Miséria Familiar escrita por Sandra


Capítulo 1
É para o seu bem




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Pov Edward:

Quando eu deixei Bella, eu deixei a maior parte de mim mesmo. Ela era tão pura! Sua gentileza e bondade traziam alegria à minha alma torturada. Mas era justamente por isso que eu não poderia permitir que ela arriscasse a sua vida por mim, por conta de minha existência amaldiçoada. Ou pior ainda, que ela se perdesse em minha monstruosidade. Ironicamente, ela queria exatamente isso. Ela queria se pôr em risco. Ela queria ser como eu.

Ela é um anjo. Como poderia um anjo entender a respeito das coisas infernais? De monstros que deveriam ser meras figuras míticas, em histórias de terror feitas para assustar as mentes dos jovens? Não poderia. Ela não sabia o que estava pedindo. Ela era como uma criança. Ela até andava como uma! Tropeçando em seus próprios pés. Ela era adorável! Como as margaridas no campo, a quem mesmo sem querer, eu poderia esmagar com meus pés. Frágil, tão frágil! Tão efêmera... Como uma bolha de sabão. Em um momento está ali, no outro...

Sua existência requeria tantos pequenos fatores...

Ar nos pulmões, coração batendo, temperatura adequada, salvaguarda de outros humanos... Mas nada se comparava ao perigo que nós mesmos representávamos para ela. Nós, os vampiros. Como meu irmão. Como eu. Foi por isso que eu a deixei. Ela merecia uma chance de uma vida de verdade, com filhos e netos. Sua alma deveria ser preservada, a qualquer custo. Foi por isso que eu suguei o veneno do seu corpo, quando James a mordeu. Ela não poderia se transformar na mesma coisa odiosa que eu era.

Indiferente disso e de todas as minhas certezas acerca de ter feito a coisa certa por ela, era terrível ficar junto a minha família nesses dias. Minha família que sempre foi o meu lugar de repouso, o lugar onde quase eu poderia encontrar paz, agora era meu maior motivo de sofrimento.Era irônico que justo os pensamentos de Rosália, a quem eu sempre detestei, fossem os que menos me feriam nos dias atuais.

Ela não gostava de Bella, achava-a uma idiota por abrir mão de tudo quanto a própria Rosália mataria para conseguir (literalmente). Eu não podia deixar de concordar com ela. Não com a parte de ser idiota, é claro! Bella era apenas demasiado ingênua  para compreender as conseqüências de algo assim.

Apesar desta pequena divergência de julgamentos, eu certamente poderia entender a visão de Rose ao considerar a sua atitude como estupidez. Não tinha eu próprio, durante anos, sentido raiva de Carlisle e de minha própria mãe humana por terem feito isso comigo? Não fosse a convicta crença de Carlisle, de que o que ele fez ao me transformar não era uma condenação compulsória, mas sim a única forma de me salvar (salvar... Há! Como se fosse possível encontrar salvação nesta vida amaldiçoada) eu o teria matado há muito tempo. Mas como poderia eu fazer isso, se tudo o que ele mostrou para comigo foi bondade? Ainda assim, isso sempre foi muito difícil para mim aceitar. Foi o que motivou a minha rebeldia nos anos 30. Na minha cabeça, uma vez que ele optou por me fazer um monstro, então isso era exatamente o que eu seria.

Apesar da decisão tomada, porém, eu não conseguia permitir a mim mesmo tirar uma vida inocente. Assim, optei por matar os criminosos e os seres cujas mentes eram apenas perniciosas. Por tudo isso, eu certamente poderia entender a visão de Rosália com respeito a decisão de Bella de se tornar um dos condenados.

Mas isso é passado. Nenhum valor virá de eu me debruçar sobre os meus erros passados. Assim, voltemos à mente da minha irmã menos querida; mas aparentemente, a única capaz de entender o meu momento.

Rosália, como eu próprio, estava terrivelmente preocupada conosco. Cada um individualmente e com todos, enquanto uma família. Eu nunca quis ferir a minha família. Mas se a escolha ficava entre a segurança de Bella e o bem estar psicológico daqueles a quem eu tinha como meus parentes... Bom, infelizmente não havia uma escolha real nisto. Uma e outra vez, eu sempre escolheria Bella sobre eles, ou sobre qualquer outra coisa.

