A Outra Face escrita por Yue Chan


Capítulo 27
27- Revelações


Notas iniciais do capítulo

Bom, aqui está o momento tão esperado por vocês. Espero que apreciem.
Boa Leitura.



Hinata estava entretida montando um quebra-cabeça de monstros com o filho na sala. Apesar de ainda não ser tão tarde os dois já estavam de roupa de dormir. O pequeno usava um pijama branco e a touquinha que cobria sua cabeça estava meio torta devido aos movimentos realizados para pegar as peças do jogo espalhadas pelo chão. Hinata usava baby doll azul cetim com detalhes delicados. Quem visse a cena e não soubesse de sua história podia arriscar se tratar de irmãos brincando.

Hinata tentava afastar os problemas e preocupações. As palavras de Itachi ainda estavam muito frescas na sua memória e tinham lhe perturbado por horas e horas, mas no fim ela decidiu que pensar muito neles não lhe traria resultado algum. Deixaria para pensar naquilo mais tarde.

 Kenzo tinha acabado de encaixar o olho de um monstro pequeno.

_Olha mãe!- apontou o rosto do monstro. – Acho que esse aqui só tem um olho.

_Isso nós só vamos descobrir quando acabarmos de montar esse quebra-cabeça esquisito. Vou te contar, só mesmo o seu avô.

_Eu adorei. O ji-san só me dá coisas legais!

_Estranha você quis dizer. Olha esse monstro aqui. – apontou para um monstro magricela- Parece mais um palito de fósforo aceso. Esse Jiraya ainda te põe mal acostumado um dia desses com essa mania de trazer um presente diferente a cada encontro.

_Não é sempre que ele me dá presente, mamãe. Só de vez em quando.

_É, quando ele encontra uma coisa esquisita igual esse jogo.

_Eu gosto de ganhar presentes.

_E eu não sei, Kenzo?!Ganhar presente é bom, mas tem que ter um limite senão deixa a pessoa mal acostumada.

_O seu papai te dava muitos presentes, mamãe?!

A peça que Hinata estava segurando parou no meio do caminho. Kenzo se dobrou para poder observar o rosto dela que ficou para baixo.

_Mamãe?Alguma coisa errada?

_Nada, meu filho. Só estava pensando.

_No seu papai?

_Sim.

Os sapecas olhos azuis de Kenzo se abriram curiosos iluminando o rosto infantil. Era a primeira vez que os dois conversavam sobre o avô e tentaria aprender o máximo de coisas possíveis com aquela conversa.

_Como ele é mamãe? Ele é legal igual o Jiraya ji-san?!

_Não, meu amor. Ele é bem diferente do Jiraya.

_Diferente como?! Me conta.

_Agora, filho?!Tem que ser agora?Porque não falamos disso depois?Você nunca perguntou dele antes.

_É, mas me deu curiosidade agora. Eu gosto muito do Jiraya ji-san, mas ele é um vovô emprestado. Queria saber como é o meu vô de verdade.

_Eu não gosto muito de falar dele.

_Por quê?Ele morreu?

_Não. Se ele tivesse morrido eu saberia.

_Como?A senhora consegue sentir?É vidente?

_Não, mas ele é um homem muito famoso. Todos comentariam se algo assim acontecesse.

_Famoso!Ele é artista de tevê?

_Quase isso. Kenzo, o seu avô... Como eu vou explicar?!Bem, o seu avô de verdade é um homem muito, muito diferente do Jiraya ji-san.

_Disso eu sei mãe. A senhora já me disse isso. Não vale me enrolar, hein?!

Hinata riu da fala do pequeno que mantinha um olhar inquisidor e atento de quem não quer ser enganado.

_Me deixa ver. O seu avô, Kenzo, é um homem muito sério e carrancudo.

_Carrancudo?O que é isso?

_Uma pessoa assim. – fez uma careta zangada que arrancou risos do menino.

_Credo!- Kenzo disse ainda rindo – Ele se parece com esse monstro aqui.

_Igualzinho filho.

_A senhora sente falta dele?

