Good Day Sunshine escrita por Nowhere Unnie


Capítulo 1
Capítulo 1 - Volta às aulas




Já era a segunda vez que o despertador tocava naquela manhã e eu o ouvia perfeitamente. Mas ainda que eu tenha estado todo o fim de semana me preparando psicologicamente para aceitar o fim daquele feriado prolongado, meu corpo não queria obedecer ao fato de que, embora ainda fossem 5 horas da manhã de segunda-feira, eu já deveria ter me levantado. Eu poderia apenas desativá-lo delicadamente como da primeira vez, mas eu tinha feito aquilo apenas porque ainda estava praticamente dormindo e, portanto, não estava sendo de fato eu mesma. Dessa vez aquele objeto inútil estava me irritando, além de ter acabado com a paz e o sossego da minha cama quentinha, então eu simplesmente o agarrei e o lancei contra a parede do quarto com toda a minha força. Após o forte ruído de metal se estatelando, ele havia parado de tocar e isso era bom. Tentei armar um sorriso, que na verdade saiu em forma de bocejo, me virei para o outro lado e simplesmente dormi.

Em condições normais, eu teria descansado até as 5:30, quando minha mãe viria me acordar ao perceber que o despertador não surtira nenhum efeito. Mas com o barulho do despertador sendo destruído, não demorou sequer dois minutos para que ela adentrasse desesperadamente o meu quarto. Me conhecendo como a boa mãe que era, já sabia que se algum assaltante ou maníaco invadisse meu quarto durante a noite, teria graves ferimentos, pois qualquer coisa que esteja ao meu alcance é capaz se transformar em uma arma letal. Ao adentrar o quarto e me ver dormindo tranquilamente, nem precisou olhar em volta para saber que eu tinha aprontado alguma coisa e começou a gritar.

—Você ficou louca, menina? Levanta já daí, anda!

Ela dizia enquanto puxava meu cobertor e eu fui obrigada a pelo menos abrir os olhos, pois sabia muito bem que ela era capaz de me puxar pelos cabelos se eu não levantasse logo.

—Não, mãe... — Eu dizia enquanto me espreguiçava. — Não quero levantar, tá cedo ainda...

—Sim, está cedo e é justamente a essa hora que as pessoas trabalhadoras e honradas se levantam. Não quero saber de preguiça na minha casa não! E anda logo, senão você se atrasa logo no começo da semana! Você demora demais para tomar banho e se arrumar, você sabe muito bem disso!

Quando ela terminou de falar eu já estava no banheiro lavando o rosto. Seria louca mesmo é se tivesse ficado na cama ouvindo todo aquele falatório.

Em seguida me sentei à mesa para tomar o café da manhã e, enquanto passava geleia nas torradas e esperava minha mãe acabar de fritar os ovos, meu pai entrava na cozinha com o jornal embaixo do braço. Ele soltou uma risada baixa o suficiente para que minha mãe não o escutasse e depositou um beijo em minha testa.

—Você tem que estar sempre aprontando algo, não é mesmo meu raio de sol?
Eu adorava quando ele me chamava assim e esse era o único tratamento infantil diante do qual eu não revirava os olhos em total desaprovação e também o único do qual eu jamais vou abrir mão, não importando quantos anos venha a ter. Como eu não precisava manter nenhuma atitude madura e autoritária na presença da minha mãe, apenas soltei uma gargalhada forte o bastante por mim e por ele, larguei o pão e a faca sobre a mesa, e o abracei.

—Eu não aprontei nada, aquele despertador maldito é que interrompeu toda a paz da minha vida! Eu tinha que dar um jeito nele, não tinha?

—Você é que não tem jeito...

Ele olhou para minha mãe, para saber se ainda estava seguro e, ao constatar que ela ainda estava no fogão de costas para nós, soltou mais um par de risadas baixas e balançou a cabeça negativamente, bagunçando meus cabelos e voltando toda a sua atenção ao jornal, que ele tinha acabado de abrir. Assim que os ovos ficaram prontos, acabou nossa paz. Minha mãe ia reclamando conforme ia distribuindo os ovos em cada pratinho.

