A Hospedeira - Coração Deserto escrita por Laís, Rain


Capítulo 24
Ansiosa


Notas iniciais do capítulo

And now
You've become a part of me
You'll always be right here
You've become a part of me
You'll always be my fear
I can't separate myself from what I've done
Given up a part of me
I've let myself become you

( Figure.09 - Linkin Park)



POV – Estrela

— Não, Doc, eu não quero comer! — disse eu pela septuagésima vez neste dia. Como se fosse possível que eu conseguisse engolir qualquer coisa hoje.

— Estrela, você sabe que eu não gosto de ser rígido, mas você não está me dando escolha — ele resmungou um pouco irritado. – Não seja má paciente, por favor. Você sabe que precisa de força, para se recuperar. Saiba que as proteínas vão ser inteiramente úteis para você sarar mais rápido, há também líquidos que você precisa tomar e...

Há horas ele tentava me empurrar um prato de sopa e pão como café da manhã, esperando realmente que eu fosse comer. Mas do jeito que meu estômago se contorcia, eu duvidava seriamente que alguma coisa pudesse ficar dentro dele por muito tempo. E, pela primeira vez, o bebê dentro de mim não tinha culpa nenhuma quanto a isso.

Claro, o fato de eu estar grávida apenas piorava a situação. Mas o motivo desta vez era outro; um motivo a que eu já estava começando a me acostumar. Sentimentos descontrolados. Apenas dois: ansiedade e nervosismo. Nervosismo que não me deixava focar em nada e ansiedade que formava um caroço na minha garganta.

Não havia como conseguir comer com tudo isso, não havia como conseguir ser uma boa “paciente” com tanta inquietação. Não havia como fazer nada sabendo que o tribunal era hoje.

Jeb havia me dito que poucas pessoas nas cavernas sabia o porquê dessa tal reunião geral na sala de jogos, e muito menos da minha existência ou do Buscador do lado de fora. A grande desculpa de Jeb era a de que “não queria causar tumultos desnecessários e nem atitudes irresponsáveis.”

Claro, eu pensei, porque ser informado de última hora de que havia duas Almas desconhecidas dentro da sua única moradia secreta seria bem menos chocante!

É claro que todos estranharam o fato de não poderem mais ir ao hospital, a ausência de Doc durante o dia, as saídas furtivas de Jeb para fora da caverna e, provavelmente, o estado revigorado em que devia estar Ian, sem nenhuma conhecida causa aparente. E agora todos os moradores refugiados deste lugar seriam informados desses fatos ao mesmo tempo em que teriam que julgá-los.

Funcionaria assim: o centro deste tribunal seríamos eu e Logan. A grande questão seria se poderíamos, com a aceitação de todos, continuar vivendo ali entre eles, com nossa palavra de que nunca faríamos nada contra ninguém daqui, independente de qualquer coisa. Esse era o grande conceito em que todos teriam seu direito de dar o voto, “sim” ou “não”, com os extras de poder dar seu argumento para reforçá-lo. Argumentos válidos e coerentes, que mostrassem reais prós e contras, e os mais fortes e em maior número de um só lado venceriam. Todos teriam direito de dar sua opinião, e eu não pude deixar de imaginar se viriam mais votos cheios de negação ou de compreensão para a minha parte.

Para a minha parte apenas. Eu não podia me permitirr ilusões sobre Logan quanto a isso. Era o que me dava esse nervosismo que eu sentia: o que seria decidido sobre ele.

Havia Jeb, Ian, Doc e provavelmente Jared que estariam do meu lado. Com certeza, os humanos mais influentes de todo o lugar, e eles estavam a meu favor. Eles votariam para que eu ficasse, para que pudesse continuar a viver aqui; então, se os outros achassem que eles não viam perigo em mim, por que discordariam das pessoas que tinham quase como dever manter a segurança de todos?

Bem, isso seria quase fácil para mim.

Mas provavelmente não tão fácil assim para Logan.

Uma coisa era permitir que uma Alma que se apaixonou por um humano daquele lugar sob influência de seu hospedeiro, e que agora era incapaz de machucar os outros humanos a quem também se apegara, continuasse ali. Afinal, não era isso o que mais tinham? Pobres Almas que tinham sido arrastadas por suas lembranças de volta para aquele lugar e agora amavam aqueles humanos mais que tudo?

