Phantomhive

Autor(es): Tai Bluerose


Sinopse

"Até devorar a minha alma, você é meu mordomo: Sebastian Michaelis!"

"Yes, My Lord!"

Sebastian X Ciel


Notas da história
Kuroshitsuji não me pertence....infelizmente.

Shounen-ai/yaoi

Índice

(Cap. 1) O homem e o nome
(Cap. 2) Meu Novo Amigo: o cara mais legal do mundo!
(Cap. 3) Sangue e Diálogo
(Cap. 4) Desventuras
(Cap. 5) Tortura, Turismo e Beatles
(Cap. 6) Jack e Joan
(Cap. 7) Sonhos
(Cap. 8) Carnívoros Na Meia Noite
(Cap. 9) Quatro Semanas
(Cap. 10) O corvo, a menina e o piano de cauda
(Cap. 11) A terrível quarta-feira chuvosa
(Cap. 12) A vingança de Amanda
(Cap. 13) A Mui Nobre e Antiga Família Phantomhive
(Cap. 14) Um mar de lágrimas
(Cap. 15) Desejos Consumados
(Cap. 16) Armadilha Para Quem?
(Cap. 17) O Despertar
(Cap. 18) Enquanto Ele Dormia
(Cap. 19) Os Pecados do Passado – Parte I
(Cap. 20) Os Pecados do Passado – Parte II
(Cap. 21) Os pecados do Passado – Parte III
(Cap. 22) Os Pecados do Passado – Parte IV


(Cap. 1) O homem e o nome

Notas do capítulo
Essa Fic surgiu há muito tempo, enquanto ouvia uma música. E se desenvolveu por uma brincadeira e duas ideias diferentes que se tornaram uma. É só o que posso dizer.....por enquanto.

Capítulo 1: O homem e o nome

Ciel voltava aliviado para casa, finalmente a aula havia acabado. A monotonia da vida o desanimava e o irritava. E a escola, sem sombra de dúvida, o estressava de todas as maneiras possíveis. Ele sobrevivera a mais um dia e em poucos minutos estaria em casa. Só a ideia de não estar mais preso àquela sala já o relaxava um pouco. Estaria mais relaxado se Liza não estivesse enchendo seus ouvidos desde que o sinal do fim da aula tocara. Tentava prestar atenção no que a menina falava, não queria parecer mal educado, mas sua mente divagava a todo o momento e uma vez ou outra dizia um “aham” na tentativa de disfarçar. Embora tivesse certeza de que Liza não pararia com a tagarelice nem que ele tapasse os ouvidos.

– ...sério Ciel, eu fico muito preocupada com essas coisas. Nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer na nossa cidade. Mamãe não me deixa ficar fora até tarde agora. Eu não fico brava com ela porque na verdade também ando com um pouco de medo. Não dá mais pra andar sozinha por aí. Que bom que você me faz companhia. Você também não fica um pouco apreensivo, Ciel?

– Na verdade Liza, a única coisa que me preocupa agora é terminar o Ensino Médio.

– Ai meu Deus, tem razão! Acho que me dei mal no último trabalho de matemática. Espero que não, porque se eu não tiver uma boa nota vou depender do resultado da prova, e eu realmente fico muito nervosa durante as provas de matemáticas, na verdade eu fico nervosa em todas, mas fico mais ainda na de matemática e se eu...

Liza desandou a falar novamente e Ciel ficou realmente tentado a tapar os ouvidos com as mãos. Ela não era má pessoa, mas sabia ser realmente irritante às vezes. No entanto, Ciel era condescendente com ela, pois sabia que outras pessoas a considerariam uma amiga divertida e comunicativa, o problema era ele. Não gostava muito de conversar e Liza definitivamente nunca falava sobre algo que realmente o interessasse, para falar a verdade, ninguém da escola. Consequentemente, para alguém que não é de conversar, alguém falante sempre será irritante.

– Será que você poderia dar uma olhada no meu dever de casa? – Liza fez a pergunta num tom mais infantil que o normal, o que significava que ela estava quase implorando. Ela revirou a mochila por alguns segundos e retirou um papel de cor rosada. Ciel aproveitou a distração dela para revirar os olhos. – Eu levei horas pra responder poderia dizer se está certo?

Ciel pegou a folha e analisou os cálculos.

– Estas três questões estão corretas, mas nesta aqui você deve primeiro fatorar esse três números pra chegar ao resultado correto e esta você fez tudo certo, mas errou no jogo de sinais, o resultado vai ser x=0 e não 84.

– Uma folha inteira de cálculo para o resultado ser zero?! Poxa, eu passei longe!

Ciel devolveu a folha para Liza, que ficou imóvel olhando para o papel. Perguntava-se se ela realmente tinha entendido o que ele disse. Por fim ela levantou a cabeça com um enorme sorriso estampado no rosto.

– Obrigada, Ciel! Pelo menos eu acertei três. Quando chegar em casa eu v.... – Liza parou subitamente. Uma repentina rajada de vento arrancara o papel de suas mãos fazendo-o voar pela rua. – Meu dever de casa!

– Deixa. Eu pego.

Ciel correu para pegar o papel, mas o vento parecia determinado a humilhá-lo. Um avião de papel com certeza não voaria tão alto e com tanto ímpeto quanto aquela folha rosada. Temendo que o vento soprasse a folha para mais alto e mais longe, Ciel correu, pegou impulso e saltou o mais alto que pôde para agarrar a folha antes que ela atravessasse a esquina. Conseguiu segurar a folha com as pontas dos dedos e caiu miseravelmente em cima de alguém que acabara de dobrar a esquina, estatelando-se os dois na calçada.

– Desculpa; eu sinto muito... É que....

Ciel começou a desculpar-se todo sem jeito, automaticamente ajudando o homem que atropelara a juntar suas coisas do chão: uma caneta, um celular, um agenda, dois livros, um fone de ouvido. Enquanto apanhava as coisas e a folha rosa, Ciel olhou para o homem e parou. Ele era alto, magro, pele muito clara, cabelos pretos e olhos castanhos rubros admiráveis. Feições quase perfeitas. Ciel não soube exatamente o que, mas algo nele lhe era familiar. Uma sensação estranha e incômoda ou seria uma daquelas sensações que você tem quando vê alguém pela primeira vez e sente que já a conhecia. Nunca o tinha visto ali. Nunca. Nem ninguém como ele. Mas ainda assim...

– Você se machucou?

A voz dele era grave e gentil. Ele repetiu a pergunta novamente, olhando bem as feições de Ciel, talvez verificando se a queda não afetara o menino de alguma forma. Percebendo sua indiscrição, Ciel se levantou. Piscou algumas vezes, se recompôs de um jeito orgulhoso, ajeitando o uniforme.

– Não, não me machuquei, estou bem. Desculpe o incômodo eu estava tentando pegar isso... – levantou a folha cor de rosa em sua mão e, ao notar novamente o cor-de-rosa, apressou-se a dizer: – É o dever de casa de uma amiga. O vento...bem...

– Entendo. Sem problemas. Só tome mais cuidado. Então, tenha um bom dia!

O homem deu um sorriso gentil, tão gentil que Ciel chegou a sentir-se envergonhado por não conseguir retribuir tamanho gesto, apenas assentiu com a cabeça. O homem virou-se e seguiu seu caminho, fazendo um breve movimento com a cabeça para cumprimentar Liza quando passou por ela. Essa, por sua vez, veio correndo na direção do garoto.

– Tudo bem, Ciel?

– Sim.

Ciel nunca se sentiu tão constrangido, nunca ficara sem ter o que falar. Quem seria aquele homem? Alguém novo na cidade, com certeza. Ciel entregou o papel rosado para Liza.

– Aqui está. Bem, está amassado e sujo. Vai ter que passar tudo a limpo mesmo. E Liza, não entregue o dever de casa em folhas cor-de-rosa, sim?

– Mas é tão mais fofo! Tudo bem... ah, Ciel, não esqueça seu pendrive.

– O quê?

– Seu pendrive. Ali no chão.

– Não é meu. Deve ser daquele cara. Deve ter caído e ele não viu.

– E se tiver algo importante aí?

Ciel olhou para o objeto em sua mão por alguns segundos.

– Ele ainda deve estar por perto... Liza, você pode seguir só o resto do caminho? Vou ver se encontro aquele cara, preciso devolver isso.

– Tudo bem. Não quer que eu vá com você?

– Não precisa. Se você demorar sua mãe ficará preocupada e a bronca vai sobrar pra mim. Vai pra casa. E tome cuidado, ok?

Depois que Liza se afastou, Ciel correu na direção que o homem tinha ido. Perguntou a algumas pessoas se o tinham visto. Mas não conseguiu encontrá-lo. Estava ficando tarde e ultimamente era perigoso andar sozinho por aí. Meio desapontado, pois esperava encontrar o sujeito, achou melhor ir pra casa. Decidiu que voltaria àquela rua no dia seguinte; quem sabe o homem, ao dar-se conta de que perdeu seu pendrive, não passasse por ali novamente? Pelo menos é o que Ciel esperava, porque nem ele nem ninguém ali perto conheciam o homem e nem seu nome.

Naquela noite Ciel foi dormir pensando na única coisa incomum que aconteceu no seu ano monótono: derrubar um cara estranho numa calçada. Mal sabia ele que daquele momento em diante, seus dias seriam tudo, menos monótonos.

Notas finais do capítulo
Não acontece muita coisa nesse primeiro capítulo..mas acontecerá com certeza. Mesmo assim.. Obrigada por ler ^^ Comente se gostou *_*




(Cap. 2) Meu Novo Amigo: o cara mais legal do mundo!

Notas do capítulo
Pra quem leu, aqui está o segundo capitulo. Beeeem maior. Boa leitura ^^ comentem onegai *3*

Capítulo 2 – Meu Novo Amigo: o cara mais legal do mundo!

Sonhou com penas. Milhares e milhares de penas negras. Sentia frio e estava no escuro. Mas não era um pesadelo, pois se sentia muito bem. Era apenas mais um de tantos sonhos góticos que tinha. Seria só ele ou haveria por aí, em algum lugar do mundo, outra pessoa que sonha com a escuridão? Que se joga para a noite em vez de fugir dela. Ele gostava do dia, claro. Mas seria ele o único a desejar a noite? A única coisa da qual Ciel tinha certeza era de não ser como os outros jovens de sua idade. Vai ver todo jovem acha isso.

Ao acordar, a primeira coisa que lhe veio à mente foi “O Sem Nome”, como passou a chamá-lo por desconhecer a identidade do cara que “atropelara” na Rua Barnabas no dia anterior. Tomou café as pressas e saiu correndo de casa, apenas dizendo que tinha que chegar cedo à escola. Na realidade esperava encontrar O Sem Nome logo pela manhã. Ele parecia jovem, então, ou ele estaria na faculdade ou no trabalho. De uma forma ou de outra, talvez ele passasse por ali novamente. Ciel esperou uns 20 minutos na rua do dia anterior e, já aborrecido, decidiu seguir para a escola antes que chegasse atrasado.

– Ei, Ciel! Você assistiu ao noticiário de ontem? Seu pai falou alguma coisa? Eles já têm alguma suspeita? – um colega de turma foi logo bombardeando, acompanhado por vários curiosos.

– Bem...

– Cieeeeeel! – Liza chegou pulando em seu pescoço, interrompendo os meninos. – Bom dia! Olha só, fiz do jeito que você disse, obrigada. Escuta Ciel eu gostaria de agradecer... hum..., o que você vai fazer no...

– Muito bem, pessoal todos para seus lugares e em silêncio. – O professor de História chegou interrompendo a todos.

Durante o intervalo, Ciel escondeu-se na biblioteca. Mesmo que os alunos o seguissem até lá, não poderiam fazer barulho. Sempre que Ciel não estava para conversas e interrogatórios, fugia para lá. O que acontecia com muita frequência. No fim da aula, Ciel escapuliu antes que fosse seguido por Liza ou qualquer um. Chegou à Rua Barnabas e ficou esperando, apertando o pendrive na mão. Após cinco minutos, já estava aborrecido. Após 10 minutos, já insultava O Sem Nome mentalmente. “Ora, se ele quiser o pendrive que me procure” pensou, e seguiu caminho irritado. Embora soubesse que o dito rapaz não tinha a real obrigação de aparecer. Nem culpa por não aparecer.

Caminhava rapidamente e distraído atravessou a rua. Tão absorto estava em sua irritação que não viu um carro vindo em sua direção. Espantou-se com a buzina que o mandava sair da frente, mas seu corpo não se movia.

Sentiu alguém segurar em seu braço direito e o puxar para trás. Tão rápido foi, que viu o carro passar a centímetros de seu corpo. Seu coração quase saía pela boca. Ciel foi puxado para a calçada e sentiu uma mão sobre o seu peito.

– Calma, respire devagar. Está tudo bem – o homem o acalmava. Aos poucos a respiração de Ciel se normalizou. – Eu disse “tenha cuidado”, mas pelo visto você é meio rebelde – dizia ele sorrindo.

– Obrigado – respondeu envergonhado, afastando-se do rapaz, o qual tinha os cabelos negros caindo sobre o rosto, trajava roupas cinza e um casaco preto, tinha um visual meio esporte, meio social. Segurava uma bolsa tipo pasta na cor preta. – Ah, eu queria te devolver isso.

Ciel estendeu o pendrive para o rapaz mais velho.

– Muito obrigado! Meu trabalho está nesse pendrive. Espera, você veio aqui para me devolver isso? – Ciel assentiu. – Então você foi quase atropelado por minha culpa. Posso me desculpar de alguma forma?

– O quê?! Não precisa. Você acabou de salvar a minha vida.

– Não, não. Não fiz mais que minha obrigação. Além do mais, se eu não recompensá-lo de alguma forma me sentirei culpado – o rapaz levou a mão ao queixo fazendo uma pose de quem estava pensando em algo. – Já sei! Logo aqui perto fica um café que eu gosto muito. Eles são especialistas em chá e têm um ótimo bolo de chocolate. Vamos, eu pago uma fatia pra você.

O bolo de chocolate gratuito deixou Ciel tentado. Mas achou melhor recusar.

– Não, obrigado. Realmente não é necessário.

– Quer saber, eu salvei a sua vida. Então tecnicamente você está me devendo. – Ciel levantou uma sobrancelha surpreso pela audácia do homem. – Aceite o convite e eu considerarei a dívida paga. Estaremos quites... Não aceitarei um não como resposta. Venha!

Ciel relutou um pouco, mas acabou seguindo o homem. Mais pela curiosidade, afinal ainda não sabia o nome dele, do que pela chantagem cretina. Os dois caminhavam lado a lado. Vendo que o garoto permaneceria em silêncio, o homem resolveu puxar conversa.

– Não nos apresentamos ainda. Eu sou Sebastian Michaelis, prazer – disse estendendo a mão para o jovem.

– Sebastian? É bem diferente. Não há muitas pessoas com esse nome. – Na verdade ele nunca conhecera alguém com esse nome. – Nome legal. – Declarou Ciel sentindo-se constrangido pela própria indiscrição e pelo sorriso que o Sebastian esboçava.

– Que bom. Bem, você ainda não me disse o seu.

– Valentine. Ciel Valentine.

– Tenho certeza que seus pais te deram esse nome por causa de seus olhos. Estou certo?

– Não sei, nunca perguntei nada sobre isso.

– Ah, mas acredito que estou certo. No momento em que sua mãe viu seus olhos azuis como o céu, ela encontrou o nome pelo qual iria chamá-lo. Não existe no mundo nome mais apropriado para você.

– O-obrigado. – Ciel disse meio sem jeito, sentindo agora algo que nunca sentira até então: orgulho do próprio nome. E, ao mesmo tempo, uma sensação de estranhamento.

– Posso chamá-lo apenas de Ciel?

– Sim.

Duas quadras depois chegaram a um pequeno e aconchegante café chamado Darjeeling Chá. A decoração do lugar era em estilo vitoriano. Havia cortinas de cor azul pastel nas janelas. Nas mesas, toalhas brancas. No centro delas um fino e alongado vaso de vidro transparente com uma rosa vermelha dentro. As xícaras eram de porcelana e os talheres de prata. O lugar inteiro cheirava a requinte. Tudo pareceu muito agradável aos olhos do jovem. Ciel se perguntava como nunca conhecera aquele lugar tão próximo de seu caminho diário. A resposta era simples. As pessoas que ele conhecia não apreciavam lugares assim e ele nunca passara pela rua em que o café se situava.

– Boa tarde amo Sebastian! Quem é seu amigo? – Perguntou a garçonete, vestida ao estilo Lolita. Um vestido verde escuro cheio de babados, com um avental branco. Tinha olhos verdes e cabelos ruivos cacheados. Fitava Ciel com curiosidade e admirava descaradamente Sebastian.

– Este é Ciel. Ciel esta é Ruby. Ela sempre me serve quando venho aqui.

– Ai, amo Ciel, amei seus olhos! É tão fofo! Ele não é fofo? – Ciel estava completamente vermelho e Sebastian ria obviamente da reação do garoto. – O que vão pedir?

– Dois chás, o mesmo de sempre. E uma fatia de bolo de chocolate, por favor.

– Um minuto só. Com licença, amo Ciel, amo Sebastian. – Ruby fez duas breves reverências e saiu.

– Por que ela fica nos chamando de amos?

– É tradição do café. Todas as garçonetes chamam os clientes de amo. Como se fossemos os seus patrões – Sebastian apoiou a cabeça na mão esquerda, olhando Ciel meio de lado. – Vejo que você não está acostumado a receber elogios. Tem que ser menos tímido se quiser conquistar uma garota.

– O QUÊ?!!

– Acalme-se... – Disse sorrindo. – Não quis ser indiscreto foi apenas uma dica. Está na escola, não é? Estava de uniforme ontem e hoje. Que série você faz?

– O último ano do Ensino Médio.

– Quantos anos você tem Ciel?

– Dezessete... Quase dezoito. – Respondeu Ciel fugindo dos olhos castanhos rubros.

– Que bom. Gosta de ler, Ciel? É raro encontrar jovens que gostem, mas você gosta?

– Na verdade, eu leio muito.

– Sério? Que tipo de história te agrada? Eu sempre leio mistério ou romance policial... adoro Sherlock Holmes, Arsene Lupin...

– Mesmo? Eu também! Li todas as aventuras deles, eu tentava resolver os casos antes de chegar ao final do livro.... Já leu Agatha Christie? Ela é muito boa também, desfechos impressionantes!

– Sim, tenho todos os livros dela.

– Todos?! Eu pego emprestado na biblioteca da escola, mas não há a coleção completa lá.

– Se você quiser, posso te emprestar.

– Tá falando sério?

– Sim. Olha, acabei de ler esse. – Sebastian tirou um livro da pasta. “Os Elefantes Não Esquecem”, a história é muito boa. Basicamente Poirot tem que resolver um Arquivo Morto, tem que contar com a memória de três testemunhas e no fim ele descobre que antigos pecados deixam marcas profundas. Você já leu?

– Não. Vai mesmo me emprestar? Você nem me conhece direito. Como sabe que eu não vou sumir com o livro?

– Ora, Ciel. Você me devolveu um pendrive que eu não tinha como saber onde tinha perdido. Considere como um empréstimo de amigo. Quando me devolver ele, eu te empresto outro. Assim terei uma desculpa para te ver novamente. Afinal, não é todo dia que encontramos pessoas que compartilham os mesmos gostos literários. Poderemos conversar sobre os livros. Concorda?

– Como eu te encontro?

– É só me procurar aqui, no Darjeeling Chá.

Ciel ficou olhando para o livro em suas mãos.

– É só um livro, Ciel. Aceite o empréstimo, não seja orgulhoso. Eu realmente gostaria de vê-lo novamente. Sou novo nessa cidade, seria bom ter um amigo com quem conversar.

– Eu vou ler o mais rápido que puder.

– Isso é um sim? Você tem realmente um gênio forte!– Sebastian disse sorrindo.

Ciel iria dar uma resposta, mas Ruby voltou trazendo os chás e o bolo. Sebastian preferiu só o chá e insistiu que Ciel provasse o bolo. Ruby também estava ansiosa pelo veredicto do garoto. Ciel provou. Estava maravilhoso.

Depois de discutirem os métodos de investigação de Sherlock Holmes comparados aos de Hercule Poirot, Ciel despediu-se de Sebastian e voltou para casa apertando o livro contra o peito. Em todos esses anos, Ciel nunca encontrara alguém que gostasse de ler os mesmos livros que ele. Ou alguém com quem pudesse conversar sobre assuntos que lhe interessava. Quem na escola poderia analisar a maneira como Agatha Christie descreve o psicológico de seus personagens? Liza com certeza não. Seria bom ter um amigo assim e Sebastian não parecia ser má pessoa. E ele ainda lhe emprestara um livro. Das duas uma: ou Sebastian é um idiota carente ou ele é o cara mais legal do mundo. Pois, que outra razão ele teria para ser tão amigável com Ciel?

Naquela tarde, Ciel andou o mais rápido que pode. Queria chegar logo em casa por duas razões. Primeiro porque não era seguro estar pelas ruas depois de anoitecer, ainda mais sendo filho de quem era. E segundo, porque queria começar a ler o livro. Não via a hora de pegar outro emprestado.

Notas finais do capítulo
Notas importantes ( eu acho): O Sem Nome: é uma homenagem ao personagem Sem Rosto/ Sem Face de A viagem de Chihiro, que usa uma máscara sempre com a mesma expressão, não é possível saber como é seu rosto verdadeiro e se ele possui um realmente. Como não sabemos qual o verdadeiro nome do Sebby ,pois ele sempre usa um falso...... daí o apelido. Rua Barnabas: em homenagem ao mais novo personagem do meu amado Johnny Depp, o vampiro Barnabas Colin. Darjeeling Chá: a inspiração pro nome do café rococó da minha fic veio de um chá inglês de mesmo nome. Ruby: eu já havia criado a garçonete ruiva, mas precisava de um nome pra ela. Assistindo Once Upon a Time vi a Ruby/ Chapeuzinho Vermelho, Também garçonete, perfeito! Eu pensei. antigos pecados deixam marcas profundas: é uma frase muito legal, mas não é minha, é do livro Elefante Não Esquecem, que o Sebby emprestou pro Ciel.




(Cap. 3) Sangue e Diálogo

Notas do capítulo
Fiz o máximo que pude pra postar esse capítulo hoje, embora já passe e muito da meia noite. Não sei se ficou muito bom, mas espero que vocês gostem (roendo as unhas) Boa Leitura!! o/

Capítulo 3: Sangue e Diálogo

Dormia profundamente quando escutou alguém o chamando ao longe. A voz parecia estar cada vez mais alta ou talvez fosse ele voltando à consciência.

– Ciel. Hei, Ciel acorde! – sua irmã o sacudia, pegando o livro que passara a noite sobre o garoto. – Levanta ou vai se atrasar. Você passou a noite toda lendo? Que horas você foi dormir?

– Não sei, quatro da manhã talvez – disse esfregando o olho direito com o dorso da mão enquanto sua irmã fazia uma expressão espantada.

– O olho está doendo, não é? Você sabe que não pode ficar forçando a visão desse jeito. Só você mesmo pra passar a madrugada lendo. Se seu olho piorar vai ter que usar óculos. Já imaginou? Ficaria igualzinho ao Harry Potter, hahahaha!!! – a garota ria alto.

– Cala boca, Angie! Você não tem que ir para faculdade não? – Ciel gritava, irritado, jogando o travesseiro na irmã.

– Tenho, mas não sem antes importunar meu irmãozinho caçula favorito – Angie esmagava Ciel num abraço enquanto depositava um beijo na bochecha do rapaz, que tentava se desvencilhar do aperto e da chuva de cabelos lisos e laranjas que caíam sobre ele.

– Eu sou seu único irmão... pelo menos por enquanto. Tá, tá, pode parar. Vai continuar a fazer isso até quando? Não sou mais criança.

Angélica tinha 25 anos e ainda assim parecia ser mais imatura que Ciel. Ela era muito diferente dele. Angie herdara a beleza da mãe. Os mesmos cabelos alaranjados. O mesmo tom claro de pele. Elas tinham olhos azuis, assim como os de seu pai, azul acinzentado, muito diferente do intenso azul dos olhos de Ciel. Angie se levantou e caminhou até a porta sorrindo.

– Que livro é esse? – Angie tentou espiar e Ciel lhe mostrou a capa para que lesse o título. – Pegou na biblioteca de novo?

– Não... Um amigo me emprestou. Conheci-o ontem à tarde.

– Foi por isso que chegou tarde ontem? Se te emprestou o livro assim quer dizer que confia em você. Que garoto legal!

– Eeeeé mesmo.... – Ciel concordou desviando o olhar para direita, se perguntando por que não corrigira a irmã, pois Sebastian não era um garoto.

– Quer saber, sábado nós iremos ao cinema, ok? Dar uma volta, curtir um pouco; a gente não pode passar o resto da vida preso em casa. Pode levar uns amigos se quiser, mas não convida muita gente não, sabe como é... A verba não está tão boa assim. Fui! – saiu do quarto jogando um beijo.

Por mais maluquinha que Angie fosse, Ciel realmente gostava dela. Se existia alguém nesse mundo de quem Ciel tinha certeza de gostar, esse alguém era sua irmã.

Ciel tomou banho e se vestiu em menos de 10 minutos. Tomou um copo de suco de laranja e saiu correndo, ignorando os protestos da mãe.

– NÃO VAI DESMAIAR PELO CAMINHO, MENINO!

Ciel passou pela Rua Barnabas não conseguindo evitar olhar para todas as direções. Nem sinal de Sebastian.

Quando voltava da escola, acompanhado pela falação de Liza, também não o viu. Talvez ele estivesse no Darjeeling Chá. Mas acabou por decidir só procurar Sebastian quando tivesse terminado o livro, o que não demoraria. Mas também não viraria a noite novamente, pois seu olho ainda doía.

– Algum problema Ciel? – Ciel, sem perceber, havia parado e ficado olhando para a direção da rua que levava ao café.

– Não é nada.

– Ciel... O que você vai fazer no sábado?

– Vou ao cinema com a Angie. – Ciel notou que a garota ficou muito triste. Impulsionado pela repentina pena, Ciel suspirou. – Ela disse que posso levar alguém, quer ir?

– Posso mesmo? Eu adoraria! – Disse pulando sobre ele. Talvez ter Liza e Angie no mesmo lugar não dê muito certo, já começava a se arrepender. Só de imaginar as duas o apertando.

De repente, Liza afrouxou o abraço e sussurrou em seu ouvido. A voz da menina transparecia medo. Ciel a afastou e se virou para ver o que ela olhava.

Uma multidão de pessoas se formava numa esquina adiante. Era possível escutar a sirene da polícia ao longe. Ciel caminhou até lá para ver o que acontecera. Abrindo espaço entre as pessoas, Ciel pôde ver num beco sem saída uma moça caída no chão, tinha o vestido branco todo ensanguentado. Ciel nunca vira tanto sangue e ainda assim ela ainda respirava. Ciel teve uma estranha sensação. Podia sentir o cheiro da morte. A moça abriu os olhos e tentou dizer algo, olhou para o lado. Ciel acompanhou seu olhar e viu um homem num canto do beco.

O homem olhou diretamente para ele. Era alto, seus cabelos eram castanhos claro e os olhos verdes. “Ela ainda está viva!”, “Está tentando dizer algo!”, “Quem fez isso?” diziam as pessoas ao redor da moça. Ciel olhou novamente para ela. Já estava morta. Voltou os olhos para o canto mais o homem havia desaparecido. Correu os olhos ao redor, mas ele não estava mais ali. Os carros de polícia já estacionavam.

– Ciel! – ouviu Liza chamar e voltou para a garota. – Estou com medo. Será que ela é outra?

– Não se preocupe... É melhor irmos pra casa.

Mal se afastaram da multidão que ficava cada vez maior, ouviram a buzina de um jaguar preto, que estacionou ao lado deles. O vidro foi baixando aos poucos, revelando Sebastian.

– Entrem. Eu dou uma carona até a casa de vocês.

– Não é necessário. – Ciel respondeu e Liza ainda amedrontada demorou um pouco até lembrar-se do rosto de Sebastian.

– Nem pensar – dizia ele em tom sério, saindo do carro e abrindo a porta para que eles entrassem. – Não vou deixar vocês andando sozinhos por aí, o assassino daquela moça pode estar por perto. Vamos, entrem.

– Ciel? – Liza agarrou seu braço. As mãos dela estavam geladas, parecia insegura em relação à Sebastian. Ciel olhou firmemente para Sebastian, como se tentasse ler sua mente. De alguma forma sentiu verdade nele.

– Tudo bem, Liza. Entre.

Os três entraram no carro e Ciel deu as instruções de como chegar à casa de Liza. Quando saiu do carro, Liza lançou um último olhar para Sebastian e disse ao Ciel: “me liga quando chegar”, e entrou no jardim da própria casa..

Ciel sentou no banco da frente e percebeu que Sebastian sorria.

– Qual é a graça?

– Nada. Só que ela desconfia de mim. Provavelmente ela acha que vou sumir com você.

– E não deveria suspeitar por quê?

– Me diga você. Também suspeita de mim?

– Não sei. Conheci você outro dia. Poderia ser um bandido, um assassino, um psicopata, um pedófilo, sei lá...

– Mas como eu seria um pedófilo, você não é mais criança, é
Ciel? – Sebastian esboçava um sorriso muito enigmático.

– Mas que raios de pergunta é essa?! – o rosto do rapaz era um misto de raiva e vergonha.

– Foi você quem começou... – Sebastian ria, parecia se divertir com a confusão do garoto. Parou o carro no acostamento e se virou para ele. – Não é necessário temer a mim. Eu nunca machucaria você.

– Então pare de falar tolices, idiota! – disse bufando. Embora não estivesse com medo de Sebastian, Ciel sentia-se um pouco desconfortável, pois estavam somente os dois no carro e não havia uma só pessoa na rua.

– Você continua igualzinho. Vai me dizer onde você mora ou pretende passar a noite aqui? – Ciel apontou a rua e Sebastian deu partida no carro. – Eu pensei que você fosse aparecer, afinal selamos um acordo, não foi?

– O quê?.... – Ciel não entendeu por um momento o que Sebastian quis dizer, mas o homem o ajudou a lembrar de que concordara em dar sua amizade em troca dos livros, isso lhe pareceu meio estranho pensando dessa forma. – Ah, bem , ainda não terminei o livro. Além disso, você me enrolou. Não me disse nada sobre você ontem. Como espera que eu não fique imaginando coisas?

Sebastian parou o carro novamente, para poer conversar melhor com o jovem.

– Eu não tenho família. Morreram há tempos, mas não se incomode com isso. Sou herdeiro das Indústrias Midford, o que me traz benefícios monetários e incômodo trabalho empresarial. Tenho 26 anos. Morava em Londres, mas mudei-me para cá há um mês a negócios. Achei Liverpool uma cidade muito bonita. Mas confesso que essa vida de empresário não me agrada, não conhecia ninguém além de um bando de acionistas gordos e hipócritas até você cair em cima de mim. Pode até parecer deprimente alguém da minha idade fazer amizade com um colegial, mas fazer o quê se não conheço ninguém aqui. Mas alguma coisa que gostaria de saber?

– Sou só um quebra-galho seu? Um passatempo? É isso? Não gosto que brinquem comigo, não tolero que me desrespeitem, nem que mintam pra mim – disse levando a mão em direção à porta do carro, mas Sebastian o impediu, segurando seu pulso.

– Não foi o que eu quis dizer. Se é tão importante pra você, prometo ser sempre sincero. Olha Ciel, eu só me relaciono com pessoas que realmente valham a pena, que mostrem ter algum valor ou potencial. Você é uma dessas pessoas. Na verdade diria que você é uma alma única. Existe algo de especial em você, só ainda não percebeu. Pessoas como você estão destinadas a muito mais. Eu sei disso.

– Você é estranho. Só diz coisas sem sentido. Então, vai me levar pra casa ou pretende que eu passe a noite aqui?

– Isso você é quem decide. Se for da sua vontade.....

Sebastian sorriu e pôs o carro em movimento novamente, era melhor não importunar tanto o menino ou ele poderia ficar realmente bravo. Ciel o observava pelo canto dos olhos, não sabia qual a real intenção dele com aquelas palavras ou o que ele poderia interpretar delas. Ciel se perguntava por que permitia que Sebastian se aproximasse dele, sendo que sempre escolheu se reservar de todos. Não conseguia definir bem uma resposta, mas algo em Sebastian lhe era agradável, algo nele lhe despertava curiosidade. Não entendia por que se sentia tão à vontade na companhia de alguém que acabara de conhecer, quando tentava a todo custo fugir dos colegas de classe que praticamente cresceram com ele. Fora Liza e Angie, ninguém lhe passava confiança. Lembrou-se então do passeio com Angie, será que deveria convidá-lo?

– Sebastian.......... Este sábado, minha irmã e eu vamos ao cinema, gostaria de ir? Eu poderia lhe mostrar a cidade. – Falava e olhava para os dedos da própria mão. Sebastian olhou para ele por alguns segundos, não tinha expressão, apenas o observava. Nesse momento, Ciel notou que Sebastian fazia isso, às vezes; gostaria de saber o que se passava na cabeça dele.

– Neste sábado? Se estiver tudo bem pra sua irmã, eu adoraria ter você como guia turístico – Sebastian deu mais um de seus sorrisos e olhou pela janela do carro. – Essa é a sua casa? Chegamos.

Ciel agradeceu a carona e já ia saindo do carro quando Sebastian o mandou esperar enquanto escrevia em um papel.

– Pegue, é o número do meu celular. Se precisar de qualquer coisa ou quiser falar qualquer coisa, mesmo que seja pra dizer qual capítulo do livro você está lendo, me liga.

– Não prometo nada, não tenho tempo pra ficar ligando.

– Que seja – disse dando de ombros. Dessa vez foi Ciel que ficou o encarando e por fim falou:

– Não vai querer o meu número?

– Não preciso, eu sempre acharei você. E, a propósito, tenha bons sonhos!

Sebastian sorriu, deu um até amanhã e foi embora deixando Ciel mais confuso ainda. Definitivamente Sebastian era um cara estranho.

Naquela noite, mesmo tendo presenciado uma cena tão horrível quanto a da garota morta, sonhou que apostava uma corrida a cavalo num imenso e verdejante descampado. Podia até sentir o vento em seus cabelos, o calor do sol em sua pele, o sangue nas veias, seu coração batia acelerado, ria verdadeiramente. Os dois cavaleiros avançavam pelo campo, um sorrindo para o outro. Nunca se sentiu tão vivo. Um delicioso piquenique lhe esperava no topo da colina, e este marcava a linha de chegada. Se ganhou a corrida ou não, se apreciou o piquenique ou não, nunca saberia, mas seu rival, o outro cavaleiro, era alguém já conhecido. Seu oponente: Sebastian.

Notas finais do capítulo
NOTA: A casa do Ciel não fica tão longe da casa da Liza....Sebastian estava dirigindo devagar de propósito *-* Gostaria de agradecer as reviews que me deixaram nos dois primeiros capítulos *3* amei elas...se continuarem gostando o 4 sai logo. obrigada por ler. E se vc gostou, não custa nada dizer, né? =^.^=




(Cap. 4) Desventuras

Notas do capítulo
Olá Lindas o/ Embora já soubesse exatamente o que ia escrever nesse capitulo, ele demorou pra sair, levou dois dias, mas prometi pra hoje e aqui está ^^ li e reli várias vezes, não sei se ficou muito bom...mas espero que vcs gostem*3* é o maioooor capitulo escrito até agora, ainda pensei em dividir em dois mas preferi deixar assim, pelo título vcs vão perceber pq *-* boa leitura*-*

Capítulo 4: Desventuras



Ciel parou na porta do Darjeeling Chá e dali pôde ver Sebastian sentado numa mesa ao canto esquerdo, estava de costas para a porta. Era por esta razão que Ciel nunca o encontrava na Rua Barnabas pela manhã, Sebastian tomava o café da manhã no Darjeeling. Começou a aproximar-se evitando fazer muito barulho com os pés, queria surpreendê-lo.

– Então quer dizer que você é um tipo de riquinho mimado? - Ciel provocou sentando-se a mesa. Sebastian sorriu quando o viu.

– Não, esse papel não me pertence.... Terminou o livro?

– Sim, mas não me enrola, não. Hoje, eu faço as perguntas, você responde.

– Sim, meu lorde – Sebastian falou ironicamente, empertigando-se na cadeira.

– Você é todo cheio de gracinha não é? Eu mereço, isso é o que dá falar com estranhos.

– Perdão, eu esqueci que você é do tipo sério. Pensei que tinha sanado todas as dúvidas ontem.

– Não. É realmente o dono das Indústrias Midford? É uma corporação bem antiga e rica. E você não tem cara de empresário.

– Verdade. Mas sou sim, mas apenas de uma parte. Por isso é Indústrias "Midford" e não Indústrias "Michaelis". São várias empresas de roupas, brinquedos, comida espalhadas pela Europa, enfim, apenas uma porcentagem cabe a mim. Uma porcentagem grande até. Por isso não preciso me envolver tanto com esses assuntos chatos, no entanto, tenho que cumprir ordens, garantir que as coisas continuem funcionando conforme o combinado.

– O que você faz quando não precisa trabalhar?

– Ah, um interrogatório. Um pouco disso, daquilo e daquilo outro...

– Isso não responde absolutamente nada!! – alterou-se um pouco.

– Ando por aí, leio, venho ao Darjeeling, vejo você, jogo xadrez.

– Joga xadrez? Duvido que seja melhor do que eu.

– Quer apostar? Podemos marcar uma partida. Mas vou logo avisando que não vai ser fácil me derrotar, eu....

Estranhamente Sebastian parou de falar. Seu rosto se moveu alguns centímetros para a esquerda e olhava para o nada. Sua expressão adquiriu um ar mais rígido. Ciel teve a estranha sensação de que estava falando com as paredes.

– Sebastian? – Ciel chamou-o. – Está tudo bem?

– Sim – Sebastian olhou para Ciel daquele jeito estranho novamente, mas com um semblante meio tristonho. – Eu vou ter que ir agora, Ciel; nos vemos no final do dia, certo? – Ciel assentiu. Sebastian pagou a conta e saiu. O que será que aconteceu? Teria Ciel dito algo que o desagradou?

Ruby viu Ciel sentado na mesa com uma aura estranha e se aproximou. E lhe falou num tom muito sério, como se segredasse algo.

– Michaelis já lhe contou?

– Contou o quê?! – não vira a ruiva chegar. Esta arregalou os olhos, depois sorriu e começou gesticular estabanadamente.

– Q-que nós temos um novo super sabor de bolo de chocolate com morango... hahahahaha... N-não gostaria de provar antes de ir pra escol...

– Raios! A escola! – olhou para o relógio no pulso, já estava atrasado. – Droga, droga, droga! Maldito Sebastian, me atrasei por culpa dele.

A aula já havia começado. O professor já falava. Quando viu Ciel na porta, Liza tentou distraí-lo. “Professor, pode me explicar esse assunto?”. Era em momentos assim, que Ciel se lembrava de porque ainda aturava a garota, apesar de tudo, por mais que o perturbasse ela era realmente amiga. Era o que importava no final.

– Chegando atrasado senhor Valentine? – Ciel estava a alguns passos da sua cadeira, quando a voz do professor trovejou, percebera a chegada do aluno sem nem desviar o rosto do livro de Liza. – Não se esqueça de pegar a sua detenção na minha mesa no final da aula, mas agora vá logo para o seu lugar e pare de interromper a minha aula.

Ciel amaldiçoava quem colocou a aula do irredutível professor de Língua Inglesa no primeiro tempo. E na sexta-feira! Era muito azar. Liza lhe lançou um olhar de “sinto muito” e Ciel respondeu com um olhar de “tudo bem”.

Ciel passou o dia aturando as piadinhas do insuportável Ivan Mason, que não perdia qualquer oportunidade pra dizer “O senhor perfeito ficou de castigo!” ou qualquer outro tipo de brincadeira irritante. O secto de idiotas que sempre o rodeava caía na gargalhada claro.

Por conta da suspensão, Ciel foi o último aluno a sair da escola. Seus passos ecoavam pelos corredores frios e vazios. Sentiu novamente aquele cheiro de morte. aquilo o deixou em alerta. Virou-se. Teve a estranha sensação de estar sendo observado. “Quem está aí?”, ele disse em voz alta, mas tentando não parecer amedrontado ou paranoico. Não houve resposta. Apurou sua audição o máximo que pode, mas não conseguiu ouvir nenhum barulho além daquele provocado por sua respiração. De repente, sentiu uma presença atrás de si.

Virou-se e deu de cara com o estranho homem do beco sem saída. Incomuns olhos verdes. Ele olhava por cima de sua cabeça e falou ainda sem olhar para Ciel:

– Sinto cheiro de pecado.

O homem então baixou os olhos para Ciel, sem mover a cabeça. O garoto sentiu seu corpo congelar. O estranho se dirigia a ele ou não? BAM! Ouviu uma forte batida no fim do corredor. Som de vidro se partindo. Virou-se, mas não viu nada. Voltou-se para o estranho, no entanto, este desaparecera novamente. Sentiu sua visão embaçar, esfregou os olhos com as mãos. ficou curioso, mas algo lhe dizia que não era sensato continuar ali. Seguiu para a saída correndo. Quando estava quase na saída da escola, esbarrou em alguém espalhando livros no chão. Era a bibliotecária da escola.

– Senhorita Bathory?!

– Senhor Valentine, o que faz aqui há essa hora? – Perguntou a mulher ajeitando os óculos e pegando os livros. Tinha cabelos castanhos escuros e olhos negros.

– Fiquei de detenção. – Olhou para trás, mas não viu nada.

– O que houve? Parece nervoso.

– Não foi nada – achou melhor não mencionar caras que aparecem e somem do nada.

– Certo então. Poderia me ajudar a levar esses livros até o carro?

– Claro.

– Obrigada.

Ciel acompanhou Bathory até o carro, guardaram os livros no porta-malas despediu-se da professora, deu uma última olhada na escola e praticamente fugiu para o Darjeeling Chá. Será que estava ficando maluco? Não é possível que tenha imaginado tudo.

Entrou no café, mas não havia sinal do Sebastian. Procurou Ruby mas não a encontrou também. Perguntou a outra garçonete.

– Ruby teve que sair. Você é o amo Valentine?

– Sim. Ciel Valentine.

– Ruby disse pra lhe entregar isso quando viesse – a moça pegou um livro e um bilhete atrás do balcão e entregou a ele.

O livro se chamava Punição Para a Inocência e o bilhete era de Sebastian. Ciel desdobrou o papel e começou a ler.



Caro Ciel,



Estou cumprindo minha parte do acordo. Aqui está outro livro. Narra a história de um jovem que é preso por um crime que não cometeu. Infelizmente não poderei comparecer hoje. Nossa partida de xadrez fica pra próxima. Vemo-nos no cinema amanhã. Por favor, me mande uma mensagem com o endereço do cinema que sua irmã escolheu. Pois como espera que eu compareça se não me informou isso?

Mil desculpas

Sebastian



Ciel podia até imaginar o sorriso irônico do moreno dizendo aquilo. Deslizou os dedos delicadamente sobre o nome Sebastian. “Até a letra dele é perfeita” ele pensou. Realmente, era uma letra muito bonita, fina e meio deitada para a direita. Ciel dobrou o bilhete, guardou dentro do livro e foi para casa.



Já em seu quarto, de pijama e de banho tomado, Ciel abriu a gaveta do guarda-roupa e pegou uma caixinha vermelha. Tirou um pedaço de papel dela. Olhou o número que estava escrito ali, salvou em seu celular e mandou uma mensagem informando o endereço do cinema. Colocou o bilhete e o pedaço de papel dentro da caixinha, a devolveu para seu lugar no guarda-roupa, pegou o livro, deitou-se na cama, deu uma última olhada para o celular sobre o criado-mudo e começou a ler.

.

.

.



– Quantas pessoas você convidou, Ciel? – indagava Angie já na porta do cinema.

– Duas – Ciel ainda achava que devia ter ficado em casa e cancelado com Sebastian e Liza. Seu olho ainda o irritava.

– Só isso? Eu falei que a grana era pouca, mas também não tô pobre não maninho! Assim não dá nem pra fazer bagunça. Se eu soubesse que você ia convidar só isso de gente tinha chamado uma galera da Facu.

– Até parece que você não me conhece – Ciel falava com o ar desinteressado de sempre.

Logo Liza chegou num vestido rosa e jaqueta branca. Os cabelos loiros soltos com cachos. “Boa noite Ciel!”, ela o cumprimentou com um beijo no rosto.

– Eeeeeê, olha só quem chegou arrasando! – Angie segurou a mão de Liza e fez a garota girar para exibir a roupa. – Tá linda, fofa!

– Sério? – os olhos de Liza brilhavam de tão orgulhosa. Ciel suspirou impaciente.

– Acho que já podemos entrar, né?

– Calma maninho. Seu amigo ainda não chegou e eu ainda vou....xiiiii, não comprei os ingressos ainda. Esperem aqui, já volto.

Pela primeira vez, Liza não disse nada. E eles esperaram alguns minutos num silêncio constrangedor, até Angie voltar.

– Pronto. Tava tudo esgotado, mas consegui ingresso para um filme que estreia hoje. É censura 18, mas a Liza já completou 18, você e seu amigo podem entrar comigo. O nome é “Dança Proibida”.

– Do que se trata o filme? – Ciel perguntou olhando para o relógio.

– Aaaaah..... – Angie olhou para os lados encabulada, coçou a cabeça – é sobre uma garota que quer aprender uma dança, que ela não pode dançar....é um filme de superação...ela aprende a dançar a dança. Essas coisas.

– Muito interessante – Ciel disse sarcástico.

– É musical? Amo musical – Liza saltitava.

– Liza, O Fantasma da Ópera é um musical, High School Musical é só um filme com música – Ciel parecia entediado.

– Qual a diferença?

– MEUDEUS! Para tudo! Quem é aquele deus da perfeição vindo pra cá?

Ciel e Liza se viraram.

– Aquele é Sebastian.

– O quê?! Eu pensei que ele fosse um adolescente de 17. Apresenta o gato.

– Boa noite, Ciel – Sebastian o cumprimentou primeiro.

– Está atrasado.

– Tive que terminar um trabalho antes de vir. Deixe-me adivinhar, você deve ser a belíssima irmã do Ciel – cumprimentou Angie.

– Angélica Valentine, prazer. Mas, pode me chamar de Angie.

– Acho que já conheço a senhorita.

– Sim, Elizabeth Wilson. Desculpe não ter me apresentado direito.

– Sem problema. Ciel tem sorte de ter uma amiga tão bela – Ciel teve a impressão de que Liza fosse explodir.

Os quatro compraram refrigerante. Só Ciel não quis pipoca. Entraram na sala de exibição e foram procurar os acentos.

– Posso sentar do seu lado, né Ciel? Liza perguntou.

– C-claro.

E sentaram-se respectivamente Ciel, Liza, Angie e Sebastian. As luzes se apagaram e o filme começou.

Cinco minutos de filme. Ciel imaginou o desfecho da história do livro que estava lendo, e ele ali, assistindo a um diálogo idiota. Sete minutos de filme. Liza segurou seu braço e deitou a cabeça sobre seu ombro. Dez minutos de filme. Mais diálogo sem conteúdo e Ciel se perguntava por que aceitava sair nesses passeios malucos com irmã. Treze minutos de filme. Ciel olhou para Sebastian, mas rapidamente desviou o olhar. Aquele momento em que você é pego pela pessoa que você observava. Quinze minutos de filme. A música começa. A tal dança também.

A personagem começa a dançar para um cara ridículo na opinião de Ciel. Depois ela começa a se insinuar e a tirar uma peça de roupa. Depois, outra e outra. Alguns segundos depois, já partiam pras preliminares. Angie inclinou-se pra ver melhor. Sebastian levantou uma sobrancelha. Liza ficou tão vermelha que tapou os olhos. Ciel cuspiu todo o refrigerante no cara da poltrona da frente.

– QUE RAIOS DE FILME É ESSE! – Ciel gritou. Pegou o canhoto do ingresso e leu o gênero do filme. – ANGIE, SUA DOIDA! VOCÊ TROUXE A GENTE PRA VER FILME PORNÔ? ESSE É SEU FILME DE SUPERAÇÃO?!

– “Sentaí “ Ciel, que que tem, você não é mais criança, é? E o filme fala de superação sim. Você nem viu o final ainda...

– É EU SEI O QUE ELA VAI SUPERAR! – Ciel apontou pra tela e quando olhou, corou, seu dedo apontava para uma parte bem indevida da atriz, desviou os olhos.

“Calem a boca!”, “senta, seu idiota!” “querem sair da frente!”, “ Se não vão assistir não atrapalhem!” “faz silencio aí ruiva!”, gritavam as pessoas enquanto Ciel e Angie discutiam. “Tirem esse moleque daí!”, “Mandem esse idiota calar a boca!”.

– Quem você pensa que é pra chamar meu irmão de idiota? Ele só não gosta do filme, tá! Quer que eu vá aí resolver isso, meu irmão? Shiiii pra vocês também, babacas! Não me mandem calar a boca......

Não deu outra, foram os quatro expulsos do cinema.

– Que foi? – Angie perguntou. Ciel olhava bravo para ela. – Não olha pra mim assim, foi você que começou a gritar. – Angie se sentiu culpada. Sabia que o irmão não gostaria do filme, por isso mentiu quando ele perguntou sobre o enredo. Sabia que ele faria cara feia, mas não imaginou que ele faria aquele alvoroço, Ciel é sempre tão quieto. – Taaaá, desculpa,vai. Eu devia ter perguntado. Perdoa eu?– implorou fazendo cara de cãozinho sem dono.

Ciel suspirou e virou os olhos. Angie sorriu e abraçou o garoto sob protestos “É por isso que eu amo esse garoto”.

– Sebastian, gato, desculpa aí o transtorno – disse a garota enquanto Ciel afundava o rosto nas mãos. A irmã era realmente impossível. – Mas não vamos perder a noite. O que acham de dançar? Tem um clube muito show aqui perto.

Sebastian levou os três no seu carro até a boate. “Já falei que amei esse seu amigo?” segredou Angie a Ciel quando viu o jaguar preto. Entraram no clube e escolheram uma mesa. Angie puxou logo Sebastian pra dançar.

– Você quer dançar Ciel? – arriscou Liza.

– Não gosto de dançar. Você sabe disso.

– Tudo bem, eu fico aqui com você – Liza olhou para Angie e Sebastian na pista de dança. – Sebastian é um cara legal, não é? Como ficou amigo dele?

– Ele me emprestou um livro.

– Ah.... Sabia que fiz aula de dança quando criança? Minha mãe me colocou no balé com 7 anos. Lembra? Fiz um ano e meio, mas definitivamente não era tão boa quanto às outras meninas, então pedi pra trocar, aí eu fiz jazz por.... – Liza realmente não suportava silêncios constrangedores.

– Vamos dançar pessoal? – Ciel se distraiu tanto com a falação da Liza que nem notou que a irmã voltara pra mesa. Ele, claro, disse que não dançaria.

– Eu até queria, mas.... – começou Liza.

– Então vem, garota! Dança comigo enquanto dou uma folga pro Sebastian – e saiu arrastando Liza pela mão. Sebastian sentou-se a mesa.

– Se não gosta, porque concordou em vir?

– Não sei se já percebeu, mais é praticamente impossível dizer não pra Angie. – Ciel dizia entediado.

– Sua irmã é bem decidida de si, não é?

– É um furacão ambulante, isso sim – Sebastian riu da declaração do adolescente. – Eu prometi te mostrar a cidade. Acho que hoje não vai ser possível. – disse massageando as têmporas.

Sebastian viu Ciel provar o líquido do copo, fazer uma careta e afastá-lo com a mão. Não gostava de bebida. Sebastian tirou uma barra pequena de chocolate do bolso interno da jaqueta e ofereceu ao jovem.

– Quer chocolate? – Ciel fez uma expressão esquisita. Sebastian abriu a embalagem quebrou um pedaço da barra e mordeu. – Viu, não está envenenado.

– Me dá logo essa porcaria! – e pegou a barra. Enquanto comia Sebastian falou:

– Sabia que o chocolate pode proporcionar mais prazer do que um beijo? Eu digo que depende do beijo. – Ciel olhou pra ele. – Gostaria de comprovar? – falou sorrindo.

– P-preciso- ir-ao-banheiro – disparou saltando da cadeira. – Com licença.

Ciel levantou-se sem olhar para Sebastian e foi ao banheiro. Ao chegar lá, dirigiu-se a uma pia, apoiando as mãos nas duas extremidades e olhando para o chão. Suas bochechas queimavam. Sentiu seu olho arder. Quando levantou o rosto para o espelho, viu o rosto de uma garota com compridos cabelos pretos e olhos azuis. Cambaleou para trás assustado. Piscou os olhos, viu somente o seu reflexo. Abriu a torneira e molhou o rosto algumas vezes. “Você está enlouquecendo Ciel.”





Angie dançava com Liza e paquerava os rapazes ao lado. Olhou para a mesa e não viu o irmão. Foi direto pra lá com Liza a suas costas.

– Onde está o Ciel?

– Foi ao banheiro – Sebastian respondeu.

– Há quanto tempo?

– Faz uns cinco minutos.

– Por favor, Sebastian. Vai lá ver se ele tá bem? Ciel sempre se tranca quando tem problemas. Se ele estiver passando mal, meus pais me matam.

Sebastian foi procurar Ciel. O garoto estava sentado num canto, tapando os olhos com as mãos. Sebastian se ajoelhou diante dele.

– Está tudo bem?

– Minha irmã te mandou aqui? Humph! Que belo passeio – disse bufando. – Eu perdi minha lente....

– Você usa lente?

– Só no olho direito. Nasci com um problema na retina. Sem a lente, não enxergo nada com esse olho.

– Posso ver? – Sebastian perguntou tirando a mão de Ciel da frente, o menino abriu o olho. Ciel tinha o olho esquerdo intensamente azul, mas a íris e a pupila do olho direito eram opacas, quase brancas.

– É estranho, não é? E tem ardido muito ultimamente.

– Pra mim parecem perfeitos. Eu procuro a lente pra você.

Sebastian apenas pegou algo no chão. Colocou sob a água da torneira e soprou. Ele encontrou tão rápido! Ciel pensou. O garoto estendeu a mão para receber a lente, mas o moreno afastou sua mão.

– Fique parado – ele ajudou Ciel a colocar a lente de volta. Sebastian tinha um perfume agradável. Quase... sedutor, Ciel pode perceber. O jovem olhou a gola da camisa preta contrastando com a pálida pele do pescoço do rapaz, subiu pelo rosto até encontrar os olhos castanhos de Sebastian, que também o observava. – Pronto! Vamos? – Sebastian pôs-se de pé e ajudou Ciel a levantar. Saíram do banheiro.

– O que vocês estavam fazendo? Estava começando a achar que tinham descido pelo ralo!

– Calma Angie. A minha lente caiu. Sebastian me ajudou a procurar.

– Talvez seja melhor irmos pra casa, ele disse que o olho estava doendo. – Sebastian informou.

Mesmo Ciel dizendo que estava bem, Angie não se convenceu e achou melhor irem. Sebastian pôde ver que Angie era realmente muito protetora. Sebastian deixou Liza em sua casa, depois levou Angie e Ciel.

– Adorei a companhia, gato. Nos vemos por aí – despediu-se a ruiva.

– Tchau e boa noite. Boa noite, Ciel – Ciel olhou para Sebastian de um jeito estranho. E seguiu para a porta. Sebastian se perguntava o que teria acontecido.

– Que falta de educação Ciel. Ele foi tão legal. Espero sonhar com ele hoje. Ah, se o pai ou a mãe perguntar, não tinha mais ingresso no cinema. E abafa o caso.

.

.

Sebastian dirigia pelas ruas escuras de Haveshire, antes o bairro mais tranquilo de toda Liverpool. Um homem de casaco marrom esperava na esquina. Sebastian parou o carro e o homem entrou.

– Já recrutou o garoto? – perguntou o homem.

