Santuário escrita por Mallagueta Pepper


Capítulo 12
Caminhos paralelos nunca se tocam




Ele a acompanhou até o lago, alegando para si mesmo que eles não estavam exatamente sozinhos, já que vários elementais estavam em volta. E caso acontecesse de eles ficarem a sós, ele daria um jeito de ficar longe, evitando qualquer tipo de contato físico e olhar dentro dos olhos dela nem pensar. Também não podia.

- Será que eles vão conseguir refazer tudo a tempo? Eles levaram tantos dias para conseguirem estudar o Santuário...

Ângelo não respondeu de pronto, já que também estava desanimado com aquela situação que tinha tomado um caminho muito ruim. Como não queria que ela perdesse a esperança, tentou remediar um pouco a situação.

- Eles já saíram de apertos maiores, então acho que darão um jeito.

Quando chegaram ao lago,um grupo de ninfas veio ao encontro de Nina.

- Nós temos que ir agora! Há um incêndio muito grave em uma floresta e temos que dar um jeito!

Ela virou-se para ele.

- Eu tenho que ir...

- Irei com você. Talvez haja pessoas em perigo também...

Embora se preocupasse mesmo com as pessoas, tudo o que ele queria era estar perto dela mesmo que apenas olhando de longe. Nina não fez objeção de que ele também fosse e todos voaram juntos por alguns quilômetros até encontrarem uma grande floresta sendo devastada pelas chamas. Os animais corriam assustados tentando se salvar e ele viu que os bombeiros ainda não tinham chegado aquele local.

Nina, junto com as outras Ninfas, começaram a trabalhar contendo as chamas até que elas fossem totalmente extintas. Depois, elas foram cuidar dos animais feridos e tentaram restaurar o solo para que novas plantas nascessem ali no futuro, recuperando a parte danificada da floresta.

Quando Nina terminou de jogar sua energia restauradora no solo, ela caiu exausta e foi preciso que Ângelo a segurasse em seus braços para não deixá-la cair no chão. Ele a levou para um lugar onde ainda tinha grama verde e a deitou ali para que pudesse descansar um pouco. Enquanto ela repousava, ele ficava observando seu rosto bonito, pensando como seria beijar os lábios dela. Ele nunca tinha beijado uma garota antes. Pensando bem, ele nunca tinha se interessado por ninguém. Mesmo vivendo tão perto dos humanos e tendo amigas na turma, ele nunca teve sua atenção realmente atraída por nenhuma menina.

Quando dançou com Dorinha na festa da Marina, o pessoal tinha pensado que eles iam namorar, o que nunca aconteceu. Dorinha era um doce de garota, muito inteligente e capaz de ver coisas que nem ele percebia, mas ele nunca tinha olhado para ela de outra forma. Foi apenas uma dança e nada mais. Depois daquela noite, eles continuaram apenas amigos.

“Se bem que ela não é humana... é uma ninfa... puxa, por que mesmo ela não sendo humana a gente não pode ficar junto? Que mal haveria nisso?” ele não sabia, como também não entendia por que ela pode se apaixonar e continuar sendo ninfa enquanto ele quase virou humano e perdeu seus poderes.

- Ângelo... – ela chamou com a voz fraca, abrindo os olhos.

- Oi, Nina. Não se preocupe, eu estou bem aqui.

- Que bom... – ela sorriu.

Enquanto as outras ninfas trabalhavam, ele ficou ali do lado dela, mas ainda mantendo distância apesar da vontade de segurá-la em seus braços ai invés de apenas deixá-la estirada no chão. “Melhor não... pode ser perigoso. E ela não parece estar tão desconfortável assim.” Quando as outras terminaram e anunciaram a hora de ir embora, Nina se levantou com dificuldade enquanto Ângelo apenas observava.

- Você acha que pode voar?

- As meninas vão me ajudar, não se preocupe.

- Eu posso fazer isso, você não pesa nada.

Ela balançou a cabeça.

- Melhor não. Você já está caminhando no fio da navalha. Se cair do lado errado, eu nunca vou me perdoar.