_Muita, meu filho. Muita mesmo.

_Mesmo ele sendo assim? – imitou o mesmo gesto de Hinata.

_Mesmo sendo assim. – disse com o olhar saudoso. – Mesmo que ele tenha me magoado mais de uma vez e seja daquele jeito ranzinza dele. Eu amo meu pai e sinto muita saudade dele.

_Então porque não vai vê-lo? Se tem saudade vai lá.

_Eu queria que fosse simples assim, meu filho.

_E porque não é?É só visitar ele, certo?

_Ele não ia querer me ver. Para ele eu fiz uma coisa imperdoável. Nós brigamos muito feio quando eu saí de casa.

_Porque vocês brigaram mamãe?

_Ele queria que eu jogasse fora uma coisa muito importante. Eu não obedeci.

_E que coisa era essa?

_Eu não posso dizer.

_E porque não?É tão importante assim.

_ Mais do que você imagina, meu amor, bem mais. Era uma coisa muito valiosa que até hoje me faz muito feliz. Muito importante mesmo.

_ Um dia você me mostra mamãe?Essa coisa valiosa?

Hinata olhou com carinho para o filho. Aproximou-se da testa dele e deu um beijinho amoroso que fez o menino fechar os olhos para apreciar.

_Um dia eu te mostro, prometo.

Voltaram a trabalhar no quebra-cabeça.

_Mamãe?!

_Oi amor.

_Você também brigou com o meu papai por causa dessa coisa importante?

Mais uma vez a peça parou no ar, só que diferente da primeira vez, as mãos da morena tremeram. Ela mirou os olhos azuis do filho e sentiu a coragem falhar.

_Mamãe?!

_Porque você quer saber isso, Kenzo?

_Uê, eu só estou curioso. A senhora falou que brigou com o seu papai por causa dessa coisa valiosa. Queria saber se brigou também com o meu.

_Pode-se dizer que sim.

_Como assim? Foi ou não foi?

_Foi, filho. Foi sim.

_ Nossa, deve ser muito valioso mesmo esse seu tesouro, mamãe. Pra você brigar com os dois por causa dele.

_Muito valioso mesmo.

_Não fica assim, mamãe. Eles que são uns bobos. Deviam ter respeitado você e o seu tesouro. Se a senhora não queria jogar fora é direito seu, eles não tinham que querer mandar na sua vontade.

Tocada pela fala inocente do pequeno, Hinata se aproximou do filho e envolveu seu corpo em um abraço gostoso que fez o menino mais uma vez fechar os olhos para apreciar o momento. Kenzo amava esses momentos de carinho que trocava com a mãe. Gostava de sentir o cheiro gostoso dela, o calor, tudo.

_ Obrigada amor.

_Pelo que?

_Por entender a mamãe.

Os dois continuaram a atividade interrompida duas vezes. Passaram-se dez minutos e eles estavam quase terminando o quebra-cabeça quando a campainha tocou. Hinata levantou-se ajeitando o baby doll, desamassando o que era possível com os dedos.

_Quem será essa hora?

_Pode ser o ji-san, mamãe.-Kenzo disse esperançoso.

_Duvido. Hoje é aniversário de casamento dele. Não ia vir aqui.

Kenzo continuou jogado no tapete da sala onde tinha deitado. Faltava pouco para contemplar o trabalho pronto. A toquinha que usava tinha caído no chão deixando a vista suas madeixas loiras com pontinhas voltadas para dentro e para fora em uma confusão de fios soltos. Puxou a manga da camisa do pijama para deixar a mão mais livre e encaixou mais uma peça. Hinata fitou por um momento a sua mais bela obra-prima, suspirando de orgulho ao ver o olhar atento dele. Mais uma vez a campainha tocou.

_Já vou abrir. Só um momento.

Hinata abriu a porta dando passagem ao visitante. 

 _Boa noite, o que dese....

Seus olhos perolados abriram de terror e a cor fugiu-lhe a face. As mãos tremeram e o coração pareceu falhar uma batida quando um buraco invisível se abriu debaixo dos seus pés. A frase morreu na boca, seca pela surpresa.

