Good Day Sunshine escrita por Nowhere Unnie


Capítulo 2
Capítulo 2 - O aluno novo




Ele retribuiu o abraço com a mesma força e ficamos assim por alguns segundos, recebendo uma espécie de abrigo para aquela manhã fria, até que ele começou a se exibir:

— Eu sabia que você não ia se conter, sou irresistível, não sou?

Aproveitei que estava em uma boa posição e dei um soquinho em suas costas como resposta, o que fez com que ele ficasse tossindo de brincadeira e eu, morrendo de rir, fui pegar minha bicicleta e me posicionei ao seu lado.

— Isso é pra você deixar de ser besta!

Depois daquele falso ataque de tosse por falta de ar, Richard começou a rir também e me perguntou:

— Pronta, Meg?

Enquanto ele me olhava esperando uma resposta, comecei a pedalar e olhei para trás rindo:

— Você ainda está aí? Deixa de ser lerdo Rick!

Ele disparou atrás de mim e logo tomou a dianteira, mas não por muito tempo, porque logo eu o alcancei e algum tempo depois ele com certeza iria me passar de novo.

Esse era apenas o começo de um típico dia rumo às aulas do Liverpool Institute. A escola não ficava muito longe de casa e íamos sempre de bicicleta porque eu gostava de sentir o vento contra meu rosto e enquanto pedalava me sentia livre, como se meus pés se desligassem do chão e a qualquer momento pudesse voar. Além do mais, Richard também tinha essa preferência pelas bicicletas, ainda que por outro motivo. Ele era muito preocupado com o meio ambiente e, além de ser vegetariano, defendia a ideia de que os ônibus eram apenas um meio a mais de poluição e se as pessoas passassem a usar bicicletas para se locomover, estariam contribuindo para um ar mais saudável. "Mesmo que ninguém mais na cidade se conscientizasse disso, ao menos duas pessoas já estavam fazendo sua parte." Era o que ele sempre dizia.

Assim que chegamos na escola, deixamos nossas bicicletas no bicicletário e fomos correndo para a sala, porque toda aquela paz e tranquilidade pelos pátios e corredores significava que estávamos muito atrasados. Richard já tinha 17 anos, mas sempre teve uma saúde bastante debilitada, o que prejudicou seus estudos e por isso ainda estava na mesma série que eu e o pessoal de 14, então estudávamos na mesma sala.

Por sorte o professor ainda não havia começado a aula, mas nos dirigiu um olhar severo de repreensão pelos 5 minutos de atraso. Pode parecer pouco tempo em outras partes do mundo, mas para os britânicos um atraso desses é inadmissível, ainda mais se tratando do primeiro dia de aula depois de tantos dias de folga, onde seria mais lógico que os alunos estivessem descansados e bem dispostos para retomar as atividades normais.

Richard e eu sempre nos sentávamos nas últimas carteiras e fomos direto para o fim da sala, mas quando chegamos lá, só havia um lugar vago. Ele se sentou ali porque sabia que eu expulsaria qualquer um que estivesse ocupando meu lugar. Imediatamente me dirigi ao magricelo que havia roubado meu lugar à direita do meu amigo e fiquei surpresa ao perceber que era um aluno novo e que, ao invés de analisar tudo à sua volta, estava de cabeça abaixada encarando seu caderno fechado. Não era comum que alunos se transferissem de escola naquela época do ano, mas não pensei muito nisso, afinal tinha um problema urgente para resolver. Quando ele percebeu que havia alguém em pé diante dele, levantou a cabeça e, ao ver seu rosto, não sei bem o que aconteceu comigo, era como se aquela não fosse mais eu e a intrusa que havia tomado meu corpo se via incapaz de sequer lançar um olhar rude a ele.

Diante da minha impotência, cerrei os punhos com força e me dirigi ao garoto que estava sentado à esquerda de Richard. Não tive muito trabalho a não ser levantar meus punhos já cerrados em um tom ameaçador, pois ele já me conhecia e sabia que eu seria capaz de bater nele ainda que estivesse sob as vistas de um professor. Keith Moon era seu nome, ele já estava amontoando seu material espalhado para se levantar quando o professor levantou a voz, apontando para a única carteira vazia, que ficava no meio da sala:

— Senhorita Lewis, sente-se agora pois já irei começar a aula.

Eu não teria o menor problema em desobedecê-lo se Keith não tivesse se sentido completamente seguro sob a ordem do professor e se esparramado na carteira ao ouví-lo. Respirei fundo e, a contra gosto, me sentei na carteira vazia, rodeada por meninas fúteis e irritantes, que ficaram a aula inteira cochichando sobre compras, roupas novas, garotos e planos sobre uma tal festa do pijama.

Chegou um determinado momento em que eu já não aguentava mais aquilo, então peguei duas canetas com tampa e fingi enfiar uma em cada ouvido antes de continuar fazendo os exercícios que o professor ordenara. Eu só esperava que elas fossem inteligentes o suficiente para entender que aquilo era uma forma de protesto e que eu preferia ter duas canetas furando meus tímpanos a escutar aquelas conversas idiotas, mas pelo visto não eram, porque ficaram me olhando com uma cara esquisita, enquanto se podia ouvir um par de risadas no fundo da sala. Uma delas era a de Richard, eu reconhecia muito bem, mas olhei para trás mesmo assim, pois queria ver se entre as outras risadas estava a daquele novato esquisito.