New Legends - Cavaleiros do Zodíaco escrita por Phoenix Matt Marques W MWU 27


Capítulo 134
Sombras do Passado, parte 2


Notas iniciais do capítulo

PARTE 2 DE 3

Duas partes já foram. A terceira vem aí.
Continuando meu relato do capítulo anterior: de março de 2017 até novembro de 2018 eu fiquei sem acessar o Nyah! e, então, escrever este capítulo em meu caderno se tornou minha principal atividade nas minhas horas livres. Era um capítulo que, na minha perspectiva, ainda demorava para chegar, mas que, ainda bem, consegui alcançar neste progresso que tive no ano de 2019 em meu retorno. Tirei a fanfic do hiato em março de 2019, quase exatos dois anos depois de iniciado meu hiato involuntário. Perdi alguns leitores, mas ganhei novos. E mantive alguns dos antigos. E sou grato pelo apoio e presença de todos eles. Esta parte das 3 que mencionei é a que contém o grosso do esboço que eu havia feito. A terceira parte vai ser quase toda com passagens que eu já acrescentei este ano, bem depois de encerrar o hiato. Ou seja, se tivessem lido o meu caderno, o que vocês encontrariam seria praticamente só o que rolou na parte 1 e parte 2. Enfim, tudo isso foi um aprendizado. Espero poder continuar trazendo esta história para vocês da melhor maneira possível. E é ótimo ver a minha fanfic mais antiga ganhando cada vez mais corpo por aqui. E ainda conseguindo atrair leitores a cada atualização.

Vamos ao capítulo:
Matt de Fênix continua a vislumbrar as lembranças de Unity, e descobre sobre o envolvimento dele na guerra santa do século 18, a conhecida guerra do "Lost Canvas", bem como sua interação com os cavaleiros Dégel de Aquário, Kardia de Escorpião, com a representante de Hades, Pandora, com sua irmã Seraphina, com Poseidon e outros personagens.



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            O cenário da visão mudou. Matt viu que ainda estava em Graad Azul, mas o local estava drasticamente diferente; havia muito mais ruínas em meio à neve, e não havia nenhum sinal de vida por perto.

            O garoto divisou dois vultos que avançavam pela neve, em direção às ruínas. Um olhar mais atento mostrou que eram dois Cavaleiros de Ouro. Um deles usava a Armadura de Escorpião, e o outro usava a Armadura de Aquário.

            Matt flutuou mais para perto; os dois cavaleiros lembravam-lhe muito de Milo e Camus, mas suas feições e semblantes eram significativamente diferentes. De repente, ele começou a reparar melhor no Cavaleiro de Aquário. Sentia como se já o tivesse visto antes.

            Um olhar mais atento e Matt se deu conta de porque o achava familiar: o homem tinha as mesmas feições, apesar de um pouco mais envelhecidas, do menino Dégel, amigo de infância de Unity que ele tinha visto na visão anterior. O garoto se recordou de ter visto Dégel dominando a técnica do Pó de Diamante com primazia. O Pó de Diamante era associado aos Cavaleiros de Aquário há gerações – então aquele homem diante dele, usando a armadura, só poderia ser Dégel, já adulto. Se na visão anterior ele aparentava ser ainda um jovem adolescente, ali ele já aparentava estar na casa dos vinte e poucos anos, então era seguro afirmar que pelo menos uma década poderia ter se passado do cenário da visão anterior para o dessa. Isso confirmava as suspeitas de Matt acerca do poder que ele havia demonstrado na outra visão, quando ainda era um menino. Talvez ele até já fosse um Cavaleiro de Ouro mirim na visão anterior, ou, pelo menos, um herdeiro oficial da armadura ou um postulante promissor a ela.

            Ele também começava a ponderar que, se Unity havia mesmo vivido, aproximadamente, no século 18, então Dégel e ele haviam estado vivos durante a guerra santa daquele século. Era sabido que o Santuário havia tido uma guerra santa contra Hades naquela época, 243 anos da guerra santa de 1990 em que Seiya e os demais cavaleiros de sua geração haviam lutado contra o mesmo Hades. Será que Unity e Dégel haviam tomado parte na guerra de forma ativa? Dégel era um Cavaleiro de Ouro, então era bem provável que ele tivesse sim atuado naquela guerra. Já Unity? Matt tinha suas dúvidas, afinal, ele era apenas um príncipe de Graad Azul. Não havia motivos para Hades se interessar naquela região, nem para um príncipe de Graad Azul se envolver numa guerra entre Atena e o deus do mundo inferior. Pelo menos, nenhum motivo no qual Matt conseguisse pensar. Afinal, Hades só havia se envolvido com as terras do norte recentemente, quando reviveu os Guerreiros Deuses de Asgard para enfrentar o Santuário, no mês anterior. Não havia registros anteriores, nos documentos do Santuário, sobre o senhor dos mortos ter se envolvido com as regiões polares do norte em ocasiões anteriores. Além do mais, aquela visão mostrava Graad Azul, que pouco tinha a ver com Asgard, já que se localizavam em regiões diferentes do globo, e eram protegidas por grupos diferentes: Asgard pelos Guerreiros Deuses, e Graad Azul pelos Guerreiros Azuis.

            Isso gerava outras inúmeras questões. Por exemplo: se Unity estivera vivo naquela época, como estava vivo no século 21, em meio a mais uma guerra santa, também envolvendo Hades e, inclusive, atuando em seu nome, embora sob a “máscara” de um General de Poseidon? Matt torcia para que aquela visão esclarecesse tudo isso. Unity teria estado vivo ininterruptamente durante todos aqueles 265 anos? Qual era a real idade dele agora? Ou mesmo antes de ser “recrutado” por Hades? O cavaleiro de Fênix não sabia o que pensar sobre isso.

            Matt não fazia ideia de quem era o Cavaleiro de Escorpião, e o único aspecto familiar nele era a semelhança com Milo. Ele já ouvira falar que os Cavaleiros de Ouro de gerações passadas haviam reencarnado em certas ocasiões. Naquela situação específica, pelo menos tanto o guardião da Casa de Aquário quanto o da Casa de Escorpião pareciam ter reencarnado na geração seguinte, com pelo menos poucas diferenças físicas. O garoto imaginava que, na geração deles, o mesmo provavelmente tivesse ocorrido com os cavaleiros das demais Casas, com base no que ele havia lido na biblioteca do Santuário. Talvez até esses dois Cavaleiros fossem amigos próximos, como Milo e Camus haviam sido, já que era comum que os Cavaleiros que saíam em missões juntos terem certo grau de proximidade. Mas, a menos que aquela visão começasse a entrar naquele mérito também, isso era assunto para outro momento.

            Uma movimentação o fez voltar sua atenção para os dois Cavaleiros. O cavaleiro de Escorpião se adiantou para atacar dois vultos negros encapuzados que se aproximaram rapidamente em direção a eles, e os atacou com alguma variante da Agulha Escarlate, pelo que Matt conseguia ver. As vozes dos Cavaleiros soavam difusas, como se o garoto os estivesse ouvindo do outro lado de uma cachoeira, apesar de estar flutuando bem ao lado deles.

            Dégel tentou impedir o golpe do Escorpião, mas ele já havia desferido os golpes de agulha contra os recém-chegados, derrubando-os. Os capuzes deles se rasgaram, revelando armaduras em tom escuro revestindo os guerreiros. A princípio, Matt achou que fossem Cavaleiros Negros – ou mesmo algum outro tipo de guerreiro que usasse armadura de cor negra, ou que estivessem sob a influência de Hades, como Matt já havia visto recentemente no caso dos Cavaleiros de Prata, dos Cavaleiros de Ouro, dos Guerreiros Deuses e dos Marinas. Olhando com mais atenção, porém, ele notou que as armaduras que eles usavam eram, na verdade, de um tom forte de azul. Ora, estavam em Graad Azul – aqueles então seriam os Guerreiros Azuis daquela época?

