Ex-tresse. escrita por Arizinha


Capítulo 3
Capítulo 3 - Ex-tressando.




“Mas-“ pigarreei. “Que houve?”

Sua aura ficou vermelha e ela esbravejou. “Aquela desgraçada atacou de novo!”

Hm. Ok.

“Ahn...” comecei a formular uma frase, mas ela seguiu.

“Você tem que me ajudar!” ela apontou. “Prefiro você a ela!”

Eu enruguei meu cenho. Se ela preferia a mim, a outra opção certamente não iria me agradar.

Capítulo 3 – Ex-tressando.

 “Olha, eu não estou entendendo nada.”

“Aquela desgraçada da Camila...”

“Que Camila?”

“A melhor amiga do meu namorado.” Esbravejou.

Meu namorado.” Corrigi.

Nosso namorado.” Me encarou. Ok, eu saio no lucro. Ela tá morta mesmo... Dei de ombros. “Enfim, é a Camila! Ela ligou para ele hoje de madrugada!”

“Como você sabe?”

“Eu estava lá, observando ele dormir e ela ligou!” ela rosnou. É PRA LÁ QUE ELA VAI? “E daí, aquela desgraçada, ficou meia hora no telefone dizendo que ela amava ele, que ele era o amor da vida dela, que era pra eles ficarem juntos, que você não o merecia...”

“ELA DISSE ISSO?” ok, agora eu estou brava.

“Sim! E disse coisas muito piores!” ela resmungou.

“E ele não me contou nada!” eu quase morri. Era para ele ter me contado na mesma hora!

“Sim!” ela disse, brava.

Ei, ei, ei.

“Para aí, coisa querida e desencarnada, como eu vou saber que você não está mentindo para mim?”

Ela já tinha feito isso antes!

Ela rosnou e jogou a cabeça para trás. “Eu não estou mentindo!” ela berrou. “Mas tudo bem, acredite no que você quiser! Vai acabar perdendo para a Camila!” e sumiu.

Eu sentei na minha cama, querendo entender que virada foi essa. Eu acordei querendo que ela morresse no mundo espiritual e agora, teoricamente, teremos que lutar juntas contra a ameaça em comum?  Quero dizer, tecnicamente, o ditado é “O inimigo de meu inimigo é meu amigo”. Porém, o inimigo de meu inimigo é meu inimigo mortal... E isso torna meu inimigo meu companheiro de guerra?

Imaginar meu namorado ouvindo por meia hora uma menina morena, linda e de olhos azuis chorando e dizendo que o ama não me parece uma boa coisa. Se aquela desgraçada não fosse tão bonita ainda, eu me sentiria melhor. Mas, infelizmente, não era bem assim.

Eu sempre soube que a Lara a odiava, detestava e sentia um ciúme terrível da Camila, e eu sempre entendi muito bem esse sentimento de ódio mutuo. As duas gostavam dele. É complicado quando se namora e a praga da melhor amiga quer namorar seu namorado.

Meu celular tocou do meu lado. Era meu namorado.

“Alô?” atendi.

“Oi, amor!”

“Oi... Tudo bem com você?”

“Sim, sim...” hm. Hesitou. Corno! “E contigo?”

“Tudo certo.” Pausa. “Aconteceu alguma coisa?”

Poker face.

“Bem...” Outro intervalo. Eu podia o ver cutucando seu canino superior com a ponta da língua, imaginando quais seriam as palavras certas.  E sério, elas não existiam.

“Bem...?” pressionei.

 “A Camila me ligou.” CRETINA! “Ela disse que gostava de mim, ainda, sabe? Mas não foi nada de mais, amor, ela sabe que eu te amo e que estou contigo porque você é a melhor namorada do mundo, a mais linda, a mais querida...”

Tuc. Desliguei o telefone.

“SUA IDIOTA!” o encosto da ex do meu namorado apareceu. “Liga pra ele! Sua idiota, você vai perdê-lo desse jeito!”

“Não! Ela ligou para ele e-“ argumentei.

“A CULPA não é dele! Você não viu? Ele estava se retratando! Ele gosta de você, sua imbecil, retorna agora!”

“Não! Ele-“

“A culpa não é dele!” ela berrou, meus vidros tremeram. “Você não vê que está fazendo a mesma coisa que eu fiz?” eu vi, outra vez, o rancor em seus olhos.

Retornei.

“Amor, desculpa... Caiu a linha. Essa operadora idiota.” Suspirei. “Me explica melhor isso da Camila.”

E a conversa se seguiu assim. Com a louca da Lara de tocaia na volta, medindo minhas palavras.  Foi calmo, e terrivelmente perturbador para mim. Eu sou ciumenta e ela vai seguir sendo amiga dele! Inclusive ela mandou uma mensagem pedindo desculpas pelas ações idiotas e precipitadas dela de manhã.

Eu já detestava aquela guria, como que eu vou ficar agora?