Mas outra coisa totalmente diferente era deixar morar ali uma Alma, um Buscador, que simplesmente não tinha a menor explicação que o justificasse aos olhos deles. É certo que para alguns, como Jeb e Melanie, ele tinha um grande motivo para continuar aqui: eu e John. Mas para os outros refugiados daquele lugar não era tão simples acreditar que um Guardião da Paz viveria entre aqueles que deveria estar capturando, apenas por minha simples e insignificante existência. Eu não duvidava que alguns pudessem acreditar, mas também tinha certeza de que convencer todos os outros não seria tão fácil assim.

Pensar nisso chegava a me dar náusea. Eles tinham que aceitar Logan. Precisavam. Porque eu definitivamente não saberia como viver aqui sem ele. Tampouco teria coragem de ir embora. Estava, como diziam, entre a cruz e a espada.

Nesta altura, Doc já havia desistido de tentar me fazer comer. Havia finalmente entendido que eu não poderia engolir aquilo. Colocou o prato com sopa sobre a mesa com um pesado suspiro e começou a pegar algumas mudas de roupa sob o catre que ele por vezes usava como cama.

— Bom, você não quer cooperar. Mas saiba que ainda vai comer hoje, nem que seja um pouco – disse ele caminhando até a porta e esticando a cabeça para o corredor escuro como se estivesse esperando ouvir alguém. – Tenho que ir arrumar algumas coisas lá no Salão de Jogos com Jeb, e também tomar um banho. Volto aqui para chamar você quando o tribunal começar.

— Você... Você acha que... – Eu engoli em seco e comecei novamente. – Acha que vão nos aceitar, Doc? Acha que todos eles vão nos querer aqui?

Acha que vão permitir que Logan fique aqui?

Ele me deu um sorriso compreensivo e afável. Andou até ao meu catre e afagou meu tornozelo levemente.

— Nem todos aqui vão entender, Estrela. Mas eles vão ter que aceitar vocês. Querendo ou não, só nos ajudaram. O pessoal daqui é muito cabeça-dura, querida, mas não tão idiota para expulsar as pessoas que trouxeram de volta quem nos trouxe a esperança. Nem mesmo se quisessem — completou com um tom e um sorriso conspiratório que eu não entendi. E nem tive tempo de pensar sobre, pois, neste exato momento, Melanie e Jamie irromperam porta adentro.

— Alguém precisa de companhia? – sorriu Jamie para mim, agitando os braços alegremente.

— Então... Nervosa? – Mel perguntou depois que Doc saiu resmungando alguma coisa para ela sobre Almas teimosas, puxando um catre para perto do meu.

Eu ri. O som saiu tão dissimulado e trêmulo que eu perguntei a mim mesma se aquele som havia mesmo saído de mim.

— Nervosa? Eu? Imagina! – murmurei. – Para mim, isso será tão parecido com uma reunião de debate político de Almas que chega a dar sono! O que pode haver demais lá, afinal? Desacordo sobre as linhas inimigas? Isso não me é surpreendente.

Jamie riu, arrastando uma cadeira para perto até as barras de ferro de meu catre estarem apertadas contra ele, e, quase sem nenhuma hesitação, afagou os meus cabelos.

De repente, esse gesto me lembrou tanto Logan que meus olhos arderam. Eu os fechei rapidamente e comprimi os lábios, sentindo a mão de Melanie envolver a minha.

— Você não tem motivo para ficar preocupada, Estrela – disse ela carinhosamente. – Ouça, mesmo que haja maiores discordantes, e mesmo que eu não goste muito do jeito arrogante que aquele seu Buscador tem para respostinhas sarcásticas – seu tom mudou com sua elevação de voz quando disse isso, e eu quase sorri —, os moradores daqui sabem exatamente que mantê-lo por perto poderá nos ajudar. E você também, assim que te acharmos um corpo. Eles sabem que seria exatamente isso que Peg gostaria que fizéssemos.

— Isso aí, Estrelinha — Jamie reforçou. — Vamos todos nos dar bem no final. Você sabe que os tribunais daqui costumam ser apenas pressão, não é?

Abri meus olhos sorrindo e pensando no quanto tinha sentido falta dos meus "irmãos”.

— Obrigada, Mel. Obrigada, Jamie — murmurei. Eles deram sorrisos calorosos em resposta.

E, por um segundo, eu realmente acreditei nas palavras de que tudo acabaria bem.



Notas finais do capítulo

Olá, amores. Mais uma vez, desculpe-nos pela demora toda. Esse ainda não é o capítulo do tribunal, é um capítulo introdutório. Mas esperamos que tenham gostado dos momentos bonitinhos entre a Estrela, o Doc, a Mel e o Jamie.
Esse capítulo vai especialmente dedicado a Márcia Luz por nossa nova recomendação. Obrigada, linda!