O Pedido escrita por Laarc


Capítulo 30
A história de uma donzela ao resgate


Notas iniciais do capítulo

Narração
"Diálogo"
'Pensamento'



Os ponteiros do relógio não paravam. E o tempo corria.

Mas o sono que ela tanto desejava não vinha.

E ela sabia muito bem que esse sono tão cobiçado e precioso não viria tão cedo. Afinal, Ravena fizera a enorme proeza de dormir até seis horas da tarde e isso, para ela, era algo extremamente incomum.

Ou melhor, era algo que ela nunca, mas nunca mesmo fizera antes – e se ela já fizera, nem se lembrava mais. Ravena não costumava dormir até tarde e havia noites em que ela nem sequer pregava os olhos.

O sono – que para os humanos normais era considerado uma necessidade básica – era, para a heroína metade demônio, algo meramente descartável.

Mas agora, cercada pela escuridão da noite e assombrada pelas lembranças daquele dia, tudo o que ela mais queria era poder dormir!

Dormir e não pensar mais em nada. Dormir e não pensar mais nele.

'Mas onde é que eu estava com a cabeça?' Lamentava a moça na privacidade de seus pensamentos. 'Eu deveria ser mais forte que isso... eu deveria ser capaz de dizer não aos apelos do meu coração... mas eu não fui... e eu não sei por quanto tempo vou aguentar seguir com isso... por quanto tempo vou conseguir me distanciar dele...'

Com um suspiro profundo e cansado, a jovem fechou o que seria o terceiro livro que tentara começar a ler para se distrair um pouco e, deixando a solidão do seu quarto, se pôs a vagar sem rumo pela Torre.

Seus passos eram curtos e lentos, vacilantes, quase incertos.

Incertos porque ela realmente não tinha certeza alguma de onde deveria ir. Ou aonde ela queria ao menos chegar.

Assim, guiada pela incerteza e hesitação, ela perambulou pelos corredores, pela sala, pela cozinha. Permitiu que sua mente viajasse sem rumo, sentindo a presença singular de cada um dos titãs, que agora estavam entregues a um profundo sono reparador. Sentiu a aura forte e valente de Richard, mas que ao mesmo tempo emanava cordialidade e brandura. Sentiu a impressão doce e jovial de Kory, mas que também possuía um quê de orgulho e poder – o que não era de se estranhar, visto que a bela princesa de cabelos de fogo fora criada também como uma guerreira tamaraniana. Sentiu a mente racional de Victor, tão repleta de conhecimento e de uma vontade insaciável de aprender sempre mais, mas que em alguns momentos poderia se mostrar frágil e muito emotiva.

E então ela não sentiu mais nada. Porque não havia mais ninguém na Torre além dela e de seus três adormecidos amigos.

A ausência de Garfield foi semelhante a uma lâmina afiada que acabara de penetrar em seu peito e dilacerar sem piedade o seu pobre coração já tão machucado. Secretamente, ela queria muito que ele estivesse lá... queria ser capaz de sentir a sua aura vibrante e alegre, mas também tão intensa e atraente.

Mas ele não estava lá. E ela não fazia a menor ideia de onde ele poderia ter ido, ou do que estaria fazendo, ou até mesmo com quem ele estaria naquela noite.

E como aquela noite tinha um significado especial para Ravena. Porque num futuro há muito perdido e que agora se transformava num misterioso e enevoado presente, naquela mesma noite dois amigos se tornaram dois amantes. E um amor puro e verdadeiro nasceu entre eles. Um amor teimoso e que ainda existia, um amor que persistia apesar das intempéries, mas que no momento estava tão perdido quanto esse futuro.

Foi quando que, questionando-se sobre o possível paradeiro do metamorfo, Ravena experimentou mais uma vez daquela terrível sensação de que algo muito ruim estava prestes a acontecer. Era estranho para ela sentir isso novamente. Esse desespero forte e dolorido que crescia em seu peito, esse grito silencioso que se formava em sua garganta e quase a impedia de respirar.

Mas ela o sentia. E o sentia crescer cada vez mais. Cada vez mais forte e cada vez mais pulsante.

Então, quando o alarme da Torre Titã emitiu o primeiro flash vermelho, a empata já se encontrava bem em frente ao computador. E milissegundos antes da sirene fazer o menor barulho, Ravena já havia se encarregado de desligar o botão de emergência e impedir, dessa forma, que os outros exaustos titãs fossem bruscamente acordados.

Qualquer que fosse o problema que estivesse acontecendo na cidade naquela hora da noite, a empata tinha certeza de que poderia cuidar sozinha.

Ou pelo menos, ela contava com isso.

Apertando o botão de vídeo, a jovem heroína não conseguiu evitar que os seus bonitos olhos violetas se arregalassem com a cena que se formou bem a sua frente. Porque no monitor apareceu a imagem de um espantado e muito ofegante Garfield, com cabelos desarrumados, rosto sujo de poeira e com um filete de sangue escorrendo de um pequeno corte que podia ser visto no canto de seu lábio inferior.

"Garfield! O que está acontecendo? Onde você está?" Perguntou com apreensão assim que viu a caótica imagem do rapaz na tela.