_Boa noite, Hinata. Estava passando por aqui e decidi dar uma passadinha no seu apê para te visitar.

Naruto sorria como se fosse uma cena casual de namorados. Segurava um buquê de rosas e tinha um olhar sereno. Hinata titubeou por um segundo imaginando aquela situação como uma grande sacanagem do destino. Ele continuava sorrindo. Os olhos dele chamavam a atenção de tão calmos... Não, na verdade não era isso. Aqueles olhos escondiam algo. Ele não parecia surpreso ao ver o menino, que deitado no chão, mirava-o com os olhos da mesma cor em dúvida. Era como se estivesse preparado para aquilo. Como se previsse.

_Naruto. – deixou o nome escapar num quase murmúrio.

_Hinata. – repetiu divertido.

Ele parecia estar brincando com ela, e a morena sentiu isso.

_O que faz aqui?

_Ora Hina, já disse. Estava passando e resolvi te visitar, por acaso não me ouviu.

Hinata venceu o torpor do corpo. Precisava agir; descobrir uma maneira de fugir daquela situação inusitada. Nunca tinha se sentido tão despreparada como agora.

_Mamãe, quem é esse moço? –Kenzo perguntou se levantando. O pijama parecia grande demais para ele e escorregou pelo ombro ficando meio torto.

Naruto fez menção de entrar e se apresentar, mas foi impedido pela morena que se pôs a frente como um obstáculo fechando a passagem.

_Kenzo, vai para o quarto. – mandou sem olhar para o menino.

Então esse é o nome dele, Kenzo.

_Mas mamãe, eu tô acabando o jogo.

_Vai Kenzo!

_Mas....

_Anda Kenzo, não me desobedeça! Vá para o quarto, feche a porta e só abra para mim, entendeu?

Kenzo abriu e fechou a boca por duas vezes seguidas sem nada encontrar para dizer. Acabou desistindo de descobrir quem era aquele homem e obedeceu a mãe.

_Sim, senhora.

Sem perguntar mais, pegou a touca que estava no chão e lançou um último olhar para a dupla na porta. Aquele homem esquisito não parava de encará-lo e sorrir igual á  um abobado. Entrou no quarto e fechou a porta como a mãe mandara, trancando-a por dentro.

_Para que tanta precaução, Hina?!Por acaso tenho cara de monstro?

_Não enrola Naruto.  O que faz aqui?!

_Vou precisar repetir o que eu já disse?!

_Sabe muito bem que eu não estou falando sobre isso. Quero saber o que faz aqui?

_Vim conhecer o meu filho.

_ E o que te faz pensar que ele é seu filho?

_Não é muito difícil de descobrir. Detalhes como idade, personalidade, aparência, sabe... Coisas assim.

_Isso não diz nada.

_Na verdade diz tudo. São coincidências demais.

_Apenas coincidências.

_Nós dois sabemos que não.

_ Quem te falou sobre o Kenzo?

_Ninguém, eu o vi.

_Viu?Onde?

_No estacionamento da empresa do Gaara. Eu já o tinha visto tirando fotos. O menino é bom, tem talento.

Hinata suspirou pesadamente. Um tremor percorreu-lhe o corpo ao lembrar-se do dia em questão. Não se lembrava de tê-lo visto, mas não podia descartar a hipótese.

_O que você quer?

_Calma. Não vamos conversar assim, certo?- o olhar mudou de brincalhão para sério. – Isso não é assunto para ser tratado na soleira da porta.

Hinata pensou por um minuto antes de resolver liberar a passagem e deixá-lo entrar. Fechou a porta e o conduziu até a cozinha. Era o cômodo mais afastado do quarto de Kenzo. Sentaram-se.

_Eu já imagino o que você vai dizer. Só peço que não arrume escândalo na minha casa. Eu não quero que o meu filho se assuste.

_Não se preocupe, eu não pretendo fazer escândalo. Pelo contrário, vim conversar. Na verdade vim exigir uma explicação.

