Eternal Flame escrita por bandolinz


Capítulo 22
2x02 - Nenhum Sanguessuga Vai Me Dizer o Que Fazer





Ninguém toca nela, ordenei assim que assumi a forma de lobo.

Através dos pensamentos de Paul, vi Bella agachada em posição de ataque, tentando ultrapassar a fileira composta pelos três lobos à sua frente. Ela não parecia estar de bom humor.

– Saiam do meu caminho agora ou vai sobrar para vocês. – Bella ameaçou com um rosnar.

Paul grunhiu de volta numa sugestão de ataque.

Paul! Ninguém toca nela. Repeti, dessa vez usando o tom do alfa.

Paul gemeu insatisfeito, mas recuou, ainda bloqueando a passagem de Bella, Collin e Jared fizeram o mesmo.

É uma Cullen inofensiva, pensou Embry, correndo poucos metros atrás de mim.

Ela não parece tão inofensiva agora, retrucou Jared, e eu não poderia concordar mais.

Bella aparentava estar completamente fora de controle, com uma fúria que eu só vira estampada em seu rosto uma vez, há muitos anos, quando ela descobriu sobre meu imprinting com Renesmee... Imediatamente eu soube por que ela estava aqui.

Está abrindo exceções ao tratado com muita frequência, Jacob. Sam vai ficar insatisfeito quando souber disso.

Ok, Paul. Vou mandar um cartão com flores para ele pedindo desculpas da próxima vez.

A preocupação de Sam é quanto à proteção das pessoas em La Push. A minha também. E no momento Bella não representa perigo para ninguém. Bom, pelo menos ninguém além de mim.

Quando chegamos perto, me transformei me vesti e caminhei até eles.

– Ah! Ai está você seu vira-lata estúpido! O que você fez com a minha filha?

– Escuta Bella, por que não conversamos sobre isso com calma? – pedi num tom baixo.

– Eu não quero conversar com calma! – gritou.

Ela tentou avançar, mas novamente Paul se colocou no caminho. Bella rosnou para ele e Paul retribuiu.

– Tudo bem, vocês podem ir embora. Eu cuido da Bella.

Embry virou a cabeça olhando para mim, com um ganido contrariado.

Bella respirou fundo e acabou franzindo o rosto por conta do nosso cheiro. Ela esperou enquanto a matilha se afastava, desaparecendo na floresta. Entretanto eu estava bastante certo de que Embry não havia ido muito longe, ainda esperando que Bella perdesse o controle.

Eu e Bella ficamos sozinhos, frente a frente, apenas três metros de distância. Se o plano dela era me atacar, coisa que eu não duvidava e até merecia, aquela era a hora.

– Como você teve coragem de trair Renesmee? – ela foi se aproximando de mim lentamente, eu recuei acompanhando o ritmo dela. – A minha filha! O que houve com o maldito imprinting? Você deveria cuidar dela! Protegê-la. E não magoá-la! – ela agora gritava e eu tinha certeza de que, se pudesse, também choraria.

– Eu realmente não queria que as coisas tivessem acontecido assim, Bella. Acredite.

– É? Pois fique sabendo que ela voltou para casa dizendo que queria ir embora de Forks hoje mesmo. Que nunca mais queria ver você. E sabe de uma coisa? Eu nunca mais quero ver você! – ela me empurrou e eu cambaleei alguns passos para trás caindo no chão.

Bella foi para cima de mim segurando a gola da minha camisa. Prendi a respiração, evitando aquele cheiro ácido, característico dos vampiros, controlando meus tremores e meu instinto de reagir. Ainda que seus olhos dourados ardessem furiosos, ela parecia sob controle. Parecia.

– Eu sei que você já deve ter se arrependido por ter agido como um cachorro estúpido. E os motivos que te levaram a fazer isso...  – ela pensou por um instante comprimindo os lábios, como costumava fazer quando estava contrariada – Eu não quero nem saber. A partir de hoje sou eu quem não quer você perto da minha filha. Já causou estragos demais.

Bella me largou no chão e saiu.

Levantei certo de que algum ancestral meu, quem sabe o próprio Ephiram Black, fora amaldiçoado por todas as gerações seguintes. Por algum motivo inexplicável, a maldição pulou as outras gerações e todas as desgraças resolveram cair diretamente sobre mim. É. Isso explicava muita coisa.

Acordei para o grande, grande dia. Era impossível não lembrar porque – quando não estavam tirando sarro sobre o beijo entre eu e Leah – os garotos do bando não pensavam em outra coisa. Eles estavam exageradamente animados para a festa, para ser mais preciso animados com a idéia de muita comida liberada. Um boato que havia se espalhado era que os Cullen sabiam como dar uma festa, e isso eu sei que é verdade.