—Mas é claro que essa menina não tem jeito, você dá algum limite para ela? Não, é sempre: Não seja tão dura com ela, meninas que ainda estão crescendo são assim mesmo... Assim mesmo? Pois saiba que eu nunca, ouviu bem? Nunca! Quebrei nada quando tinha a idade dela. Aos 14 anos já sabia me comportar como uma verdadeira dama, ou melhor, aprendi bem antes disso... Mas se eu tento ensinar alguma coisa para ela você sempre diz que é normal. Até quando a Megan quebra o nariz do coleguinha durante o recreio é normal para você, Thomas!

Nessas horas, papai sempre a ignorava usando o jornal como um escudo protetor e eu já estava pensando seriamente em adquirir esse hábito também. Mas como eu ainda não estava com meu escudo, precisava me defender com uma arma e logo respondi:

—Na verdade, mamãe, foi bem normal mesmo!! Eu só quebrei o nariz daquele idiota porque ele já tinha me perturbado o ano inteiro e, se você quer saber, ele merecia bem mais que isso...

—Está vendo? E ainda por cima tem esse linguajar de moleque de rua! Mas essa menina não tem modos mesmo, olha só, fica até falando de boca cheia e...

Sinceramente, mamãe era muito exagerada e não prestei atenção em mais nada depois disso, apenas terminei meu café da manhã e fui tomar banho. Enquanto tomava banho pensava comigo mesma que ela estava certa e só queria o meu bem, mas eu jamais admitiria isso em voz alta e, em exata meia hora, ela estava batendo na porta do banheiro.

—Anda logo Megan, que banho demorado é esse, menina?
Como sempre, revirei os olhos e inflei as bochechas, soltando o ar vagarosamente enquanto a ouvia. Saí dali o mais rápido que consegui, ou seja, em 10 minutos. Fui para o meu quarto, vesti o uniforme do Liverpool Institute High School, prendi o cabelo em rabo de cavalo e fui para a sala arrumar todo o material, que ainda estava espalhado pelo meu quarto desde a última vez em que eu tinha feito a lição de casa.

—Por que você sempre deixa tudo para a última hora, Megan? Aposto que todas as suas amiguinhas já estão com seus materiais arrumados há dias!

—Mamãe, que diferença isso faz? Dá na mesma, já que só vão usar o material hoje...

—É, mas com isso elas ganham tempo para se arrumarem mais de manhã. Olha como você sai toda mal arrumada!

Eu já estava acostumada a esse tipo de sermão durante todas as manhãs desde o início do ano. Ela achava que se arrumar bem era andar cheia de frescuras, como aquelas garotas fúteis da escola faziam. Eu só saía de casa com um batom neutro, que eu usava apenas como protetor labial e com aquele cabelo seguramente amarrado, porque a genética não colaborava muito e eu não tinha a menor paciência de passar todo o sábado no salão como ela.

Já estava fechando minha mochila quando ouviram-se gritos no portão.

—Meeeeegann, Meeeeegann!!

Eu ia responder, mas mamãe foi mais rápida e gritou de volta:

—Richaaarrrddd!! Quantas vezes tenho preciso repetir que a campainha existe para ser tocada e que não quero gritos no portão de casa??

—E quantas vezes tenho que repetir que não quero gritarias nessa casa, Beth? —Papai gritava da cozinha.

Tudo que eu fazia era rir da situação e, enquanto colocava a mochila nas costas, corri até o quintal, peguei minha bicicleta e, antes de sair e fechar o portão gritei de volta

—Até mais tarde família, amo vocês!

Richard também estava rindo enquanto esperava sobre sua bicicleta e me fitava com aqueles olhos azuis que tinham um poder de, embora o tempo estivesse nublado e a qualquer momento pudesse chover ou nevar, despertar nas pessoas aquela mesma sensação gostosa de quando o céu está azul e todos se sentem bem de uma forma especial, apenas com vontade de ficar lá fora se divertindo no dia ensolarado.

Olhei em volta para me certificar de que ninguém estava olhando, larguei minha bicicleta, que tombou no chão, e o abracei com força, afinal, eu estava há muito tempo sem vê-lo. Ele sempre foi meu melhor amigo, morava na rua de baixo e eu o havia visto na última sexta-feira. Mas um fim de semana inteiro é muita coisa para alguém que tem o costume de se ver quase todo dia.