Santuário escrita por Mallagueta Pepper


Capítulo 5
Perdendo o rumo


Notas iniciais do capítulo

Mais um capítulo. Espero que gostem.



Levou pelo menos cinco minutos para que ele conseguisse se concentrar no que a Mônica estava falando ao invés de apenas poder contemplar aqueles olhos que pareciam duas ametistas bem lapidadas, que brilhavam se destacando sobre sua pele clara e combinavam perfeitamente com seus cabelos brancos levemente azulados...


– Ângeloooo! Tá me ouvindo, criatura?

– Mas heim? Ah, sim! Claro que eu tô ouvindo! Você falava sobre o parque aquático...

– O parque aquático que ameaça destruir a casa da Nina e dos amigos dela.


Foi preciso que ela explicasse novamente e ele fez um grande esforço para se concentrar. Tudo em vão. Quando Nina começou a falar, ele entrou em outro transe e foi preciso que a Mônica lhe desse um tapa na cabeça para que ele prestasse a atenção.


Ele só percebeu a gravidade da situação depois que o problema foi explicado umas cinco ou seis vezes.


– Isso é grave. – ele falou por fim, coçando o queixo. – fizeram bem em me chamar. No que eu puder ajudar, eu ajudo.

– Obrigada, Ângelo. – o sorriso dela fez com que suas pernas amolecessem e foi com muito custo que ele conseguiu se controlar.


Os três jovens começaram a traçar planos enquanto os dois ficaram se olhando, abobados e sem saber o que dizer.

Magali escrevia em uma folha de papel o nome dos membros da turma e quando terminou sua tarefa, pergunou olhando para os amigos.


– Alguém aí tá com fome? – antes que alguém respondesse, Magali correu para a cozinha a fim de providenciar um lanche e foi seguida pela Mônica.

(Mônica) – Vocês fiquem a vontade aí que a gente já volta.


Cascão sentou-se em um canto do quarto para ler algumas revistas e em pouco tempo foi esquecido pelo casal que ainda se contemplava.


– Er... como você tem passado? Muitas batalhas contra os monstros?

– Sim. Isso não termina nunca. E agora estou com medo de perder o Santuário... sem isso não poderemos mais lutar.

– Entendo. Não se preocupe, vamos dar um jeito nisso. Não sei como, mas a gente acaba conseguindo.

– Obrigada.


Ambos olharam para a frente e Ângelo ajeitava as penas da sua asa para disfarçar o nervosismo enquanto Nina olhava para alguns pôsteres pendurados na parede.


– Por acaso você... – os dois falaram ao mesmo tempo e logo se calaram e olharam para outro lado, com os rostos vermelhos. – Eu... – eles voltaram a falar ao mesmo tempo – Será que... – foi preciso que Nina engasgasse e continuasse a falar rapidamente. – Você já pensou em conhecer o Santuário? É um lugar lindo.

– Eu vou adorar conhecer.


Eles voltaram a ficar em silêncio, já que nenhum dos dois sabia o que dizer. Ângelo tamborilava o colchão com os dedos, mesmo sabendo que aquilo não ia fazer barulho. Para ficar mais confortável, ele foi afastando as mãos do corpo até sentir sua pele tocar em algo suave e macio. Seu rosto corou totalmente e ele virou a cabeça bem devagar e seus olhos acabaram se encontrando com o dela. Ele engoliu ruidosamente, mordeu os lábios, arrastou um pé, mas manteve a mão onde estava.


Mesmo sabendo que não podia fazer aquilo, a sensação era boa demais e ele não conseguia quebrar o contato entre as peles. E ela também não fez nenhum movimento para se afastar. Sem se dar conta do que estava fazendo, seu dedo anelar e mindinho se colocaram sobre os dedos dela suavemente enquanto um arrepio agradável percorria o corpo de ambos.


Nina deu um sorriso e colocou sua mão ainda mais embaixo da mão dele, enquanto mergulhava fundo naqueles olhos de água marinha. Ele tinha as mãos quentes e macias, seu toque era muito gentil e ao mesmo tempo firme.