– Ele ainda não está pronto. Não quero cometer o mesmo erro novamente. Não tenho pressa.

– Você pode não ter pressa, mas Londres não pode mais esperar – disse o estranho colocando balas num revolver.

– Não se preocupe, quando chegar a hora... – os olhos de Sebastian se espreitaram perigosamente. – Mostrarei do que sou capaz, não importa quem seja. Não terei piedade.

Notas finais do capítulo
Notas: Língua Inglesa: para muitas pessoas, quando um professor chato dá aula de português, essa matéria se torna pior que matemática. Como a história se passa na Inglaterra, o equivalente lá é Língua Inglesa, claro. u.u Ivan Mason: o nome do valentão, que dará as caras novamente, vem de Ivan, o Terrível, um czar russo cruel e Charles Mason um psicopata hippie maluco. Punição Para A Inocência: segundo livro que Sebastian empresta pro Ciel é também de Agatha Crhistie. Elizabeth Wilson (LIZA): Wilson é em homenagem as minhas duas patricinhas loiras favoritas Brittany e Tiffany Wilson,de As Branquelas, embora elas não fossem elas, ¬¬. Haveshire: Ciel mora em Liverpool, Cidade costeira, no fictício bairro Haveshire. Só pra informar. Qualquer semelhança é coincidência. OBRIGADA a Annie Little que favoritou a história, e a todos que deixaram comentário aguardo a opinião de vcs...se gostaram ou não...... deixem reviews, onegai bjs e até o 5.




(Cap. 5) Tortura, Turismo e Beatles

Notas do capítulo
Olá! Sei que havia prometido esse capitulo pra ontem, ainda tentei postar tres vezes, não deu certo, me estressei e deixei pra hoje mesmo...me perdoem, só atrasei um dia T.T Quero agradescer a Yuka Harumi e a NyahNyah por favoritarem a fic e todos que deixaram a review, a opinião de vcs é importantíssima n.n Não sei se esse capítulo ficou muito bom...tive pouco tempo pra escrever...e escrevi ouvindo musicas dos Beatles ( embora não seja fã deles) ...achei que ficou um pouco estranho...mas v6 é quem sabem, onegai...comentem dizendo o que acharam.desculpem qualquer erro... desde já agradeço, boa leitura *-*/



Capítulo 5: Tortura, Turismo e Beatles



“Na última quinta-feira, uma moça foi encontrada esfaqueada num beco sem saída, próximo a Avenida Montagne com a Druitt. Embora testemunhas afirmem que a vítima fora encontrada ainda com vida, a polícia concluiu que o crime é de autoria do mesmo assassino. Pois os legistas encontraram mais de cem agulhas introduzias nas costas da jovem. A moça foi identificada como sendo Sara Ann Baxter de 20 anos, trabalhava como garçonete em uma lanchonete ao norte de Devonshire , Baxter recentemente havia ganhado uma bolsa de estudos para uma escola de moda ao vencer um concurso de A mais Bela Garçonete realizado no mês passado com várias moças de todo condado de Merseyside. A família ainda está inconformada e aguarda por justiça. Outro caso preocupante, é o desaparecimento de Mary Margareth Carson, professora de artes na Academia Nottingham. Ela está desaparecida desde sexta-feira passada. Em sua sala, no colégio, foram encontrados sinais de luta, a policia cancelou as aulas de hoje para melhor investigação do local. Pedimos para quem tiver alguma informação sobre o paradeiro de Mary Carson, por favor informar a polícia. Torcemos para que esta não seja a quinta vítima desse misterioso assassino.

Aqui é Shelly Sandoval falando da Academia Nottingham, para o Liverpool Daily News.”

“Obrigado Shelly. Agora apresentaremos uma entrevista com o chefe de policia, o senhor V...”

PLIM! Angie desligou a televisão.

– Quando me formar, vou tentar entrar pra Polícia Forense, assim ajudarei a resolver esses crimes. Resolveria esses crimes fácil, fácil.

– Mas primeiro a senhorita tem que se formar em medicina, o que não vai acontecer se faltar às aulas – dizia a senhora Valentine balançando uma colher de pau no ar.

– Tá. Já entendi o recado. Tô saindo – dizia a jovem dando um beijo no rosto da mãe. – E tchau pra você também futura coisinha – fazia uma voz fina de bebê, massageando a barriga de 8 meses da mãe.

– Não chame o bebê de coisinha, Angélica!

– E como eu chamo? Não sei se é menino ou menina. A senhora podia muito bem fazer uma ultrassom – falava com as mãos na cintura.

– E estragar a surpresa?! Quero descobrir na hora, do mesmo jeito que fiz com você e seu irmão. Só assim eu saberei exatamente que nome dar.

– Do quê estão falando? – Ciel entrava na cozinha.

– Do novo bebê. Vai ficar com ciúmes Ciel? Se for outro menino, não vai mais ser meu irmão caçula.

–Não se preocupe, tenho certeza que você tem maluquice suficiente para quatro irmãos.

– Aaahhh...seu chato! Ei, porque levantou cedo? Sua escola não tem aula hoje.

– Eu sei, vou sair – Ciel sentava-se a mesa e pegava uma torrada.

– Vai ver o Sebastian?

– Vou devolver os livros – quis deixar bem claro a razão pela qual procuraria o rapaz.

– Quem é Sebastian? – a mãe quis saber.

– Um amigo super gato do Ciel. Ele trouxe a gente pra casa no sábado – explicava enquanto dava uma mordida na torrada do Ciel, o garoto odiava quando ela fazia isso.

– Faz uma pra você, por que fica mordendo a minha?

– Porque a sua é mais gostosa.

– São todas IGUAIS!

– Angélica, não tinha que ir a lugar nenhum? – disse a senhora Valentine.

– Ai! É mesmo! Tchau, tchau, tchau! – pegou a bolsa e saiu derrubando livros pela sala.

– JUÍZO MENINA! – gritou a mãe.

– Tá!

– Me dá uma aflição essa menina andando sozinha por aí.

Ciel terminou o café e após ouvir da mãe as recomendações de sempre, subiu para o quarto, vestiu uma jaqueta azul escuro, colocou os dois livros de Sebastian na mochila, desceu as escadas e saiu de casa.



A segunda-feira amanheceu fria, e um pouco sombria. Nuvens negras podiam ser vistas ao longe, poderia chover a qualquer momento. O que não era surpresa na Inglaterra. Embora não houvesse aula, poucas pessoas podiam ser vistas nas ruas, e as poucas que tinham não falavam de outra coisa, o caso do misterioso assassino rondava a boca de todos e amedrontava cada esquina. Ciel poderia sentir-se apreensivo, ainda mais depois das coisas estranhas que vinham acontecendo, mas não estava. Sentia-se intrigado, isso sim. A professora de artes desaparecera, provavelmente no momento em que ele estava lá. No entanto ele não tentara informar nada a policia, mesmo que o estranho homem de olhos verdes tivesse alguma relação com os crimes, no momento em que ele dissesse que o cara desaparecera do nada o julgariam um louco. E se havia algo que Ciel detestava era ter sua honra questionada.

Ouvira um barulho lá. Poderia ter tentado ver o que era, mas fugiu. Se a senhorita Mary Margareth for encontrada morta, será que se sentirá culpado? Que culpa ele poderia ter? Como poderia adivinhar que, a poucos metros, uma pessoa estava sendo capturada? Ciel parou e cerrou as duas mãos em punho. Por mais que dissesse a si mesmo que não tinha culpa não podia deixar de sentir-se envergonhado pela falta de coragem. “Da próxima vez, não fugirei!” jurou pra si mesmo.

Assim que entrou no Darjeeling Chá, deu de cara com Ruby. A moça se assustou e depois começou a rir.

– Amo Ciel, que bom vê-lo novamente. Seja bem vindo!

Ciel a cumprimentou com um aceno de cabeça. Reparou que a moça estava com a mão esquerda enfaixada. Ao reparar que o adolescente estava olhando, Ruby explicou:

– Não foi nada. Um acidente com vidro. Sou muito desastrada às vezes. O pior não foi nem o corte... – A moça se curvou para o garoto, tapou um lado da boca com a mão e falou ao ouvido do Ciel. - O pior é que tudo que quebro é descontado no meu salário – dizia chorosa. – Amo Sebastian está esperando você – disse sorrindo e apontou para mesa de sempre.

– Bom dia, Sebastian.

– Agora está – o mesmo sorriso. – Sente-se.

– Seus livros – colocou-os sobre a mesa. – Não liguei no final de semana porque estava ocupado. Tinha que concluir um trabalho e terminar de ler o livro, claro.

– Não é necessário justificar, embora eu realmente tenha ficado esperando. Gostou da História?

“Ele realmente esperou uma ligação minha?” Ciel se perguntou.

– Sim, muito boa.

– Então, sobre o que voc...

– Você veio de carro? – interrompeu.

– Sim.

– Vamos sair. Tenho o dia todo livre – levantou e seguiu para a saída do café.

– É inacreditável! – Sebastian sussurrou para si mesmo sorrindo. Levantou-se, pagou a conta e seguiu o garoto. Os dois entraram no carro. – O que você quer fazer?

– Tudo – Sebastian levantou uma sobrancelha.

– “Tudo” implica muitas coisas.

– Primeiro vamos visitar a residência de número 20 na Forthlin Road, a casa do Paul McCartney, e depois vamos para Mendips, a casa do John Lennon. Afinal, um inglês não pode ser considerado inglês sem nunca ter visitado esses lugares. Ainda mais morando em Liverpool. Depois passaremos por St. George's Hall, a Philharmonic Hall, não sei se tem alguma apresentação agora, mas vamos assim mesmo, no caminho a gente dá uma olhada no Anfield Stadium, odeio futebol, mas só pra ninguém dizer que você nunca foi lá.

– Planejou todo o roteiro?

– Não. Estou inventando agora.



Passaram por todos os lugares. Como Ciel decidia o próximo destino do nada, tiveram que para pra abastecer o carro. Ciel tentava explicar algo sobre os locais que visitavam e Sebastian sempre fazia piada com algo. Embora Ciel resistisse, Sebastian insistiu em tirar fotos. Muitas vezes pedindo para algum turista transeunte tirar dos dois juntos. Em todos os lugares, muitas jovens e mulheres paravam para falar com Sebastian. Algumas mais atrevidas pediam para tirar foto com ele. Sebastian claro conversava com todas. Quando foram conhecer o The Beatles Story, uma garota perguntou se ele sabia cantar alguma música dos Beatles, para horror de Ciel ele sabia. E cantou!

There are places I remember all my life,

Há lugares dos quais vou me lembrar

Though some have changed,

por toda a minha vida, embora alguns tenham mudado

Some forever, not for better,

Alguns para sempre, e não para melhor

Some have gone and some remain.

Alguns já nem existem, outros permanecem

All these places had their moments

Todos esses lugares tiveram seus momentos

With lovers and friends I still can recall.

Com amores e amigos, dos quais ainda posso me lembrar

Some are dead and some are living.

Alguns já se foram, outros ainda vivem

In my life I've loved them all.

Em minha vida, amei todos eles

But of all these friends and lovers,

Mas de todos esses amigos e amores

There is no one compares with you…

Não há ninguém que se compare a você...

Logo um cara do nada começa acompanhar com um violão. A todo o momento Sebastian olhava para Ciel e se divertia mais ainda com a expressão emburrada do garoto. Embora Sebastian cantasse melhor, Ciel teve que admitir; uma multidão de pessoas se formou achando que o próprio McCartney aparecera para dar uma palhinha. Afinal era raro juntar tanta gente assim.

Ciel o arrastou de lá irritado.

– Você sempre tem que chamar tanta atenção? Tem algo que você não saiba fazer?

– Oras, como o...como o grande fã dos Beatles que sou, é o mínimo que poderia fazer.

– É fã dos Beatles? – perguntou incrédulo.

– Razoavelmente.

– Deixa de falar bobagens. Anda, vamos ao Albert Dock, lá nós procuramos um lugar pra comer.

No Albert Dock resolveram caminhar pela orla e apreciar o porto. Ciel olhou o relógio. O tempo nublado fazia parecer ser mais tarde do que realmente era. Eram 16 horas. Estava meio escuro e o sol escondia-se entre as nuvens.

– Queria poder ver o por do sol – Ciel olhava para o horizonte, Sebastian o observava.

– Podemos esperar se você quiser.

– Não. Ficará muito tarde para voltarmos a Haveshire. E com esse tempo não conseguiremos ver nada mesmo.

Sebastian ficou olhando para o mar. Ciel correu os olhos pelos barcos no ancoradouro, olhou todos os restaurantes e lojas ao redor. Olhou para os pássaros que cortavam o céu. Fechou os olhos e sentiu a brisa com cheiro de sal. As nuvens cinza ainda ameaçavam no horizonte. Olhou para Sebastian por alguns instantes.

– Agora você conhece todos os pontos turísticos de Liverpool. Quer saber um segredo? Eu nunca tinha ido a nenhum desses lugares em que estivemos hoje – disse sério. – Dezessete anos morando em Liverpool e nunca fui a nenhum desses lugares. Na verdade, nunca quis realmente conhecer esses lugares. Na maior parte do tempo me limitei a ficar em Haveshire. Foram poucas as vezes que Angie conseguiu me arrastar para algum lugar, mas como você pôde ver, os passeios com ela nunca saem como deveriam....

As primeiras gotas de chuva começaram a cair apanhando-os de surpresa. Rapidamente ganhando força. Tentaram voltar para o carro, mas este estava estacionado muitas ruas adiante. Tiveram que se abrigar sob a marquise de uma loja fechada.

– Ou talvez seja eu quem dê azar aos passeios – Ciel disse sacudindo os cabelos com a mão.

– Até agora tudo me pareceu maravilhoso – Sebastian disse olhando para ele. Ciel corou.

– Olha só, aquele lugar está aberto – disse o garoto e saiu na frente.

Os dois correram e entraram num Pub chamado O Submarino Amarelo. Para surpresa dos dois, o local era um karaokê que só tocava músicas dos Beatles. “Fala sério!” Ciel murmurou. Como tinham que esperar a chuva passar sentaram numa mesa. O lugar até que era legal. Tinha um visual meio retrô e uma banda tocando ao vivo. O que surpreendeu Ciel foi a guitarrista. Sim, uma garota. Muito bonita que tocava muito bem, deixava muito marmanjo no chinelo na opinião de Ciel. E o cabelo dela tinha várias mechas, cada uma de uma cor. Um homem e uma mulher de duas mesas à frente cantavam uma música romântica que Ciel não sabia o nome, embora tenha reconhecido a música.

Quando terminaram, passaram o microfone para a mesa seguinte e três garotas cantaram outra música lenta. “O que há com essas pessoas?” Ciel se perguntava. Olhou para a chuva e criou coragem. Resolveu perguntar.

– Quando você cantou aquela música, hoje pela manhã.... Por que escolheu aquela música?

– Me pareceu mais lógico. Garotas costumam gostar de músicas românticas. Embora não todas. Se ela ouvi Beatles é provável que gostasse daquela música.

– Só por isso?

– Sim. Por quê?

– Por nada. Só q...

– É a vez de vocês – disse uma das moças da mesa da frente entregando o microfone a Ciel.

– O quê?!

Só então Ciel percebeu que se tratava de uma espécie de rodízio musical. Cada mesa cantava uma música e passava para a próxima. A próxima no caso era ele. Ciel tentou devolver o microfone, mas todos insistiam que ele cantasse. “Está com medo de tentar?” alguém disse. Acertara em cheio, conseguira irritar o ego do garoto.

– Dá essa porcaria logo! – tomou o microfone; Sebastian ria, “Quero só ver!” pensava. – Só sei a letra de uma música deles.... Well, shake it up baby now…– Ciel cantou, para surpresa de Sebastian. Cantou um pouco aixo e retraído, mas cantou.

Shake it up baby – Sebastian acompanhou, fazendo a segunda voz. Ciel olhou pra ele. – Continue.

Twist and shout – A banda começou a acompanhá-los. Dando o ritmo dançante.

Twist and shout.

Aos poucos, Ciel foi pegando mais ritmo e empolgação.

Come on, come on, come on, come on baby now. – As pessoas das mesas se animaram, começaram a aplaudir e a cantar junto.

Come on baby.

Come on and work it on out. – Ciel se soltou mais um pouco, e sua voz não era ruim.

Work it on out.

Well, work it on out.

Work it on out. – alguns se levantaram das mesas e começaram a dançar.

You know you look so good.

Look so good.

You know you got me goin' now.

Got me goin'.

Just like I knew you would

Ciel viu numa mesa ao fundo, a senhorita Bathory e o professor de geografia aos beijos. E se ela o vir? O que vai pensar? Andou de costas, esbarrou num garçom que quase derruba a bandeja no chão. Entregou o microfone a primeira pessoa que viu agarrou o braço do Sebastian e o puxou para a saída. A algazarra era tanta, que as pessoas nem perceberam que eles escapuliam em meio a música.

– Anda Sebastian, rápido – conseguiram sair e seguiram pela calçada, andando na chuva mesmo.

– Isso foi ridículo – Ciel dizia. – Nunca mais me deixe fazer isso!

Ele começou a rir. Ciel começou a rir. E isso realmente alegrou Sebastian. Chegaram ao carro e Sebastian abriu a porta para que ele entrasse.

– Vou molhar seu carro todo – Ciel disse olhando para a própria roupa toda encharcada.

– Não se preocupe com isso. Espere um momento.

Sebastian saiu do carro e foi pegar algo no porta-malas. Enquanto esperava Sebastian voltar, Ciel viu Mason no final da rua, andando com uma pequena caixa de metal sob a chuva. “O que será que Ivan, o Desprezível está aprontando?” Ciel se perguntava.

– Tire a jaqueta – Sebastian voltara para o carro.

– O quê?!

– Tire a sua jaqueta molhada. Pegue, vista isto – Sebastian entregou uma jaqueta preta de algodão e uma toalha para se secar. – É bom estar preparado. Enxugue bem os cabelos, não vai querer pegar uma pneumonia.

– Você é pior que minha mãe e Angie juntas. Fala de mim, mas você ainda está molhado... – Ciel se curvou e colocou a toalha sobre a cabeça de Sebastian, enxugando-lhe os cabelos. Arrependendo-se do ato, Ciel tornou seus movimentos mais lentos. Inevitavelmente seus olhos encontraram os olhos de Sebastian. Em momentos assim, Ciel sentia que tinha que fugir daqueles olhos a todo custo, mas eles aprisionavam. Sebastian segurou a toalha e a mão de Ciel ao mesmo tempo, abaixando-os. Ciel estremeceu um pouco com o toque gelado. – Somos... Amigos, não somos?

Não soube nem por que aquela pergunta saiu de sua boca.

– Claro – Sebastian se curvou sobre Ciel, este se encolheu na poltrona do carro ao sentir o braço do rapaz passar sobre seu corpo. Seus rostos ficaram a centímetros, Ciel sentiu o coração acelerar. Sebastian pegou o cinto da poltrona do garoto, puxou-o para baixo, até prendê-lo no engate. – Não se esqueça do cinto – disse em tom de alerta.

Sebastian ligou o carro. Quando saíram de Albert Dock, já eram 18 horas. Voltaram para Haveshire acompanhados pela noite. Sebastian ainda tentou puxar conversa, mas Ciel fez toda a viagem de volta em silêncio, olhara pelo vidro da janela todo o tempo. Pensativo.



Já em casa, após uma hora de broca da mãe por passar o dia fora de casa sem mandar notícia e por chegar todo molhado, Ciel deitou-se na cama. Pegou o celular. Tinha 10 chamadas perdidas da Angie, 20 da mãe e 7 da Liza. Quando terminou de apagar todas, seu celular deu o alerta de mensagens. No visor, ele podia ler SEBASTIAN. Abriu a mensagem.

Obrigado pelo ótimo dia. Tenha uma boa noite.

S.M.

Ciel olhou para a mensagem por uns 10 minutos, se perguntado se devia responder ou não. E se perguntando por que ele achava que haveria problema em responder uma simples mensagem. Havia algo que ele realmente gostaria de perguntar a Sebastian, mas não teve coragem. E se ele estivesse enganado, se tiver entendido mal? Uma pergunta assim seria muito constrangedora, ainda mais se a resposta for não. Começou a digitar.

Boa noite.

Ciel

Apenas isso. E enviou. Era uma simples mensagem de boa noite. O que mais poderia significar?

.

.

.

A uns dez bairros de distancia, numa zona abandonada, uma mulher antes bela, agora desfigurada chorava compulsivamente. Estava em um galpão, acorrentada em uma cadeira de ferro. Tinha agulhas por cada centímetro dos dois braços, pequenos cortes por todo o rosto, seus cabelos cortados curtos e desordenadamente. A sua frente estava a figura do misterioso assassino, escolhendo a próxima ferramenta de tortura.

– Mary tinha um cordeirinho, ele era bem branquinho... – Cantava a canção infantil enquanto caminhava para a moça com um punhal em mãos. – Oh! Não, não, não! Não durma Mary. Não tem graça se você não gritar – dizia segurando o queixo da mulher, que tinha os olhos arregalados de medo. – Então, Mary Mary... – deslizava o punhal pelo abdômen da mulher, fazendo surgir um filete de sangue. – Que parte sua quer enviar aos seus amigos?

E com a pergunta o punhal foi ferozmente inserido no corpo. Um grito de dor ecoou por toda Liverpool, mas infelizmente fora abafado pela chuva.

Notas finais do capítulo
NOTAS: Shelly Sandoval: pra quem não conhece, é o nome de uma repórter do desenho Super Choque, ela só aparecia nas cenas de reportagem, eu achava muito engrçado ela dizendo o nome no fim das reportagens..... Academia Nottingham: é revelado o nome da escola do Ciel, também fictícia como tudo em Haveshire. A inspiração? Fala sério, sempre que vejo o nome Nottinham me lembro de Robin Wood. Liverpool Daily News: se esse jornal existe, eu não sei, mas o nome vem de um jornal impresso e televisivo chamado Liverpool Daily Post. plocia científica, forense ou perito: pela lei é obrigatório ter ensino superior pra ser um perito, no entanto a lei não especifica o curso, pode ser qualquer um. mas saber um pouco de medicina, quimica, ciencia, biologia ou sabe-se lá mais o quê...ajuda. O Submarino Amarelo: Todos os lugares visitados pelos dois realmente existem, menos o pub O Submarino Amarelo, se existir é coincidência. O nome vem de uma música dos Beatles. As duas músicas cantadas são dos Beatles, a primeira se chama In My Life e a segunda Twist And Shout. tive que ouvir um monte e até que não são ruins...viciei em algumas ....^^ Quando comecei a escrever a fic escolhi Liverpool ao acaso...consequentemente tive que mensionar várias coisas ligadas a cidade...acho que ficou bem....inglês... Obrigada por ter lido, plis plis (outra musica dos Beatles ¬¬) comentem, tô implorando mesmo u.u kissu e até o 6.




(Cap. 6) Jack e Joan

Notas do capítulo
Olá!! Como o capitulo anterior foi só Sebby e Ciel, nesse capitulo eu realmente necessitava informar algumas coisas.afinal, tenho um mistério a desenrrolar. ainda terá sebasciel nele, claro. Por favor não me odeiem pelo que escrevi, não se deixem levar pela aparencia. PRESTEM ATENÇÂO EM TUDO O QUE O SEBBY DIZ. No proximo captulo haverá muito mais sebasciel ^^ Espero que gostem deste e porfavor deixem review nem que seja pra dizer"tá legalzin..." ou "melhora isso ai" Estou super feliz pq a fic chegou a 40 reviews e eu não esperava receber nenhum. Então um obrigada especial a Maya Hashimoto, Marilindinha e a Camila, que favoritaram a fic. Obrigada a todos que leram e deixaram review. isso é tudo...boa leitura o/

Capitulo 6: Jack e Joan

– A noite hoje foi legal, o pessoal realmente se divertiu – dizia Jim, o vocalista, guardando os fios e os microfones.

– Verdade. E aquele garoto? Cara, até que ele mandou bem! A bagunça começou com aqueles dois, não foi? – Joan guardava sua guitarra vermelha.

– Foi, Rock and Roll cara! – disse Will, o baterista, batendo as baquetas na mesa. – Nem vi quando os dois foram embora.

– Também, com toda aquela confusão. Espero que amanhã seja animado assim – dizia Joan colocando a guitarra sobre as costas. – Tchau, pessoal. Boa noite pra vocês e sonhe com os Beatles.

– Você também gata! Boa noite! Quer carona? – perguntou Jim.

– Não precisa. Tô aqui perto, vou andando.

Joan saiu d’O Submarino Amarelo abrindo o guarda-chuva. Eram 3 horas da madrugada e a chuva ainda caía com força. Caminhava pela rua balançando os cabelos coloridos e cantarolando um refrão. Escutou um barulho atrás de si; se virou, mas não havia ninguém. Devia ser só a chuva. Continuou andando. Ao sentir um cheiro estranho, olhou para o chão. Havia um corpo na calçada e a chuva levava o sangue até os seus pés.

Apavorada, Joan largou a guitarra no chão e procurava o celular na bolsa ao mesmo tempo em que tentava segurar o guarda-chuva. Colocou o telefone no ouvido esperando que atendessem.

– Alô.

– Jim, por favor, rápido... Tem um corpo aqui... – ela tremia, não sabia se de frio ou de medo.

– Joan? Joan, calma. Fica calma, o que houve? Onde você tá?

– Eu tô aqui perto, tem uma pessoa morta aqui, eu...

– Joan? Joan o que está acontecendo? – perguntava Jim ao telefone.

Joan olhou para o chão. Onde estava sua guitarra? Estava caída a seu lado. Mas não estava mais. Joan sentiu seu coração acelerar. Olhou ao redor, mas não via nada além da chuva e das ruas vazias. De repente, as luzes dos postes se apagaram. “Meu Deus!” Joan sussurrou. Queria correr, mas suas pernas não se moviam. Lágrimas começaram a surgir no canto dos olhos. Sentiu que alguém se aproximava. Ao virar-se, a última coisa que viu e sentiu, foi sua própria guitarra acertando-lhe a cabeça.

–Jim...................................

Jim não ouviu mais nada além do barulho da chuva que caía.

.

.

.

– Cieeeeeeel! – Liza o alcançou na Rua Barnabas. – Onde você estava ontem? Eu te liguei várias vezes e você não atendeu.

– Desculpe, eu sai com o Sebastian e esqueci o celular em casa.

– Saiu com... O dia inteiro?!

– Aham – respondeu distraído, olhando para os dois lados antes de atravessar a rua.

–Ah...... – Liza ficou em silêncio, pensativa. Ela ficou meio triste e Ciel nem percebeu. – Bom, eu ia te convidar pra ir lá em casa. Minha mãe tinha feito aquele bolo que você adora, mas fica pra próxima, né? ....Você acha seguro a escola reabrir tão cedo? Quer dizer, a professora Carson desapareceu lá dentro, o que quer dizer que o assassino conseguiu entrar com facilidade lá. E se ele resolver voltar?

– Ele não vai voltar. Provavelmente não. As quatro primeiras mulheres foram capturadas em diferentes cidades da Inglaterra e seus corpos abandonados em diferentes lugares de Liverpool. Se a senhora Carson foi capturada na escola, provavelmente ele não voltará mais a Nottingham – Ciel falava sério, como se analisasse o caso. – Está mais do que óbvio que se trata de um assassino em série. Psicopatas costumam seguir uma espécie de regra ou hábitos que se repetem em todos os crimes, como as agulhas encontradas nos corpos das vítimas.

Liza teve um calafrio.

– Isso é muito assustador, podemos mudar de assunto? – implorava chorosa já subindo os degraus da entrada da Academia Nottingham.

– Ciel! Hey, Ciel! – um garoto chamado Dimas, de cabelo castanho claro e um pouco encaracolado, os encontrou no corredor. – Vocês viram o noticiário antes vir pra escola? – Ciel e Liza negaram com a cabeça. – Encontraram o corpo da senhora Carson em Albert Dock. Outra mulher desapareceu no mesmo local, uma tal de Joan Redford.

– Pobre senhora Carson... – sussurrou Liza.

– Não faz sentido – Ciel dizia. – Serão duas vítimas de Liverp.... – Ciel sentiu um forte empurrão nas suas cortas, fazendo-o cambalear e atingir os armários na parede.

– Ops! Esbarrei em você Valentine? Eu não tive culpa, você é quem estava obstruindo a passagem – Ivan Mason falava fingindo educação, simulando uma voz empolada. Logo em seguida caindo na gargalhada.

– HAHÁ! – Ciel simulou ironicamente um sorriso. – Muito engraçado Mason. Logo se vê que uma jamanta como você não sabe simplesmente pedir licença pra passar – Ciel rebateu com um sorriso maldoso. Alguns alunos que observavam deixaram escapar risinhos.

– O que foi que você disse Valentine? – disse o mais alto entre dentes, seu rosto ficando vermelho de raiva.

– O que você ouviu – Ciel respondeu em tom desafiante. Dimas sentia a tensão dos pés a cabeça. Liza mantinha os braços junto ao corpo com as mãos juntas, rezando para que os dois garotos não fizessem nada.

– Fala na minha cara então, seu idiota!

– Mas eu falei. Você é retardado ou o quê? – as pessoas ao redor fizeram um “uuhhhhh” espantados com a coragem, ou seria estupidez, de Ciel.

– Oras seu... – Ivan falou levantando Ciel pela gravata do uniforme e posicionando o punho para o soco quando um de seus amigos sussurrou “Deixa pra lá, o carrasco tá no corredor”. O carrasco era o professor de Inglês que se aproximava da confusão. – Merd...

Ivan acabou tendo de soltar Ciel.

– Não abusa da sorte Valentine – Ivan ameaçou, e ao se afastar alfinetou mais um pouco. – Me diz uma coisa Valentine, quantos inocentes ainda vão morrer por culpa do seu pai?

Ciel o olhou ferozmente. Um sorriso maldoso se instalou no rosto de Mason, conseguira acertar na ferida.

– Esquece Ciel – dizia Dimas. – Seu pai não tem nada a ver com isso.

– Vamos logo pra sala, por favor – Liza pedia agarrando o braço esquerdo de Ciel e puxando-o para o corredor.

– Quem vai dar aula de artes pra gente agora? – Dimas perguntou.

– Dimas! – Liza repreendeu.

– Desculpa, foi sem querer – disse abaixando a cabeça. Depois levantou como se lembrasse de algo. – Eu esqueci de contar, arranjei um emprego. Numa floricultura. O dono é legal. O trabalho não é pesado, embora eu não me importasse se fosse. Eles estão precisando de mais um ajudante, se você quiser Ciel posso te indicar – dizia sorrindo.

– Ah, obrigado Dimas, mas jardinagem não é comigo.

– vendem rosas cor-de-rosa lá? – Liza perguntou animada. – Amo rosas! São tão lindas....e os lírio então....

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.

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– Saiu o resultado da perícia senhor. O exame de DNA confirmou, o corpo realmente era de Mary Margareth Carson – Harris, um jovem policial entrava no gabinete do chefe de polícia de Liverpool.

– O que significa que Joan Redford está mais do que em perigo. Isso não faz sentido, Harris. Não tem como ser só um cara. Como é possível alguém raptar mulheres de diferentes lugares da Inglaterra e trazê-las para serem mortas aqui, juto aqui, sem que ninguém veja nada? Sem deixar pistas ou o mínimo rastro que seja? Nada! – dizia o chefe frustrado.

– Não sei Chefe. Acha que Joan Redford já estava na mira do assassino ou será que ela apenas estava no lugar errado na hora errada?

– Quem sabe – tirou os óculos e passou os dedos entre os cabelos. – As vítimas desse cara não seguem um padrão. Elas variam entre 16 e 30 anos. Diferentes em altura, cor do cabelo e da pele. Até agora foram uma estudante, uma enfermeira, uma dona de casa, uma garçonete, uma professora e provavelmente uma guitarrista. A única coisa em comum entre todas é a beleza.

– Talvez seja isso. Tem mais, os departamentos de polícia de toda a Inglaterra continuam recebendo queixas de pessoas desaparecidas, não há como sabermos se umas dessas será uma próxima vítima e se esses surtos de desaparecimento tem alguma relação com o assassino. A Scotland Yard realmente vai mandar um homem para cá?

– Sim. Esse caso está se tornando realmente preocupante. As pessoas estão começando a chamar esse assassino de Novo Jack Estripador. Isso é inadmissível – sua expressão adquiriu um ar sombrio. – Se essa ideia se espalhar, será um grande problema para Polícia Inglesa.

– Não entendi, por que Chefe?

– O caso Jack, o Estripador ficou registrado como o maior fracasso da história da Scotland Yard. Quando a polícia achou que o caso havia acabado, eis que o tal Jack ressurgiu fazendo troça da cara da polícia. Todas as pistas e suspeitos davam em nada. O assassino anunciava e cometia crimes que a polícia não conseguia evitar. Assassinos inescrupulosos se aproveitavam do pandemônio pra cometer crimes. Era o caos. E até os assassinatos sessarem, a Scotland Yard continuou tão desnorteada quanto estava no primeiro crime. Um caso nunca resolvido. Não podemos permitir que algo assim aconteça novamente.

– Mas isso foi em Londres, Chefe.

– Sim, Harris, foi em Londres. Mas não podemos permitir que exista um Jack em Liverpool.

– O que terá sessado os crimes naquela época, senhor?

– Até hoje não se sabe. Mas espero que, dessa vez, a polícia consiga capturar o assassino antes que ele escape.

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No final do dia, Ciel conseguiu escapar de Dimas, que afinal iria para o novo emprego, e de Liza que se distraiu conversando com as amigas sobre o episódio anterior de uma novela. Ciel se perguntava como aquelas meninas conseguiam mudar de um assunto mórbido como o de um serial killer rondando a escola para os acontecimentos de uma novela boba.

Chegava a Rua Barnabas dizendo a si mesmo que seria bom ir logo pra casa dar uma lida nos apontamentos de história. Repetia firmemente essa resolução quando escutou o alerta de mensagem no celular.



Estou te esperando no Darjeeling, tenho algo pra você.

S.M.



“Não posso ir” Ciel dizia a si mesmo. Mas achou que seria falta de educação deixá-lo esperando. Além do mais, ficou curioso sobre o que iria ganhar.

Ao chegar ao Darjeeling Chá, encontrou Sebastian na mesa de sempre. Ele trajava preto novamente. Calça, uma camiseta com desenhos indefinitos estampados em vermelho e um colete cinza escuro por cima.

– Você está me devendo um livro – provocou o adolescente sentando-se.

– Acaso você tem algum problema em me dizer bom dia, boa tarde ou boa noite? Percebi que você sempre se esquiva de alguma forma – dizia sorrindo, Ciel nada respondeu, apenas olhou pela janela. – E você me deve uma partida de xadrez. Mas eu não trouxe o livro realmente.

– Com licença! Bom dia amo Ciel! – Ruby cumprimentou trazendo chá e uma fatia de bolo para Ciel. Serviu chá para os dois e se retirou.

– Tomei a liberdade de pedir para você espero que esteja ao seu agrado.

– Você fala esquisito às vezes. Às vezes não, a maior parte do tempo. Nem meu pai fala tão certinho – Ciel pegava o garfo e retirava um pedaço do bolo. Levou-o a boca e fechou os olhos assim que a maciez da massa tocou sua língua, estava maravilhoso. Ele não disse nada, claro. Mas Sebastian percebeu que ele tinha adorado.

– Meu modo de falar o desagrada?

– Não – por que ele tinha que ser tão dramático? – Eu gosto, mas é... Diferente.

– Gosta é?

– Você não disse que tinha algo pra mim? Eu não tenho o dia todo.

– Nossa, e o bolo não conta? Você devia ser mais agradecido às vezes.

Ciel corou, não pretendia ser mal-educado, mal-agradecido nem nada, só se sentiu constrangido. E quando se sentia assim acabava sendo rude.

– Desculpe, o bolo está ótimo.

– Ei – Sebastian tocou-lhe os cabelos e desceu a mão pelo rosto de Ciel. O garoto paralisou com o toque. Sentiu suas bochechas queimarem. – Não queria constrangê-lo, só estava brincando. Veja, eu trouxe uma cópia das fotos do passeio pra você – disse entregando um envelope pardo ao garoto, que ainda se recuperava do susto.

Ciel pegou o envelope, tirou as fotos e começou a olhá-las. Tinham ficado muito boas, embora ele tenha saído com uma expressão emburrada na maioria delas. Guardou as fotos novamente e ficou olhando para o bolo fixamente.

– Não gostou das fotos?

– Sebastian se... Se eu te fizer uma pergunta, promete ser sincero e não ficar chateado?

Sebastian fez uma expressão espantada depois sorriu.

– Claro, pode perguntar – respondeu o mais velho realmente curioso sobre o conteúdo da pergunta.

– S-sebastian.... – Ciel se mexeu na cadeira obviamente incomodado e constrangido. Mas tinha que perguntar, ou essa dúvida o atormentaria sempre que estivesse com ele. Aparentemente tomara coragem, pois levantou a cabeça, inclinou-se um pouco sobre a mesa e sussurrou para Sebastian:

– V-você é gay?

Sebastian arregalou os olhos, depois sorriu muito divertido.

– Por quê? Ficou interessado em mim? – provocou. Ciel ficou mais vermelho ainda.

– Que absurdo! Estou falando sério idiota! – disse exasperado e olhando para as mesas do lado. Sebastian riu mais ainda.

– Não, Ciel. Não sou.

– É que voc....bem....eu pens... – tentava explicar-se visivelmente envergonhado. – Desculpe Sebastian, acho que te interpretei errado. Não está zangado, está?

– Como eu poderia ficar zangado com você? – disse de um jeito meigo e gentil. Ciel sentiu mais carinho naquelas palavras do que em qualquer coisa que alguém já lhe tenha dito. Ficou mais confuso. Até então, julgara que as atitudes prestativas e atenciosas de Sebastian, sem falar nas provocações estranhas se devessem a... Mas ele disse que não. Pelo menos foi o que ele disse.

– Prometi ser sincero, não foi? Estou sendo. Como estou vendo que você está confuso, acho melhor te explicar algo. Existem duas razões para eu ser gentil com você e querer sua amizade. E quero que compreenda isso. Apesar de qualquer coisa, quero que você esteja sempre comigo. E que estou com você porque quero.

– Que duas razões são essas?

– A prim...

– Sebastian.

Uma mulher muito bonita interrompera os dois. Tinha cabelos loiros platinados, compridos até o bumbum. Alta e muito elegante. Num vestido salmon, e tinha penetrantes olhos âmbar. – Desculpe interromper, mas está na hora.

– Oh, sim. Perdoe-me. Distrai-me – Sebastian levantou-se beijando a mão da mulher. – Este é Ciel.

Ciel espantou-se e apressou-se a levantar pra cumprimentar a mulher.

– Ciel Valentine – disse apertando a mão da mulher. Sebastian o observava.

– Então este é Ciel?! Sebastian me falou de você. – “Ele não me falou nada de você” foi o que o garoto pensou. – Prazer Ciel, Amanda Villefort.

– Um momento Ciel – pediu Sebastian, e se afastou um pouco para falar com Amanda.

Ciel sentiu vontade de afundar a cabeça na mesa. Como pôde ser tão estúpido pra perguntar uma coisa dessas? Veja a bela mulher que veio atrás dele. Ciel nunca viu uma mulher tão bonita. O que Sebastian iria pensar dele? A primeira pessoa que realmente valia a pena conhecer e ele dá uma mancada dessas. Os dois voltaram para a mesa.

– Vou ter que sair Ciel. Pode terminar o bolo, já está pago.

– Não se preocupe Ciel, estou apenas pegando o Sebastian emprestado por uns tempos. – Disse Amanda sorrindo e de braços dados com Sebastian. Pareciam deuses da beleza juntos, e essa ideia, de alguma forma desagradou Ciel.

Antes de sair, Sebastian se virou para Ciel e disse:

– Ciel, você fez a pergunta errada – Sebastian sorriu e saiu com Amanda.

Como assim a pergunta errada? Qual é a pergunta certa então? E que duas razões são essas que Amanda inconvenientemente interrompeu? Eram tantas coisas na cabeça.

“Por quê? Ficou interessado em mim?”

A voz dele lhe veio à mente. Como ele é convencido, pensou. Até parece. Foi ele que começou com as provocações, os elogios sem sentidos e os agrados exagerados. Tudo o que Ciel queria era um livro emprestado. Quer dizer, é o que ele quer. Claro que Sebastian é um cara legal, um bom amigo. Nada mais além disso. Um amigo.

Ciel levantou-se e saiu do Darjeeling Chá. Caminhou para casa meio que perdido. Estava chegando a esquina quando sentiu a visão embaçar. Seu olho começou a arder. Sentiu o ar ficar repentinamente frio. Viu na sua frente uma pequena figura. Uma menina, de pelo menos 12 anos, tinha cabelos negros, lisos e curtos, na altura do pescoço. Usava um vestido preto com detalhes vermelhos. Havia estranhos arcos de ouro em seu pescoço e nos pulsos, com inscrições estranhas. A menina segurava um pequeno corvo na mão direita e mantinha a cabeça baixa. Ao levantá-la e abrir os olhos, Ciel pode ver que ela possuía um olho azul como o céu e outro vermelho como sangue. Ciel levou a mão ao próprio olho direito.

“ Vá para casa.”

A menina sussurrou com voz infantil. O corvo voou em sua direção, Ciel protegeu o rosto com os braços. Mas nada o tocou. O corvo, assim como a menina, sumiu.

– Ci-el! – ouviu alguém chamá-lo. Mas era uma voz grossa, de homem. Não era mais a menina. “Ciel!”, ouviu mais uma vez.

– Quem é? – Ciel gritou, olhava ao redor, mas não via ninguém nas ruas. Começava a ficar irritado. “Ciel!”, virou-se e viu alguém virando uma esquina.

– Eu vi você! – Ciel pensou e pôs-se a correr atrás do estranho.

– Pare! Quem é você e o que quer? – o estranho, um rapaz de talvez uns 20 anos cabelos acinzentados, parou, sorriu e voltou a correr. Ciel continuou seguindo. Afastando-se cada vez mais do caminho de casa. Quando deu por si, estava numa área sem casas ou lojas, praticamente deserta. “Droga!”, pensou e ficou atento. Havia seguido uma trilha até a morte.

– Quer dizer que seu nome é Ciel. Eu sinto um cheiro bom vindo de você Ciel – dizia o rapaz esboçando um sorriso maldoso.

– Você é maluco?

– Eu tinha que fazer um trabalho e voltar, mas acho que se eu parar pra fazer uma boquinha não fará mal nenhum – o rapaz se aproximava e todo o corpo de Ciel dava alerta de perigo. Quando o outro chegava perto, Ciel pôde ver seus olhos adquirindo um tom amarelo brilhante nada comum, quase sobre-humano.

– O que diabos é você? – Ciel perguntou afastando-se cautelosamente.

– Passou perto! – o estranho rapaz saltou sobre Ciel, que rapidamente tirou a mochila e usou-a para acertá-lo. Quando ele se voltou para Ciel, seu rosto não era mais o de antes, ganhara um aspecto mais assustador e seus dentes pareciam presas.

– Você não é humano!

– Surpresa! Vou te dar 5 segundos de vantagem, só pra ficar divertido – ele sorriu mostrando as presas. – Um...

Ciel pôs-se a correr o mais rápido que podia. Tinha que chegar a uma área mais movimentada. Mas logo que virou a esquina, tropeçou em algo e caiu rolando no chão. Quando se levantou, viu que tinha tropeçado em alguém caído no chão. Voltou pra ver quem era. Era um corpo ensanguentado, estava de bruços. Ciel esperou por um momento, depois virou-a. Ele reconheceu o rosto e os cabelos coloridos. Era a moça que estava tocando guitarra n’O Submarino Amarelo. Provavelmente esta era a tal Joan Redford.

– Vejam só o que o meu lanchinho encontrou – sua voz adquiria um tom grotesco. E não havia ninguém por perto a quem Ciel pudesse gritar por ajuda. Devia ter seguido o conselho daquela menina. – Então, humano, você teme a morte?

Notas finais do capítulo
NOTAS: Joan: vem de Joan Jett, o Redford sei lá. Você teme a morte?: frase de Dave Jones, piratas do caribe e o baú da morte. O título do capíto é uma espécie de trocadilho com Jack e Jill. porque o capitulo menciona o caso Jack, o Estripador e o assassinato da Joan. Enfim, eu não sabia que título dar a esse capítulo e isso foi o melhor que saiu. Obrigada por ler e por favor deixe sua opinião. O próximo sairá em breve, prometo. Até o 7 o/




(Cap. 7) Sonhos

Notas do capítulo
Olá pessoal! Primeiramente gostaria de agradecer a KawaiChan por favoritar e a Annie Little pela recomendação linda. MUUUITO obrigada^^ esse é um capítulo meio continuação, mas tem bastante informação importante e um presentinho. não ficou muito grande e nem deu pra caprichar.... minha mãe resolveu fazer faxina hoje T.T Enfim, espero que gostem, não deixem de dizer se gostaram, se odiaram....até as notas. Boa leitura o/

Capítulo 7: Sonhos

Ciel pôs-se a correr o mais rápido que podia. Tinha que chegar a uma área mais movimentada. Mas logo que virou a esquina, tropeçou em algo e caiu rolando no chão. Quando se levantou, viu que tinha tropeçado em alguém caído no chão. Voltou pra ver o que era. Era um corpo ensanguentado, estava de bruços. Ciel esperou por um momento, depois a virou. Ele reconheceu o rosto e os cabelos coloridos. Era a moça que estava tocando guitarra n’O Submarino Amarelo. Provavelmente esta era a tal Joan Redford.

– Vejam só o que o meu lanchinho encontrou – sua voz adquiria um tom grotesco. E não havia ninguém por perto a quem Ciel pudesse gritar por ajuda. – Então, humano, você teme a morte?

– Vai pro inferno!

A criatura segurou-o pelo pescoço. Ciel mal conseguia respirar. O garoto desferiu um soco, depois outro. Conseguiu soltar-se e tentou fugir. A criatura segurou seu pé e o derrubou no chão. Ciel sentiu um forte impacto no tórax, tossiu e tentou respirar. Sentiu a criatura fincar os dentes no seu tornozelo direito. Foi uma dor terrível. Ciel virou-se e chutou-o três vezes até que ele soltasse.

O garoto tentou levantar, mas a criatura o prendeu no chão. Segurou seus pulsos e preparava-se para abocanhá-lo quando alguém agarrou sua camisa.

– Escolheu a vítima errada – Sebastian o arrancou de cima de Ciel.

– Devoratem Animarum! – a criatura, espantada, tentou escapar. Sebastian o arremessou na parede.

– Sebastian! – Ciel chamou levantando-se. Sebastian apenas virou o rosto para o garoto, sua expressão não era nada amigável e caminhou em direção ao bizarro rapaz. Por um instante, Ciel pensou ter visto um par de olhos vermelhos em Sebastian. Ciel tentou caminhar, mas ao fazê-lo, percebeu que não sentia suas pernas, a dormência foi se espalhando pelo corpo, sua visão foi escurecendo e tombou como uma rocha. No chão, antes que sua visão escurecesse por completo, viu um par de coturnos preto que lhe pareceu caírem do céu. Ouviu ainda Sebastian dizer ao dono dos coturnos “Siga-o, não deixe que escape e não permita que morda você!”. Não saberia dizer se era homem ou mulher. Perdeu completamente a consciência.

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Ciel sonhou com um jardim. Cheio de flores violetas e azuis. Havia uma árvore e um balanço. Uma mulher de compridos cabelos negros se balançava ali. Usava um lindo vestido branco. Ciel não podia ver seu rosto, mas sentia que a conhecia. Aproximou-se para vê-la melhor, mas tudo foi tomado pelas chamas. Sentiu o calor em sua pele. Sentiu a dor e o sofrimento. E por fim, acordou.



Acordou meio desnorteado, sem saber onde estava e sua cabeça doía. Levou alguns instantes até que recordasse o que tinha acontecido. Ciel estava deitado numa cama, mas aquele definitivamente não era seu quarto. Olhou ao redor, o quarto tinha uma decoração sóbria. Cortinas azuis lisas. Papel de parede bege listrado. Poucos móveis. Típico quarto de hospedes.

Tentou sair da cama.

– Não pense nisso. Ainda não pode se levantar.

Ciel sobressaltou-se com Sebastian entrando no quarto, trazia consigo um pequeno baú antigo.

– Sente-se com as pernas para fora da cama, por favor.

Ciel obedeceu meio confuso, percebeu que estava sem os sapatos.

– O-o que aconteceu? Quem... O que era aquele cara? Ele não só me atacou, ele... ele tentou me devorar, literalmente.

Sebastian sentou-se ao pé da cama com o baú.

– Eu percebi – o moreno levantou a perna da calça de Ciel até o joelho revelando duas mordidas muito feias.

– O que você está fazendo? – perguntou constrangido, tentando tirar o pé, mas Sebastian o segurou firme.

– Isso precisa de cuidados...

– ...Médicos, eu tenho que ir ao hospital.

– E pretende dizer o quê quando eles perguntarem como conseguiu essas marcas?

Ciel ficou em silêncio, como explicar a alguém o que aconteceu? No mínimo o chamariam de louco. Detestava ser considerado louco. Mas aquele cara era real e o corp...

– O corpo! O corpo de Joan Red...

– Não se preocupe a polícia já está lá – Sebastian terminou de limpar a ferida com álcool e pegou um frasco muito velho e esquisito de dentro do pequeno baú.

– Tem certeza que o prazo de validade disso aí não venceu? – fez uma careta para o frasco.

– Isto aqui não possui prazo de validade, mas vai servir. – Sebastian pegou certa quantidade com o conta-gotas, ia colocando sobre o ferimento quando parou e olhou para Ciel. – Vai doer. Se quiser se preparar ou segurar alguma coisa pra desviar a dor.

– Não seja ridículo, é só um remédio, não sou uma criança – dizia emburrado.

– Tudo bem.

Sebastian pingou algumas gotas sobre a mordida. Foi pior que a mordida. Ciel sentiu como se tivesse sido marcado com ferro em brasa. A dor foi tão grande, que Ciel sentiu-se desfalecer; para não cair, apoiou-se em Sebastian, apertando sua camisa com força. E foi preciso um autodomínio estupendo para não chorar, embora seus olhos tenham lacrimejado.

– Que raios de remédio é esse? – ainda sentia o corpo tremer.

– Você foi envenenado. Isso vai evitar qualquer efeito colateral. Amanhã você vai estar bem melhor.

Sebastian começou a fazer o curativo.

– Por que não me levou pra casa?

– Não poderia fazer muita coisa se tivesse te levado logo pra lá. Iria acabar morrendo.

Ciel o observou por alguns instantes, de alguma forma, ele estava diferente. Só não conseguia perceber o quê. Olhou para os olhos dele, estavam castanhos rubros como sempre. Talvez tenha sido só a luz, talvez...

– Ele não era humano, não é?

Sebastian manteve-se em silêncio. Terminou o curativo e levantou-se levando o baú.

– Espere um instante, eu já volto. E não se levante – Sebastian saiu do quarto.

Ciel bem que tentou desobedecer, mas não conseguiu, sua perna ainda estava fraca. Teve que permanecer sentado. Sebastian voltou com uma xícara nas mãos e entregou-a ao garoto.

– Beba. É chocolate quente. Vai aquecê-lo e lhe dará mais energia – sentou-se numa poltrona de frente para Ciel. O adolescente tomou um pouco do líquido, não estava nem muito quente, nem muito frio. Estava perfeito. Ciel olhou pela janela e se deu conta de que estava escuro lá fora.

– Que horas são?

– 19: 40.

– O QUÊ?! – Ciel quase derruba a xícara. – Eu tenho que ir pra casa, ficou maluco? Minha mãe vai enlouquecer – Ciel colocou a xícara sobre a mesinha ao lado da cama e tentou caminhar. Infelizmente a perna não estava tão forte quanto sua força de vontade. Estava indo de encontro ao chão quando Sebastian o segurou. Se alguém entrasse naquele momento, pensaria que os dois estavam se abraçando. O celular de Sebastian tocou. Ciel se afastou.

– Sebastian – o mais velho falou ao telefone. – Ótimo. Pode ir pra casa. E não escute isso tão alto, vai estragar sua audição.

Sebastian desligou o celular. Ciel o observava.

– Você não respondeu minha pergunta. Aquilo que me atacou é o assassino que a polícia procura?

– Aquela.. criatura, é algo pior. Embora tola, é altamente mortal, mas não incomodará novamente. É só o que precisa saber por enquanto – Ciel não parecia conformado. – Eu prometo explicar tudo. Mas hoje não. Ninguém sabe o que aconteceu. A polícia não sabe que estivemos lá e eu acho melhor assim. Se prometer guardar segredo eu prometo contar tudo. Pode esperar até amanhã?

– Mas o que é que está acontecendo Sebastian? O que você tem com isso tudo?

– Só até amanhã – Ciel sabia que havia algo de muito errado. Sentia agora, mas do que nunca, uma sensação ruim, havia algo de muito perverso a espreita. Respirou fundo.

– E por acaso tenho outra escolha? – Sebastian estava muito sério e sombrio, não havia em seu rosto aquela expressão gentil de sempre. – Eu tenho mesmo que ir pra casa. Minha mãe está grávida e não pode ficar se estressando muito, o que ela faz com facilidade, ainda mais se Angie estiver por perto verbalizando umas trocentas maneiras possíveis de eu ter morrido pelo caminho.

Sebastian riu. Isso acalmou Ciel.

– Ainda mais levando em conta sua tendência ao desastre.

Ciel até pensou em retrucar, mas levando em consideração os acontecimentos recentes, até que ele tinha razão. E além de tudo, o sorriso havia voltado ao rosto de Sebastian.

Sebastian tentou pegá-lo no colo, mas Ciel o interrompeu.

– O que pensa que está fazendo?!

– Tenho que levá-lo até o carro e você não consegue andar até lá, ou consegue?

Ciel tentou mexer o pé, mas doeu terrivelmente. Mas que raios de mordida foi essa?

– Tá. Anda logo com isso – disse emburrado sem olhar para o homem. Sebastian o pegou no colo.

– Tem que se segurar em mim ou vou acabar derrubando você.

Ciel o olhou com uma cara brava como se dissesse “ não acredito que vai me obrigar a fazer isso”. Muito contrariado Ciel passou os baços em volta do pescoço do Sebastian. – Viu, não foi tão difícil.

Olhar para Sebastian assim, tão de perto, era estranho. Sebastian desceu as escadas. Nesse momento, Ciel pode observar a casa. Era grande e muito bonita, maior que a sua umas duas vezes. A cor predominante era o azul. Ao chegarem na porta de entrada, Sebastian o soltou um pouco para abrir a porta. Depois o levou até o carro.

– Agora sabe onde eu moro, pode me visitar quando quiser – Sebastian informou quando estavam dentro do carro.

Ciel olhou para ele, Sebastian torcia as mãos, uma na outra, olhando-as de maneira estranha.

– Algum problema?

– Não – Sebastian ligou o carro. O percurso foi feito em silêncio, o que causou estranhamento em Ciel, pois o outro sempre arranjava um jeito de fazer o garoto conversar.

Sebastian o tirou do carro, o levou até a entrada de sua casa e apertou a campainha. Quem abriu a porta foi a senhora Valentine, que se espantou ao ver o estado do filho.

– Ciel? Por onde esteve? O que aconteceu? Não vai me dizer que Ivan Mason bateu em você novamente! – A mulher arrastava Ciel e Sebastian para dentro. Sebastian colocou Ciel no sofá, Angie correu para o irmão.

– MÃE! Está tudo bem. Eu estava voltando da escola, quando fui atropelado, o infeliz fugiu e não consegui ver a placa, felizmente Sebastian estava passando bem na hora. Ele fez a gentileza de me levar ao hospital e me trazer de volta. Não se preocupe, o médico disse que está tudo bem, eu só torci o tornozelo, mas amanhã estará melhor.

Sebastian riu por dentro, o garoto mentia com uma facilidade incrível.

