Daisuki escrita por AC3


Capítulo 20
Página em Branco


Notas iniciais do capítulo

A tragédia também merece seus holofotes...




Meu celular tocava como nunca. Acordei completamente sonolenta para atendê-lo. E, mesmo assim, demorei bastante para alcançá-lo. Por sorte, não desligara.

- Alô? – disse, esfregando meus olhos.

- Alô? Gumi-san, é você?

- Aham... – nem precisava falar o nome, já sabia quem era meu interlocutor.

- Sou eu, o seu nii-chan, lembra?

- Claro... – disse sorrindo.

- Como você está? A gente acabou trocando números na lanchonete, mas é a primeira vez que nos falamos depois de lá.

Verdade. Eu estava acabada toda vez que voltava para casa. Geralmente, nem jantava, se bem que, pelo horário, qualquer coisa que eu comesse seria considerada um café.

- Desculpe, está tudo tão corrido...

- Tudo bem. – respondeu ele. – Sei que está sendo difícil para você...

- Um pouco... Mas, vamos mudar de assunto, alguma novidade? Soube que acabaram as aulas.

- Sim, sim. O pessoal está combinando de ir para a praia. Lá não tem um bom sinal então eu não conseguiria falar com você mais tarde...

Podia ser inconveniente. Mas era fofo.

- Não se preocupe... De domingo eu tenho folga...

Mentira. Não queria que ele soubesse que estava na minha pequena pausa de uma hora para o almoço. Muito menos que saia todo dia do serviço à uma da manhã e demorava mais de uma hora para chegar em casa.

- E você? Como vão as coisas? – perguntou ele, provavelmente, para manter um fluxo de palavras na conversa.

- Bem...

Outra mentira. Não suportava estar atolada e completamente desiludida. Muito menos morar num mequetrefe de apartamento que dividia com outras duas garotas completamente fúteis e bagunceiras. Às vezes, me sentia uma faxineira.

- Os desenhos estão indo bem? Conseguiu alguma coisa?

- Estou perto... um editor achou interessante uns esboços que enviei.

Desta vez, uma meia mentira. Mandara sim uns esboços para algumas editoras, mas, infelizmente, a única que se interessara não conseguia vir até minha cidade para ver mais desenhos. E meu dinheiro não dava para o transporte e alojamento num local tão longe.

- Sério?! Que legal! Sabia que ia se tornar uma mangaká famosa!

- Calma, não tem nada certo ainda...

- Mesmo assim, é uma grande oportunidade!

Oportunidade... Acho que foi o que mais me faltou até agora. Sem casa, sem família e salário mínimo do mínimo. Encontrar meu nii-chan agora, quando tudo está ruindo aos meus pés parece ser pior ainda.

E ele está tão bem! Tudo está tão certo com ele: está numa faculdade, namorando firme, cercado de amigos e ainda com o apoio da mamãe e do papai. Sempre me pareceu que ele era o sortudo e eu a azarada. Só que nunca isso ficara tão evidente.

- Se você diz...

Mesmo assim, não tinha raiva de meu nii-chan. Ainda o adorava. Amava-o de todo o coração! E exatamente por isso que escondia minhas agonias. Todas as brigas que tive com nossos pais nem existiram para ele. Muito menos o fato de eu ser expulsa da faculdade por não poder pagar mais a mensalidade.

Não, para ele, tudo estava indo bem para mim.

- Você disse que vai à praia... Quando vai ser?

- Final de semana, acho. – respondeu ele, em dúvida. – O pessoal está pesquisando se o lugar é bom. Foi a Meiko, acho que já falei sobre ela, que nos convidou, então todo cuidado é pouco.

Ri fracamente a piada.

Ele já tinha me falado de todos os seus amigos. Dos gêmeos loiros, da irritante amante de aipo, da namorada dele, da louca senpai e do inalcançável Kaito-kun. Ele já devia ter superado o amor platônico, com certeza havia achado Luka melhor e ficara com ela. Acho que por isso eles começaram a usar anéis.

- Eu até te convidaria, Gumi-san, mas... não sei se...

Ele estava sem jeito. Era assim desde criança. Eu não fora convidada porque não fazia parte daquele grupo de amigos, simplesmente. Eu sabia e também não me importava. Deixei meus amigos no momento em que fugi de casa.

- Nem teria como eu ir, estou sem folga no trabalho...

- Ah, então... tudo bem...

O silêncio imperou por alguns segundos, dando-me tempo para ver meu relógio de relance e perceber que minha folga já estava no fim.

- Tenho que ir, nii-chan! – despedi-me, fingindo animação.

- Já?

- É que eu tive uma ideia para um desenho e não queria perde-la. – inventei isso na hora.

- Pode ir então, Gumi-san. Aproveita esses lapsos e depois manda para as editoras. Beijos!

- Tchau! – e desliguei.

Ele se despedira animado. Completamente feliz por eu estar seguindo meus sonhos assim como ele. Que mentira! Não importa o que desenhasse, não tinham espaço para uma novinha interiorana, por melhor mangaká que fosse.

Derramei uma lágrima solitária. E depois dei uma pequena risada.

Fora tão irônico a forma que eu me despedira de meu nii-chan. Fazia meses que eu deixava uma folha estendida na mesa do escritório que nunca fora preenchida com um simples traço de grafite. Não havia tempo ou chance para eu desenhar decentemente...

Meu horário de descanso acabara.

Voltei ao trabalho abraçando a desgraça e as eternas páginas em branco que pareciam reinar em minha vida.



Notas finais do capítulo

Uma visão um pouco diferente no vigésimo capítulo... (nem acredito que essa fic está indo tão longe @.@). Sinto pena da Gumi, senti escrevendo esse capítulo. Parece tão real o que aconteceu com ela... Vocês concordam?