Os olhos dele se desviaram dos olhos dela, indo parar em seus lábios rosados que pareciam levemente úmidos. Sua boca se encheu de água e ele procurou se achegar mais perto dela quando a imagem de uma bicicleta apareceu bem na frente do seu rosto.


– Olha só que doido, véi! Eles já lançaram a Super Bike 3000! - Cascão falava empolgado enquanto sacudia a revista na frente dele.


Ambos deram um pequeno salto para trás e suas mãos se separaram imediatamente.


– Alavanca de freio e cambio ST-EF51, corrente: HV 500, freio traseiro e dianteiro Disc Brake Mecânico, Pedivela FC-M131 170MM, 48X38X28T e ela tem 21 velocidades. Irado pra caramba... ué, por que vocês estão me olhando assim?


Ângelo sacudiu levemente a cabeça e procurou se recompor. Para sua sorte, Cascão era avoado demais para ter percebido alguma coisa. Melhor assim. Mônica e Magali tinham entrado no quarto levando o lanche e enquanto comiam, todos voltaram a discutir sobre o problema do Santuário e Ângelo procurou concentrar-se ao máximo para evitar cometer outro deslize.


Por mais tentador que fosse, aquelas emoções eram proibidas para ele e virar humano não ia ajudar ninguém em nada. Ele seria muito mais útil como anjo da guarda.


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Após deixar sua Mercedes na garagem, Vladmir entrou em sua bela mansão sentindo seu estômago roncando de fome. Sua esposa veio recebê-lo com um beijo no rosto, que ele pareceu nem ter notado.


– Como foi o trabalho, amor?

– O de sempre. Mande servir o almoço. Estou faminto.


Sem falar mais nada, ele jogou o paletó sobre o sofá e foi lavar as mãos ainda pensando nos problemas que teve naquela manhã. O que seria preciso fazer para dar um jeito naqueles ambientalistas teimosos e irritantes? Eles agiam como se aquela fosse a última área verde do mundo e estavam atrapalhando seus projetos.


– Oi, papai! – uma vozinha falou, fazendo-o olhar para baixo e se deparar com o rostinho sorridente de uma menina de cinco anos. – olha minha boneca nova!

– Sim, princesa. É muito bonita. Agora vamos almoçar.


Ele passou direto, ignorando que sua filha tinha levantado os braços pedindo colo. Ao ver que não teria colo, a menina o seguiu ainda tentando chamar sua atenção.


– Andréia, por favor, faça essa menina ficar quieta um pouco. Eu tive um dia difícil.


A mulher ia retrucar alguma coisa e logo mudou de idéia. Aquela não era uma boa hora para discutir sobre aquele assunto. Pensando bem, nenhuma hora era boa já que ele nunca queria conversar sobre nada. Na cabeça do marido, tudo estava as mil maravilhas e todas as queixas da esposa eram infundadas. O almoço foi servido e o casal almoçou em silêncio, trocando apenas alguns monossílabos de vez em quando.


Depois de terminar a sobremesa, o empresário levantou-se da mesa com a intenção de ir para seu escritório tomar algumas providências. Sua filha puxou a barra da sua calça.


– Papai, vamos brincar?

– Agora eu não posso. Papai tem que trabalhar.


Mais uma vez, ele ignorou o rosto triste da menina e a expressão de desapontamento da mulher e foi para seu escritório. Muitos problemas povoavam sua cabeça e ele tinha que lidar com todos eles.


“Hum... eu tenho que provar ao prefeito que não existe nenhuma espécie ameaçada de extinção naquele lugar... droga, os relatórios dos meus técnicos não vão resolver porque outros técnicos e ambientalistas irão examinar o lugar também.”


Não havia como impedir que outros especialistas examinassem a área e era só questão de tempo até eles aparecerem com uma lista enorme de espécies animais e vegetais que corriam risco de extinção.


“E se eu subornasse? É... isso sempre funciona. Alguns presentes aqui, favores ali... também vou ter que molhar a mão de muita gente. Isso pode funcionar.” Embora a idéia fosse boa, ele sabia que ainda havia um longo caminho a percorrer. Subornar algumas pessoas era possível, mas ele sabia que não tinha como subornar todos os ambientalistas que eram contra o projeto. E se ele conseguisse o apoio da opinião pública?


