Como Atlas escrita por Sion Neblina


Capítulo 1
One-shot


Notas iniciais do capítulo

Atlas é um dos titãs que tentaram invadir o Olimpo e destronar Zeus. Como punição, recebeu a dura missão de sustentar o peso da abóbada celeste nas costas.

Bem, essa história surgiu depois de uma discussão acalorada sobre o Shaka via MSN XD!

Queria dedicá-la a duas pessoas que são Hannah Elric e Vagabond, minhas irmãzinhas queridas.

Espero que gostem, boa leitura!



...SAGRADO DO CÉU AO INFERNO... CRUEL E TRAIÇOEIRO...

Meditação. Rotina mais que necessária a Shaka de Virgem, principalmente, assim pensava ele, depois que o santuário se tornou uma “bagunça”. Os cavaleiros de bronze entravam e saíam das doze casas a hora que queriam e isso muitas vezes o incomodava. Não era um grande incômodo para os demais, mas para ele que sentia tudo de uma forma mais intensa, o mísero farfalhar de asas de uma borboleta poderia incomodá-lo. Nos últimos tempos era raro deixar sua casa. Sua mente e cosmo estavam sempre concentrados em descobrir a verdade. A verdade da sua existência que até algum tempo atrás ele achava conhecer.

Já havia se passado certo tempo desde a batalha intensa que travara contra Ikki de Fênix e havia exatamente seis meses que não via aquele garoto insolente.

Ainda se lembrava da discussão que tiveram, melhor, Ikki discutiu. Era sempre ele a discutir, a falar, a cobrar o que Shaka nem mesmo entendia.

– Você não passa de alguém cruel e traiçoeiro! Eu me lembro muito bem da forma perversa que você agiu enquanto lutamos! A forma covarde que você mandou seus discípulos para me matar e até mesmo matar uma pobre garotinha e seu velho avô! Não venha posar de grande alma pra mim! Você não passa de um homem frio e sem nenhuma piedade como nunca cansou de dizer!

Aquelas palavras ficaram marcadas em sua alma e não entendia o porquê. Não era a primeira vez que o acusavam de ser cruel e ele realmente era. Ser cruel e impiedoso era o mesmo, e o cavaleiro de virgem realmente não nutria o sentimento de piedade, mas Será que isso o fazia uma pessoa má e traiçoeira?

Aquele garoto era estranho, estava sempre pronto a provocá-lo, a visitá-lo nas horas mais impróprias para lhe dizer suas verdades como se fosse o dono do mundo. Não compreendia Ikki, e Shaka era o tipo de homem que precisava compreender tudo. Por que se sentia daquela forma por aquele garoto o ter acusado de ser cruel? Ele era um cavaleiro, fora educado, talhado para ser cruel e se fosse para defender a humanidade, isso não deveria mesmo ter importância. Aprendera ainda menino a abdicar dos seus próprios sentimentos e senso de moral por um bem maior, uma compreensão maior e se as pessoas ditas normais não entendiam isso, só poderia lamentar por elas.

Isso! Era melhor lamentar por Ikki de Fênix e esquecê-lo. Que ele o achasse cruel, que desdenhasse dos seus valores. Mas a verdade era que estranhamente e contra tudo que o asceta acreditava, a opinião de Ikki era importante para ele. Importante demais. Não podia negar que a luta que travara com Fênix fora a mais importante da sua vida e mudara algo em si. Talvez, tivesse percebido que havia algo mais em Shaka de Virgem que a reencarnação de Buda ou o cavaleiro de ouro. Algo que no fundo de sua alma, ele sempre quis negar.

“Eu sou aquele que é sagrado do inferno ao céu.”

Repetia incessantemente para si desde seu último encontro com Ikki. Não podia se entregar aquele sentimento irritantemente perturbador que o dominava cada vez que fitava aquelas chamas escuras que eram os olhos do japonês. Por quê? Por que sua alma estava tão torturada?

