O Pedido escrita por Laarc


Capítulo 26
A história dos olhos violetas


Notas iniciais do capítulo

Narração (normal)
"Diálogo"
'Pensamento'
Flashback (itálico)



Naquela noite Garfield bem que tentou, mas não conseguiu evitar de pensar em Ravena antes de dormir. Toda aquela história de voltar do futuro com certeza não fez bem à jovem empata. Ela estava diferente... evasiva, distante, fria... muito mais do que costumava ser.

"Eu vou para o meu quarto. Boa noite, Rapaz-fera."

Rapaz-fera... isso não estava certo! Ravena não o chamava assim... ela nunca o chamou assim antes.

"Eu não gosto mesmo que me chamem de Garfield, mas... mas eu não me importo que você me chame assim. Eu até prefiro que você me chame de Garfield no lugar de Rapaz-fera..." E ele não poderia ser mais sincero ao dizer aquilo. Ele poderia não gostar muito do seu próprio nome, mas ouvir Ravena o chamar de 'Rapaz-fera' era algo imensamente pior do que ser chamado de 'Garfield'.

Porque ser chamado de 'Rapaz-fera' por ela o incomodava... o machucava profundamente.

Sacudindo a cabeça como se tentasse apagar esses pensamentos de sua mente, o herói esverdeado decidiu que deixaria para se preocupar com o comportamento da sua amiga no dia seguinte, porque nesse momento ele iria dormir. Trocou o seu uniforme por uma cueca samba-canção e desabou na cama. Seu corpo estava tão cansado e suas pálpebras tão pesadas que ele nem percebeu quando o sono chegou.

Mas ele chegou. E com o sono, veio também um sonho.

Um sonho caótico e agitado, mas um sonho de qualquer forma.

Ou quem sabe... até mesmo um pesadelo.

Havia uma confusão de imagens desordenadas e desfocadas, uma incomum e incoerente fusão de vermelho, verde, violeta e prateado que se misturavam formando um bizarro redemoinho multicolorido. Os diferentes tons se mesclavam com violência e impacto, de uma forma quase que brutal. E Garfield não conseguia entender o que tudo aquilo poderia sequer significar.

E então as cores deixaram de ser apenas cores e foram, aos poucos, se tornando mais reais, mais tangíveis, mais vivas. Foram ganhando formas e assumindo determinadas e distintas conformações.

O vermelho foi ganhando uma certa viscosidade, um certo cheiro, uma certa pungência. E quando Garfield percebeu que o verde era nada mais nada menos do que ele mesmo, ele percebeu também que o vermelho, um cruel, perverso e quase desumano vermelho se transformou em sangue.

Muito sangue.

E ele viu que, enquanto o violeta e o prateado começaram a se esvair, desaparecendo completamente daquela cena, a quantidade de vermelho aumentou e aumentou, até que tudo o que restou ao seu redor foi o mais puro sangue.

Com terror nos olhos, tudo que Garfield podia fazer era observar como o nível daquele líquido escarlate subia, cobrindo-lhe os pés, as pernas, a cintura, enrubescendo a sua pele esverdeada. Ele estava desesperado. Queria gritar por socorro, queria que alguém, qualquer um que fosse, o visse e o ajudasse a sair dali, mas não conseguia. A sua náusea e o seu asco devido àquela situação apavorante na qual se encontrava eram tão grandes que ele não encontrava forças nem para abrir a boca, temendo que viesse a engolir uma única gota de sangue sequer.

Sentindo que o fluido já ultrapassara o seu peitoral, quase alcançando o seu pescoço, Garfield fechou os olhos com força, prendeu a respiração e selou os lábios, unindo-os com tanta pressão que o contorno de sua boca ficou até esbranquiçada.

Ele iria se afogar naquele oceano púrpura e não havia nada que pudesse fazer para impedir esse destino.

E ele esperou pelo fim. E esperou... mas não sentiu o líquido lhe cobrir a cabeça.

Na verdade, ele não sentiu que estava mais mergulhado em sangue. Como num passe de mágica, de uma forma inexplicável, ele não estava mais na iminência de se afogar, porque agora ele se encontrava seco, sem roupa e deitado sobre uma cama.

E ele não estava sozinho.

Havia mais alguém ali na cama com ele. Mais precisamente, havia uma linda mulher igualmente sem roupa deitada bem em cima dele...

Beijando-o.

Tocando-o.