“Propagandas! Eu tenho que fazer mais propagandas positivas do parque aquático!” ele pegou algumas folhas de papel e começou a anotar suas idéias. Além de descrever todas as atrações do parque com mais detalhes, ele também achou importante ressaltar de maneira exaustiva todos os benefícios que aquela obra iria trazer a cidade como a geração de empregos diretos e indiretos. E com o parque pronto, milhares de turistas seriam atraídos para a cidade todos os anos, o que seria bom para a população.


“Hum... acho que se eu aumentar a área verde mais um pouco... e também plantar bastante arvores e flores. As pessoas gostam disso. Ah, sim! Também preciso mostrar que esse parque é ecologicamente correto. Que besteira... por que se preocupam tanto com isso?” já tinha tanta poluição no mundo, tanto desmatamento e devastação! E mesmo assim ninguém fazia nada. As indústrias não deixavam de produzir e as pessoas não paravam de consumir. Então de que adiantaria cancelar a construção daquele parque? Aquilo não ia salvar o mundo.


Telefonemas, e-mails, conversas no Skype e ele não viu o tempo correr. Ele só percebeu que eram quatro da tarde quando alguém bateu na porta.


– Você está trabalhando há muito tempo. Não gostaria de um lanche? Podemos comer no jardim e...

– Você sabe que eu não tenho tempo para essas coisas. Manda servir aqui mesmo e eu não quero ser interrompido pelo resto da tarde. Tenho muitas coisas importantes para fazer.


Ela não respondeu nada e saiu dali procurando segurar o choro. Mesmo assim, Vladmir percebeu a contrariedade da mulher. Por que ela tinha sempre que fazer tanto drama por causa de besteiras? Qual era o problema de ele preferir comer no escritório e não no jardim? Era do seu trabalho que vinha o dinheiro que mantinha a boa vida da esposa. Ele lhe dava jóias, roupas, cartões de crédito ilimitados e tudo o que qualquer mulher poderia querer. Sua filha também tem tudo do bom e do melhor. O que mais aquelas duas queriam? Se ele largasse seu trabalho de lado para ficar com elas, não haveria como manter aquele padrão de vida.


“É isso mesmo. Não se pode ter tudo na vida. Ou uma coisa, ou outra!” ele sabia daquilo muito bem. Seu pai também precisou se esforçar e trabalhar feito burro de carga para que a família pudesse ter o que comer. Se ele perdesse tempo se preocupando com besteira, todos teriam morrido de fome.


Ainda assim ele sentia uma certa tristeza indefinida quando lembrava da sua infância. Seu pai era caminhoneiro e passava semanas fora de casa. E mesmo trabalhando tanto, o salário dele não era suficiente e sua mãe precisava trabalhar lavando roupa para fora. Ela se esforçava para dar atenção aos quatro filhos, mas a vida era dura demais para permitir qualquer luxo.


Por causa dessa infância sofrida, ele jurou que não ia nunca passar necessidade em sua vida. Quando se casasse, sua esposa jamais teria que trabalhar e seus filhos poderiam ter a companhia da mãe constantemente, além de todo luxo e conforto. E ele estava cumprindo aquela promessa graças ao seu trabalho. Era por isso que ele não podia largar o que estava fazendo para ficar com a família. Ele já estava zelando pelo bem-estar delas fazendo seu trabalho. Aquilo devia ser suficiente e ele esperava que sua esposa um dia entendesse aquilo.


“Ai, que droga! Essa dor chata de novo!” ele começou a sentir uma pressão desagradável nas costas e tentou se espreguiçar para abrandar aquele desconforto. Não resolveu e aquilo pareceu espalhar para seus ombros também. “Uma aspirina! Preciso de uma aspirina!”


Havia muitos analgésicos na gaveta e ele pegou duas aspirinas de uma vez, tomando-as com um copo d’água. Em pouco mais de cinco minutos, a dor tinha passado e ele pode se concentrar no trabalho novamente. Obviamente ele não percebeu que havia mais alguém naquela sala, observando seus movimentos.


“Os humanos são realmente muito teimosos! Acho que não há esperança para esse aqui"



Notas finais do capítulo

E aí, cadê os reviews?