_Acha que ainda está em posição de exigir algo depois de tudo o que fez conosco?

_Eu tenho ao menos o direito de saber, e não me faça tomar providências mais severas para saber algo tão simples.

Hinata se calou. Itachi tinha razão.

_Porque mentiu para mim no dia do desfile quando disse que tinha tomado a pílula? Porque escondeu o meu filho de mim?

_Eu não menti.

_Como não?O menino é a prova viva que você mentiu Hinata. Não tem como negar.

_Eu disse que tomei, mas não disse que engoli. Cheguei realmente a pôr na boca, mas não engoli. Não tive coragem, não sou uma assassina.

_Porque não me disse naquele dia então?Porque omitiu essa parte.

_Apenas por prevenção. Como eu ia saber que tinha mudado? Que não era o mesmo Naruto de antes, o mesmo que me abandonou?Eu quis preservar o meu filho.

_Você não tem o direito de escondê-lo de mim, Hinata.  Isso não está certo.

_Eu não me importo com o que pensa. Você é a última pessoa no mundo que pode julgar as minhas decisões. Também não foi certo o que fez comigo. Eu criei o Kenzo até hoje sozinha, tenho o direito de agir da maneira que julgar correta. Eu ia contar-lhe a verdade, mas seria por causa dele.

_Ele sabe?

_O que?

_Que eu sou o pai dele?

_Como poderia saber?Vvocê nunca se importou com ele. Ele nunca viu o seu rosto. De qualquer maneira eu não me sentia preparada para contar isso á ele.

_Não se sentia preparada, essa é a sua desculpa?                                                           

_Não preciso te dar satisfação de nada, Naruto. Não é tão simples quanto parece, é um assunto delicado.

_Para mim você que está complicando a situação.

_Mesmo? Pois para mim, você é quem está querendo facilitar demais. Que tal você assumir esse papel então? Vá e diga á ele que é o pai dele.

_É isso mesmo que eu pretendo fazer. Não quero perder mais tempo do que já perdi.

_Aconselho que vá preparado. Kenzo é uma criança curiosa.

_E o que isso tem demais?

_Ele vai querer saber por que você apareceu somente agora. Você vai ter que contar a ele que não o queria, contar que mandou que eu abortasse.

O olhar confiante murchou como um balão de festa.

_Eu era jovem Hinata, falei bobeira. Vou explicar e ele vai entender.

_Mesmo?O que pensaria se estivesse no lugar dele. Pode parecer pouco para você, Naruto, mas para uma criança, para quem está do outro lado, é destrutivo, saber que o pai mandou matá-lo. Pensa direito. Você não pode simplesmente chegar e querer assumir de vez na vida do Kenzo um papel que esteve vazio por tantos anos.

Naruto ficou em silêncio absorvendo a dura realidade. Tinha se preparado tanto, imaginado todos o tipos de rumo que aquela conversa poderia tomar, mas  agora sentia-se contra o  muro. Hinata tinha razão e a sua confiança começava a murchar.

_ Você não está preparado para ser pai, Naruto. É muito egoísta para isso. Foi egoísta ao me abandonar naquela noite sem pensar nas consequências e duvido que tenha mudado, já que resolveu dar as caras por aqui cobrando assuntos passados.

_Ele não é um assunto passado, Hinata. Não me coloque como monstro.

_ Como devo pensar em você então?Eu passei muitas dificuldades depois daquela noite, Naruto, tantas que você, com seus pensamentos egoístas, não poderia quantificar em uma vida inteira. Mas isso já não importa mais. Ficou no passado, assim como o amor que eu tinha por você. Eu levei anos para superar aquele momento e aprender a andar sozinha e agora sinto que posso suportar as quedas e rasteiras da vida com mais maturidade.

_ Você realmente mudou Hinata. Mas eu não sei se essa mudança foi tão positiva assim. – ela encarou-o com o olhar indagativo. – Você está tão fechada, tão séria. Às vezes parece que estou falando com o seu pai ao invés de você.

