa e o Fê, os dois nerds, mas mesmo assim populares, porque se não fosse por eles ninguém passava de ano. Haviam as amigas da Alissa, todas igualmente objetos do desejo dos garotos da escola, a Mari, morena e alta, muito linda, a Clara e a Cássia, gêmeas japonesas, até que boas alunas e viciadas em Sailor Moon e a Gio, meio gordinha mas dona de uma senhora comissão de frente. Uns oito ou nove seguidores dos populares; o Gordo, o Morcego e o Bomba, que passavam o intervalo todo jogando truco e falando sobre videogames – vez ou outra me juntava a eles; as duas fofoqueiras inseparáveis: Claire e Sam; tinha o gay da sala, o Marcinho e ele andava sempre com as duas fofoqueiras e nem sei se ele era tão gay assim, porque vivia no colo delas e de qualquer outra garota que estivesse por perto. E tinha eu. Eu era eu, o que pra mim era odiável. Por algum motivo, talvez minha pequena grande depressão, simplesmente me afastava de qualquer um dos grupinhos, uma grande frustração para o adolescente que eu era. E eu nem procurava me esforçar, melhorar... "Que se dane" eu pensava. Eu tinha um walkman velhíssimo, que fora do meu pai (ele me dera com toda a segurança de que não precisaria me dar um discman novo e moderno), daí eu passava o tempo todo com os fones enfiados no ouvido, escutando meus cassetes de fabricação caseira.

 

Não por acaso, o que mais eu ouvia era Korn. Tinha acabado de sair um álbum novo e eu estava doido para comprá-lo. Era uma das poucas coisas com as quais eu me entusiasmava e garanto, meus colegas não ajudavam em nada. De certa forma eu conseguia me desvencilhar bem deles, ficava na minha, curtindo o efeito das quatro aspirinas que eu tinha engolido antes de sair de casa, mas sempre que era possível, sobrava um tempinho para algum comentário muito engraçado ou uma rasteira no meio das escadas, na hora que todos estavam passando. Vocês não acreditam como era engraçado: todo mundo ria e quando eu chegava em casa com alguma contusão estranha, se meu pai falasse alguma coisa, era sobre eu ser um covarde por não revidar e minha madrasta sequer notava, a novela era mais importante, a não ser que ela cismasse com meu cabelo “mal cortado e sujo”, eu respondia que eram meus dreads, só não estavam longos o suficiente.

 

Pode parecer que tudo isso é bobagem, mas pra mim, vivendo aquilo todo dia, sempre a mesma merda... Ficava cansativo, adicione-se isso à tristeza crônica que eu vinha desenvolvendo há tempos. Entende por que era detestável? Entende porque cada dia eu via as manchas debaixo de meus olhos aumentando e me sentindo mais à parte da vida? Por favor, não me censurem, não me chamem de ingrato... Eu tinha meus motivos.

 

Foi nesse momento que ela entrou na sala. A manhã tinha sido uma das piores: estava chovendo e eu “fui escorregado” no chão enlameado do pátio de entrada e pisaram na minha redação, a primeira que eu fizera em um bom tempo e que, além disso, me parecia muito boa. Sem falar de antes de ter saído de casa: meu pai tinha acordado cedo, esquecido que perdera o emprego na empreiteira e quase me fez perder o ônibus discursando de como eu seria igualmente fracassado, com minha blusa da Adidas comprada num camelô e meu cabelo feio. “Vai à merda pai” E fui pra escola certo de que ia me dar muito mal quando voltasse pra casa.

 

Entrei na sala de aula sujo e aborrecido e não havia, ainda por cima, engolido algum comprimido e, ah claro, meu walkman ficara em casa, largado ao lado da minha cama, depois de ter passado a noite inteira repetindo uma fita com umas gravações raras que tinham me dado muito trabalho para conseguir. Me enfiei no fundo da sala, colado na parede, atrás das meninas, um lugar bem escondido, a julgar o fato de que aquelas matracas conseguiam atrair toda a atenção para elas.