– Minha nossa, esse trânsito está terrível. E onde está a educação das pessoas hoje em dia? Não respeitam nem as crianças...

– Jovens, mãe – Ciel corrigiu.

– Muito obrigada... Sebastian, não é? – Sebastian confirmou com um aceno de cabeça. – Ah, sim. Agora me lembrei, Angie falou de você, amigo do Ciel. Ciel não costuma trazer amigos em casa. – Ciel jogou a cabeça para trás, caindo no sofá, querendo morrer. – Mas seja bem vindo, e muito obrigada. Poderia fazer um favor, sei que já fez muito, mas Ciel tem que ir pro quarto e como pode ver... – ela exibiu a barriga enorme –, já carrego peso suficiente e Angie é muito fraca.

– Não sou não! – Angie gritou.

– Poderia levá-lo até o quarto?

– NÃO. Não preciso, eu fico aqui até o pai chegar – disse Ciel, segurando as almofadas do lado como se elas pudessem evitar que ele fosse retirado dali.

– Não, Ciel. Roger chegará tarde hoje. E se ele não vier dormir em casa? Não pode dormir aqui embaixo, precisa descansar, você foi atropelado.

– Tudo bem, eu o levo – Sebastian falou com a mão sobre o peito.

– Obrigada querido.

Sebastian tirou Ciel do sofá e levou-o até o quarto; Angie mostrava o caminho. Ciel sentia-se humilhado. Que cena ridícula devia ser um rapaz de 17 ser carregado no colo como um bebê. E o pior, na frente da mãe e da irmã.

Sebastian deitou Ciel na cama e despediu-se.

Ciel nunca sentiu tanta vontade de saltar da cama e correr até a sala, como naquela noite. Pois ouvia conversas vindas de lá. Com toda certeza aquelas duas estavam alugando Sebastian com falatório. Torcia pra sua mãe não estar contando coisas constrangedoras ou ter resolvido mostrar seu álbum de bebê – que Ciel tentou destruir depois que ela o mostrou a Liza – ou alguma coisa pior. Torceu para que Angie não estivesse sendo tão, tão... Angie. Por que a irmã não podia ter mais do recato inglês?

Depois de algum tempo ouviu um barulho do lado de fora da casa. Mas nada do barulho do carro de Sebastian. “O que ele está fazendo? Por que não vai embora logo?”, Ciel se levantou com muito esforço e, num pé só, foi se apoiando na parede e nos móveis até chegar à janela. Abriu um pouco a cortina e olhou lá para baixo. Sebastian conversava com Angie. Os dois riam. Angie mexia seu enorme cabelo laranja pra lá e pra cá; que previsível, que cara não repararia no cabelo dela, no rosto, ela nem precisava se mostrar, sua beleza já fazia isso por ela. Estaria Sebastian dando trela para a conversa da Angie? Como ele queria poder escutar. E a tal Amanda? Se Sebastian tinha alguma coisa com aquela Amanda, era melhor não se meter com Angie. Pensou apertando os dentes. Sebastian olhou para cima. Ciel quase cai ao esconder-se rápido. Dois minutos depois, ouviu o barulho do carro se movimentando e se distanciando.



Angie e sua mãe voltaram para ver como ele estava.

– Seu amigo é muito gentil e educado. É bom ter amigos mais velhos, ajuda a amadurecer o caráter. Ele parece ser bem culto – dizia a mãe ajeitando o cobertor.

– E bonito, não vamos esquecer disso. Já pensou, eu chegando na facu com o Sebastian do lado? Minhas amigas iriam morrer de inveja – Angie dançava com um travesseiro.

– Eu pensei que você já gostasse de alguém – Ciel a lembrou.

– E gosto – sentou-se ao lado de Ciel - Mas cá entre nós, maninho, quem não gostaria de um beijo do Sebastian?

– Olha o assanhamento menina! Levanta, deixa seu irmão descansar.

As duas saíram do quarto e apagaram a luz. Ciel ficou sozinho. Logo os acontecimentos do dia vieram a mente. Se aquele cara não era humano, o que ele poderia ser? E se não era o assassino, quem seria então? Ficou analisando os assassinatos, as vítimas, o misterioso assassino e a criatura esquisita. E como Sebastian entrava nisso? Por fim, acabou sendo tragado pelo sono.



Ciel estava sentado na cama com as pernas para fora. Seu coração batia acelerado, sentia as mãos suadas. Alguém se aproximou dele.

– Relaxe – Sebastian surgiu em seu campo de visão. Aproximando-se do corpo do garoto. – Feche os olhos. Permita-me apenas mostrar-lhe isto. E apenas sinta.

Ciel fechou os olhos. Sentia o homem se aproximando cada vez mais e com ele o ritmo em seu coração. Sentiu-o segurar-lhe o queixo e levantar seu rosto gentilmente. E finalmente... O toque. Pôde sentir o toque dos lábios dele nos seus. A maciez da pele. Uma mão segurava seu rosto e a outra deslizava por sua cintura. Suas próprias mãos levantaram-se em busca do outro. Seu corpo foi aos poucos se inclinando, até que suas costas repousassem na cama...



Ciel acordou num sobressalto. Olhando para os lados, como se alguém pudesse ver o que se passava em seus sonhos. Respirava como se tivesse corrido, seu coração batia como se tivesse levado um susto, tremia como se saísse de um pesadelo. Mas não fora pesadelo, fora um sonho. Sonho que parecera tão real. Ciel levou os dedos aos lábios. Ainda sentia a sensação, como se acabasse de ser beijado. Ciel afundou o rosto nas mãos, passando os dedos pelos cabelos. Estava muito preocupado.

Mas fora só um sonho, provocado pelas besteiras que Angie falou. Com certeza essa era a explicação mais lógica. Aquela foi a primeira vez que Ciel teve um sonho assim. E naquela noite, foi dormir implorando para que não houvesse outros iguais.

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A criatura corria pelas ruas mais escuras de Liverpool. Seu caçador no seu encalço. Um chicote enrolou-se na sua perna, fora puxado para o chão. Dois disparos foram feitos. Sentiu as balas acertando os dois braços. A dor ramificava-se pelo corpo. Seu caçador posicionou-se sobre ele, com o pé direito sobre seu peito, apontando a arma para sua cabeça.

– Pode me matar, mas outros como eu virão – disse a criatura.

– Eu sei, já matei um bocado de comedores nojentos como você. Pra quem você trabalha?

– Acha mesmo que direi a você, cão humano? – dizia com desprezo. – Eu adoraria provar um pedaço seu docinho – sorria debilmente.

– Ad Infernum!

Mais um disparo certeiro. Colocou os fones de ouvido no último volume. Pegou o celular.

– Oi... Trabalho feito..... Ok, ok! – Guardou o celular no corselete recolocou os fones no último volume e saiu cantando noite adentro. – Pleased to meet you, Hope you guess my name, oh yeah. Ah, what's puzzling you. Is the nature of my game, oh yeah…

Notas finais do capítulo
NOTA: tem certas coisas nessa fic que até tem notas, mas não posso dizer... cabe a vcs perceberem...ou estão se distraindo com os encantos de Sebastian? Latim: há palavras em latim, não vou dizer o que significam...tentem descobrir^^ A música cantada no final é um trecho de Sympathy For The Devil, dos Rollings Stones..dêem uma conferida nela. ATENÇÂO: pessoal, notícia triste. semana que vem volto a traabalhar e a estudar, meu tempo vai ser reduzido em 80%, por isso não poderei continuar postando com intervalos de 2 dias. passarei a postar somente nos sabados. eu sei isso é triste. tentarei postar mais um capitulo até domingo. me esforçarei para atualizar com mais frequencia. desde já agradeço a compreenção. por favor não deixem de comentar o que acharam do capítulo muito obrigada por lerem e até o 8.




(Cap. 8) Carnívoros Na Meia Noite

Notas do capítulo
Olá pessoal^^..
não imaginam a saudade que senti...pois é...prometi pro final da semana e cá estou. não sabem o trabalho que esse capitulo deu....digitei enquanto "assistia" 4 filmes com minha amiga q chegou de surpresa...não podia ignorá-la nem faltar com vcs, tive que fazer os dois ao mesmo tempo..ele teria saido antes da meia noite se não demorasse tanto pra editar o maior capitulo até agora....sem falar na net péssima q tá só caindo....então me perdoem qualquer erro ou se não tiver muito bom....tentei me esforçar e espero que gostem...
.juntem suas pistas, façam suas apostas.
Gostaria de agradescer a Yuka Harumi pela recomendação que eu amei^^...e a Fernanda, Michelle, Amanda, Júlia, Bia e ao Kiba por favoritarem...e obrigada a todos que comentaram.
Bom, é isso. Boa leitura o/

Capítulo 8: Carnívoros na Meia Noite


Quando Ciel acordou, a primeira coisa que lembrou foi do seu ferimento. Mas ao mover o pé não sentiu dor alguma. Ele afastou o cobertor e pressionou o local que estava enfaixado. Não sentia nada. Desfez o curativo e para sua surpresa o ferimento havia desaparecido. A pele estava intacta. Nem um arranhão sequer. Se não fosse o curativo e a dor terrível ainda em sua memória poderia jurar que tudo não passara de um sonho...

Sonho.

A palavra lhe trouxera a lembrança do sonho que tivera durante a noite. Sonho deveras constrangedor, pra dizer o mínimo. Além de ser absurdo e completamente impróprio. Seria normal ter sonhos assim? Ainda mais com outro... Ciel balançou a cabeça. Levantou-se num pulo testando a perna. Nada fora do normal. Que remédio seria aquele?

“Ele prometeu explicar tudo hoje.” Ciel lembrou-se. E se aprontou o mais rápido que pode.

Saiu antes que Angie ou a mãe pudessem vê-lo. Foi direto para o Darjeeling Chá. Ao chegar lá, encontrou uma sonolenta Ruby.

– Amo Ciel?! Chegou cedo hoje.

– Sim. Eu... – Ciel reparou na roupa incomum que a mulher usava. Vestia uma saia rosa com tule azul por baixo. Meia-calça com desenhos de gatinhos, sobre esta, usava outra meia. A segunda meia era listrada e colorida, a direita subia até a coxa, a esquerda estava só até o joelho. Botas pretas. Usava uma camiseta rosa com alças finas e por cima desta uma blusa branca folgada, cuja manga caia para o lado direito mostrando o ombro nu. A camiseta branca tinha os dizeres “I love ... e um circulo vermelho e brilhoso”. E muitas, muitas pulseiras nos pulsos. Ciel analisava meio aturdido a escolha de peças. – Isso é novo uniforme?

– O qu...? Não. É...como explicar? Um modelito tipo cosplay, estilo Harajuku Girl. Gostou? Meu uniforme está aqui. – Ela levantou uma sacola na frente de Ciel. – Eu me troco aqui porque já estraguei dois uniformes e se usá-lo somente aqui as chances de eu estraga-lo é menor. – Explicava a moça entre bocejos. Ciel chegava à conclusão que talvez Ruby fosse mais maluca do que imaginara. – Ai, me desculpa a falta de educação, é feio ficar bocejando assim na frente dos patrões, mas é que eu fui dormir super tarde ontem. Cheguei tarde do trabalho, tive que resolver uns problemas.. – Ela gesticulava pra lá e pra cá, Ciel se perguntava se realmente havia a necessidade de informar isso, ou se a garota estava apenas resmungando consigo mesma. - ...quando finalmente cheguei em casa era uma da manhã, mas não podia dormir logo, eu tinha que checar meu blog, depois fiquei lendo quase a madrugada toda...

– Que livro está lendo? – Ciel a interrompeu. Sempre fazia esta pergunta para alguém que estivesse lendo. Se julgasse o título interessante, procuraria para ler. E também porque temia que a moça continuasse narrando sua noite mal dormida.

– Não, não é livro. São... Histórias de autores amadores.

– Sério? Sobre o quê? – perguntou realmente interessado.

– Ah....muahahahaha! – a mulher corou e começou a sorrir de um jeito esquisito. Ciel a achou mais estranha ainda. – Sobre... Sobre muitas coisas. Eu escrevo também. Se quiser ler é só procurar na net. Meu nickname é M31R1-NYAHLover.

– Ceeeerto. Talvez eu procure. – Ciel entrou no Darjeeling Chá com Ruby. Fora os dois, só havia mais três garotas trocando as rosas dos vasos e colocando as toalhas nas mesas. Ruby pediu que Ciel esperasse enquanto ela se trocava. A mais nova das três garçonetes ofereceu uma xícara de café a Ciel. A garota tinha cabelos curtos e castanhos, serviu Ciel toda sorridente. O garoto chegou a ficar constrangido. Ele tomou o café no balcão até Ruby voltar.

–Pronto Amo Ciel! O que deseja? Não vai dizer que ficou viciado no nosso bolo de chocolate, com recheio de chocolate e cobertura de chocolate. O Triplo-Black?! – falava como se estivesse num comercial.

–Não. Vim apenas esperar o Sebastian.

– Oh... – Ruby fez uma cara estranha. – Sebastian não vem hoje. Ele está com a senhorita Villefort.

– Villefort? Amanda Villefort?

– Sim, essa Amanda. – Falava com certo desanimo e um leve tom de desprezo.

– Você gosta do Sebastian, não é? – Normalmente Ciel nunca faria uma pergunta indiscreta assim, mas percebeu que Ruby fugia dos padrões britânicos de discrição, assim como outra ruiva que conhecia. Será que a loucura está na cor dos cabelos? – Eu vejo como você fica olhando pra ele toda vez que vai nos servir.

– É difícil não ficar admirando ele. – ela falava olhando para o vento, com certeza visualizando um certo moreno. – Já tive uma paixonite por ele sim, mas foi há muitos anos. Mas ele só tinha olhos pra uma pessoa, e eu acabei por me apaixonar por outro alguém.

– Mas o Sebastian não disse que te conheceu aqui no Darjeeling Chá há um mês? – Perguntou Ciel meio confuso.

– Mas ein? – Ruby mordeu o lábio inferior, ainda olhava para o vento, mas dessa vez parecia estar acordada e com uma estranha expressão. – Pois é.... É isso mesmo. Foi só um jeito de falar que o que eu sentia ficou no passado, parece que foi há anos.... O que não me impede de admirá-lo. Além do mais eu também fico olhando para o Amo Ciel. Só que de longe, porque ele pode brigar.

Ruby colocou os cotovelos sobre o balcão e apoiou o queixo nas mãos olhando descaradamente para Ciel. O adolescente corou por completo.

– B-bom, já que ele não vem...Eu tenho que ir pra escola.– Ruby sorriu. – Bem... Pode dizer a ele que estive aqui, caso ele apareça?

– Sim senhor!

– Ruby, como sabia? Como sabia que Sebastian não viria hoje?

– Ele me disse ontem à noite. – Ontem à noite em que hora? Foi o que Ciel quis perguntar. Pois Sebastian Ficara com Ciel até umas oito e meia da noite. Quando Sebastian saiu de sua casa já era muito tarde. Ruby disse que chegou em casa as uma da madrugada. Ciel ficou formulando tanta coisa na cabeça que desejou não ter perguntado. Às vezes sua curiosidade irritava a ele mesmo.

Ciel só esperava que Sebastian não estivesse pensando em
enganá-lo.



Chegou a Academia Nottingham mais cedo do que jamais chegara. O zelador acabara de abrigar a porta de entrada. E poucos professores haviam chegado.

– Bom dia, senhor Valentine. Chegou cedo hoje, está assim tão apressado para assistir a aula? – Dizia a senhoria Bathory, a bibliotecária. – Senti sua falta, há dias não aparece na biblioteca. Não me diga que trocou os livros por videogames?

– Não senhorita, um amigo tem me emprestado.

– Ah, que bom! Mas sabe que será sempre bem vindo a minha biblioteca. – sorria amavelmente. – Olha, haverá uma noite de autógrafos na Megabook, sabe onde fica? – Ciel assentiu com a cabeça, já fora algumas vezes na livraria com a Angie. – A entrada é gratuita, uma escritora vai lançar um livro de mistério e vários outros livros do gênero estarão em exposição. Eu sei q você gosta, então... – ela entregou um panfleto que anunciava o evento. – Eu estarei lá. Espero te ver lá também.

– Claro, com certeza. – Ciel despediu-se da stra. Bathory. Ficou olhando ela se afastar, seus cabelos negros balançando. Ciel sentia certa simpatia pela professora. Ela sempre o tratara bem e sempre indicava bons livros, pois a professora tinha a mesma paixão por contos policiais como ele, assim como um certo tratante que assume um compromisso e depois some. Sempre que Ciel se lembrava de Sebastian ficava irritado.

Foi para sua sala. Sentou-se na cadeira de sempre e pegou o celular. Nada. Nenhuma mensagem, nem ligação perdida. Ciel queria ligar e perguntar o que diabos ele estava fazendo, se esquecera de que havia prometido explicar-lhe sabe-se lá o quê, mas o orgulho não o deixava. A impaciência o corroía, a curiosidade o fazia olhar a todo o momento para o celular, mas sua teimosia era maior. O que ele tinha de tão importante pra tratar com a tal Amanda? Amanda não foi quase devorada viva, ele fora. Nada mais justo do que receber uma explicação, já que o infeliz do Sebastian dera a entender que sabia de algo. Não, mais do que isso. Ciel sentia que ele estava escondendo alguma coisa. E todos os acontecimentos estranhos que vinha presenciando o faziam crer que estava certo.

– Bom dia Ciel! – Dimas entrava na sala com algumas rosas nos braços.

– Pra que isso?

– É meu dia de organizar a sala. Achei que colocar essas rosas num vaso deixaria a sala mais bonita. – Ajeitava o dito vaso numa estante do lado esquerdo da sala. – Além disso, elas são cor-de-rosa!

– E o que tem isso? – Ciel perguntou sem muito interesse. Seu amigo era da equipe de Rugbi, e apesar da pouca musculatura e de ser mais alto que Ciel pouca coisa, Dimas era realmente muito forte. Felizmente o garoto se apegara a Ciel por alguma razão. E sempre que alguém o importunava, Dimas o defendia. As vezes era humilhante, pois o fazia parecer fraco, e outras vezes era vantajoso, pois até idiotas como Ivan Mason, pensavam duas vezes antes de partir pra agressão física. Mas a verdade é que Dimas era um bobo, no bom sentido da palavra. Muitas vezes infantil e aluado, é verdade, mas com certeza o mais querido da classe.

– Liza disse que gosta de rosas cor-de-rosa. Acho que ela vai gostar. Você pode dizer que foi você quem me pediu pra trazer, ela vai ficar muito feliz.

– Isso seria mentira. Quer ajuda? – Ciel ofereceu-se para ajuda-lo a organizar a sala, mais por tentativa de distração do que por altruísmo.

A primeira coisa que Liza, assim como as demais alunas, viu quando entrou na sala foram as rosas.



Ciel passou todo o dia esperando um sinal de Sebastian e nada. As horas pareciam se arrastar. Quando o sinal tocou, suspirou de alívio. Infelizmente, Liza insistiu para que ele a acompanhasse até a aula de esgrima. Deixou a menina lá e voltou para casa. Ainda passou em frente ao Darjeeling Chá olhando pela vidraça, mas tudo que viu foi Ruby servindo as mesas atrapalhada e sorridente como sempre. Lembrou-se da roupa que a moça usava pela manhã e esbouçou um pequeno sorriso. Já inconformado com o desaparecimento de Sebastian deu-se por vencido. Pegou o celular e ligou para ele quando passava pela Rua Barnabas. Para aumentar a sua fúria a ligação caiu em caixa postal. Se Sebastian aparecesse agora, Ciel acertaria sua cabeça com o celular.




Liverpool já estava coberta pelo manto negro da noite. Havia poucas pessoas nas ruas. Duas pessoas seguiam o rastro de alguns suspeitos. Os dois pararam no telhado de um galpão. Viram as duas garotas sendo perseguidas por quatro Homens na rua logo abaixo. As duas garotas se pareciam muito. As garotas gritavam abraçadas pedindo socorro. Eles tentavam separá-las, mas uma tentava segurar a outra.

– Não! Por favor, deixa a gente em paz. Não machuca a minha irmã.

– Socorro! Melinda, não me solte. Não me solte.

– Belinda! Por favor, solte minha irmã. - Um dos homens pegou a outra garota, jogou-a sobre os ombros e saiu correndo. – Não. Belinda! Por favor, devolva minha irmã. SOCORRO! Alguém...pelo amor de Deus....

Os dois no telhado preparavam as armas.

– Eles escolheram aquela. – O de casaco marrom apontou para a tal Belinda sendo levada para longe. – Se eles capturarem mais uma, Sebastian nos mata. Vou atrás deles.

– Certo. Eu fico com estes. – Disse colocando os fones nos ouvidos e girando as pistolas nas mãos. – Trilha sonora pra ação.

Melinda tentou fugir, mas fora encurralada. Os três que ficaram se aproximavam sorrindo maldosamente. Não eram bandidos comuns. Quando chegaram mais perto, ela pode ver que eles tinham olhos incomuns. Dois tinham olhos vermelhos, o outro olhos amarelados. As pupilas anormalmente dilatadas.

– P-ra onde levaram a Belinda? O que v-vão fazer com minha irmã? P-por favor, não me machuquem. – Implorava chorando.

– Não é justo que só sua irmã se divirta. – falava o da esquerda.

– É, nos também podemos brincar. – o da direita sorria.

– Prometemos ser bonzinhos. O do meio se aproximava. Os três caíram no riso.

Melinda se encolhia, rezando para que a irmã estivesse em situação melhor. Os três pularam sobre ela. Melinda fechou os olhos e ouviu um tiro. Quando abriu os olhos, viu uma mulher lutando e atirando contra os três caras. A mulher vestia um short preto muito curto, corselete preto e jaqueta vermelha de capuz cobrindo a cabeça. Calçava coturnos pretos e meias negras que iam até a coxa, presas por cinta liga. Manejava duas pistolas com grande destreza. Ela chutou o primeiro homem pra longe, acertou o segundo com o cotovelo e atirou no terceiro a sua frente. Virou-se para a jovem.

– Tá esperando o quê? Fuja! – a mulher falou. Melinda levantou e correu, deixando a atiradora para trás. E foi na direção que Belinda havia sido levada. Quando não podia mais ver a mulher ou os três caras, achou que tinha conseguido, mas logo um dos homens apareceu vindo atrás dela. Melinda correu o mais rápido que podia, seu coração parecia que iria sair pela boca. Quando estava cruzando a rua viu uma forte luz vindo em sua direção. Fora atingida por um carro.




Ciel jantou. Teve que lavar as louças do jantar sozinho porque Angie inventara mil desculpas como sempre. Passou horas em seu quarto. Ligou o computador e começou a pesquisar tudo o que havia sido noticiado sobre os desaparecimentos e os assassinatos. Todas as informações se resumiam a falta de pistas. A polícia não fazia ideia de como o assassino agia, nem por onde começar a procurar. Ciel lia atentamente, já era quase meia noite, pela primeira vez no dia conseguira realmente se distrair. Até seu celular vibrar.

Assustou-se. Quando viu o nome de Sebastian no display, pensou em atender imediatamente. Mas uma ideia maldosa o parou. Pensou em deixa-lo esperando. Se ele havia esperado até agora para ligar, que esperasse até amanhã.

O celular tocou mais duas vezes e parou. De repente, Ciel ouviu o barulho de alguma coisa acertando sua janela. Caminhou até ela e olhou pelo vidro. Sebastian estava parado no outro lado da rua. O homem acenou sorrindo de um jeito que irritava mais ainda o adolescente, ele apontava para o próprio celular. Ciel olhou para o celular que segurava, este voltou a vibrar. Por fim, atendeu.

– Boa Noite Ciel. Já passa da hora de você dormir. Estava me esperando até agora?

– Idiota! O que você quer?

– Precisamos conversar, não é? Pode descer até aqui?

– Agora?! Já é quase meia noite, ficou maluco?

– Se quiser que eu conte alguma coisa, tem que ser agora. Eu sei que você é esperto, dê um jeito de sair sem que te vejam. Estou esperando.

Ciel pensou por alguns segundos. Sua mãe e irmã dormiam, seu pai pelo visto não dormiria em casa.

– Está bem, espere um instante.

Ciel pegou os tênis e desceu as escadas devagar. Andava com a cautela de um gato. Quando finalmente saiu de casa, sentou-se na escadaria da entrada para calçar os tênis e foi até Sebastian.

– Olá, sentiu a minha falta? – Ciel o fuzilava. – Está zangado.

– É claro que estou! – esbravejava – Você disse amanhã e some o dia todo. Eu até liguei pra você, crápula! E além de tudo, fez a desfeita de não atender. É preciso muito pouco pra me deixar aborrecido, muito pouco mesmo. Mas você faz isso com maestria.

– Bem ainda não é meia noite, então tecnicamente não quebrei a promessa. – Sebastian dizia cheio de razão. – E não adianta me olhar com essa cara emburrada, porque na verdade eu gosto muito dela. Se continuar com essa expressão só vai me encantar mais ainda. Além do mais estou apenas seguindo suas ordens. Você disse “conte-me apenas o necessário até achar que for apropriado”.

– Que absurdo, eu nunca disse isso, você é quem está dizendo. – Ciel rosnava indignado.

– Tem razão. Venha. – Sebastian segurou o garoto pelo pulso e começou a puxá-lo pela calçada.

– O que está fazendo? Onde estamos indo?

– Ao meu carro. O estacionei no fim da rua pra não fazer barulho. Está muito frio aqui fora e não é prudente conversar onde dá na vista. – os dois chegaram ao final da rua. Ciel entrou no carro ainda emburrado. Sebastian deu a partida.

– O que pensa que está fazendo?

– Ligando o carro. Como pensa que chegaremos em casa?

– Que casa? A sua? Não. Nem pensar. Eu não vou sair daqui. Vai ter que explicar aqui mesmo. Qual o problema com o carro? Ninguém vai nos espionar.

– Eu pensei que na minha casa seria mais confortável, mas se você prefere que seja no carro...

– E-está me enrolando. – Ciel falou fugindo dos olhos de Sebastian, sentindo-se repentinamente constrangido.

– Muito bem. – Sebastian tirou as mãos do volante e ficou alguns segundos olhando para a noite. Ele adquirira aquela aura sombria novamente. Tudo o que Ciel conseguia ouvir era a própria respiração e o farfalhar das árvores vizinhas fora dos vidros escuros do jaguar preto. Quando Sebastian voltou a falar, seu tom era extremamente sério. – Aquilo que o atacou no beco era um demônio.

– Está brincando comigo?

– Não. Você mesmo chegou à conclusão de que ele não era humano. Responda você se estou mentindo. O que eu ganharia mentindo sobre isso? – Ciel nada respondeu. Por mais absurdo que possa parecer, depois de ver a aparência daquele cara mudar de forma grotesca, não haveria explicação melhor. No fundo, sentiu que esperava apenas que alguém confirmasse que ele não estava louco. – Existem muitas raças, mas aquele era especificamente um kroboro, Devorador de Carne. kroboros são demônios fracos e não muito espertos, mas muito perigosos. São capazes de comer um homem inteiro em poucos minutos. E quando digo inteiro é inteiro. Devoram até os ossos. Eles atacam as vítimas com uma mordida inicial, que espalha um veneno paralisante que imobiliza a vítima. Se eu não tivesse aparecido naquela hora, você com certeza teria virado jantar. Há muitos deles, não só em Liverpool, mas em toda a Inglaterra.

– Quer dizer que o assassino que a policia procura na verdade é um demônio como aquele?

– Não. Os kroboros são, sem sombra de dúvidas, a causa dos desaparecimentos. Os jornais devem ter noticiado a repentina onda de desaparecidos ou possíveis sequestros sem pedidos de resgate. Bom, devo dizer que estas pessoas jamais serão encontradas. No entanto, devoradores jamais viriam ao mundo humano sem que alguém os trouxesse. O assassino é alguém esperto. Esperto o bastante para despistar a policia, escolher as vitimas a dedo e mata-las sem deixar vestígios seus nos corpos. Esperto o suficiente para lidar com kroboros. As agulhas encontradas nos corpos das vítimas indicam que o assassino sente um prazer sádico e é deveras minucioso ao tortura-las, isso está de acordo com os métodos usados pela maioria dos demônios e psicopatas. No entanto, demônios não costumam desfigurar suas vítimas, pois apreciar a beleza delas faz parte do prazer. Esse ato de mutilar as mulheres retirando qualquer sinal de sua beleza, são traços comuns de humanos que sofrem de doentia inveja. O que me faz crer que o assassino possa ser humano. Mas Devoradores não obedecem a humanos. Apenas demônios mais fortes são capazes de controla-los.

– Então um demônio mais poderoso pode está ajudando o assassino? Claro, um humano jamais poderia atravessar todo um país carregando uma vítima sem que ninguém o visse, mas alguém com capacidades sobre-humanas sim. Sabe quem pode ser, Sebastian?

– Não. Mas sei que está nessa cidade. Os kroboros apenas recebem a incumbência de capturar vítimas nas outras cidades, como não conseguem ficar sem comer, acabam matando humanos no caminho.

– Por isso o maior número de desaparecidos está justamente nas áreas em que as vítimas moravam ou onde foram encontradas. Quando aquele cara me atacou, ele disse que tinha que fazer um trabalho e voltar, alguém o mandara deixar o corpo de Joan Redford lá. – Era tudo tão surreal, mas fazia sentido. A polícia nunca resolverá esse caso se for tudo como Sebastian disse. E Ciel duvidava que algum policial acreditasse em tal história. Por um instante Ciel pensou que poderia acordar amanhã e descobrir que apenas dormiu sobre mais um livro e que tudo não passara de um sonho maluco, mas Sebastian estava bem ali. Ele era real, Ciel podia sentir sua presença mais que qualquer coisa. – Como sabe de todas essas coisas?

– Isso eu explicarei depois. Primeiro quero te pedir um favor.

– O quê? Fala logo agora, e eu faço que você quiser.

– Olha, não faça promessas eu posso cobrar. Tudo bem, é sério. Pode convencer sua amiga Liza a falar comigo.

– O que você quer com ela? – estranhou o pedido.

– Não se preocupe. É um assunto que diz respeito somente a ela. Prometo que ela ficará bem. Se fizer isso, estarei a sua disposição para fazer o que você desejar.

– Não sei Sebastian. Talvez eu... – Ciel sentiu novamente aquela sensação de tontura e de irritação no olho direito. Olhou pelo para-brisa do carro. A garotinha com o corvo estava no final da rua. Ela levantou a mão e fez sinal para que ele a seguisse. – A menina!
Rápido, segue ela.

– O quê?! Não vi ninguém. – Sebastian olhou ao redor não havia ninguém. – Ciel...

– Rápido liga o carro, vamos praquela direção. – Dizia apontando o caminho. – Anda Sebastian, estou mandando, rápido. – Ciel sentava-se e colocava o cinto. Sebastian apenas obedeceu meio confuso. O que Ciel teria visto? – Acho que ela quer me mostrar alguma coisa.

Sebastian dirigia sem saber exatamente o que procuravam. Depois de percorrer várias ruas Ciel gritou: “Cuidado!”. Alguém entrara na frente do carro. Sebastian freou o mais rápido que pode. A pessoa caiu, não sabiam se tinham a atingido ou não. O kroboro que a perseguia ainda ameaçou ataca-la, mas Sebastian acendeu os faróis e buzinou. Quando os viu, a criatura saiu correndo. Ciel saiu do carro e correu para ver a moça caída.

– Você está bem? – Ciel perguntou aproximando-se da garota.

– Por favor, me ajude, uns caras..monstros...eles...ele levou minha irmã. Minha irmã...não...não me deixe sozinha.

– Está tudo bem, eu vou chamar a polícia. – Ciel tentava acalmar a garota, pegando o celular no bolso da calça. Sebastian viu o cara de casaco marrom deitar a outra garota no chão, onde os dois adolescentes não podiam ver. Conseguira salvá-la do outro kroboro. O homem de marrom fez uma continência e partiu.

– Aquela é sua irmã? – Sebastian perguntou apontando a garota deitada na rua.

– Belinda? Belinda! Ela está bem? – Os três correram até a garota. Melinda tentava acordar a irmã.

– Ela está só desmaiada, vamos esperar a policia. – Dizia Sebastian.

– Chamei uma ambulância também. – Se eles não tivessem aparecido... Não sabia quem era aquela menina com heterocromia, mas pelo menos ela estava do seu lado.

– Se machucou? – Sebastian segurara sua mão. Ciel sentiu o contato quente. Olhou para as duas mãos dadas por alguns segundos.

– Não. Estou bem– Puxou a mão de volta para si, abraçando o próprio corpo. Sebastian providenciou um cobertor para as gêmeas, enquanto as interrogava e as acalmava, Ciel o observava. O adolescente não pode evitar olhar para seu rosto, sua boca e lembrar-se do sonho. A realidade traria a mesma sensação? Censurou-se por ficar-se indagando sobre algo que deveria tentar esquecer. Mas a verdade era apenas uma: desde que conhecera Sebastian, Ciel nunca se sentiu tão confuso. Se encostaram no Jaguar preto, as sirenes já se aproximavam. – Quer saber de uma coisa? – Sebastian olhou para ele. – Acho que ficarei de castigo.

Os dois riram. A vida de um adolescente é realmente intrigante. Eles fogem de casa a noite, perseguem menininhas estranhas que desaparecem como fantasmas, atropelam pessoas, enfrentam demônios e no fim de tudo, se preocupam em ficar de castigo. A noite chegava a suas horas mais gélidas, inconscientemente, Ciel se achegou mais a Sebastian, este por sua vez, se perguntava quando o jovem despertaria. As duas irmãs se aninhavam, felizes por terem escapado. Mas alguém, bem longe dali, não gostou nada.

Notas finais do capítulo
Harajuku Girl: Como são chamadas as garotas japonesas que desfilam pelo bairro Harajuku, em Tóquio. Existem vários estilos, mas o que Ruby usava era o DECORA. Roupas muito coloridas e com muitos acessórios.
M31R1-NYAHLover: se alguém aqui no Nyah! Tiver um nome parecido, me perdoem. Não foi minha intenção.
Rugby: Futebol inglês, pra mim é a mesma coisa que futebol americano.
Kroboro: significa devorador de carne, o nome do cão cérbero vem dessa palavra.
então...quantos suspeitavam que o dono dos coturnos era uma mulher?...aguardem mais revelações nos próximos.....
Por favor deixem comentários dizendo o que acharam ou dando ticas, sei lá..
Muuuito obrigada a todos que leram e que comentaram
Espero que tenham gostado...Bjs, até o nove
Tai Blurose^^




(Cap. 9) Quatro Semanas

Notas do capítulo
Olá pessoas lindas do meu coração^^

Desculpem a demora. Não sabem a semana que tive T^T....enfim, esse capítulo foi difícil, não sei se vai agradar, mas espero que gostem.

Gostaria de agradecer a todas as lindas review que recebi e pedir desculpas por não responder todas, mas responderei agora.

Um beijo especial para Náh e pra Rosane por favoritarem e um obrigada a todos os novos leitores....obrigado por lerem.

Peguem um copo de água, uma pipoca e boa leitura,

Até as notas o/

Capítulo 9: Quatro Semanas

– Chefe! Chefe! – Harris gritava indo em direção à sala do chefe de polícia de Liverpool. Ele abriu a porta e encontrou o Chefe em meio a pilhas de papéis. – Chefe, recebemos uma ligação, duas garotas foram atacadas na saída de Hiveshire. Estão pedindo ambulância também.

– Elas estão vivas? – o Chefe perguntou apanhando o casaco e caminhando até a porta. Harris informou que sim. – Ótimo, precisamos interroga-las.

– Certo.

O homem de casaco marrom finalmente conseguiu matar o Kroboro. Planejava segui-la e ver se ele levaria a garota até o assassino, mas a criatura miserável percebeu que estava sendo seguida e tentou matar a garota. Mas ele conseguiu acertar a cabeça do kroboro antes que este mordesse a garota.

Caminhou até a menina, pegou-a no colo e correu em direção a sua companheira que ficara para trás com a outra menina e mais três dos devoradores malditos. Parou de súbito quando reconheceu o jaguar preto parado no meio da rua logo mais a frente. O Menino Ciel falava com alguém caído no chão, a gêmea da garota em seus braços. Sebastian olhou para ele, sabia que não poderia se aproximar. Colocou a garota no chão, bateu continência para Sebastian e se afastou.

Quando já sumia nas sombras uma mão agarrou seu braço. Virou-se apontando a arma direto para a cabeça do outro.

– Calma, calma. Sou eu. – Dizia a mulher de jaqueta vermelha tirando os fones de ouvido.

– Não me assusta desse jeito! O que houve?

– Um dos kroboros conseguiu escapar e foi atrás da garota. O Sebastian a pegou primeiro.

– Aquele é o Ciel? – Perguntou o homem estreitando os olhos tentando enxergar o garoto à distância.

– É ele sim. Ele é fofo né?

– Não consigo ver ele direito... – ele escutou o barulho de sirenes ao longe. – É melhor irmos, daqui a pouco, a polícia vai revirar isso aqui tudo.

O Chefe de polícia saiu da viatura pedindo que Harris verificasse com os paramédicos se as garotas estavam bem. Quando foi descobrir quem havia ligado para a polícia, teve uma surpresa.

– Ciel?! – Disse ele.

– Oi, pai. – Disse o adolescente, sem emoção, afastando-se do jaguar preto.

– O que faz fora de casa a essa hora? E quem é ele? – acrescentou ao notar Sebastian atrás do filho.

– Sebastian, é meu amigo.

– Sebastian Michaelis, é um prazer senhor. – Sebastian estendeu a mão para cumprimentá-lo, o pai de Ciel hesitou um pouco, mais o homem sorria tão amigavelmente que seria uma falta de educação não cumprimenta-lo.

– Roger Valentine. Posso saber como se meteram nessa confusão?

– N.... – Sebastian iria falar, mas Ciel o interrompeu.

– Estávamos voltando pra casa, quando ela entrou na frente do carro. Nós paramos para ver se ela estava bem e percebemos que a outra garota estava caída logo ali. Ela disse que foi atacada, mas não vimos ninguém. Eu liguei pra polícia porque tive medo que o agressor pudesse voltar. Mas acho que nossa presença o afastou, isto é, se ele estivesse por perto.

– Certo. Sua mãe deixou você sair?

– Não. Eu saí escondido. – Sebastian se surpreendeu com a capacidade que Ciel tinha de mentir, tanto que seu pai nem fez mais perguntas, e ao mesmo tempo, dizer a verdade sem medo das consequências. – Durante essa semana, o planeta marte poderá ser visto no nosso céu, mas somente após a meia noite. Sebastian disse que tinha um telescópio, então eu o convenci a me levar até o parque para ver o planeta. Ele realmente não queria vir, mas eu insisti. Perdão, a culpa é minha. Deveria ter pedido permissão e não saído escondido. – Sebastian surpreendeu-se novamente, dessa forma Ciel parecia ser uma péssima influencia para ele, a ideia o fez sorrir internamente. Ciel adquirira uma expressão de arrependimento tão meiga, realmente convincente.

– Que bom que sabe que está errado. E não pense que vai escapar do castigo. Que ideia absurda foi essa de sair no meio da noite pra fazer uma idiotice dessas? Não sabe o perigo que estava correndo? Entre logo na viatura, vou levar você pra casa. – O chefe Valentine caminhava irritado, em direção a Harris. Ciel sabia que ouviria um sermão enorme até não aguentar mais.

– Por que assumiu toda a culpa? – Sebastian perguntou.

– Porque meu pai não podia odiar você ou achar que você é um péssimo exemplo, ou ele me proibiria de vê-lo. – Confessou o garoto.

– Obrigado. – Sebastian exibia mais um de seus cativantes sorrisos. Ciel, como sempre, sentiu-se constrangido.

– Boa noite. – Ciel foi em direção à viatura.

– Nos vemos amanhã? – Sebastian perguntou.

– Se você quiser. – Ciel respondeu sério.

–Eu quero.

– Até amanhã então.

Quando o sr. Valentine e Ciel chegaram em casa era uma e meia da madrugada. Depois de mais um sermão do pai, veio mais um da mãe sobre como era perigoso para o filho do chefe da polícia andar por aí sozinho, ou fugir de casa a noite, sair de casa sem permissão, não dizer aonde vai e mais um monte de coisas que Ciel não prestava atenção. A única coisa que se passava na sua mente eram as palavras de Sebastian. Ciel finalmente chegou ao seu quarto às duas e meia da manhã. Já estava entrando embaixo das cobertas quando Angie entrou sorrateiramente no quarto.

– Pode ter enganado o pai e a mãe, mas a mim você não engana maninho. O que você e Sebastian estavam aprontando, hein? – Falava sussurrando.

– Nada, Angie. Eu falei a verdade. – Ciel se cobria com o lençol.

– Sei.... Ver Marte no telescópio? Você nunca saiu à noite sozinho. Você nunca sai de casa. Fala sério Ciel! Só mesmo o pai e a mãe pra cair nessa.

– Vai dormir Angie. Se continuar me amolando, eu conto pro pai o filme inapropriado que você nos levou pra ver.

– Você é tão mal, Ciel. – A moça deu-se por vencida.

Depois daquele dia, Liverpool e toda Inglaterra desfrutaria de um bom tempo de tranquilidade. Pela manhã os jornais já noticiavam o caso das gêmeas.

Sebastian colocava astromelias azuis num jarro da sala de visitas. Organizou-as de maneira que ficassem bem distribuídas. Quando a luz da janela as alcançava, ganhavam um belo tom de azul brilhante.

Bleu comme le ciel! –disse a si mesmo ao acariciar levemente uma das pétalas. Logo o silêncio da enorme casa foi quebrado pelo barulho da campainha. Ele respirou fundo e soltou o ar entediado. “Amanda”, ele pensou.

Sebastian caminhou até a porta, mas ao abri-la teve uma enorme surpresa. Um adolescente de dezessete anos, uniforme escolar impecável, cabelos pretos azulados lisos caindo sobre um par de intensos olhos azuis. Sim, “azuis como o céu”.

– Não vai me convidar para entrar? – Ciel falou de um jeito sério. Sebastian afastou-se para o lado, dando passagem ao garoto. Estava realmente surpreso, não imaginava que o garoto realmente fosse aparecer. Mas pelo visto, Ciel era dado a fazer justamente o contrário do que se espera. Mas isso não era um incomodo de forma alguma. Significava que Ciel estava finalmente saindo de seu casulo. – Estou de castigo.... Por duas semanas.

– Seu castigo envolve vir me visitar? – Sebastian ironizou. Ciel o olhou feio.

– Não. Envolve ir de casa para a escola, da escola pra casa, sem passeios, sem saídas, sem amigos, sem televisão, sem videogame, como se eu jogasse.... – Ciel falava enquanto observava a casa ao redor, apresentava todas as proibições, que estava obviamente quebrando, de forma tranquila, talvez o garoto sentisse prazer em ser do contra. – A última aula hoje foi de matemática, o professor passou um teste surpresa, ele disse que liberaria mais cedo quem fosse terminando. Como fui o primeiro a terminar, resolvi aproveitar o tempo vago pra vir. Fiz mal? – Virou-se para Sebastian.

– Claro que não. Já que está aqui, vou preparar um chá para nós, ou prefere um refrigerante ou suco?

– Pode ser o chá. – sentou-se no sofá, colocando a mochila de lado.

– Fique a vontade, a casa é sua.

Sebastian saiu. Ciel estava na sala de visitas. Era bem espaçosa, havia cortinas claras nas janelas, balançando ao vento. Um jarro de flores azuis sobre uma mesinha próxima a janela. Decoração bem familiar. Mas não havia nenhuma foto, apenas quadros de pintura a óleo, daqueles que retratavam a vida dos ingleses na era vitoriana. Talvez Sebastian não gostasse de fotos, como ele disse que sua família morrera há anos. Será que foram mortos pelos kroboros e por isso Sebastian sabe de todas essas coisas?

Sebastian voltou com o chá.

– Você mora sozinho? – Ciel perguntou, Sebastian disse que sim. – É uma casa muito grande para uma pessoa só.

– Venha morar comigo então. – Sorriu. Ciel o olhou com a mesma expressão emburrada de sempre.

– Como sabia de todas aquelas coisas sobre os kroboros?

– Você não dá moleza, não é? Eu tenho uma proposta, falemos de Liza e eu digo o que você quer saber.

– Eu tenho uma contra proposta, você me diz o que quer com ela e eu vejo se posso ajudar. – Os dois se olharam em tom de desafio, Sebastian riu.

– Lembra-se da Amanda? Ela gostaria de conhecer Liza.

– E por quê? – Ciel perguntou, agora mais confuso do que já estava.

– Assunto pessoal. Sinto muito Ciel, mas não posso dizer mais, não agora.

– Sabia que você me irrita com todo esse mistério, não sei se você gosta de bancar o tipo suspeito ou se simplesmente não confia em mim.

– E eu achando que meu ar misterioso te encantava. – Ciel trincou os dentes. – Confio em você, só que há coisas que realmente não posso falar. A Amanda vai dar uma festa na piscina para os colegas da universidade, sua irmã vai estar lá, poderia ir e levar Liza com você?

– Angie conhece a Amanda?

– Sim, elas estudam juntas. Você não sabia? – Na verdade Ciel não lembrava da irmã ter mencionado alguma vez uma Amanda ou Villeford. Angie não falava muito da universidade, e quando falava era pra reclamar da injustiça de algum professor. Se ela alguma vez falou, deve ter sido naqueles momentos em que ele parava de prestar atenção. – Então, pode ir com a Liza?

– Detesto festas e odeio piscinas. Mas posso convencer Liza a ir só.

– Se você não for não será a mesma coisa. Com quem eu irei conversar?

– Converse com sua namorada, oras. – Franziu a testa.

– Que namorada? – Sebastian perguntou tomando um gole de chá.

– Amanda não é sua namorada?

– Não, ela é só uma amiga que estou ajudando. Por que achou isso?

Ciel não respondeu. Pensou por alguns instantes. A verdade é que Liza nunca iria a uma festa sem ele, ainda mais se não conhecesse ninguém, nem ele iria. Então por que cogitava ir? Porque estava curioso, claro. Por que mais?

Se... Se eu for, não quero ninguém me incomodando.

– Arranjarei um lugar pra você. – conseguira convencê-lo. – Quer conhecer a biblioteca?

– Você tem uma biblioteca?!

– Pois é...tenho.

Ciel passou horas olhando e lendo livros. Embora Sebastian o irritasse às vezes e fizesse comentários que o aborreciam ou provocavam, Ciel surpreendeu-se ao descobrir que realmente gostava da companhia dele.

No dia seguinte, Ciel voltou lá. Conversavam, ou melhor, Sebastian fazia Ciel falar. Ciel passou a gostar mais de Sebastian quando percebeu que este não tentava puxar conversa quando ele realmente não queria conversar. Havia dias em que ele não sentia vontade de falar com ninguém, o que Angie, sua mãe, Liza e nem ninguém entendia, mas Sebastian parecia entender, pois em dias assim os dois apenas liam. De fato, as visitas de Ciel se tornaram constantes.

Sebastian ficava o tempo todo com ele e lhe dava atenção como ninguém jamais deu. Os únicos momentos em que Sebastian o ignorava eram quando Amanda ligava. Nesses momentos Sebastian se afastava para conversar com ela. Ciel nunca conseguia ouvir sobre o que falavam e realmente se irritava toda vez que o celular dele tocava, porque sabia que era a Amanda.

Em alguns momentos, quando estavam lendo, Ciel olhava para Sebastian por sobre o livro. Observava a forma como o cabelo dele oscilava minimamente toda vez que uma brisa entrava pela janela da biblioteca. Seus olhos castanhos variavam entre um tom mais negro quando estavam num ambiente sem luz e um tom mais avermelhado quando a luz batia neles. Ciel não sabia dizer exatamente quanto tempo durava sua contemplação do outro, mas toda vez que seus olhos pousavam sobre os lábios dele, Ciel lembrava-se do sonho, seu coração começava a palpitar. Ciel tentava voltar a ler, mas era inútil, pois não conseguia mais se concentrar. Quando isso acontecia era insuportável permanecer na companhia de Sebastian, Ciel inventava alguma desculpa pra ir embora.

Quando chegou à casa de Sebastian no dia seguinte, não foi ele quem abriu a porta. E isso realmente desanimou Ciel.

– Olá Ciel! Entre, Sebastian está se trocando ele já vai descer. – Amanda o conduziu para dentro. A vontade de Ciel foi de dar meia volta e ir embora, mas a mulher falava de um jeito cativante e ela passou o braço em volta do seu arrastando-o até a sala de visitas. – Sebastian me falou que você levará Liza à festa. Fico muito agradecida.

– O que quer com a Liza? Se é que posso perguntar?

– Quero conhecê-la, é realmente muito importante pra mim. Quero saber como ela é, do que gosta, ser uma amiga. – Ela falava de um jeito tranquilo e firme, Amanda era daquelas pessoas que quando falam te prendem de alguma forma. – Pra isso tenho que me aproximar, com sua ajuda isso será possível. Prepara-la para contar a verdade. Quando ela souber, você também saberá. Entende isso? – Seu sorriso era angelical. Ciel não entendia bem as razões de Amanda, mas agora tinha uma ideia do que ela queria com Liza e talvez não fosse tão ruim levar a garota a tal festa. Se Amanda queria conhecê-la, iria conhecê-la. Amanda olhou no relógio. – Pode, por favor, chamar o Sebastian lá em cima. Não podemos demorar muito.

Ciel achava estranho o fato de simpatizar com Amanda quando estava com ela, e de fato ela era a mulher mais bonita que já vira, mas quando ela estava com Sebastian ou ligava pra ele, seus sentimentos em relação a ela era de antipatia.

Quando começou a subir as escadas, Ciel percebeu que de todas as vezes que esteve lá, exceto a vez em que fora atacado pelo kroboro, ele nunca tinha ido ao segundo andar da casa. Quando chegou ao corredor, viu várias portas, apenas uma estava aberta, devia ser aquela a porta certa. Quando chegou à porta, viu Sebastian vestindo uma camisa, tentou voltar atrás, mas infelizmente ele o vira.

– M-manda... A Amanda está te chamando. – Odiou-se por gaguejar e temia estar ficando vermelho.

– Já estou pronto. – Sebastian vinha em sua direção abotoando a camisa. – Sinto muito, terei que sair hoje, Amanda chegou de repente, por isso não foi possível te avisar.

– Tudo bem, eu vim só pegar aquele livro que estava lendo ontem, eu tenho que fazer um trabalho com Liza hoje.

– Tudo bem, mesmo? – Sebastian colocou a mão sobre seu ombro. Ciel se afastou.

– Está. Posso pegar o livro? – Sebastian disse que sim. Ciel desceu as escadas rápido, pegou o livro na biblioteca e saiu.

Ao chegar em casa, percebeu que havia pegado um livro que já havia terminado de ler. Ligou o notebook e foi digitar o trabalho de Literatura. Quando terminou, não havia mais nada pra fazer.

Lembrou-se de Ruby.

Entrou na Internet e tentou lembrar qual era o nome que a moça havia dito. M31R1-NYAHLover. Encontrou vários textos escritos por ela em um site que nunca havia visto. Clicou em um chamado “ Sob As Cerejeiras”. Leu o primeiro capítulo, muito bem escrito, narrava a história de dois amigos, pelo que pode entender. Pulou para o segundo capítulo. A história continuava normal, no entanto o enredo começou a adquirir um ar mais romântico, até que os dois garotos da história.... Ciel não acreditava no que estava lendo. Fechou o notebook de uma vez. Mataria Ruby quando pudesse.

Naquela noite, Sebastian ligou para Ciel. O adolescente ficou receoso em atender, não se senti bem ultimamente, mas por fim atendeu. Conversaram por horas.

– Sabiam que a televisão não para de noticiar o resgate das gêmeas Copperpot? A todo o momento os lindos rostinhos de Melinda e Belinda aparecem na TV. “As meninas que escaparam do terrível assassino”, como se eu tivesse falhado. – Escolhia minuciosamente suas ferramentas. – A todo o momento os idiotas da polícia fazem parecer que me boicotaram. Eles não fizeram nada. Aqueles cães imundos que me atrapalharam. Mas eu não vou permitir que nem a polícia nem a mídia me tratem como covarde. Eles estão achando que me assustaram que eu fiquei com medo e fugi. Mas eu não fugi. Eu fiquei aqui, pensando com meus botões qual seria a melhor maneira de humilhá-los. E por isso vocês estão aqui. – Pegou uma tesoura de jardineiro e começou a amolar as lâminas. - As pessoas estão mais tranquilas, já que não houve mais desaparecimentos, nem assassinatos, mas eu estava apenas pensando no presente ideal pra elas. Nós vamos mostrar a todos que ninguém, ninguém escapa da morte e que ninguém ri de mim. Porque eu nunca deixo pontas soltas. – Segurou a mão da garota, que tremia de medo. – Nunca desisto do que quero. Não se preocupem, – Colocou os dedos da menina entre a tesoura. – deixarei vocês duas idênticas.

A tesoura se fechou. Quatro dedos caíram no chão.

No fim, não foi tão difícil convencer Liza. A garota sempre reclamava que os dois não saiam e que Ciel não se enturmava. E que melhor maneira de fazê-la parar de reclamar do que uma festa na piscina? Festa da qual Ciel planejava secretamente fugir quando pudesse. Quando chegou à casa da Amanda, acompanhado de Angie e Liza, e viu aquele bando de jovens juntos, rapazes falando bobagens, garotas de biquíni exibindo-se o máximo que conseguiam. Música alta e muita alegria, muita bagunça. Ciel quis ir embora naquele exato momento. Mas estava ali pela Liza. Ele era o único completamente vestido. Angie estava de maiô vermelho e Liza de biquíni cor-de-rosa.

Amanda apareceu de braços dados com Sebastian, Ruby, inesperadamente, estava com eles. Amanda usava um maiô azul claro e um chapéu de abas grandes, óculos escuros, ela parecia uma daquelas modelos de capa de revista. Ruby usava um biquíni laranja floral. Sebastian vestia um calção de banho preto e uma camisa branca aberta. Ele ofereceu-se para montar o guarda-sol e afastou-se para fazer isso.

– Que bom que vocês vieram! Sintam-se a vontade. – Amanda cumprimentou um por um com aquele jeito cativante dela. – Ah! Você deve ser Elizabeth. Ciel me falou muito de você. – era mentira, mas bastou isso para o rosto da adolescente se iluminar, não era preciso muito para que Liza gostasse de alguém, e claro que o jeito todo elegante e alegre da Amanda a conquistou rapidamente. – Quer me ajudar a pegar uns refrigerantes pra vocês?

– Claro! – As duas saíram conversando como se já fossem amigas de longa data. Talvez esse seja um dom das pessoas eloquentes. Fazerem amizades rapidamente. Dom que Ciel não invejava.

– Oi Ciel! – Ruby cumprimentou. – Você nunca mais apareceu no Darjeeling Chá.

– Eu estava de castigo. Ah, eu li o seu texto. E você deveria escrever outro tipo de história. Nunca imaginei que você escrevesse aquele tipo de coisa.

– Você leu? M-mas você achou que ficou bom? – Perguntou completamente vermelha.

– O que ficou bom? De que história vocês estão falando? – Angie perguntou.

– Eu escrevo histórias.....bom.....yaoi. – Ruby corou.

– Jura?! Qual o seu nome?

– É Ruby, mas as histórias estão com o nome M31R1-NYAHLover.

– NÃO ACREDITO! Eu, eu amo suas histórias, é você mesma? Nossa! A minha favorita é aquela em que os caras...

– ANGIE! – Ciel gritou indignado. – Você lê esse tipo de coisa?

– O quê que tem irmãozinho? São românticas, e além do mais elas...Ai-me-u-de-us! – Angie levou as duas mãos à boca arregalando os olhos. – Você leu!

– O quê?! – Ciel assustou-se.

– Você leu?

– C-claro que não! – Ciel corava violentamente.

– Sim, você leu. – Angie começou a rir.

– Foram só dois capítulos depois eu parei, tá! Eu não leria aqueles absurdos se essa maluca aqui, - apontou para Ruby, - tivesse me dito do que se tratava.

