Fadas. escrita por AnaBonagamba


Capítulo 1
Capítulo 1 - Fadas.


Notas iniciais do capítulo

Baseada num conto da minha querida amiga Sarah, e um presente de despedida para muitos sonhos corrompidos.



A lua estava cheia. Lobisomens talvez uivassem naquela noite. Talvez, não. Já dava pra ouvir o som raspar a noite sombria, esta apenas doce iluminada pelo clarão que regozijava pela esfera.

Tudo ali inspirava magia à Tom. Os segredos daquela obscura face sempre resguardada ao calar da madrugada, todos os sons fungando a dor da escuridão. A Terra dormia, e isso era mágico. Seria ele o único ser acordado àquela hora?

Não. Por mais que desejasse arduamente, não era o único a gozar daquela imensidão de paz e beleza. Belo sim, seria e sempre, um eterno languir denso e esférico, tampouco mágico, o brilho da lua banhava todos os seres que dormiam por baixo dela, e seu reflexo nas águas dos lagos era uma coisa quase fascinante de ser olhada...Porém sua interpretação estava, basicamente, em cada sentimento anteposto ali.

Como se cada gota iluminada pela lua fosse uma lágrima de seu belo rosto.

Tom passou a barra de sua blusa mais uma vez nos olhos. Seu choro salgado, iluminado pela lua, era quase uma pedrinha de cristal a descer de um tesouro maior. Seus grandes olhos de topázio não traziam a tristeza comum, nem a superioridade estranha a uma criança, mas sim a surpresa de que era, apenas era, um garoto órfão.

Aos poucos os olhos cansaram. Caiu então na relva fria, sentado, observando tudo ao seu redor. Sentia-se corajoso por estar ali, com tão pouca idade, já se arriscava a adentrar os perigos do castelo, enfrentar as mais diversas criaturas. Mas não as enfrentaria. As aplaudiria de pé por tanta benção, tanta mágica. Criaturas de uma noite como aquela mereciam aplausos.

Daí se lembrou de que era apenas um garoto órfão no frio de uma madrugada deserta.

O tempo passou lento, mas mesmo assim, passou. As horas eternas estancavam no imenso relógio da Torre, uma por uma. A noite caía, mas a lua não. Ela ficou ali, parada, como se o observasse, como se o tomasse nos braços e o ninasse. As lágrimas secas ainda tinham formato em seu rosto angelical, mas os olhos azuis já estavam fechados.

E assim pensou ter dormido.

A mágica era tão forte que nenhuma criatura terrena saberia descrever o que via o menino. Por entre as relvas tilintadas e o fulgor da noite escura surgia a figura de uma sabedoria estranha. Ela dançava fora do chão e possuía asas grandes e puntiformes. Sua voz era doce.

Os olhos do menino despertaram abruptamente. Ele olhou para os lados procurando a antiga imagem que tinha ao seu redor antes de dormir, mas o que viu era fascinante: o frio havia se decomposto em um aconchego melindroso, e todo o languir da madrugada tinha se tornado um som de sorriso grande e gostoso. As árvores badalavam as folhas em sintonia, e o riso se tornava mais forte.

Ao sentir a presença da estranha figura voadora, encolheu-se. Prendeu os joelhos nas mãos e observou de longe a aproximação da outra. Que haveria? Quem era ela?

- Sou alguém que não vai te fazer mal.

- Outros já me disseram isso. - retrucou baixinho, quase inaudível.

A criatura dançou mais uma vez por entre as árvores, acompanhada pelo olhar de Tom. Não deixou ser revelado seu rosto, apenas o som de seu sorriso.

- Quem é você? - Perguntou mais alto dessa vez.

-Sou alguém que não vai te fazer mal. - Repetiu a voz feminina, tilintando como um sino.

Tom colocou-se de pé e esperou pelo próximo movimento. O que via era a sombra de uma figura esguia e curva, como uma borboleta, só que com um rosto delineado de nariz fino, corpo alto, bem desenhado.