            Um som chamou a atenção de Matt. Era Dégel, e ralhando acerca do ataque precipitado do Escorpião e censurando a atitude do colega. Aparentemente, o aquariano também percebera que eles se tratavam de Guerreiros Azuis, tradicionalmente aliados de Atena. Mesmo com a voz dele soando muito difusa, Matt conseguiu perceber um nome se repetindo: “Kardia”, e Dégel estava usando-o insistentemente; o garoto imaginou se tratar do nome do cavaleiro de Escorpião.

            Kardia, que estivera pisando nos dois encapuzados, pareceu perceber o mesmo e tirou o pé de cima deles, e ergueu as mãos para Dégel, como se pedisse desculpas – embora não parecesse tão arrependido do que fizera.

            Outra pessoa surgiu na cena. Unity reapareceu diante deles, em frente ao que parecia ser o palácio da visão anterior, mas que agora estava totalmente em ruínas. Agora, evidentemente ele não era mais um menino, mas sim um homem feito, com o mesmo aspecto e semblante que exibira diante de Matt no Pilar do Atlântico Norte; a diferença era que, ao invés de usar a Escama de Dragão Marinho, ele usava a vestimenta real de Graad Azul, como se fosse agora o regente do lugar. Talvez o pai dele tivesse já falecido; Matt havia notado que se tratava de um homem de idade na visão anterior, e assim, Unity teria assumido o trono em seu lugar. Mas então, por que a cidade estava arruinada? E onde estaria Seraphina, a irmã dele?

            O cavaleiro de Fênix notou também que Unity não exibia o olhar de fúria assassina que possuía no presente, especialmente quando esteve enfrentando o garoto. Pelo contrário: exibia um semblante pacífico e sereno. O que teria mudado tanto na vida daquele homem a ponto de fazer aquela serenidade sumir de seu olhar? Nada estava fazendo sentido para o garoto naquela visão, até agora.

            Matt voltou a prestar atenção na cena. Unity parecia estar explicando o que Dégel e Kardia já haviam constatado: que aqueles guardas eram os Guerreiros Azuis (sendo o líder de Graad Azul, Unity agora seria também o líder deles) que estavam protegendo o que outrora havia sido a entrada do palácio. Ele gesticulava de forma intensa para os Cavaleiros de Ouro, como se Graad Azul estivesse em estado de alerta nas circunstâncias atuais.

            O cavaleiro de Fênix tentou raciocinar. Se aquela era a guerra santa do século 18 – a mesma guerra santa na qual o mestre Shion e Dohko de Libra haviam lutado quando eram jovens, uma das guerras santas mais intensas na história do Santuário – então, fazia certo sentido que Graad Azul estivesse em estado de alerta. Afinal, havia sido uma guerra santa na qual apenas dois cavaleiros de Ouro – exatamente Shion e Dohko – haviam sobrevivido ao fim do conflito, tendo Shion sido então elevado ao posto de Grande Mestre, e Dohko ao posto de vigia da torre que aprisionava os guerreiros de Hades sob o selo de Atena. Talvez Graad Azul estivesse toda em ruínas daquele jeito devido justamente à guerra santa em curso. Como uma guerra entre Atena e Hades podia afetar Graad Azul daquela forma ainda era um mistério para o garoto, mas talvez aquela visão estivesse começando a fazer sentido.

            Voltando sua atenção para os três homens, Matt reparou que Unity havia dispensado os Guerreiros Azuis, que haviam se erguido após a chegada de seu líder e saíram discretamente do local, desaparecendo em meio às ruínas. O príncipe agora se dirigia a Dégel; pela forma como dialogavam, o garoto percebeu que ambos se reconheciam, provavelmente devido ao tempo em que haviam convivido na infância. Matt notou que Kardia ainda parecia desconfiado com tudo aquilo, e olhava para Unity com um semblante pouco amistoso. Saber que ele era o líder dos Guerreiros Azuis, pelo visto, não havia feito o Cavaleiro de Escorpião baixar a guarda diante da presença dele. Um calafrio percorreu a espinha de Matt, afinal, ele havia visto como Unity era no tempo presente – frio, sanguinário, amedrontador. Será que Kardia havia percebido algo em Unity que Dégel ignorava ou desconhecia, em face da amizade que detinha com o príncipe? Matt não sabia se estava mais tendencioso a concordar com Kardia ou com Dégel. O Unity do passado não parecia demonstrar ameaça alguma. O garoto já havia aprendido que aparências podiam enganar – mas, se o mal já existia dentro de Unity naquela época, ele o estava escondendo muito bem.

            Dégel assentiu com a cabeça várias vezes durante o diálogo, parecendo compreender a explicação de Unity para o estado de alerta e a situação em que Graad Azul se encontrava. Ele fez um gesto em direção a Kardia e a si mesmo, como se explicasse algo ao príncipe acerca da presença dos dois Cavaleiros naquela terra. Ainda com dificuldades para compreender o que eles falavam, Matt conseguiu, entretanto, reconhecer uma palavra, que se repetiu várias vezes na conversa, e era uma palavra muito corriqueira na vida do garoto desde que havia chegado ao Santuário: “missão”.

            Então, em meio a uma guerra santa contra Hades, um Cavaleiro de Aquário e um Cavaleiro de Escorpião estavam em Graad Azul, se informando com o príncipe regente do local, devido a uma missão, certamente a mando de Atena (Matt achou ter ouvido o nome da deusa em meio à fala de Dégel). Que interesse Atena podia ter em Graad Azul, especialmente em meio a uma guerra contra aquele que era, talvez, seu inimigo mais poderoso?

            Unity meneou com a cabeça, como se entendesse o objetivo de Dégel e Kardia e os motivos pelos quais estavam ali. Ele fez um sinal em direção ao palácio, e conduziu os dois Cavaleiros pelas ruínas. Matt flutuou atrás deles, percebendo, após eles entrarem no palácio, que o local estava bem mais avariado do que ele havia se dado conta. Estranhamente, não havia sinal de vida nem de atividade recente no palácio. Apesar de estar arruinado, o mais provável era que Unity tivesse continuado a habitar no palácio, agora que era o regente. Unity por acaso era um gestor tão negligente assim? Não havia tentado sequer recuperar a estrutura do local?

            Enquanto avançavam em meio às ruínas, Matt se deteve um pouco, analisando o local. Ele não era nenhum expert em arquitetura, mas já tinha visto imagens de edificações semelhantes àquela nas aulas de história em Palaestra. Pela sua estimativa mais otimista, o prédio parecia datar, pelo menos, do século 18, confirmando que estavam em meio à guerra santa da juventude de Shion e Dohko. Mas Matt rapidamente deixou de se preocupar com esse detalhe – ele havia começado a reparar no comportamento de Dégel e Kardia. Enquanto Unity os guiava, pela forma como analisavam o ambiente, os Cavaleiros de Ouro pareciam à procura de algo. Se Unity estava ciente disso, Matt não sabia. Será que a missão de Atena para eles consistia em encontrar algo que estivesse escondido em Graad Azul? Logo quando Matt achara que estava começando a entender aquela visão, ela passava a fazer cada vez menos sentido.