“Cruel e traiçoeiro!”

Aquela acusação queimava seu rosto e sua alma como as chamas do inferno. Cruel sim, traiçoeiro nunca! O pior de tudo fora escutar aquilo no único momento que se permitiu sair da flor de lótus interna em que vivia e procurar o garoto com a ingênua vontade de saber, apenas, como ele estava depois da luta que tiveram e depois de tê-lo salvo do ataque do guerreiro de Asgard.

Não estava com raiva de Ikki, não estava com raiva de si próprio; não estava com raiva. O que sentia era uma estranha frustração. Por que daquela agressão sem propósito?

(...)

Shaka chegou ao décimo terceiro templo. Soubera que os cavaleiros de bronze partiriam para Asgard para lutar naquela terra gelada, então resolveu em fim falar com Ikki de Fênix a respeito da luta que tiveram. Não queria falar sobre o sangue que dera para sua armadura ou sobre tê-lo carregado nos braços por todo o santuário, como se levasse algo extremamente precioso em mãos. Não. Queria falar sobre a batalha e sobre as lições que lhe foram ensinadas e algumas que gostaria de ensinar a aquele cavaleiro.

– Fênix. – chamou. O adolescente estava sozinho, parado ao lado da caixa de sua armadura. Seus olhos sérios e temíveis se voltaram para o cavaleiro de ouro.

– Shaka de Virgem, o que faz fora da sua casa?

– Vim falar com você. – disse tranquilamente.

– Soube que deu teu sangue para restaurar minha armadura e agradeço, embora ache que tenha perdido gotas preciosas do teu sangue divino em vão, já que a armadura de fênix tal qual a ave mitológica é imortal.

Shaka deixou escapar um mínimo sorriso irônico e percebeu, mesmo estando com seus olhos pacientemente fechados, que o garoto enfezou a cara. Desde a batalha, percebera que Ikki simplesmente não tolerava seu sorriso.

– Bem, dessa vez ela não foi capaz. Você precisou de mim. – disse com uma calma displicente e pueril.

– Eu nunca precisaria de ninguém, muito menos de você! – irritou-se Ikki – O que quer falar comigo afinal?

O loiro suprimiu um suspiro. Não esperava tanto ressentimento.

– Repito que gostaria apenas de conversar. – tornou ainda plácido – Mas não pretendo insistir se não quiser.

– Não tenho tempo pra conversar com você. Enquanto os cavaleiros de ouro ficam aqui protegidos no santuário, meus irmãos de bronze estão correndo perigo em Asgard!

– Protegidos? – Shaka riu novamente – Você não tem noção do que fala, garoto.

O loiro deu as costas ao moreno e começou a descer as escadas de volta a sua casa. Esqueceu-se temporariamente de quem era Fênix, adolescente esquentadinho e problemático.

– Não me vire às costas, Shaka de Virgem, isso pode custar sua vida! – ouviu a voz grave e irritada atrás de si, mas não se abalou a responder, continuou o percurso até chegar ao seu templo onde se sentou na flor de lótus para meditar.

Qual não foi sua surpresa ao notar que fora seguido por um Ikki muito irritado?

– Não tente se fingir de humano, Shaka de Virgem! Eu lutei com você e sei muito bem quem você é!

O asceta continuou na mesma posição que estava: de olhos fechados com um semblante impassível.

– Disposto a conversar agora, Fênix? Ótimo, portanto que não seja aos berros, dentro da minha casa. – disse se erguendo.

– Vou repetir o que disse, virgem! – tornou um Ikki muito irritado – Eu não tenho nada a falar com você. Não pense que pode haver diálogo entre nós dois. Você não passa de alguém cruel e traiçoeiro! Eu me lembro muito bem da forma perversa que você agiu enquanto lutamos! A forma covarde que você mandou seus discípulos para me matar e até mesmo matar uma pobre garotinha e seu velho avô! Não venha posar de grande alma pra mim! Você não passa de um homem frio e sem nenhuma piedade como nunca cansou de dizer!