- Não me reconheces?

- Nunca vi nada parecido. - retrucou austero.

- Sou algo que nunca vistes?

- Foi o que eu acabei de dizer.

- Aproximai, rapaz, e olhai.

- Não sei se devo. - disse ele receoso. - O que encontrarei ai?

A criatura manteve seu silêncio por alguns minutos.

- Algo que nunca vistes.

Tom ousou simples passos, parando a meio metro da figura que chocou sua atenção. Possuía belos olhos dourados, e uma pele impecavelmente branca. Os logos cabelos loiros escorriam por suas costas em cachos bem feitos, ornamentados de flores e essências. No topo da cabeça, uma tiara diferente. Brilhava nela espécies de estrelas, clareando ainda mais o rosto da jovem.

Vestia-se com uma túnica branca até os joelhos, e possuía longas asas. Estas, iluminadas pela lua, emitiam um brilho ocioso, cheio de cores, como um prisma refletindo a luz do sol.

- Aproximai, e olhai. - Pediu ela.

- Você é um fantasma? - perguntou Tom, ainda com passos lentos.

- Não, querido.

- Então...?

- Sou uma fada, Tom. - ela sorriu, resplandecendo seu riso por todo o ambiente.

- Fadas não existem. - ele parou de andar. - Você está me enganando.

- Tocai-me. - disse ela, estendendo a mão para ele. - Se eu sou uma mentira, nada sentirás. Agora... - ela o fuzilou. - se sentires o calor de meu toque, serás obrigado a se desculpar.

O garoto estranhou-se, mas não deixou de aceitar o que propunha. Tocou-lhe a mão quente e brilhante como se tocasse uma toalha felpuda. Aos poucos foi se acostumando com o toque, chegando mais perto, tocando cada vez mais tudo o que alcançava no braço dela.

- Você é real?

- Sou aquilo que você desejar que eu seja.

- Um sonho, então?

- E você sonharia com fadas?

- Não...

- Pois então eu não seria um sonho.

Tom a rodeou um instante. Seus pés, descalços, eram tão brancos quanto o corpo. As estrelas de sua tiara brilhavam cada vez mais enquanto o tempo passava, mas o calor de seu toque não se deixava abalar pela frieza da mão do menino.

- Por que você veio? - perguntou ele.

- Você me chamou.

- Mas eu nem poderia sonhar com você, então como poderia chamá-la?

- Os cristais dos teus olhos refletiram no brilho da minha espécime.

- Perdão?

- Choraste, e olhaste para a Lua. Nossa mãe e nossa guia, nos inflama de ternura plena e magia... ela me enviou até você para calar-te o choro.

- E se eu nunca mais chorar?

- Chegará um dia em que isso não será suficiente. A dor não se reflete apenas ás lágrimas.

- Nunca mais a verei? - ele a olhou firmemente, com o olhar denso inclinado a chorar mais uma vez.

- Não. Levarás de mim apenas o calor de meu toque, e desses nunca esquecerás, te darei de presente. De resto serei apenas uma imagem que você duvidará da existência, como fez ante hora.

A fada soltou-se dele fisicamente, mas seus olhos dourados ainda culminavam nos olhos azuis do menino. Todo o calor se fora, e só restara a lua e seu brilho prateado.

Tom ergueu-se depressa e coçou os olhos. A imagem que tinha era a que havia tomado dantes, a tristeza e melancolia da noite, o uivar dos lobos.

Mas algo estava mudado.

A magia que o envolvia era mais forte, ele podia sentir. Colocou a mão direita na bochecha: ainda estava quente.

O que faria com seu presente deixou que os anos determinassem, mas jamais chorou de novo. Mesmo que teimasse, sabia que não estava sozinho.

Se a magia era capaz de criar tantas coisas, porque a existência de fadas lhe seria negada?



Notas finais do capítulo

That's all.