            Eles caminharam pelo que pareciam ser as ruínas do centro da cidade, já depois dos limites do palácio. Ao contrário do prédio anterior, o centro da cidade ainda parecia um tanto conservado, com diversas edificações ainda em pé e apenas algumas levemente arruinadas. No entanto, Matt não podia deixar de notar que não havia uma só vivalma sequer à vista.

            Por fim, Unity os levou até uma edificação imponente e pouco avariada, e os fez entrar. Lá dentro, Matt se deu conta de que era uma biblioteca. Ao ver tantos livros, o garoto se animou um pouco devido ao seu gosto pela leitura, mesmo sabendo que não conseguiria tocar naqueles livros em meio à visão. Ele notou que Dégel ficara empolgado ao notar que estavam numa biblioteca, e até Unity parecia orgulhoso da quantidade colossal de conhecimento contida ali, no centro de seu reino. Apenas Kardia demonstrava um completo desinteresse. Matt se deu conta de que, até agora, a única vez em que o havia visto demonstrar certa empolgação naquela visão foi quando ele atacara os Guerreiros Azuis, julgando se tratarem de inimigos. Isso indica que Kardia é um guerreiro nato, enquanto Dégel é um intelectual. Difícil decidir com qual dos dois eu me identificaria mais, pensou o garoto consigo mesmo.

            A biblioteca de Graad Azul era majestosa, de fazer inveja mesmo à biblioteca de Palaestra. Unity os conduziu pelos corredores, até que chegaram a uma sala, na qual, estampado na parede, havia um símbolo: o tridente de Poseidon. Sobre o símbolo, estava pregado um selo, com uma inscrição em grego: ATENA.

            De repente, uma antiga história que Matt havia escutado uma vez no Santuário jorrou por suas memórias. Ele havia ouvido que a alma de Poseidon estivera aprisionada por séculos por um selo de Atena – até que Kanon, irmão do cavaleiro Saga de Gêmeos, o removera, libertando o deus dos mares, mais de duas décadas atrás. Mas aquele selo havia estado no subterrâneo do Cabo Sunion, próximo ao Santuário. Pelo visto, o aprendiz de Ikki agora estava diante de um outro selo, idêntico àquele – e a julgar pelo símbolo de Poseidon estampado na parede, aquele selo também tinha a serventia de guardar algo relativo a Poseidon. Mas o que seria? Que relação Poseidon poderia ter com Graad Azul?

            O garoto percebeu que os três homens haviam estacado de repente, diante do selo, contemplando-o. Unity e Dégel olhavam-no com admiração, e até mesmo Kardia, que até então não havia se esforçado em esconder seu desinteresse, olhava para o selo e para o símbolo de Poseidon com aguçada curiosidade.

            Unity tomou a frente, saindo daquele torpor, e retirou o selo da parede. Nesse momento, eles foram teletransportados dali; quando Matt se deu conta, eles estavam diante de uma cidade, cercada por uma abóbada e, para além dessa abóbada, ele conseguia divisar o oceano. Era uma cidade submersa, cercada pelo mar, tal qual o Templo Submarino no qual Matt se encontrava no presente.

            Então ele se deu conta de algo. Ao longe, a certa distância da cidade, algumas edificações se projetavam do solo, enormes como torres.

            Não, não eram torres, Matt se forçou a se corrigir. Eram pilares.

            Os sete pilares representando os sete mares do mundo. Matt se deu conta de que aquele local ao longe era o Templo Submarino de Poseidon, com o Grande Pilar Principal centralizado, magnânimo ante os sete pilares menores.

            Talvez não fosse o mesmo Templo Submarino no qual Matt se achava no presente – ele se recordou de ter ouvido Sorento afirmar que Poseidon, nos tempos atuais, contava com três Templos Submarinos. Os cavaleiros de Bronze estavam lutando no Templo que se localizava no Oceano Atlântico; então, aquele que aparecia na visão de Matt poderia ser o Templo Submarino original, no Mar Mediterrâneo, o mesmo no qual Seiya, Ikki e os demais Cavaleiros de Bronze do passado haviam lutado contra os Generais Marinas, vinte anos atrás. Com a destruição daquele templo, Sorento havia levado as Escamas dos demais Marinas para o outro Templo mais próximo, a pedido do espírito do próprio Poseidon, e, por isso, a batalha atual contra os Marinas estava se desenrolando ali.

            O garoto se lembrava de ter ouvido que os cavaleiros de Bronze do passado haviam ido para o Templo de Poseidon através de uma passagem localizada em Asgard. Aquela passagem aparentemente ainda existia, mas podia conduzir aos outros Templos Submarinos caso necessário – Isabella e Fernanda haviam, aparentemente, chegado ao Templo atual através daquela passagem. Mas Matt estava, até então, presumindo que aquela se tratava da única passagem secreta no mundo que levasse à morada de Poseidon através de meios mágicos; Sorento os havia trazido para o templo atual através de uma correnteza marítima, e ele havia declarado também que era possível chegar a qualquer dos Templos Submarinos (desde que eles estivessem sendo utilizados por Poseidon ou pelos Marinas no momento atual) seguindo alguma das correntes oceânicas.

            Mas o garoto via agora que estava enganado. Havia uma passagem (ou, pelo menos, havia na guerra santa de três séculos atrás) escondida em Graad Azul, marcada com o selo de Atena, que conduzia diretamente ao coração do Santuário Submarino.

            De repente várias informações voltaram à tona na memória de Matt, como um turbilhão, resultantes das aulas de história em Palaestra. Os Guerreiros Azuis, protetores de Graad Azul, eram ex-cavaleiros de Atena que haviam sido designados para Graad Azul para vigiar... Ele não se lembrara antes, mas uma das atribuições de vigilância dos Guerreiros Azuis era a passagem secreta para o Templo de Poseidon. E Atena havia decidido selar aquela passagem depois de uma guerra santa contra Poseidon, eras atrás. Por isso, os Guerreiros Azuis existiam desde quase os tempos mitológicos. Eventualmente, eles renegaram Atena e passaram a lutar por conta própria, guardando a terra à qual haviam sido enviados. Vez ou outra, porém, eles firmavam alianças com os Cavaleiros de Atena para proteger seu território ou para se defender de um inimigo em comum. E claro, haviam continuado a proteger o selo que guardava o Templo de Poseidon, já que, mesmo não servindo mais a Atena diretamente, seu temor pelo deus dos mares continuava sendo grande.

            No entanto, ele sentia que estava deixando escapar alguma informação. Os Guerreiros Azuis vigiavam a passagem para o Templo de Poseidon – mas seria só isso que eles tinham como atribuição? Será que guardavam... alguma outra coisa, naquela terra gelada? Matt havia notado que Dégel e Kardia olhavam bastante em volta durante o percurso pela cidade, como se procurassem algo, certamente algo que Atena os incumbira de encontrar. Então, o que seria? Certamente, não era o selo; então, o que realmente os havia trazido até Graad Azul? Seria essa a outra coisa da qual os Guerreiros Azuis eram encarregados de proteger?

            Ele notou os três homens conversando, e se forçou a voltar a focar na visão. Pelo visto, agora que haviam chegado ao território de Poseidon, Dégel tentava pedir a Unity que retornasse a Graad Azul (Matt presumiu que, usando o selo de Atena que ainda estava em suas mãos, Unity pudesse retornar rapidamente para a cidade da mesma forma como haviam vindo para o Templo Submarino), mas o príncipe insistia em conduzi-los até alcançarem... seja lá o que eles estivessem procurando ali. Dégel pareceu aceitar a proposta de Unity, mas Kardia continuava a observar o príncipe com ar de desconfiança, como se achasse que ele não devia mais acompanha-los.