Shaka continuou parado com os olhos fechados, apenas ouvindo.

– Então, nem pense em se aproximar de mim de novo, entendeu? Ou eu mato você.

(...)

O garoto falou aquilo e foi embora. Desde então não mais se viram, mas Shaka foi incapaz de esquecer suas palavras, não por mágoa, mas por não compreender o motivo de tanto ódio. Eles eram guerreiros não era? A missão de proteger a terra e a deusa deveria estar à cima de qualquer coisa fosse esta moral ou sentimental. Em que ele errara então? Por seguir suas crenças e aquilo para o qual fora treinado a vida toda?

Crueldade, piedade, tudo isso são rótulos inúteis. Talvez fosse cruel tirar a vida de um ser humano, mas seria mais cruel que deixá-lo viver na dor da miséria e da doença? Exposto a todo tipo de degradação? Matar por piedade poderia fazer de si um demônio?

“Shaka, a sua compreensão está bem acima da compreensão humana e da moralidade humana. Você não deve se incomodar com os julgamentos a suas ações. Eu já havia lhe advertido que suas dúvidas seria o seu fim.”

Shaka engoliu em seco e respondeu aquilo que nunca seria capaz de dizer em voz alta. Apenas seu mestre ouviria tal confissão:

“Sou humano...”

...POR QUE SE IMPORTA?...

Era final de uma linda tarde de verão quando o defensor da sexta casa sentiu o cosmo de Fênix no santuário. Já havia passado algum tempo desde a vitória contra Asgard. Athena e outros cavaleiros de bronze estavam no santuário, mas Ikki demorou a aparecer e agora teria, mesmo que não quisesse, que pedir permissão para passar por seu templo.

Ouviu os passos decididos – arrogantes – subindo de casa em casa até chegar ao meio do seu templo e parar.

Shaka continuou com os olhos fechados, em posição de lótus, ignorando completamente a presença do cavaleiro de bronze e esperando que fizesse a solicitação.

Ele não fez. Ikki passou direto em direção as escadas que dariam na casa de libra. Aquilo foi demais, mesmo para a natureza paciente de Shaka. Fênix deveria ter se lembrado o quanto o loiro poderia ser cruel e perigoso.

– Nem mais um passo. – disse o indiano sem alterar o tom de voz – Ou o matarei sem piedade pelas costas, Fênix.

O moreno se virou e encarou o cavaleiro em sua armadura de forma desdenhosa.

– Bem digno de você, Shaka de Virgem. – disse.

O loiro se ergueu e caminhou a passos tranqüilos até ele.

– Como se atreve a dizer tal coisa? Por acaso bateram com muita força em você lá em Asgard, garoto? Esquece-te com quem falas?

Ikki o mediu de cima abaixo o que levou um leve e estranho estremecimento ao corpo do jovem loiro, isso, todavia não foi percebido pelo adolescente. Shaka continuava pacientemente de olhos fechados.

– Claro que não me esqueço com quem estou falando. Mas lembre-se que Athena deu acesso total aos cavaleiros de bronze dentro do santuário. Logo, não preciso pedir sua permissão para nada!

Shaka entreabriu os lábios, estava pasmado com a petulância daquele garoto e ainda mais pasmado consigo por não matá-lo naquele momento.

– Garoto insolente! – grunhiu e tentou se controlar. Não. Matá-lo não seria algo racional, ele não passava de uma criança, só estaria reforçando tudo que ele achava de si.

E POR QUE SE IMPORTAVA COM O QUE AQUELE PALEOLÍTICO ACHAVA DE SI?

– Passe. – ouviu-se murmurar enquanto entrava a passos rápidos para a área residencial da sua casa. Não queria mais olhar para aquele cavaleiro. Naquele momento não queria olhar pra ninguém.

...MAIS HUMANO...