Meio dia. Bufei irritado com o tempo que eu havia perdido dormindo. Era verdade que há dias eu não parava para dormir em casa, mesmo assim eu não me sentia bem ficando aqui.

Eu não me sentia bem em lugar algum.

Encarei o retrato na minúscula mesa ao lado da minha cama. Único objeto decorativo no meu quarto, de moldura tão delicada e elegante que ficava completamente deslocado ali. Eu e Renesmee abraçados... Apesar de nunca ter sido muito ligado a essas coisas, lembro de ter gostado tanto daquela foto que a roubei para mim. Dias depois Renesmee me deu o porta-retrato, ostentando o mais doce sorriso, dizendo que, da próxima vez, eu tentasse assaltar uma casa onde os vampiros não fossem dotados de dons sobrenaturais.

Continuei olhando para a foto como se de alguma forma eu pudesse voltar para aquela realidade – onde eu e Nessie éramos felizes juntos.

Os ruídos na cozinha denunciaram que eu não estava sozinho.

– É. Isso me parece bom. – disse Billy, sem muito entusiasmo.

Eu já estava planejando sair pela janela quando ouvi a voz de Charlie.

– Estamos combinados então?

A idéia de sair pela porta da frente, subitamente pareceu interessante.

– Combinados em quê? – inquiri.

– Ah. Oi, Jacob. – ele acenou para mim, as sobrancelhas se unindo – Eu vim oferecer uma carona ao Billy. Para o casamento.

– Então eu fui substituído no cargo de motorista oficial? Droga. Vou precisar procurar um novo emprego...

– Os Cullen não querem que você vá ao casamento, Jacob. – Billy interrompeu.

Levou alguns segundos para eu ligar os pontos. Que os Cullen não me queriam por perto eu já sabia, mas agora eles estavam abertamente deixando de lado qualquer tipo de formalidade? Isso era novidade pra mim.

– Bem, acho que vou ter bastante tempo livre para pensar a respeito. – murmurei.

– Edward disse que você e Leah se beijaram. É verdade? – disparou Charlie, a frase estava mais para acusação do que para pergunta. Ele sacudiu a cabeça como para espantar a idéia – É difícil de acreditar que você faria uma coisa dessas com a Nessie.

Baixei a cabeça assentindo. Pelo visto Charlie não estava mais na torcida para reatarmos. Por que eu não estava surpreso?

Billy pigarreou.

– Não estava de saída, Jake?

Lancei um olhar grato ao velho antes de me despedir de Charlie e sair.

A tarde foi igual a todas as outras – torturante e entediante. Caçar havia perdido toda a graça, agora que eu estava sozinho. Nenhum rastro. Nenhuma distração. Nem mesmo Leah apareceu para me torrar a paciência. Ela andava me evitando desde o beijo...

Leah pode ser dura na queda, mas ela não é ferro, Jake.

Sam? Me assustei ao ouvir a voz do até então afastado Sam em minha mente. Como está Emily?

Ela vem se recuperando, respondeu com notável alívio, mesmo assim não me sinto confortável deixando-a sozinha. Ambos sofremos muito com a perda do bebê. Não é algo do qual você se recupera da noite para o dia, mas estamos lidando da melhor forma que podemos.

Pensei que você estivesse voltando para reassumir sua matilha.

Ele riu.

Os garotos vêem dando trabalho?

Vasculhei minha mente procurando alguma reclamação que eu tivesse a fazer de algum deles, mas a verdade era que não fazia muita diferença ter os garotos de Sam na minha matilha. A dificuldade que tive em aceitá-los foi porque, graças a isso, eu não poderia ir embora com Renesmee. Na situação atual, eles eram o menor dos meus empecilhos.

Sinto muito pela sua garota. Não posso nem imaginar como seria ficar tanto tempo assim longe de Emily.

Não sinta, retruquei. Eu vou dar um jeito na situação antes que ela vá embora. Só não sei como, ainda.

Boa sorte com isso.

Os pensamentos de Sam não eram tão otimistas quanto as palavras que ele direcionara a mim.

Ah, pega leve com a Leah, tá bom? Ela tem estado sozinha todo esse tempo desde que... a mente dele vagou por lembranças nebulosas de um tempo com Leah. Coisas que eu realmente não estava a fim de ver. Er...Você sabe.

Sim, eu sei.

Sam desapareceu da minha mente e eu passei o fim da tarde sentado na beira do penhasco, quebrando minha cabeça para encontrar um meio de me reaproximar de Nessie, sem estragar o plano de Edward.

Já era noite quando eu decidi mandar tudo para o inferno e aparecer no tal casamento só para ver no que dava. Eu não me importaria se os Cullen me expulsassem a dentadas, desde que eu tivesse a chance de vê-la. Eu tinha que procurá-la ou iria enlouquecer.