            O garoto ainda não entendia completamente como uma parede em Graad Azul podia esconder uma passagem para o Templo de Poseidon, a quilômetros dali; contudo, compreensão de métodos mágicos nunca havia sido seu forte, a não ser que envolvessem os golpes secretos dos cavaleiros, que de certo modo também eram uma forma de magia. Ele aceitou aquela realidade por ora, tentando focar em aspectos mais relevantes da visão. Por exemplo, a razão pela qual Kardia desconfiava tanto assim de Unity. Mesmo tendo conhecido Unity como um inimigo no tempo presente, o cavaleiro de Fênix não conseguia entender o motivo da cisma do Cavaleiro de Escorpião para com o príncipe.

            Tentando ainda decifrar a conversa deles, Matt notou que algumas palavras se repetiam frequentemente no discurso de Dégel. Uma delas era bem clara: “Poseidon”. Claro, estavam no Templo do deus dos mares, mas o aquariano parecia querer algo mais. Seria uma conversa ou negociação com o senhor dos oceanos? Se sim, que interesse Atena poderia ter em dialogar ou negociar com Poseidon, por intermédio de seus cavaleiros, ainda mais em meio a uma guerra contra Hades? Os livros de história do Santuário explicitavam que, quando Atena e Hades estavam em meio a uma guerra, Poseidon geralmente não se envolvia, e quando Atena e Poseidon estavam em guerra, Hades era quem não se manifestava. Era como se fosse um acordo tácito informal entre os três deuses; se a guerra de repente se tornasse um conflito de três lados, dois dos três deuses teriam que se aliar entre si para enfrentar o outro deus, e as diferenças entre os três eram muito grandes para tal aliança sequer ser cogitada. Estaria aquela guerra sendo tão intensa a ponto de deixar Atena desesperada o suficiente para contatar Poseidon em busca de um acordo contra Hades?

            É claro que aquela batalha entre Unity e ele no presente, Matt se recordou, estava ocorrendo em meio a uma manipulação dos guerreiros de Poseidon por parte de Hades. Numa situação dessas, seria perfeitamente compreensível o contato entre Atena e Poseidon – que havia ocorrido, de certa forma, por intermédio de Sorento, que viera ao Santuário para pedir auxílio aos Cavaleiros. No entanto, Matt também se lembrou de que aquela era uma situação inédita. Hades estava usando de artífices que não costumava usar nas guerras santas. Logo, na época retratada na visão, provavelmente não havia um precedente, ainda, forte o bastante que fizesse Atena arriscar tudo por uma negociação com Poseidon. Novamente, o menino ponderou sobre qual informação ele estava deixando passar em meio a tudo aquilo.

            Outro aspecto que continuava a vir à tona em sua mente: como eles dialogariam com Poseidon? O deus dos mares estava selado, e só seria liberto por Kanon, mais de duzentos anos depois das cenas retratadas naquela visão. Se fosse Atena se dirigindo pessoalmente ao encontro dele, Matt conjecturou que a deusa poderia facilmente se comunicar com o espírito do deus, mesmo ele estando selado. Mas como Dégel e Kardia, que eram apenas dois Cavaleiros de Ouro, conseguiriam sequer conversar com o irmão de Zeus e Hades?

            Os três homens começaram a andar novamente, e Matt os seguiu, afastando mais uma vez seus pensamentos por ora. A cidade submersa contava com algumas inscrições em grego nas paredes de suas edificações. Algumas delas informavam: “Atlântida”. Então, além da localização da passagem para o Templo Submarino, o selo de Graad Azul guardava também a entrada para a cidade perdida legendária do fundo do mar, a antiga capital do reino de Poseidon. A importância dos Guerreiros Azuis e do selo em Graad Azul aumentava a cada descoberta que a visão oferecia a Matt.

            Um movimento brusco lateral fez com que Matt voltasse os olhos para o grupo de Unity. De repente, duas figuras haviam se juntado à cena: o primeiro era um guerreiro de armadura escura, e de aspecto sombrio similar ao das armaduras dos Cavaleiros de Prata, Cavaleiros de Ouro, Guerreiros Deuses e Marinas revividos que os Cavaleiros de Bronze tinham enfrentado nos últimos tempos, e que levemente também lembrava as armaduras dos Cavaleiros Negros que eles haviam derrotado logo após a Guerra Galáctica. A armadura desse homem cobria-lhe quase o corpo todo, e tinha o aspecto de um dragão alado gigante. Como era mesmo o nome que os Cavaleiros de Ouro revividos por Hades haviam usado para se referir a si mesmos quando haviam voltado à vida...? Ah. “Espectros”. Então, certamente aquele guerreiro deveria ser um dos Espectros, os guerreiros que defendiam Hades – um Espectro legítimo, e não um guerreiro de outra divindade que estava “corrompido” pelo senhor dos mortos. Mesmo sendo uma visão, Matt podia sentir uma enorme e maligna cosmo-energia vinda daquele homem.

            Tomando ciência disso, o garoto de Fênix constatou também que, cedo ou tarde, os Cavaleiros de Bronze acabariam tendo que enfrentar os próprios Espectros naquela guerra. Hades não ficaria usando peões emprestados de outras divindades para sempre. E se os demais membros do exército de Hades tivessem cosmos tão intensos e agressivos como o daquele homem... Matt não sabia se os Cavaleiros de Bronze estariam preparados para tal batalha. Haviam vencido, a duras penas, alguns dos Cavaleiros de Prata da geração passada. Venceram os Cavaleiros de Ouro antigos, mas com a ajuda das armaduras de Ouro emprestadas pelos Cavaleiros atuais. Quase não resistiram às batalhas contra os Guerreiros Deuses de Asgard. E a batalha contra os Marinas também estava exigindo que eles subissem vários níveis de poder em um espaço de tempo curtíssimo. Matt tinha receio de que ele e seus amigos não conseguiriam mais continuar “queimando etapas” a torto e a direito, e que, eventualmente, chegariam a seu limite. Ele sacudiu a cabeça e decidiu que pensaria nisso depois, e voltou a prestar atenção na visão.

            A outra figura era uma mulher de pele branca e cabelos escuros, mais ou menos da mesma altura que os Cavaleiros de Ouro e o tal Espectro. Ela usava vestes longas e pretas, e empunhava uma espécie de lança. Matt sentiu que dela emanava uma aura das trevas, um cosmo maligno, maior e mais intenso ainda do que o cosmo emanado pelo Espectro da armadura draconiana.

            Tanto Dégel quanto Kardia reagiram à aparição da mulher, como se já a conhecessem. As vozes deles continuavam a soar confusas e distantes para Matt, mas ele conseguiu divisar um nome se repetindo nas falas deles, como se o estivessem usando para se referir à mulher: “Pandora”. Curiosamente, o mesmo nome da personagem da mitologia que foi agraciada com vários dons pelos deuses. Teria ela alguma relação de importância com Hades? Matt achava que já tinha lido ou ouvido falar por alto algo sobre ela no Santuário, mas não conseguia se lembrar.

            Subitamente, assim que surgiu em cena, o Espetro draconiano desferiu um golpe desleal contra Unity, atravessando-lhe as costas com um punho, que saiu pelo outro lado, bem no local onde ficava o coração. A mulher chamada Pandora pareceu repreender o Espectro pelo derramamento de sangue, mas o guerreiro de Hades não pareceu se importar. Unity caiu morto ali mesmo, e Dégel, seu amigo, se encolerizou e avançou contra o Espectro; porém, foi detido pela tal Pandora, que estendeu a lança contra os Cavaleiros de Ouro, disparando algo semelhante a raios negros.