Durante dias, as coisas continuavam iguais. Ikki quando aparecia lhe distribuía hostilidade. O loiro fingia indiferença, mas na verdade aquilo o estava quebrando por dentro e algo que nunca sentiu começava a surgir: dúvida.

Será que tudo que fizera fora certo? Será que era errado querer extinguir o sofrimento da terra mesmo que por vias dolorosas?

Sentiu um cosmo se aproximar e suspirou. Era o único amigo que tinha no santuário: Aiolia de Leão.

– Senti que você não está bem, Virgem, o que está acontecendo? – indagou o direto leonino.

Ele e Aiolia se tornaram mais próximo depois dos acontecimentos em Pradesh* e, vez por outra, acabavam conversando por horas sobre vários assuntos.

– Aiolia, você já duvidou alguma vez? Já teve dúvidas sobre suas ações como cavaleiro?

– Claro que sim. Todo ser humano as tem. Por quê? – indagou o leonino.

– Eu nunca tive. – declarou e com um gesto de mão chamou o amigo para seu jardim – Mesmo quando meus atos eram considerados humanamente hediondos, eu jamais duvidei que aquilo fosse o melhor para a humanidade ou mesmo para aquele ser vivo que eu agredia.

O grego deixou escapar um sorriso compreensivo e se encostou à mureta ao lado do amigo o encarando, mesmo que os olhos fechados de Shaka o deixassem meio desconsertado.

– O Garan* me disse uma vez: Se enxergar o brilho do cosmo no fundo do seu coração, poderá enxergar a sua verdadeira essência. As pessoas devem ser vistas mais pelos seus corações que pela aparência.

– O que quer dizer com isso? – Shaka franziu a testa.

– Que você deve conhecer seu coração, Shaka. E se tiver certeza que ele é bom, não importa opiniões alheias.

– Por que acha que estamos conversando sobre alguma opinião? – o loiro hindu corou levemente, e Aiolia sorriu.

– Todos ouvimos as acusações do Fênix. Fosse eu, e ele estaria morto. Entretanto, não acho que você o tolere por paciência...

– Claro que é por paciência, ele é apenas uma criança tola! – devolveu o indiano perturbado.

– Você gosta dele. – sentenciou Aiolia fazendo o loiro sentir uma pontada no peito – Não tente se enganar.

– Gostar? – Shaka ponderou – Posso gostar dele como gosto de todos os seres vivos. Mas o que o faz especial? Ele me desafia, me ofende, me considera um tirano, por que eu nutriria algum sentimento por ele além desse?

– Porque ele o ajuda a pensar. Ele o desafia e com isso faz com que questione suas próprias ações, faz com que se sinta mais humano...

– Talvez... – murmurou o asceta.

– Duvidar de nós mesmo é doloroso, Shaka. Principalmente quando nunca o fizemos antes. Você até hoje sempre teve certeza de suas ações. Lembro-me do acidente com o Garan, você me disse para matá-lo e fiquei revoltado naquela época, mas depois entendi que não matá-lo colocaria mais pessoas em risco que matá-lo. Compreendi sua posição, mesmo discordando dela.

– Você estava deixando de fazer o certo por um sentimentalismo infantil. – replicou Shaka.

– Não. Eu deixei de matá-lo, o que talvez fosse certo, por um sentimento humano. Ele era meu criado e eu o amava, só isso. Você, entretanto, sempre esteve voltado para sua elevação espiritual e nunca se permitiu ser humano, amar, sentir amizade, paixões e por isso não compreende agora o que sente por Fênix. Você é como Atlas, carregando as dores do mundo sobre os ombros, mas sendo um deus, você não pode compreender essas mesmas dores.

Shaka suspirou pesadamente. Não seria capaz de dizer a Aiolia que ele estava terrivelmente certo. Não conseguia entender suas próprias dores e que, sim, se apiedava do mundo, mas sua missão não era ter piedade e bondade, sua missão era fazer o certo, e o certo pode muitas vezes parecer moralmente e humanamente errado.