Fiquei aliviado quando alguns garotos novatos apareceram para fazer a patrulha da noite. Menos um problema pra me preocupar.

Voltei para casa. Ninguém lá. Pelo jeito a sorte estava ao meu favor, Billy com certeza tentaria me impedir se tivesse a chance.

Tomei banho e admito, foi necessário algum esforço para encontrar a roupa que Nessie me dera – ainda na mesma sacola cara, intacta e, é claro, jogada em algum lugar na bagunça do quarto. Mas serviu.

Não era nada parecido com terno e gravata, o que me surpreendeu. Apesar de totalmente fora do meu alcance financeiramente falando, aquelas roupas até lembravam as que eu costumava usar. Nada de botões. Nada de colarinho apertado. Nada de gravatas. Eu não fiquei parecendo um almofadinha, afinal.

Já me considerava preparado para sair e, para o meu espanto ainda tinha algo, que deliberadamente classifiquei como terno, dentro da sacola, o que eu rapidamente descartei. Quando eu joguei a coisa na cama, um bilhete anexado a ela me chamou a atenção.

“Não, Jacob Black, isso não é um terno, nem uma jaqueta. As pessoas civilizadas costumam chamar de blazer. Impressionaria bastante a Nessie se você usasse.”

Alice Cullen

Sorri.

– Ok, baixinha... Espero que você esteja certa.

– Edward vai me matar quando souber que eu te trouxe aqui. – Seth lamentou batendo a cabeça no painel de controle.

– O carro é meu, então, tecnicamente, eu trouxe você aqui.

– Rá. Que engraçado Jake.

– Diga que foi uma ordem alfa.

Ele franziu o cenho para mim.

– Ninguém mente para o Edward.

– Ah, é claro. Ninguém engana o senhor sabe tudo.

Saímos do carro e caminhamos na direção do local da festa, minhas mãos tremiam, dessa vez não de raiva.

Entrei sem problemas. Afinal, eu estava com o filho da noiva, não estava? Vou ficar devendo essa ao Seth eternamente.

– É o casamento da minha mãe, então, por favor, vê se não arruma confusão.

– Aham. – murmurei com descaso, examinando o ambiente, procurando por ela.

Eu não seria o cara que iria começar a briga, mas hoje eu vou falar com Renesmee, custe o que custar. Se for preciso causar alguma desordem para isso, por mim tudo bem.

O lugar era novo para mim. Havia uma recepção ao ar livre, com mesas decoradas, um balcão com um garçom preparando as mais variadas bebidas, algumas pessoas bem vestidas circulando e socializando por ali. Ninguém conhecido.

O salão de festas mais a frente, por outro lado, parecia cheio o bastante. O cheiro de vampiros, lobos e humanos se combinando de um modo, no mínimo, inusitado, me chamou a atenção. E foi para lá que eu caminhei.

Nesse momento, dentre aquela multidão para a qual eu não dava a mínima, ela surgiu. Provavelmente já sabia que eu estava ali. Àquela altura, todos os Cullen deveriam saber.

Renesmee parou na porta do salão de festas, seus olhos percorreram o jardim ansiosamente, não demorou muito para eles pousarem diretamente nos meus.

O resto do mundo pareceu congelar, afastando-se de nós e, por um segundo, eu juro que esqueci todas as coisas horríveis que haviam ocorrido entre nós nos últimos dias. Tudo que eu via diante de mim era a mulher que eu amava. O ar voltando a fluir depressa pelos meus pulmões, como a própria vida voltando a fazer sentido. Meu coração acelerando no desejo de envolvê-la em meus braços e nunca mais soltar. Tão arrebatadora. Tão inacreditavelmente perfeita. Era simplesmente impossível não amá-la.

Li as emoções que iam passando pelo seu rosto. Choque, incredulidade, esperança, desilusão, dor, e logo tudo se resumia apenas em raiva.

Quis de algum modo mostrar para ela que era apenas eu, o Jacob de sempre. Sinalizar que eu viera em missão de paz, não para magoá-la de novo.

Como nenhuma idéia ou palavra passou pela minha cabeça. Talvez reagir com o primeiro impulso que me ocorresse fosse a melhor saída. Acabei sorrindo, o que sempre foi minha reação natural ao vê-la, entretanto, inexplicavelmente aquilo a irritou ainda mais. Nessie disparou para dentro do salão.

Eu a segui. Emmett surgiu bloqueando a passagem.

– Você não tem mesmo amor à vida não é vira-lata? Aparecer aqui depois do que fez com a Nessie...

– A menos que você queira um lobo gigante como atração na sua festinha, é melhor sair do meu caminho agora. – grunhi irritado por ter perdido Nessie de vista.