            Dégel e Kardia se viram atingidos pelos raios. Kardia pareceu aguentar a carga e saltou para trás, mantendo certa distância dos invasores; Dégel, porém, ainda parecia aturdido pela aparente morte de seu amigo de infância, e seus joelhos cederam, indo de encontro ao chão.

            A mulher chamada Pandora e o Espectro sorriram satisfeitos; porém, no instante seguinte, a cólera pareceu tomar conta de Dégel novamente, e ele se ergueu de supetão. Encarando os dois invasores, ele fez uma pose de ataque, erguendo os braços para o alto, com as mãos unidas. Era o gesto clássico dos Cavaleiros de Aquário, utilizado para efetuar uma técnica que Matt conhecia bem: a Execução Aurora.

            Dégel baixou os braços e disparou a técnica suprema dos cavaleiros do gelo, envolvendo Pandora e o Espectro draconiano com sua rajada congelante, num movimento tão rápido que os dois invasores não puderam se desviar ou reagir de qualquer outra forma. Os dois ficaram cobertos pelo gelo, e Matt percebeu que Dégel havia utilizado a Execução Aurora para prendê-los em uma versão do Esquife de Gelo, combinando, assim, duas das técnicas mais fortes dos Cavaleiros de Aquário. Como ele também conseguia utilizar técnicas de gelo, Matt entendia mais ou menos sobre o funcionamento daquelas técnicas; contudo, ele era primariamente um controlador do elemento fogo, o que fazia suas técnicas de gelo terem menos potência que as de fogo. Um cavaleiro legítimo do gelo, como Thiago, Camus, Hyoga, ou o próprio Dégel, seria capaz de utilizar as técnicas de gelo com uma potência imensamente maior que a de Matt. Ele se perguntava se aquela regra também valia para os outros Cavaleiros de Bronze que conseguiam utilizar elementos diferentes de seus poderes de origem; provavelmente sim, pois seria uma forma deles priorizarem suas técnicas originais em combate e buscarem sempre aperfeiçoá-las. Ao ver a combinação das duas técnicas utilizadas por Dégel, o garoto se perguntou se seu amigo Thiago já seria capaz de efetuar um ataque assim, levando em conta a experiência que o Cavaleiro de Cisne já havia tido após enfrentar Cavaleiros de Ouro, Guerreiros Deuses, e Generais Marinas. O garoto de Fênix se deu conta também de que, se tivesse, um dia, que enfrentar um cavaleiro legítimo do elemento gelo que estivesse num nível muito acima do dele (ele só conseguira lutar de igual para igual contra Camus devido ao poder emprestado pela Armadura de Aquário que ele usara na ocasião), ele provavelmente seria derrotado pelo elementalista do gelo em questão, já que seu próprio domínio sobre o gelo era limitado.

            Um barulho alto fez Matt sair de seus devaneios, e voltar a prestar atenção na visão. O Espectro draconiano, mesmo congelado, havia desferido um golpe, algo semelhante a um rugido de dragão – e havia conseguido quebrar o Esquife de Gelo de dentro para fora. O impacto da técnica fez Dégel e Kardia serem impulsionados para trás.

            A tal Pandora se dirigiu aos Cavaleiros de Ouro, como se estivesse debochando deles e de seu poder, menosprezando a técnica de Dégel. Ela disse algo ao Espectro e, pela atitude dela, Matt presumia que eles estivessem a procura de algo também, talvez o mesmo que os Cavaleiros de Aquário e Escorpião tencionavam encontrar. Em seguida, ela se virou e saiu correndo, em direção às profundezas do Templo de Poseidon. O Espectro se voltou para os Cavaleiros e assumiu uma postura de combate; mas Dégel, pelo que Matt podia perceber, estava sentindo um baque maior do que podia esperar após o choque de ver Unity sendo morto na sua frente e de ver seu golpe supremo ter sido neutralizado tão rapidamente.

            Kardia, no entanto, parecia estar com seu espírito de luta a mil, e se lançou contra o Espectro, ao mesmo tempo em que instigava Dégel a avançar e ir atrás de Pandora. O Escorpião deu seu bote e segurou o Espectro com sua técnica “Restrição”; Dégel, incentivado pelo apoio e atitude do amigo, se ergueu e saiu correndo pelo caminho que Pandora havia tomado. O Espectro se soltou da Restrição, mas Dégel já havia se afastado, e Kardia tomou a frente do combate.

            Enquanto isso, o corpo de Unity continuava caído e abandonado no chão de Atlântida. Isso não fazia o menor sentido.

            Matt seguiu o cavaleiro de Aquário, lançando um último olhar para Kardia e o Espectro, agora envolvidos em combate; o guerreiro draconiano parecia furioso por ter deixado Aquário escapar, mas Kardia estava visivelmente entusiasmado com aquela batalha, como se não se importasse mais com aquela missão ou com a guerra santa – aquele duelo era a razão para ele existir, e Matt tinha a sensação de que ele daria tudo de si naquela luta. Mesmo sendo uma visão, o garoto conseguia sentir a elevação do cosmo de ambos, e era difícil dizer qual dos dois estava mais motivado ou determinado a vencer.

            Dégel continuou correndo, se embrenhando pelo Templo Submarino, com Matt flutuando praticamente em seus calcanhares. Por fim, o cavaleiro de gelo chegou à entrada de um palácio, provavelmente a versão do Palácio de Poseidon daquele local, isto é, o coração do reino do soberano dos mares. Pandora estava ali, jogada no chão diante deles, parecendo semimorta. De repente, Dégel se virou abruptamente em direção ao interior do palácio, dando as costas a Pandora; Matt não entendia o motivo para aquele movimento brusco do dourado, até que sentiu um cosmo gigantesco na direção em que Dégel agora olhava.

            Havia algo semelhante a uma esfera de energia no centro do palácio. Dentro dela, havia o corpo de uma mulher, que não parecia estar viva. Matt não conseguia divisar o rosto da mulher, e supôs que Dégel também não; contudo, algo parecia atrair o Cavaleiro de Aquário na aura daquela mulher, que, inclusive, parecia ser a fonte daquele cosmo gigantesco que haviam sentido há pouco.

            Dégel ergueu as mãos em direção à esfera, como se tencionasse libertar a mulher. Matt podia entender os motivos dele: talvez houvesse alguma chance de ela ainda estar viva, afinal, aquele cosmo enorme emanava dela e, se o aquariano conseguisse libertá-la, talvez conseguisse respostas. O que havia acontecido com Pandora? Por que a mulher havia estado aprisionada bem ali, no epicentro do Santuário de Poseidon? E o que era, afinal, que Kardia e Dégel tinham vindo procurar ali? Será que a mulher sabia qual era o objeto da busca deles e, melhor ainda, se poderia ajuda-los a encontrar?

            Subitamente, assim que Dégel se posicionou para desferir sua técnica contra a esfera, um outro guerreiro de armadura apareceu no local, bloqueando o ataque do aquariano e se postando entre ele e a esfera misteriosa. Matt não precisou olhar duas vezes para se dar conta de quem era. Usava uma Escama de General Marina muito particular, e com a capa com o símbolo, Matt agora reconhecia, que representava o brasão real de Graad Azul. Era o Dragão Marinho – e pela sua postura e fisionomia, Matt fazia uma ótima ideia de quem estava escondendo sua identidade sob o elmo de General Marina. O cosmo dele era muito familiar, e produziu um calafrio pela espinha do garoto.