No que concerne a Rose, entretanto, o ponto nevrálgico era outro:

Doía-lhe particularmente ver o quanto Emmett tinha se entristecido por ter sido obrigado por mim, a deixar Bella para trás. Para Rose qualquer coisa que a tirasse do foco de todas as atenções, era odiosa. Mais ainda quando ela era tirada do foco das atenções de seu próprio companheiro. Não fosse o seu tom ciumento e invejoso, a certeza de Rosália de que eu tinha feito a coisa certa por Bella, teria feito com que seus pensamentos fossem meu lugar de refúgio. Eu ainda visitava a sua mente, especialmente quando a vontade de voltar para Bella quase me dominava completamente. A sua certeza fortalecia a minha e eu confesso que me sentia orgulhoso de ser tão forte e controlado ao ponto de não ceder ao impulso de voltar para a minha menina linda. Eu estava dando a Bella, o que Rosália jamais poderia ter: uma vida normal. Era bom saber-me capaz de fazer a ela este bem.

De fato, se eu acreditasse que tivéssemos uma alma, ficaria ainda mais feliz; porque então, isso só poderia contar alguns pontos ao meu favor, quando eu finalmente abandonasse esta vida e o Todo Poderoso me perguntasse o que fiz da minha existência. Sim, eu realmente tinha planos para a minha morte. Não demoraria muito, em vista do fato de eu ter decidido que não viveria para além dos anos de minha amada.

A única coisa que me desalentava sobre esta decisão, era o impacto que eu sabia que iria ter sobre minha mãe; para todos os fins e propósitos nesta existência; Esme. Ela ainda em sua vida humana sofreu terrivelmente, não bastasse ter sido casada com um homem abusivo que a surrava (e que eu tive o prazer de transformar em minha primeira vítima em meus anos de rebeldia. Sim, tanto quanto eu lamentava profundamente àqueles anos, eu era sincero o bastante comigo mesmo, para dizer que eu adorei sugar o sangue do escroque que tanto a feriu e ver a vida se apagar de seu olhar) ela ainda perdeu o seu único filho, pouco tempo após o seu nascimento. Isso a levou ao suicídio e por conseguinte, à esta existência.

O abandono de Bella a afetou muito mais do que eu supunha. A imagem da minha amada muitas vezes se misturava com a de sua criança. E ela se sentia arrasada por tê-la abandonado. Particularmente, isso me surpreendeu um pouco. Eu pensava que ela fosse sentir mais por Jasper ter saído. Mas este não foi o caso. Para ela, Jasper poderia não estar presente aqui, mas ele ainda era um Cullen. Eles se despediram em bons termos, da mesma forma como eu fiz. Assim, não havia sofrimento verdadeiro a respeito. Ela sentia saudades dele, é claro! Mas em última análise, embora ela jamais fosse confirmar isso, era um alívio tê-lo longe. Na medida em que ele sempre era um motivo de preocupação, não apenas para ela, mas para todos nós. E em meio a tanto sofrimento, ela apenas não sabia se seria capaz de lidar com mais um problema, acima de todos os outros com os quais lidávamos.

Meu pobre irmão torturado. Eu também sentia falta dele, mas concordava que nossa família não tinha mais forças para lidar com mais nenhuma dificuldade, além daquelas com que já estávamos lidando. Por outro lado, eu entendia que para o próprio Jasper, provavelmente era uma boa coisa que ele não estivesse conosco nestes dias conturbados. O pobre homem era perdidamente apaixonado por Alice, e eu tinha certeza que a sua separação o tinha jogado na lona. Mais do que ninguém, eu podia me identificar com ele sobre a perda do seu verdadeiro amor. Obrigá-lo a sentir as nossas emoções, além das suas próprias nestes tempos, seria apenas cruel! E tão monstruoso como eu sabia que o meu irmão poderia ser, eu não lhe desejava mais sofrimento para além do que ele já tinha.  Ele era como eu no final das contas: alguém que não merecia a pessoa por quem se apaixonou e que se apaixonou por nós. Diferente de mim, porém, ele optou por ficar com Alice. Mesmo eu sabendo pelos seus pensamentos, o quão indigno dela ele sabia que era. Apesar de eu saber disso, e de entender que era melhor para Alice que eles tivessem se separado, eu ainda me sentia culpado.