_Não ouse falar do meu pai, Naruto, você não tem o direito de julgá-lo, não o conhece de verdade.

_Eu não estou falando do seu pai, Hinata. Apenas fiz um comentário. Mas o que importa, nunca gostei dele e não gosto de vê-la agindo igual a ele.

_Você acha que fiquei igual à ele? Se conhecesse o senhor Hyuuga Hiashy, como eu conheço não nos acharia tão parecidos. Eu não sou igual a ele!

_Qual o problema de compará-lo a você?É seu pai, que mal há nisso?Eu disse apenas que o seu olhar está igual ao dele, só isso.

Hinata sentiu a boca amarga ao lembrar-se do pai. As lembranças do convívio com ele pareciam querer rasgar-lhe o coração. Infelizmente, por mais que tentasse apenas a imagem daquele rosto irritado e dos olhos julgadores vinha-lhe a mente. Uma tristeza voraz tomou conta das suas emoções, sobrepujando as outras, inclusive a raiva que sentia do loiro. Tentou se controlar, não podia se mostrar fraca, mas os seus esforços pareciam inúteis. Era como lutar com uma criatura viva.

Hinata segurou com a maestria de uma rainha a tristeza que ribombava em seu peito. Como esra destruidor lembrar-se daquele homem. Como era triste pensar no elo rompido, lembrar que era a desgraça da família Hyuuga, que o pai sentia nojo de lembrar-se dela por causa da decisão que tomara de levar a gravidez adiante mesmo sem o apoio do pai da criança. Os olhos marejaram contra sua vontade.

Hyuuga Hiashi. Como era possível viver em paz com a lembrança do seu olhar tão vazio?Não podia ser comparada a ele. Ninguém podia.

_Só isso?O meu pai não é apenas um homem sério, Naruto. Ele é igual a você, egoísta, sempre pensando no próprio bem, no próprio status. Não queria que nada manchasse a reputação da magnífica família Hyuuga. – as lágrimas vieram. – Droga, eu não queria me lembrar dele, sabia que as perguntas do Kenzo iam acabar me fragilizando.

Naruto sentiu-se mal ao ver a morena com lágrimas nos olhos. Era visível que ela tentava conte-las, que tentava ser forte, e essa obstinação, essa vontade de segurar o pranto que a destruía por dentro que a deixava com a aparência ainda mais frágil.

_Ele te perguntou sobre o seu pai?- Naruto disse com o olhar mais compreensivo, penalizado pelas lágrimas que a morena tentava conter.

_Sim. Estávamos conversando sobre avôs e ele entrou no assunto. Não sei por que inventei de responder, deveria ter interrompido a conversa.

Naruto se aproximou de Hinata que sentada continuava segurando as lágrimas que escapavam teimosas.  Por um instante o que viu foi a antiga Hinata, a frágil garota que chorava sem pudor, tentando vencer a nova que queria trancafiar os sentimentos a força. Levantou a mão com a intenção de acalmá-la, mas não teve coragem de tocar nela.

Como se percebesse a ação, Hinata levantou-se, foi até a pia e lavou o rosto. Ficou alguns minutos de costas esperando o coração aquietar-se, sendo observada pelo loiro. Precisava daquele tempo para se recuperar e tornar a ser forte.

Naruto não ousou interromper o momento. Mesmo que fosse até ela não saberia como agir. Ficou esperando que ela se acalmasse sozinha porque era o que parecia mais correto. Talvez fosse melhor conversar no outro dia, mas a expectativa de deixar esse momento para depois não lhe parecia muito reconfortante. Queria conhecer o filho mais do que tudo naquele momento.

_Eu acho que vou indo. - decidiu-se por fim - Amanhã, quando estiver melhor, nós conversamos sobre o assunto. – deixou o buquê sobre a mesa. – Eu trouxe para você. São as suas preferidas. – ela continuava voltada para a pia. Naruto virou para o corredor, deu três passos e parou de novo. – Eu sinto muito, Hinata, não queria fazê-la chorar.