            Dégel não pareceu reconhecer o recém-chegado. O Marina e ele começaram a dialogar de forma acalorada; o General indicou um selo que repousava no lado externo da esfera, bem no centro. Ele fazia gestos indicando a mulher aprisionada e o selo, como se quisesse que o Cavaleiro de Aquário rompesse o selo e libertasse a mulher e, em troca, o Dragão Marinho daria algo ao dourado. Nesse momento, o Marina fez um gesto em direção aos corais que cercavam o palácio, e dos corais, surgiu um metal brilhante, envolvido em algo que parecia uma pequena crisálida transparente.

            O metal flutuou até a mão do Marina. Matt, de súbito, o reconheceu, já tendo lido e ouvido falar bastante sobre aquilo no Santuário: a pedra de Oricalco. Aparentemente, era um metal usado na composição das armaduras dos guerreiros de vários exércitos dos deuses, sendo, inclusive, o principal material de composição das Escamas dos Marinas. Era dito até que aquele metal já tinha sido usado em uma guerra santa anterior, para que o exército de Atena pudesse reconstruir um barco utilizado por cavaleiros no passado, e que esse barco seria usado para levar a tropa de Atena até o local onde estavam as tropas de Hades da época e...

            Pelos deuses. Matt quase deu um tapa na própria testa ao se dar conta daquilo. Se aquela lenda acerca do Oricalco fosse verdadeira, então provavelmente a guerra santa na qual o Oricalco havia sido usado para reconstruir o barco de Atena era exatamente aquela mesma guerra santa na qual Kardia e Dégel haviam lutado, a mesma guerra santa em que Shion e Dohko haviam enfrentado as forças de Hades pela primeira vez e, aparentemente, a mesma guerra santa na qual Unity havia tomado parte. Tudo começava a fazer sentido... Pelo menos, naquele aspecto específico da visão: Kardia e Dégel haviam ido ao Templo de Poseidon para obter o Oricalco e leva-lo de volta para Atena para que o tal barco fosse reconstruído, de modo a ser usado na batalha contra o exército de Hades – Hades, a eterna pedra no sapato dos cavaleiros, e o deus que a geração de Matt havia passado a detestar de forma mais intensa nos últimos meses. E é claro que, por se tratar de um material capaz de revitalizar um barco (originalmente um meio de transporte marítimo), o Oricalco estaria evidentemente escondido no território de Poseidon. O aparente “desespero” de Atena em contatar o deus dos mares naquela época agora fazia sentido.

            Ora, o próprio Unity havia utilizado o Oricalco contra Matt na luta entre eles, antes de o General Marina enviar o garoto para longe através do Triângulo do Dragão. Matt havia derrotado os corais do Oricalco com seu fogo, e torcia para que Dégel tivesse uma maneira de superar os corais também – sendo ele um Cavaleiro de Ouro, Matt se permitiu acreditar que ele encontraria sim uma solução. Mas o garoto se deu conta de que devia ter deduzido sobre o metal muito antes; para alguém com reputação de ter uma boa memória, dessa vez, o cavaleiro de Fênix havia ficado em débito consigo mesmo por não ter conseguido se lembrar daquela informação valiosa antes.

            Com isso, pelo menos um mistério havia sido solucionado naquela visão. Contudo, Matt sabia que havia muito mais para descobrir naquela história e, pelo ritmo que a visão estava tomando, ele teria que ser um pouco mais paciente antes de descobrir todos os elementos que faltavam para desvendar todo aquele cenário intrigante.

            Entrementes, Dégel parecia também ter se dado conta do que era aquele metal na mão do Marina. Não parecendo disposto a arriscar a vida da mulher aprisionada, ou de liberar aquele cosmo gigantesco em torno dela apenas para obter o Oricalco, Dégel se lançou contra o General Marina. Ao mesmo tempo, Matt notou algo escrito no selo da esfera: “Poseidon”, em grego. Será que aquele cosmo gigantesco presente na esfera era o de...?

            O garoto não teve tempo para pensar na questão. Assim que Dégel partiu para o ataque, o Marina escondeu o Oricalco em meio aos corais, e lançou outro emaranhado de corais para atacar o Cavaleiro de Aquário. Pego de surpresa, Dégel foi cercado e envolvido pelos corais; e, tão logo ele se viu imobilizado, uma enxurrada de lembranças invadiu a mente de Matt, em meio à visão atual. Antes de sua visão obscurecer, ele notou Dégel com os olhos vidrados, olhando para um ponto vago no horizonte; o garoto deduziu que ele estava compartilhando o mesmo fenômeno que o Cavaleiro de Aquário nesse momento, talvez por ele já ter usado a Armadura de Aquário anteriormente e ter nascido sob o signo de Aquário.

            A visão de Matt escureceu brevemente. Quando seus olhos voltaram a enxergar, Dégel e ele estavam de volta a Graad Azul. O Dragão Marinho, de costas para eles, dialogava com um ancião, que Matt reconheceu ser o pai de Unity e Seraphina, o antigo regente da cidade. O ancião parecia querer fazer com que o Dragão Marinho desistisse de algo. No entanto, o General Marina respondeu bruscamente, desferindo um golpe no coração do velho homem, que caiu inerte no chão.

            Até ali, Matt poderia facilmente ter presumido que toda aquela visão era uma farsa, e que o Golpe Fantasma havia saído pela culatra, talvez por um truque do próprio Unity, e estava produzindo uma visão surreal no cérebro do próprio menino, ao invés de estar afetando a mente de Unity. Mas o Golpe Fantasma, originalmente um golpe diabólico e perverso influenciado pela Maldição de Fênix, havia se tornado a arma mais potente do Cavaleiro de Fênix para conhecer a fundo a mente de um inimigo. Todos os segredos mais obscuros da pessoa atacada se tornavam presa fácil para o Golpe Fantasma, que, no momento, tentava alertar Matt acerca dos mistérios que aquela visão ainda escondia.

            A fúria de Matt cresceu, devido a ele saber quem era o Marina da visão, após ver o assassinato do pai de Unity. Ao mesmo tempo, ele sentiu a fúria de Dégel crescer exponencialmente, quase como se a fúria do Cavaleiro de Aquário e a fúria do garoto de Bronze houvessem se tornado uma só.

            Dégel se libertou das amarras, e Matt e ele foram trazidos de volta ao palácio de Poseidon. Totalmente enfurecido, Dégel avançou em direção ao Marina, congelando e pulverizando todos os corais pelo caminho. O General ainda tentou se defender, mas Dégel disparou uma rajada de gelo certeira contra o rosto dele – e o elmo do homem foi jogado longe.

            O Cavaleiro de Aquário estacou de repente. O rosto do Marina havia ficado visível. Era o próprio Unity, como Matt já desconfiava. Mas aquilo suscitava inúmeras outras perguntas. Como Unity podia estar vivo, após ter recebido o ataque mortal do Espectro draconiano? E como um príncipe de Graad Azul havia se tornado um General Marina?

            De repente, Matt notou uma estranha cicatriz no rosto de Unity, algo que ele não tinha no tempo presente. A cicatriz parecia ser feita de... corais?? Não havia erro, era um filete de corais, encravado ali no rosto do príncipe, tais quais os corais que o próprio Unity estava manipulando para atacar Dégel. Pelo visto, os corais possuíam capacidades regenerativas, o que explicava o fato de Unity estar vivo mesmo após ter recebido o golpe do Espectro – os corais, agora, faziam parte do corpo dele também.

            A fúria de Dégel agora parecia capaz de englobar todo o fundo do oceano, e Matt sentia aquela fúria como se fosse a sua própria. Ele havia conhecido Unity como um inimigo desde o começo – mas Dégel o conhecera como um amigo de infância e, agora, ao saber que o amigo havia traído seu próprio povo e matado o próprio pai, não parecia disposto a se conter na batalha contra o príncipe.