O indiano ficou ainda algumas horas divagando com o grego, mas depois resolveu que o melhor a fazer era meditar e talvez assim, conseguisse espantar aquela angústia crescente estranha em seu coração.

(N/A: Garan é um criado de Aiolia no mangá Episódio G, que tomado por um espírito do mal tenta matar o cavaleiro dentro da casa de leão. Como a bagunça foi grande, Shaka invade a casa de Aiolia e exige que ele o mate logo, para acabar com aquilo, coisa que o leão não faz, ao contrário, se esforça para libertar Garan do domínio do espectro sem feri-lo o que leva Shaka a pensar: “O leão é tão bondoso, tomara que essa bondade não se torne a fraqueza que o levará a morte.”)

...ATLAS E O OURIÇO...

A noite caiu no santuário e com ela uma chuva intensa e fúnebre. Shaka abriu os olhos. Já estava há horas meditando. Começou a caminhar para seu quarto quando um leve murmúrio chamou sua atenção na entrada do templo.

Franziu a testa e caminhou até o ínfimo barulho. Qual não foi sua surpresa ao encontrar o cavaleiro de fênix sentado, abraçado aos próprios joelhos... Chorando?!

– Ikki?

O susto que o garoto levou ao ouvir sua voz foi tão grande que ele estremeceu. Ikki limpou rapidamente o rosto e consertou o semblante, mantendo a mesma cara enfezada de sempre.

– Oi, loiro, o que é que você quer? – perguntou, mas não da forma hostil de sempre, dessa vez ele parecia mais exaurido e angustiado.

– Aconteceu alguma coisa? – Shaka sabia que não deveria se importar, mas não conseguia, era mais forte que ele.

– Não, não aconteceu nada, me deixa em paz! – retrucou desaforado o mais jovem.

O cavaleiro de ouro perdeu a paciência. Colocou as mãos no quadril e bufou, mas continuou de olhos fechados.

– Pra mim chega dos seus desaforos! – disse – Por que você me odeia tanto, hein? O que eu te fiz? Eu devo merecer isso mesmo por não tê-lo matado e por cuidar de você quanto esteve doente!

A primeira reação do adolescente foi encarar o cavaleiro surpreso. Nunca vira uma explosão como àquela do sempre temperante Shaka de Virgem. Sempre o provocava esperando alguma reação e também era uma forma de combater seus próprios sentimentos por ele que o angustiava, todavia, o loiro nunca pareceu dar mais importância a si, do que daria a um inseto.

Para surpresa de Shaka, Ikki não revidou;baixou o olhar com um meio sorriso e uma nova lágrima desceu por seu rosto, esta que ele logo tratou de limpar.

O temível e sádico cavaleiro de fênix – essa era a visão de Shaka – Naquele momento parecia somente um adolescente, assim como ele naquela tarde, junto ao seu único amigo, comportou-se como um jovem de 20 anos apenas.

– Odiá-lo? – o menino sorriu – Shaka, eu nunca o odiei. Pra mim, você sempre foi meu melhor amigo.

O indiano emudeceu e ele continuou:

– Sabe, loiro, as coisas nem sempre são o que parecem. – disse.

O mais velho franziu a testa ainda mais.

– O que quer dizer?

– Eu sei que por trás de toda essa sua aparente calma e reverência há alguém de carne e osso.

– Nunca disse o contrário. – o loiro continuou com as mãos no quadril por cima da túnica longa que vestia.

– Você nunca sente dúvidas e medo? – indagou o adolescente apoiando a cabeça nos braços sobre o joelho.

– Todos sentem, Ikki. Não pense que isso faz de mim ou de você mais fraco.

O menino voltou a sorrir de lado, disfarçadamente, e Shaka teve a certeza que mesmo que ele parecesse tão adulto e seguro, ainda assim, era apenas um menino e nada sabia da vida.