– Já ajeitei o guarda-sol pra vocês. – Sebastian voltara. – Então, o que foi que você leu?

– NADA! Não é da sua conta. – Ciel saiu empurrando eles emburrado e caminhando até as cadeiras sobre o guarda-sol. Parou e olhou para Ruby. – A propósito, você escreve bem, mas pelo amor de Deus, vai escrever outra coisa!

Ruby se deu muito bem com Angie e ficaram conversando o tempo todo. Entraram na piscina, Angie logo foi conversar com uns caras da turma dela. Ciel torcia pra que chovesse, bastante. Assim todos iriam pra suas casas colocar roupas apropriadas. Do que adiantava chover tanto na Inglaterra se quando você mais precisa de uma chuva ela não vem?

– Que bom que veio – Ciel assustou-se com a voz de Sebastian em seu ouvido. – a não ser que você queira ficar olhando as garotas de biquínis darem mergulhos, seu lugar não é aqui.

Sebastian guiou Ciel até uma sala na casa da Amanda. As portas eram de vidro, de modo que quem estava lá dentro podia ver toda a piscina, mas ninguém poderia entrar.

– Aqui ficará tranquilo, trouxe um livro pra você, Sherlock Holmes. Há um banheiro no corredor à esquerda e as chaves da sala estão na porta caso queira abri-la. Eu estarei na piscina, caso mude de ideia.

– Obrigado.

Sebastian deixou Ciel. Aquela sala era mais tranquila e aconchegante. Ciel leu por uma hora. Depois se levantou e foi dar uma olhada na piscina pela porta de vidro. As pessoas continuavam com a mesma energia. Angie estava rodeada de admiradores, Liza estava tão entretida conversando com Amanda, que nem percebeu que ele havia desaparecido. De repente, Sebastian saiu da piscina, ele não usava nem o calção de banho, nem a camisa, apenas uma sunga azul escuro. Seus cabelos negros gotejavam. As gotas de água deslizavam pelo seu rosto, caíam sobre seu peito e corriam pelo seu abdome, algumas sumindo em seu umbigo, outras, alcançado seu baixo ventre sumindo no cós de sua sunga, penetrando-a. Ciel só se deu conta de que o observava ininterruptamente, quando começou a sentiu algo estranho.

– Essa não, não! – Sussurrou pra si mesmo, entrava em pânico. Correu para o banheiro.

Ciel trancou a parta do banheiro com a chave e sentou-se sobre a tampa do vaso sanitário. Passava os dedos pelo cabelo, tentando se acalmar de alguma forma.

– Por favor, para, para. Isso não está acontecendo comigo....volta ao normal, por favor. – Ciel tentava respirar devagar. Tocou-se. Sentiu um arrepio, a pele sob o tecido de sua calça estava dolorida. Sentia-se apertado, estava hirto como jamais esteve. Sabia o que seu corpo desejava que fizesse, mas não iria fazer. Apoiou o rosto nas mãos. Foi preciso um grande autocontrole para não acabar sucumbindo. Esperou uns vinte minutos até que seu corpo voltasse ao normal por contra própria.

Ciel se sentia extremamente estranho. Isso nunca havia acontecido com ele. Não sabia o que pensar.

Olhava seu reflexo no espelho. Perguntava-se o que estava acontecendo. Precisava ir para casa. Tentou sair sem ser visto, já estava na porta de saída quando ouviu justamente a voz que menos queria ouvir.

– Já está fugindo? – Sebastian falava com o mesmo tom irônico de sempre. Percebeu que o adolescente estava estranho. Ciel estava meio pálido e esquivo. – O que houve?

– Não estou me sentindo bem. Vou pra casa.

– Está doente... – Sebastian tentou sentir a temperatura de Ciel, mas o garoto o afastou com rispidez.

– Não toque em mim! – Ciel parecia confuso. – Vou pra casa.

– Eu te levo.

– NÃO PRECISA! Eu sei me cuidar sozinho, Sebastian. Não preciso da sua ajuda.

Sebastian não insistiu mais.

Ciel vagou pelas ruas sem rumo até chegar a sua casa. Trancou-se no quarto e não falou com ninguém pelo resto do dia. Tentava se convencer de que o fato ocorrido não passara de uma infeliz manifestação de sua puberdade ainda não concluída. Talvez fosse consequência do texto de Ruby. Sebastian é uma pessoa de natureza sedutora, talvez por isso Ciel tenha....

Não. Ciel estava apenas confuso. Apenas isso. Talvez devesse limitar mais sua relação com Sebastian.

E assim o fez.

No restante da semana, Ciel evitou Sebastian o máximo que pode. Pegava um caminho mais longo quando ia e voltava da escola para não passar pela Rua Barnabas ou pelo Darjeeling Chá. Não atendia quando ele ligava. Tentava a todo custo não pensar nele. Podia impedir-se de lembrar ou de falar com Sebastian, mas não poderia controlar seus sonhos. E frequentemente sonhava com ele.

Nos sonhos, Ciel e Sebastian conversavam, discutiam, liam, caminhavam juntos, as vezes sonhava com Sebastian lendo para ele, as vezes se abraçavam, os sonhos que mais o incomodavam era os que envolviam beijos, mas naquela noite o sonho foi pior.

Seus batimentos cardíacos estavam acelerados, sua pele queimava, estava suado e sua respiração era sôfrega. Acordou com os efeitos dos espasmos em seu corpo. Sua mão direita estava por dentro da sua roupa íntima. Puxou-a, estava úmida e melada de alguma coisa meio esbranquiçada. Ciel sentiu vontade de chorar. Tanto autocontrole, tanta fuga e para quê? Por que isso estava acontecendo? O que ele estava fazendo de errado? O que havia de errado com ele? Sentia-se sujo. Muito sujo.

Angie acordou no meio da noite e escutou um barulho de água caindo no banheiro. Andou pelo corredor, aproximando-se da porta aberta. Receosa de encontrar ali, a mesma imagem de anos atrás. Mas não encontrou. Ciel lavava as mãos compulsivamente.

– Ciel, o que está fazendo? – perguntou preocupada, mas aliviada porque ele não estava machucado.

– Minhas mãos estão sujas. – Por mais que as lavasse e as esfregasse, aquele cheiro não saía delas. Parecia que aquele odor havia penetrado sua pele, para lembra-lo sempre de seu pecado. – Estão sujas.

– Ciel, não há nada errado com suas mãos. Para com isso, elas já estão limpas. – Angie tentava afastar o irmão da pia. – Veja, olhe pra suas mãos, estão limpas. O que houve? O que aconteceu?

“Me masturbei sonhando com Sebastian”, o garoto pensou na resposta, mas nada disse. Ciel olhava para suas mãos, ardiam e estavam vermelhas de tanto esfrega-las.

– Você me acha estranho, Angie?

– Estranho como?

– Não sei, algo em mim que não é normal?

– Não acho que seja anormal. Você só é diferente das outras pessoas, mas isso é bom. Já imaginou se o mundo fosse cheio de Angies, eu não me suportaria. – Ela riu, Ciel também. – algumas vezes é bom ser estranho. Acho que estranho deveria ser o nosso segundo nome. Angélica, a Estranha. Meu Deus que horrível! Isso não é nome de um filme?

– Você é tão boba. No bom sentido.

–Hahaha, vamos pro quarto, antes que mamãe acorde e nos dê uma bronca por ficar acordados tão tarde. – Ciel deitou-se novamente, Angie estava saindo. – Ciel, sabe que pode me contar qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.

O ocorrido na noite anterior deixara Ciel mais fechado do que já era. Estava na sala de aula, mas não escutava uma palavra que os professores diziam. Se Ciel fosse mais novo, ou se tivesse nascido em outra época, poderia não entender o que estava acontecendo. Mas ele entendia. Só não imagina que algo assim poderia acontecer com ele. Não imaginava que poderia sentir algo assim. Chegava até ser irônico, quando se lembrava que há algumas semanas pensara em se afastar de Sebastian porque pensou que ele fosse gay, e agora vejam só.

Naquela aula Ciel chegou a uma importante conclusão: talvez ele sentisse atração por homens. Ciel olhou para todos os meninos a sua volta e chegou a uma segunda conclusão mais importante ainda: sentia apenas por Sebastian.

O que deveria fazer agora?

Naquela mesma tarde, toda Liverpool se pôs em um alvoroço total. No final de quatro tranquilas semanas, o assassino deu as caras. O Chefe de polícia, Roger Valentine recebeu um pacote anônimo. O pacote era pequeno, ao abri-lo encontrou um bilhete e vinte dedos humanos. Todos do escritório se assustaram. O bilhete dizia “Venha pegar o restante aqui fora”.

Chefe Valentine caminhou depressa para a saída. Harris e os demais policiais o seguiam preparando as armas. Ao saírem se depararam com várias pessoas que se aglomeravam ali na rua. Ao virarem, viram dois corpos pendurados na sacada da delegacia, um de cada lado. Os corpos mutilados, os dedos das mãos cortados. Os mesmos ferimentos que estavam em uma estavam na outra. Ao contrário do que o assassino sempre fazia, os rostos foram deixados intactos, para que todos pudessem reconhecê-las.

Melinda e Belinda Copperpot.

– Harris. – Disse Roger.

–Sim, Chefe?

– Ligue para a Scotland Yard. Precisamos de reforço. Urgente.

Notas finais do capítulo
Bleu comme le ciel: caso não tenha ficado claro, significa azul como o céu, em que céu será que ele pensava?hummm

Astromélias azuis: lindíssimas flores que de certa forma lembram lírios.

Angélica, a Estranha: O filme a que Angie se refere é Carrie, a Estranha.

Quem sacou quem era o pai do Ciel? Eu já havia dado pistas.

Por que Quantro Semanas?...pareceu mais legal que Um mês XD........e também por que eu queria mostrar a passagem de tempo necessaria pra que Ciel se tornasse mais intimo de Sebastian e caísse na real...

Bem pessoal, é isso. Espero que tenham gostado. Esse foi um capítulo delicado pra escrever...e enorme, por isso só consegui terminar hoje.

Espero não ter decepcionado ninguém.

Por favor, deixem reviews dizendo se gostaram, se odiaram no que posso melhorar, quando deixam suas opiniões fico mais inspirada.

Muito obrigada por lerem e até o 10.

Com amor, Tai =^.^=




(Cap. 10) O corvo, a menina e o piano de cauda

Notas do capítulo
Olá amores ^^
Sei que demorei...mas o tempo foi curto e esse capitulo complicado...como podem ver saiu enorme...eu particularmente ainda não gosto dele...queria que tivesse ficado melhor mais não teve jeito...espero que vcs gostem e que não decepcione ninguém Ç_Ç
Muito obrigada a todos que deixaram review...eu os amei e me incentivaram a não parar de escrever( mas acho que exagerei XD)...não se preocupem...não vou abandonar a fic, o fim já está pronto...só tenho que chegar até lá. Então não há risco de eu parar no meio.
Novos leitores, sejam bem vindos ^^ e um obrigada especial a Sarah Okumura, KatherineH, Haruno no Hime e a Liv por favoritarem...Liv recebi sua MP...hahahah...estava terminando o capítulo na hora. E um beijo a diva Yuka Harumi pelo comentário 100...nossa nem eu acredito *w*
Em fim, perdoem os erros de português, nos encontramos nas notas....respirem fundo e ...
Boa leitura (^^)/

Capítulo 10: O corvo, a menina e o piano de cauda


Era retaliação.

Pensava Roger Valentine, o chefe da Delegacia de Polícia de Liverpool. Ele foi o primeiro a criticar com veemência a atitude da impressa de expor as gêmeas Copperpot. Culpa dos jornais e programas sensacionalistas que as apresentavam como sobreviventes do assassino serial, quando não estava comprovado se seus agressores tinham realmente alguma ligação com o tal assassino. Se tinham ou não, a verdade é que o assassino se irritou, pois os corpos das garotas estavam ali para provar.

Quando a polícia foi até a casa das garotas, para dar a triste notícia a seus pais, encontrou um cenário mais terrível ainda. Parecia que alguém soltara um furacão dentro da casa e trancara a porta com ele lá dentro. Havia sangue por toda parte. Restos de ossos e carne, que pareciam ter cido estraçalhados por uma corja de lobos famintos, foram reconhecidos, graças ao exame de DNA, como sendo o que sobrou do senhor e da senhora Copperpot.

Não era um assassino comum. Não era um psicopata comum. Era um monstro. Sem uma gota de racionalidade humana. E terrivelmente vingativo.

Roger exigiu que nenhuma informação sobre o ocorrido na residência dos Copperpot fosse levada a público. Ele não queria que a população ficasse mais alarmada do que já estava.

Os vizinhos foram interrogados. Ninguém viu nada. As gravações das câmeras de segurança da delegacia foram assistidas. Nada foi filmado. Pela primeira vez, em todos esses anos resolvendo todo tipo de crime, Roger se perguntava com o quê eles estavam lidando.












Quando os primeiros raios de sol tocaram a janela do quarto de Ciel, ele já estava acordado. O jovem ficou alguns minutos ali. Apenas deitado, olhando para o teto. Como seria maravilhoso se ele pudesse passar o resto do dia deitado pensando no nada. Mas não podia. Tinha que ir para a Academia Nottinghan. Pelo menos era sexta-feira.

Desceu para tomar café. Encontrou Angie brigando com a mãe por se esforçar demais. Mesmo com aquele enorme barrigão de grávida, a mãe teimava em tentar fazer tudo dentro de casa.

– Mãe, vai se sentar. Deixa que eu faço isso. – tentava guiar a mãe até a mesa.

– Eu só estou grávida, não estou inválida. Posso muito bem tomar conta da minha casa. Quem você acha que fazia as coisas quando eu estava grávida de você? – a senhora Valentine desviava-se da filha e voltava para a cozinha. – Vocês sempre guardam tudo no lugar errado. Onde estão as facas dessa casa? Se não for eu, isso aqui fica de pernas para o ar. Angie, onde você deixou o isqueiro?

Ciel estava sentado sem ouvir uma palavra da discursão das duas. Uma mão tocou-lhe a testa, trazendo-o de volta a realidade.

– Está doente, filho? Você está mais quieto que o de costume. – perguntou a mãe.

– Só estou cansado. Semana puxada na escola. – Angie o observava atentamente.

– Tudo bem. Eu queria te pedir um favor, poderia afinar alguns instrumentos pra mim? Hoje ou amanhã. Não posso ensinar as crianças desse jeito. Os instrumentos de corda são os mais necessitados.

– Tudo bem. – falou sem emoção.

Hortence Valentine herdara dos pais a paixão pela música e uma pequena escola chamada Little Mozart, onde crianças e jovens aprendem a cantar e a tocar. Como era desde pequena uma exímia violoncelista, fora chamada para tocar na Filarmônica Real de Liverpool aos dezessete anos. Porém, aos dezoito se apaixonou por um jovem estudante de Direito de 23 anos.

Casaram-se.

Angélica nasceu quando Hortence tinha dezenove anos. Para cuidar melhor da filha, a jovem senhora Valentine abandonou a Filarmônica e passou a dedicar-se à Little Mozart. O início foi difícil, pois o casal era jovem e inexperiente. Mas as coisas prosperaram.

Roger começou a trabalhar na polícia e tão eficiente era que subia de cargo rapidamente. Aos trinta e um anos assumira o posto de Chefe de Polícia de Liverpool. Quando a pequena Angélica tinha oito anos, Ciel nasceu. As duas crianças praticamente cresceram na Little Mozart. Hortence ensinara desde cedo os filhos a tocar e a cantar. Infelizmente os dois pequenos não carregavam a mesma paixão que a mãe sentia pela música. Angie tinha, e ainda tem uma voz maravilhosa, no entanto escolhera a carreira de médica. Ciel odiava as aulas de canto, tanto que conseguira fazer a mãe desistir de ensinar-lhe quando tinha apenas nove anos. O garoto até aprendera a tocar alguns instrumentos, era realmente bom nos de cordas, mas ele parecia não se interessar nem um pouco em se aprimorar. O que a mãe achou uma pena, pois o garoto tinha um talento natural.

Embora os filhos tenham abandonado a Little Mozart, Hortence ainda amava lecionar na escola. E amava sua família. Alguma vez ela se arrependeu de ter abandonado uma possível brilhante carreira? Não, nunca. Pois sempre teve aquilo que ela mais amava a seu lado: sua família e a música. E agora, aos quarenta e três anos, estava grávida novamente. O que Ciel achou um absurdo, mas Angie adorou. Quem sabe não seria este terceiro um amante da música.











Ciel seguia o caminho para a escola tentando pensar em qualquer coisa, tentava até prestar atenção no falatório matinal da Liza, mas sua mente teimava em lembrar-lhe de alguém. Liza contava como Amanda era divertida e elegante, que as duas foram ao shopping, que Amanda a convidara para ir a um salão de beleza... Será que Liza não percebia que o nome que Ciel menos queria ouvir era o da Amanda? Não, ela não percebia. Como poderia saber? Estava sendo novamente injusto com a garota.

– Ciel...

Passaram-se três dias, e o adolescente não tivera nem um sinal de Sebastian. Sem mensagens sem ligações. Se bem que... Ciel o ignorara, talvez ele tenha ficado chateado.

– Ciel...

Talvez ele só esteja trabalhando esses dias, ou então está com a Amanda. Mas, e se tiver acontecido alguma coisa séria? E se Sebastian quisesse dizer algo importante? Se ele realmente gostasse de Sebastian, seria correto tentar afastar-se? E se Sebastian o odiasse? Isso não importava realmente. Importava? Talvez Ciel estivesse apenas confuso, perturbado. É realmente possível desenvolver esse tipo de sentimento em tão pouco tempo? Mesmo que ele gostasse de Sebastian dessa forma, ele não poderia magoar a Liza. Mas se Sebastian soubesse, como ele reagiria? Teria o garoto coragem de confessar?

–CIEL!!!!

– O quê?! – finalmente o garoto percebera que Liza o chamava.

– Ciel, não se desligue quando eu estiver falando com você. – o garoto murmurou um pedido de desculpa. – Sabe Ciel, – a garota começou num tom melancólico – desde que nós começamos a namorar no primeiro ano, eu venho tentando respeitar o seu jeito de ser e tenho tentado puxar conversa, mas você nunca me fala sobre você, não me diz do que você gosta. Há momentos em que penso que te irrito e que sou um estorvo. Não quero significar isso pra você.

– Não penso em você como estorvo, Liza. Eu gosto de você. – sentiu-se culpado, pois sabia que a garota interpretaria “gostar” de outra forma, diferente do que ele sentia. Embora quisesse muito gostar de Liza da mesma maneira que ela gostava dele, não conseguia... Nunca conseguiu. Sentiu que mentia, não para Liza, mas para si mesmo. Liza continuou a falar, Ciel olhava para um corvo pousado num poste.

– Então permita que eu me aproxime de você. Permita que eu te conheça, e tenho certeza que podemos voltar a ser tão íntimos como éramos quando crianças. Você pode voltar a ser como era se quiser.

– Não quero falar sobre isso agora. – disse sério. Não queria tocar naquele assunto incômodo.

– Mas quando falaremos? Falar ajuda e ...

Ciel não escutava mais a garota, sua atenção fora novamente desviada. Estavam longe, mas podia ver bem Dimas saindo de um carro preto, reconheceria aquele jaguar a quilômetros de distância. Era o carro do Sebastian. Ciel não podia ver o moreno graças à película escura dos vidros, mas parecia que Sebastian dizia alguma coisa a Dimas, pois este se demorou um pouco parado a porta, confirmando algo com a cabeça.

– ...Seria divertido, e você estaria entre amigos. O que você acha? Concorda?

– Claro, Liza. Faça como quiser. – confirmou sem fazer a mínima ideia do que a namorada havia proposto. Só queria encontrar Dimas.

Quando se encontraram nos corredores da escola, Ciel perguntou ao colega de onde ele conhecia o Sebastian.

– Sebastian? Que Sebastian? Não conheço ninguém com esse nome. – respondeu sem lhe olhar nos olhos e afastou-se com a desculpa de que tinha uma reunião com o time de Rugbi. Dimas podia ser forte e bater em garotos maiores que ele, mas seu lado covarde sempre o denunciava quando se sentia encurralado. Ciel sabia que ele estava mentindo, só não sabia por quê.

Sentiu raiva de Dimas. E raiva de Sebastian. Odiava Sebastian. Odiava-o por deixa-lo tão confuso. Por se intrometer em sua vida, arrastando-o para uma realidade terrível até então desconhecida. Por enfeitiça-lo e provocar nele sentimentos nunca sentidos, sensações pecaminosas, sonhos luxuriosos. Odiava-o por fazê-lo querer estar com ele.

Ciel nunca fora um garoto do tipo pervertido. Nunca ficou vendo coisas impróprias na internet ou tentando espiar a calcinha das colegas de turma, como muitos faziam. Nunca fizera esse tipo de coisa e, com certeza, fazer ou deixar de fazer essas bobagens não tornava ninguém mais homem ou menos homem. Nunca fizera nada tão sujo como se masturbar, pelo menos até agora. Mas foi uma única vez e ele estava inconsciente e jurara a si mesmo que isso não iria se repetir. O que o garoto não entendia era a razão desses sonhos. Sempre tivera sonhos estranhos, sombrios, assustadores e aterrorizantes, sonhos frios e escuros, mas nunca lascivos. Mas desde que conhecera Sebastian, sonhava constantemente com ele. Era frustrante fugir dele durante o dia, quando ele o encontrava nos sonhos.

Ciel estava num empasse. Temia encontrar o moreno, mas desejava muito vê-lo.










Estavam na aula de Biologia, esta dada pelo professor Thompson, um homem robusto, enorme e de aparência amedrontadora, de nariz redondo e cabelos loiros quase ruivos e ralos. Qualquer um que o visse julgaria estar na presença de um homem terrível, pelo menos até ele abrir a boca. Os alunos sempre caíam na gargalhada a primeira vez que ouviam sua voz, o primeiro dia de aula era sempre uma algazarra sem fim, o professor até se acostumara. Se os risos persistissem era só ameaçar descontar pontos. Sua voz era extremamente fina. Tão fina que parecia estar sendo dublado por uma mulher com dor de barriga, tamanha era desproporcionalidade da voz para ele.

Dimas sentara-se com Pauline, e sempre que Ciel olhava para ele, fingia estar lendo o livro. Liza, ao lado de Ciel, desenhava no caderno. O adolescente deu uma bronca nela, nunca prestava atenção, fica sempre desenhando, rabiscando e escrevendo na margem dos livros e depois vinha pedir socorro para não ficar com nota baixa. Se bem que, dessa vez, nem ele estava tão atento assim. Esfregou o olho direito com a parte interna da mão. Correu os olhos pela sala. Viu uma menina parada a porta de entrada. Tinha cabelos curtos e negros e olhos bicolores.

Ciel piscou os olhos devagar, para ter certeza de que não estava dormindo. A menina levou o dedo indicador aos lábios pedindo silêncio, depois o chamou com a mão.

– Com licença Senhor Thompson, posso ir ao banheiro? – disse Ciel levantando a mão. O professor se virou para a classe procurando por quem fizera o pedido, surpreendendo-se ao notar que fora Ciel. O garoto jamais pedira para sair da sala.

– Claro senhor Valentine. Mas não se demore. – falou com sua foz fininha, risinhos abafados explodiram na turma.

Ciel chegou ao corredor, olhou para os lados procurando a garotinha.

– Por aqui. – ela disse numa voz melodiosa. Ciel a seguiu sem fazer perguntas, depois de algum tempo, o adolescente percebeu que estavam indo ao terraço. A menina subiu a escada de acesso e abriu a porta revelando o céu azul fora da escola. Ela caminhou até certo ponto, depois se virou para Ciel. Sua cabeça pequena caiu levemente para o lado enquanto observava o adolescente.

– Você é do bem ou do mal? – Perguntou o garoto, analisando a pequena figura. Olhava fixamente para aqueles olhos tão incomuns. Um azul e um vermelho. Sua expressão era serena. Ela devia ter uns doze ou treze anos. Era baixa, deveria ser mais alta que a cintura de Ciel pouca coisa. Pele muito clara e cabelos extremamente pretos. Bonita, muito bonita.

– Essa é uma pergunta muito difícil de responder, você não acha? – falava de um jeito meigo e fofo. Ciel jamais achara nada fofo, e essa palavra parecia sair somente da boca da Liza, mas foi essa palavra que lhe veio a mente quando olhava para a pequena a sua frente. – Há tantas criaturas boas fazendo coisas ruins, por vontade própria ou não. Há tantas criaturas ruins fazendo coisas boas, por desejos egoístas ou para parecerem bonzinhos. Mesmos as pessoas mais bondosas fazem coisas cruéis às vezes. Escolhem caminhos errados. Fazem as escolhas erradas. Destroem a própria vida e a de outros e ainda assim não se arrependem. E a despeito disso, não podemos julgá-las como más, pois também fizeram coisas boas. Ninguém é totalmente bom. Ninguém é totalmente mal. Então... Não posso dizer que sou boa, nem posso dizer que sou má, pois sou os dois. – ela ergueu os olhos para o adolescente o fitando de maneira mais intensa.

– Nesse caso, acho que a pergunta mais apropriada seria: o que você quer de mim?

– Estou aqui para te ajudar a ajudar outros.

– Por quê?

– Porque também preciso de ajuda. E você é o único que pode me ajudar, mas não está pronto pra isso ainda. – ela se aproximou mais de Ciel, o garoto teve que abaixar a cabeça para olha-la – Em breve você receberá um convite. Deverá aceita-lo, por mais absurdo e perigoso que pareça. Você não tem outra escolha. Eu o ajudarei no que for possível. Estou sempre de olho em você.

A menina se afastou do jovem e ergueu o braço para o corvo, que chegou voando, pousar em sua mão. Ela acariciava a cabeça do pássaro com os dedos, cantarolando London Bridge Is Falling Down, balançando o corpo para um lado e para o outro, seu vestido preto acompanhando o movimento. Os arcos dourados em seus pulsos e em seu pescoço reluzindo ao sol. Pelo visto não diria mais nada.

– Posso ao menos saber o seu nome? – ela cantarolou mais um pouco, brincando com o corvo.

– Evelyn... Mas pode me chamar de Evie. – ela esboçou um enorme sorriso. Depois voltou ao semblante sério de sempre. – Ciel, tenha cuidado. A pessoa que todos procuram está mais perto do que imagina. Fingir é sua maior habilidade. Fique atento.

– O q... – O corvo voou na direção de Ciel, este se assustou. A menina já havia desaparecido e o corvo já cortava o céu, distante. Era melhor voltar para sala.














Ciel jurava a si mesmo que realmente passaria a ouvir tudo o que Liza dizia, pois nunca mais se meteria em situações assim novamente.

Por sua distração, acabara concordando em sair num encontro em grupo. Liza escolheu o lugar do passeio e os convidados. Deveria ter deduzido que a garota obviamente convidaria sua nova amiga. Ela chamara Amanda e consequentemente Sebastian. Elizabeth concluiu que Sebastian e Amanda tinham um relacionamento romântico, pois estavam sempre juntos. A garota também comentara como Sebastian a tratava bem e sempre fazia tudo o que a loira pedia, como os dois juntos eram fofos, como Sebastian sempre dava atenção a mulher e etc. Aquelas informações incomodavam Ciel, pois eram verdadeiras.

Do tempo em que esteve com Sebastian, Ciel pôde notar que o moreno tinha diferentes maneiras de tratar as pessoas. Era sempre educado com todos, isso era fato. Mas era aquela cordialidade fria e impecável de um lorde inglês, seu sorriso era sempre contagiante, mas indiferente. As mulheres eram tratadas com cortesia e um certo ar galante. Os homens eram tratados de forma neutra, muitas vezes Sebastian dava a impressão que só se dirigia a eles porque as convenções sociais obrigavam. E era por essas atitudes do mais velho que Ciel sentia-se apreensivo, Sebastian o trataria diferente caso... ? Não queria pensar. A verdade é que Ciel e Amanda eram as únicas exceções. As únicas pessoas que Sebastian tratava de maneira especial.

Sebastian lhe dava atenção. Ele parecia gostar da companhia de Ciel. Provocava o garoto, o irritava e ao mesmo tempo tentava agradá-lo. Não se irritava com o jeito indiferente do jovem e parecia, pelo menos parecia gostar dele com todos os seus defeitos. O adolescente temia dizer algo a Sebastian e este o rejeitar. A amizade dele era importante, embora nunca admitisse isso a ele.

Os outros convidados de Liza eram Dimas e Pauline, embora os dois não fossem namorados. O primeiro sempre bajulava Liza e a acompanhava nas infantilidades, a segunda era sua melhor amiga desde pequena. Os três sempre andavam juntos, geralmente era deles que Ciel fugia na escola. Angie e seu novo namorado Carter, que Ciel tinha certeza que duraria no máximo dois dias, se o cara tivesse sorte. Não que a irmã fosse uma namoradeira incorrigível, tá, talvez um pouco, mas ela só arranjava namorado para provocar ciúmes num certo vizinho.

Os oito foram a um parque de diversões. Liza devia achar que o namorado precisava se divertir. O garoto só esperava pelo momento em que Dimas e Sebastian se encontrassem. Liza apresentou todo mundo. Sebastian cumprimentou o garoto de cabelos castanhos claros como se nunca tivesse o visto, mas Dimas parecia desconfortável, provavelmente porque temia ser pego na mentira. Dimas sempre foi péssimo mentiroso. Pelo visto insistiram no teatro de fingir não se conhecerem.

Ciel tentava ao máximo parecer contente. Concordando e sendo arrastado por Liza para todos os brinquedos sem oferecer resistência, pelo menos não muita. Não falara uma palavra com Sebastian depois do “Boa noite” inicial, quando todos se encontraram. E o moreno ficou todo o tempo com Amanda, não tentou falar com o jovem.

Angie achou a atitude do irmão muito estranha. Teria se desentendido com o Michaelis?

Por fim, Liza e Amanda insistiram em ir à roda-gigante. Mas Angie e Carter queriam ir à montanha-russa novamente. Dimas e Pauline foram com eles, para fugir de Ciel e Sebastian obviamente.

Entraram os quatro numa cabine da roda-gigante.

– Esperem um instante. – Amanda saiu balançando os fios platinados. Fora pedir ao responsável pelo brinquedo para parar a cabine deles no topo.

– Está sendo divertido, não é Ciel? – Liza falou animada, nunca passara tanto tempo com o namorado. O garoto forçou o melhor sorriso que conseguiu, afinal, Sebastian olhava para eles. O garoto ficou olhando pelo vidro da cabine. – Cadê a Amanda? – a jovem foi tentar chamar a amiga, quando sua pulseira prendeu no trinco da porta, partindo-se e espalhando pingentes por toda a plataforma. – Minha pulseira!

Liza saiu da cabine, juntando os diversos pingentes, antes que as pessoas pisassem sobre eles, Amanda ajudava a garota a apanha-los. Sem perceberem o brinquedo a suas costas já começava a girar.

– Elizabeth! – Ciel chamou ao notar que a porta do brinquedo fora fechada e a roda-gigante já girava, e Liza tinha ficado do lado de fora.

– Essa não! Eu queria ir... – a loira disse choramingando, vendo a cabine se elevar.

Estava sozinho com Sebastian.

Os dois ficaram em silêncio até a cabine parar ao chegar ao topo. Aquela sensação desconfortável ia crescendo.

– Está zangado comigo Ciel? – o moreno perguntou.

– Por que estaria? Você não fez nada. – o mais novo respondeu com a mesma cara fechada, olhando a cidade pela janela.

– Tive a impressão que você estava me evitando.

– Não estava te evitando... – mentira – Só estava ocupado. Tenho coisas importantes a fazer. Não posso ficar o tempo todo por aí, ao contrário de você, eu não sou rico. Tenho que trabalhar pelo meu futuro.

– Certo. Porque estar comigo é perda de tempo.

– Não foi o que eu disse. Pensei que não fizesse diferença. Você também não falou comigo, parece que está se divertindo muito com a Amanda hoje. – controlava-se para não passar desprezo em seu tom de voz.

– Estava apenas deixando que você se divertisse com a sua namorada. – Ciel olhou para ele. – A senhorita Elizabeth se esforçou muito para agrada-lo. Você não gosta de cinemas, festas, piscinas, parques... Há algo que você goste?

– Não são os lugares que me incomodam, são as pessoas. Todo mundo acha que eu ficarei mais feliz se sair e me divertir com muitos amigos, que isso vai ajudar em alguma coisa, mas não vai. Eu não gosto de estar com muitas pessoas, mas parece que ninguém percebe isso.

– Eu percebo. Por isso te convidei à minha casa, onde ficamos a sós. – o moreno o olhava muito sério.

Ciel corou.

– Já conhecia o Dimas? – tentava mudar de assunto. Ficou esperando a mentira vir. Sebastian o fitava.

– Sim.

– Por que fingiu não conhecê-lo?

– Porque era o mais apropriado. E não direi mais nada a menos que mude de assunto. – Ciel amarrou a cara.

– Eu não gosto que mintam pra mim Sebastian. Geralmente eu não daria a mínima pro que você faz ou deixa de fazer, mas eu tenho a estranha sensação de que há um complô contra mim.

– Isso foi inesperado. Está sendo muito radical. E se o segredo não diz respeito a você? Todo mundo tem segredos que não pode revelar, nem para o melhor amigo. Ninguém conta tudo o que faz, por exemplo, o que você faz a noite? – Ciel retraiu-se no acento, ficando vermelho. Sebastian arqueou as sobrancelhas, surpreso com a atitude do mais novo. – Vá me visitar amanhã. Será domingo e não terei nada para fazer. Seria bom conversar. Se você não tiver nada mais importante para fazer, claro. – finalizou com um leve tom irônico.

O brinquedo voltara a girar, a cabine ia descendo lentamente. Ciel parecia ponderar a proposta.

– Eu vou. Se tiver tempo. – disse baixinho. Sebastian sorriu.

– É realmente uma visão apaixonante.

– O quê?! – Ciel levantou a cabeça, encontrando os olhos rubros. Ciel corou imediatamente.

– Liverpool... – Sebastian apontou com a cabeça a paisagem noturna da cidade pela janela da cabine. – É realmente uma cidade fascinante, não é?

– Sim, fascinante. – mas não era para cidade que o adolescente olhava.

Quando saíram da cabine, encontraram as duas loiras e os outros a espera.

– O que houve? Vocês dois foram sozinhos na roda-gigante? – Angie perguntava incrédula, fazia parecer mais constrangedor do que foi.

– Eu não entrei na cabine a tempo. – Liza informou.

– Não quero voltar lá, é o brinquedo mais entediante que existe. – Ciel falou de cenho fechado.

– Vamos comer alguma coisa. – Amanda juntava-se a Sebastian novamente.

– Vamos ao PlayGame Center? É legal. – disse Carter, o namorado temporário da Angie.

O PlayGame Center era um local muito visitado pelos jovens de Liverpool. Além de ficar estrategicamente situado próximo ao parque de diversões era uma lanchonete Fast Food que oferecia espaço para dança, para bandas independentes tocarem, diversos jogos e videogames.

Os sete sentaram-se em uma mesa, Dimas dissera que tinha que voltar cedo para casa. Comiam, bebiam, sorriam e conversavam. Até que o tal de Carter era engraçado, ele ficava contando piadas e todos caiam na gargalhada. Apenas uma pessoa permanecia em silêncio.

Ciel observava Sebastian novamente. Era deveras humilhante ter que admitir, mas gostava de olhar para ele. O jovem não sabia o quê, mas algo naquele maldito homem o atraia, o fascinava, o aprisionava. Talvez fossem o brilho misterioso e sarcástico dos olhos castanhos, talvez suas palavras gentis e provocantes, talvez sua forte presença. Queria muito vê-lo novamente, apenas ele. Provavelmente iria mesmo à casa do moreno.

O jovem desviou os olhos do mais velho e deparou-se com os olhos azuis claros da irmã. Angie olhava fixamente para ele. Tinha uma expressão estranha. A mesma expressão que fizera quando descobriu que Ciel, então com 11 anos, quebrara o vaso chinês da mãe e colara os pedaços para disfarçar. Angélica sorriu para o irmão e voltou a comer suas batatas fritas.

– Olha só, se não é o senhor Valentine! – Ciel escutara a voz de Ivan Mason atrás de si. Era só o que faltava pra deixar a noite perfeita. – E ele está com amigos! Pensei que não tivesse amigos Valentine. Estão comemorando alguma coisa? Não vai me dizer que o incompetente do seu pai desvendou o caso. – Mason fazia uma expressão cômica de surpresa, seus amigos sorriam tolamente.

– O que foi que você disse garoto? – Angie perguntou muito séria.

– Quieta Angie! – Ciel falou autoritário e calmo. Mason continuou com as provocações, todos olhavam para Ciel.

Carter conhecia o tal Mason. Era um riquinho insuportável que se achava o bonzão. Sempre dava as caras no PlayGame Center, mas era só ignorá-lo. Se adivinhasse que o playboyzinho conhecia o irmão da Angélica, não teria sugerido o lugar. Queria impressionar a garota e esse idiota aparece pra perturbar o irmão dela.

Mason continuava jogando piadinhas, Ciel tentava se controlar, mas já estava perdendo a paciência.

– Oi gata, gosta de homens mais jovens? Eu não curto mulheres mais velhas, mas pra você eu posso fazer uma exceção. – o arrogante garoto cantou Amanda ao notar sua beleza, mas rapidamente se afastou ao ver os olhos do homem moreno ao lado dela se estreitarem perigosamente.

Ciel achou aquilo uma falta de respeito sem tamanho.

– Qual é o seu problema Mason? Não tem respeito pelas pessoas? – levantara-se da cadeira, o jovem falava de forma severa e moderada. – Acha que é melhor que todo mundo, mas não é.

– Melhor que você com certeza. Posso derrubar você a hora que eu quiser.

– Isso é um desafio? – Ciel falava com uma perigosa cautela.

– Se tiver coragem... Te derroto facinho. – Ciel não sabia o que irritava mais, as provocações ou a estupidez no falar do garoto.

– Se brigarem aqui terei que expulsar os dois. – Informou um dos garçons. Sebastian reclinou-se na cadeira, cruzando os braços, queria ver no que resultaria.

– Ninguém vai brigar. Só haverá uma competição entre mim e meu amigo Ciel. Não é Ci-el? – Mason sorria maliciosamente. – uma disputa saudável. Sem riscos. Que tal, videogame?

Mason sabia que Ciel não jogava, provavelmente nunca pegara num joystick. E já tinha até o jogo em mente, ninguém nunca ganhara dele.

– Que seja. Escolhe um. – Ciel não demonstrava medo. As pessoas ao redor observava o tumulto.

– Guitar Hero. – Mason falou confiante. Angie soltou um riso sarcástico.

– Quem ganha?

– Quem tocar melhor a guitarra. Se eu ganhar quero um beijo da Elizabeth. – Liza fez uma careta e olhou para Ciel.

– Se perder você paga nossa conta. Não será algo tão difícil já que você é rico.

– Fechado. Fica de olho, loirinha, volto pra pegar seu beijo. – o garoto pegou o instrumento de plástico conectado ao jogo, pediu a música número 33, um rock, e começou a tocar. A música soava alta e todos acompanhavam a boa desenvoltura do adolescente. Ciel parecia não se abalar, olhava apenas a lista de músicas disponíveis.

– Pensei que Ciel não soubesse jogar. – Sebastian disse a Angie.

– E não sabe. – o moreno olhou para a ruiva. – Mas você nunca viu o Ciel tocar.

– Ele toca? – agora estava surpreso. Percebeu que Elizabeth também não parecia preocupada.

– Ciel nunca perde, gato. Só toma cuidado pra não perder o espetáculo. Esse filhinho de papai já era. – um sorriso travesso surgia no canto dos lábios de Angélica.

Mason acabara. Exibia-se o máximo que podia. As pessoas o aplaudiam, conseguira uma pontuação muito boa.

– Faz melhor Valentine.

Ciel caminhou até uns garotos que tocavam aquela noite.

– Pode me emprestar a sua guitarra? – O outro jovem, surpreso, entregou o instrumento. Mason não entendeu nada. Ciel caminhou até o homem que colocava as músicas. – Eu quero a 83.

– Tem certeza, garoto?! – o homem espantou-se. Ciel confirmou. – Muito bem, então. 83: Bad To The Bone. – o homem anunciou.

Ciel passou a alça da guitarra sobre a cabeça, preparou a palheta e iniciou o solo de guitarra inconfundível. Da mesa, Sebastian arregalou os olhos, em seguida sorriu muito satisfeito. Ciel tocava muito concentrado, os lábios estavam comprimidos e a testa franzida. Batia a palheta nas cordas com ferocidade, descontava toda a raiva, a confusão e a frustação recente naquele solo rasgante. Fazendo a guitarra quase gritar, em alguns momentos sacudindo o braço do instrumento para prolongar o som. A música de letra provocante e cômica soava atrás de Ciel, na tela do jogo, os solos do jovem se destacando, fazendo o acompanhamento. Tocava com ímpeto e fúria, movendo a mão rapidamente, produzindo um som que chegava a ferir os ouvidos, gotículas de suor formavam-se em sua testa. Quando terminou, a aceitação foi geral. Nem Mason acreditava, estava literalmente de queixo caído.

Ciel caminhou até o seu inimigo declarado e falou:

– Você acha que me conhece, mas está enganado. Não sou nenhum desses nerds bobinhos que você costuma importunar. Eu sou paciente, mas tudo tem limite. – Falava de um jeito ameaçador - Da próxima vez, vai mostrar respeito pelas pessoas que estiverem comigo. E é bom pensar duas vezes antes de me provocar, porque eu posso ser muitas coisas, mas bonzinho, não é uma delas.

Ciel deu as costas para um Mason boquiaberto, jogou a guitarra de volta para o dono e voltou para sua mesa.

– Vamos. Já me cansei de passeios. – Liza muito feliz pulou sobre o pescoço do rapaz, depositando um beijo na sua bochecha.

– Cieeeel, você foi demais!!!

– Esse é meu maninho. – Angélica bagunçava lhe os cabelos.

– Ainda não conhecia esse seu lado, Ciel. – Sebastian aproximou-se.

– É porque eu não fico me exibindo. – Falou ainda emburrado.

– Pois devia. – Ciel sentiu suas bochechas queimarem pelo elogio do outro.

– Onde aprendeu a tocar assim? – Amanda perguntou, seus olhos âmbar brilhavam de admiração.

– A mãe do Ciel é musicista e professora de música. Ela ensinou Ciel e Angie a tocar. – Liza explicava.

– Só que eu sou péssima, o Ciel é brilhante. Ele sabe tocar piano também. É ele quem afina os instrumentos da mamãe.

– Oh, mesmo? – disse Sebastian. – tenho um piano em minha casa que precisa ser afinado, se você pudesse dar uma olhada, Ciel... Eu pagaria pelo serviço. – Ciel o olhava desconfiado.

– Mas é claro! Ele vai sim. – Angie confirmou por ele. – Seu piano tocará como nunca. Você vai, né Ciel? – Ciel olhou para Sebastian.

–Claro.

Por fim, os sete foram embora.

– Aqui está. Um garçom entregou uma folha para Ivan Mason.

– O que é isso? – perguntou confuso.

– Sua conta, senhor. – respondeu o garçom satisfeito, finalmente alguém colocara o insuportável jovem no lugar.














Domingo.

Sebastian desfrutava da silenciosa tarde de domingo, quando ouviu a campainha.

– Já estava achando que você não viria. – Sebastian recebeu o mais jovem com um sorriso.

– Estava ocupado. – na realidade, passara o dia se torturando, tentando decidir se devia ir ou não. Temia estar na presença do moreno e agora que estava, sentia-se confortável e ao mesmo tempo tenso. Isso era possível? – posso ver o piano? Tenho que voltar cedo. Ciel foi até uma sala ao lado da biblioteca, praticamente fazia, não fosse o único e imponente objeto em seu centro: o piano.

Era um belíssimo piano de cauda, negro como a noite. Um legítimo Bösendorfer. O piano era antigo, oitenta e cinco teclas, oito oitavas. As teclas pretas eram revestidas de ébano e as brancas de puro marfim. Ciel jamais viu um piano em que as teclas não fossem de plástico ou outro material. O jovem sentou-se no banco em frente ao piano. Muito antigo e muito conservado. Posicionou as mãos sobre o teclado, sentindo a superfície lisa e fria do marfim. Ciel tocou tecla por tecla do piano.

Pousando o dedo médio sobre as teclas das notas naturais, dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, em seguida pressionava as teclas dos acidentes na ordem dos sustenidos e as correspondentes na ordem dos bemóis. Uma por uma, pausadamente. Ouvindo com atenção o som de cada nota, a vibração nas cordas provocada pelo toque do martelo. Os olhos de Ciel permaneciam fechados, para aguçar a audição. Os olhos de Sebastian sobre a feição tranquila do jovem.

– Como disse, não sou especialista, mas não me parece haver nada de errado com o seu piano. Mas posso estar enganado, você poderia chamar o Carl, o pianista da Little Mozart, ele saberia dizer com certeza se está desafinado ou não.

– Não será necessário. Confio no seu julgamento. – Sebastian disse sorrindo docemente. – Talvez eu tenha tocado errado, na realidade sou péssimo. Bom, já que estamos aqui e você mais especificamente está aí, porque não toca alguma coisa pra mim?

– O quê?! Não, não sou tão bom em piano, além disso, não toco há muito tempo...

– Não há ninguém aqui para zombar de você, e sei que eu não farei isso. Vai recusar um pedido tão simples para um amigo? Uma música apenas. – Ciel olhou para ele, é impossível dizer não, se aqueles olhos estão sobre você.

– Mas depois não venha reclamar se ficar com dor de cabeça. – respondeu o jovem emburrado, voltando-se novamente para o teclado, pensando o que tocaria. Sebastian exibia o seu mais cínico sorriso de vitorioso.

O adolescente começou a tocar uma música chamada Bird, que ouvira Angie escutar certar vez. A melodia era romântica e muito bonita. Tocava como se pudesse enxergar no ar a partitura da canção. Por alguns instantes Sebastian permaneceu observando-o a distancia, depois se aproximou do jovem e sentou-se ao lado dele no banco. Muito próximo. Ciel errou duas notas, espantado com a atitude do outro. Continuou tocando. Tentava se concentrar nas notas, pois estava incomodado com o moreno o observando tão de perto.

De repente, Sebastian levantou a mão direita e tocou o dorso da mão direta de Ciel com o dedo médio, logo em seguida pousando o indicador e o anelar, deslizando-os sobre a mão do jovem que paralisou. O moreno deslizou os dedos entre os dedos do jovem, aprisionando a pequena mão na sua. Ciel hesitou, depois virou o rosto para Sebastian, este o olhava de forma intensa. Com a mão esquerda, o moreno afastou os cabelos pretos azulados que caíam sobre os olhos azuis do adolescente, acariciando lhe a face com o dorso da mão, desenhando o contorno do seu belo rosto até o queixo, sentindo a maciez do lábio inferior com o polegar.

– O que está fazendo? – o jovem falou num sussurro quase inaudível. Seu coração acelerava.

– Estou gravando o seu rosto, pra que eu possa me lembrar de cada detalhe seu quando não estiver comigo. – respondeu numa voz rouca e meiga.

Os dois se entreolhavam fixamente.

Sebastian abriu a mão sobre a face do jovem, segurando-lhe o rosto. Inclinou-se para ele, se aproximando cada vez mais. Parou a centímetros dos lábios do garoto e olhou profundamente nos olhos azuis. Ciel esquecera até de como respirar, se perguntava por que o outro parou. Parecia que Sebastian esperava por esta reação, pois deu um leve sorriso de canto ao notar o olhar inquisidor do mais jovem. Decidiu não protelar mais. Porém, Ciel inclinara-se primeiro. Pousando os lábios sobre os lábios do mais velho, que correspondeu.

Ciel sentiu Sebastian pressionar-lhe os lábios ternamente, depois aprisionar seu lábio inferior entre sua boca, sugando-o de maneira gentil. Os lábios dele eram macios e cálidos. Sugava-lhe os lábios como se o garoto fosse o doce mais saboroso e mais delicado do mundo. Quando sentiu a língua de Sebastian encostar-se a sua boca, buscando passagem, Ciel recuou.

– Não era o que você queria? – perguntou o mais velho não entendendo por que o jovem recuara se deixara claro que desejava isso.

– Não é isso... Eu nunca... – começou meio sem jeito levantando-se do banco. Sebastian entendeu. Ciel nunca beijara de língua. Saber que ele era o primeiro a tocar aqueles juvenis lábios vermelhos lhe causou um enorme contentamento. Um prazer egoísta que o mais jovem não fazia ideia.

– Não se preocupe. – levantou-se, segurando o jovem, prendendo-lhe entre seu corpo e o piano, de modo que ele não conseguisse escapar. – Primeiro sinta, depois tente acompanhar. Vamos tentar novamente?

Ciel nem teve tempo de responder, Sebastian já lhe sugava os lábios novamente. O moreno segurou o jovem pela cintura, o levantou e o sentou sobre o teclado do piano, produzindo uma confusão de notas desconexas. Sebastian afastou os joelhos do garoto para que seus corpos pudessem ficar mais próximos. Ciel mantinha as duas mãos fechadas segurando a camisa do outro, mantendo com os braços uma certa distância entre os dois. Sentiu a língua de Sebastian novamente, dessa vez, o jovem entreabriu a boca, permitindo que o homem invadisse sua cavidade bucal.

Quando sentiu a língua de Sebastian tocar a sua, Ciel estremeceu, um arrepio percorreu todo o seu corpo. O moreno explorava cada canto de sua boca de forma lenta e delicada. No inicio Ciel se atrapalhou, sentiu-se desconfortável por se embaraçar e não saber o que fazer com a própria língua, ficando envergonhado com a falta de experiência e por interromper o beijo em alguns momentos, ofegante. Mas Sebastian parecia não se importar, continuava a beijá-lo ternamente. O maior tirou as mãos de sua cintura, percorreu suas costas, sua nuca, adentrando os fios lisos de seus cabelos. Essa dança sensual das mãos sobre seu corpo, fez Ciel relaxar mais, logo ele acompanhara o ritmo do beijo e a medida que pegava o jeito, o beijo ia se intensificando, aumentando a velocidade, a urgência. Tornava-se mais apaixonado, lascivo. Não demorou muito e os dois já brigavam por espaço na boca do outro. Suas línguas buscavam tocar cada pedaço daquela cavidade úmida, perdidas numa dança sensual e quente. Beijavam-se com sofreguidão. Hora ou outra Ciel deixava escapar um gemido inaudível que provocava mais ainda o outro. Beijavam-se como se esperassem por esse momento há séculos.

Durante o beijo, nem por um minuto, Ciel se preocupou se beijava um homem ou uma mulher, se era mais velho ou de sua idade, se o conhecia há muito tempo ou há pouco. Sabia apenas que beijava Sebastian e era muito bom. Enlouquecedoramente bom. Poderia ser apenas mais um sonho, mas era real. Ciel podia sentir o perfume provocante do moreno, sua respiração quente, o calor que emanava de seu corpo. Sentiu Sebastian aprofundar mais ainda o beijo, roubando-lhe completamente o ar. Decidiu quebrar a única distância que existia. Soltou a camisa do moreno, deslizou os braços pelos ombros largos do mais alto e enlaçou-lhe o pescoço. Os corpos estavam agora colados.

Entregara-se completamente ao beijo.

Notas finais do capítulo
Como devem ter percebido...esse Ciel é bem mais ....livre....um garoto bem moderno. e sim, Liza é namorada do Ciel desde o primeiro capitulo, tentei não deixar óbvio, mas acho que ninguém se tocou....tadinha dela
Vamos lá o/
Título inspirado em o leão, a feiticeira e o guarda-roupas.
Hortence Valentine: desde o início imaginei a mãe do Ciel como uma professora de música, isso explica a habilidade musical do garoto, mas só depois inventei a Little Mozart pra ela.
Filarmônica Real de Liverpool: realmente existe. É uma das mais antigas orquestras britânicas e também do mundo, reúnem-se no Liverpool Philharmonic Hall.
Evelyn: agora sabem o nome da menina do corvo, escolhi este, por ser o nome de duas das minhas personagens femininas favoritas: Evelyn OConnel ( A Múmia) e Evelyn (V de Vingança).
PlayGame Center: não existe, se existir sou paranormal, pois juro que inventei isso.
As músicas tocadas por Ciel:
Bad To The Bone: cantada por George Thorogood e The Destroyers. Se não souberem qual éessa música ficou mundialmente conhecida como tema do filme O Pestinha. Deem uma conferida na letra.
Mason disse que ganharia quem tocasse melhor a guitarra, mas não especificou que tinha que ser a do jogo. XD
Bird: de Yuya Matsushita....me inspirou para a última cena.
Bosendorfer: piano austríaco. O do Sebastian é bem antigo, é raro pianos com 85 teclas e hoje em dia é proibido fazer teclas de marfim.
Bom...muito obrigada a todos que sobreviveram a leitura até aqui...prometo que tentarei escrever menos XD......e olha que eu cortei coisas...tirei uma cena do assassino, uma da Ruby e uma da Evelyn que deverão estar no próximo...prometo tentar fazer melhor. ^^
Mesmo assim, deixem comentários com a opiniões de vcs...eles sempre me inspiram e motivam.
Desde já agradeço, Beijos e até o 11.
Tai Bluerose =^.^=




(Cap. 11) A terrível quarta-feira chuvosa

Notas do capítulo
Olá pessoal!! ainda lembram de mim?

eu sei, demorei um século, mas esse capítulo foi super difícil...escrevi grande parte no feriado de carnaval..mas por um acidente que me irrita só de lembrar....perdi o capitulo e tive que reescrever tudo.

Enfim...estou feliz porque soube que vão voltar a apresentar o musical do Kuroshitsuji ...no Japão T.T......e triste porque não vou poder ver...e pq o Ciel não será mais o Yukito...pena ele e o yuya transmitiam um clima tão fofo*3*...o novo Ciel se chama Tanaka XD...é fofo tbm....e estou com medo do possível filme queo povo quer fazer do Kuro, se passará 130 anos depois do mangá..tipo...terá Sebastian, mas não terá Ciel? Não pode isso gente!

Capa nova e decente...não é minha..só editei...nossa como é difícil achar imagem do Ciel Adolescente..essa foi a melhor.

Enrolações a parte...Obrigada a Chrys, Audy, Hinamori, Lia, Karen Kpop, Nagase, Sosoll, Letícia e a Milene por favoritarem.

E obrigada a todos que leram e deixaram review....amo vcs =^.^=

Como podem ver esse capítulo ficou maior ainda...não sei se ficou tão bom assim.. eu li e reli ...tentei melhorar...mas foi o melhor que consegui.... mas espero que gostem....

perdoem os erros de escrita...e

Boa leitura

Capítulo 11: A terrível quarta-feira chuvosa

Amanda chegou à casa do Sebastian no domingo a tarde, e, desfrutando de toda sua liberdade, foi logo entrando. Porém, diferente do que sempre acontecia, não o encontrou na sala. Talvez estivesse na biblioteca. Também não estava lá.

A loira saía da biblioteca quando ouviu um barulho vindo da sala ao lado. A sala do piano. Sebastian tinha várias manias estranhas, uma delas era não permitir que ninguém entrasse naquela sala. Ele jamais permitiu que alguém chegasse perto do piano e, muito provavelmente, ninguém além de Lílian tocou alguma música nele. Sebastian jamais tocou no nome dela, mas Amanda conhecia muito bem a história daquela mulher.

Embaralhadas notas musicais escapavam pela fresta da porta entreaberta. Ao abri-la, deparou-se com uma cena nada comum: Sebastian e Ciel se beijavam. O adolescente estava sentado sobre as teclas do piano... Aí estava a razão das notas desconexas. Amanda tentou chamar a atenção dos dois com um pigarro. Estava um pouco constrangida, mas não chocada.

– Ahm, ahm... Com licença, estou atrapalhando algo? – os dois interromperam o beijo. Ciel, envergonhado, escondeu o rosto no peito do moreno.