– Deixa isso comigo, Emm. – disse Edward, num tom formal e calmo, parando ao lado do irmão.

Emmett trocou um olhar incerto com Edward e depois se afastou.

– Eu estou falando sério, se não me deixar falar com a Nessie, vou tornar esse casamento inesquecível e não em um bom sentido.

– Não sou eu quem está impedindo. – ele murmurou dando de ombros. – Renesmee não quer falar com você.

– Bem, isso é o que vamos ver. – dei um passo à frente, Edward me bloqueou segurando meu ombro e eu me esquivei do toque dele, voltando para onde estava.

– Façamos o seguinte, você espera até a cerimônia acabar, depois...

– Não vai se ver livre de mim assim tão fácil.

– Tudo bem. Tem cinco minutos para conversar com Renesmee antes que a cerimônia comece. Cuidarei para que Bella não interrompa.

– Quem garante que esse não é só mais um dos seus truques?

– Sem garantias. Isso é o máximo que eu posso oferecer no momento.

Encarei a fileira de vampiros parados no altar, todos nos observando. Charlie, com o rosto vermelho de raiva, estava ao lado de Bella. Ela estava de braços dados com ele, não sei ao certo se para contê-lo, ou conter a si mesma. E tinha Billy, em sua cadeira de rodas, ocupando o lugar de padrinho, me olhando com desaprovação.

– Ok. – bufei.

Edward deu um passo para o lado liberando a passagem. Dei a volta no local até chegar à porta no canto esquerdo do altar. Girei a maçaneta e entrei. Respirei fundo, captando aquele perfume que tanto me fizera falta.

A sala era pequena e quase não tinha mobília. Apenas um sofá e um balcão com um espelho gigante preso à parede. Nessie estava parada diante do espelho, cabeça baixa, as mãos apoiadas firmemente sobre o balcão.

Contraí e relaxei as mãos um par de vezes sem saber por onde começar. Poder vê-la já era um bom começo, mas o que mais eu poderia pedir, além disso? Exatamente agora, ela tinha todos os motivos do mundo para me odiar.

– O que veio fazer aqui, Jacob? – perguntou sem me olhar, a voz fria como o gelo. Eu posso estar delirando, mas tive a impressão de que ela usou certo tom de desprezo ao falar meu nome.

Ouvir toda aquela aspereza direcionada a mim doeu mais do que qualquer ferimento físico que alguém pudesse me infligir naquela festa.

– Er... Eu só queria saber como você está.

Finalmente Renesmee ergueu o rosto, me encarando pelo reflexo no espelho. Os olhos dela ardiam de rancor e incredulidade, mesmo assim, aquilo não disfarçava toda a dor que ela estava sentindo. O sofrimento dela ecoava em mim duas vezes mais forte. Por que era minha culpa ela estar assim.

Tive o ímpeto de abraçá-la e cobri-la de beijos implorando perdão, mas Renesmee parecia tão pétrea e indiferente que poderia muito bem não passar de uma projeção no espelho. Completamente fora do meu alcance.

Então tudo o que fiz foi fitá-la, sem nada dizer.

– Como eu estou? Bem, eu te digo como eu estou. Eu estou aos pedaços e ainda assim, continuo quebrando cada vez que você aparece. Minhas noites são repletas de pesadelos, mesmo que eu não esteja dormindo. – a voz dela falhou por um momento, mesmo assim continuou – Minha família inteira está prestes a morrer e eu coloquei todos eles em risco por sua causa! Que obviamente não deu a mínima. Se era isso que queria, eu te dou os parabéns, por que você realmente me atingiu em cheio dessa vez.

Cada palavra dela me acertou como um punhal afiado. Tentei não deixar transparecer, mas fiquei tão arrasado que duvidava das minhas chances de sucesso.

– Essa nunca foi minha intenção, Nessie. Sabe que você era a última pessoa que eu queria magoar.

– Mas magoou. Muito. E se o plano era se exibir com sua nova namorada, já pode ir embora. – completou ácida.

– Não estou namorando a Leah. – adiantei em minha defesa.

Ela estreitou os olhos.

– Sobre o beijo... – comecei incapaz de imaginar alguma explicação, uma vez que eu não podia contar a verdade – Eu não queria ter feito aquilo.

– Eu também não queria que tivesse feito. Mas você fez, não foi?

O silêncio preencheu a sala com tamanha velocidade que parecia arranhar as paredes. Eu me sentia sendo lentamente corroído por dentro, me deixando vazio. Acompanhado apenas por meu próprio desespero, é claro. Eu já estava perdendo-a.

– Escuta Nessie, as coisas não precisam ser assim. – falei abruptamente me aproximando dela – Só porque terminamos não significa que eu vou fugir, me esconder, namorar a Leah ou qualquer outra bobagem que você esteja imaginando. Eu estou aqui pra encarar as consequências da escolha que nós fizemos juntos. E estarei ao seu lado quando os Volturi vierem.