Naruto voltou a andar em direção a saída. Seria melhor conversar amanhã. Por mais raiva que acreditasse suprir pela morena por ela ter mentido sobre um assunto tão sério, não conseguiria suportar suas lágrimas. Estava alcançando a porta quando sentiu uma mãozinha pequena segurar a barra da sua camisa. Voltou para fitar a pessoa e quase caiu de costas ao ver quem o segurava.

Kenzo tinha o olhar sério, mas seu pijama desproporcional dava-lhe um ar muito infantil, contrastando de maneira gritante com a cena.

_Quem é você?- O pequeno perguntou com a voz séria.

Naruto engoliu a emoção e ajoelhou-se para ficar da altura do menino. Fitou abobadamente cada centímetro do rosto dele. Apesar de ter a mesma cor de cabelo e olhos, Kenzo era Hinata purinho. O rosto arredondado, a boca bem delineada e o nariz pequeno e pontudo.

Desde que o vira no estacionamento no dia em que fora na empresa de Gaara vinha sonhando com o dia em que poderia estar frente a frente com ele. Era estranho. Não sabia dizer se os sentimentos que preenchiam seu coração eram de emoção ou dúvida. Estaria preparado para ser pai? Será que daria conta de cuidar de uma vida tão preciosa como àquela que estava a sua frente com um olhar tão sério?

_Quem é você, moço?- Até o olhar bravo parecia ser igual ao de Hinata.

Ele queria tocar o filho, conversar com ele, contar toda a verdade, mas se conteve no último segundo. Vê-lo cara a cara tinha arrancado toda a sua coragem.  Suspirou longamente tomando a decisão que acreditava ser a mais correta.

_Acho que a sua mãe mandou você ficar no quarto. - disse enfim.

_Você não respondeu minha pergunta, moço. Eu perguntei quem é você?

Os olhos azuis do Uzumaki se abriram de surpresa. Não esperava uma resposta tão áspera de um garoto que parecia ser igual a Hinata.

_Quem é você?- perguntou pela terceira vez, visivelmente irritado.

_Uzumaki Naruto, ao seu dispor.

_O que você fez com a minha mãe, senhor Naruto?

Naruto levantou a sobrancelha, curioso.

_O que eu fiz com a sua mãe? Nada. Ela está na cozinha. Queria um tempo e eu resolvi obedecer.

_Não me enrola, “Uzunaki” Naruto, eu posso ser pequeno, mas sei de côr o telefone da polícia.

Naruto não pôde segurar o riso ao ver a propriedade com a qual o menino falava.

_Do que você está rindo?Por acaso tenho cara de palhaço?

_Não, que isso! Não é por isso não.

_Então porque é?

_Vamos ver... Quantos anos têm?

_Quase cinco.

_É a primeira vez que vejo um garoto tão pequeno e mandão. Agora, que tal voltar para o seu quarto?Sua mãe pode ficar zangada com você.

_Você não manda em mim, baka!E eu não gosto que as pessoas riam de mim!

Kenzo terminou a frase e deu um chute bem dado na canela do loiro que caiu segurando-a. Tinha muita força no pé apesar de ser pequeno. Naruto levantou e se sentou no sofá. Aquele menino tinha puxado mais coisas dele do que imaginara, era um diabinho vestido em pele de cordeiro. Hinata apareceu na soleira da porta fazendo o menino olhar para ela surpreso.

_Mamãe?!- disse assustado.

_O que você fez Kenzo?!

_Foi ele quem pediu, estava rindo de mim. Falou que eu sou muito mandão e pequenininho. Aí eu o chutei!- defendeu-se rapidamente.

_Isso é motivo para chutar alguém?! E porque saiu do seu quarto?Eu não mandei que ficasse lá dentro?Volte para lá agora!

_Mas, mãe, eu estava...

_Sem desculpas, Kenzo!Para o quarto, agora!E dessa vez só saia quando tiver permissão!

Contrafeito ele acatou a ordem e voltou para o quarto, mas não sem antes lançar um último olhar aborrecido para Naruto que segurava o riso.