– Na verdade, está sim. – Sebastian respondeu num tom irônico, como se tudo fosse uma brincadeira muito divertida.

– Neste caso, sinto muito, mas é realmente importante.

Sebastian suspirou e se dirigiu a Ciel.

– Pode esperar? – o jovem o olhou com aqueles intensos olhos azuis. Aquele olhar tinha um significado: o imprevisível.

– Espere você.

O garoto respondeu autoritário, levantou-se do piano e caminhou em direção à saída sem sequer olhar para Sebastian ou Amanda.

Ciel caminhava pelas ruas de Liverpool muito irritado. Como aquele imbecil pode beijá-lo e depois tratá-lo daquela maneira? Quem ele pensa que é? E quem aquela Amanda pensa que é? De fato, qual é a verdadeira relação daqueles dois? Sempre que a loira aparece, Sebastian o deixa de lado. Isso era deveras irritante e agora Ciel tinha mais consciência do por quê.

O adolescente interrompeu seu caminhar furioso e parou em uma rua qualquer. Tocou os lábios por um instante, lembrando-se do toque macio e cálido do beijo. Sim, Sebastian o beijara. E não foi algo que aconteceu por acidente, a intensidade com a qual fora beijado provava que o mais velho realmente queria beijá-lo. Ou seriam todos os beijos assim? Ciel jamais provou uma sensação tão... Íntima. Tentadora.

Era estranho, ele sabia disso. Mas, estranho por quê? Com certeza a grande maioria dos jovens de sua idade passou ou passa por essa experiência... Com uma pequena diferença. Provavelmente a experiência dessa grande maioria não aconteceu com outro homem, mas isso levava a crer que exista uma minoria de garotos que não teve seu primeiro beijo com uma garota.

Isso incomodava Ciel? Um pouco. Não pela opinião alheia, era orgulhoso demais para se importar com o que os outros pensavam ou deixavam de pensar. Sentia-se incomodado pela confusão, o conflito em seu interior. Mas quando estava com Sebastian, por mais que odiasse admitir, até para si mesmo, sentia-se bem, nada mais importava. E agora, quando se lembrava do beijo, só pensava em como fora maravilhoso e o desejo de repeti-lo crescia em seu peito.

Apertou o passo.

Considerava-se um tolo, pois sentia um contentamento inexplicável, o barulho dos carros parecia mais melódico, os transeuntes pareciam mais felizes, a tarde parecia mais agradável, os pássaros pareciam mais livres, até um corvo entre as árvores lhe pareceu voar de um jeito magnífico, as árvores pareciam mais majestosas, conseguia ouvir os risos das crianças na praça, sentia a brisa leve que brincava com seus cabelos, o céu estava limpo e azul, a beleza de um dia sem chuva. Não podia ver, mas suas bochechas coradas se destacavam em sua jovial pele alva. Se alguém lhe perguntasse a razão de ele se sentir assim, ele não saberia dizer. Também, como poderia? É difícil explicar algo que nunca sentiu antes. O jovem sabia o que sentia, mas não sabia que tudo se resumia a uma simples condição: estar apaixonado.

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Angélica ajudava a mãe a cuidar das roseiras do jardim. Seus olhos azuis claros refletiam o intenso vermelho das pétalas em suas mãos. O barulho de motor de carro na casa vizinha chamou sua atenção.

Um homem de cabelos pretos, alto, olhos azuis, estacionou na garagem ao lado. Ao reparar nas duas mulheres no jardim vizinho, parou para cumprimentá-las.

– Boa tarde senhora Valentine! Boa tarde Angélica!

– Boa tarde! – responderam as duas, a moça corando levemente.

– Muito trabalho no hospital, Daniel?

– Sim, peguei dois plantões seguidos, mas consegui um tempinho agora pra dar uma passada em casa. Nesse trabalho é importante saber que temos que parar pra descansar às vezes, afinal se o médico fica doente quem vai atender os pacientes, não é mesmo? Mas e você, Angélica, quando começa sua residência?

– Ano que vem se Deus quiser. – respondeu animada, demonstrando toda sua expectativa.

– Que bom! Bom, caso se interesse por infectologia, pode ser que eu a escolha como minha “residente aprendiz”. É trabalhoso, mas é uma ótima experiência.

– Seria uma honra! Me aguarde.

– Isso que é determinação. Bom, deixe-me entrar... A propósito, as rosas estão lindas, vermelho combina com você.

– O-obrigada.

Poucas pessoas conseguiam deixar Angie envergonhada. Poucas tinham a capacidade de deixá-la tão retraída a ponto de parecer uma colegial apaixonada. Se bem que apaixonada ela estava. Mais que isso, ela amava Daniel.

Daniel Morrisom era um infectologista do Hospital de Liverpool, cuidava do Departamento de Medicina Diagnóstica, tinha trinta e sete anos e era um excelente médico. Os Morrisom eram vizinhos dos Valentine desde sempre, Angélica não se lembrava exatamente de quando viu Daniel pela primeira vez, mas lembrava-se que sempre gostou dele. O sentimento foi aumentando com o passar dos anos.

Como não havia muitas crianças na vizinhança, sempre brincavam juntos. Ele, que sempre desejou uma irmã, fez de Angie a sua. Ele era doze anos mais velho, mas ela não se importava. Os sentimentos de Angie se firmaram quando o moreno começou a dar-lhe aulas particulares, ela tinha doze anos, ele já estava na faculdade, mas sempre arranjava tempo para ajudá-la e conversavam horas sobre o campus e a matéria. A garota começou a ficar fascinada pela medicina. Mas engana-se quem pensa que Angélica só escolheu cursar medicina por causa de Daniel. A razão foi seu irmão.

Há uns nove anos atrás, Ciel passou por problemas muito sérios, problemas que desestabilizou toda a família por um ano e culminou num incidente terrível. Angie tinha apenas dezessete anos, e sentia-se aflita só de lembrar-se da cena que encontrara no banheiro. Naquele dia seu irmão, seu amado irmão quase morreu. Ela entrou em desespero, não sabia o que fazer, e Ciel não reagia. Correu desesperada e gritando por socorro, Daniel veio como um relâmpago. Ele prestou os primeiros socorros, reanimou Ciel e o levou para o hospital. Se não fosse Daniel, Ciel teria morrido.

Angie lastimou-se por ser tão inútil. Se um médico não morasse ali perto, teria perdido seu irmão, pois a única coisa que sabia fazer era um curativo e isso não resolveria muito. Naquele dia, prometeu a si mesma que jamais deixaria ninguém sofrer ou morrer se pudesse fazer algo para ajudar. Naquele dia escolheu sua profissão.

Ciel se recuperou, e realmente melhorou. Mas mudou muito, muito mesmo. Angélica jamais esqueceria como Daniel havia salvado seu irmão. Passou a amá-lo mais ainda. Pena que o homem não via nela mais que uma amiga, uma irmã mais nova. Mas tinha a esperança de que um dia ele a notasse. Algum dia ele notaria que ela já era uma mulher. Por isso exibia tanto os namorados, na esperança de que ele percebesse que outros homens olhavam pra ela e que ele poderia perdê-la se não se apressasse. A verdade era que Angie esperaria uma eternidade por ele.

– Angie, querida, as ervas daninhas crescem mais rápido do que você as arranca... eu faria isso, mas essa barriga não permite. – Dizia a mãe trazendo a ruiva de volta à realidade, achava realmente impressionante como Daniel tinha a capacidade de transformar a Angie Furacão em uma Doce Angie. Massageava sua enorme barriga, agora de nove meses, a qualquer momento a futura ou futuro Valentine poderia nascer.

– Tá mãe. – disse bufando. Pegou a tesoura de jardineiro para aparar os galhos quando notou o irmão “tentar” entrar despercebido em casa – COMO FOI O CONSERTO DO PIANO, CIEL?

– Bom. – e fechou a porta sem dizer mais. Angie sorriu.

– Qual a graça? – quis saber a senhora Valentine.

– Ah! É... é um trocadilho... Ele ia consertar o piano do Sebastian, aí eu perguntei como foi o conserto, que soa como foi o concerto do piano, sabe... Concerto de música... HAHAHAHAHA!

– As roseiras, Angélica, as roseiras. – massageava as têmporas não entendendo a maluquice da filha.

– Tá, mãe, tá. Eu podia tá lá em cima chateando o Ciel ou estudando. Mas estou aqui, cuidando das rosas. Sujando-me de barro...

– As roseiras são suas.

– Ah... Isso é só um detalhe...

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Era segunda-feira, manhã. Roger Valentine e seu assistente, Harris, esperavam no Liverpool John Lennon Airport a chegada dos dois homens enviados pela Scotland Yard para ajudar no caso. Após meia hora, os dois chegaram. Figuras pouco comum, diga-se de passagem.

Um tinha cabelos loiros já desbotados pela idade, devia ter uns quarenta e cinco anos, olhos verdes, alto e corpulento, rosto largo e bem marcado. Trajava-se como um cavalheiro, trazia até uma bengala ou seria um guarda-chuva? Harris notou que ele trazia na lapela um broche. Um escudo com asas, com uma letra P sobre uma grande letra M. O brasão das Empresas Midford e da própria família Midford. nunca soube o porquê do P no brasão.

O outro era igualmente alto, mas andava meio encurvado. Tinha cabelos grisalhos na altura dos ombros, largados e bagunçados com uma espécie de franja que lhe caía sobre os olhos. Um visual bem desleixado para um homem de sua idade.

Roger caminhou até eles e tomou a frente no cumprimento.

– Bem vindos a Liverpool. Prazer, Roger Valentine, Chefe do Departamento de Polícia de Liverpool.

Detetive Claus Midford. Prazer. – disse o loiro. – Este é o legista Mark Callaway. Gostaríamos de dar uma olhada nos relatórios o mais rápido possível.

– Claro. Venham conosco.

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Ciel saía da escola com Liza, os dois combinavam um trabalho de Literatura que teriam que fazer juntos, quando encontrou um certo moreno recostado em um carro preto parado próximo a saída da Academia Nottingham. Sebastian exibia seu sorriso clássico. Dentes perfeitos e brancos. Seus olhos castanhos tinham um admirável brilho vermelho sob o sol. O que ele fazia ali? O adolescente ficou aborrecido. Sempre que se sentia constrangido ficava aborrecido. Em outras palavras, estava envergonhado.

Desde aquela tarde, pensara no moreno várias vezes e no que deveria dizer, mas agora que o via novamente, sentia toda a sua coragem se esvair.

Sebastian caminhou até eles. Trajava jeans escuro, camisa branca e colete cinza com mangas compridas, puxadas até os cotovelos; para terminar, um cachecol preto em volta do pescoço.

Olá! Estava passando por aqui e resolvi fazer uma visita. O que acham de tomar um chá?

– Não, obrig...

– Seria maravilhoso, Sebastian! Vamos, Ciel? Não seja ranzinza.

Os olhos da garota brilhavam. Ciel acabou concordando.

– Vamos no meu carro.

– Aonde iremos? – Liza perguntou, colocando o cinto do banco traseiro. Ciel fazia o mesmo, enquanto olhava Sebastian com suspeita.

– A um maid café chamado Darjeeling Chá. Ciel e eu já fomos lá.

– Ah... Mesmo?! – Liza não soube bem como reagir a essa informação, mas sentiu algo estranho – Ainda não conheci este lugar.

– Tenho certeza de que vai gostar.

Sebastian olhou para Ciel pelo espelho do carro. O adolescente estreitou os olhos para ele.

O que Sebastian pretendia com tudo isso?

Quando chegaram ao Darjeeling, Elizabeth ficou encantada com o lugar. Reconheceu Ruby da festa na casa da Amanda e achou tudo maravilhoso. Seus olhos foram atraídos por uma vitrine decorada por coloridos e apetitosos cupcakes.

– Ah! Olha, Ciel. Não são fofos!!

– Vá lá. Pode escolher alguns pra você. – disse Sebastian.

– Sério?!

– Não, Liza. Não vamos abusar. – a garota fez uma expressão desapontada.

– Não dê atenção a ele, Elizabeth. É um presente meu para você. Vá lá e escolha quantos quiser. Escolha alguns para o Ciel também, eu sei que ele quer, mas está fazendo cerimônia.

– Pode deixar. Não se preocupe Ciel, vou ver se tem os seus sabores favoritos.

Assim que a jovem se afastou, Ciel esbravejou:

– O que você pensa que está fazendo?

– Tomando chá e comendo bolo na companhia dos meus amigos. – respondeu displicente.

– Não se faça de idiota, Sebastian. Você sabe do que estou falando? Por que disse pra Liza que eu vinha aqui com você?

– E por que não deveria? Não há nada de errado nisso. A não ser que você tenha tido alguma razão em especial para não contar nada a ela.

Sebastian levou a xícara de chá à boca, fazendo parecer que falava de um assunto qualquer, mas seus olhos transbordavam ironia. Chá com duas colheres de provocação: um sabor maravilhoso.

Ciel inchou as bochechas de raiva. Nunca contara para Liza que encontrara Sebastian várias vezes no Darjeeling Chá, assim como nunca contou que passava a maioria das suas tardes na casa do outro. Mas a razão de não ter contado era desconhecida. Mencionou algumas vezes que esteve com ele, mas não deu nenhum detalhe sobre o que fizeram ou aonde foram. Sua intenção nunca foi esconder alguma coisa, simplesmente não informou. Mas depois do que aconteceu no domingo, todo contato que ele já teve com o moreno lhe parecia, agora, muito comprometedor e suspeito. Temia que Liza descobrisse algo, pois sabia que a moça não reagiria bem a algo que nem ele havia aceitado direito.

E ali estava Sebastian. O provocando como sempre fazia, para ver sua reação. Agindo como se tivesse descoberto que o garoto era autor de um crime. Até parece que o mais velho também não se entregara ao pecado.

Elizabeth escolhia animadamente os bolinhos mais belos. Ruby tentava ajudá-la a escolher, embora parecesse ficar mais boba diante dos confeitos do que sua cliente.

Sebastian pousou a xícara sobre o pires de porcelana, passando a língua sobre os lábios, secando os resquícios de chá. Ciel acompanhava cada movimento seu. Estava irritado e envergonhado. E quando ficava envergonhado, tendia a ser mais áspero. Não sabia como lidar com esse tipo de sentimento, nem com esse tipo de situação, então, a casmurrice e a rudez serviam de escudo e de ataque. Portanto, muitas das vezes em que fora rude, não pretendia ser realmente indelicado, assim como não pretendia ser com Sebastian. Porém, o outro conseguia irritá-lo de tal maneira, que o diálogo que se seguiu não foi nem de longe o que planejara ter.

– O que você quer de mim, Sebastian?

– Conversar. Pois eu tenho certeza de que não imaginei o que aconteceu no domingo. E você, Ciel?

– Gostou tanto assim de me beijar que veio logo me procurar?

Ponto para Ciel. Sebastian surpreendeu-se com a pergunta provocativa. Deu um sorriso de canto.

– Engraçado, na hora eu jurei que você estava... Apreciando.

E assim começou a duelo de palavras.

– E-é, foi legal.

– Legal?

– Sim, por quê? Achou que significou alguma coisa?

– E não significou?

– Claro que não. Eu queria só experimentar.

– Oh, mesmo?! – Sebastian abandonou a postura perfeita, recostando-se de um jeito mais largado. Queria ver até onde o jovem ia chegar. – Experimentar, é?

– Sim. Eu sou adolescente e... E como tal, tenho minhas curiosidades, acaso é errado querer experimentar outro... Outros tipos de coisas?

– Então foi só isso, curiosidade adolescente. – Sebastian parecia se divertir como nunca.

– Exato.

– Não sabia que você era tão... Moderno assim.

– Pois sou. – Sebastian não sabia o que era mais admirável, a capacidade que Ciel tinha de ser imprevisível ou a maneira séria e decidida com a qual falava.

– Agora me responda uma coisa, meu caro e moderno adolescente curioso... – Sebastian inclinou-se um pouco sobre a mesa, e falou num sussurro sedutor. – A experiência lhe foi suficientemente gratificante?

Nesse momento, Ciel odiou-se por ser um inglês de pele tão clara, pois não sabia se o brilho rubro nos olhos de Sebastian era efeito da luz ou se os olhos castanhos do outro apenas refletiam suas bochechas em chamas. Tal reação do jovem pareceu ser suficiente para Sebastian. No fim, o mais velho ganhara esse round.

– Sobre o que falavam?

Liza voltara para a mesa.

– Eu falava de como a senhorita fica graciosa quando sorri.

Liza, claro, ficou completamente vermelha. A habilidade que Sebastian tinha de dissimular chegava a ser assustadora.

– Não precisa me chamar de senhorita, Liza está bom.

– Elizabeth, então. Escolheu os cupcakes que queria?

– Sim, Ruby está embalando eles. São tão perfeitos e lindos que dá pena de comer. Muito obrigada mesmo, Sebastian.

– Não há de quê.

Sebastian ofereceu carona para casa. Ciel ajudou Liza a carregar as duas caixas de cupcakes, sendo que uma delas pertencia a ele. Liza despediu-se de Ciel com um beijo na bochecha. O jovem voltou para o carro, dessa vez sentando-se no banco ao lado do motorista. Sebastian acenou para Liza que respondeu com um aceno mais alegre ainda. A garota esperou o jaguar preto desaparecer na esquina para entrar na casa.

Ciel suspirou impaciente ao perceber que Sebastian tomara um caminho diferente. Fechou os vidros do carro e estacionou.

– Você é persistente, não é? – Ciel falou olhando para o carro da frente.

– Só quando vale a pena ser.

As palavras penetraram a mente do jovem, o significado delas o abraçou com força, fincando as garras em sua pele, impedindo-o até de respirar. Ciel permaneceu olhando para frente, mas sem realmente ver alguma coisa. Estava perdido em seus pensamentos. “O que eu quero? O que eu quero? O que eu realmente quero?”, o jovem repetia essa pergunta para si mesmo. É tão complicado ser jovem. Tudo parece estar sempre à flor da pele. É como se existisse uma força dentro de si que o dominava. Dominava seu corpo e seus pensamentos, o obrigando a agir e a pensar de uma forma que destoava completamente do habitual, o levando a ter desejos que iam contra tudo o que acreditava, contra as regras sociais, contra regras suas, contra seus próprios conceitos de moral e amoral, de certo e errado, e, por mais que tentasse resistir, se é que realmente queria resistir, acabava sendo aprisionado pelo desejo em sua forma mais poderosa.

Sebastian apenas observava o adolescente. Ciel ainda não olhara para ele, mas sua respiração se alterara um pouco, estava levemente ofegante. O jovem devia estar travando uma batalha em sua mente. Era claro que tantas informações, tantas mudanças, tantas descobertas era muita coisa para sua consciência de dezessete anos. O homem decidiu esperar que o jovem falasse, e esperava que a decisão de Ciel fosse positiva, levando em consideração o futuro que aguardava o menor, precisava que, pelo menos, o jovem o aceitasse a seu lado.

Ainda sem olhar para o homem sentado no banco do motorista, Ciel falou.

– Pensei que não fosse gay.

– E não sou. Se me perguntasse se sou hétero, a resposta seria não. Se me perguntasse se sou bissexual, a resposta ainda seria não.

– Então é um mentiroso.

– Se dissesse que não minto, estaria mentindo. Mas eu disse a verdade, embora a verdade, no meu caso, seja complicada para você entender. Por isso eu lhe disse que você fez a pergunta errada. O que você realmente queria saber?

Ciel pensou um pouco.

– Você... – Ciel olhou para Sebastian – Você gosta de mim?

A pergunta saiu num sussurro adorável de tão inocente que foi.

– Sim.

– Gosta como?

– Assim...

Sebastian soltou seu cinto de segurança e aproximou-se do rosto de Ciel, beijando-o ternamente. Um beijo casto, quente e macio. Demorando-se o suficiente para sentir os lábios do jovem queimarem sobre os seus. Afastou-se devagar, admirando os olhos ainda fechados de Ciel. Dois orbes azuis fitaram-no de um modo intenso. Aquele olhar profundo que ele conhecia tão bem. Os únicos olhos que lhe importavam.

Ciel achou que estava enlouquecendo. Odiava se sentir tão vulnerável. Odiava não ter o controle sobre si mesmo, pois era assim que parecia estar quando tinha Sebastian ao seu lado, sem controle. Não controlava seus sentimentos, seus pensamentos, seus atos. Acabava fazendo coisas que, em outras situações, jamais faria. Coisas insensatas e que colocavam em cheque seu orgulho. Coisas como passar para o banco de trás do carro e sussurrar no ouvido do outro “Vem aqui”.

Inapropriado.

O Ciel Valentine de uns dois meses atrás jamais imaginou que faria isso. E se alguém lhe disse que o faria, com certeza, esse alguém levaria um soco. Provavelmente diriam: quem é esse? Não é o Ciel que conheci.

Sebastian foi para o banco traseiro, afastando a caixa de cupcake para o lado. Sentou-se ao lado de Ciel e esperou o próximo passo do garoto. Ciel era sempre surpreendente. Às vezes, Sebastian se perguntava quem seduzia quem.

Meio hesitante, o jovem ergueu as mãos, segurando o rosto do mais velho. Puxou-o para si, iniciando o beijo. Este começou lento e doce. Era como se os dois apenas degustassem o sabor do outro. E, à medida que descobriam gostar, saboreavam mais e mais. Sebastian explorava cada canto daquela boca jovem, notando como a língua inexperiente do menor aprendia rápido. Era o único momento em que um pecador condenado como ele podia experimentar o céu. Ciel era a luxúria e a inocência, a pureza e o pecado. E por isso lhe era tão desejável.

No carro era desconfortável. Mas pelo menos no banco de trás podiam ficar próximos, como ficaram na sala do piano. As respirações estavam descompassadas, o calor emanava dos dois corpos. Ciel não sabia ao certo quanto tempo se beijaram, mas quando sentiu sua respiração ficar perigosamente sôfrega, uma parte de sua consciência voltou a trabalhar. Seu corpo ardia, cada toque de Sebastian o arrepiava, com muito esforço, segurava uns gemidos traiçoeiros que tentavam escapar de sua boca. Os mínimos movimentos o provocavam. Estava indo longe demais. Não estava pronto pra isso. Quebrou o beijo. Sebastian, no entanto, seguiu beijando seu pescoço. Tentador. Podia sentir o cheiro agradável do pescoço do homem. Quando abriu os olhos, deparou-se com a caixa azul do Darjeeling, voltou completamente a si.

– Espere. Para... Eu preciso ir. – Sebastian o olhou meio desapontado. – É sério.

– Mas você não vai me ignorar e sumir por mais uma semana, vai? – Ciel sabia que na verdade, Sebastian o perguntava se ele ainda tinha dúvidas. As dúvidas que o fizera evitar o mais velho várias vezes. Mas depois desses beijos, depois de consumar o erro e tornar a cometê-lo deliberadamente, ignorar e fingir que ele, Ciel, não fizera nada, seria muita hipocrisia de sua parte.

Ciel abriu a porta do carro e saiu.

– O que houve? – O homem também saiu do carro.

– Eu vou a pé. Por favor, não me impeça. – precisava de um tempo pra pensar – Eu não vou sumir. Eu prometo.

– Não precisa me prometer nada, Ciel. Eu espero você. – acariciou o rosto do jovem e inclinou-se para beijá-lo.

– Aqui não, seu idiota, ficou louco? – disse empurrando o outro.

– O que foi, tem vergonha de assumir?

– Não é isso. Eu ainda estou de uniforme, imbecil.

– E?

– Há guardas rondando as ruas, se me virem com você, você pode ficar encrencado. Eu ainda não tenho dezoito.

– Está preocupado comigo?

Sebastian começou a rir. Ciel corou emburrado.

– Tá! Cala a boca e anda logo. – era uma permissão. Sebastian o beijou. Pretendia dar um beijo breve, mas o próprio Ciel quis que demorasse mais um pouco. Um beijo apaixonado e carinhoso.

Dois ou três desconhecidos que passavam pela rua viram, e levando em consideração a pouca predisposição dos ingleses mais tradicionais para aceitar qualquer coisa que inflija as regras convencionais, já dá para imaginar a reação deles. No entanto, alguém que não deveria vê-los, viu.

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– Se eu pudesse morrer, certamente morreria de tédio. – suspirava.

– Do que você está reclamando? Não se cansa de tanta matança? – exibia um sorriso maldoso.

– Olha só quem fala... Isso aqui está um tédio! Acaso já escolheu sua próxima vítima?

– Sim.

– Ótimo! Quer que eu chame os kroboros?

Ainda não. Não é o momento certo de capturá-la. O maior prazer está em deixar o inimigo em pânico. Ninguém faz ideia de quando atacarei novamente.

– Aff... Ajudar você é divertido, afinal você é bem cruel, gosto disso. Mas que demora pra escolher as “felizardas”... Diga quantas quer e eu as trarei, poderá se divertir com os gritos.

– Embora a proposta seja tentadora, sabe muito bem que não pode ser qualquer uma.

– Sei... Mas o que pretende com isso? Afinal... todas vão morrer mesmo.

– Não me entenda mal, mas, sua raça não é exatamente confiável. Acha que não sei que você tem seus próprios motivos para me ajudar?

– Que seja.

– Se carnificina é o que deseja, solte os kroboros na cidade. Não entendo porque insiste neles, eles acabam sendo mortos mesmo.

– Porque eles comem apenas os corpos... Embora seja realmente frustrante a falta de cuidado próprio deles. Como esses idiotas podem ser pegos tão facilmente?

– Não é irônico? Cães humanos enfrentando cães infernais. O engraçado é que até agora nenhum deles morreu, mas a sua matilha demoníaca é dizimada mais rápido do que consegue convocá-la.

– Tsc... Pois bem, soltarei os kroboros que estiverem mais famintos e os seguirei. Quem sabe a matilha real não diminua.

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Ventava muito na manhã de terça-feira, talvez chovesse. Ciel estava a um quarteirão de casa quando um ford prata parou ao seu lado. Para sua surpresa era Amanda.

– Podemos conversar? – a loira perguntou sorrindo, Ciel estranhou, afinal de contas a mulher nunca pedira para falar com ele.Não sem a presença do Sebastian. – Eu não mordo.

– Tudo bem. Pode falar.

– Aqui não. Entre; vamos a outro lugar, não se preocupe, não vamos demorar e depois te deixo perto da escola.

A mulher destravou a porta do carro e Ciel, ainda desconfiado, entrou. Foram a um café na zona leste da cidade. Sentaram-se em uma mesa que ficava do lado de fora. Ciel esperou que a mulher conversasse. Poderia ser qualquer coisa. Mas provavelmente seria sobre Sebastian, afinal ela pegara os dois naquele domingo. Ciel até pensou que ela contaria algo a Liza, mas pelo visto, não havia dito nada. Se tivesse contado, Elizabeth já teria feito um estardalhaço.

– Eu sei que você não gosta muito de mim, mas não há razão para isto. – a loira começou. – Quanto ao domingo, não pretendo dizer nada a ninguém. Não cabe a mim, julgar ou me intrometer na vida romântica dos outros. Sou grata por cuidar da Liza e tenho uma dívida com você. – a mulher ficou séria e depois prosseguiu – Quer saber quem realmente o Sebastian é? Ele não dirá facilmente a menos que o force.

– Não está brincado comigo?

– Não. Deve saber que perigos rondam Liverpool e não só aqui, em toda Inglaterra. Perigos que as pessoas comuns nem sonham. Um psicopata... Não é tão simples assim. Sebastian jamais lhe contará toda a verdade. Só fará isso se não tiver escolha. Te darei essa oportunidade, mas ela será única. Não poderei fazer isso novamente, se não aceitar fazer o que eu disser, continuará sem conhecer o verdadeiro Sebastian.

– O que quer que eu faça?

Deverá ir até minha casa, apenas isso. Quarta-feira às oito horas da noite. Agora, preste atenção nas instruções. Não conseguirá falar comigo ou com Sebastian o dia todo, mas estaremos lá a essa hora. Deixarei o portão dos fundos apenas encostado, entre por lá e vá para a piscina, a porta de vidro estará aberta. Siga o corredor à esquerda, suba as escadas e entre na quarta porta. Pode escolher ir ou não, mas para mim, não fará mais diferença. – seu tom era meio tristonho ao dizer a última frase. Os olhos âmbar dela brilhavam entre os fios de cabelo platinado que o vento forte teimava em jogar em seu rosto. Amanda realmente falava sério.

– Saberei a verdade sobre o Sebastian?

– Sem dúvida. - Ciel pensou um pouco. O vento sacudia as toalhas das mesas. o tempo estava ficando frio.

– Eu irei.

– Que bom. Vamos, te levarei para Nottingham.

Amanda se levantou e caminhou até o carro. Enquanto a seguia, Ciel viu, por um breve instante, uma estranha tatuagem na nuca da mulher. Quando o vento soprou, o estranho desenho, oculto pelas longas madeixas se revelou. Não conseguiu ver bem o que era, mas lhe pareceu ser uma estrela. Quando o deixou em frente à escola, lhe disse: “Cuide da Elizabeth pra mim.” Não era necessário pedir.

Passou o resto do dia imaginando o que poderia encontrar lá. Ou o que Amanda e Sebastian escondiam. Ficara até tarde fazendo um maldito dever de química e fora dormir com a mente esgotada.

Na dita quarta-feira, Ciel levantou cedo. O dia amanheceu horrível. Chovia e o céu ameaçava desabar em uma tempestade maior ainda.

Dimas não apareceu na escola e a senhora Helen Wilson, a mãe de Liza, veio buscá-la mais cedo, pois havia pegado um resfriado. Liza parecia cansada e abatida. No fim do dia, ainda chovia. Ciel segurava o guarda-chuva com força, mas não adiantava muito, estava encharcado. Deparou-se com uma pequena figura ao longe parada no meio da chuva. Evelyn. Correu até ela.

– O que está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa? – quase gritava para ser ouvido em meio ao barulho da chuva.

– Ciel! Não deveria estar aqui.

A menina pareceu preocupada. De repente, Ciel teve uma sensação estranha.

– Quem está aqui perto, o assassino ou os kroboros?

– Não pode chegar perto... Estes estão famintos.

– Evelyn, você sabe quem é o assassino, não sabe?

A menina fez uma expressão estranha.

– Sei, mas não posso dizer. Você tem que descobrir. Além do mais, acho que não vai gostar de descobrir...

– Pensei que estava aqui pra me ajudar.

A menina deu um gemido, aparentemente pesando os prós e contras. Era estranho, Ciel podia ouvi-la bem, mesmo mantendo o habitual tom calmo de voz e mesmo com a chuva.

– Basta que saiba que há uma criatura perversa, faz uma vítima após a outra. Quando mata uma, já escolhe a outra. Seus propósitos são mais sórdidos do que pode imaginar... Essa não, um bebê! – Ciel não entendeu bem, mas notou que a garota deve ter percebido algo. Ela saiu correndo e Ciel foi atrás dela. Largou o guarda-chuva, afinal, já estava molhado mesmo. Os pingos de chuva eram tão fortes que doíam na pele.

Deviam estar se aproximando, pois ouviu um grito. Assustou-se ao ver um homem vir correndo em sua direção gritando por socorro. O jovem paralisou ao ver o Estranho de Olhos Verdes aparecer do nada e atravessar o corpo do cara com uma espécie de lança. O pobre homem, por mais incrível que possa parecer, se desfez produzindo vários raios de luzes que cegaram Ciel por segundos.

– Você não pode fazer mais nada por este. – o estranho falou com desprezo, como se o garoto tivesse culpa de algo – Mas a outra humana ainda está viva.

O de olhos verdes apontou para uma viela, Ciel pensou em discutir, mas Evelyn gritou.

– Por aqui, Ciel. – os dois correram lado a lado.

Era difícil enxergar com aquele aguaceiro e os trovões violentos provavam que a chuva não passaria tão cedo. O adolescente encontrou três kroboros arrancando com os dentes pedaços de carne do corpo de um homem. Mas o quê?! Era o mesmo homem que vira desaparecer. Estavam tão concentrados em devorar e dilacerar o corpo que não notaram o garoto. A cena era tão terrível que sentiu seu estomago embrulhar. Imagina-se que um animal feroz faria algo assim, mas ver um humano, pois tinham a forma humana, fazer isso era aterrorizante.

– Rápido! – Evelyn chamou.

Ciel viu mais ao fundo, uma mulher de cabelos castanhos tentando proteger seu bebe de uns dois ou três anos dos devoradores. Seus braços estavam cheios de arranhões, usava o corpo como escudo e tentava afastá-los com um guarda-chuva fechado. Ela já teria desistido se estivesse só, mas não queria que seu bebê acabasse como o marido.

Sem pensar muito, Ciel pegou duas facas de cozinha que escondera nas meias e atirou nos kroboros. A faca acertou as costas de um deles, mas deslizou e caiu no chão sem causar ferimento algum. O jovem amaldiçoou sua péssima pontaria.

Deixe-a em paz! – deu a ordem com autoridade e toda coragem que possuía. O plano era afastá-los da mulher para que esta pudesse fugir, mas não fazia ideia do que faria depois.

Os kroboros se viraram para ele furiosos, a aparência humana os deixava mais assustadores, os olhos ficavam cada vez mais negros, os dentes pontiagudos saltavam de suas bocas como presas de um lobo faminto e produziam um rosnado grotesco, semelhante a um cão raivoso.

Ciel apertou a faca com força. Era uma arma deprimente para usar contra demônios devoradores de carne, ele sabia disso, mas foi o melhor que conseguira. Quando pegou a faca e escondeu na mochila, achou que era a ideia mais idiota do mundo, mas agora desejava ter escondido uma arma melhor, se tivesse. O primeiro ameaçou atacar Ciel, o garoto cortou lhe o rosto, o que deixou o demônio mais furioso ainda. Os outros que devoravam o homem viram a confusão e caminharam em direção aos dois jovens, encurralando-os. Felizmente, a mulher conseguira escapar com o bebê, mas não fazia ideia de como ele e Evelyn escapariam.

– Eu estou com você. Não se preocupe. – disse a pequena. Muito reconfortante, o que uma menina pequena como ela poderia fazer? Eles eram muitos.

O bando saltou sobre eles, mas de alguma forma, não conseguiam tocá-los. Era como se algo os impedisse... uma barreira. Evelyn estava fazendo isso? Provavelmente sim. Ciel esticou a mão para segurar o braço da menina.

– Fica perto de m...

– Não pode me tocar!! – a menina falou alarmada tentando se afastar, tarde demais.

Nos breves segundos em que tocou a pele da menina, Ciel vira um flash de imagens desconexas. Uma casa antiga. Três lápides. Um anel. Uma carta. Um jardim. Uma árvore com balanço. Uma mulher de longos cabelos negros. Um selo real. A menina e o corvo. Um incêndio... e dor, muita dor.

Sua visão ficou turva. Evelyn tinha sumido. Sua cabeça parecia prestes a explodir. Caiu sobre os joelhos, a chuva atingindo suas costas com força. Sentiu que estava morrendo.

Morrendo...

– Afastem-se dele! – o garoto ouviu uma voz feminina gritar. Mas não era Evelyn. Ouviu tiros e um par de coturnos pousar ao seu lado.

Os estampidos invadiam sua cabeça, impedindo que a sensação de letargia o dominasse. Tentou focar a visão e enxergou a mulher de vestido verde escuro cheio de babado contrastando com a jaqueta vermelha de couro. O peso do vestido molhado limitava seus movimentos, mas lutava e atirava neles com incrível agilidade, tentando mantê-los longe de Ciel. Um dos kroboros segurou a ruiva pelo pescoço, sufocando-a.

– Eu vou quebrar o seu pescoço vadia. – a mulher tentava se soltar.

Ciel agarrou o guarda-chuva da mulher do bebe e acertou a cabeça do demônio com toda força que tinha. O kroboro soltou a ruiva. Outro devorador atirou Ciel contra a parede. O garoto sentiu um forte dor nas costelas e não podia respirar direito. A mulher levantou atirando neles. Quando as balas os atingia, os devoradores desapareciam como poeira.

– Ad Infernum! Sumam cães malditos! Voltem para o inferno! – começou a atirar com as duas pistolas compulsivamente até acertar o último. Tremia, não sabia se de medo, adrenalina ou raiva. Provavelmente os três. – Droga! Estraguei outro uniforme. – olhava para o vestido rasgado e sujo de sangue.

A mulher correu para o adolescente.

– Ciel, você está bem? O garoto tossiu, tinha um filete de sangue saindo da boca, não conseguia respirar direito. Levantou os olhos para a mulher.

– Ruby...

E desmaiou.

Quando recobrou a consciência, estava num quarto completamente desconhecido. Era pequeno e cheio de ursos, bonecos, pôsteres de desenhos, filmes, atores e sei lá mais o quê. Ouvia vozes no corredor. Ruby falava com um homem.

– Por que o trouxe pra cá? – a voz tinha um sotaque estranho.

– Queria que eu fizesse o quê? Que o deixasse lá pra morrer?

– Nós é que vamos morrer? Porque ele não acorda?

– Ele bateu a cabeça. Acha que devemos levá-lo ao hospital?

– Vão nos fazer perguntas e vamos dizer o quê?

Enquanto os dois discutiam. Ciel viu as armas de Ruby sobre a escrivaninha. Ainda chovia torrencialmente, mas lá fora estava mais escuro ainda. Olhou no relógio de pulso. Sete e dez. tinha que chegar a casa da Amanda depressa.

– Acho melhor deixá-lo aqui até decidirmos o que fazer.

Nem pensar. Ciel levantou-se com dificuldade, pegou uma das pistolas de Ruby, pareciam aquelas armas antigas de colecionador. Escondeu a arma no colete do uniforme e saiu pela janela usando a escada de incêndio. Quando os dois notassem que o garoto havia fugido, ele já estaria longe.

Caminhou perdido pelas ruas, a chuva parecia querer desfazer tudo em água. Havia relâmpagos e trovões a todo o momento, era imprudência continuar ali. Procurou uma sacada e ligou para um táxi. Com muita relutância o taxista veio buscá-lo e o deixou em uma rua próxima a casa da Amanda. O homem, apreensivo, perguntou se não deveria levá-lo a policia ou ao hospital, vendo o estado do jovem. Ciel declinou.

Estava extremamente frio e uma sensação terrível começava a apoderar-se de seu corpo. Não sabia se era consequência do encontro com os kroboros ou se era efeito do contato com Evelyn. E o que teria acontecido com ela? Preferiu se concentrar em chegar a casa da Amanda; temia o que poderia encontrar ou descobrir. Talvez fosse só uma brincadeira da Amanda ou se fosse uma armadilha dela... Pelo menos estava armado. Isso era loucura. Mas qualquer um com certeza agiria da mesma forma se passasse por tudo aquilo.

Ciel chegou à casa da Amanda. O portão dos fundos, assim como a porta de vidro que dava acesso a piscina, estava aberto, exatamente como a loira dissera que estaria. A casa estava iluminada e silenciosa. O barulho dos trovões ecoava pelos cômodos. Tentou lembrar-se das instruções de como encontrá-la. Saiu da sala seguindo um corredor para direta. Encontrou a escada que levava ao andar superior. Subia os degraus o mais silenciosamente possível. Chegou ao corredor do andar superior, no qual havia várias portas. Uma, duas, três, quatro. A quarta porta era a que deveria entrar. Estava ofegante e apreensivo, não sabia exatamente o que o esperava.

Chutou a porta com força. Invadiu o quarto com a arma de Ruby em mãos, o dedo no gatilho. Pronto para atirar.

Sebastian estava de costas, de pé no espaço entre a cama e a janela do quarto. Tinha o corpo inerte de Amanda nos braços. Ela parecia usar um vestido simples de seda, azul claro, ou talvez fosse apenas uma roupa de dormir. O homem virou-se. Ouvia-se apenas a chuva.

– Ciel?!

Estava realmente surpreso. Não entendeu o que o garoto estava fazendo ali.

– O que está fazendo com ela, Sebastian? – sua mente estava a mil. Pensava inúmeras coisas ao mesmo tempo, muitas possíveis respostas, algumas assustadoras demais para ser verdade. Mas sentia naquele quarto uma sensação indesejável, ameaçadora. O ar estava perigosamente pesado... Perverso.

– Eu posso explicar...

– Não se aproxime. – Ciel apontou a arma pra ele. Seu coração palpitava. Sebastian o olhou de um jeito enigmático. Sorriu.

– Vai atirar em mim? – perguntou em tom incrédulo.

– Meu pai é policial. Acha mesmo que não sei usar isso? Se for preciso eu atiro. Agora, coloca ela na cama. – Ciel apontou a cama com a cabeça, sem tirar o cano na pistola do alvo. Sebastian permaneceu parado, estreitou os olhos perigosamente. – Eu mandei colocá-la na cama... AGORA!

– Como desejar.

Sebastian colocou Amanda sobre a cama.

– Agora se afaste.

– Ciel...

– Eu falei pra se afastar. Pro canto... Anda Sebastian!

Sebastian percebeu que não seria prudente discutir, o jovem estava visivelmente transtornado. Foi para o canto indicado. Ciel ainda o mantinha na mira.

Quando o moreno se afastou, Ciel caminhou até a cama. Segurou a pistola somente com a mão direita e com a esquerda segurou o ombro da loira. Ainda estava quente.

– Amanda? – sacudiu-a – Amanda? AMANDA!

– Ela não pode mais escutá-lo...

– Pare! – voltou-se para Sebastian, este deu um passo para trás. Ciel segurou o pulso da mulher, não havia pulsação. Estava morta. Claro, por que Amanda o procuraria para contar algo, por que a tristeza? Talvez soubesse que estava em perigo. Sentiu uma angústia, não pela morte da loira, mas pela ideia de quem era o possível assassino. Engoliu em seco e olhou para Sebastian. – V-Você a matou? – não, não podia ser Sebastian... Ele não faria isso... Faria? – Você a matou? O que ia fazer com ela, Sebastian? RESPONDA!

Sebastian permanecia impassível.

– Prefere que eu minta ou diga a verdade?

– Meu deus, Sebastian! Por que, infernos, você fez isso?

– Porque escolhi você.

– Quê?! Eu não pedi isso!

– Não, ela pediu.

– Você é louco?! O que ia fazer com ela? Sebastian, o que você ia fazer com o corpo dela?

Sebastian continuou olhando-o enigmaticamente e sorriu de um jeito perverso. Nesse momento Ciel lembrou-se de muitas coisas.

“Aquele que todos procuram está mais perto do que imagina. Fingir é sua maior habilidade”.

“Há uma criatura perversa, faz uma vítima após a outra. Quando mata uma, já escolhe a outra. Seus propósitos são mais sórdidos do que pode imaginar.”

Não pode ser Sebastian. Ele sabia dos kroboros, mas como? Como sabia de todas aquelas coisas? Não quisera lhe contar. Por que não? Será que o homem com quem estivera todo esse tempo poderia ser tão cruel assim? Tão... Tão... Desumano.

– Sebastian... Você é o serial killer?

– E se eu for... O que você vai fazer? – o homem falou do canto escuro. O jovem permaneceu calado. Sebastian começou a andar na direção do adolescente, com uma cautela admirável, quase provocante. – Tudo o que eu lhe disse até agora foram meias verdades, e você sabe disso. No entanto, agora, você não pode ter certeza do que foi verdade e do que foi mentira. Você não sabe muito sobre mim. De fato, nada além do que eu lhe contei. – Sebastian chegava cada vez mais perto, Ciel não abaixou a arma – E depois que nos tornamos próximos, você não insistiu em saber. Por quê? Eu respondo: no fundo, você temeu a minha resposta. Todo o seu corpo, de alguma forma, lhe diz que eu sou uma ameaça em potencial, mas você, talvez exatamente por isso, se sente atraído por mim. Porque todos aqueles que vêm a mim, de uma forma ou de outra, desejam a morte. E você, meu caro Ciel, jamais poderia resistir ao desejo de prová-la. – Sebastian parou quando o cano da pistola tocou sem peito, se o jovem atirasse, seria impossível desviar – Sendo assim, se a morte daquela mulher lhe afeta, se o seu desejo por justiça for mais forte do que seu sentimento por mim, atire. Atire, que eu nem mesmo tentarei desviar.

Ciel o olhava com uma expressão furiosa.

– Tsc... – Ciel fez irritado. Agarrou a gola da blusa do maior puxando-o para um beijo. Abaixando a mão que segurava a arma.

Sebastian abraçou a cintura do jovem aprofundando o beijo. Podia sentir um leve gosto de sangue nos lábios do menor. Surpreendeu-se ao sentir Ciel tocar sua pele sob a camisa. O conduziu até a parede sem quebrar o beijo, as línguas se tocando com urgência. Encostou o rapaz na parede, comprimindo seu corpo. Inesperadamente, Ciel mudou as posições, pressionando Sebastian na parede e apontando a pistola, que ainda não havia soltado, para a têmpora do moreno.

– Danem-se todos! Agora... – disse o jovem dando um selinho no maior – Você vai me dizer exatamente quem você é.

– Quer mesmo saber? – Sebastian sorriu profundamente satisfeito. Como aquele garoto conseguia provocá-lo daquele jeito? – Quem eu sou? Sebastian Michaelis... Akuma.

– Quê?!

Ciel não entendeu a última palavra. Sebastian deu seu clássico sorriso, mas com um acréscimo, seus olhos brilharam vermelhos como sangue para espanto do garoto.

– Buh! – disse o homem, as luzes se apagaram e Ciel não pode mais sentir o homem a sua frente. Olhou em volta, mas tudo que via era a escuridão. Vez ou outra, a luz dos relâmpagos iluminava o quarto, mas tudo que seus olhos discerniam eram os móveis e o corpo de Amanda sobre a cama. – Tsc, tsc... Sempre impaciente. Não era o momento certo, mas agora terei que apressar as coisas.

– Do que você está falando, idiota. Pare com essa brincadeira!

– Está com medo, Ciel?

– Não seja ridículo! – bufou. – O que pretende com isso?

– Está na hora de explicar algumas coisas. – Ciel girou nos calcanhares, não conseguia ver nada. A última coisa que sentiu foi Sebastian segurá-lo por trás, tapando sua boca e seu nariz com a mão e um lenço. Tentou gritar, mas não conseguiu. – Shiiiiiii... Acalme-se minha criança, vai ficar tudo bem. – Sebastian beijou-lhe pescoço. Ciel sentiu um odor mortífero e a sensação de letargia dominou seu corpo novamente. Porém, desta vez, não ouve imagens, apenas a escuridão.

Era como desfalecer nos braços da morte.

Notas finais do capítulo
Bom...é isso....depois desse capitulo as explicações virão e os personagens secundários terão mais espaço

Parabens para quem adivinhou que a mulher dos coturnos era a Ruby^^

E agora, qual são as hipoteses de vcs? o_O

O Aeroporto John Lennon realmente existe, tudo em Liverpool é meio temático..sobre os Beatles, claro.

desculpe não fazer uma nota descente...quero postar logo isso...estou a um tempão esperando esse momento de finalmente entregá-lo a vcs...

espero que tenham gostado..por favor comentem

beijo a todos que leram até aqui e até o 12. UFFA!

Tai Bluerose =^.^=




(Cap. 12) A vingança de Amanda

Notas do capítulo
Olá pessoas amadas, não me batam, por favor.

Cá estou eu novamente, para dar a cara a tapa com este capítulo que talvez não agrade muito ao povo que espera muito sebaciel, mas que é um capítulo necessário, afinal, pretendo não deixar nenhuma lacuna na história. Espero realmente que gostem, e mesmo que odeiem, comentem dizendo o que foi mais odioso..kkkkkk

O Próximo capítulo, terá mais Ciel e Sebastian e farei o máximo para postá-lo ainda essa semana.

Gostaria de agradecer as Lindissímas Náh e Liv pelas recomendações mais lindas ainda, sério, amei elas, muito obrigada mesmo. E um segundo obrigada a Liv pela Mp empolgadíssima, fiquei comovida com sua consideração em justificar o comentário que saiu incompleto, isso acontece, pior quando acontece com um capítulo de fic, ai deus. Amei sua opinião.

Agradecer as divas, sim divas, Shasha e Yuka pelas reviews motivadores e a todos os leitores que gastaram um tempinho pra dizer o que acharam da história dessa maluca aqui. Desculpe gente, estou gripada e quando fico doente fico emotiva também XD.

Obrigada também a Marcela, Myka e Hannah por favoritarem, sejam vem vindas.

Bom, é isso. Perdoem os erros de português. Boa leitura.

Capítulo 12: A vingança de Amanda

18 anos antes, Londres.

Amanda tinha dois irmãos mais velhos: Claus de 26 anos e Susanna de 19, de longe a sua favorita.

Tendo apenas oito anos, Amanda era a mais bajulada e a mais querida. Mas de todos na família, quem mais a bajulava era sua irmã Susanna. Suh, como Amanda a chamava, era a irmã perfeita.

Susanna brincava com a caçula sempre que podia, lia para ela dormir todas as noites. A única que conseguia arrastar Claus para piqueniques no jardim e fazê-lo rir. Suh era uma daquelas pessoas cheias de vida. Era sempre alegre e sorridente. Para ela parecia não existir tempo ruim ou assunto que terminasse rápido. Ninguém ficava triste, calado ou quieto ao seu lado. Ela sempre iluminava o ambiente e contagiava a todos com seu sorriso.

Como seus pais estavam sempre ocupados com assuntos empresariais e sigilosos, Susanna tentava ao máximo não deixar que Amanda sentisse falta deles. De fato, Suh tornou-se mais que uma irmã, mas pai, mãe e amiga.

Amanda admirava a irmã e sonhava ser como ela. Susanna tinha cabelos cacheados e amarelos como ouro, seus olhos eram de um verde intenso, marca de toda a família, exceto Amanda. Seus cabelos loiros platinados eram lisos e quase brancos, seus olhos, âmbar como a seiva de uma árvore. Mas Suh sempre dizia que Amanda era a mais linda de todas, pois era a única diferente naquele mar de idênticos olhos verdes.

Amanda Midford tinha também oito anos quando viu aquele homem pela primeira vez. Vestia preto, era alto, tinha enigmáticos olhos castanhos e era extremamente bonito. Amanda já havia percebido que seus pais tinham certas reuniões que não queriam nem mesmo que eles soubessem com quem era. Essas reuniões eram com aquele homem. Amanda continuou espiando os homens entrarem na sala de reuniões. A figura de cabelos pretos se destacando em meio aos loiros.

– O que está fazendo, Nanda? – Susanna chegou por trás de fininho, fazendo a menina saltar de susto.

– Quem é aquele moço? – Amanda apontou para o sujeito de preto. Ao fitar a figura, a expressão de Susanna ficou pesada.

– Aquele é o senhor Michaelis, ele é dono de parte das empresas Midford, está aqui para negócios, apenas isso.

– Pensei que a empresa fosse só do papai.

– Uma parte sim. E um dia, essa parte vai pertencer a Claus, a você e a mim, e com ela algumas responsabilidades que você não precisa saber agora. Mas a parte daquele homem sempre será dele. Só me prometa uma coisa, Nanda, jamais fale com aquele homem quando estiver sozinha nem aceite nada que ele lhe propor.

– Mas... ele não é amigo do papai e da mamãe?

– Amigos? Aliados seria a palavra mais correta. Somente prometa Amanda. – A jovem segurou a menininha pelos ombros olhando fixamente em seus olhos, queria que a pequena percebesse que não estava brincando.

– Eu prometo Susanna.

Susanna nunca saberia, mas a pequena Amanda ficou cada vez mais fascinada por aquela estranha figura. Mas não pretendia quebrar a promessa feita à irmã. Pelo menos não até sua vida começar a mudar de forma cruel.

.

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Nessa mesma época, Susanna se apaixonou cegamente por um homem chamado Hector MacDonald. Amanda o odiava, dizia que ele tinha nome de comida e que não ia com a cara dele. Susanna dizia que ela estava apenas com ciúmes porque teria que dividi-la com outra pessoa. Suh ficava muito feliz quando o via e o tal MacDonald tratava sua irmã com muito carinho. Mesmo assim, se emburrava toda vez que ele vinha visitar Suh. Claus dizia que era pirraça de criança. Amanda até tentava ser amigável com o cara, mas sua fúria subia sempre que ele a chamava de “Pequena”, nunca Amanda, sempre Pequena. A menina tinha certeza de que ele nem sabia seu nome.

Tão rápido quanto o namoro, foi o casamento. Amanda achava que Suh estava enfeitiçada, o que ela terá visto naquele cara sem graça? E Susanna Midford passou a ser Susanna MacDonald, o que Amanda continuou achando horrível. Suh merecia um sobrenome melhor, um marido melhor.

Amanda sentiu-se muito só sem a irmã. Claus estava sempre ocupado com o trabalho na polícia e nunca foi do tipo animado. Seus pais sempre resolvendo negócios que ela não podia saber, como se uma menina de oito anos ligasse pro que eles faziam. Tamanha foi a surpresa da loirinha quando, ao voltar da lua de mel, Susanna chamou Amanda para morar com ela. Seus pais até gostaram da ideia, seria bom para a caçula se afastar um pouco e ficar com a irmã, mas, deveria voltar para casa quando tivesse 17 anos, para a iniciação, como todos da família fizeram.

Não pense que os pais de Claus, Susanna e Amanda eram negligentes ou frios com os filhos, pelo contrário, sempre fizeram de tudo para que nada faltasse aos três, seguindo o exemplo dos pais, os filhos mais velhos faziam o mesmo com os irmãos mais novos. A família tinha um legado importante, um legado com responsabilidades perigosas. Além disso, as empresas da família, embora não passassem de uma máscara social, não deixavam de exigirem atenção também. Por estas razões estavam sempre atarefados. E tinha o Michaelis. Eram aliados, sim, mas se tratando de alguém como ele, não se podia dizer com certeza até que ponto. Pois para aquele demônio, os Midford nunca foram mais que um estorvo necessário. E que a verdade seja dita: eles estavam nas mãos do Michaelis e não o contrário. Ninguém podia culpa-los por querer manter os filhos protegidos. Pena que estavam enganados, logo Amanda descobriria que sua antipatia natural pelo agora marido de sua irmã tinha propósito.

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Susanna tinha dezenove anos, mas já trabalhava na principal empresa Midford, afinal, era uma das acionistas. Hector também tinha uma empresa, Amanda não fazia ideia do que o homem fazia, só sabia que a empresa dele nem de longe era tão grande quanto a de sua família. A princípio, o casal trabalhava o dia todo e Amanda passava o dia na escola. A menina saia da escola às três da tarde, Hector atenciosamente se ofereceu para buscá-la já que a escola ficava mais perto do trabalho dele do que do trabalho da Susanna. Hector a deixava em casa e voltava para seu trabalho. Os dois mais velhos retornavam às seis e jantavam juntos, jogavam, nos finais de semana passeavam em diversos lugares. Parecia uma família feliz. Parecia.

Amanda ainda tinha nove anos, quando começou a achar que, talvez, tivesse sido muito injusta com Hector. Se Suh o amava, então ela devia se esforçar para gostar dele também, agora que fazia parte da família. No entanto, apenas um mês após aquela feliz rotina diária começar, aquilo aconteceu pela primeira vez. A primeira de muitas.

Foi numa segunda-feira, Amanda estranhou quando algo na rotina se alterou. Naquele dia, quando Hector a pegou na escola, ele não a deixou em frente à casa e voltou imediatamente para seu trabalho, não, naquele dia ele decidiu entrar com ela. Estranhou mais ainda quando o ouviu trancar a porta a chave. Sentiu os batimentos de seu coração aumentarem pouco a pouco quando ouviu os passos dele na escada e quando ele a seguiu até seu quarto. Ela esperou que ele saísse, mas não saiu. Hector começou a dizer-lhe várias coisas, mas o pânico crescia de tal forma que ela nada conseguia entender, seu corpo apenas dizia “fuja!”. Quando ele começou a tocá-la em lugares que jamais poderia e a acariciá-la de um jeito que jamais devia, Amanda se assustou. Tentou desvencilhar-se daquele homem asqueroso, tentou gritar por socorro, mas ele a segurou pelos braços, jogou-a sobre a cama, tapou sua boca e disse em seu ouvido:

– Cale essa boca, sua vadiazinha! Ou eu mato você e a idiota da sua irmã. Não vai querer que nada de mal aconteça a Susanna, não é? Seria uma pena se você me deixasse zangado e eu tivesse que descontar nela. Você não ia querer isso, ia? Eu fiz uma pergunta, putinha. RESPONDA!