Parei poucos centímetros atrás dela. Incerto dos limites que estava prestes a ultrapassar, antecipando a sensação maravilhosa de ter a pele de Renesmee em contato com a minha outra vez. Seu perfume me atraindo como um feitiço... E de repente não pareceu tão errado colocar minha mão sobre a dela.

– Não precisa enfrentar isso sozinha. – sussurrei quase em transe.

– Não toca em mim. – advertiu ela esquivando-se agilmente.

Suspirei frustrado, amaldiçoando Edward mentalmente com cada xingamento que pude recordar.

– Não quero você do meu lado, será que não entendeu? Eu quero mais é que você desapareça de vez da minha vida, seu cachorro arrogante!

– Eu vou ficar e lutar, você querendo ou não. – anunciei.

– Pra que? Pra me atormentar ainda mais? Apenas vá embora, Jacob.

– Não sou esse monstro que você está tentando acreditar que eu sou.

– Adivinha só, eu não precisei tentar. Você mesmo fez questão de provar isso. Mas quer saber? Foi melhor assim. Descobrir quem você realmente era antes que fosse tarde demais. E eu não quero a sua ajuda. Não quero nada que venha de você. Prefiro morrer nas mãos dos Volturi a deixar você encostar um dedo em mim outra vez.

– Está mentindo. – afirmei puxando-a pelo braço para perto de mim.

– Como se atreve? – arfou. Os expressivos olhos castanhos me encarando com espanto e ira, os lábios perfeitos entreabertos formando um convite tentador.

Passei um braço ao redor da sua cintura, segurando-a firme perto de mim.

– Não adianta fingir que não sente nada por mim. Seu coração já está acelerado.

– Sinto sim! – grunhiu, tentando se libertar – Ódio! Nojo! Desprezo! Uma vontade imensa de te matar...

Antes que Nessie dissesse mais alguma besteira, colei meus lábios nos dela, beijando-a com urgência. Foram segundos no paraíso. Ainda que Renesmee estivesse oferecendo alguma resistência, era ela, a mulher que eu mais amava no mundo, finalmente de volta aos meus braços...

Mas durou tão pouco.

Renesmee me empurrou com força o suficiente para me afastar, mesmo contra minha vontade. A próxima coisa que vi foi apenas sua mão voando na direção do meu rosto. Descobri que Nessie nunca usara sua verdadeira força nos tapas que me dava de brincadeira. As tapas dela, em geral, apenas me faziam rir, mas essa doeu pra caramba.

– Nunca. Mais. Faça isso de novo. – sibilou entredentes – É bom se preparar, seu vira-lata prepotente, pois acabou de comprar guerra com a vampira errada. Juro que vou fazer dos seus últimos dias de vida um inferno.

Renesmee passou por mim como um furacão, saindo da sala. Fiquei surpreso por não haver uma estrondosa batida de porta. Mas é claro, nada que preocupe os ilustres convidados.

Merda de vida.

A marcha nupcial começou a tocar. Aproveitei o momento para sair, porque sabia que todos estariam ocupados demais admirando a noiva para sequer me notarem. Passei pelo salão lotado sem nada ver. Nada de Renesmee, nada de Charlie, nada de Sue, nem mesmo um cara em quem eu esbarrei e que provavelmente caiu sentado no banco. Eu estava transtornado demais para notar qualquer uma dessas coisas.

Atravessei o jardim vazio e sentei numa cadeira alta desabando sobre o balcão. Mas que diabos eu estava fazendo? Depois de destruir todas as minhas chances de reconciliação com Nessie, era mais do que estupidez pensar que eu chegaria aqui, abriria um sorriso arrebatador e ela viria correndo de volta para mim.

Talvez ela estivesse certa. Talvez eu merecesse mesmo sofrer, amargando meus últimos dias, e deixar que os vampiros italianos me pegassem de vez.

Mas isso seria útil? Duvido.

– Gostaria de um drinque, senhor?

Levantei a cabeça devagar, encarando o garçom, de cara fechada.

– Se me permite a observação, você realmente parece estar precisando. – disse ele, com ar de confidência, enquanto enchia um copo.

Mil respostas rudes atravessaram minha mente, havia até um soco incluído em alguma delas. Mas para o meu próprio espanto, apenas respirei fundo e estendi a mão na direção do copo.

– Claro, claro. Por que não?

O primeiro copo foi fácil. Logo veio o segundo, o terceiro e a partir daí eu parei de contar.

– Ora, ora. Olha só quem não pôde ficar longe. – Leah disse, sentando ao meu lado. – Onde conseguiu o terno?