- Nina...

Duas ninfas seguraram Nina e todos levantaram vôo. Ângelo as acompanhou de volta ao Santuário sentindo-se triste e vazio. Seria mesmo bom ele ficar sempre em volta dela daquele jeito? Aquilo só fazia aumentar o sofrimento de ambos. Por outro lado, ele sentia grande dificuldade de ficar longe. Vê-la, mesmo que um pouco, lhe dava mais forças para continuar desempenhando seu dever. Será que ela sentia o mesmo? Ele não sabia dizer, embora torcesse para que sim.

Chegando no lago, as ninfas foram se banhar em suas águas, recuperando as energias e ele ficou na margem olhando com o olhar distante. Quando Nina saiu do lago, ele reparou que seu vestido tinha ficado justo em seu corpo, mostrando sua silhueta com perfeição. Seus olhos começaram a notar detalhes que ele não tinha notado antes e enquanto ela torcia os cabelos e a roupa, ele observava seus movimentos.

Nina percebeu que estava sendo observada pelo anjo e um calor gostoso percorreu seu corpo. O que ele estaria achando dela? Será que a achava bonita? Ela nunca se achou realmente tão bonita assim, apenas comum. Havia ninfas mais bonitas e atraentes do que ela, e no entanto, somente ela teve a capacidade de despertar aquele tipo de sentimento em um anjo, que teoricamente deveria ser imune a esse tipo de coisa.

- Você se sente melhor agora?

- Bem melhor. Esse lago faz maravilhas.

- Pois é. Vocês fizeram um bom trabalho hoje, heim?

- Obrigada. Essa é nossa luta de todos os dias e nunca tem fim.

- Parece que não.

- O seu trabalho também não tem fim, não é?

- Não mesmo. As pessoas sempre arrumam um jeito de se meterem em encrenca.

Ela voltou-se para o lago e falou sem tirar os olhos da paisagem.

- Nosso trabalho é para ajudar o mundo a ser um lugar melhor.

Ele sorriu.

- É sim.

- Mas são caminhos paralelos.

- Heim?

A ninfa olhou de novo para ele com o olhar triste e ao mesmo tempo resignado.

- Caminhos paralelos que sempre seguem lado a lado, mas nunca se cruzam. Parece que nossas vidas são assim também.

- Parece que sim...

- Acho que podemos seguir juntos, porém separados com cada um em seu caminho.

- Talvez...

Ângelo ficou pensando em qual alternativa seria menos dolorosa: vê-la sem poder realmente tocá-la ou nunca mais vê-la de forma alguma. Estava difícil responder e ele não conseguia se decidir entre as duas alternativas porque seu desejo era poder estar com ela, era que seus caminhos se cruzassem em definitivo e se tornassem um só.

- Como você consegue ser tão forte? – ele perguntou tentando imaginar como ela conseguia se conformar com aquela situação tão facilmente.

- Não há outra saída, há?

O rapaz não respondeu. Mesmo sabendo que não havia outra saída, ele não conseguia se conformar daquele jeito. Será que os sentimentos dela não eram tão fortes quanto os deles?

- Mas eu queria que houvesse. – ele falou exasperado.

- Eu também. Também queria muito que nossos caminhos se cruzassem...

Os olhos dele brilharam um pouco. Saber que ela correspondia seus sentimentos o fazia se sentir um pouco melhor.

- Se houvesse um jeito, eu não hesitaria. Eu seria capaz de fazer qualquer coisa para que isso fosse possível, Nina... qualquer coisa.

- Eu também, Ângelo. Eu também.

Os dois continuaram se olhando a distância e embora aparentasse tranqüilidade, ele não conseguia se conformar de jeito nenhum com aquela situação. De repente, ele se sentiu traído, injustiçado e passado para trás. Sua sanidade logo voltou e ele procurou eliminar aqueles pensamentos de revolta. Afinal, anjos também não podiam se revoltar.

“Parece que anjos não podem mais nada...” foi seu último pensamento antes de ele ficar sereno novamente.





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