Quando ele fechou a porta, Naruto, ainda segurando o joelho deixou a risada que estava segurando escapar. Hinata olhou-o assustada.

_Porque está rindo se acabou de levar um chute na canela, por acaso é louco?

Naruto deu mais algumas risadas e disse quase sem ar.

_Esse menino é um diabinho. Acho que eu merecia isso.

Hinata riu contagiada com a alegria do loiro que parou de rir ao perceber que ela sorria. Era a primeira vez desde que se reencontraram que ela fazia isso. Parecia ainda mais linda que nunca.

As palavras de Itachi ressoaram na cabeça da morena e ela teve a certeza de que era hora de jogar. O começo não tinha sido como os dois planejaram, mas ainda estava em tempo de dar prosseguimento ao plano. O segundo passo é se aproximar com cautela, alguns sorrisos ajudam, os homens são fracos contra sorrisos de mulheres bonitas, tinha-lhe dito Itachi dando a ela o primeiro vislumbre de um sorriso.

_Desculpe. O Kenzo normalmente é um menino tranquilo e calmo.

_Mesmo?Não parece.

_Sei que não. É que ele fica chateado quando chega perto do dia...

Hinata cortou a fala ao se dar conta do que ia falar.

_Perto de que dia?- Naruto insistiu ainda alegre.

_Não acho que seja uma coisa boa de falar agora, vai estragar a alegria.

_Fale, por favor. Eu quero saber.

Ainda incerta resolveu contar.

_Perto do dia dos pais.

Cessaram-se os risos e a alegria. O loiro calou-se. Hinata continuou.

_Ele sempre passou o dia dos pais sozinho. Kenzo sempre foi um menino muito inteligente para a pouca idade dele e não demorou a perceber que era o único garoto no colégio que levava a mãe para comemorar no dia dos pais. Ele nem vai mais nesse dia, fica em casa porque os outros garotos fazem chacota dele. Esse ano ele está ainda mais retraído e começou a se comportar dessa maneira violenta. Chegou ate a bater em outro garoto. Foi por causa disso que eu já tinha tomado a decisão de contar a você a verdade. Não quero que ele sofra mais por causa do meu medo. Só que não esperava que isso ia acontecer tão cedo.

_Medo de que, Hinata?

_De perdê-lo.

_Mas porque perderia o Kenzo por me contar a verdade?

_Sei lá. Fiquei assustada com a possibilidade de você querer tirá-lo de mim porque o escondi por tantos anos.

_Eu nunca faria uma coisa dessas, Hinata.

Os dados estavam rolando e os resultados estavam saindo a seu favor.

_Eu  não tinha certeza, por isso estava receosa. Entenda Naruto, Kenzo foi a única pessoa que me restou quando fiquei sozinha. Para mim ele é mais do que um filho, é meu amigo, meu companheiro, meu guardião. Não pude evitar ter medo.

Naruto sentiu aquela frase tocá-lo de uma maneira muito poderosa.

_Não se preocupe Hinata, eu não vou tomar o Kenzo de você. Quero apenas a chance de poder conhecê-lo.

Hinata sentou-se a frente ao loiro ao estilo japonês. Jogou uma mecha do cabelo liso para trás e olhou-o nos olhos. Aquela forma de sentar salientava em muito as curvas de seu corpo.Por um segundo viu fome nos olhos dele, mas Naruto fez questão de desviar para não deixar a vista.

_Eu vou te ajudar com o Kenzo. Não quero que ele tenha mais um dia dos pais traumatizante. Por isso decidi contar-lhe toda a história desde que eu saí da casa do meu pai. Está disposto a ouvir?

_Claro.

Hinata suspirou e se ajeitou para ficar mais confortável, ia lançar mais uma vez os dados. Ia ser uma longa história.

 ---

Hinata acordou com o som do despertador. Os raios de sol entravam pela janela e vinham banhar-lhe o corpo. Espreguiçou-se com gosto, sentindo vontade de não levantar. Foi ao banheiro, prendeu o cabelo e lavou o rosto. Teria mais um longo dia pela frente.