Quase que... amando-o.

Aquelas carícias, aqueles suspiros que escapavam dos lábios femininos e a simples sensação do hálito dela sobre a sua pele foram mais do que suficientes para fazer Garfield se esquecer completamente de todo o terror que experimentara poucos segundos antes. E ele sentiu o seu corpo ser invadido por um prazer inigualável.

Como uma onda de paixão e frênesi que o atingiu consumindo-o por inteiro.

Era tudo muito estranho. Ele não fazia a menor ideia de quem poderia ser aquela jovem com quem estava compartilhando uma experiência tão íntima e sensual, mas tinha a sensação de que aquela desconhecida lhe era familiar.

Estranhamente familiar...

Havia algo especial naquele toque, naqueles beijos, naquele cheiro tão raro e ao mesmo tempo, tão... poderia ele ousar dizer, conhecido? E aqueles sedosos e exóticos cabelos violetas que roçavam a sua pele com tanta delicadeza e sensualidade.

Cabelos violetas... aonde será que ele já tinha visto isso antes?

Garfield não se lembrava. Sua memória estava muito confusa. Ele sabia que a conhecia de algum lugar. Sabia que, de alguma forma, aquela misteriosa mulher não era lá tão misteriosa assim. Mas por algum motivo ele simplesmente não conseguia se lembrar de onde a conhecia. Muito menos se lembrava quem ela poderia ser.

E ele precisava se lembrar dela. Precisava saber quem ela era.

Dominado por uma curiosidade sem limites, segurou o pequeno e delicado corpo daquela beleza de cabelos violetas e o virou de forma que ela ficasse embaixo dele. Prendendo-a com firmeza sob o seu corpo, mas ao mesmo tempo de forma bem gentil, de modo que não a machucasse, Garfield fixou seu olhar naquele rosto tão ofegante e corado de prazer. E o jovem sentiu o tempo parar quando a moça abriu os olhos.

Porque ele conhecia muito bem aqueles olhos.

Aqueles olhos violetas tão profundos, sinceros e tão... tão carregados de emoção... tão repletos de amor.

Mas ao mesmo tempo, olhos tão distantes e... desfocados. Quase como se não estivessem olhando para ele. Quase como se não o estivessem enxergando...

"Você precisa se lembrar, Garfield." A sua voz era como suave e agradável. Melodiosa. Irresistível. Hipnotizante.

"Lembrar?"

"Você precisa se lembrar... é o único jeito de ajudá-la..." As palavras fluíam com leveza e musicalidade, penetrando em seus ouvidos e envolvendo os seus pensamentos.

"Ajudar? Eu não entendo... ajudar quem?" O rapaz tornou a perguntar, manifestando a sua confusão e dúvida.

"Use as minhas memórias e lembre-se... lembre-se do que você não deveria ter esquecido."

E ele acordou.

Seus olhos se abriram com uma rapidez tremenda e num pulo se sentou na cama.

Ele estava em completo desarranjo. Sua cabeça latejava de dor, seu corpo estava molhado, não, ensopado de suor, bem como o lençol da sua cama e a fronha do seu travesseiro. Seu coração palpitava com tanta força que por um instante Garfield achou que o órgão fosse arrebentar a sua caixa torácica e sair pulando pelo quarto. Com um certo esforço, conseguiu levar as mãos bastante trêmulas até o seu rosto, esfregando-o e tentando, quase que em vão, regular a sua respiração muitíssimo acelerada.

'Oh... cara! Ai, meu Deus! O que que foi isso?' Pensou o rapaz enquanto inspirava e expirava repetidamente. Com um longo e exausto suspiro, deixou o seu corpo desabar contra o colchão e permaneceu parado, apenas fitando o teto do quarto e permitindo que a sua mente fosse invadida por lembranças daquele sonho.

Tudo o que acontecera fora tão real para ele. Tão verdadeiro e absurdamente palpável. Os toques, os suspiros, os beijos... aquela voz... e aqueles olhos. Ele sabia agora quem era aquela moça. Porque Garfield sabia muito bem que só havia uma única pessoa com cabelos e olhos daquela cor.

E esse conhecimento só serviu para deixar o pobre rapaz mais transtornado ainda.

Levantando-se da cama e passando os dedos ainda trêmulos por entre o seu cabelo, o jovem se dirigiu até o banheiro. Ele precisava tomar uma ducha urgentemente.

E uma ducha bem fria.





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