Talvez, se eu não tivesse apoiado a tal festa de aniversário de Bella, os dois ainda estivessem juntos? É claro que isso tudo eram meras especulações. Mas de fato, se eu não tivesse praticamente carregado Bella àquela maldita festa, não haveria o corte de papel, minha irmã talvez nunca tivesse acordado e despachado o meu irmão. Mas então, o que poderia ter acontecido se as coisas se dessem de modo distinto? É claro que eu jamais permiti que Bella ficasse muito tempo em contato com Jasper. Eu sabia muito bem quão volátil ele era. Afinal de contas, eu lhe escutava os pensamentos há anos com especial atenção. Provavelmente o conhecia melhor do que qualquer outra pessoa na face da Terra. Melhor até mesmo que Alice; ela não tinha acesso a sua mente.

Contudo, e se ele cedesse a sua sede enquanto estivesse sozinho com o meu amor? Ou em uma situação em que nós estivéssemos longe demais para o impedir de drená-la? Estremeço a este pensamento. Não! As coisas aconteceram como eram suposto acontecer. Tanto eu, quanto Alice precisávamos acordar e perceber que não importa o quanto quiséssemos, não poderíamos estar com os nossos amados.

Talvez, no final das contas, a minha separação de Bella tenha cumprindo a outro fim, também. Quer dizer, Jasper foi egoísta e não se separou de Alice voluntariamente, vejam no que isso deu: Ela o abandonou. Talvez, eu tenha feito a Bella mais do que um favor, eu a poupei de toda a dor com que Alice foi presenteada ao longo das décadas por Jasper. Ele a decepcionou uma e outra vez. Mesmo que ele não tenha deslizado tantas vezes, era quase diário ele ter o impulso de matar alguém, fazendo com que a pobre Alice tivesse que testemunhar, por meio de suas visões, cada uma das possibilidades de assassinato que passava por sua mente doentia; e isso a decepcionava mais e mais com ele. Se eu ficasse com Bella, certamente o mesmo haveria de se dar com ela. Eventualmente, ela perceberia o monstro que eu de fato era. Ela se decepcionaria comigo. Assim sendo, ao menos ela poderia ter uma imagem boa de mim. Com certeza, ela iria perceber o altruísmo do meu gesto.

E então, uma imagem do rosto de Bella quebrado; logo após eu ter lhe dito que ela não era boa para mim, que eu não a queria; espoca em meus pensamentos. Mas eu fujo desta lembrança. Ela deve saber; em algum lugar dentro de si ela deve saber o quanto eu a amava, o quanto eu a amo. Por Deus, ela não era surda, não é? Nem a idiota que Rosália julga que ela fosse. Eu lhe dizia diariamente que eu a amava. Isso não pode ter sido apagado! Ainda assim, uma pergunta se repetia em meus pensamentos:  Por que ela aceitou tudo tão facilmente? Por que ela não lutou por mim? Ela não me amava? E se ela não me amasse como ela dizia o fazer... Qual deveria ser a minha posição a respeito? Eu deveria ficar contente, correto? Quer dizer, isso facilitaria a ela esquecer-me e seguir em frente vivendo a sua vida humana, da forma como eu quero que ela o faça. Mas a verdade dos fatos, é que tanto quanto eu gostaria de poder dizer que sim, que eu me sentiria feliz por ela, se este fosse o caso. Uma parte de mim ressentia-se disso. Eu quase não pude acreditar no quão facilmente ela engoliu as minhas mentiras. Como dizem por ai, ela as engoliu com bucha, isca e anzol!

Raiva. Raiva me tempera. Ela deveria ter lutado pelo menos um pouquinho por mim. Eu teria lutado por ela. Eu estava lutando por ela e pela sua felicidade a cada segundo que eu passava distante dela. Por que ela não pôde fazer o mesmo por mim?

Bem quando a vontade de destruir algo, apenas para descarregar um pouco a minha frustração, me atingiu a voz mental da minha irmã permeou a minha mente:

“- Acho quer eu poderia organizar de novo o meu guarda roupa completo... Talvez não por cores, mas sim pelos estilos das roupas, de acordo com as principais tendências de moda das décadas. Então, vejamos... Roupas ao estilo disco. Roupas de estilo...”