Ele prendeu os cabelos da menina entre os dedos puxando os fios com força, fazendo a menina gritar e chorar.

– N-não... não machuque minha irmã... – dizia entre soluço e lágrimas.

– Boa menina. Agora, fique quietinha... não se mexa...

Amanda sentiu aquelas mãos subirem por sua coxa, entrando sobre a saia de seu uniforme escolar. Sentiu sua roupa íntima ser arrancada de seu corpo e... não queria pensar no que estava acontecendo. Começou a olhar para o teto, fixando os olhos e a mente em cada detalhe da madeira do forro, dando a maior atenção... possível... a... cada estria... cada.. .nuance.... a cor, o verniz,...que tipo de madeira seria aquela... de que árvore terá vindo? Com certeza uma.... Uma bela e majestosa árvore, que habitava uma linda floresta... Com montanhas... Campos verdes, vales, céu azul, pássaros... Muitos pássaros. Mas... Mas... A pobre árvore fora cruelmente arrancada de seu lugar e transformada em algo que não queria, condenada a permanecer presa naquele quarto, sendo obrigada a presenciar tão vergonhosa cena, a única testemunha da pobre menina que lhe olhava fixamente, pedindo socorro para os restos do que um dia foi uma majestosa árvore. Amanda começou a engasgar-se com o próprio choro e sentindo uma dor terrível gritou, o homem deplorável usou um travesseiro para abafar seus gritos e continuou movimentando-se até que a menina desmaiasse.

– Vá se lavar sua vadia imunda! - disse Hector antes de voltar para o trabalho. Amanda ficou sozinha e nua, se sentindo a pior das criaturas.

E a nova rotina foi estabelecida. Hector sabia que Susanna chegaria só as seis, então ele tinha três horas para fazer o que quisesse com a pequena Amanda. A menina passava o dia em agonia, e começava a entristecer a cada hora do relógio, temia aquela hora miserável da tarde em que ele vinha busca-la. Pensava em fugir, mas tinha medo de que ele tentasse algo contra Suh. Pensou em contar para a irmã, mas ele ameaçou matar as duas caso ela contasse, além disso, sentia tanta vergonha de si mesma que nem sabia como dizer uma coisa dessas a alguém. E o pior de tudo, Suh realmente amava aquele canalha. Susanna, assim como todo mundo, achava que ele era um homem respeitável, carinhoso, bondoso, mas ninguém sabia como ele era de verdade: um monstro.

Pouco tempo depois, Suh ficou grávida. A gravidez deixou a mulher muito debilitada, mas estava muito feliz porque ia ser mãe. No último mês de gravidez, Hector insistiu numa viagem a Liverpool, o que era desaconselhável, visto que a esposa poderia dar a luz a qualquer momento. Mesmo assim foram os três nessa viagem. Como era previsto, as dores de parto vieram em Liverpool. Era até morbidamente irônico, mas, enquanto Susanna sofria as dores do parto num quarto de hospital, sua pequena irmã, de dez anos apenas, sofria por ela, uma dor mais terrível ainda num quarto de hotel.

Hector ouviu o telefone tocar. Tapou a boca da menina e atendeu. Era uma enfermeira avisando que sua esposa tivera uma menina. “Tem olhos verdes como a mãe e saúde de sobra!”, Amanda conseguiu ouvir a enfermeira no telefone. Hector levantou-se e mandou que Amanda arrumasse tudo. Amanda estava tão ansiosa para ver a sobrinha, que nada que aquele homem fizesse ao seu corpo ou dissesse poderia deixá-la triste. Nada exceto a notícia que foi dada a toda a família.

O bebê nascera morto.

Foi o que Hector disse a Susanna e a família. Mas Amanda ouvira bem a enfermeira dizer que era uma menina saudável. Não sabia o que aquele crápula tinha feito, mas de uma coisa tinha certeza, sua sobrinha estava viva.

Após a suposta morte do bebê, os três voltaram para Londres. Suh nunca mais foi a mesma. Teve depressão e passava mais tempo dopada sob efeito dos antidepressivos do que acordada. Deixando o caminho livre para seu odioso marido. E o tempo foi passando.

Amanda tinha dezesseis anos, oito deles foram felizes, oito deles sendo abusada diariamente por aquele que mais odiava no mundo. Amanda não chorava mais, tinha ódio e raiva. Ainda olhava para o teto tentando se distrair, mas agora, ficava planejando formas de se vingar.

Poderia voltar para casa de seus pais, mas nunca deixaria a irmã nas mãos daquele monstro. No entanto, Suh ficava cada vez mais doente, até Amanda perceber que Hector a estava envenenando. Aquela foi a gota d’água. Amanda tomada de fúria tentou agredir o homem, no entanto, por ser mais fraca, foi facilmente dominada. Como punição, tentou estuprar a adolescente ali mesmo na sala. Amanda tentava afastá-lo de todas as formas possíveis.

Acordada pelo barulho, Susanna caminhou cambaleante até a sala e, chocando-se com a cena, imaginou estar num pesadelo. Gritou para que Hector soltasse sua irmã. O homem saiu de cima da jovem segurando-a pelos cabelos.

– O que você está fazendo? – não acreditava em seus olhos.

– Não é óbvio! Ou será que você é tão burra que eu vou ter que explicar? – estava tão transtornado e bêbado que desistira de bancar o bom moço.

– Por que está falando assim? – a voz saiu sem força.

– Você é uma idiota mesmo. Todo esse tempo e nunca se deu conta de que eu fodia sua irmã? – Susanna começou a chorar, aquele homem parado a sua frente não era seu marido.

– Isso é verdade Nanda? – Amanda nem sequer conseguia levantar os olhos para a irmã – Oh, meu Deus!

– Vamos pequena, diz pra ela como nos divertimos desde o dia que você chegou aqui. – Hector tocou o seio da jovem que continuava desferindo socos tentando libertar-se.

– Não toque nela!

Suh marcou cinco dedos no rosto do marido. Mas este retribuiu com um tapa mais forte ainda, fazendo a mulher cair no chão.

– Sua vagabunda, não serve nem pra morrer, quanto tempo terei que esperar até que morra de uma vez?

– Pensei que me amasse... – as lágrimas pingavam no tapete.

– Amar?! Só me casei com você por causa da suas ações naquela empresa. Venho envenenado você há anos e mesmo grávida, não morreu, tive que mandar sumirem com aquela criança, até parece que eu iria aturar choro de bebê. Mas você morreu? Não! Vocês duas só servem na cama, mesmo.

– Você fez o quê com a minha filha?

Amanda não lembra exatamente o que aconteceu depois disso, mais se recordava de que todos começaram a bater e a arremessar coisas até sentir uma forte pancada na cabeça e apagar. Quando abriu os olhos, estava dentro de um carro parado no meio de uma floresta. Sua cabeça latejava. Suas mãos estavam amarradas. Quando olhou para o lado viu Suh. Chamou-a até que ela despertasse. Susanna estava com um ferimento na barriga, sangrava muito. Suh precisava de socorro, Amanda tentava livrar-se das cordas.

– Me desculpe, Amanda. Eu não fazia ideia... Eu, eu devia ter notado... me perdoe – chorava desconsoladamente.

– Não se preocupe com isso, Suh. Eu suportaria qualquer coisa por você. É isso que irmãs fazem.

Amanda não sabia, mas aquelas palavras entristeceram Susanna mais ainda. A jovem conseguiu se soltar e disse que ia buscar ajuda. Mal se afastou do carro, algo em sua mente estalou. Por que Hector as deixaria no meio da floresta? Por que não matá-las logo? Só se...

Virou-se para o carro e viu que este estava vazando gasolina, correu o mais rápido que pode gritando pela irmã.

– SUSANNAAAAAAAAAAAAAA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A explosão que se seguiu foi tão grande que seu impacto e os estilhaços jogaram Amanda longe, as chamas logo se espalharam pela floreta. Amanda ainda não estava morta, ainda. Não conseguia se levantar. Queria chorar, mas não conseguia. Estava com tanto ódio, tanta raiva daquele maldito pedófilo. Susanna sempre o amou, e ele desde o inicio apenas fingiu, tudo o que queria era dinheiro. Nunca o perdoaria por macular o seu corpo, nunca o perdoaria por fazer sua irmã sofrer, nunca o perdoaria por matar Suh.

Se ao menos ela pudesse viver, nem que fosse mais um dia, para se vingar dele. Daria qualquer coisa para vingar-se, fazê-lo sofrer como ela sofreu, matá-lo com suas próprias mãos. Daria qualquer coisa por vingança... qualquer coisa.

– Parece que alguém clama por meus prestimosos serviços. – Amanda ergueu os olhos e viu uma figura alta em pé ao seu lado. – Percebo que o incêndio se espalha rapidamente, se pretende continuar deitada aí vai acabar morrendo queimada.

– Eu conheço você... Da casa de meu pai... Senhor Michaelis. – falava com esforço tentando respirar.

– Sebastian Michaelis, o demônio. Agora a pouco disse estar disposta a dar qualquer coisa em troca de vingança. Eu posso conseguir isso... em troca de sua alma.

– Eu aceito.

– Compreende que ao termino de nosso contrato, após eu conseguir sua vingança, sua alma será minha, e você consequentemente morrerá? Não há mais volta para aqueles que têm a alma devorada. Mesmo assim, aceita fazer o contrato?

– Sim. Tudo o que eu mais quero, é que aquele homem morra.

O moreno estreitou os lábios num sorriso malicioso. Depois fez uma reverência para a garota ainda no chão.

– Neste caso, serei seu mais leal servo. Qual sua primeira ordem, minha Lady?

– Tire-me daqui.

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Foi noticiado que uma mulher e uma jovem tinham morrido num incêndio florestal. Hector deve ter achado que seu plano funcionara perfeitamente. Só não esperava que o testamento de Susanna passasse todos os seus bens para sua irmã mais nova, e até que estava pudesse assumir legalmente posse de seus bens ou em caso de morte da mesma, tudo passaria para o poder de seus pais. Havia uma clausula que impedia que qualquer bem, ação ou imóvel pertencente a família Midford saísse do poder da família Midford, com o selo real para dar validação. Hector não conseguiu botar as mãos em um tostão sequer do dinheiro da falecida esposa.

Depois que Amanda se recuperou, Sebastian a levou para a mansão dos Midford. Sebastian tinha algumas tarefas importantes a cumprir e Amanda precisava fazer a iniciação.

O senhor e a senhora Midford não ficaram muito felizes ao saber que a filha tinha feito um contrato com um demônio, ainda mais depois de saber da morte da outra, mas por insistência da Amanda e do Sebastian, todos concordaram em agir como se Amanda tivesse realmente morrido.

Na iniciação, Amanda passou a compreender a relação de sua família com o Michaelis, e porque um dependia do outro embora as duas partes não se gostassem. Conheceu a história de Sebastian, de sua família, e do segredo que os Midford escondiam do demônio: a verdade sobre a morte de Lilian Cavendish. Compreendeu seu papel como membro daquela família e começou a treinar para fazer o que todos os Midford faziam.

Para todos os efeitos, Amanda Midford estava morta. Mudou seu nome para Amanda Villefort. Conforme Sebastian havia lhe orientado, tornou-se a dama que devia ser. Era estranho, mas aquele ser vil a tratava com o respeito de um verdadeiro cavalheiro. Diferente de muitos humanos.

Em decorrência de suas obrigações e das obrigações do moreno, a vingança de Amanda foi adiada. Depois de sete anos divididos entre Rússia e Cairo, Sebastian retornou com uma garota e um homem a tiracolo, dois novos cães, ou melhor, membros do seu grupo. A loira tinha então vinte e quatro anos. E Sebastian continuava tão belo quanto era quando a mulher o conheceu há dezesseis anos.

Hora de começar a vingança.

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Atualidade, Londres.

Depois de tantos anos, Hector MacDonald prosperou muito no mercado financeiro. Sua empresa atuava na área de construção Civil. O que as pessoas desconheciam era todo o esquema de corrupção criado por ele. A ficha do cara estava tão suja, que Sebastian até se sentiu um pouco desapontado, achou que daria um pouco mais de trabalho deixá-lo encrencado. Enquanto analisavam tudo o que havia conseguindo sobre e contra Hector, o moreno disse algo que Amanda não conseguiu esquecer: “Humanos, colocam a forca no próprio pescoço e deixam a corda a disposição do primeiro que se sentir tentado a puxar”.

Amanda deu duas missões a Sebastian, a primeira era entregar Hector em suas mãos a segunda, achar a filha da Suh. Como Sebastian dissera, Hector já estava com a corda no pescoço, só precisavam apertá-la um pouco mais. Hector devia primeiro perder a sua suposta honra, o dinheiro e por último, a vida. E assim a vingança aconteceu.

Disfarçado, Sebastian fez Hector perder mais e mais dinheiro em jogo, primeiro erro dos humanos, cair em jogatina. Hector ficou devendo uma fortuna para Sebastian e para outros caras barra pesadas, convidados ao jogo pelo próprio Sebastian, ideia da Amanda. Sebastian, sob o pseudônimo Stan, afirmou ter conhecimento do esquema que Hector tinha de contrabando e tráfico, usando sua empresa de construção. “Stan” informou saber de um comerciante Chinês interessado em alguém que facilitasse o comércio de seus ‘produtos’ no país. Como a quantia a ser paga pelo serviço era exorbitante, Hector concordou. Depois de algum tempo trabalhando com o comerciante chinês, este apresentou a Hector alguns japoneses interessados nos mesmos serviços. Ganancioso como sempre, Hector irresponsavelmente aceitou o transporte de uma carga grande de drogas e outros produtos ilegais, que deveriam ser distribuídos pela Inglaterra em meio aos materiais de construção. Os japoneses até pagaram metade do combinado adiantado.

Mas a carga sumiu. Toda ela.

Descobriu tarde demais, que os japoneses eram da Yakuza, e estes começaram a ameaçá-lo de morte caso a carga não aparecesse. Hector pediu um prazo. Não podia chamar a polícia, esta poderia descobrir o seu esquema e estaria mais ferrado ainda. Ligou para Stan, talvez ele conhecesse alguém que pudesse emprestar dinheiro ou que precisasse de um serviço. Stan aconselhou Hector a pegar um empréstimo no banco.

– Com os bons resultados financeiros de sua empresa, banco nenhum se recusará a fazer um empréstimo, claro que eles desconfiarão de um empréstimo de 200 milhões de libras esterlinas. Então peça metade do valor, diga que é para a melhoria do local de trabalho dos funcionários ou em novos equipamentos de segurança, essas baboseiras de preocupação com o próximo atraem os bancos, mas na verdade só estão interessados em ganhar mais. Você paga a Yakuza e pede mais tempo até conseguir o restante.

Assim fez Hector, com o empréstimo do banco em mãos, sentia que havia tirado um peso das costas.

– Eu falei que funcionaria. – dizia Stan num bar do submundo de Londres. Bêbados, contrabandistas, criminosos e prostitutas andavam ali, disfarçados de damas e cavalheiros. Havia fumaça de cigarro por todo ambiente, pessoas jogavam e o cheiro predominante era de álcool. – Por que você não relaxa um pouco, vamos comemorar, nos divertir. Tem alguma ideia?

– Tenho sim. – Hector apontou uma prostituta com a cabeça, devia ter no máximo dezenove anos.

– Aquela não – reprovou Stan – é muito velha, queria uma mais nova.

– Mais nova que aquela? Então você gosta de ninfetinhas, é? Você tem bom gosto, carne nova é a melhor. Como eu sempre digo: quanto mais velha, mais usada. Vem comigo, te mostro onde conseguir umas, afinal, estou te devendo uma.

– Pode ir na frente, eu pago a conta.

– Stan, você é o cara.

Sebastian ficou olhando o homem se afastar cambaleante.

– Sua alma é tão deplorável que jamais a comeria, poderia morrer de asco.

Sebastian, ou Stan, seguiu Hector até uma casa que nada denunciava o que ocorria dento dela. Uma mulher gorda trouxe uma menina de uns treze anos ou menos que logo desapareceu com o Hector.

– Vai escolher a sua? – disse a gorda numa voz insuportável.

– Acabei de perceber que não trouxe minha carteira.

A mulher o olhou como se ele fosse um bocado de lixo.

– Não tem dinheiro, não goza. – disse num rosnado.

Assim que saiu da casa, Sebastian pegou o celular.

– Boa noite. Meu nome é Stan e gostaria de fazer uma denúncia...

Em poucos minutos a polícia invadiu a casa prendendo todos que estavam lá, incluindo o Senhor MacDonald. Estranhamente, a polícia encontrou no local um envelope contendo uma relação com nomes e fotos de todos os envolvidos no esquema de corrupção de menores assim como todos os clientes daquele lugar. Hector usou o dinheiro do banco para pagar a fiança. Mas estava sob investigação e por onde andava na rua, todos o apontavam como pedófilo.

Hector mudou-se para Liverpool para escapar da Yakuza. O que foi conveniente para a loira e o moreno. Sebastian descobriu que Hector havia entregado a filha para adoção, era questão de tempo até descobrir quem era a menina certa.

Amanda deu a Sebastian um pendrive que deveria ser instalado no computador pessoal do MacDonald sem que este percebesse. O pendrive transmitiria para o computador da loira qualquer coisa que ele acessasse. Sebastian foi, mas voltou estranho.

– O que ouve?

– Perdi o pendrive.

– O Senhor Perfeição perdeu o pendrive?

– Sei exatamente onde está, senhorita Amanda. Irei pegar amanhã, assim que possível. Ah! Tenho uma ótima notícia, creio que encontrei sua sobrinha.

– O quê?! Como pode ter certeza?

– Ora, os olhos verdes de sua família são inconfundíveis.

– Ela tem olhos verdes? E como ela é?

– Exatamente como Susanna era aos dezessete anos.

Logo Amanda notou que não era a única a aparentar contentamento. Sebastian estava de alguma forma diferente, seus olhos tinham um brilho que ela nunca vira antes.

– Quem mais encontrou? – ele não poderia mentir pra ela.

– Um jovem. Amigo de sua sobrinha ao que parece.

– E o que há de especial nesse jovem?

– Como?

– Você não esqueceu o pendrive, deixou-o de propósito. Algo nesse jovem o atraiu. A alma dele é melhor que a minha?

– Infinitas vezes.

– Sua sinceridade me assombra. Qual o nome dele?

– Ciel.

Amanda ficou parada. Os dois se entreolharam de modo significativo como se chegassem a uma conclusão comum.

– Bom, se o deseja. Deverá fazer o máximo para levar o nosso contrato a termo.

– É muita bondade sua, minha Lady – curvava-se para a loira.

– Pare com isso, já disse para me chamar apenas de Amanda.

Amanda e Sebastian alternavam sua vingança com o trabalho nas Empresas Midford. A pedido da própria Amanda, Sebastian aproximou-se mais de Ciel. Amanda conseguiu entrar para a mesma turma da irmã de Ciel na faculdade, precisava saber mais sobre ele e sobre sua sobrinha, cujo nome era Elizabeth Wilson. Não, em breve seria Elizabeth Midford, como sempre deveria ter sido.

Os crimes e os desaparecimentos constantes complicavam as coisas. A polícia estava mais preocupada em encontrar o serial killer que assombrava o país do que julgar Hector ou investigar suas falcatruas.

– Sebastian! – chamou Amanda. E algum tempo depois o moreno apareceu. – onde estava? Por que demorou tanto?

– Estava no Darjeeling tomando chá com o Ciel. Ontem ele me convidou para ir ao Cinema com a irmã. Eu ia perguntar qual o cinema, mas você me interrompeu, qual é a emergência?

– Vejo que Ciel gostou de você. Bem o computador começou a rastrear o Hector. O pendrive funciona. Ele está começando a desviar dinheiro da empresa para uma conta separada.

– Acha que ele pretende pagar a Yakuza ou fugir?

– Para mim tanto faz, faça com que a Yakuza diminua o prazo dado a ele.

Sebastian fazia o máximo para atender todas as ordens de Amanda da melhor maneira possível, e para colher o máximo de informações sobre Elizabeth e sua família, mas o moreno também gastava muito tempo com Ciel. Amanda não podia culpá-lo. Ciel não era apena uma alma desejável era também um dos escolhidos da Rainha. Não era de se surpreender como Sebastian estava atarefado tendo que se dividir em três tarefas diferentes e ainda tentar ganhar a confiança daquele garoto.

Certo dia Amanda teve que ir direto ao Darjeeling Chá procurar Sebastian. O informante ligou para ela avisando que o MacDonald tinha combinado de encontrar os homens da Yakuza para tentarem um acordo. A mulher entrou elegantemente no café, com seus compridos cabelos platinados ocultando a marca do contrato em sua nuca. Viu Sebastian conversando com um rapaz, um jovem muito bonito por sinal.

– Sebastian. Desculpe interromper, mas está na hora.

– Oh, sim. Perdoe-me, distrai-me. Este é Ciel.

– Ciel Valentine. – o garoto a cumprimentou. Era realmente uma sensação incrível olhar para aquele garoto. Depois de ouvir tanto sobre ele, saber tanto sobre ele.

– Então este é o Ciel?! Sebastian me falou de você. Prazer Ciel, Amanda Villefort.

Os dois se afastaram de Ciel e Amanda contou a Sebastian o que o informante havia dito. Se quisessem saber o que a Yakuza decidiria teriam que ir até lá, além do mais não podiam deixar aquele imprestável ser morto por mais ninguém além dela.

Sebastian voltou para despedir-se do jovem e a loira ainda disse:

– Não se preocupe Ciel, estou apenas pegando o Sebastian emprestado por uns tempos. – o que era verdade. Amanda era passageira, após o termino do contrato, Sebastian estaria livre para ficar com o garoto e sua alma, se conseguisse convencê-lo. Quando estavam na porta, Sebastian virou-se e disse “ Ciel, você fez a pergunta errada”. Sebastian estava tão empolgado que Amanda ficou se perguntando sobre o que os dois conversavam.

No fim Hector conseguiu mais alguns dias. Desesperado, acessou sua conta e tentou fazer a transferência de todo o dinheiro desviado para uma conta pessoal, da qual, posteriormente, retiraria o dinheiro para pagar a dívida que só aumentava. Estava finalizando o processo quando clicou em confirmar transferência, algo estranho aconteceu. Todo o dinheiro foi enviado para várias outras contas desconhecidas. Ele tentou parar o processo, mas não conseguiu. Estava falido, arruinado e não tinha como pagar os mafiosos.

Felizmente, naquela mesma noite, umas duzentas instituições de atendimentos a crianças que sofreram algum tipo de agressão, receberam uma considerada doação em dinheiro em nome do senhor e da senhora Stan.

Logo Hector recebeu a visita dos mafiosos japoneses que quase o mataram espancado, quase. Alguém avisou a policia sobre um tumulto na vizinhança. Hector tentou fugir de carro. Sebastian o seguiu até a saída de Liverpool e conseguiu provocar um acidente. Reconhecido como fugitivo, Hector foi detido. Deixando Hector sob o poder da policia por uns tempos, Sebastian olhou no relógio, com sorte conseguiria chegar à casa do Ciel antes da meia- noite. Tinha até uma chamada perdida do garoto no celular, ele devia estar bravo, com certeza. Sorria só de imaginar o rosto zangado dele.

Sebastian e Amanda decidiram deixar Hector sofrer um pouco na prisão. O momento de Hector morrer se aproximava e consequentemente, a sua morte também. Era hora de colocar outro plano em ação. Conhecer Elizabeth, Liza como gostava de ser chamada, e aproveitar o máximo de tempo possível com ela.

Planejou uma festa na piscina. Com muita gente, a garota não estranharia. Amanda ficou espantada com a semelhança de Liza e Suh. Sim, Elizabeth herdara cada detalhe de sua mãe, era reconfortante saber que a sobrinha em nada se parecia com aquele homem horrível, e o melhor de tudo, jamais saberia dele. As duas se tornaram muito amigas, Liza era tão cheia de vida quanto Susanna. E descobriu que a jovem realmente amava aquele garoto, que apesar de ser seu namorado, parecia não corresponder o mesmo sentimento. Seria sina de família, apaixonar-se por alguém que não sente o mesmo? Ciel não era mau garoto, Amanda tinha certeza, ele se importava e cuidava de Liza, mas não retribuía o amor que a menina demonstrava, mas Liza não se dava conta disso. Talvez Ciel e Liza ainda fossem muito jovens para perceber o que ela já havia percebido.

A verdade é que aquele garoto estava destinado a outro, sim, a outro. E ninguém conseguia impedir esse outro de conseguir o que queria. Por isso, não foi surpresa quando Amanda pegou os dois se beijando na sala do piano. Sebastian era realmente um ser impossível, conseguia até mesmo seduzir garotos inocentes.

– Não sabia que gostava de meninos. – ironizou assim que ouviu Ciel sair pela porta da frente.

– E não gosto. Meninos são irritantes, chatos e arrogantes. Eu gosto dele. Apenas dele.

– Você realmente gosta dele, não é? – dizia a loira distraidamente, deslizando os dedos sobre a tampa do piano, numa inscrição gravada na madeira numa letra fininha, “L. Cavendish”. – É realmente estranho alguém como você ter esse tipo de sentimento. Quando vi humanos mostrarem que não o possuem. Enfim, vim para tratarmos de todos os tramites legais para depois de minha morte.

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O fim se aproximava. Amanda tinha que entregar sua alma a Sebastian, mas tinha uma divida com Ciel, não precisava realmente dizer nada a ele, mas queria. Talvez fosse de alguma forma uma espécie de vingança contra Sebastian. Mas no fundo estaria ajudando os dois. Procurou o garoto e o orientou exatamente como agir para descobrir sobre Sebastian. Se Ciel realmente fosse, Sebastian teria que contar que é um demônio, sobre os Cães, a Rainha e todo o resto.

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.

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Era quarta-feira, estava numa delegacia em Londres. Alguém pagou sua fiança. Quando saiu, viu Stan. Hector foi até ele. Stan disse que estava hospedado num hotel das proximidades, e que Hector poderia ficar com ele até que as coisas se resolvessem. Ele estava acabado, fisicamente falando. Seu estado era deplorável. Enquanto Stan colocava a chave na porta, disse:

– Tenho uma surpresinha pra você, acho que você vai gostar.

Hector começou a salivar só de imaginar que belezinha Stan teria conseguido. Fazia tanto tempo que não tocava em nenhuma. Quando entrou no quarto, viu uma menina sentada de costas sobre a cama. Quando segurou seu ombro, a menina tombou. Era uma boneca.

– O q...

Virou-se e deu de cara com uma mulher alta, de cabelos loiros platinados e lisos que desciam até a cintura. Olhos furiosamente âmbar. Segurando uma arma apontada para seu peito.

– Lembra-se de mim, Hector? – o homem a fitou confuso – antes de lhe dizer quem sou, quero que saiba que tudo que aconteceu com você foi por minha culpa. Eu fiz você perder no jogo, eu fiz com que você se associasse aos comerciantes errados, eu fiz com que a carga de droga desaparecesse, eu coloquei a máfia contra você, eu denunciei você para polícia, eu desviei seu dinheiro para instituições de caridade, eu fiz você chegar a esta condição miserável que você se encontra hoje, claro, que tudo isso com a ajuda de Sebastian, ou Stan, se preferir.

Hector viu Stan acenar sarcasticamente atrás da mulher.

– Quem é você? Por que está fazendo isso?

– Olhe bem, e veja a menina que você abusou por oito anos. – de repente uma luz se acendeu nos olhos do homem, finalmente reconhecendo aqueles olhos furiosos cor de âmbar.

– Impossível! Eu matei você.

– Sim, e eu voltei do inferno pra te buscar. – Amanda puxou uma faca das costas e perfurou o estomago do homem que gritou dolorosamente. – Isso é pelo que fez a mim e a minha irmã.

A loira o acertou com a coronha. Ele apagou.

Quando Hector acordou, estava todo ensanguentado, amarrado dentro de um carro no meio de uma floresta. Tentou desesperadamente se soltar, mas era inútil. A última palavra que disse foi uma que definia bem toda sua existência.

– Merda.

E explodiu.

Ao longe, Amanda e Sebastian observavam as chamas consumi-lo vivo.

.

.

.

Amanda insistiu que queria morrer em sua casa em Liverpool. Por Sebastian tudo bem. Ele esperou que ela tomasse banho e vestisse sua roupa de dormir favorita. Sebastian achava até engraçado tudo o que os humanos faziam antes da hora chegar. Passavam a vida correndo atrás de coisas grandiosas, mas no fim, só pediam uma última chance de fazer algo tão simples como um banho. Amanda relaxou no banho e arrumou-se como sempre. Era como se preparar para dormir... Dormir para sempre.

– Quero que seja aqui, em frente à lareira, é... Aconchegante. Depois me leve para o quarto, quero que pareça que morri durante o sono. Depois estará livre.

– Foi uma hora servi-la. – e aproximou-se lentamente da mulher.

Pouco tempo depois, o moreno, agora saciado, pegou Amanda no colo e a levou até o quarto. Parou em frente à janela, segurando o corpo vazio, olhando para a chuva.

– Sei que queria morrer sob a luz da lua, infelizmente ela não apareceu hoje, nem o sol. Veja por este lado, minha Lady, o céu chora sua morte.

Sebastian acabara de pronunciar essas palavras e a porta foi aberta violentamente. Um Ciel furioso e transtornado entrando por ela.

– Ciel?!

Que curioso o destino, mal se livrou da Amanda e seu Ciel já vinha em seu encontro. Talvez o garoto não goste muito do que vai descobrir.

Notas finais do capítulo
Então, o que acharam da história da Amanda? Sejam sinceros, eu aguento.

Explicação sobre sobrenome: eu sei que a escrita correta é Middleford. Mas na época em que comecei a ler o mangá, havia muitos fansubs em inglês e espanhol que traduziam Midford, que mais se aproximava da pronuncia japonesa Midofodo. Terminei optanto por usar a forma que estava mais acostumada, Midford. Caso algo se interesse em saber.

O nome falso usado por Sebastian ( como se Sebastian também não fosse) Stan é em homenagem ao ator Sebastian Stan, o Chapeleiro Maluco de Once Upon A Time.

O nome Amanda é da minha prima, que ficou me azucrinando a paciência justo na hora em que eu tentava escolher um nome para a personagem. O Villefort vem de Monsieur Villefort, de O conde de Monte Cristo.

Espero que este capítulo tenha ajudado a esclarecer algumas coisas, porque agora, o caminho está livre para o Sebastian. Os acontecimentos do próximo capítulo deveriam aparecer junto com este, após a história da Amanda, mas só a história dela ficou enorme, se eu ainda fosse incluir a explicação do Sebastian ia ter umas dez mil palavras e pra deixar tudo mais coeso resolvi separar, e deixar que Sebastian tenha bastante espaço pra explicar tudo com calma.

Obrigado a todos que tem acompanhado esta fic e a todos que leram até aqui, sem o apoio de vcs eu ainda estaria escrevendo o capítulo dois.

Beijos açucarados da tia Tai e até o cap. 13.

Tai Bluerose =^.^=




(Cap. 13) A Mui Nobre e Antiga Família Phantomhive

Notas do capítulo
Ol! :3

UFFA!!!!

gostaria de agradecer aos lindos comentrios que recebi e a Res Chan, HitmanXHunter, Misakim, okmariek por favoritarem.

Bem...esse captulo ficou meio...sei l...me digam vocs...

Ignorem os erros...^^

Boa leitura o/ ...nos vemos nas notas.

Capítulo 13: A Mui Nobre e Antiga Família Phantomhive

Sentiu primeiro o cheiro de rosas. Depois, a maciez do cobertor quentinho. O ar frio o fez abraçar os lençóis aconchegando-se na cama. Conseguiu, finalmente, distinguir o som da chuva que caía. Abriu os olhos lentamente, as pupilas se contraindo à medida que encontravam a luz. Percebeu que não estava em seu quarto. A memória voltou subitamente.

Reconheceu aquele lugar, estava na casa do Sebastian. Não vestia suas roupas, mas uma camisa branca de mangas compridas e um calção azul claro. Levantou-se da cama de uma vez, sentido de imediato um forte puxão no braço direito, fazendo seu corpo cair pesadamente sobre o colchão. Só então se deu conta de que estava algemado à cama. Passada a surpresa inicial, a fúria começou a borbulhar. Quem aquele idiota pensa que é para algemá-lo dessa maneira? Tentou soltar a mão de diversas formas, tentou partir a corrente, mas nada deu muito resultado. Por fim, explodiu.

– SEBASTIAN!!! – gritou brandindo o braço preso, fazendo a corrente tilintar.

– Não deveria fazer isso. Vai machucar o pulso. – Sebastian entrou no aposento carregando uma bandeja. Depositou o recipiente de prata sobre uma mesinha do quarto e virou-se para o jovem com um sorriso. – Bom dia, dormiu bem?

– E por acaso eu pareço bem, seu idiota? Que ideia foi essa de me algemar? Onde estão as minhas roupas? O que foi que você fez comigo?

– Quantas perguntas... – revirou os olhos – A algema foi um exagero, mas considerando que você fugiu da casa da Ruby pela janela, eu preferi não correr o risco de deixá-lo escapar. Suas roupas estão na primeira gaveta daquela cômoda. – apontou para o móvel de madeira trabalhada – Estão limpas e secas. E quanto ao que fiz com você, não se preocupe, não fiz nada além de ajudá-lo, pois você estava sujo, molhado e machucado. Não poderia deixar que dormisse assim.

Ciel o olhou desconfiado. A ideia de que o moreno o despira e lhe dera banho, o vira nu e tudo isso enquanto estava inconsciente e vulnerável não lhe agradou muito.

Percebendo a desconfiança do garoto, Sebastian aproximou-se da cama devagar. O jovem estava sentado com as pernas para fora, usando uma camisa branca meio aberta, revelando parte do seu peito, a pele alva e intocada. O peito juvenil subia e descia com a respiração alterada pela irritação. Ciel tinha dezessete anos, mas ainda conservava muitos traços infantis, os quais o tornavam ainda mais gracioso. Encarando os olhos azuis de cima, Sebastian acariciou delicadamente o rosto jovem.

– Sempre pensando mal de mim... Se nós tivéssemos feito alguma coisa, você, com certeza, se lembraria. – pronunciou as palavras com a voz mais sedutora que possuía, bastou isso para fazer o rubor subir à face do adolescente, que afastou rudemente a mão do maior de seu rosto. Sebastian riu. – Ora, Ciel, eu já fiz algo contra sua vontade?

– Você quer dizer fora me dopar, me sequestrar, me algemar e me manter em cárcere privado? – ironizou.

– É. Fora isso. – Sebastian enfiou a mão em um bolso da calça retirando uma pequena chave e a entregou ao garoto. – Pegue.

– O que é isso? – rosnou.

– A chave da algema. Solte-se, se vista e tome o seu café da manhã. Depois pode descer. Prometi explicações, terá suas explicações. Ah, sim... Sua irmã ligou três vezes ontem, senti-me no direito de enviar uma mensagem em seu nome, avisando que dormiria aqui, por causa da chuva. É só isso. Nós estaremos lá embaixo te esperando.

– Nós...?

O homem nada mais disse, apenas sorriu e saiu do quarto, deixando o garoto com o barulhinho da fina chuva que caía lá fora.

Ciel usou a chave para abrir as algemas, massageando o pulso que estivera preso. Pegou seu uniforme na gaveta da cômoda e vestiu-se rapidamente. Pensou em descer de imediato, mas uma súbita tontura o abateu. Nesse momento, o cheiro de torradas quentinhas chegou ao seu nariz, só então se lembrou de que não comia nada desde o intervalo da escola no dia anterior. Caminhou até a mesinha. Na bandeja havia café, leite, mel, torradas, frutas cortadas e uma fatia de bolo com morangos e calda de chocolate.

– Parece até que vai alimentar um batalhão. – Ciel falou para si mesmo, mas seu estomago tratou de avisá-lo que seria capaz de comer por um batalhão. Pegou uma torrada e colocou leite e mel numa xícara, levou o líquido branco até o nariz sentido o aroma e o vapor quente, bebericou um pouco. Parecia não ter nada de anormal. Era um cuidado exagerado, mas levando em consideração as recentes atitudes do Sebastian, era melhor ter atenção. E comeu apenas isso. Embora ainda estivesse com fome, achou que era suficiente para não desmaiar de inanição quando descesse as escadas. Sua mente repassava tudo que tinha acontecido, seu raciocínio funcionando como nunca.

Encaminhou-se para a sala de visitas e encontrou Sebastian acompanhado de um homem e uma mulher. A mulher ele já conhecia, Ruby, esta usava um vestido preto curto, meia-calça azul turquesa, botas vermelhas com muitas correias e uma jaqueta colorida, estava com os cabelos ruivos soltos e cacheados nas pontas, usava um óculos de armação verde e rosa. Bem estilo Ruby de ser. Embora a combinação fosse absurda, ela continuava bonita. Mas o homem ele nunca tinha visto. Tinha cabelos castanhos claros, quase loiros. Barba malfeita e tez queimada de sol. Seus olhos eram de um azul acinzentado, como os de Angie. Vestia um casaco marrom comprido e sua expressão era um pouco mal-encarada. Assim como Sebastian, aparentava ter entre vinte e seis e trinta anos.

– Ciel, estes são Ruby, que você já conhece e Richard. – Sebastian fez as apresentações, o tal Richard fez apenas um movimento com a cabeça, ele e Ruby permaneceram em pé encostados a estante de livros. – Sente-se, Ciel. – Sebastian apontou a poltrona vazia na parte central da sala, e sentou-se no divã, ficando de frente para o jovem e de costas para os outros dois. – Ontem, creio que lhe deixei claro qual a minha verdadeira natureza. Conseguiu perceber qual é?

– Mas é claro... Demônio. – Ciel permanecia sério. – Esses dois também são?

– Não, apenas eu. – falou com certo orgulho. – Gostaria que escutasse minha explicação até o final, depois... Bem, depois poderá ir, se assim desejar.

– Ouvirei atentamente.

– Primeiramente, sim, eu matei a Amanda. Mas foi uma morte de comum acordo.

– Explique-se.

– Há algum tempo eu lhe disse que existem várias espécies de demônios, cada uma delas se alimenta e se fortalece de uma forma diferente. Os kroboros, por exemplo, são comedores de carne e uma das raças mais fracas. Eu sou um Akuma, ou como os antigos diziam Devoratem Animarus. Um devorador de almas. Uma das raças mais poderosas e mais civilizadas.

– Civilizadas?

– Não é a palavra mais apropriada, admito, mas se conhecesse as outras raças e suas sórdidas e impuras formas de subsistência iria ver que devorar uma alma não é o ato mais profano do mundo. Entretanto, devido ao privilégio do livre arbítrio e outros tantos que os humanos possuem um demônio não pode devorar nem destruir a alma de um humano sem o consentimento deste. Assim surgiu o Contrato de Fausto, no qual um humano contrata os serviços de um demônio em troca de sua alma.

– Que tipo de serviços?

– Isso varia de demônio para demônio e de qual desejo o humano deseja realizar. Alguns humanos são insuportavelmente tolos e previsíveis e nem todos os demônios são tão exigentes quanto eu. Amanda firmou um contrato comigo de livre e espontânea vontade. Ao termino do contrato, peguei apenas o que me era de direito.

A última frase fora dita de forma tão fria que chegava a assustar. Ciel percebeu que devia, mais do que nunca, controlar suas ações diante daquele demônio que o observava atentamente, provavelmente procurando o menor sinal de fraqueza sua. Mas Ciel não daria esse gostinho a ele. Não depois de tê-lo tocado, abraçado e beijado. Não após ter se entregado tão abertamente aquele sentimento. Agora entendia porque Sebastian sempre parecia tão perigosamente sedutor. Recriminava-se apenas por ter tal pensamento. Mas algo o incomodava, um sentimento perturbador começava a amortecer seu espírito.

– Prossiga. – ordenou o jovem mantendo o tom indiferente.

– Segundo. Não sou o responsável pelas mortes em Liverpool ou no resto da Inglaterra. E aqui chegamos ao ponto que interessa a todos nós. – Sebastian fez uma pausa. – Já ouviu alguma vez o nome... Phantomhive?

Ciel vasculhou a própria mente a procura do nome, mas nada encontrou. Balançou a cabeça respondendo que não.

– Séculos atrás, quando as pessoas tinham plena consciência da existência do sobrenatural, o mundo estava mergulhado em caos. A maldade corria livre pela terra, humanos sabiam como recorrer a criaturas como eu e até piores para espalhar mais ruína. Era preciso dar um fim a tudo aquilo. A era da escuridão tinha que chegar ao fim. Muitos lutaram e morreram para livrar o mundo das influencias malignas. Decidiu-se que tudo que estivesse além do chamado lógico e natural para a maioria dos humanos deveria ser mantido em segredo, oculto, para que as pessoas não vivessem mais amedrontadas ou criassem pandemônios e acabassem matando pessoas inocentes como ocorreu durante a Caça às Bruxas. Ao contrário do que muitos pensam, nem tudo que é sobrenatural é mal. Enfim, com o passar dos anos, criaturas, pessoas, lugares, coisas e acontecimentos que muitos conheceram ou presenciaram tornaram-se nada mais que mitos, lendas, contos de fadas. Entretanto, mesmo que a população se tornasse cada vez mais cega, o mal continuava a existir e a atuar. E muitos ainda tinham conhecimento de seu poder. Fazia-se necessário a existência de alguém que lutasse contra isso. Que mantivesse o reino e a população protegida. A Corte dos Serafins, que é um grupo de anjos responsáveis pela execução das leis divinas e por assim dizer, manter as coisas sob controle, e os primeiros governantes dessas terras, hoje conhecidas como Grã-Bretanha, escolheram uma família para realizar esse trabalho.

“A Família Phantomhive.

“Os líderes dessa família, cada um há seu tempo, lutaram para limpar e purificar a Inglaterra, até chegarem a Era Vitoriana. Quando a Corte dos Serafins voltou para o domínio celeste. Época em que os Phantomhive juraram lealdade à Rainha. Época maravilhosa em que a sociedade finalmente se distanciou de tolices fantasiosas e mágicas. Demônios, anjos e magias, não existiam em outro lugar que não fosse nos livros e no imaginário humano. Sim, época perfeita... O berço da hipocrisia social e intelectual.

“ A princípio, os Phantomhive eram uma família nobre, escolhida pela Rainha para continuar a desempenhar o trabalho de protetora. Geração após geração, a família Phantomhive livrou essas terras das criaturas mais cruéis e deploráveis que você possa imaginar, sendo elas humanas ou não. Tudo acontecia secretamente. Para o submundo inglês eles eram O Cão de Guarda da Rainha, de fato, poucos tinham conhecimento da verdadeira identidade deste tão temido Cão. Para a sociedade, aquela família era apenas uma nobre família inglesa como tantas outras. No entanto, o último líder dos Phantomhive não possuía herdeiros. Isso começou a preocupá-lo. Ele não desejava que o título de Cão da Rainha fosse dado a outra família.”

– Por orgulho. – Ciel o interrompia ela primeira vez, fascinado pela narração, olhava diretamente para seus olhos.

– Não necessariamente. As famílias nobres estavam se desvirtuando. Você nem imagina o quanto. A maioria deles estava de alguma forma envolvida em atividades ilícitas, seitas e magia negra. Surpreender-se-ia com o que as pessoas são capazes de fazer para saciar sua luxuria, vaidade e ganância. Eram poucas as famílias que realmente mereciam ser chamadas de nobres. E o número dos que eram verdadeiramente leais a Rainha era ainda menor. A maldade e o materialismo escondiam-se sob a máscara da filantropia, homens impuros cometiam os mais terríveis pecados enquanto pousavam de Homens de Bem. A Inglaterra precisava dos Phantomhive para manter tudo nos eixos, ou tudo mergulharia no caos novamente. No fim, o último Conde Phantomhive temia que, se o título de Cão de Guarda da Rainha fosse dado à outra família, esta poderia não seguir o principal objetivo dos Phantomhive.

– Lealdade a Rainha?

– Aniquilar os maus. Sendo eles nobres, burgueses ou pobres, humanos ou não.

– Se o título fosse entregue a uma família de índole suspeita, esta poderia acabar favorecendo os seus.

– Exato. Por esta razão, antes de sua morte, o último Conde Phantomhive fez um acordo com a Rainha e a Corte dos Serafins. Ele escolheria aqueles que seriam os seus herdeiros, o título seria entregue a estes. O Conde Phantomhive escolheu alguns de seus servos mais fiéis e com o consentimento da Rainha, a Família Phantomhive deixou de ser uma família e passou a ser um grupo. O primeiro grupo fez um ótimo trabalho como Cão da Rainha, e quando os membros deste morreram, um segundo tomou o seu lugar e depois um terceiro. E assim tem sido até hoje. Nós somos o grupo que carrega o legado dos Phantomhive. Sempre que a Inglaterra é ameaçada por algo que esteja além da alçada da polícia comum, somos chamados.

– Tipo um grupo de heróis? – Ciel indagou com mais sarcasmo do que pretendia.

– Heróis?! Hah! Estamos mais pra vigilantes. – Richard falou pela primeira vez revelando um sotaque americano. – Ninguém aqui brinca, garoto. Não somos heróis nem mocinhos. Fazemos o que temos de fazer, seguimos nossas próprias regras.

– Sendo que as nossas regras são aquelas deixada pelo Conde Phantomhive. – Sebastian prosseguiu – Cabe a mim, sob as ordens da própria Rainha e do Conde, escolher aqueles que serão os novos membros e treiná-los, cada individuo deve corresponder a todas as exigências deixadas pelo Conde Phantomhive.

– Nunca, em toda a minha vida, ouvi ou li em qualquer lugar que fosse menção ao nome Phantomhive. O nome dessa família não consta nos livros de história, um clã como o que você descreveu deveria estar registrado em algum lugar. Por que nunca ouvi falar deles? Todas as famílias nobres estão registradas e até as que caíram em ruína são conhecidas até hoje.

– Não haveria como conhecer. A história da família foi mantida em segredo e tudo que estivesse relacionado a eles foi apagado. Qualquer coisa que comprovasse sua existência foi cuidadosamente modificada. Tudo foi feito de modo que, com o passar do tempo, as pessoas se esquecessem de que um dia a Família Phantomhive existiu.

– E por quê?

– Segredo de família. – o moreno respondeu com um de seus clássicos sorrisos. Ruby e Richard se entreolharam pelo canto dos olhos.

– Tudo bem, acredito em sua história. Mas, está tentando me dizer que a Rainha Elizabeth, aquela senhora de terninhos de tom pastel e chapéus enfeitados, sabe de tudo isso? Ela, Charles, William, Harry e Kate...

– Não. Apenas a Rainha Elizabeth sabe. Apenas o portador da coroa tem conhecimento dos acontecimentos do submundo. Quando Charles se tornar rei, ele saberá, embora eu realmente sinta, pois o acho um tolo, seu primogênito parece ter mais fibra e...

– Tá, tá... Explique-me uma coisa, por que você, um demônio, concorda em obedecer a Rainha e um conde que já morreu há séculos? Quer dizer, ajudar humanos e protegê-los do mal não é exatamente o que eu aprendi sobre as ações dos demônios. Então, por que você faz isso?

– Ele não tem escolha, foi amaldiçoado. – Richard soltou sem querer. Sebastian o fuzilou com o olhar, meio a contragosto, esclareceu o assunto.

– Digamos que A Corte dos Serafins não estava muito feliz comigo desde que espalhei a Peste Negra na Europa... – Ciel fez uma expressão que dizia “Você o quê?!” – E para piorar, alguns anos atrás, num momento de descontrole, acabei fazendo algo que a Corte chamou de “passar dos limites aceitáveis”. Enfim... Onde eu estava? Ah, sim. O Conde estipulou um número de membros, cinco.

– Só vejo três.

– Um está em treinamento e neste momento está provavelmente na escola, nem tudo é perfeito.

– Está falando do Dimas?

– Sim. Eu disse que não precisava ter ciúmes. – Ciel inflou as bochechas.

– Devo supor que Evelyn é a quinta?

– Quem? – perguntaram os três adultos em uníssono. Ciel os encarou, perturbado.

– Evie não é uma de vocês? – os três se entreolharam dizendo que não conheciam ninguém com esse nome.

– Quem é Evelyn? – Sebastian perguntou num tom assustadoramente ameaçador.

– Ninguém importante. – Disse tentando distraí-los, pois ele não sabia ao certo quem ou o quê Evie era. – Então, quem é o quinto?

– Esperamos que seja você. – Ruby respondeu empolgada.

– O quê?!

– Seu pai está envolvido no caso, você pode ter acesso às informações. Você é um rapaz de valores e virtudes admiráveis. É corajoso, esperto e inteligente. Apaixonado por contos policiais. Bem, essa é sua chance, talvez a única, de resolver o seu próprio mistério. Você é o membro que nos faltava, um detetive.

– Eu, ser um Phantomhive? Mas eu não sou um detetive. Sou apenas um adolescente. Talvez eu não seja digno de ser um dos Cães da Rainha. Como podem me escolher pra uma coisa dessas? O que os leva a crer que eu seria capaz de ajudar em alguma coisa?

– Porque eu sei que é. – disse Sebastian.

– Ciel, eu vi você enfrentar kroboros para tentar ajudar pessoas que nem conhecia. – Ruby começou – Defendendo-se apenas com uma faca...

– O que foi irresponsabilidade... – disse Richard.

– ...E quando eu apareci, você não foi embora, tentou me ajudar. É preciso coragem pra enfrentar um demônio sozinho.

– Ou loucura. – Richard acrescentou recebendo de Ruby uma cotovelada nas costelas.

– Não precisa responder agora. A decisão é sua. Afinal, é um trabalho deveras perigoso. Mas saiba que, agora que te contamos, mas cedo ou mais tarde o convite da Rainha chegará. – Sebastian informou – Não é querendo pressionar, mas, é indelicado recusar um privilégio concedido pela Rainha, mesmo que este mais pareça uma maldição. Por outro lado, deveria sentir-se orgulhoso, o Conde Phantomhive foi bem especifico, não é qualquer um que seja capaz de representá-lo tão bem.

Ciel levantou-se da poltrona e deu a volta na mesma. Ficou de costa para os três, pondo-se a analisar a situação.

– O que acontece se eu recusar?

– Não o incomodaríamos mais. Teríamos que nos virar sozinhos, pois duvido muito que encontremos alguém capaz de substituí-lo.

– Você também partiria? – perguntou baixinho. Virou-se para encarar o moreno, usou um tom mais alto e firme – Você partiria? Certa vez disse haver uma razão para ser gentil comigo e querer minha amizade, era esta a razão? Diria qualquer coisa para me convencer, não é?

– Eu disse haver duas razões...

– Sim, é claro. – falava magoado e com desprezo – Faço uma ideia de qual seja a outra...

Sebastian pôs-se ameaçadoramente de pé. Richard colocou-se em guarda e Ruby encolheu os ombros, ambos olhando, não para o adolescente, mas para o demônio à frente.

– O que está insinuando... Meu jovem?

– O que você entendeu. – O adolescente manteve-se firme. O demônio olhou-o friamente nos olhos. Ciel achou que Sebastian desistiria da máscara de bonzinho, que se irritaria, o agrediria ou pelo menos gritaria com ele, mas em vez disso, o mais velho apenas desviou o olhar num gesto tão desalentador que fez o coração do jovem fraquejar.

– Vous ignorez la vérité. Je ne serai pas en colère contre vous. – Sebastian disse com uma voz grossa e calma. O resultado foi a pronúncia francesa mais encantadora que Ciel já ouviu, embora não tenha entendido muito bem o que ele disse.

– Dê-me um tempo pra pensar.

– O tempo que desejar. Estão todos dispensados. – Sebastian informou retirando-se para a sala do piano.

– Será tão bom, Ciel, se você aceitar. Poderemos todos passar mais tempo juntos. S-se v-você quiser, é claro. – Ruby atrapalhava-se com as palavras.

– É, yupiee, que divertido! – ironizava Richard, empurrando a moça para a saída. – Depois você mostra sua coleção de quadrinhos...

– Mangá!

– Que seja. Se chegar atrasada no Darjeeling novamente, te demitem. Foi um prazer, moleque. Até mais ver!

– Moleque?!

Ciel sentiu-se aliviado quando os dois foram embora. Relutou por um momento, depois foi até a sala do piano. Sebastian estava olhando o jardim pela janela. O adolescente aproximou-se do piano em silêncio. Deslizando a mão sobre a maneira negra e fria. Sentindo uma saliência na tampa do teclado. Notou uma inscrição que não havia visto naquele domingo.

“L. Cavendish”

– Mudou alguma coisa? – o moreno perguntou ainda olhando pela janela.

– O quê?

– Saber que sou um demônio.

– Não mudou nada para mim.

– Mas algo mudou, está diferente.

– Sim, algo me incomoda. Mas não tem nada a ver com sua natureza. – Sebastian olhou para ele. – Temo que o Sebastian por quem me... Que conheci seja uma farsa. De tudo o que me disse, o que foi realmente verdade? Lá na sala, você falou que é sua função encontrar e treinar os integrantes do grupo. Todas as vezes em que esteve comigo, era porque queria estar comigo ou simplesmente queria que eu me afeiçoasse o suficiente para concordar com qualquer coisa que viesse a me propor?

– O que pensa que eu sou, um incubus? Jamais seduzi Richard, Ruby ou Dimas para que aceitassem qualquer coisa, se é o que está pensando. Nem eles, nem você.

– Não foi o que eu quis dizer. – um silêncio perturbador invadiu a sala.

– Houve um tempo em que eu não me importava com nada. Mas depois de passar anos preso a esta forma humana, aprendi a apreciar certas coisas, as quais eu não costumava dar valor. Livros, li muitos, são ótimos para passar a longa eternidade e os contos policiais, mistério, suspense são os meus favoritos. Não estava mentindo. Usei isso para chamar sua atenção? Sim. Talvez eu tenha ocultado algumas coisas, mas nunca fingi ser o que não sou. Com você eu sempre fui Sebastian Michaelis.

– Se eu dissesse que não quero ser um Cão da Rainha, desistiria de mim?

– Não desisto tão facilmente das coisas que realmente quero.

– Eu não possuo uma razão para fazer um contrato com um demônio.

– Será? Mais ainda assim, sua alma é tentadora, e mesmo que insinue que tudo o que quero seja ela, saiba que, para mim, estar com você é mais importante.

– O que quer que eu pense? Por que um demônio gostaria de mim?

– Por que um garoto gostaria de um demônio? – Ciel o encarou, Sebastian sorriu. – “Ama-me, sim. Eu sei que ele me ama... Eu o lisonjeio bastante, como se pode compreender. Acho um estranho prazer em lhe dizer palavras que, noutro caso, sentiria imenso ter dito. Ordinariamente, ele é bom comigo e passamos dias no ateliê a falar de mil coisas. Uma vez por outra, mostra-se horrivelmente desagradável e parece achar o verdadeiro prazer em me atormentar. Sinto ter dado toda a minha alma a um ser que a trata como uma flor a pôr na lapela, uma ponta de fita para a sua vaidade, um ornato de dia de verão...”¹

Ciel o olhou profundamente, reconhecendo aquela frase.

– Não sou um Dorian Gray... – sussurrou.

– Sei que não. Mas você é meu ideal, minha perdição.

– Não seria você a minha?

– Você me fala agora com mais liberdade, sem receios. Nosso jogo de fingir indiferença acabou? Espero que sim. Salvaria mil almas se me pedisse, entregaria outras mil à morte se fosse para atender um capricho seu.

– Por que gostas tanto de mim? – indagou com certa agonia. Era uma pergunta de mão dupla, pois ele, Ciel, também queria saber por que o que sentia por Sebastian era tão forte. – Não faz ideia do poder que tuas palavras têm sobre mim. Está tentando me seduzir com tais palavras?