“Que faremos?” perguntei, desabando em minha cama.

“A gente tem que acabar com ela.” Ela disse.  “Vou sondar. Ver o que ela vai fazer e te trago um plano!”

E se foi. Eu estava muito irritada para ser coerente e passei o dia com isso na cabeça. Precisava liquidar o inimigo, certo? Isso é o correto! Eu sempre soube que ela gostava dele, eu não sou legal, não sou compreensiva. Quero que ela exploda!

“Já sei o que vamos fazer!” Lara apareceu, me assustando outra vez.

“O que?”

“Vamos contar para o nosso namorado que ela lhe mandou uma carta a ameaçando!”

“Mas isso é mentira, Lara.”

“E daí? Sua palavra contra a de uma desesperada.”

“E isso não me faz uma desesperada também?”

“Quer se ver livre dela ou não?”

“Quero...”

“Então faça!”

“Mas ele vai reconhecer minha letra.”

“Querida, século XXI! Use o computador.”

E eu fiz. Me sentindo uma criança idiota enquanto eu escrevia cada palavra posta ali, me sentindo infantil, desesperada e estupida. Lara ditava quase a maioria delas, acho que aquelas coisas horrorosas eram o que ela pensava de mim.

Marquei de ver meu namorado naquele dia mesmo, numa pizzaria que costumávamos ir.  Ele já estava lá quando eu cheguei com Lara em meu encalço. A carta pesava toneladas dentro do meu bolso.  Eu não conseguia decidir se essa era a coisa certa. Quero dizer, eu não era mais uma criança boba, sabe? Eu não era mais uma adolescente de doze anos que fica armando para cima das outras menininhas.

Eu já havia passado da época dos filmes.

Mas eu não queria ter que me preocupar com ela. Não mais.

Ele sorriu quando me viu chegar. O sorriso de covinhas que eu gostava, Lara suspirou do meu lado. Ela parecia gostar também. Eu sorri também, sem vontade e sem covinhas. Eu me sentia mal por enganar ele. Aquilo não era eu.

Nós jantamos com Lara na volta me pressionando o tempo inteiro.  Mesmo assim foi uma boa janta, com meu namorado. E eu me senti segura, segura de nós, me senti confiante, protegida. Eu sabia que ele gostava de mim, independente da Lara, ou da Camila, ou de quem quer que fosse. Eu sabia que era de mim que ele gostava e enquanto fosse assim, eu não tinha que me preocupar com as outras.

Quer dizer, se ele começar a gostar de outra pessoa, eu não vou ter como impedir.

“Amor, eu já volto.”

“Que você está fazendo?” Lara inquiriu, me seguindo. “O plano não era esse.”

Eu não falei com ela até entrar na cabine do banheiro feminino e trancar a porta.

“Eu não vou entregar aquela coisa ridícula.” Avisei.

“Você vai, sim! Você não quer que ele se afaste dela?”

“Quero. Mas não por causa de um plano idiota.” Eu tirei a carta de meu bolso e joguei dentro da privada. “Você disse que eu estaria agindo igual a você desligando o telefone e o culpando pelos erros dela, e que eu o perderia por isso.” Eu lhe encarei nos olhos, sem medo algum a essas alturas. “Eu vou estar agindo feito você se entregar essa carta, Lara, eu não sou assim.”

Não, eu não era. Eu não sou uma criança, não vou entregar cartinhas. Camila era uma idiota, mas ela estava fazendo a parte dela. Agora quem tinha que decidir se era com ela ou não que ele queria estar, era meu namorado. Ponto final.

Eu não vou enlouquecer feito a Lara.

“E você está agindo como eu agi.” Ela desafiou. “Sendo uma conformista.”

Eu sorri. Eu já tinha pensando nisso. “Eu não vou estar, não. Eu não estou sendo conformista, eu estou controlando meus dramas psicológicos. Sentir ciúmes não vai prender ninguém a mim, Lara. Você nunca entendeu isso. Preferiu ser chata, ficar emburrada, a sair com ele, experimentar as coisas. Você perdeu e eu decido, ele é MEU namorado.”

Eu senti os vidros tremerem e as portas abertas do banheiro baterem. Ok, agora ela estava brava. Droga!

Ok, calma. Psicologia dos cães nela. Encara!

Aos poucos as coisas se acalmaram, ela foi ficando menos irritada, até seu rosto transformar-se em uma carinha triste e seu lábio inferior espichar em um beicinho trêmulo. Ótimo, ela ia chorar.

“Lara...”

“Você não sabe como é péssimo!” ela disse, a beira das lágrimas. “Eu vejo ele com você e eu vejo como ele gosta de você... Ele nem me enxerga! Eu sou invisível para ele, sou uma coisa inútil que nem deveria existir! Quer dizer, eu nem consigo tocar nas coisas.”

“Ah, para. Aquele negocio de tremer os vidros que você faz é bem legal...” tentei a animar. Ela me mandou um olhar assassino.