            Com um sobressalto, Matt se deu conta de quem era a mulher aprisionada na esfera que, aparentemente, continha o cosmo de Poseidon. Unity, que não parecia se importar com a fúria crescente do Cavaleiro de Aquário, fez um gesto em direção à esfera, girando-a de tal modo que o rosto da mulher ficou visível, confirmando a suspeita de Matt. Era Seraphina.

            Aquilo não fazia sentido algum, e trazia ainda mais questionamentos. O que Seraphina estava fazendo ali? E por que aquela esfera parecia estar contendo o cosmo de Poseidon, e por que possuía um selo demarcado com o nome do deus dos mares? Unity parecia querer que o selo fosse removido... Mas então, o que aconteceria caso o selo fosse mesmo removido? O que aconteceria com Seraphina, e com aquele cosmo gigantesco que a envolvia?

            Mas Dégel não estava se prendendo a essas questões. A simples visão de Seraphina, aprisionada pelo próprio irmão que estava simplesmente traindo a própria pátria, o fez explodir. O cavaleiro de Ouro da décima primeira casa do Zodíaco avançou contra o velho amigo, sem nenhuma hesitação e guiado completamente pela frustração e pelo ódio.

            Eles começaram a lutar, com Unity ainda demonstrando frieza e indiferença em relação a toda aquela situação, e desferindo seus corais, enquanto Dégel manipulava os cristais de gelo pelo ar; mas o príncipe estava prevalecendo. Unity continuava parecendo decidido a convencer o antigo amigo a quebrar o selo de Poseidon e destruir a esfera, tencionando liberar aquele cosmo avassalador, e, em troca, ceder o Oricalco a Dégel. Se fosse o Unity do tempo presente fazendo aquela proposta, Matt jamais aceitaria o acordo caso estivesse no lugar de Dégel. Mas o cavaleiro de Aquário havia conhecido um Unity diferente, antes de toda aquela situação louca se desenrolar. Será que o cavaleiro do gelo não estava nem um pouco tentado a aceitar a oferta, com a possibilidade de, talvez, pelo menos libertar Seraphina daquele cárcere, mesmo que isso custasse a liberação daquele cosmo avassalador?

            A luta se intensificou, tirando Matt de seus pensamentos mais uma vez. Dégel continuava a usar os cristais de gelo para destruir os corais, mas estava, aos poucos, ficando cercado. A técnica dele era bem mais eficiente que a que o próprio Matt havia usado contra os corais de Unity, mas o Cavaleiro de Aquário estava ficando visivelmente exausto.

            Por fim, Dégel conseguiu usar o Pó de Diamante e liquidar por completo os corais, mas Unity não se deu por vencido. Movimentando os braços, ele começou a convocar redemoinhos enormes – alguns, inclusive, tomaram a forma de pilares, tais quais os pilares que sustentavam o Santuário Submarino – e passou a atacar Dégel com eles; o mesmo estilo de técnica que ele utilizara contra Matt em seu duelo, antes de enviar o garoto para outra dimensão. O garoto se deu conta de que o nível de poder que Unity demonstrara contra ele era o mesmo daquela visão; o poder do príncipe não havia oscilado nem um pouco desde a guerra santa daquela época.

            Mesmo estando extenuado, Dégel não se deixou abater. Juntando o que pareciam ser suas últimas forças, o Cavaleiro de Aquário ergueu os braços, efetuando a técnica mais poderosa dos cavaleiros do gelo: a Execução Aurora.

            Unity foi pego de surpresa e foi atingido em cheio pelo golpe. Com isso, seus redemoinhos cessaram instantaneamente, e os poucos corais que ainda estava de pé foram reduzidos a pó. O cavaleiro de Ouro já parecia farto de tudo aquilo, e foi em direção ao amigo, para tirar satisfações.

            O príncipe havia sido lançado longe, indo de encontro a uma coluna do templo, próxima à esfera que prendia Seraphina. Quando um enfurecido Dégel se aproximou, no entanto, a Escama de Dragão Marinho abandonou o corpo de Unity. Matt sentiu também o cosmo em torno do herdeiro de Graad Azul se reduzindo, após a Escama se soltar dele. Será que a energia havia sido apenas emprestada? Será que Unity havia perdido o status de Marina, que, pelo visto, havia sido apenas temporário?

            Confuso e aturdido, Dégel hesitou diante do príncipe. Por fim, deu as costas a ele e se voltou para Seraphina. Chamou-a algumas vezes, bateu insistentemente na esfera, mas ela não reagiu. Matt não conseguia entender: estaria ela morta? Mas então, o que significava aquele cosmo gigantesco envolvendo-a, parecendo, inclusive, mantê-la viva mesmo naquele estado?

            De repente, Unity começou a se mexer, e praguejou algo. Dégel se voltou para ele. O príncipe tinha os olhos marejados de lágrimas, e parecia arrependido. O cavaleiro de Aquário pareceu abandonar todo ódio que sentiu pelas atitudes do amigo. Dégel ajudou-o a se levantar; o príncipe, agora, parecia muito mais ferido e desprovido de forças, aumentando a suspeita de Matt acerca de os poderes de Marina terem-no abandonado. Mesmo o ferimento causado pelo Espectro draconiano anteriormente parecia estar reaparecendo.

            Unity apontou para Seraphina, e começou a explicar a situação para Dégel. Matt ainda não os conseguia ouvi-los totalmente bem, mas parecia que a vida de Seraphina estava por um fio e não havia mais como Dégel salvá-la; e que tudo aquilo havia sido resultado da tentação causada por Poseidon sobre Unity, para conseguir não apenas preservar sua irmã, mas também restaurar a antiga glória de Graad Azul, e que, por isso, Unity havia aceitado assumir a Escama de Dragão Marinho. De todo modo, o príncipe parecia incrivelmente grato por Dégel tê-lo feito abrir os olhos e se dar conta da dimensão de seus erros.

            Dégel fez um gesto indicando os corais, e Matt presumiu que ele estivesse se referindo ao Oricalco. Unity assentiu e levou a mão ao interior das vestes, retirando o metal de Oricalco, que havia resistido à luta.

            Quando Unity estendeu a mão para entregar o objeto a Dégel, porém, um vulto negro passou rapidamente entre eles. Quando Matt se deu conta, o Oricalco havia sumido da mão de Unity, e tanto ele quanto Dégel olharam confusos um para o outro.

            Matt olhou em volta, e se deu conta do que havia ocorrido. Os dois homens se viraram em direção à esfera; diante dela, estava Pandora, de pé, aparentemente recuperada, com a lança empunhada em uma das mãos, e o Oricalco na outra. Matt cerrou os punhos; com toda aquela confusão e a luta intensa se desenrolando entre Dégel e Unity, ele havia esquecido completamente de que Pandora havia estado desmaiada ali, na entrada do palácio, durante todo aquele tempo.

            Parecendo ter ciência da importância daquele objeto e do interesse que Atena tinha nele, Pandora arremessou o Oricalco no chão, danificando-o. A crisálida se quebrou em mil pedacinhos, mas o metal em seu interior continuou intacto.

            No entanto, assim que a crisálida se rompeu, o selo com o nome de Poseidon na esfera se rompeu, e o cosmo avassalador que Matt havia sentido antes se concentrou de vez no corpo de Seraphina.