– Blazer. – corrigi tomando a garrafa da mão do barman e enchendo meu próprio copo. – Onde conseguiu o vestido?

Ela deu de ombros.

– Sue cuidou disso pra mim.

– Porque não está lá na festa?

– Ao contrário de você, eu não curto automutilação. Esse casamento é a pior coisa que poderia ter me acontecido. – resmungou, gesticulando para o garçom trazer um copo para ela. – Só estou aqui por que Sue me tiraria do testamento caso eu não viesse. – brincou.

Meus olhos vagaram para a porta, procurando algum vislumbre de Nessie.

– Sabe que vai precisar de dezenas desses para se embriagar. Com o metabolismo acelerado que nós temos... – Leah explicou, erguendo um copo.

– Ótimo. Não tenho pressa.

Bebemos em silêncio. Em pouco tempo, Leah deixou a taça dela de lado, mas eu continuei firme em meu propósito, imaginando se ela estava certa sobre a coisa do metabolismo. Um lobisomem bêbado. Isso seria engraçado.

– Jake, – Leah chamou num tom reflexivo que de cara não gostei – sobre aquele dia... Esquece tá? Sei que ando me escondendo. Eu não queria que você soubesse o que se passava aqui. – apontou para a própria cabeça. – Você é o único, que ainda me atura fora o Seth, mas ele não conta, óbvio. Não queria estragar isso.

– Então não estrague.

– Bem que eu queria. Mas depois daquele beijo não consigo deixar de imaginar...

– Não Leah, por favor, não. – cortei, abominando o rumo daquela conversa.

– Bom, tanto faz. Acho que você já sabe o que está acontecendo aqui, de qualquer forma. Pense nisso como um plano B. Para quando ela for embora.

– Sabe que é perca de tempo. Eu amo a Nessie. Sempre vou amar.

– Claro, o imprinting. Isso já está ficando batido. Mas e se você não...

– Não existe nenhum ‘se’, Leah. – rosnei perdendo a paciência. – As coisas são do jeito que são. E eu acho que, dando a mim mesmo a chance de conhecê-la, eu terminaria amando Renesmee com ou sem imprinting.

– Presta atenção, garoto, eu não sou nenhuma dessas garotinhas que você está acostumado a lidar. Não estou pedindo que me ame. Aliás, quem aqui disse que eu gosto de você? Tenho consciência que você foi irreversivelmente danificado como eu fui. Estou falando de um tipo de relação mais madura. Nós nos damos bem, poderíamos aproveitar os benefícios disso. – Leah lançou um olhar rápido para o garçom e completou quase com um sussurro – Bem, conversamos depois.

Observei boquiaberto enquanto Leah se afastava. Me perguntando se ela estava mesmo me propondo o que eu achava que ela estava. Ela era uma mulher linda, e seria de fato uma oferta tentadora em outra época, em outra vida. Mas não quando eu tinha Renesmee, que mesmo estando completamente fora do meu alcance, era a única garota que eu era capaz de desejar.

A cerimônia acabou e aos poucos os convidados voltaram a preencher o jardim com seus risinhos irritantes e conversas inúteis.

Nessie também saiu. Ela parecia saber exatamente onde eu estava porque era apenas para mim que ela não olhava enquanto desfilava entre aquela multidão de estranhos. Mesmo assim, continuei ali, gravando cada imagem, cada gesto, cada movimento que ela fazia.

– Senhor, eu sinto lhe informar que acabou o uísque. – argumentou o garçom quando eu lancei um olhar reprovador para meu copo vazio.

– E você não tem mais nada aí? Até parece que os Cullen deixariam algo faltar na festa deles. Aquela nanica tem mania de perfeição. – resmunguei.

– Temos vodka, senhor. Mas não é uma boa idéia misturar.

– Me passa logo essa garrafa. ‘Metabolismo acelerado’ esqueceu?

– Não sabia que tinha um fraco por bebida, Jacob. – uma voz límpida e familiar soou atrás de mim.

– Pois é Bella, parece que estamos descobrindo muitas coisas essa noite. – respondi sem tirar os olhos do copo – Eu, por exemplo, não sabia que você era tão boa atriz. Pode deixar a cortesia de lado e me colocar para fora. Sei que isso é o que todos estão esperando.

– É o que você está esperando? – ela riu sem humor parando ao meu lado – Francamente Jacob, já que fez questão de vir, fique o tempo que quiser, mas certifique-se de que terá alguém para deixá-lo em casa se continuar bebendo assim.

– Claro, claro. Bella sempre preocupada com o bem estar e a segurança de todos. – ridicularizei.

Ela me olhou com severidade por alguns segundos.

– Faça o que bem entender, mas não envolva minha filha nisso. Renesmee já passou por coisas o bastante para você querer causar mais problemas a ela, não acha?