“Eu só queria uma última chance de tocar nele, sabe? De ganhar um abraço, um beijo... Eu só queria me despedir.”

Mordi meu lábio inferior. Era por isso que ela estava aqui mesmo?

“E por que você não aparece pra ele?”

“Eu já tentei. Não consigo.”

“Eu tive uma ideia...” eu disse, rezando pra dar tudo certo. “É meio idiota.”

Ela me olhou fungando e esperando.

“Ah, você pode tentar... Hm... Quer dizer, você sabe,” eu estava nervosa, não sei se isso é uma boa ideia. “Aquela coisa de entrar no corpo de alguém...”

“Possuir você?” ceticismo pegando hein?

“Assim parece uma coisa horrível...”cocei minha nuca, eu estava me sentindo uma idiota.

“Eu nunca- nunca tentei,” ela disse. “E se não der certo?”

“Desde que você saia de dentro de mim e suma, tudo bem.” Eu ri.

Ela sorriu de canto. “Ok.”

Ela levantou suas mãos e esperou eu fazer o mesmo com as minhas. Foi estranho ver ela ficar cada vez mais próxima de mim, com as pontas dos nossos dedos se tocando. Tocar nela era como comer chuchu, sabe? É uma comparação horrível, mas é como se você soubesse que come alguma coisa, mas ele não tivesse gosto, cheiro ou cor. É quase como tomar água, ou vento; Ok, ela está me embaralhando as ideia.

Minha mão tocou a porta enquanto meu corpo, desequilibrado, tentava buscar apoio. Não era eu quem controlava aquilo ali, eu sabia. Era como se eu estivesse como todos os membros dormentes. Era ela quem estava no comando.

“Você está pronta?” eu ouvi minha voz, mas não eram minhas palavras.

“Acho que nunca estarei.” Resfoleguei.

Ela sorriu, ou eu sorri, sei lá. E saiu. Saímos.

O nosso namorado sorriu quando voltamos para a mesa, ele nos recepcionou com um singelo “Você demorou.”

Eu me vi sorrir de maneira idiota. Definitivamente não era eu.

“Oi!” minha voz falou.

“Oi, amor.” Ele cumprimentou, me estranhando. “Tá tudo bem?”

“Sim, claro, tudo bem.” Eu sorri. E ri. E eu estava fora de mim. Que bom que ele vai me achar uma idiota depois disso.

Minha mão levantou e tocou o rosto de meu namorado. Com adoração. E eu vi o quanto ela gostava dele, gostava mesmo, de verdade. Daquele jeito que se gosta uma vez só na vida.

“Eu sempre gostei dos seus olhos sabia?” ela disse. E eu me senti invadindo a privacidade deles, mesmo que fosse meu corpo e meu namorado...

“Sério?”

“Sim... Eles lembram fim de tarde e início de noite. Quando o céu tem aquele tem de azul escuro, sabe?”

Ele riu e me olhou. “Você me lembrou muito a Lara agora, sabia?”

Em condições normais eu diria que aquela foi uma PÉSSIMA escolha de palavras, mas levando em conta a situação...

Ela riu e estava chorando. Perfeito! Eu vou ser taxada de louca.

“Ai, meu deus! Eu não achei que você choraria por isso. Sei que foi meio idiota o que eu disse, mas...”

“Não, não” ela cortou suas desculpas. “Não. Tudo bem, tá tudo bem agora.” E ela fez a volta na mesa e sentou em seu colo – EM PLENO RESTAURANTE – e o abraçou.  “Tá tudo bem, amor.” E o beijou delicadamente os lábios.

Foi um beijo de tchau. E eu sentia o amargor de suas lágrimas em minha pele, a dor de seu coração no meu. Estávamos muito conectadas naquele instante e eu fiquei muito assustada. Aos poucos, tudo foi sumindo. Só as lágrimas ficaram e eu comecei a sentir outra vez. Aos poucos. Primeiro os dedos, os braços, as pernas, minha cabeça... E os olhares reprovadores a minha volta.

Eu sorri, ficando vermelha e voltando a minha cadeira. Eu não vi a Lara em nenhum lugar depois disso. Ela havia cumprido sua promessa.

“Você está bem, amor?”

Eu concordei com a cabeça. “Um momento de fraqueza.” Sorri de canto.

“Você ficou chateada por eu te comparar a Lara? Eu sei que você odeia.”

Eu ri e arrumei uma mecha de cabelo que caia em meus olhos. “Eu não fiquei chateada, amor. Ela era legal.”

“Era sim.” Ele sorriu. “Você deveria ter conhecido.”

Eu ri disso. Quer dizer, eu gargalhei disso.  Eu conheci... Melhor do que ninguém.

FIM



Notas finais do capítulo

Chegamos ao fim... :( é uma pena, eu amei essa história. Muito obrigada a todas que leram, é mt importante pra mim mesmo! Beijooooos, até a próxima! ♥