Sentada na cozinha lembrou-se da noite em que Naruto bateu a sua porta. Durante a conversa, quando ele ameaçou tirar a guarda de Kenzo dela tinha sentido medo da possibilidade, mas depois... Não sabia como agradecer a Itachi, não fosse os conselhos dele recheados de avisos teria posto Naruto para correr com a promessa de empalá-lo com uma vassoura, mas Itachi tinha instruído-a “Se ele quiser se aproximar do menino deixe que o faça. É melhor tê-lo como aliado do que como inimigo. Deixe-o curtir seus supostos direitos.” Ela tinha feito como ele disse e tinha dado certo. Naruto até prometeu não abrir um processo contra ela.

Depois de terminar o café foi ao quarto do filho.

Aquele seria um longo dia.

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Naruto queria impressionar, por isso esperou a hora mais oportuna. Hinata tinha prometido levar Kenzo para a escola mesmo contra a vontade dele, e ele prometera que estaria na celebração. Bom, ali estavam os dois, Kenzo sentado na fileira junto com os colegas e ele sentado em meio a multidão de pais, camuflado e escondido. Tinha planejado tudo com Hinata nos dias que se passaram e faria de tudo para não fazer besteira.

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Kenzo ainda bufafa quando a mãe o sentou na cadeira ao lado dos colegas. Não queria estar ali, tinha pedido esperneado e feito pirraça para convencer a mãe, mas seus esforços tinham sido em vão e ali estava ele. Não teria aceitado se não visse que a mãe tinha lágrimas nos olhos quando ele se recusou a ir, odiava vê-la chorando e faria de tudo para não ver de novo. Só esperava que aquilo não demorasse muito. O salão estava cheio de pais e ele não tinha nenhum pai para apresentar aos colegas.

O garoto ao lado cutucou-o resmungando com outro colega a sua má sorte de ter de sentar logo ao lado do bastardo. Teve vontade de bater nele, mas não o fez. A mãe estava presente e não ia mostrar esse lado para ela. Cantaram as músicas, recitaram os poemas e versinhos dedicados aos pais e fizeram os passinhos de dança sob o olhar atento da professora. No final cada um recebeu o cartão confeccionado na sala por eles mesmos para entregar aos respectivos pais. Kenzo ganhou um da professora uma vez que se recusou a fazer um cartão para um pai que não conhecia.

As crianças foram vendadas e tinham que correr e se esconder dos pais que tentariam pegá-las pelas costas. Foi relutante que Kenzo deixou-se ser vendado. Segurou o cartão, mas não se moveu. Os risos das crianças chegaram aos seus ouvidos. Estão se divertindo, pensou sentindo-se triste com os risos alegres dos colegas, todos menos eu. Se divertem porque conhecem os pais e moram com eles. Eu odeio o dia dos pais. Segurou as lágrimas que queriam escapar esperando em breve sentir as mãos macias e pequenas da mãe envolverem sua cintura.Tudo vai acabar logo, pensou consigo, só mais um pouco. Eu sou um garoto valente e tenho que aguentar. Isso mesmo sou um garot...

Kenzo assustou-se ao perceber que estava sendo içado por mãos fortes e grandes. Os risos dos outros e a tristeza foram deixados de lado por aquela surpresa. Sentiu-se tentado a tirar a venda dos olhos, mas os braços pareciam feitos de pedra por causa da surpresa. Quem quer que o tenha pegado tinha braços muito fortes porque o levantou e permaneceu segurando-o no ar.

_Quem é?-perguntou curioso.

_Quem você acha garoto?

A voz não lhe parecia estranha, mas não conseguia imaginar a quem pertencia.

_Eu não sei.

O homem encostou os lábios no ouvido dele segredando-lhe.

_Eu sou o seu pai.



Notas finais do capítulo

Não façam mal julgamento do Itachi, ele está fazendo o possível para ajudar a amiga. Quanto ao shipper logo vai estar decidido, portanto até lá, naruhinas de coração, não se desesperem.
Beijos,
Yue Chan.