Trinquei os dentes a fim de evitar aquele assunto. As mágoas que eu estava causando em Renesmee eram tudo no que eu conseguia pensar, não precisava de ninguém para me lembrar disso.

Como eu não disse nada, Bella se afastou. Gastei mais algum tempo ali, acompanhado apenas pela vodka, o barman já havia desistido de ser simpático comigo, se limitando apenas a colocar uma nova garrafa no balcão cada vez que eu secava a anterior.

– Hora de zarpar, marinheiro. – bradou Leah batendo no meu ombro.

– Você estava certa. – disparei.

Ela uniu as sobrancelhas, provavelmente se perguntando sobre o que eu estava falando. Parecia bem óbvio pra mim. Como ela estava lenta hoje.

– Sobre o metabolismo. – expliquei de má vontade. – Estive aqui bebendo a noite toda e... – levantei as mãos teatralmente – NADA.

– Parece que o seu “nada” – ela fez as aspas com os dedos – resultou em alguma coisa. Vamos. Eu te levo para casa.

– Não preciso que faça isso. – falei levantando repentinamente e, cara, tudo rodou.

Precisei me segurar no balcão para me manter de pé. Minha visão ficou turva e por alguns segundos a única coisa que me conectava ao mundo real era a risada irônica de Leah.

– Olha só para você garoto, mal consegue ficar de pé. – ela riu.

Levou um instante até que eu recuperasse o domínio do meu corpo, ainda assim eu me sentia estranhamente leve. Meus sentidos embotados, coisa que não me agradou nenhum pouco. Pela primeira vez em quase uma década eu me senti fisicamente vulnerável.

– Ok. Talvez você deva dirigir até minha casa. – bufei.

Ela estendeu a mão erguendo uma sobrancelha à espera das chaves do carro, uma sugestão de sorriso no rosto. Por alguma razão, tive medo, entretanto cedi as chaves para ela.

– Quão ridículo isso parece? – resmunguei atravessando o salão, encarando fixamente a porta de saída, aquilo parecia ser a única coisa estável por ali.

– Não se preocupe. Para eles você é só o ex-namorado que levou o pé na bunda e não sabe lidar com isso.

– Rá. Me lembre de pegar emprestado teu manual de como superar um pé na bunda quando chegarmos em La Push.

– Isso se eu não te largar na estrada antes.

– Você deveria tentar – zombei.

Nessa hora eu meio que tropecei, meio que esbarrei em alguma coisa. Franzi o cenho olhando pra baixo, demorou alguns segundos até o rosto pálido ficar nítido.

– Alice? – balbuciei desnorteado.

– Deveria olhar por onde anda Jacob. – disse ela com um sorriso presunçoso. – Espero que esteja sóbrio o suficiente para se lembrar disso amanhã.

Ela deu duas batidas leves no meu peito e se afastou numa dança.

Empaquei no meio do caminho processando o comportamento dela. Havia algum tipo de aviso ali, um código que eu não estava conseguindo captar.

Leah puxou meu braço com um solavanco e todas as idéias rapidamente dissiparam.

Enquanto eu era arrastado até a saída, capturei o olhar de Renesmee, mesmo de longe pude notar que ela estava bastante inquieta, acompanhando meu trajeto sem sequer disfarçar. Só aquele breve momento fez a noite valer à pena. Mesmo não querendo dar o braço a torcer, Nessie ainda se preocupava comigo. Não havia como negar, estava estampado no rosto dela.

Eu já estava quase sorrindo, confortado pelas minhas próprias conclusões quando eu e Leah saímos da festa e entramos no carro.

– Ei, não posso deixar o velho pra trás.

– Eu já cuidei disso. – Leah suspirou como se estivesse repetindo aquilo pela milésima vez – Seth vai deixar Billy em casa, com o carro do Charlie.

Ela usou uma camaradagem relutante ao falar de Charlie e foi aí que a ficha caiu. Eu ri alto.

– O que foi? – grunhiu.

– Você... Você e a Bella são meio que irmãs agora. – falei entre risos.

– Não vejo a graça disso.

– Bem, eu vejo. Levando em consideração o modo como você a detestava e tudo mais.

– Eu ainda detesto. – murmurou enquanto ligava o carro. – Tanto faz. Logo, logo ela vai embora e isso não vai fazer diferença alguma.

De repente tudo ficou silencioso e o breve lapso de diversão desapareceu da minha mente. Logo, logo Nessie estaria indo embora, e o fato de não ser ela quem estava ao meu lado agora deixou tudo vazio dentro de mim.

Felizmente, Leah percebeu o comentário infeliz que havia feito e teve o bom senso de ficar calada até chegarmos à minha casa. E quando chegamos, eu não estava exatamente passando mal, mas digamos que o movimentar do velho Rabbit no terreno irregular não estava me fazendo nenhum bem.