 

Faltavam uns cinco minutos para bater o sinal, o que era bastante: metade da sala estava no corredor, conversando com alunos de outros anos, levando e trazendo recadinhos e fofocas. Suspirei. Como aquele mundinho era vazio e chato! Eu tinha que me entregar à apatia, eu ficava tão bem flutuando numa dimensão cinzenta, distante dessa que meu corpo se encontrava, largado sobre uma carteira cheia de pichações.

 

Alguém sentou do meu lado. Demorei quase um minuto para dar-me conta da presença desse ser humano. Muito devagar virei a cabeça, então tive um choque: a primeira coisa que vi foram duas esferas cujas cores irradiavam entre prateado e azul, grandes e brilhantes, faiscando a meio metro de distância. A pessoa piscou os olhos. Recuei um pouco. Era só uma garota, e vendo bem, a única coisa bonita nela eram os olhos, tinha o rosto fino e sem cor, com umas sobrancelhas escuras e esquisitas, ela era muito pequena e magrinha, sem corpo nenhum comparado com as outras meninas da sala, além disso parecia ser extremamente desengonçada e ela prendia os cabelos mal cortados fazendo um nó desarranjado. Ok, admito que meu cabelo também era péssimo, mas eu era um garoto, oras! A única mulher que nunca arrumava o cabelo, que eu conhecia, era minha madrasta, mas ela passava o dia todo deitada no sofá, vendo televisão.

 

Fui extremamente cruel na minha primeira impressão sobre aquela menina, depois tive muito tempo pra me arrepender. Eu não sei o que ela pensou de mim. E foi a primeira pessoa a voluntariamente sentar do meu lado. Eu era burro, já disse isso e não vai ser a última vez.

 

Ela sorriu. “Oi! Meu nome é ◊ Sou nova aqui, sabe? Tudo bem de sentar do seu lado?”

 

"Tá" respondi completamente desinteressado. Depois do choque inicial voltei a minha atenção a um esboço da capa do álbum novo do Korn que eu tinha feito: era aquele bonequinho velho, largado num canto, a palavra “issues” – problemas – um pouco mais em cima. Ela se aproximou, admirando o desenho.

 

“Eu adoro Korn!” “É bom sim...” “Sai dessa, tenho certeza que você é fã, com essa blusa e esse cabelo” Ainda por cima ela era adivinhona. Como eu não disse nada, só fechei a cara o máximo que conseguia, ela ficou quieta e voltou a atenção para a própria mochila. Com o canto do olho eu aproveitei para analisar a figura estranha que ela era. (Eu tinha essa mania de observar todo mundo, quem quer que fosse; eu tentava ser discreto, mas essa mania me rendeu um apelido nada agradável, mas será contado mais a frente) Notei que no pulso esquerdo ela usava um relógio grande, desses de menino junto com uma fita vermelha e uma pulseira de contas coloridas e desparelhadas. Ela tinha um monte de buttons na mochila, desde Korn até Teletubbies mortos e fuzilados, achei bem estranho, mas talvez ela fosse legal, afinal gostava de uma banda muito boa. Dois segundos depois voltei atrás com esse pensamento positivo. Do nada ela me encarou “Oh, puxa, você é a cara do Jonathan Davis!” Eu era o que? Demorei um tempo para registrar. ‘Pera aí... Eu não tinha nada haver com o Jon, só um pouquinho, vai... Só que isso era um pensamento muito meu e bem guardado, ia ser chato todo mundo saber que eu me comparava com outro cara, não era coisa para gritar por aí. A desgraça é que quando ela falou isso senti meu rosto avermelhar. Isso nunca, jamais acontecia. Concordei com ela e voltei para o desenho. Achei que ela tivesse dado de ombros e voltado a fuçar na mochila, mas ela cutucou meu ombro. “Desculpa, eu me empolguei... É que eu estava com vontade de conversar, sabe? Lá em casa minha mãe trabalha o dia inteiro e eu fico sozinha, na outra escola não conversava muito sabe... Resolvi começar diferente aqui” Registrei esse pequeno dado sobre ela, pelo visto não era só eu que andava solitário, mas se mudasse de escola não faria o mesmo que ela, sinceramente. O sinal tocou, a sala não demorou a encher. A primeira coisa que repararam foi a ◊, sentada justo do meu lado! Eu acabara de conhecer aquela garota e ela já tinha me feito sentir surpresa, irritação, curiosidade, pena e agora ia me fazer pagar um mico – eu já tinha dado minha cota quando botei os pés na escola – As primeiras a ver foram as fofoqueiras “Menina nova, vem sentar com agente aqui na frente!” Ela as avaliou por um momento, já estava vendo ela ir, mas... “Prefiro sentar no fundo, obrigada!” Raios... Eu devia ter ido para o fliperama, para o shopping, qualquer lugar, menos à aula. Nesse momento o Boi entrou na sala, ladeado pelo exército de mongoloides. “O que? O viado arrumou uma namorada?” Todos riram. Eu afundei na carteira. Se ela pelo menos fosse bonita eu poderia responder que tinha sim, arrumado uma namorada, mas...