            Seraphina ficou de pé, abriu os olhos, e saiu flutuando da esfera. Mas havia algo de errado. Seus olhos estavam vidrados, e ela não dava sinais de reconhecer Dégel ou Unity. No mesmo intante, a Escama de Poseidon se materializou ao lado dela, e a recobriu. Mais uma suspeita de Matt havia se confirmado.

            O cosmo contido na esfera era mesmo o de Poseidon. E, agora, Poseidon estava possuindo o corpo de Seraphina. Então, era aquele o plano que o deus dos mares havia convencido Unity a realizar, e que o próprio Unity havia tentando convencer Dégel a  executar durante a luta entre eles.

            Um observador desavisado poderia estranhar o fato de Poseidon estar se manifestando através do corpo de uma mulher. Para os cavaleiros que, como Matt, haviam estudado sobre a mitologia grega, aquilo, porém, não era nada anormal. Os deuses podiam assumir quaisquer formas que quisessem. Outro fator que o garoto se recordou no momento era de que Poseidon, quando reencarnava, preferia ocupar como hospedeiros os membros da família Solo, a rica família de comerciantes marítimos da Grécia. Era o caso de Julian, o hospedeiro atual, que havia enfrentado Seiya e os demais cavaleiros de Bronze na guerra santa anterior, e que agora se encontrava preso no Grande Suporte Principal. No entanto, Poseidon naquele cenário da guerra de três séculos atrás não estava reencarnando, uma vez que sua alma ainda estava selada. Ele estava meramente se manifestando através do Oricalco e do corpo de Seraphina, usando apenas uma porcentagem mínima de seu poder para isso.

            Mas mesmo aquela porcentagem mínima ainda era o poder de uma divindade, acima dos limites que Cavaleiros, Marinas e Espectros poderiam alcançar. Seraphina, já totalmente vestida pela Escama, ergueu o Tridente de Poseidon e começou a manifestar o poder divino.

            A força de Poseidon envolvia toda Atlântida e o Templo Submarino. Dégel, Pandora e Unity tentavam resistir em ser tragados pelo cosmo do deus do mar, que começava a consumir todo aquele local. Mesmo Matt, que estava apenas visualizando tudo aquilo, conseguia sentir a intensidade daquele poder.

            Dégel, mesmo estando quase sem energias, pareceu tomar uma decisão definitiva. Ele tomou a frente e ergueu os braços. Matt mal podia acreditar, mas o Cavaleiro de Aquário estava sim fazendo o que o garoto receava: ele iria efetuar a Execução Aurora.

            Mas não contra Seraphina. Dégel executou o golpe, atingindo todo o ambiente que os cercava, colidindo com o poder de Poseidon. O aquariano estava disposto a congelar tudo ali, para assim, impedir Poseidon de continuar controlando o corpo de Seraphina e destruir tudo e todos à sua volta.

            Dégel gritou algo para Unity, e o príncipe pareceu compreender. Ele pegou a pedra de Oricalco que havia permanecido intacta. Dégel lhe deu alguma última instrução, e Unity assentiu. Entrementes, Pandora, vendo que Dégel estava conseguindo deter o poder de Poseidon, partiu correndo em disparada rumo à passagem que a levaria de volta a Graad Azul.

            A força de Dégel, por fim, atingiu Seraphina, que não fez menção de reagir, mesmo sob o controle de Poseidon. Matt foi se distanciando da cena, mas pensou ter visto a garota sorrir após receber o golpe de Dégel, como se houvesse recuperado sua própria consciência, e agradecesse ao Cavaleiro de Aquário por seu esforço e sacrifício.

            Enquanto isso, Unity tentou correr em direção à passagem. Matt flutuou atrás dele. Pandora já não estava mais no campo de visão deles. Porém, os ferimentos do príncipe pareciam estar causando mais dor do que ele esperava. Como o cavaleiro de Fênix havia imaginado, Unity não contava mais com os poderes de um Marina. O gelo disparado por Dégel já estava se aproximando perigosamente, e Unity parecia não ser capaz de conseguir escapar.

            A ausência de poderes de Marina no príncipe levantava outras questões para Matt. Como então Unity havia ganhado de volta os poderes de Marina no século XXI? Se ele não era um Marina legítimo no século XVIII, por acaso ele agora era? Mesmo que as tropas de Poseidon estivessem sendo manipuladas por Hades? E caso ele não fosse um Marina legítimo... onde estaria esse outro general? Quem seria de fato o legítimo General de Dragão Marinho, se é que esse alguém existia?

            Matt se obrigou a abandonar essas ponderações por enquanto, pois a visão de Unity tentando se redimir e, ao mesmo tempo, se salvar era muito angustiante. Se não tivesse lutado de forma intensa contra o príncipe no tempo presente, Matt estaria sendo capaz, naquele momento, de simpatizar e mesmo torcer pelo sucesso dele. Afinal, Dégel havia se sacrificado para que tanto ele quanto Seraphina fossem salvos do poder devastador de Poseidon. Além disso, ele ainda precisava levar o Oricalco para Atena. Mas a perda dos poderes de General Marina estava se fazendo sentir.

            Quando parecia que a onda de gelo iria alcançar o indefeso Unity, um vulto se juntou a ele, e o conduziu velozmente pelo templo. Era Kardia. O Cavaleiro de Escorpião estava extremamente ferido e parecia muito desgastado, mas conseguiu levar Unity consigo até a parede onde ficava a passagem mágica de volta a Graad Azul. O Espectro draconiano não estava à vista, mas Matt notou que Kardia estava com as agulhas de uma das mãos completamente destruídas, e jorrava sangue de várias partes de seu corpo. Mesmo o semblante do Escorpião parecia avariado: embora parecesse estar ciente de que tinha que tirar Unity dali, o olhar de Kardia estava vidrado e fixo em algum ponto vago à frente. O garoto pôs as mãos no ombro de Unity, como se tentasse ajudar Kardia a carrega-lo, muito embora não estivesse fisicamente ali com eles.

            Matt notou que não haviam mais visto Pandora por ali, mas presumiu que ela já tivesse alcançado a passagem, visto que ela ainda dispunha de poderes, ao contrário de Unity, e havia começado a fugir do palácio submarino bem antes do príncipe.

            Enfim, alcançaram a passagem. Quando Unity e Matt emergiram do outro lado, de volta à biblioteca de Graad Azul, o príncipe olhou para trás, mas Kardia não estava à vista em lugar nenhum.

            Matt se deu conta de que Kardia havia usado suas últimas forças para tirar Unity de lá, já sabendo que não teria como voltar à superfície com ele. Mesmo não simpatizando com o príncipe desde o começo, ele tinha visto o Oricalco nas mãos de Unity e entendera que Dégel havia ficado para trás para dar a ele a chance de escapar. Assim, o Escorpião, que, pelo visto, já havia dado tudo de si na batalha contra o Espectro, decidiu por bem fazer um sacrifício, a exemplo do aquariano, para garantir que o metal chegasse até Atena, mesmo que à custa de sua própria vida. A admiração de Matt por Kardia e Dégel não parava de crescer.

            Um barulho de passos chamou a atenção do garoto, que estivera olhando melancolicamente para a parede que escondia a passagem para Atlântida. Unity havia se posto a correr, ou melhor, a tentar andar mais rápido, na medida do possível, devido a seus ferimentos. Matt se alarmou por um instante, pensando que a onda congelante de Dégel pudesse estar seguindo-os até Graad Azul de alguma forma, mas então, se deu conta de porque Unity ainda estava correndo.


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Notas finais do capítulo

Bom, é isso. Lá vou eu lançar a terceira parte. Aguardo vocês...






Revisão concluída em 11.03.2023



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