Pobrezinha dela! Para garantir que ela cumprisse a promessa que fez a Jasper, de não o observar por meio de suas visões; e a promessa que ela fez a mim, de não procurar o futuro da minha amada, Alice estava o tempo todo arrumando o seu armário. Se ela já era obsessiva por roupas antes, agora, ela tinha ascendido a um patamar totalmente novo em sua obsessão. Tudo para impedir a si mesma de visualizar aos seus queridos que estavam tão distantes. Mas ela sofria tanto! Ela sinceramente amava a Jasper e a Bella. Evidentemente, de formas completamente distintas, mas ainda eram tipos diferentes de amor.

À Bella, eu claro poderia muito bem entender porque Alice a amava tanto. Bella era simplesmente encantadora em sua simplicidade. E Alice, que não se lembrava da sua infância, adorava usar Bella como sua boneca viva pessoal. Bella Barbie, Alice assim o diria. Já Jasper... Bom, vamos apenas dizer que a mente feminina é um mistério, mesmo para mim que sou telepata. Não me entendam de modo errado, Jasper tem suas qualidades. Tanto é que eu de fato gostava dele e em muitos aspectos me identificava com ele; ainda assim... Ele era sempre tão problemático... Havia sempre um tom de tristeza e de desespero nele. Alice, pelo contrário, parecia mais uma fada do fogo: trepidante, alegre e absolutamente imparável. Eles eram pólos opostos, e tanto quanto dizem que os opostos se atraem, deixem-me dizer-lhes que: em matéria de relacionamentos, isso absolutamente não é verdadeiro. Vivi mais de cem anos e sei muito bem.

Apesar de tudo e do quão diferentes e inadequados eles eram um para o outro. Alice o ama. E ela sofre demais por até mesmo imaginar o quão abatido Jasper não está, após separar-se dela. O dia em que ela assinou os papéis de divórcio foi um dia muito triste aqui em casa. Esme e Carlisle passaram horas desenhando pequenos círculos em suas costas, consolando-a. Mas Alice estava decidida. Ela entendia que Jasper precisaria de um sentido de finalização, para que a separação dos dois realmente afundasse nele. Eu tinha orgulho de minha irmã, de ela ter conseguido fazer isso! Aquela pequenina era forte como os diabos!

Quanto a Carlisle... Bom, vamos dizer que tanto quanto eu amo o meu pai, ele é precisamente aquele de quem eu mais fujo no momento. Ele apenas não pára de tentar me convencer a voltar para Bella. Ele argumenta comigo dizendo que ela possa estar em perigo. Que o clã de James ainda pode ser uma ameaça a ela. Afinal, em sua maioria, os nômades ou viajam só, ou viajam com seus companheiros. Se Vitória fosse a companheira de James, bem ela provavelmente iria querer vingança. Nossa família é forte, e não está em risco. Se ela vier contra nós, vamos apenas matá-la, da mesma forma como o fizemos a James. Mas se ela for contra Bella... O meu frágil amor não terá como defender a si mesma.

Hoje pela manhã, ele veio fazer mais uma tentativa de me fazer voltar para Bella, batendo nesta mesma tecla. Tanto quanto eu não acho que este argumento seja válido (Afinal, eu não vi nada desta natureza nos pensamentos de Vitória quando a encontrei no campo de baseball. Ademais, eu sei muito bem que Carlisle está me pressionando a voltar, principalmente porque está preocupado com a forma como todos parecemos tristes e quebrados sem Bella conosco, principalmente Esme que dia à dia desliza mais em sua depressão, sem que ele possa fazer nada a respeito. Mas o que é melhor pra Esme, não quer dizer que seja o melhor para a minha Bella. Eu não vou pô-la em perigo afim de curar a minha dor ou a da minha família. Nem mesmo a dor de minha mãe. Bella virá sempre antes de qualquer um e de todos em meu coração), ainda é um argumento a que eu tenho que dar alguma atenção.

É por isso que eu estou fazendo as malas. Com isso pretendo ganhar duas valorosas coisas: livrar-me dos pensamentos depressivos de todos, que só servem para agravar o meu próprio estado psicológico alquebrado e o que é mais importante: a segurança do minha doce Bella. Não. Eu não voltarei para o meu anjo, não quebrarei a promessa que fiz a minha amada. Mas eu vou caçar a víbora da Vitória e garantir assim que ela não seja mais uma ameaça ao meu amor eterno.


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Notas finais do capítulo

Então meninas, espero que tenham gostado disso. Por ora, considerem-no um outtake. Depois, eu pretendo desenvolvê-lo; mas como a prioridade é a fic Recomeçar, esta provavelmente só irá receber novos capítulos quando aquela acabar.