 

(pausa para explicar o “apelido” - aqueles putos me chamavam de “viado” desde a sétima série. Até esse ano em questão eu era o “distúrbios”, só que daí, num belo dia, justo quando um policial militar que deixou todas as meninas suspirando foi fazer uma palestra sobre drogas na escola – percebam que eu não prestei a menor atenção no que o cara tinha a dizer, se não me engano foi num dia que eu estava morrendo de sono – enquanto eu não dormia, eu tentava usar minha técnica de observação disfarçada no policial, pelo menos dava a impressão que eu estava prestando atenção, nesse momento uma das gêmeas vira para trás e diz algo sobre eu estar p-a-q-u-e-r-a-n-d-o o palestrante. Não deu outra: na altura do intervalo eu era o novo assunto e quando veio quase todo mundo me perguntar se eu era mesmo aquilo que pensavam, o Boi fala lá do lugar dele “Isso explica porque ele espera todo mundo sair do vestiário para trocar de roupa, ele não quer que vejam o estado de excitação dele” Até eu ri, mas foi por ter ouvido o Boi dizer algo tão complicado quanto “estado de excitação”, de qualquer jeito eu preferi deixar assim do que desmentir e falar a verdade, que eu tinha muita vergonha do meu aspecto físico, demasiadamente magro e pálido e eu tinha 13 anos, era tão desacostumado com minha adolescência recém adquirida! O apelido pegou que até agora, quase três anos depois, além de “distúrbios” eu era o “viado” - fim da pausa explicativa do meu apelido)

 

A novata ficou olhando de mim para o Boi, a piada já passara e todos tinham sentado, indiferentes, mas ela continuava olhando de mim para o Boi. “O que foi?” Eu tinha que ser curioso... “Aquele cara... Por que ele faz isso?” Dei de ombros. Ela piscou mais um pouco e murmurou alguma coisa sobre o Boi ser idiota. Aí ela mudou de expressão, de indignação para cara de quem esqueceu alguma coisa em menos de um segundo. “Eu nem perguntei seu nome, com certeza não é viado, né?” “Não... Meu nome é ● ” “Legal, gostei... Só que eu vou te chamar de Jon, tudo bem? É que eu juro que você parece muito com ele...” ela ficou me encarando, procurando onde estava minha semelhança com o vocalista do Korn, na hora eu achei muito aborrecido, iam pensar que eu estava paquerando aquela pirralha. Então o professor de química entrou na sala. Eu disse pra ela quem era ele e disse que era minha matéria favorita, quando eu não dormia. Ela sorriu e pegou um caderno – a capa era coberta de retalhos, folhas de arvores, anéis de lata e fotos dos caras do Korn recortadas de alguma revista. “É, eu também gosto de química...”