– Eu sempre achei que no fundo, você era tão esquentadinho quanto eu. – declarou fênix.

– E é por isso que você me provoca tanto? – Shaka se desarmou finalmente e se sentou ao lado do moreno.

Ikki ergueu a cabeça para encará-lo.

– Também.

O indiano relaxou enquanto encostava as costas numa pilastra.

– Eu nunca entendi o motivo de tanta hostilidade, Ikki. – disse – Eu tentei me tornar seu amigo durante todo esse tempo e você nunca me deixou se aproximar.

O olhar do moreno se deteve mais demoradamente nos traços angelicais do rosto de Shaka, fazendo o indiano corar levemente.

– Deixá-lo se aproximar? Deuses! Eu não posso!

Shaka não entendeu.

– Por quê?

– Porque... Shaka, você é um cavaleiro de ouro e nós estamos sempre em batalhas que podem levar nossas vidas. Eu já tenho muita gente com quem me preocupar. – sentenciou o mais jovem.

– Então você me afasta para não gostar mais de mim do que já gosta. – concluiu, vendo o menino manear a cabeça positivamente e corar, sem encará-lo.

Shaka ficou pensativo por um tempo. A vida deles era tão difícil, tão terrível. Será que algum dia tivera chance de PENSAR em gostar de alguém? Será que algum dia teria a chance de amar alguém, de chegar perto?

Percebeu que para Ikki , eles eram como ouriços; a possibilidade de aproximação implicaria grandes dores, então o melhor era se manter distante. Apenas um olhar, apenas um sorriso e dessa forma, ele não precisava se preocupar com ele, por que o cavaleiro de virgem sempre estaria inatingível no santuário e distante do seu coração.

Shaka percebia que apesar das diferenças, eles eram muito iguais. Ambos abdicavam dos sentimentos por um bem maior: a terra, a humanidade.

– Eu entendo o que sente, Ikki. – disse depois de um longo tempo em silêncio somente escutando o barulho da chuva.

– Entende? – o adolescente pareceu surpreso.

– Sim. Durante muito tempo, fui como você. – explicou – Mas chega um momento que... não sei se os deuses ou qualquer outra força nos impõem mudanças.

– Mudanças? Quais mudanças?

Shaka sorriu e finalmente abriu os olhos. Ikki pela primeira vez se viu perdido naquele mar calmo que eram os olhos do santo de virgem.

– Eu acho que a partir de agora, podemos chegar mais perto. Mesmo que eu continue carregando o peso da terra em minhas costas e você continue com seus espinhos, podemos estabelecer uma distância segura, onde: nem a terra cairá e nem seus espinhos me machucarão...

O moreno não entendeu o que o loiro quis dizer com aquilo, mas retribuiu o sorriso do cavaleiro. Shaka chegou mais perto dele e segurou-lhe a mão.

Passaram o resto da noite conversando sobre vários assuntos, enquanto a chuva caía sem trégua no santuário.

Da casa de Leão, Aiolia sentia o cosmo do amigo bem perto do cosmo de Fênix e dessa vez sem nenhuma hostilidade. Sorriu: talvez, finalmente, Shaka tivesse resolvido dividir com mais alguém o peso monstruoso que levava nas costas.

Fim



Notas finais do capítulo

Notas finais: Sion perva numa história sem nem um beijo? 2011 será mesmo diferente XD!

Acontecimentos de Pradesh: Citação do Episódio G. Aiolia foi com Shaka para a cidade citada na Índia, para defender o loiro que iria ficar vulnerável enquanto meditava.

Beijos a todos que leram, gostaram, silenciaram, mas gostaria muito da opinião.

Eu considerei a história Shonen-ei e +13, mas eu acho que o melhor seria livre, pois pela primeira vez em fic minha, nem um beijinho.

Estou pensando em fazer uma continuação, mas sem prazo pra isso, mas gostaria de saber se vocês acham uma ideia legal ou se aqui já deu XD!

Abraços afetuosos da Sion