"Rae!" Exclamou o metamorfo com visível espanto. "Os outros estão aí com você?" Era difícil visualizar exatamente o lugar aonde Garfield se encontrava. Estava muito escuro e tudo o que Ravena conseguia definir era alguns escombros ao fundo, além de poder escutar claramente vários gritos de socorro.

"Eles não estão aqui... ainda estão dormindo. Garfield, eu preciso que você me diga o que está acontecendo! Que confusão toda é essa?"

"Rae... eu achei o garoto... o Irmão Sangue..."

Por um instante, ela não conseguiu se mover. Ou pensar. Ou até mesmo respirar. Isso não poderia estar acontecendo... poderia? Depois de tudo o que ela fizera para garantir que Garfield e Sebastian não viessem a se encontrar... depois de tudo o que ela fizera para garantir que nada de ruim viesse a acontecer a ele... será que... será que todos os seus esforços foram em vão?

Mas de jeito nenhum.

"Estou tentando localizar o sinal do seu comunicador e estarei aí com você o mais rápido que puder!" Apesar de sua voz soar firme, suas delicadas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia começar a mexer no computador. "Mas enquanto isso, você não pode enfrentar Sebastian sozinho, você me ouviu? Ele é muito forte e muito perigoso, você não pode lutar contra ele, Garfield!"

"Isso não é uma opção, Ravena. O garoto é maluco e na hora que ele me viu começou a falar como os titãs tinham acabado com a vida dele! Ele tá destruindo o lugar todo! Tem muitas pessoas aqui, Rae, pessoas inocentes e se eu não fi-"

E a conexão se perdeu. A única imagem que havia na tela do monitor era uma escuridão aterradora. O único som que poderia ser escutado era um silêncio sinistro.

Ela perdera a conexão com Garfield antes de conseguir localizá-lo. E isso não era nada bom.

Correndo o mais rápido que suas pernas podiam aguentar, Ravena chegou até o terraço da Torre e, concentrando-se o máximo que conseguia, reunindo todo o seu poder, foi capaz de desdobrar a sua alma e liberá-la para os confins da cidade, a fim de que conseguisse encontrar a aura única de Garfield. Uma aura que ela já conhecia muito bem e que, se tivesse sorte, poderia vir a localizar.

Sua alma em formato de um etéreo corvo gigante percorreu cada esquina, cada beco, cada rua de Jump. Explorou prédios, casas, bares, shoppings. E foi tudo tão rápido, tão alucinado e frenético que em questão de meros minutos já havia retornado ao corpo da jovem maga.

A sua busca fora um sucesso e ela sabia exatamente o local em que Garfield se encontrava.

Sem se importar com a perigosa exaustão que começava a sentir por causa da projeção astral, Ravena fechou os olhos, sussurrou suas três palavras mágicas e, deixando seu corpo ser completamente envolvido por um redemoinho de energia negra, desapareceu do terraço da Torre Titã.

.

.

A primeira coisa da qual ela se deu conta quando sentiu seu corpo se materializar foi a dor. Uma dor lancinante e sem precedentes que se iniciou em sua cabeça e logo pôde ser sentida dominando cada célula do seu pequeno corpo. Uma dor que a fez cair de joelhos ao chão e levar suas mãos ao pescoço, como se dessa forma fosse conseguir controlar a sua respiração forçada e arquejante.

Ela tinha usado poder demais. Realizar uma projeção astral daquela magnitude e em seguida se teletransportar por quilômetros e mais quilômetros foi muito para Ravena.

E ela não estava forte o suficiente para isso.

Suas emoções estavam muito instáveis e desgastadas por conta dos acontecimentos recentes. Afeição estava deprimida, Timidez já poderia ser considerada um caso perdido e Felicidade... Felicidade estava morta. De novo.

Mas então... como ela poderia enfrentar Sebastian e impedir que o futuro voltasse a se repetir? Como ela poderia salvar Garfield? Porque dessa vez, ela o salvaria. Dessa vez, ela lutaria com todas as forças. Dessa vez, para salvar o seu querido metamorfo, ela lutaria até não ter mais forças.

Por ele, pela segurança dele, pela vida dele, ela faria o possível e também o impossível.

Foi quando ela teve uma ideia. Uma ideia perigosa e muito, mas muito ousada. Uma ideia desesperada, para uma situação tão desesperada quanto.

Desde a queda de Trigon, Ravena conquistara um controle sobre suas emoções como jamais antes tivera. Inclusive, um controle sobre a sua emoção mais rebelde e complicada: a Raiva.

E por menos que a empata gostasse de admitir, Raiva era sim uma emoção poderosíssima. Uma emoção que seria capaz ignorar todas as fortes e persistentes dores que haviam se instalado no corpo da jovem, seria capaz de superar a fraqueza devido ao estado caótico das outras emoções, seria capaz de enfrentar Sebastian e assim pôr fim de uma vez por todas à ameaça que o herdeiro da Igreja do Sangue representava.

Pondo-se de pé, a jovem cerrou os punhos com força e tomou sua decisão.

E, bem devagar, deixou seus quatro olhos vermelhos se abrirem.





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