Castlecalibur ou Soulvania (reeditado) escrita por TriceSorel


Capítulo 2
PARTE 2: a história de Amy e Rafael





         Mathias, Rafael e Amy sentaram-se à mesa enquanto Jean-Eugène foi pesquisar o que seria necessário para limpar as paredes e o teto. Mathias colocou as xícaras e pires na mesa, com colherzinhas.

         - Mas me conte, Rafa... o que os traz até essa terra abandonada por Deus? – perguntou, servindo chá de boldo aos convidados.

         - É uma longa história. Mas basicamente eu tive que fugir da minha cidade natal, onde vivia no palácio da minha família... eles me acusaram de assassinato e meus próprios parentes me perseguiram tentando me matar!

         - Mas você era culpado?

         - Não. Foi tudo um acidente...

         FLASHBACK

         França, oito anos antes...

         Rafael estava sozinho no grande salão de seu palácio treinando movimentos com a espada. Como sempre, fazia parte do seu treino firulado e cheio de gueri-guéris mesclar movimentos de ataque e defesa com passos de dança. Movia-se como uma borboleta dançarina flutuando pelo piso do salão rodopiando e investindo com a espada, sapateando e batendo palmas, como uma bailarina tchaicovskiana.

         Tinha na mão esquerda a espada, que manejava canhotamente, enquanto a direita fazia movimentos ondulares como uma dançarina espanhola. Foi então que a porta do salão abriu-se repentinamente e o leiteiro entrou desavisado.

         Desapercebido, Rafael acabou deferindo um golpe na direção do leiteiro que, no susto, jogou todas as garrafas de leite para o ar. Elas todas voltaram contra o chão e se espatifaram em incontáveis fragmentos. Mas o golpe por um milionésimo de centímetro não atingiu o malfadado leiteiro.

         - Ah! Me perdoe, monsieur Leiteiro! O monsieur está bem?

         - Ah, sim, seu Rafael. Estou bem... mas não foi culpa sua, fui eu que entrei sem bater!

         - Eu junto as garrafas de leite... – dispôs-se Rafael, indo em direção ao desgraçado leiteiro, que também foi em frente para juntar o leite.

         - Ó, não, seu Rafael, deixe isso comigo e... argh!!

         No intuito de limpar o leite derramado, o moribundo leiteiro foi de encontro com a afiada lâmina da espada de Rafael, que a trazia em punho enquanto também pretendia limpar o leite.

         - Ó não! Eu matei o leiteiro! – lamentou Rafael.

         Foi quando toda a família dele e parte da cidade entraram no salão com tochas e tridentes na mão.

         - ASSASSINO!! – gritavam uns.

         - Pega pra capar! – gritavam outros.

         Então, todos começaram a perseguir Rafael que, no desespero de fugir, só conseguiu juntar algumas dezenas de peças de roupa, alguns livros antigos manuscritos autografados, uma meia dúzia de espadas, um CD da Lady Gaga, alguns baús com moedas de ouro e diamantes e mais uma parte da herança da família e partiu com seu fiel criado, Jean-Eugène.

         Como a mobília deixava a carruagem muito pesada, eles logo foram alcançados pelos perseguidores, e Rafael foi forçado a sair da carroça e correr para um beco da cidade.

         - Ó, estou morto! Se me pegarem, será o meu fim! – exclamou, percebendo-se em um beco sem saída.

         - Por aqui, moço... – disse uma menininha ruiva e maltrapilha, de uns sete anos de idade e remela no olho, apontando para um buraco no chão.

         Rafael engoliu seu orgulho e seu medo de aranhas e formigas e meteu-se no sugismundo esconderijo, onde esperou até seus perseguidores se afastarem. Depois saiu e foi agradecer à menina.

         - Ó, muito obrigado, nobre ser! Qual é o seu nome e como posso agradecer?

         - Meu nome é Amy...

         - Amy do quê?

         - Só Amy... eu não tenho sobrenome... nem casa... nem família... nem roupas limpas... nem um pai amoroso para me carregar nos braços e me dar um pônei de aniversário!

         O instinto paterno de Rafael, na época com 24 anos, despertou como um urso que hiberna por muitas e muitas eras em uma região polar de gelo eterno, mas levanta com o vigor de um leão albino em seu mais puro sentido de preservação da espécie e proteção do mais fraco. Com lágrimas nos olhos, Rafael tomou a decisão mais difícil de sua vida.

         - Pequena Amy... por favor, queira aceitar como mostra de minha eterna gratidão... – disse ele, com uma pausa dramática. - ...esse singelo CD da Lady Gaga.

         Jean-Eugène jogou uma pantufa de ouro na cabeça de seu jovem mestre e depois exclamou:

         - Não é isso, seu pateta!! Você tem que levá-la conosco e adotá-la! Ela não tem sobrenome, pode chamá-la de Amy Sorel.

         - Amy Sorel! – exclamou Rafael. – Você gosta? – perguntou ele à menina.

         - Mais ou menos... prefiro Amy Pitt Depp Cruise Banderas, mas Amy Sorel serve, também. Na falta de algo melhor.

         - Então está decidido! A partir de hoje, você será minha filha! – disse ele, tomando a menina nos braços.

          Os três então fugiram com a fortuna da família para o sul da França.

         FIM DO FLASHBACK

= De volta à sala do chá das cinco de Castlevania... =

         - Ó, que história comovente! – comoveu-se Mathias, comovido.

         - Sim... chuif! – lacrimejou Rafael.

         - Ah, qualé, aí... essa história até já perdeu a graça, falou? – reclamou Amy.

         - Tá, mas por que vocês fugiram do sul da França? Não conseguiram formar um lar adorável lá? – perguntou o vampiresco rapaz, bebericando seu chá de boldo.

         - Ah, sim... vivemos muito felizes lá até o começo desse ano. – contou Rafael. – Do nada começaram a surgir rumores na cidade de que eu e Amy éramos vampiros! Isso só porque nos viam sair à noite. Mas é que a Amy começou a se interessar por essas festinhas noturnas de criança, sabe?

         - Qualé, aquilo se chama rave, sacou? – corrigiu Amy.

         - Pois é, e eu não podia deixá-la ir sozinha... e como voltávamos tarde, acabávamos dormindo até muito tarde. E também a Amy cismou que passar essas maquiagens pseudo-góticas que deixam o rosto muito branco era moda, e ouvia Evanescence a noite inteira... ela pediu que criassem boatos a nosso respeito!

          - Espera! Vampiros não gostam de Evanescence! – admirou-se Mathias. – E nem usam roupas estilo gothic-lolita!

         - Vampiros nem existem! Eu desconfio que foi a Stephanie Meyer que inventou esse boato todo... – desabafou Rafael.

         - Que absurdo! E o Bram Stoker? E a Anne Rice?! Eles captaram muito melhormente a essência de um vampiro!

         - Mas vampiro é um ser criado para assustar crianças, como zumbis, esqueletos, lobisomens, fadas, unicórnios, trasgos, golens, bicho-papão, Papai Noel, boneco assassino, fantasmas... Eles não tem essência! Eles não existem!

         - Como pode ter certeza?

         - Eu li na Wikipédia. Nossa, esse chá tá gostoso, mesmo...

         Com isso a conversa mudou de foco. 





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