– Se eu estiver... Quer que eu pare?

– Não. Quero que continue. Até conseguir. – confessou, era praticamente uma rendição. Sebastian aproximou-se sorrindo.

– Neste caso, palavras não são mais necessárias.

Ciel sentiu Sebastian tocar seu peito e deslizar a mão até seu pescoço. Segurando seu queixo de leve. O maior inclinou-se lentamente, podia sentir a respiração quente do jovem e seu coração palpitante acelerando a medida que seus rostos se aproximavam até que selassem os lábios. Dando inicio a um beijo lento e macio. Ciel sentia Sebastian acariciar sua nuca de maneira carinhosa. Sua pele arrepiou-se completamente ao passo que os lábios do akuma tocavam seu pescoço e voltavam para seus lábios vermelhos. Sebastian terminou o beijo envolvendo o corpo quente do jovem num abraço. Enquanto sentia o calor de Sebastian, uma ideia surgiu na mente do adolescente. Ideia que não ousava pronunciar em voz alta.

“A partir desse ponto não há mais volta. Quando é que juntos vamos ser um só?”²

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– Isso são horas, senhor Ciel? – Angie simulou um falso tom de repreensão assim que viu o irmão entrar pela porta da frente. – Você tem muita sorte mocinho, mamãe nem faz ideia de que você dormiu fora de casa. Porque se ela soubesse você estaria morto.

– E onde ela está? – caminhou até a cozinha sendo seguido pela irmã, abriu a porta da geladeira e pegou uma jarra de água.

– Ela começou a sentir umas dores ontem à tarde. Fomos às pressas para o hospital, mas foi só alarme falso. Por precaução, o médico dela preferiu que ela passasse a noite lá, sabe, caso o bebê resolvesse realmente vir. Vou buscar ela agora às onze. Pelo visto o bebê não quer nascer agora.

– Hum...

Ciel pegou um copo limpo no armário e levou até o balcão da cozinha, despejando a água gelada dentro dele. Levou o copo à boca e só então reparou que a irmã o observava com enormes olhos brilhantes de um jeito que o lembrava dos olhos da Ruby.

– O que foi? – perguntou meio receoso.

– Então... Como foi? – indagou animada.

– Como foi o quê?

– ‘Cê sabe. – Ciel olhou para a irmã tentando descobrir a que ela se referia, mas não conseguia entender o que ela queria que ele contasse. Percebendo que o irmão ainda não tinha se tocado, Angie suspirou. – Ai, Ciel, como você é lerdo! Como foi com o Sebastian, oras! Pelo menos se lembrou de usar camisinha? Você não vai engravidar, lógico. Mas... né?

Ciel quase engole o copo junto com a água. Engasgou-se e deixou o copo escapulir de sua mão, o qual se espatifou completamente ao atingir o chão.

– Mas que droga! Cof, cof! – o jovem praguejou ainda tossindo, abaixando-se para catar os cacos de vidro do chão e tentar, talvez, esconder o rosto vermelho. – De onde você tirou essa ideia absurda?!

– Não há nada de absurdo nisso. Eu não sou boba, Ciel. Se não quer contar, não conta.

– Não aconteceu nada, sua pervertida maluca. Ele dormiu no quarto dele e eu no quarto de hóspedes. Ninguém transou com ninguém. – ficou mais vermelho ainda ao pronunciar a última frase, tão perturbado ficou que acabou cortando a palma da mão em um dos cacos.

– Deixa, eu cuido disso. – Angélica fez Ciel sentar-se numa cadeira enquanto ela pegava a caixa de primeiros socorros. A moça conseguiu parar o sangramento e começou a enfaixar a mão ferida. Angie enrolava a gaze com cuidado, seus olhos percorrendo a pele do pulso do irmão. – Devia ser mais cuidadoso... Não quero que se machuque.

Estranhamente, Ciel teve uma sensação de déjà vu e um formigamento nos lábios, mas não conseguiu relacionar a nada em sua memória.

– Como percebeu?

– Você e o Sebastian? Bom... Tirando a Elizabeth, você não costuma ser muito íntimo de amigo nenhum. Mas com o Sebastian você é diferente. Naquela noite em que você chegou machucado e supostamente atropelado, eu fui falar com ele, sabe, pra ter certeza de que ele não era nenhum tipo de psicopata pervertido, e pra saber se você não tinha chateado ele com seu jeito antissocial. Mas me surpreendi quando ele falou que vocês tinham saído e que conversavam. Ele me fez algumas perguntas sobre você e a Liza, e basicamente a conversa foi sobre você, finalmente encontrei alguém que goste de te importunar tanto quanto eu. Naquele dia, eu soube que ele gostava de você, mas para mim era como amigo. Não vi nada além disso até o passeio no parque. Lembra-se de quando todos estavam jantando no PlayGame Center? Todo mundo conversava e sorria. Naquela noite, por um momento, eu vi nos seus olhos um brilho diferente, uma admiração e um desejo que nunca tinha visto em você. Imagine a minha surpresa quando, ao seguir o seu olhar, percebi que você olhava, não para Liza ou para a Amanda, como tive a impressão, mas para o Sebastian. A partir daí passei a observar vocês dois. Sempre que seus olhos se encontravam, eu percebia uma cumplicidade admirável. Ele corresponde ao que você sente?

– Sim. Acho que sim.

– Fico feliz que você finalmente esteja gostando de alguém. Sejamos sinceros, Liza nunca foi sua namorada de verdade, nunca vi diferença no relacionamento de vocês. Ainda acho que você só concordou ser namorado dela porque não sabe dizer não pra ela.

– Tenho que ter uma conversa com a Liza. Não me agrada mentir pra ela.

– É bom mesmo. Não sei o que o pai e mãe vão dizer, e você só conta se quiser, mas eu estou do seu lado. O que realmente importa é se você ama alguém e se esse alguém te ama. Diante disso, todo o resto é insignificante.

Ciel sorriu para a irmã.

Angie pegou uma vassoura e começou a varrer os cacos de vidro do chão.

– Ah, Ciel! Papai ligou pedindo pra que eu fosse deixar uns papéis que ele esqueceu. Tenho que ir buscar a mamãe e ir correndo pra faculdade, não vou ter tempo, você poderia ir pra mim?

– Claro.

– Não se esqueça de inventar uma boa desculpa pra ter faltado à escola.

– Que conselho edificante você me dá. – ironizou.

– Precisando, tamo aí!

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Ciel esperou até às duas horas da tarde para ir até o Departamento de Polícia deixar os papéis para o pai, assim ele não estranharia o horário. Ciel fez a entrega explicando que a irmã não pode vir, pois esta estava ocupada com a mãe e a faculdade, o que era verdade, e que ele saíra cedo da escola por concluir um trabalho antes de todos, o que era mentira. Mas considerando o histórico escolar do filho, Roger nem desconfiou.

O Departamento estava bem movimentado e os policiais agitados. Ciel seguia pelo corredor para ir embora, no entanto uma voz chamou sua atenção.

– Com licença, rapaz. – Ciel virou-se e viu um homem de aparência estranha, com um sorriso exagerado no rosto. – Faria a gentileza de ajudar um velho?

O homem era alto e meio encurvado e embora não aparentasse ser muito velho, seus cabelos eram completamente grisalhos, quase brancos, compridos até os ombros com uma franja longa e mal cortada cobrindo-lhe os olhos. Usava um cardigã cinza e folgado, as mangas mais compridas que os braços, um desleixo total. Ele apontava para duas enormes caixas de arquivos.

– Sem problema. – o adolescente respondeu pegando uma das caixas.

– Muito obrigado. Siga-me. – o tom de voz dele oscilava entre o alegre e o sinistro. Pegou a outra caixa e tomou a frente pelo corredor cantarolando alguma música que Ciel não identificou. – Qual o seu nome, rapaz?

– Ciel Valentine, senhor.

– Valentine... Tens algum parentesco com o Chefe Valentine?

– Ele é meu pai.

– Claro. Sou Mark Calaway.... Legista, trabalho divertido, mas minha área preferida mesmo é cuidar dos preparativos fúnebres. Infelizmente as pessoas hoje têm a péssima mania de Cremar os corpos. Ninguém mais sabe apreciar o valor de um belo ataúde. Você não acha, jovem... Valentine?

Ciel o encarou. Surpreendia-se com a predisposição que o estranho tinha para informar futilidades que o jovem não havia demostrando interesse em saber. Entraram numa sala pouco iluminada. Ciel instintivamente prendeu a respiração, pois a sala estava impregnada de um odor repugnante de álcool e formol.

– Esta é uma cidade muito bonita, não é mesmo? Receio não ter tempo para conhecê-la.

– Você é o enviado da Scontland Yard?

– Não sou da polícia realmente... – o homem disse num sussurro – sou apenas um consultor. Estou apenas acompanhando o detetive Midford numa importante missão. – Colocou a caixa numa mesa e começou a retirar os papéis com as pontas dos dedos, tentando ler o que havia escrito. Ciel se perguntava o que atrapalhava mais a falta de luz ou o cabelo comprido.

– Você disse Midford?

– Sim, você o conhece?

– Não. – procurou um lugar para por a sua caixa, já que Callaway não deu instrução nenhuma. Aquele odor estava lhe deixando zonzo e mal enxergava naquela penumbra. Não tinha lâmpada naquela sala?

– Mas esse nome lhe diz muita coisa, não é? – Ciel assustou-se ao ver Callaway bem a sua frente sorrindo de um jeito assustador.

– Não sei do que você está falando. – afastou-se andando para trás.

– Tem certeza de que não sabe exatamente do que estou falando? – Callaway encurralou Ciel num canto, encarando o jovem de cima, ainda sorrindo. Estando tão perto, o jovem pôde ver entre as mechas pálidas de cabelo dois olhos verdes, um verde incomum, como os daquele estranho do beco.

– Quem é você? – o jovem indagou como quem dá uma ordem.

– Se você souber uma boa piada... Eu conto. Hehehehe!

Callaway levou a mão à boca sorrindo de um jeito mais estranho ainda, afastando-se do garoto como se deslizasse pelo o chão. Balançando-se para lá e para cá.

– Você é louco! – Ciel aborreceu-se e encaminhou-se para a saída.

– Espere! Espere! – gesticulava os braços no ar, as mangas compridas do cardigã faziam seus braços parecerem mais longos do que realmente eram. – Tenho algo para você. Era o detetive Midford quem deveria entregá-lo a você, mas ele está resolvendo uns problemas familiares. Callaway enfiou a mão dentro da manga retirando um objeto com um gesto que lembrava um truque de mágica. Era um pequeno cilindro de prata com detalhes em dourado. Parecia um charuto. – Quase que me esquecia de entregar. Hehehe... Não podemos esquecer-nos de coisas importantes, não é, meu rapaz?

Ciel o encarou como quem encara um louco.

– O que é isto? – Ciel perguntou com o objeto em mãos.

– Uma carta. – e voltando a sussurrar declarou – aquele demônio não sabe de todos os segredos.

Callaway afastou-se novamente, dessa vez ignorando o jovem por completo. Ciel guardou o cilindro no bolso da calça e saiu do Departamento Policial.

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Sentado sobre sua cama, Ciel observava o objeto atentamente. Ele o sacudiu e pôde ouvir o barulho de algo chacoalhando lá dentro, mas não sabia como abrir aquela coisa. Não possuía lacre, tampa ou rosca. Começou a contornar os desenhos feitos em dourados e acabou cortando o dedo em uma das saliências de metal, fazendo um filete de sangue surgir na digital alva e pingar sobre o cilindro. Ciel praguejou qualquer coisa, era a segunda vez que se cortava.

Notou que o sangue, inesperadamente, se espalhou pelos contornos dourados, que assumiram um tom escarlate. Ciel ouviu um “tink” e os pedacinhos de metal vermelho se partiram, revelando a junção da tampa. O rapaz tirou a tampa do cilindro e virou-o de cabeça para baixo. Um envelope enrolado como um pergaminho caiu de dentro. O envelope estava lacrado com o sinete real. Nas costas do envelope podia-se ler o destinatário escrito à mão em tinta preta.

“Ao mais novo Phantomhive”

– Este seria eu? Perguntou a si mesmo. Sem mais demora, abriu o envelope e começou a ler a carta.

A carta dizia qual era o problema que os Cães da Rainha teriam que enfrentar. O conteúdo daquelas linhas parecia ser mais preocupante do que ele imaginava. Não eram apenas os assassinatos. Era mais que isso. Será que os outros tinham conhecimento do conteúdo daquela carta?

Ciel calçou os sapatos e saiu de casa como um raio. Sebastian precisava ler aquilo.

Ele aceitaria ser um Cão da Rainha e levaria adiante o legado da Nobre e Antiga Família Phantomhive?

Sim.

Evelyn tinha razão, não há outra escolha. Só gostaria de saber o que teria acontecido com a menina.

Notas finais do capítulo
Título inspirado em A Mui Nobre e Antiga Casa dos Black
Akuma: é demônio em japonês, como todo mundo sabe, mas na fic fica sendo a raça de demônio que come almas. Eu queria arranjar um jeito de usar o clássico akuma e aí deu nisso.
Devoratem animarum: já mencionado nuns capítulos atrás significa devorador de alma caso não tenha ficado claro.
Nota 1: a frase dita pelo Sebby ao Ciel é um trecho do livro O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, no livro a frase é do pintor Basil descrevendo sua admiração (sei¬¬) pelo jovem Dorian. Amo esse livro, é na minha opinião o primeiro livro Yaoi da história kkkkkk..fala sério a frase parece ter sido feita pro Sebby e pro Ciel, né?
Nota 2: a frase dita por Ciel, duas na verdade, é um trecho da música The Point Of No Return de O Fantasma da Ópera.
Esclarecimento: algumas pessoas perguntaram... VAI TER LEMON?....reposta: SIM!...por isso coloquei classificação 18, porém o lemon tem um momento certo pra acontecer, depois de um fato e antes de outro, mais ele não vai demorar não :D.....porém, desde já aviso que não criem grande expectativa...esta é a primeira fic yaoi que escrevo e nunca escrevi lemon em toda a minha vida, pode ser que não agrade, mas tentarei fazer o melhor possível quando a hora chegar.
Gostaria de agradecer aos elogios ao capítulo da Amanda, ela era uma personagem que eu realmente gostava e que sabia que seria mal interpretada eu sabia que todos gostariam dela só quando soubessem sua história, como de fato aconteceu. Foi um capitulo difícil de escrever...não é fácil narrar uma cena em que um criança é violentada...quando escrevi não imaginam o ódio que senti do Hector.
Ciel não odiava a Amanda, ele a admirava e a achava muito bela, como tentei deixar claro, ele só não gostava da proximidade dela com o Sebby, porque o baka tava com ciúmes e não sabia.

Não sei o que vocês acharam desse capítulo, mas obrigada por lerem até aqui.
Deixem suas opiniões, suposições, reclamações....
Só assim tentarei fazer melhor.
Até o 14
Beijos..Tai Bluerose.




(Cap. 14) Um mar de lágrimas

Notas do capítulo
Olá ^^

Eu sei que querem me matar ( principalmente a Liv, a Shasha e a Náh)....mil desculpas, as explicações estão no final.

obrigada a todos que comentaram...pfv ignorem possíveis erros, meu teclado tá com um defeito dos infernos e eu não manjo tudo de portugues.

Larissa e Gabriel....Sejam bem vindos.

Boa leitura.

Capítulo 14: Um mar de lágrimas

Elizabeth caminhava pelas ruas de Liverpool cantarolando a música de O Quebra-Nozes. Em sua mão direita as sapatilhas de balé, enquanto sua mãe, Helen, puxava-a pela mão esquerda. Elizabeth tinha oito anos e dançava desde os sete. Embora não fosse lá muito boa, gostava das aulas, pois se sentia uma princesa toda vez que vestia o tutu cor de rosa. Em um dia qualquer, sem nenhuma razão realmente especial, Helen Wilson resolveu fazer uma visita a sua velha amiga de faculdade, Hortence Valentine. Não a via há tanto tempo e por negligência, afinal, a Little Mozart ficava tão perto da escola de dança da pequena Liza.

Enquanto as duas mulheres conversavam, Elizabeth foi atraída por uma melodia alegre até uma sala no fim do corredor. Havia várias salas com alunos tocando vários instrumentos, produzindo sons agradáveis ou não. Mas uma música, vinda do final daquele corredor, se destacava. Seus pequenos pés aproximaram-se lentamente e, chegando à porta, pôs-se a espiar pela fresta. Liza ficou espantada. Deslumbrada. Um garotinho do seu tamanho tocava ao violino uma musica alegre, música que não conhecia, mas se tratava de A Primavera de Antônio Vivaldi. O menino, embora pequeno, tocava com a habilidade de um adulto.

Ficou ali, assistindo escondida a apresentação de violino. O menino abriu os olhos, revelando um azul intenso e encantador, que imediatamente divisaram o par de olhos verdes que o espionava. Quando percebeu que o menino realmente olhava para ela, Elizabeth ficou vermelha e pensou em sair correndo. Mas o garotinho correu em sua direção, segurando o violino numa mão e escancarando a porta com a outra. Liza achou que levaria uma bronca, mas o menino falou muito receptivo.

– Olá! Você vai estudar aqui? – perguntou o garotinho olhando Liza com curiosidade. Ele achou que a menina parecia com a boneca da caixa de música da sua irmã, pois tinha os mesmos cabelos loiros encaracolados e a roupa de bailarina.

– Não. Estou só visitando.

– Meu nome é Ciel e o seu? – estendeu a mão para cumprimentá-la revelando um sorriso angelical.

– Elizabeth. Mas pode me chamar de Liza. Eu gostei muito de como você toca.

– Obrigado. Minha mãe me ensinou. Eu estava treinando com minha irmã. Quer conhecer a sala de música, Liza? – não esperou resposta, apenas segurou a mão da menina e puxou-a para dentro – Angie veja. Esta é Liza. Ela veio visitar a escola.

– Olá lindinha. Eu sou Angélica. – uma jovem de dezesseis anos, com olhos azuis acinzentados e cabelos compridos e laranjas a cumprimentou do piano.

– Quer que eu toque uma música pra você? – Ciel perguntou com o entusiasmo natural da infância.

Elizabeth assentiu. E Ciel tocou. A sala encheu-se de risos alegres. Era como se o próprio violino sorrisse.

Liza ainda não tinha vivido muito tempo e nem conhecia muitas coisas da vida, mas nenhum menino fora tão gentil com ela. E aquele sorriso... De alguma forma, ela soube que gostaria daquele garotinho para sempre. Por insistência das duas crianças, Ciel e Liza, sempre que possível a senhora Helen Wilson ia visitar a Little Mozart. Com o tempo, os dois se tornaram melhores amigos. Quando saiu do balé, Liza quis fazer jazz. Não que gostasse de dançar isso ou aquilo, mas era uma ótima desculpa para sempre visitar a Little Mozart, ou melhor, Ciel. Os sentimentos que Liza nutria por Ciel aumentavam cada vez mais.

Mas como a vida é cheia de altos e baixos, um ano depois, Ciel ficou doente. Não sabia exatamente de quê, os Valentine não gostavam de comentar. E Ciel apenas piorava. Parecia que não melhoraria, talvez por isso tenha feito o que fez. Nem Liza, nem ninguém sabia ao certo o que, se a estranha doença ou aquilo ter acontecido, mas algo mudara Ciel. Aos poucos deixou de brincar, de falar com outras crianças. O sorriso tornou-se raro, até que desapareceu. Não tinha mais a mesma vivacidade. Mesmo assim Liza continuou ao seu lado.

Por anos Elizabeth amou o amigo secretamente, sem nunca lhe dizer nada. Mas quando cursavam a oitava série, a loira notou que as outras meninas observavam Ciel. O apontavam, cochichavam e davam risinhos bobos quando ele passava, suspiravam quando ele entrava na sala e quando ele respondia “bom dia”. O ar indiferente do garoto só o tornava mais atraente as outras meninas que viam nele um tipo de rebelde sem causa. Que estupidez! Ciel não era nada disso. Elas não o conheciam como podiam se achar no direito de ser namoradas dele?

Liza percebeu que, se não pedisse Ciel em namoro, alguma espertinha poderia tomar-lhe a frente. Mas e se ele dissesse não? Teria que tentar, imagine que garotas se interessariam por ele no segundo grau? E se fosse uma do tipo que não se pode competir? Mesmo temendo a resposta de Ciel, durante um trabalho de química que os dois faziam na casa do garoto, Liza fez o pedido. O jovem olhou para as longas cadeias de carbono, fazendo Liza se perguntar se ele realmente ouvira sua declaração e seu pedido. Depois de alguns segundos, Ciel olhou para ela. A garota sentiu seu coração saltar do peito.

– Claro. – ele respondeu comprimindo os lábios em um pequeno, tímido e rápido sorriso.

Desde aquele dia, os dois eram oficialmente namorados. Liza podia abraçá-lo, andar de braços dados em raros momentos, andar de mãos dadas em momentos mais raros ainda, e beijá-lo no rosto quando tivesse certeza de que ele não negaria. Mas o tão sonhado primeiro beijo ainda não chegara. Apesar de retraído, Elizabeth tinha certeza que algum dia Ciel se sentiria a vontade para dar seu primeiro beijo, e quando esse dia chegasse, ela estaria pronta, mesmo que esse dia demorasse a chegar.

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Isabella acabara de sair de casa. Como sempre, acordara bem cedo para sua caminhada matinal. O ar era mais fresco e havia menos pessoas nas ruas, menos carros. Caminhava tranquilamente até que um transeunte a parou.

– Com licença, senhorita. Vejo que está indo naquela direção, poderia fazer-me um favor?

Isabella olhou para a figura despreocupada. A pessoa tinha boa aparência, fala mansa e olhar gentil. Por que não?

– O que é?

– Poderia colocar esse cartão dentro da caixa de correio que há no fim dessa rua?

– Claro, tudo bem. – Isabella recebeu o tal cartão, não estava fechado, nem dentro de um envelope. – Vai mandá-lo assim mesmo?

– Sim.

Sem perder mais tempo, Isabella voltou a sua caminhada com o cartão em mão. Olhou-o por cima e percebeu que estava destinado a polícia. Não havia endereço nem nada. Somente “à Polícia”. Vencida pela curiosidade, ao chegar perto da caixa de correio, assegurou-se de que não havia ninguém por perto (como se um estranho pudesse imaginar que a correspondência que ela tinha em mãos não lhe pertencia). Abriu o cartão para ver do que se tratava. Para sua surpresa o cartão trazia uma única frase aparentemente sem sentido. O que isso queria dizer?

– Tsc, tsc. Que coisa feia ler a correspondência alheia – Isabella virou-se assustada, a mesma pessoa que lhe entregara o cartão apareceu sem que ela percebesse. – Odeio gente mexeriqueira. Sabe o que eu faço com elas?

Isabella nem teve tempo de fazer ou sequer pensar qualquer coisa. A faca cortou sua garganta com velocidade surpreendente. O sangue espirrando longe, pintando de vermelho a calçada, a parede, a caixa de correio e assinando com sangue o cartão caído no chão. Isabella desabou no asfalto debatendo-se como um porco no abate.

Por fim, parou.

– Bilhete entregue. Espero que a polícia encontre. – e foi-se embora levando o corpo.

No chão ensanguentado, jazia um simples cartão manchado de sangue com os dizeres:

“Aqui, ela foi morta.”

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Elizabeth acordou naquela manhã de quinta-feira sentindo-se recuperada do resfriado que tinha pegado no dia anterior. Esfregou os olhos lembrando-se do sonho que tivera. Sonhara com o dia em que conhecera Ciel. Sempre que se lembrava daquele dia, sentia-se imensamente feliz. Mas por alguma razão, naquela manhã, aquele sonho a deixara triste.

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Ciel faltara à aula e Liza não conseguiu falar com ele. O celular do garoto chamava, mas ele nunca atendia. Era incrível como a escola parecia ainda mais monótona sem o Ciel. Embora o dia sem o jovem tenha sido exatamente como os dias com ele. A única diferença era ter que realmente prestar atenção às explicações, pois não tinha Ciel para lhe ajudar. O professor de Literatura começou a falar sobre o Realismo. O professor de Matemática passou umas três páginas de exercício de cálculo. O Professor de Língua Inglesa perguntou quem tinha feito o resumo que ele apenas mencionara na aula passada, mas não dissera se era realmente um trabalho. Pegou toda a turma desprevenida.

– Quem fez ganhou um ponto. Quem não fez perdeu dois. – disse o professor ranzinza.

Toda a turma ficou indignada, mas há muito aprenderam que questionar ou reclamar só faria o professor distribuir mais notas negativas. Liza o odiou profundamente. Era por isso que sempre estava com a corda no pescoço naquela matéria.

O senhor Cranston, professor de Geografia, que Ciel não suportava (Liza também não ia com a cara dele), passava mais tempo dando bola para as alunas do que explicando alguma coisa. O que era uma pena, pois Elizabeth até gostava da matéria. A antipatia dos dois pelo professor era consequência da afeição que eles, e todos na escola, tinham pela senhorita Bathory, a bibliotecária. Os dois professores eram namorados de longa data, no entanto o cafajeste galanteador não parava de ficar jogando cantada nas alunas, nas outras professoras, nas funcionárias e em qualquer coisa que vestisse saia. Cranston era bonito, educado, atencioso, um Romeu. Talvez seu único defeito fosse ser mulherengo. Pobre senhorita Bathory, como podia ser tão cega a ponto de não perceber que era traída?

E foi justamente a bibliotecária a surpresa daquele dia comum. A diretoria a escolheu para substituir a falecida professora Mary Margareth nas aulas de Arte, pelo menos até que eles encontrassem um novo professor. O que era difícil, depois da morte horrível da professora, alguns começaram a criar uma espécie de lenda urbana sobre o cargo estar amaldiçoado. Se estava ou não amaldiçoado, ninguém sabia de fato, mas assim que a Senhorita Bathory entrou, preencheu todo o lugar. Era bonita. Com seus compridos e lustrosos cabelos negros e olhos igualmente escuros. Óculos discretos. Um jeito gentil, quase tímido, de falar, mas com um grande poder de controle e firmeza. A professora favorita de Ciel, Liza sabia. A mulher sempre indicava bons livros a ele.

O dia terminou com a aula do Professor de alemão, o senhor Hubberman, que deu um texto complicadíssimo para que eles traduzissem em casa. Elizabeth e Dimas se reclamavam do exercício zerado, se Ciel estivesse ali....

A jovem se perguntava o que teria acontecido. Onde Ciel estaria? Com quem estaria?

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Queridos Phantomhive

Primeiramente, gostaria de agradecer por mais uma vez terem atendido ao nosso apelo. Muito obrigada.

Como já devem saber, várias mulheres do nosso maravilhoso país foram brutalmente assassinadas. Como se essa monstruosidade não fosse o suficiente, outros pais e mães de famílias, filhos e filhas, cidadãos inocentes têm desaparecido sem deixar vestígios. E os que têm desaparecido não são poucos.

Em outras circunstâncias, assassinatos em série e desaparecimentos não seriam algo tão extraordinário que a polícia não soubesse resolver. Mas isso em outras circunstâncias. Então, qual a circunstância atual?

Há alguns dias, um representante da Corte dos Serafins me informou que algumas pessoas na Europa conseguiram esconder a existência de quimeras. Ainda não sabemos exatamente quantas quimeras escaparam da execução dos Serafins, se são artificiais ou naturais, quais poderes possuem, ou se seus criadores são amigos ou inimigos. Por enquanto, a existência de cinco quimeras está confirmada, sendo que uma dessas criaturas estava escondida aqui mesmo na Inglaterra. Tudo o que sabemos é que elas foram roubadas e logo em seguida, os primeiros assassinatos e desaparecimentos ocorreram.

Não sabemos quem é nosso inimigo ou o que ele pretende fazer com as quimeras roubadas. Mas se estas quimeras sobreviveram até agora, podemos ter uma ideia do perigo que nos aguarda. Antes que esse inimigo conclua seu plano maligno, peço aos meus leais Cães de Guarda que resolvam esse caso.

Atenciosamente,

A Rainha

Ciel estava na sala de visitas na casa do Sebastian. O garoto e Richard escutavam o akuma ler a carta da Rainha em voz alta. Sebastian, que sempre se mostrava indiferente a tudo, ao ler a carta, não conseguiu evitar uma expressão intrigada.

– Claus Midford te entregou isso?

– Não... – Ciel respondeu, constatando que estava certo. Esse tal detetive Midford tinha mesmo ligação com Sebastian. – Um cara esquisito que me entregou, ele disse que Midford estava resolvendo outros problemas.

– Como ele era?

– Cabelo comprido e quase branco, alto, meio maluco....

– Ele tinha uma cicatriz no rosto ou no pescoço?

– Não. Eu teria visto se ele tivesse uma. O nome dele é Mark Callaway.

– Aquele filho da mãe! – bradou Richard – O que ele veio fazer aqui? E porque Claus o trouxe?

– Quieto!

– A carta estava dentro de um cilindro de prata e... É verdadeira?

– O recipiente abriu com o seu sangue?

– Hum... – Ciel parou um instante ao ouvir a pergunta, na hora em que o lacre se rompeu, não passou pela sua cabeça que o seu sangue tinha feito aquilo, achou que tivesse ativado ou apertado alguma coisa. – Sim. Eu não sabia que os adornos eram cortantes.

– E não são. É um feitiço de lacre. Só abre com o sangue do destinatário. A carta é verdadeira. E alarmante.

– Pelo tom da carta achei que fosse algo sério, mas não sei exatamente por que. O que realmente é uma quimera? – o garoto disse “realmente”, porque conhecia aquela quimera das lendas greco-romanas, criatura metade isso e metade aquilo que cuspia fogo e sabe-se lá mais o que.

– Quimera é uma criatura hibrida resultante da união de duas espécies. São instáveis e extremamente perigosas. Isso quando sobrevivem.

– Como assim?

– Não é de hoje que humanos e demônios tentam criar quimeras, usando magia negra ou branca, alquimia e até métodos absurdos chamados de ciência. Mas as quimeras nunca vivem por muito tempo, sejam elas naturais ou artificiais. No entanto as únicas quimeras que sobreviveram causaram tanto estrago que, sempre que uma surge sobre essa terra, os Serafins imediatamente executam os criadores e a criatura. E agora temos mais perguntas do que respostas. Um: quem criou as quimeras e com qual objetivo? Dois: como conseguiram ocultá-las dos Serafins? Três: como a Corte e a Rainha ficaram sabendo da existência delas? E quatro: como isso se relaciona com os assassinatos?

Ciel sentia-se meio perdido, era como faltar um mês inteiro de aula e voltar justamente no dia da prova. Olhou para Sebastian que encarava a carta com irritação, pelo visto Callaway tinha razão, o demônio não sabia sobre todos os segredos. Quem saberia então? Ciel tinha uma resposta em mente.

– No passado, alguns faziam sacrifícios humanos para dar vida as quimeras, não é? – começou Richard – E se estiverem fazendo o mesmo?

– Pode ser, mas as vítimas encontradas não apresentavam o padrão de ritual correto. – Sebastian explicou.

– O quê?! Desfigurar as pessoas, cortar os pedaços, espetar agulhas e sei lá mais que tipos de torturas, me parecem ser o tipo de coisa usado em ritual de magia negra... E daquelas bem pretas, meu amigo.

Sebastian suspirou como se tudo aquilo fosse enfadonho.

– Muitos psicopatas já fizeram isso mesmo não tendo nenhuma ligação com o sobrenatural. Eu quis dizer que as vitimas não apresentam os padrões de sacrifício humano usados para criar quimeras.

– Ah. Quem melhor do que um demônio pra saber, não é?

– E se as vítimas forem uma distração para algo maior? – Ciel soltou sem querer, atraindo imediatamente a atenção dos dois homens. – Vocês julgam que todos os desaparecidos viraram comida de kroboro, mas e se no meio desses, alguns estiverem sendo capturados para outros fins?

– Você pode ter razão, Ciel – Sebastian disse analisando a possibilidade. Ciel não demonstrou, mas sentiu-se um pouquinho orgulhoso por ter dado um bom palpite.

– Você disse que os assassinatos revelam uma personalidade humana, mas só um demônio pode invocar kroboros. Talvez sejam realmente os dois, um humano e um demônio trabalhando juntos. Se uma quimera, ou estar em posse dela, é algo tão perigoso assim, seja lá o que o inimigo planeja fazer com ela, precisaria de uma distração para por o plano em ação. Um assassino em série seria perfeito para concentrar a atenção da policia em tentar encontrar o responsável pelas mortes. Mas ainda sobrariam vocês. E se o inimigo souber sobre os Cães da Rainha? Vocês precisavam impedir que os kroboros matassem mais pessoas, certo? Com tantos deles comendo gente aqui e ali, como poderiam ter certeza se dentre tantos desaparecidos, um não foi realmente devorado? Se mais um desaparecimento fosse anunciado, o que vocês concluiriam?

– Que fora mais uma vítima dos kroboros. – Sebastian admitiu. – E o pior é que realmente não dá para confirmar isso.

– Alguém provavelmente está contando com essa reação de vocês e da polícia. Estive na delegacia hoje à tarde, fui levar uns papéis para meu pai, eram encaminhamentos. Eles estão enviando os casos dos desaparecidos para unidades menores, ou destinando os casos para policiais novatos, estão concentrados apenas em encontrar o Serial Killer. O Departamento de Policia estava um caos, eles não sabem o que estão procurando exatamente.

– E não estão totalmente errados. Se um demônio estiver envolvido, não poderemos encontrá-lo tão facilmente se ele não quiser. Em outras palavras, temos que nos esforçar em dobro para achar o assassino antes da polícia. Ele nos levará ao seu parceiro demoníaco. Então poderemos...

– Senhor Michaelis! Senhor Michaelis! Senhor Mic...

Dimas irrompeu na sala berrando a plenos pulmões. Quando viu Ciel, paralisou-se instantaneamente, seu rosto ficou branco como um fantasma. Olhou para Sebastian como se pedisse desculpas por ter feito uma grande idiotice.

– Tudo bem, Dimas – Sebastian disse. – Seu amigo, Valentine, já sabe sobre o legado da Casa Phantomhive e sobre os Cães da Rainha. E... – Sebastian virou-se para Ciel – ...pelas atitudes recentes dele, acredito que tenha aceitado o convite.

Ciel deu de ombros.

– Pode-se dizer que sim.

– Não há algo que você queria dizer, Dimas? – Sebastian indagou, voltando-se novamente para o outro jovem.

– Sim. Seja bem vindo, Ciel! – cumprimentou com um enorme sorriso no rosto.

– Isso não, tolo. Você entrou aqui aos berros, o que ia dizer?

– Eu ia....? Ah!! Sim, ia sim. É muito importante.... O que era mesmo? – o garoto começou a dar soquinhos na testa tentando lembrar. Os outros três reviravam os olhos. – LEMBREI! O assassino fez mais uma vítima. O corpo foi abandonado no Winton Park no Eccles, não há muita coisa lá, só um monte de árvores e alguns campos de futebol. A grama estava bem aparadinha, deu até vontade de correr lá. Consegui tirar uma foto da mulher antes que a polícia chegasse. Essa tinha algo diferente. Uma mensagem. Vejam.

Dimas pegou o celular, procurou a foto e mostrou aos três. A mulher estava com o corpo aparentemente intacto, não fosse a garganta degolada, não era uma visão muito agradável. Dimas deu zoom na imagem, até que fosse possível ler algo escrito no braço dela.

“ Denn die Toten reiten schnell”

– O que está escrito? – Richard perguntou.

– Só sei que é alemão, mas eu não entendi. – Dimas falou coçando a cabeça. Deveria prestar mais atenção nas aulas do professor Hubberman, mas alemão era tão difícil. Nunca achou que fosse realmente precisar saber alemão.

Ciel puxou o celular para ver melhor e leu. Exibindo sua pronuncia perfeita do idioma alemão.

– Denn die Toten reiten schnell. Significa: “Pois os mortos cavalgam céleres”. – Ciel parou para pensar um pouco – É uma frase do poema Lenore do escritor alemão Gottfried August Bürger. O poema faz parte das baladas góticas do século XVIII, famoso por ser um dos precursores da literatura sobre... vampiros. Embora os personagens do poema não fossem considerados vampiros. O poema fala sobre um homem que volta dos mortos para levar a sua noiva. Essa mesma frase também é citada no livro Drácula de Bram Stoker. O nosso professor de Língua Estrangeira mencionou o poema durante uma aula sobre literatura alemã, eu o procurei pra ler por que... – porque se sentia atraído pelo sobrenatural, era o que ia dizer, mas não disse. – Enfim, o que isso quer dizer? Vampiros não existem, não é?

A sala ficou em silêncio.

– Puxa! – Dimas exclamou – O que é que eu fico fazendo em aula? Eu não lembro nada disso tudo que você falou.

– Não aparece muito sangue na foto. – disse Richard.

– Não havia mesmo. Só ela. – Dimas respondeu.

– Isso quer dizer que ela foi morta em outro lugar. Pra facilitar o nosso trabalho de busca. – Richard falou com sarcasmo enquanto coçava o queixo.

– Dimas vá ao Darjeeling Chá e informe a Ruby sobre tudo. – Sebastian disse – Richard, vá até o Winton Park e verifique toa a área, faça algumas perguntas e...

– Já sei, não deixar que a polícia perceba que estou xeretando. – o homem acendeu um cigarro, ajeitou o casaco marrom e saiu com Dimas em seu encalço.

– E eu faço o quê? – Ciel perguntou.

– Vá pra casa.

– O QUÊ?! Você me encheu a paciência e faltou me deixar louco pra ajudar... Como é que vocês dizem? “Manter o legado dos Phantomhive” e agora me manda pra casa?

– Não é isso. Você ainda precisa aprender algumas coisas. Enfrentar demônios sem saber o básico é suicídio.

– Eu me virei até agora.

– E quase morreu. Na primeira vez eu estava lá e na segunda vez, Ruby estava lá. Eu estava ocupado com a Amanda, e se Ruby não estivesse por perto naquela hora? Já pensou nisso? –Ciel olhou para o lado emburrado. Sebastian segurou o queixo do jovem. – Por que todo esse desapego à própria vida? Fique em casa hoje. Aceite pelo menos essa ordem minha, pelo menos dessa vez. Vem, vou levá-lo em casa.

Sebastian deu carona para Ciel até sua casa. Permaneceu pensativo, o que foi estranho, pois geralmente Sebastian é quem fica provocando e Ciel é quem fica quieto e emburrado, mas algo incomodava o demônio. E Ciel odiava não saber o que estava acontecendo. Embora tivesse descoberto muitas coisas, sentia que essas eram apenas a ponta do iceberg. Quando entraram na rua de sua casa, viu o carro do pai logo à frente.

– Para aqui. Meu pai está entrando em casa, ele vai me encher de perguntas se nos vir.

– Namorando escondido, é? – Sebastian ironizou.

– O quê?! Claro que... Cala a boca. – Ciel ficou vermelho de vergonha. A palavra namorado, propriamente dita, ainda não passara pela sua cabeça. O garoto abriu a porta do carona e saiu do carro.

– Não vai me dar um beijo de despedida?

– Vai pro inferno. – balbuciou o jovem fazendo o moreno rir.

Sebastian ficou olhando o adolescente entrar na casa. Seus olhos adquirindo um tom de vermelho brilhante.

– Seus dias felizes estão terminando, Ciel. Estará preparado?

O demônio olhou para as próprias mãos sobre o volante do carro. Deu a ré no jaguar preto e foi embora.

.

.

.

– Onde estava ontem? Eu liguei pra você várias vezes.

Elizabeth e Ciel caminhavam para a escola.

– Estava ocupado. Escuta Liza, preciso conversar com você. É importante.

Elizabeth sentiu um aperto no coração.

– Pode ser depois da aula? – a loira perguntou e, sem dar tempo para que Ciel desse qualquer resposta, emendou uma falação sem fim sobre os mais diversos assuntos.

Ela sabia que o namorado não gostava de muita conversa e por isso vinha se controlando há anos, mesmo assim continuava a falar. Ciel jamais dissera tão seriamente que precisava conversar com ela. Normalmente ficaria feliz em ouvi-lo. Mas uma angustia a perturbava. Estava com medo do que ele pretendia dizer.

E se ela tiver feito algo que aborreceu o garoto. Tentava se acalmar. Talvez estivesse se estressando à toa. Ciel apresentara uma melhora no seu humor ultimamente. Queria acreditar que tal mudança fosse por algo que ela tenha feito, mas no fundo, no fundo, sabia que era graças ao novo amigo Sebastian. E por mais que dissesse a si mesma que estava sendo uma boba, não conseguia deixar de sentir uma pontinha de ciúmes. Doía-lhe ter de admitir que tudo o que fizera durante todos esses anos não ajudou Ciel em nada.

Ciel tentou falar com ela durante o dia todo, e Liza que sempre corria atrás dele parecia fugir. Em sala, ficou discutindo com Pauline o episódio de alguma série de TV. No intervalo, saiu apressada dizendo que estava morrendo de fome. Quando Ciel juntou-se a mesa, Liza saiu arrastando Pauline para o banheiro dizendo que tinha que retocar a maquiagem. No fim do dia, Liza saiu correndo dizendo que tinha prova na aula de esgrima. Ciel tentou ligar pra ela, ela apenas atendeu dizendo que não podia falar e desligou. Ou Elizabeth estava se vingando dele ou ele realmente não estava com muita sorte.

Ciel queria conversar com Elizabeth. Explicar e esclarecer as coisas. Dizer à garota o que realmente sentia por ela e por Sebastian. Sabia que ela iria chorar, mas se ela o escutasse talvez aceitasse numa boa. Talvez.

Sabia que qualquer um lhe diria que ele estava brincando com fogo por se meter com alguém como Sebastian. Mas Ciel não estava brincando. Não lhe importava se Sebastian realmente gostava dele, se era homem ou humano, queria apenas estar com ele. E surpreendentemente, a cada dia, menos se importava com qualquer tipo de convenção social. Como Angie dissera, quando estava com aquele homem, ou demônio, todo o resto era insignificante. Somente uma coisa ainda o incomodava: Liza. Sentia que jamais se entregaria verdadeiramente a esse novo sentimento enquanto estivesse preso ao compromisso com Elizabeth. Pela consideração, respeito e estima que sentia pela amiga, sim, apenas amiga, não podia permitir que a farsa continuasse.

No entanto, por mais que tentasse contar a ela, a garota escapava-lhe como a água entre os dedos.

Aquele dia estava sendo deveras estressante. Ficou o tempo todo procurando uma oportunidade de falar com a amiga, mas sempre algo o interrompia. Pra piorar, o maldito Mason e sua turma não perdiam a chance de importuná-lo. Ciel o odiava cada vez mais, ainda mais ultimamente, que trazia um sorriso cínico no rosto como se tramasse algo. Talvez estivesse apenas esperando que Ciel revidasse ali mesmo na escola, onde poderia causar um grande estardalhaço. Ciel não sabia o que Ivan estava tramando, mas estava. Que tentasse qualquer coisa. Aquele cretino. Poderia até ir expulso, mas arrancaria sangue daquele nariz.

Quando estavam sós na sala, Dimas entregou a Ciel, a pedido de Sebastian, um livro bem antigo. O livro era de tamanho médio, capa dura com uma espécie de trinco nas laterais. As páginas eram decoradas com ilustrações pouco agradáveis de diversas criaturas. O texto fora escrito a mão. Classificação dos Demônios e Outras Criaturas Negras por Aodh Ferghus.

– Sebastian mandou você estudar tudo. Ruby e Richard mandam bem nas armas, eu me viro com os punhos e você pode se especializar em hierarquia demoníaca. – dissera Dimas.

– O que Sebastian espera que eu faça, que eu acerte os demônios com o livro?

– Só segue as instruções dele, tá? Eu achei que ele estava brincando no inicio e me dei mal, quase fui capturado. Ele falou “Da próxima vez eu mesmo te jogo para os kroboros”. – falou tentando imitar o tom sinistro e ameaçador de Sebastian – Depois disso eu tomo cuidado com os dois tipos de demônio, os que estão contra nós e o que está do nosso lado. Vai por mim, isso nem é o pior. O Despertar, esse sim é terrível, eu quase não consegui voltar.

– O que é o Despertar?

– Não posso dizer. Você não está pronto ainda. Sebastian me mataria. Só precisa saber que só será um Cão de Guarda completo quando passar pelo Despertar.

Ciel, Dimas, Liza e Pauline voltavam da escola reclamando do trabalho absurdo que teriam pra fazer em casa. Ciel estava aborrecido, pois novamente estava cercado de pessoas, como poderia conversar com Elizabeth assim? O jovem não sabia exatamente sobre o que os outros falavam, mas logo o assunto comida entrou na roda. Provavelmente, quando se volta faminto da escola o cérebro tende a pensar apenas nisso. Liza informou a Pauline sobre o café que conhecera. Obviamente falava do Darjeeling Chá. Insistiu que todos fossem fazer um lanche no lugar, Ciel foi o único a resistir, mas como era a minoria, foi arrastado.

Estavam a uns cinco estabelecimentos de distância do café, quando os primeiros pingos de chuva começaram a cair do céu. Os quatro correram em direção ao Darjeeling para abrigar-se. Ao entrarem no café, com a chuva ganhando força às suas costas, os jovens avistaram Sebastian numa mesa do fundo conversando com Ruby. Liza, muito entrosada, acompanhada do espaçoso Dimas, dirigiu-se até Sebastian, que aparentemente, não se incomodou que todos se sentassem na mesma mesa que ele.

Elizabeth apresentou Pauline a Ruby e começou a falar de mil coisas, Dimas começou a contar histórias cômicas que aconteceram com ele, tão absurdas eram, que não se sabia se ele era realmente tão desventurado ou se estava fazendo piada para as garotas. Ciel e Sebastian apenas se cumprimentaram pelo olhar. O mais velho achando graça do aborrecimento do jovem ao ver seu lugar tranquilo ser engolido pela balburdia dos colegas.

Acontece que o Darjeeling tinha naquela tarde outro novo cliente que se ocultou ao ver os quatro entrarem. Ficou observando-os escondidos. Em dado momento, Elizabeth levantou-se e foi até o balcão comprar seus tão amados cupcakes. O observador viu ali a chance perfeita de por seu plano de vingança em ação.

– Olá, Li-za. Que surpresa te encontrar fora da escola. – Elizabeth virou-se e encarou Ivan Mason. O garoto aproximou-se devagar, tirando os fones do ipod do ouvido.

– Me deixa em paz, Mason. Vai procurar a sua turma. – o delinquente a rondava tão próximo que podia escutar o chiado alto da música que escapava dos fones.

– Nossa! A gatinha tem garras. Sabe... eu gosto de você, é. Você é uma pessoa muito legal, muito amiga, amiga mesmo. – Esgueirava-se em torno da garota como um tigre faminto. – Não é toda garota que aceitaria fazer o que você faz por um amigo.

– Do que você está falando?

– Do Valentine, é claro. É preciso ser muito altruísta para fingir ser a namorada de um amigo pra que ninguém descubra que ele é... gay. – praticamente sibilou a última palavra como uma serpente destilando o veneno.

Elizabeth virou o rosto para Ivan, sem ter certeza de que o ouvira direito.

– O quê?

– Eu disse que você finge ser namorada do Ciel pra que ninguém descubra que ele é gay. Isso é legal da sua parte, eu não teria coragem de fazer isso. Quem diria, não é? – abafava um risinho dissimulado – Se alguém me contasse eu não acreditaria, se a turma soubesse...

– Que absurdo você está dizendo? Ciel não é gay. Eu sou mesmo a namorada dele.

– Sério?! Eu nunca vi vocês se beijarem, por isso achei que fosse um tipo de joguinho de vocês, além do mais, já vi Ciel com outros caras de forma mais... cê sabe, mais íntima.

– Qual o seu problema Ivan? Não se cansa de inventar mentiras e de perturbar as pessoas?

– Oh, não, senhorita Wilson. Não estou mentindo e posso provar. Imagine que lá estava eu caminhando tranquilamente por uma rua qualquer –, o jovem gesticulava como se estivesse encenando para uma plateia de teatro – quando me deparo com uma cena nada comum. Se eu contasse, ninguém acreditaria, por isso gravei pra que ninguém colocasse a minha palavra em dúvida. Se não acredita em mim veja o vídeo.

Ivan ficou atrás de Liza, esticando o braço na frente do rosto da garota de maneira que ela pudesse assistir ao vídeo no celular. Apoiava o queixo no ombro da loira esperando ansiosamente pelo impacto que as imagens causariam.

De inicio Elizabeth achou que fosse mais uma troça boba de Mason, mas seus olhos rapidamente reconheceram os personagens no vídeo. Sebastian e Ciel conversavam, embora o vídeo não tivesse áudio, numa rua pouco movimentada ao lado do jaguar preto que ela já conhecia. “O que tem demais nisso?” ela disse irritada. “Continue” insistiu maliciosamente o jovem ao seu ouvido. Para seu completo espanto, Liza viu Sebastian inclinar-se sobre Ciel, que estava encostado no carro preto, e beijar-lhe ternamente os lábios. O coração de Liza começou a acelerar angustiado. Como ele teve coragem de tomar tamanha liberdade? A garota pensou, achando que seu querido namorado fora pego de surpresa. Mas contradizendo as explicações que seu cérebro criava para o que seus olhos viam, viu Ciel corresponder ao beijo do outro, enlaçando o pescoço do mais velho com a ternura de um amante. Não pode ser verdade. “Isso é uma montagem... só pode ser” a voz saiu num sussurro.

– Não é não. E faz tempo que eu gravei isso.

Liza sentiu como se um enorme peso tivesse caído sobre ela. Por mais que não quisesse acreditar, sabia que aquilo não era uma montagem. Era real. E quando acontecera? Desde quando Ciel tinha esse tipo de relação com aquele homem que sempre a tratou com tanto respeito? Notou que o Ciel do vídeo usava o uniforme escolar, o Sebastian vestia uma camisa branca, colete cinza e cachecol preto. Já o vira vestido assim, mas quando? Chegou a uma resposta quando viu o Moreno entregar ao Ciel uma caixa azul de cupcakes do Darjeeling.

– Se você realmente... acha... que é namorada dele, então, acho que ele estava enganando você. Todo esse tempo. Que cruel da parte dele. Ele deve ter pensado que você nunca descobriria. – Ivan sussurrou no ouvido da jovem, como o próprio Lúcifer ao seduzir Eva.

O jovem coração queria saltar do peito. Os cantos dos olhos começaram a encher-se de água, afogando os orbes verdes até que as pálpebras não foram mais capazes de conter as lágrimas, despejando-as sobre a pele de porcelana.

O coração e o orgulho estavam feridos. Duas vezes traída. Traída por aquele que amava e por aquele em quem confiou. Traída de forma cruel. As venenosas palavras de Mason fazendo a fúria e a indignação crescer em seu peito. Os lacrimosos olhos verdes saltaram do celular para a mesa no fundo do café onde o grupo conversava animado. Como se uma venda tivesse sido arrancada de seus olhos, pôde ver o que não vira até então. Como os dois sentavam próximos, os sorrisos carinhosos de Sebastian, as faces rosadas do jovem em resposta, os olhares cruzados cheios de significado e cumplicidade. A maneira como se tocavam minimamente sem que ninguém percebesse, talvez nem eles mesmos percebessem que o faziam, mas faziam. Elizabeth sentia sua garganta arder, como se estivessem enrolando-se em nós apertados. Não respirava direito. “Acho que ele estava enganando você. Todo esse tempo. Que cruel da parte dele”. Sim, muito cruel com alguém que fizera tudo por ele, que o ama mais do que tudo.

As palavras de Mason ficaram rondando sua mente. Não enxergava mais nada, não ouvia ninguém. Por um instante, a garota sentiu que estava num espaço vazio, onde apenas ela existia. Percebendo apenas a música que vinha do fone de ouvido de Mason, que ainda estava ao seu lado. Um trecho da melodia fora captado por seus ouvidos trazendo-a de volta para a realidade.

…I believe in you

Eu acredito em você

I can show you that

Eu posso te mostrar isso

I can see right through all your empty lies

Eu posso ver através de todas as suas mentiras vazias

I won't stay long, in this world so wrong

Eu não ficarei por muito tempo, neste mundo tão errado.

Say goodbye

Diga adeus

As we dance with the devil tonight…

Enquanto nós dançamos com o diabo esta noite

Elizabeth afastou-se do balcão e encaminhou-se até a mesa a passos largos. Era a personificação da fúria na forma de um anjo loiro.

Dimas narrava com grandes gestos e trejeitos um episódio em que fora perseguido por um cachorro e perdera o sapato em sua fuga desesperada. Falava alto e às vezes até imitava a carranca zangada do cachorro, em sua inocência ou mesmo falta de tato, nem percebia que as pessoas das mesas vizinhas o observavam como se vissem um louco. Pauline e Ruby pouco se importavam, caiam na gargalhada, aumentando a algazarra na mesa. Lá se foi meu recanto tranquilo, Ciel pensou. Sebastian afastou um pouco o cabelo que cobria os olhos do jovem, constrangendo-o quando os olhares se cruzaram. Ciel estava tão distraído em esquivar-se dos olhares intensos que o espreitavam e em observar a algazarra do Dimas, da Ruby e da Pauline que levou alguns segundos para entender o que aconteceu a seguir.

Estava entretido na conversa animada quando fora subitamente atingido por um jato de água, causando uma rápida sensação de afogamento que o deixou desnorteado. Olhou para seu uniforme que escapara da chuva, agora encharcado. Depois percebeu uma voz e um rosto em fúria.

– Como pôde? Eu confiei em você, eu acreditei em você! – Liza falou profundamente magoada. Todos no café viraram-se espantados para a cena súbita e inesperada. Só então Ciel percebeu que Liza havia jogado um copo de água sobre ele. Percebeu os olhos vermelhos e chorosos da amiga.

– O q... – tentou perguntar por que ela tinha feito aquilo, mas a garota disparou pela porta de saída, deixando a mochila, o guarda-chuva e os amigos pra traz. – LIZA! – Ciel a chamou atônito e, como se levasse um choque, soube que a garota tinha percebido. Fora descoberto antes que pudesse contar. Mas como? O que ele fizera de errado? Que atitude idiota sua teria o delatado, o impedindo de fazer uma confissão adequada à amiga? Olhou para o Sebastian meio perdido.

– Tudo bem. Pode ir – o moreno respondeu firme. E Ciel saiu pela porta à procura de Elizabeth.

Assim que chegou a rua, Ciel fora primeiro apanhado pela chuva. Olhou para um lado e para o outro e conseguiu ver os longos cabelos loiros e molhados de Liza virando a esquina. Correu o mais rápido que pôde para alcançá-la. Gritava o nome da moça, mas ela o ignorava. Foi se aproximando até conseguir agarrar o ombro feminino, fazendo-a parar e virar-se para ele.

– Elizabeth esper...

– NÃO ME TOQUE! – o grito indignado atravessou a chuva, atraindo a atenção de alguns guarda-chuvas curiosos que passavam pelas ruas e calçadas.

– Liza, me deixa explicar...

– Explicar o que, Ciel? Que durante todo esse tempo, você estava me escondendo coisas, as quais, eu acredito, tinha o direito de saber? Como, por exemplo, sua sexualidade ou seu namoro secreto. Isso não é justo! EU que sempre estive do seu lado. Eu sempre amei você, com todas as minhas forças. Não houve um dia sequer em que eu não tenha pensado em você. Tudo o que eu fazia, fazia pensado se te agradaria ou não. Tomando cuidado pra não ser o tipo de pessoa que você odeia, controlando-me pra não irritá-lo ou ofendê-lo. Eu sempre pensei no seu bem estar, no seu humor, no seu contentamento. E pra quê? Você nunca se importou comigo de verdade. Como pôde fazer uma coisa dessas comigo? Você nem o conhece direito. Como pode ser tão egoísta?