– Valeu pela carona. – falei mecanicamente batendo a porta do carro. O único pensamento que eu conseguia formar era o quão maravilhoso seria me jogar na cama agora e dar um fim nesse dia.

Cama. Cama. Cama. Eu repetia para mim mesmo tentando encorajar minhas pernas a darem o próximo passo.

– Hey, Jake! Espera. Te acompanho até em casa.

– Ah! Qual é? – protestei, sem interromper meu rastejar.

– Sinto muito se estou te chateando, Jacob, mas não vou te largar nesse estado. Você claramente não está bem. – disse ela, caminhando ao meu lado. Tentei captar uma nota de provocação, e fiquei surpreso ao constatar que não havia nada além de preocupação em sua voz.

– Ok, Leah. Vá para casa. Não é como se eu estivesse prestes a fazer algo estúpido como vomitar...

E como se fosse praga, mal tive tempo de terminar a frase e já estava colocando metade do que bebi para fora.

– Antes aqui do que lá dentro não é? – Leah suspirou num tom de camaradagem enquanto esperava pacientemente eu me recompor.

Limpei a boca com as costas da mão.

– Sério, por que está sendo tão legal comigo? Não precisa fazer isso.

– É, eu sei. Mas nós somos amigos não somos? Quero dizer, ainda estou tentando promover uma trégua aqui. – acrescentou de boa vontade – E tenho certeza de que você faria o mesmo por mim.

Bom, eu não teria tanta certeza assim.

Como eu estava cansado demais para prolongar a discussão, deixei que Leah me levasse até o quarto, me ajudasse a tirar meus sapatos, boa parte das minhas roupas e me empurrasse para um banho gelado. Meu corpo seminu não era novidade nenhuma como ela mesma fez questão de lembrar. Ainda assim, ter esse contato direto com ela era meio assustador, meio embaraçoso. Embora meus sentidos estivessem defasados, eu estava bastante convicto de que Leah, sozinha comigo, no meu banheiro, com álcool demais e roupa de menos, não estava certo.

– Ok. Nós definitivamente paramos por aqui. – apoiei o braço na fachada da porta, bloqueando a passagem dela.

– O quê? Acha que eu vou me aproveitar de você? – ela cruzou os braços erguendo uma sobrancelha.

– Francamente? Sim. Qual é Leah, você não estaria sendo tão gentil assim em troca de nada.

– Pode não parecer, mas eu ainda tenho um pouco de dignidade que eu pretendo manter. E quando eu falo dignidade, isso inclui não agarrar qualquer bêbado carente no chuveiro. Se enxerga, Black.

Respirei fundo, perdendo a paciência. Meu corpo e mente estavam esgotados demais para aturar mais um minuto de Leah, por mais dignas que as intenções dela fossem.

– Só um aviso, estou entrando nesse banheiro agora e não quero te ver aqui quando eu sair. Entendido?

– Você é patético, garoto. – bufou enquanto eu batia a porta na cara dela.

Tive que me esforçar para tirar o sorriso maldoso do meu rosto à medida que eu imaginava o quanto minha atitude a havia irritado. Eu esperava que o bastante para que eu não precisasse ver Leah nos próximos cinco dias. Era um pensamento infantil, admito, mas não pude evitar.

Me obriguei a ficar debaixo da água gelada por longos minutos, esperando que isso levasse o mal estar e o torpor embora, mas foi inútil. As noites que passei em claro cobrindo o turno dos outros garotos na matilha pareciam cair como uma avalanche sobre mim, e no exato momento pesava bastante.

Exausto, vesti um moletom velho e desabei na cama de barriga para cima. Não foi necessário nada além de três segundos para eu apagar de vez.

Eu poderia já estar sonhando, mas tive a nítida impressão de que um toque tão macio e suave como seda acompanhava os traços do meu rosto. Um toque caloroso. Meu cérebro entrou em alerta de imediato, mas meu corpo se recusava a responder. Eu não conseguia apurar o cheiro, tampouco obrigar meus olhos cansados a se abrirem.

O colchão se movimentou como se alguém mais estivesse subindo na cama e ficando sobre mim. Uma breve respiração quente veio de encontro ao meu rosto e uma mecha de cabelos finos e macios caiu sobre mim.

Tudo bem, aquilo estava real demais para ser um sonho.

– Leah, dá o fora. – murmurei ainda evitando despertar de vez.

Um riso abafado e perigosamente próximo do meu rosto foi a única resposta que obtive.

Abri os olhos disposto a arremessar Leah do outro lado da rua, apenas por atrapalhar minhas poucas horas de descanso. Mas ao invés disso, paralisei ao dar de cara com Renesmee.