– Egoísta, eu? Tudo o que fiz até hoje foi por você, pra não magoá-la, não vê-la triste. Eu não sou indiferente e nem tão frio a ponto de não perceber o seu sentimento por mim. Eu gostava de você, gosto, sempre gostei. Mas você sempre foi para mim uma amiga muito querida com quem eu podia contar. Eu não queria uma namorada, mas quando você fez o pedido, como sempre, atendi ao seu capricho, para não vê-la triste.

– Capricho? Quer dizer que só aceitou namorar comigo por que sentiu pena?

– Não, Liza. Pena não...

– Pena sim! Sentiu pena da idiota medíocre que vivia atrás de você mendigando ninharias de afeto e atenção. Você nunca me amou de verdade. Nunca se importou verdadeiramente com os meus sentimentos. Eu tentava te dar amor e você sempre arredio...

– O quê? Você que é a egoísta mimada. Sim. Você é quem não se importa com os outros. Não consegue enxergar o que as pessoas a sua volta sentem. Você só vê o que deseja ver. É claro que eu me importo com você e Deus sabe o quanto eu me esforcei e tentei te amar como eu sei que você me ama. No entanto, meus sentimentos por você nunca saíram do berço do amor fraternal que enlaça os irmãos e os amigos mais íntimos. Mas isso não bastava pra você. E quanto eu me martirizei por não conseguir te retribuir o mesmo sentimento. Por vezes achei que havia algo de errado comigo. Durante muito tempo eu estive fingindo sorrir, fingindo estar feliz, fingindo ser o garoto perfeito, pra te agradar, mas eu não sou assim. Eu fingia não pra você mais fingia pra mim mesmo. E pela primeira vez em tanto tempo eu me sinto realmente vivo. E não preciso simular felicidade ou raiva, basta eu ser como sou e ele me aceita. E quando estou com ele, que ironia, sinto vontade de rir, mas me controlo por puro e tolo recato. Nas poucas horas em que passo com ele, sinto-me mais enamorado do que me senti em nove anos com você.

– Mas eu amo você, Ciel. Se me deixasse realmente me aproximar de você. Poderíamos voltar a ser como éramos quando crianças. Éramos almas gêmeas, lembra? Você era tão alegre e brincalhão e cheio de vida.

– Esse é o seu problema, Liza. Eu não sou mais assim e dificilmente voltarei a ser. Você não me ama. Você ama um garotinho que não existe mais. O Ciel que você amava morreu.

– Eu sempre fui a garota que você queria. Acreditei que assim você gostaria de mim aos poucos e um dia, poderíamos ser um casal feliz.

– Não, Liza. Eu não quis que você fosse de um jeito ou de outro. Era você quem queria que eu fosse exatamente como você sonhou. E esse sonho te cegou, não te deixou ver que eu, você também, nós mudamos. Eu errei ao não te contar de imediato. Mas tão perdido e assustado fiquei, que precisei primeiro me achar e me organizar. Não pretendia te enganar ou te fazer de tola. Tenho tentado te contar, mas você sempre fugia e a oportunidade escapava e a conversa era adiada.

– Era isso que queria me dizer?

– Sim.

– Ciel me dê mais uma chance. Talvez você só tenha se encantado por ele porque eu não fui muito carinhosa ou afetuosa ou... Deixe-me tentar te mostrar que você pode se apaixonar por mim.

– Elizabeth, você não entendeu nada do que eu... – o jovem fora impedido de falar. Elizabeth roubara-lhe um beijo. Os lábios macios da jovem pressionando os dele. Um beijo repentino e umedecido pela chuva. Elizabeth se afastou, encarando, ansiosa, os olhos azuis. Finalmente seu primeiro beijo, embora não tenha sido no contexto que tinha imaginado. – Oh, Liza. Seu primeiro beijo tinha que ser com alguém que você ama muito.

– Mas esse alguém é você! – disse impaciente. A loira percebeu, para sua profunda tristeza, que o beijo não surtira nenhum efeito sobre Ciel. O conselho do jovem trazendo para ela a lembrança do beijo registrado no vídeo, e uma constatação terrível: Ciel amava Sebastian.

Os olhos de Elizabeth caíram sobre os próprios sapatos molhados. Queria que a chuva a dissolvesse. Aquilo parecia um pesadelo. Seu mundo desmoronara completamente. Tentou caminhar novamente, desalentada, em direção a Ciel.

O adolescente achou que ela fosse tentar beijá-lo novamente.

– Eu amo o Sebastian. – confessou com firmeza pondo um ponto final no assunto, o semblante sério.

A face da loira corou de imediato, espantada com a declaração aberta. Sempre sonhou com o dia em que Ciel diria isso, mas o destino tratou de pregar-lhe uma peça, arrancando da frase o nome Elizabeth. O que Liza mais temia aconteceu, e da pior maneira possível. Perdera Ciel. E o perdera para outro homem. Um demônio saído sabe-se lá de onde para seduzir e rouba-lhe o único a quem amou na vida. Estava com o orgulho ferido e queria tanto que Ciel sentisse a sua dor que gritou o primeiro insulto que lhe veio à mente:

– Eu te odeio! – a pior mentira já contada por ela e pôs-se a correr pela chuva.

Dessa vez Ciel não a seguiu. Elizabeth correu sem rumo, com os pingos de chuva a raspar-lhe o rosto. Chorava compulsivamente. Correu até não aguentar mais, até tropeçar e desabar sobre os joelhos. Apoiando os antebraços sobre o chão alagado, molhando completamente a manga e a saia do uniforme. Seu peito doía tanto que sentia que ia morrer. Queria morrer de fato, se não fosse de amor, que fosse de dor mesmo.

Ciel ficou alguns instantes parado na chuva. Esperava que Elizabeth um dia fosse capaz de perdoá-lo. Ao contrário do que ela achava, ele realmente se importava. E a tristeza da amiga o abateu mais do que imaginou. Era exatamente por isso que pretendia contar com calma. Mas ela sempre com seus caprichos... Deu no que deu. Mas como teria descoberto? Pensou se devia voltar ao Darjeeling, mas não queria que Sebastian o visse naquele estado.

Ciel foi para casa. Ouviu mil e uma reclamações da mãe e da irmã sobre andar na chuva e pegar um resfriado e coisa e tal. Ficou no quarto tentando livrar-se da incomoda sensação de culpa que o abatera. Eram mais de oito horas da noite quando ouviu a mãe bater a porta do quarto.

– Ciel, a Helen ligou. Disse que até agora a Elizabeth não chegou em casa. Ela quer saber se a filha não estava com você se não sabe de nada.

Que inferno! Agora ficaria preocupado com aquela inconsequente. Pensou em ligar pra ela até lembrar-se de que as mochilas tinham ficado no Darjeeling. Uma hora depois a senhora Valentine voltou a bater na porta. Dessa vez mais cautelosa.

– Ciel, Helen disse que Liza chegou em casa chorando, se trancou no quarto e não quis falar nada. Aconteceu alguma coisa?

Ciel ficou em silêncio. Por fim disse que eles tinham terminado. A mãe quis saber por que. Felizmente Angie, provavelmente imaginando o que teria ocorrido, conseguiu fazer a mãe deixá-lo em paz e adiar as perguntas pra outra ocasião.

Em seu quarto, Elizabeth, tomada pela fúria, começou a rasgar cartas e poemas de amor nunca entregues, jogou fora os diários escritos por uma menina boba, começou a rasgar as fotos. Olhou para um mural na parede e, uma a uma, foi arrancando as fotos de recordação, até que uma lhe refreou. Observou atentamente duas fotos em que o Ciel aparecia. Limpou todo o mural e colocou nele apenas as duas fotos. Sentou-se sobre a cama e pôs-se a fitá-las com a atenção de um devoto.

A primeira foto trazia Ciel ao seu lado retratado aos oito anos de idade. Um largo e gostoso sorriso juvenil. A segunda foto trazia Ciel e Liza novamente, aos quinze anos. Ciel sorria também, mas era um sorriso tímido, vazio. Observou atentamente os dois Ciel e lembrou-se do semblante do jovem quando estava com Sebastian. Olhou para as fotos por horas a fio. As lágrimas correndo silenciosas. Parecia estar em transi ou em estado catatônico. Mas depois de um longo período, ela realmente enxergou o Ciel. O Ciel que se recusara a ver.

.

.

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Na manhã do dia seguinte, a campainha da casa dos Wilson tocou. Helen foi atender a porta e deparou-se com um homem de terno e gravata, bem aparentado e de pasta na mão, ao seu lado um senhor mais velho e mais alto, igualmente bem vestido, loiro e de olhos verdes.

– Pois não?

– Bom dia, senhora. Esta é a residência da senhorita Elizabeth Wilson? – perguntou o mais baixo.

– Sim. É minha filha. – respondeu desconfiada.

– Ela se encontra?

– Está lá em cima... ela tem aula agora...

– Precisamos falar com ela sobre um assunto de suma importância, com a presença dos pais.

– Claro. P-posso saber do que se trata?

– É referente a um testamento do qual ela é beneficiária. Poderia chamá-la, por favor?

Elizabeth ainda não sabia, mas choraria outro mar de lágrimas.

Notas finais do capítulo
A música que aparece nesse capítulo é Dance With The Devil do Breaking Benjamin. era a música que eu estava ouvindo quando escrevia a cena da briga do Ciel e da Liza.
........

Vamos lá...
Me atrasei e muito na entrega desse capítulo, eu sei, mas trabalhar e estudar é fogo, há momentos em que realmente vc fica completamente sem tempo.
Se não bastasse a falta de tempo, tive uma crise de criatividade medonha. embora soubesse o que tinha que acontecer nesse capítulo, não conseguia desenvolvê-lo. finalmente, no domingo passado tive tempo. Passei o domingo inteiro escrevendo, é verdade, as primeiras dez páginas e o resto foi saindo durante essa semana. E acabei de ajeitar agora. portanto, me avisem se tiver algum erro absurdo ou sem nexo, pois não tive tempo nem paciência pra revisar.

Sei que não teve sebaciel. Sei que não ficou muito bom, mas foi o melhor que consegui. pelo menos consegui fazer com que os fatos ocorressem nesse capítulo, agora Ciel tá oficialmente solteiro :)

Bem continuo sem tempo, por isso essa nota podre e sem conteúdo, e por isso já estou indo. tenho que começar o capitulo 15 logo.

espero que tenham gostado. deixem suas críticas e opniões pr favor.

até o 15


Bjs, Tai =^.^=




(Cap. 15) Desejos Consumados

Notas do capítulo
Oi gente^^Estou envergonhada, demorei oficialmente um mes pra atualizar, mas saibam que não foi de propósito.Gostaria de agradescer a Takara 13, Alice, Bocchan, Suelen Michaelis e Yukari_shii por favoritarem e a todos que comentaram.Esse capitulo é dedicado a Shasha das Alcaparras e a Liv que foram as primeiras a pedi-lo.espero que gostem.Atenção: o capitulo é longo, aconcelho ir ao banheiro, beber uma água e trazer um salgadinho caso dê um sono durante a leitura.Boa leitura amores o/

Capítulo 15: Desejos Consumados

ANTES

O relógio ainda nem marcara sete horas da manhã quando alguém ligou pedindo que a polícia fosse verificar um local, o qual poderia ser a cena de mais um assassinato. Numa rua qualquer, em um dos bairros mais pacatos de Liverpool, a polícia encontrou uma enorme poça de sangue, nesta havia um cartão com uma mensagem que comprovava o crime. No dito lugar, o chefe de polícia, Roger Valentine e seu assistente, Harris, esperavam Midford.

– Alguém mexeu no local ou tocou naquele cartão? – o detetive Claus Midford perguntou aos dois policiais assim que os avistou.

– Não – Roger respondeu –, os vizinhos encontraram o sangue assim que saíam para o trabalho e contataram a polícia. Não mexeram em nada. Mandei isolar todo o local, apenas o Perito e sua equipe entrou lá pra colher pistas. Essa é realmente nova. Geralmente o assassino nos deixa um corpo, exceto aquela garçonete que foi abandonada próxima a Avenida Druitt ainda com vida. Agora temos a cena do crime, mas não temos o corpo. Por que fazer questão de indicar o local em que a vítima foi morta?

Roger não perguntava para Midford, perguntava para si mesmo. Tentava achar uma razão, por mais doentia que fosse, para toda aquela brutalidade.

– Ele está brincando conosco – Claus falou. O que ele realmente queria saber é se esse assassino estava tentando provocar a polícia ou outra pessoa.

A equipe da perícia tirava fotos e tentava descobrir ao redor do sangue qualquer coisa que fosse de alguma ajuda. Midford decidiu fazer algumas perguntas para os moradores, como ele sabia sobre a existência do sobrenatural era possível que ele conseguisse alguma informação que outros policiais desconsideraram.

– Chefe Valentine – Claus falou –, envie aquele cartão ao seu datiloscopista mais eficiente, deve haver alguma digital, marca ou qualquer coisa naquele papel. E peça ao chefe da perícia que me apresente todos os dados coletados assim que eles terminarem aqui.

Claus fez todas as perguntas possíveis, mas, como sempre, ninguém viu nada. Roger Valentine colocou várias viaturas por toda a Liverpool em busca do corpo da vítima. À tarde, seu filho Ciel viera finalmente entregar-lhe os papéis com os dados dos desaparecidos, ainda mais essa: os desaparecidos. O que estava acontecendo na Inglaterra? Pediu que as unidades menores de polícia fizessem as buscas. Nas últimas horas da tarde, ele mesmo, Roger, e Claus foram ajudar nas rondas, mas nada fora encontrado ainda. Um dia inteiro de buscas infrutíferas.

Por volta das cinco horas da tarde, Midford e Claus terminavam a vistoria de mais um quarteirão, e nada fora encontrado. O sol brilhava forte num céu cheio de nuvens. Roger estava rezando para que não chovesse ou as evidências que já eram poucas, desapareceriam.

– Chefe! Detetive! – Harris veio ao encontro deles com um celular nas mãos – encontraram o corpo de uma mulher em Winton Park no Eccles. Pedi para a polícia militar fechar o local e impedir os curiosos de se aproximarem.

– Fez bem, Harris. Vou chamar o Perito. Encontramo-nos lá, detetive?

Claus assentiu com a cabeça, e Roger foi esvoaçando seus cabelos pretos, antes impecavelmente penteados, numa corrida até o carro. Harris virou-se para Claus.

– Detetive Midford, hum... A emergência contatou a polícia, uma diarista ligou pedindo socorro, pois sua jovem patroa não reagia. Quando a ambulância chegou, constataram que a mulher já estava morta. O número do senhor estava como único contato em caso de emergência. O nome dela é Amanda Villefort. Sua conhecida?

Harris viu o detetive fechar os olhos como se tivesse recebido um forte golpe no estomago, respirar fundo e soltar o ar lentamente.

– Enfim atingiu seu objetivo minha irmã. – balbuciou baixinho.

– Perdão, o que disse senhor?

– É minha irmã. Era. Minha irmã caçula.

– Meus pêsames, senhor.

Claus olhou para a poça de sangue e depois para o céu. “Em nome da Rainha, espero que tudo esteja caminhando para uma solução”, ele pensou.

Em Winton Park, o perito criminal realizava um minucioso exame externo do corpo sobre a grama recém-aparada, analisava tudo sem tocar nele. Fora o visível corte na garganta, a mulher não apresentava nenhuma outra lesão. Examinou o local em volta do cadáver, mas como em todos os outros casos, não foi possível coletar muita coisa. E ainda havia outro problema, esse assassino era tão minucioso, que o material que a pericia coletava não tinha ou não revelava nenhuma ligação com o assassino.

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Era noite quando Mark Callaway deixou os policiais e os investigadores com seus problemas e tentativas de dedução. Sempre era um trabalho enfadonho ter de cooperar com a polícia nesse tipo de caso, dizer o que eles precisam saber sem sequer mencionar demônios e o sobrenatural. Se os humanos soubessem tudo o que está envolvido nesse caso talvez eles fossem mais eficientes, ou não. Com certeza estariam mais preocupados do que estão agora. Mas esse caso não cabe à polícia, não. São “eles” que devem solucionar esse enigma.

Callaway entrou em sua sala escura. Seu local de trabalho era constituído de duas salas, uma pequena e uma grande. A menor era uma espécie de escritório, entulhada de caixas de arquivos e papéis, além disso, a sala tinha um odor nada agradável de produtos químicos que ficavam presos ali, já que ele mantinha o local sempre fechado e sem ventilação. A sala pequena dava acesso a maior, a Sala de Necropsia. A sala mais divertida, na opinião dele. Nessa sala os corpos eram limpos, analisados e armazenados até poderem ser liberados para os parentes.

Encaminhou-se para a segunda sala. Vestiu o jaleco e as luvas de borracha. Retirou o tecido branco que cobria o corpo reconhecido como sendo Isabella Enfield. As roupas haviam sido enviadas para o Instituto de Criminalística. O corpo já havia sido pesado e lavado. O rosto antes belo estava agora descorado e cinza, a garganta degolada exibia um corte violento e profundo.

– Com licença, senhorita – disse brincado antes de começar a examinar cada parte daquela inerte forma nua, desde as unhas do dedão do pé até atrás das orelhas. Cantarolando, Mark pegou um bisturi e posicionou sobre o tórax da vítima, fazendo um corte em forma de Y que ia do pescoço ao púbis.

Pôs-se a examinar os órgãos da caixa torácica e do abdome. Retirava cuidadosamente órgão por órgão e os colocava em um recipiente esterilizado para serem também analisados em seguida.

– A que devo a honra de sua visita, demônio? – indagou segurando um intestino nas mãos. Sua voz rouca ecoando pelo ambiente vazio e escuro.

Sebastian saiu das sombras e caminhou até um ponto em que a luz conseguia alcançá-lo. Seus olhos vermelhos estavam extremamente sérios. Acabara de deixar Ciel na casa dos pais e fora logo tentar descobrir o que estava acontecendo.

– O que veio fazer aqui? – pareceu mais uma bronca do que uma pergunta.

– Como assim, demônio? Eu trabalho aqui – sorriu de um jeito maroto, gesticulando com as mãos enluvadas manchadas de sangue. Espiava a reação impaciente do outro homem entre a franja acinzentada.

– Não se faça de tolo. Você entendeu a minha pergunta, Undertaker. E onde está Claus?

– Ele está resolvendo uns probleminhas familiares. Parece que a irmãzinha dele morreu. Chegou a conhecê-la, demônio? – perguntou cinicamente, pois sabia que a caçula dos Midford fizera um pacto com Sebastian. Sem tirar os olhos do corpo aberto, esperou o outro falar.

– Qual o seu interesse nesse caso para vir de Londres até aqui?

– É preciso algum? Ora, estou apenas conhecendo outros lugares, sendo útil... Hehehe, um sentimento desagradável esse, não é mesmo? A sensação de que você não é mais necessário. Já sentiu isso, demônio?

Tentar arrancar alguma coisa daquele homem, quando ele realmente não queria falar, era uma tarefa inútil. Undertaker enrolava e não respondia nada do que lhe era perguntado. O melhor era falar com o Midford, esse não poderia tentar enganá-lo.

– Conheci um garoto deveras interessante hoje. O novo Cão, eu suponho. Realmente impressionante hehehe. Uma alma rara. Mas, sabe hehehe, notei algo estranho nele. Tem certeza de que a alma daquele garoto suportará tudo? Eu poderia...

– Fique longe dele! Não sei o que você pretende Undertaker, mas sei que de alguma forma você está envolvido nisso tudo. Se me atrapalhar ou se meter com o Ciel, eu destruirei você com minhas próprias mãos.

– Hehehehe... É uma ameaça muito forte, vinda de um akuma que está com a corda no pescoço. Enquanto os Cães da Rainha não estiverem devidamente completos e preparados, você continuará enfraquecendo. E o garoto que você escolheu como líder ainda é fraco e instável, você sabe disso. Ele ainda não está pronto, submetê-lo a um processo tão delicado pode ser fatal. Por outro lado, você pode fazer alguns contratos, talvez nem todas as almas sejam apetitosas, mas dão alguma energia, não? A não ser que realmente queira aquele garoto. Bem, só não faça dois contratos ao mesmo tempo, lembre-se do desastre que foi a última vez que tentou manter dois mestres, hehehe. Nunca tinha visto a Corte dos Serafins tão furiosa.

Em milésimos de segundos, Sebastian erguia Undertaker pelo jaleco.

– Tenha cuidado com suas palavras, shinigami. Não me subestime – disse entre dentes.

– Oh, não, demônio. Nunca.

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AGORA

Por dois dias, Elizabeth não compareceu a escola ou deu qualquer sinal de vida. Nesses dois dias aconteceram muitos infortúnios. Logo Ciel descobriu quem fora o responsável por todo o problema com a Liza.

Não bastasse contar para Elizabeth sobre ele e o Sebastian, o maldito Mason tratou de colocar na internet um vídeo em que os dois apareciam se beijando. Diante de tal prova, não havia como negar qualquer acusação. Não demorou muito para que os alunos do Nottinghan começassem a fazer comentários maldosos nos corredores e olhá-lo de um modo estranho, alguns zombando outros repudiando. E cada vez mais alunos assistiam ao vídeo idiota. Se não estivesse com a cabeça em outros problemas e preocupado com Liza, talvez Ciel se importasse com as provocações dos colegas.

Felizmente, assim que ficou sabendo do vídeo, Dimas contou a Sebastian o que Ivan tinha feito. Por sua vez, Sebastian pediu – ou mandou – que Ruby desse um jeito de apagar os vídeos da internet. Uma hora depois o vídeo já não podia mais ser encontrado, mas o estrago já estava feito. Os que tinham assistido tratavam de contar para os que não tinham, sempre aumentando a história maldosamente.

Ciel passou o dia aturando piadinhas preconceituosas dos colegas. Os professores ou não percebiam o que estava acontecendo ou não ligavam. Afinal, adolescentes estão constantemente humilhando os outros, principalmente se a humilhação do outro desvia a humilhação de si mesmo.

As coisas não iam muito bem com Lizzy e com a escola, mas estava tudo indo muito, muito bem com Sebastian.

Depois da aula, Ciel foi até a casa do Sebastian. Mas ele não estava. Ruby, que ficara na casa a espera do garoto, contou-lhe que Sebastian tinha voltado para Londres. O homem fora resolver alguns assuntos empresariais relacionados às Empresas Midford, algo urgente, e como Claus não poderia chegar tão rápido quanto ele a Londres, sobrou para o akuma encarregar-se de todo o trabalho. Tantas informações novas haviam surgido que Ciel esquecera que Sebastian era realmente um dos responsáveis por uma companhia empresarial. Era de se esperar que sobrasse mais trabalho para ele, levando em conta que a Amanda, que era quem o ajudava nesse ponto, estava morta. Ciel se perguntava por que Sebastian se dava ao trabalho, sendo ele um demônio poderia fazer o que quisesse, ou não? A verdade é que não conseguia imaginar Sebastian dirigindo uma empresa. E com qual propósito? Para manter o seu estilo de vida, talvez. Mas Sebastian se importava com esse tipo de coisa? Ou será que os Midford tinham um contrato com Sebastian? Podia ser; isso explicaria a empresa ser tão bem sucedida. Quando se fazia essas perguntas, Ciel percebia o quanto não conhecia Sebastian. Queria tanto poder vê-lo agora ao mesmo tempo em que achava bom manter certa distância. Pelo menos o akuma não se demoraria em Londres.

Sebastian deixara Ruby encarregada do treino de Ciel. A garota deveria ensiná-lo a usar alguns tipos de armas. Ruby levou Ciel até o porão da casa. Bem, deveria ser um porão, mas o jovem surpreendeu-se ao encontrar um enorme salão de treino físico e de tiro, e um arsenal realmente impressionante. Ficou imaginando o que a polícia pensaria se encontrasse aquele lugar. Ruby mostrou sua parte favorita da sala: uma enorme parede ornada com todos os tipos e tamanhos de pistolas que se pode imaginar.

– Estamos indo para a guerra e não fiquei sabendo?

– Não. Mas é bom estar preparado para tudo. Você deve aprender a usar todas. Sabe, se eu morrer, você saberá como se virar.

Ruby falou de um jeito natural, mas a declaração pareceu de alguma forma errada, injusta. Ciel já vira Ruby em ação. Morrer? Que absurdo! Quem seria capaz de derrotar Ruby? Não soube bem explicar seu repentino orgulho pela mulher a sua frente, mas percebeu que, deles, apenas Sebastian era imortal. E os outros integrantes da dita “família” Phantomhive eram meros mortais sujeitos a morte.

O fato de Ciel saber segurar uma arma e atirar facilitou muito seu treinamento com Ruby. Apesar de excelente atiradora, a jovem não era lá uma boa professora. Ficava nervosa e constrangida toda vez que o adolescente perdia a paciência. E olha que Ciel a estava ajudando a ajudá-lo. O aluno ser mais autoritário que o professor realmente não era uma coisa boa. Pequenos problemas a parte, o treinamento fora bem sucedido e, até que Ciel aprendera rápido.

Às cinco e meia da tarde estavam os dois na cozinha do Sebastian tomando um copo de suco de laranja.

– Você conhece o Sebastian há muito tempo, Ruby?

– É. O conheci na Rússia há alguns anos.

Rússia?!

– Você já viu o piano que Sebastian tem aqui?

– Já. É bonito.

– Não sei se você chegou a ver, mas há uma inscrição nele. Um nome.

– Hm... – Ruby ficou um pouco tensa.

– L. Cavendish. Sabe quem é?

– P-perguntou p-pro Sebastian? – torcia as mãos.

– Não. Sei que ele me enrolaria e não diria nada. Se ele brigar com você, diga-lhe que eu a obriguei a falar e deixa que eu me entenda com ele depois. Mas, agora, diga-me o que você sabe.

A mulher pensou por um instante e com muita relutância falou.

– O L é de Lílian. Lílian Cavendish. Não sei muita coisa sobre ela, pois morreu antes mesmo de eu nascer. Sei que foi a mestre de Sebastian anterior a Amanda. E por alguma razão, Sebastian fez outro contrato, não sei com quem, sem ter concluído seu contrato com ela. Sebastian odeia qualquer menção a essa época, porque os problemas dele começaram aí. Ele fez alguma coisa que não deveria ter feito e foi punido pelos Serafins. E tudo começou pela morte de Lílian. Como eu disse, não sei muito, o Richard é quem descobriu algumas coisas, mas ele não quis dizer nem pra mim. Mesmo eu ameaçando deixa-lo sem... Enfim, Richard disse que preferia morrer a falar e que era melhor eu não me meter. Sabe, o Sebastian não é muito agradável quando é contrariado. Às vezes nos esquecemos de que ele é um demônio, e isso realmente não é bom. É tudo o que sei, você teria de perguntar para alguém que a conheceu.

– E suponho que não haja ninguém assim.

– Na verdade há.

– Quem?

– Você o conhece como Mark Callaway.

– O legista da Scotland Yard?

– Ele não é legista, nem é da Scotland Yard. Mas, sim, ele conheceu Lílian. Só não sei se você deveria falar com ele. Mas por que ficar se importando com alguém que já morreu há anos, não é? Afinal de contas, ele está aqui, lindo, maravilhoso e perfeição, com você. E vocês ficam tipo tão kawaii juntos.

– Tão o quê?

– Kaw...

– Que surpresa boa chegar em casa e encontrar você aqui, Ciel – dizia o recém-chegado Sebastian entrando na cozinha. – Você já pode ir, Ruby.

A moça fez um biquinho de desapontamento. O homem praticamente a mandara pastar. Já estava na porta da cozinha quando Sebastian a chamou.

– Ruby, você apagou aquele vídeo que eu falei?

– Sim, senhor! – ela disse batendo continência.

– Tem certeza de que apagou todas as cópias?

A pergunta fez a memória de Ruby viajar para a manhã daquele mesmo dia. Ela estava em seu apartamento. Sebastian acabara de ligar. Invadir alguns sistemas e apagar alguns vídeos na internet, alterar algumas informações, esse tipo de coisa era moleza pra ela. Ela mesma criara o programa para o pendrive que Sebastian usou para invadir os dados da empresa do tal Hector MacDonald. Em pouco tempo já havia eliminado qualquer rastro daquele vídeo. E como o Dimas conseguira apagar a cópia que o Ivan Mason tina no celular, enquanto os alunos tomavam banho depois da educação Física, ninguém jamais veria aquele vídeo novamente. Mas ver aqueles dois se beijando foi tão maravilhoso, ela quase tivera um ataque. Não, ela queria poder ver eles sempre.

– Que DVD é esse aí? – Richard perguntara com uma sobrancelha levantada, ao ver a jovem segurando o DVD e olhando para o mesmo como se fosse uma nota de cem dólares novinha.

– NADANÃO! Um yaoi novo que baixei, quer ver?

– Tô fora. Já terminou o serviço que o Sebastian pediu?

– Sim.

– Então vamos. Eu te dou uma carona até o Darjeeling Chá.

E Ruby guardou o DVD onde só ela acharia.

– Tem certeza de que apagou todas as cópias?

– Sim. Ninguém mais o verá. – ninguém além dela, foi o que pensou.

E saiu.

No instante em que ficou só com Sebastian, Ciel sentiu uma sensação de constrangimento. Há pouco sorrira internamente ao vê-lo entrar pela porta da cozinha, agora, recriminava-se por ter sentido saudades, por pensar nele o tempo todo. Tentava mostrar-se sério e indiferente, um desejo tolo de não parecer fraco ou controlável ou submisso.

– Não precisava fazer isso, eles continuarão me importunando do mesmo jeito.

– De qualquer forma, não permitiria que continuassem a humilhá-lo com aquilo. Até porque tive um pouco de culpa. Fui descuidado naquele dia. – aproximou-se do jovem, enlaçando-o pela cintura.

– Somente matando a todos os faria parar. – sentia a face corar com a proximidade.

– Não seja por isso. Agora, porque não falamos de outra coisa? Ou não falamos... – inclinou-se para beijar o jovem, mas esse se desvencilhou de seus braços e começou a afastar-se, indo para a sala.

– Eu estive pensando essa manhã, sobre os assassinatos, e me ocorreu uma coisa. – falava sem olhar para o homem que o seguira até a sala. Não sabia muito bem por que estava evitando ele. Ou talvez soubesse. Sentou-se no sofá, pegou a mochila, retirou dela uns papéis e espalhou-os sobre a mesa de centro. Havia a foto que Dimas tirara do corpo da mulher e uma foto do cartão, que Richard conseguira tirar ao entrar disfarçado no meio da equipe da perícia criminal. Sebastian sentou-se ao seu lado, apoiou um cotovelo no braço do sofá e o queixo na própria mão, olhando-o de um jeito estranho e divertido.

– Estou ouvindo. Prossiga.

– Todos os corpos encontrados até agora não nos dava nenhuma pista. Mas nesse último, o assassino nos deixou duas mensagens: “Aqui, ela morreu” e “Pois os mortos cavalgam céleres”. Ele não deixaria essas mensagens se elas não tivessem um propósito. Só precisamos saber qual é.

– O que lhe dá a certeza de que são mensagens?

– Ora, Sebastian – encarou os olhos castanhos –, o prazer do pecado está na sensação de perigo, na possibilidade de ser pego. Até agora ele tem sido tão perfeito que a polícia está extremamente longe de pegá-lo. Onde está a graça nisso? Ele quer cometer os crimes com a polícia a sua porta e, ainda assim, conseguir escapar sob o nariz da lei. Provando que ele é o mais astuto. Isso é divertido. Isso daria mais emoção aos crimes que ele comete.

– Espantoso!

– Sim. Tenho certeza de que temos uma pista aqui. Pra começar você poderia verificar se ouve alguma morte na rua em que...

Sebastian tirou as fotos das mãos do Ciel e jogou-as sobre a mesa. Segurou o jovem pela nuca e forçou um beijo. Tão repentino foi que Ciel não tivera tempo de escapar, restou-lhe apenas aceitar e retribuir. Quem conseguiria escapar dos lábios de Sebastian uma vez que o beijo era iniciado?

– Você pelo menos escutou o que eu estava dizendo? – Ciel falava emburrado, com a voz rouca pela falta de ar, o rosto vermelho, e ainda assim tentava parecer sério.

– Cada palavra. Mas, sinceramente, não estou com a minha vontade de falar sobre isso agora. Escute, Ciel... Não tem curiosidade de experimentar algo diferente? Algo mais... íntimo. –sussurrava ao ouvido do menor.

Ciel levantou e encarou o moreno com um olhar maldoso.

– Tenho. – segurou o queixo do homem levantando-lhe o rosto. Deu um beijo curto e encarou os olhos castanhos intensamente. – Mas hoje não.

Jogou as coisas dentro na mochila e colocou esta sobre as costas.

– Por que não?

– Em mim mando eu. E você me terá quando eu quiser. – Sebastian seria capaz de tomá-lo para si naquele exato momento. Mais o garoto foi tão determinado que se aquietou, mesmo sabendo que o jovem tinha unicamente a intenção de provocá-lo.

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Era uma tarde tranquila. O sol se escondia uma vez ou outra atrás das nuvens que planavam no céu sem pressa alguma. Sob o céu azul, estavam várias pessoas trajadas de preto, assistindo com grande pesar a cerimônia lúgubre. Pelo menos quase todos ali presente estavam pesarosos.

Lá estava ele. Corpo comprido e esbelto, de ar sombrio e olhar atraente. Não tinha mais nenhuma obrigação relacionada à Amanda Villefort – ou Amanda Midford como Ciel viera a descobrir depois –, ainda assim, lá estava Sebastian garantindo que o enterro dela saísse perfeito. Sebastian cuidou de todos os detalhes. Ninguém poderia dizer, depois daquela tarde, que o cortejo fúnebre de Amanda não fora tão belo quanto ela fora em vida.

Mesmo Claus Midford, que nunca gostava da presença de Michaelis, sentiu-se grato, pois dificilmente conseguiria preparar um funeral decente para a irmã em tão pouco tempo. Por outro lado, achava que era o mínimo que aquele demônio deveria fazer, uma vez que ele causara a morte da caçula dos Midford. Lembrava-se agora que a família ganhara uma nova herdeira.

Várias pessoas compareceram ao funeral: familiares, amigos da faculdade, colegas de trabalho e alguns conhecidos, como Ruby, Richard, Dimas e Ciel e sua família. Todos muito tristes com a repentina e inexplicável morte da Amanda.

Elizabeth e os pais, Helen e Edgar Wilson, estavam sentados na primeira fileira – as cadeiras destinadas à família. Liza, que não falava com Ciel desde o incidente e não olhara para ele desde o inicio do funeral, sentava-se entre a mãe e uma senhora bem velha. Ao lado da velha estava o detetive Claus. Apesar de velha, a anciã tinha uma aparência bem conservada, boa postura e qualquer coisa no semblante que passava uma sensação de ternura e autoridade. Era alta e elegante. Cabelos brancos com uma única mecha loira do lado direito, olhos extremamente verdes, “a marca dos Midford”, foi o que Sebastian dissera ao explicar a Ciel como tivera a certeza de que Elizabeth era a sobrinha da Amanda. Pelas rugas da idade, Ciel podia concluir que aquela mulher era a mãe de Amanda e Claus e, consequentemente, avó biológica de Liza.

Elizabeth sabia desde pequena que era filha adotiva. Os Wilson nunca esconderam isso dela, e tratavam de mimá-la como podiam para preencher qualquer vazio que viesse a existir. E esse vazio existia, embora Elizabeth amasse muito seus pais e achasse que tinha tudo o que queria. Mas toda criança adotada não consegue deixar de imaginar que seus verdadeiros pais não a quiseram e a descartaram como um simples objeto. A sensação de abandono sempre existe, com Liza não era diferente. Descobrir que na verdade sua mãe biológica foi enganada, e que de outro modo ela nunca teria abandonado seu bebê foi de certa forma reconfortante. Mas era uma sensação estranha e confusa, sobretudo triste, ao mesmo tempo em que ganhara uma nova família, ela também perdera uma mãe, um pai, uma tia e amiga. Como alguém reagiria a tudo isso de uma única vez?

Talvez por isso Liza estivesse como estava.

A garota usava um vestido preto simples, uma fita de cetim cinza cingia-lhe a cintura. Ela não chorava, mas tinha os olhos vermelhos e inchados, vidrados em lugar nenhum. O semblante deixava transparecer uma profunda melancolia. Ao ver a amiga, Ciel sentiu-se penalizado por ela, pois ele sabia como o medo e a tristeza podia destruir alguém. Torcia para que a amiga mostrasse ser a garota forte que ele sabia que ela era, pois, se a dor não a destruísse a faria mais forte.

Apesar de a cerimônia ter sido realizada naquele cemitério, o caixão não seria enterrado ali. O corpo da Amanda seria cremado e levado para o mausoléu da família, em Londres. Quando todos se levantaram para cumprimentar e dar os pêsames ao familiares, Ciel reconheceu um corvo que estava sobre uma lápide.

Ele admitia, era estranho o fato de ele “achar” que reconhecera o corvo, afinal aquele corvo era exatamente como qualquer outro. Mas algo lhe dizia que, aquele específico corvo era o de Evelyn. Afastou-se dos outros convidados e caminhou até a ave negra. Esta levantava voo e pousava na lápide mais adiante, distanciando o jovem cada vez mais da multidão. Impaciente, Ciel tentou chamar o pássaro, dando-se conta de que não sabia o nome dele. Que idiotice! Quem dissera que aquele corvo tinha nome? Estava ficando maluco mesmo. Deu meia volta, riu de sua própria bobagem e começou a voltar para os outros convidados.

“Pou”

Escutou a pronúncia de um nome a suas costas. Virou-se imediatamente balbuciando um “O quê?”.

– Eu disse que o nome do corvo é Poe.

Depois de tanto tempo, ali estava ela. Com seu vestido preto e vermelho. Os cabelos negros e curtos. A pele branca e os olhos bicolores de um azul e um vermelho intensos. Graciosa e misteriosa como sempre.

– Evie! – exclamou estranhamente feliz e surpreso.

– Eu mesma.

– Onde você estava? Por que desapareceu?

– Fiquei com medo.

– De quê?

– De você estar bravo comigo por eu ter te machucado. Não foi por querer, sabe? – a menina aproximou-se de Ciel e inclinou-se para ele como se fosse contar-lhe um segredo, automaticamente, Ciel inclinou-se também. – Eu não podia usar aquele tipo de poder, perco o controle quando uso eles, e você não podia ter me tocado enquanto eu os usava. – falava balançando o dedo em desaprovação, dando-lhe uma bronca.

– Sinto muito por não ter sido avisado disso com antecedência – ironizou.

– Não se preocupe, eu perdoo você. – falou de um jeito meigo e todo cheio de razão, indignando Ciel. A menina arrancou uma pequena margarida que crescia ao lado de um túmulo e sentou-se sobre uma lápide, balançando as pernas. Girava a pequena flor nos dedos e olhava o corvo bicar uma cruz de pedra logo adiante. Depois voltou a falar do nada. – Eu também me machuquei. Demorei pra me achar e te encontrar novamente. Do lado de fora, só posso ir aonde ele vai.

A menina observava o corvo com ar triste. Ciel não entendeu muito bem o que ela quis dizer.

– Então, por que você apareceu?

– Como assim?

– Sempre que você aparece, é pra me meter em alguma confusão ou ajudar...do seu jeito.

A menina olhou-o nos olhos e sorriu.

– Desta vez, eu senti saudades sua, por isso vim.

– Quando você me avisou de um convite que eu teria de aceitar, estava se referindo ao convite dos Phantomhive para ser um Cão da Rainha?

– Hum, hum.

– Quando falou sobre o assassino estar perto, não se referia ao Sebastian.

– Não. Por que achou que fosse ele?

Ciel não respondeu. Aquele dia foi tão confuso e Sebastian também não é do tipo confiável. Não é à toa que tudo se misturou na sua cabeça levando-o a conclusão errada. E encontrar o moreno com a Amanda morta também atrapalhou as coisas. Como Ciel poderia imaginar que Sebastian era um demônio e que Amanda tinha feito um contrato com ele?

– Tenho um aviso pra você. – Evie falou. Sua voz abandonava o tom doce e gentil e adquiria um tom sombrio. – Você só conta os seus maiores segredos para o seu amigo mais confiável. Mas se este passa a ser seu inimigo, então ele deve morrer. Antes que dê com a língua nos dentes ou que escreva o que ninguém jamais deve ler.

– O que isso quer dizer, Evie?

– Leia um livro.

Isso era uma piada? Estava pronto para dizer uns desaforos para a menina, quando viu os olhos delas se arregalarem em espanto e logo em seguida ouviu a voz de Sebastian as suas costas.

– O que está fazendo, Ciel? – os olhos do moreno o espreitavam com desconfiança.

Ciel olhou em volta e viu que Evie havia desaparecido.

– Nada.

– Estava falando sozinho.

– Não estava não. Vai ficar parado aí feito um dois de paus ou vai voltar comigo? – falou emburrado.

Ciel percebeu que segurava uma margarida na mão. Jogou a flor sobre o ombro, a qual caiu sobre a lápide que a pouco Evie estivera sentada. E seguiu entre as lápides.

Sebastian olhou para pequenina flor branca e leu o nome gravado na pedra: “Melissa Utterson”. Ninguém em especial. Sebastian viu o jovem se afastando, provavelmente exercendo a sua personalidade mais birrenta. O moreno sorriu, suspirou e pôs-se a seguir o jovem.

.

.

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O sábado amanheceu frio. Uma densa neblina cobria a maior parte de Liverpool. Embora a cidade ficasse próxima do mar, aquele fenômeno ainda era raro. Os carros tinham de transitar com os faróis ligados. O dia parecia noite. Não era possível enxergar a longas distâncias, não se via nada além de um cobertor branco. Alguns achavam o clima perfeito. Outros ficavam admirados. Outros um tanto apreensivos. E outros, temerosos.

Ciel passara a manhã em casa, tentando fazer os deveres da escola, mas sua mente teimava em lembrar-se do Sebastian. Iria vê-lo à tarde e a ansiedade do motivo de sua visita tirava sua concentração. A relação deles tinha ficado bem mais íntima e Ciel se perguntava "por que não?". Resolveu preparar-se logo, calmamente. Tomou um banho bem demorado, talvez o mais demorado de sua vida. Estava limpo. Nem mesmo acreditava que estava fazendo isso. E se fosse uma ideia ruim? Escolheu uma roupa apropriada para o dia frio. Até chegar a hora, estaria pronto ou desistiria. O que sua coragem achasse melhor.

Por volta das três horas da tarde, Sebastian foi atender a porte da sua casa. Era Ciel.

– Aqueles três idiotas virão aqui hoje? – perguntou já adentrando a casa. Usava um casaco preto e luvas para se proteger do frio.

– Não.

– Ótimo.

Sebastian trancou a porta e seguiu o jovem até a sala. Curioso.

Ciel parecia determinado e ao mesmo tempo receoso. Parou em frente ao sofá, mas não se sentou. As sobrancelhas quase unidas, no rosto, a sua costumeira expressão emburrada.

– Aconteceu alguma coisa? – Sebastian perguntou. Viu o garoto encará-lo, abrir a boca para dizer algo e não dizer nada, ficar vermelho e desviar o olhar. Sebastian sorriu de canto. – Deseja alguma coisa, Ciel?

O adolescente o olhou feio. Caminhou até ele e segurou seu pulso, dizendo:

– Só... Não diga nada.

Ciel puxou Sebastian pelo braço, guiando o homem escada a cima até chegarem ao quarto. Ciel parou na frente do moreno e, ficando nas pontas dos pés, beijou-lhe os lábios. Depois parou e fitou a camisa do maior.

– É hoje, Ciel? – Sebastian perguntou com um sorriso satisfeito.

– Hum, hum – respondeu constrangido, sem olhar o homem nos olhos.

– Estava tão determinado quando chegou. Tem certeza de que quer fazer isso? – Ciel assentiu com a cabeça. – Você não é obrigado a fazer o que não quer. Tem certeza de que não está fazendo isso apenas porque eu disse que queria?

– Se eu vim aqui é porque EU quero – respondeu zangado. Ao ver o sorriso no rosto do maior percebeu o que suas palavras significavam: a declaração do seu desejo pelo outro. – Por que esperar mais tempo?

– Tudo bem.

Sebastian passou as mãos pelos cabelos do garoto. Segurou seu rosto e o beijou nos lábios, depois na testa. Pediu que o jovem esperasse um pouco. Foi até o banheiro, voltou com um pequeno frasco que colocou sobre o criado mudo ao lado da cama. Abraçou o jovem por trás e sussurrou uma música:

Time waits for no one

O tempo não espera por ninguém

So do you want to waste some time,

Então você não quer perder algum tempo

Oh, oh, tonight?

Oh, oh, hoje à noite?

Don't be afraid of tomorrow

Não tema o amanhã

Just take my hand, I'll make it feel so much better tonight.

Apenas pegue minha mão, eu o farei sentir muito melhor esta noite

[...]

You've got to lose inhibition…

Você tem que perder a inibição...

Ciel virou-se para o moreno. Sentia seu coração acelerado.

Sebastian acariciou o rosto do jovem. Tocou-lhe os lábios por um momento, sentindo a maciez daquela rosada pele virgem. Passou o braço esquerdo pela cintura do menor puxando-o para mais próximo de seu corpo. Tomou-lhe os lábios num beijo.

A princípio, lento. Macio. Terno. Ciel sentia Sebastian sugar-lhe os lábios delicadamente, de um jeito carinhoso e ao mesmo tempo sensual, apertando seu corpo ao dele. As mãos correriam por seu corpo, às vezes sentia os dedos dele adentrando o seu cabelo, às vezes apertavam seu quadril. Sentia seu próprio coração bater cada fez mais forte. Seu corpo esquentando um pouco. Suas mãos trêmulas acariciavam as costas do maior. Um certo receio o amedrontava, mas o desejo o impedia de parar. Sebastian beijava-lhe o pescoço. O moreno tinha um cheiro terrivelmente agradável, um aroma sedutor que o atraia para a perdição. Sentia-se completamente envolvido pelos toques do outro, pela língua sedenta que invadia sua boca, tomando-lhe o ar e o sabor. Tocando e massageando cada canto de sua cavidade bucal. Dessa vez, Ciel não precisava se controlar, não precisava parar, nem ter medo de continuar como das outras vezes. Porque já havia se decidido, sabia o que queria e o que desejava. Pronto ou não, a partir dali não havia mais volta.

Era o ponto sem retorno.

Sebastian guiou-o até a cama, sem quebrar o beijo. Lentamente. Segurou a mão do jovem, mordendo a luva dele e tirando-a com os dentes. Tirou o casaco que o jovem usava, o pulôver azul escuro, e...

– Espera, espera... – Ciel interrompeu o outro, ofegante. Olhou o homem de um jeito misterioso. A curiosidade pelo corpo alheio e a vergonha do próprio se misturando. – Você primeiro.

Ordenou, inclinando o corpo para trás e apoiando os cotovelos sobre o colchão. Sebastian sorriu de um jeito malicioso e se afastou três passos da cama.

Retirou o colete e o largou ali mesmo no chão. Desabotoou os botões da própria camisa, um a um, de cima para baixo, revelando primeiro o peito, depois o abdome. Quando os botões acabaram, não tirou a camisa de imediato. Encaminhou os dedos para a fivela do cinto. Depois para o botão da calça e deslizou o zíper lentamente. Deixou que a calça escorregasse por suas pernas até tocarem o chão, deu um passo à frente, abandonando a peça de roupa para trás.

Vestia apenas a camisa branca aberta e uma cueca boxer preta.

O homem levou a mão direita até o peito, deslizando-a sobre o abdome. Segurou a barra da peça intima que contrastava com a pele alva, puxando-a para baixo, revelando seu baixo ventre e alguns pelos. Continuou puxando o tecido para baixo, mas antes que esse revelasse tudo, Sebastian soltou a cueca fazendo o tecido voltar ao seu lugar, cobrindo-lhe devidamente as partes íntimas.

Inconscientemente desapontado, Ciel olhou para o rosto do homem em busca de resposta. Sentiu o rosto queimar ao ver o sorriso cínico que se desenhava nos lábios do mais velho, dando-se conta de que devia estar observando com grande cobiça o outro despir-se. Sebastian tirou a camisa branca, e Ciel não conseguiu evitar que seus olhos se direcionassem para a única peça restante. O homem tinha formas perfeitas. Alto e esbelto. Músculos definidos, mas não exagerados. Simplesmente olhar para ele assim, seminu, já provocava um desejo tentador de tocá-lo, sentir seu calor, seu toque. Não fora justamente admirando aquele corpo que se sentiu excitado pela primeira vez?

Sebastian abriu os braços e sorrindo perguntou:

– Lhe agrado?

O jovem apenas fechou o cenho em resposta, irritado e constrangido com a audácia do outro. Seu coração parecia querer saltar do peito. Sebastian foi até ele. Ciel sentiu uma pontinha de arrependimento por mandar o mais velho despir-se primeiro, agora que o via mais de perto e sem as roupas, ficou mais receoso de livrar-se das próprias. O colchão afundou sob o peso do homem que se deitou sobre o corpo do jovem, tomando-lhe os lábios e abraçando sua cintura. Ciel teve até receio de tocar o outro, mas, antes que percebesse, suas mãos exploravam a pele macia e fria do maior, segurando os ombros largos. Sebastian pressionava-lhe o corpo com grande desejo, beijava-lhe com ternura e lascívia. Os beijos fugiam dos lábios e espalhavam-se pelo rosto, pelo pescoço, pela clavícula e pelos ombros do jovem, só para em seguida, fazer todo o caminho de volta, perdendo-se por completo entre os lábios juvenis.

O beijo era lento, porém, mais intenso, mais profundo. Não tinham pressa, aquele dia era unicamente para que pudessem apreciar o sabor um do outro com toda a atenção. Sebastian movimentou o corpo sobre o do garoto, arrancando-lhe um gemido entre o beijo. Interromperam o beijo por um instante. Os olhos se cruzaram com uma intensidade avassaladora, como se um fosse capaz de enxergar dentro do outro.

– Confia em mim?

– Hum, hum.

Sebastian levantou-se, e sem tirar os olhos dos do garoto, soltou o fecho da calça do menor. Nunca o barulho de um zíper se abrindo pareceu tão alto para Ciel; teve a impressão de que se alguém estivesse passando em frente à casa naquele momento, saberia que uma calça havia sido aberta e que um adolescente estava prestes a perder sua virgindade. O jovem levantou o quadril para que Sebastian pudesse puxá-la, quando a peça de roupa foi tirada, já se sentia completamente desprotegido. Não sabia o que devia fazer com as mãos ou com os pés; ficou paralisado.

O homem deslizou as mãos pelas coxas macias e quentes, apertando o quadril e a cintura, adentrando a camisa do jovem. Segurou o tecido da camisa e retirou a mesma pela cabeça do garoto, que levantou os braços para facilitar a retirada da roupa. Sebastian pousou as duas mãos sobre os ombros do adolescente. Estavam os dois com uma única peça, de joelhos sobre a cama.

Sebastian pediu que Ciel deitasse. Respirou o perfume maravilhoso que emanava da pele tenra. Deu um pequeno selinho nos lábios vermelhos do jovem e distribuiu beijos da boca até o umbigo do mesmo. E daquele ponto, deslizou a língua por todo o abdome do garoto até chegar ao pescoço. O ato libidinoso fez Ciel respirar fundo, surpreso. O mais velho sorriu, ainda nem tinha começado.

As mãos e a língua de Sebastian começaram a trabalhar juntas para proporcionar prazer ao jovem ou torturá-lo. Ele acariciava e massageava todo o corpo do menor, beijava aquela pele branca e pura, em seguida lambia a carne macia, provando do sabor que o garoto possuía. Tocá-lo daquela maneira era uma sensação indescritível. Ciel era como seu veneno. Ele maculava o jovem com sua impureza e sua luxúria, mas era aquele garoto que o aprisionava. A inocência da primeira vez, a descoberta do prazer, tão delicioso. Queria provocá-lo ao máximo, estimulá-lo, o prazer dele era seu elixir de ânimo. Cada gemido, cada ofego, cada vez que via Ciel morder o canto do lábio tentando prender um gemino, sentia-se mais e mais excitado. Lambia aquele corpo quente com desejo. Pressionava e massageava os mamilos rosados, algumas vezes sugando-os com vigor outras mordiscando de leve, apenas para ver o rosto do pequeno se contrair.

As carícias de Sebastian faziam seu corpo aquecer-se mais e mais. Sebastian lambia, beijava e sugava sua pele, e vez ou outra, voltava para beijar-lhe a boca. Alguns beijos eram rápidos e simples, outros invadiam sua boca, tocando cada parte de sua língua de maneira intensa. Em certo momento, Sebastian começou a beijá-lo lentamente, carinhoso. Era um beijo demorado. A mão do homem, deslizou por seu corpo novamente, mas, desta vez, continuou a descer, tocando o tecido da cueca, movendo a mão lentamente, acariciando o órgão que estava guardado ali em baixo. O toque surpreendeu Ciel, que se sobressaltou um pouquinho.

– Tudo bem, Ciel – Sebastian falou ao seu ouvido com uma voz sedutora e tranquila. – Já se tocou antes? Dessa forma? – começou um lento movimento para baixo e para cima, ainda sobre o tecido.

– Uma vez – Ciel prendia os gemidos na boca e um quase conseguiu escapar quando fora responder.

Sebastian voltou a beijá-lo e continuou com a massagem. Quando percebeu que Ciel já estava acostumado ao toque, adentrou a roupa íntima do garoto, sentido o falo semi-ereto sob seus dedos, prosseguiu com a massagem.

– Seb... Ahh.... – Ciel deixara um gemido escapar. O toque gelado e extremamente íntimo fazia seu corpo ferver. Sebastian continuava estimulando seu membro. Fechava os olhos tentando sentir melhor aquela onda de prazer, tentando controlar o próprio corpo. Movia o quadril algumas vezes, o que não passou despercebido do outro. Quanto mais Sebastian o masturbava, mais desejo sentia. Um anseio por mais daquele ser tão provocante quanto só um demônio poderia ser. Ciel ergueu o tronco, segurou o rosto do homem e o beijou com urgência. Respirando o aroma do corpo do mais velho, beijando-lhe o pescoço, sugando a pele. – Você está me torturando, Sebastian – sussurrou ao ouvido do homem.

– Não seja apressado – Sebastian retirou a mão e empurrou delicadamente o menor para a cama. – vamos ver o seu tamanho?

Sebastian livrou Ciel da cueca, deixando o garoto nu em pelo. Parecia que o coração do garoto sairia pela boca. O ar frio ao tocar sua pele dava uma sensação de choque. E a maneira como Sebastian olhou para seu corpo, lhe deu a impressão de que estava mais nu do que já estava. Se aquele olhar simbolizava a luxúria, então estava satisfeito por conseguir provocar a luxúria de um ser como Sebastian, embora não soubesse exatamente o que ele via no corpo de um adolescente sem graça.

– Você é perfeito, Ciel. As mulheres adorariam vê-lo agora.

Sebastian segurou o pé do garoto, beijou-o e o encostou ao próprio rosto. Suas mãos prosseguiram pela perna e a coxa, sempre apertando e beijando. Até que seus dedos tocassem a virilha, e caminhassem até o falo virgem. O jovem estremeceu ao toque. Sebastian segurou o membro pela base, pressionando os testículos, e iniciou um movimento de sobe e desce. Ciel apertava os lençóis com toda a força, tentando manter-se em silêncio a todo custo. Era uma tortura terrível, terrivelmente prazerosa. Sebastian aumentou a velocidade com que movimentava a mão, apertando mais um pouco o membro. Logo a pele do prepúcio se contraiu ao máximo, deixando toda a pele avermelhada da glande exposta. Ciel estava completamente hirto e rijo. Era o momento certo para o segundo passo.

Ciel viu Sebastian levar dois dedos a boca e sugá-los. Separou mais as pernas do garoto e tocou-o no seu ponto mais íntimo.

– O que vai fazer?

– Preparar você. Por favor, não se contraia dessa forma quando eu for entrar em você, poderá se machucar. – o sorriso afetuoso e o jeito preocupado com o qual falou, só deixou o jovem mais envergonhado ainda. – Relaxe. Relaxe. Vê, fica mais fácil. – À medida que Ciel ia relaxando, Sebastian ia introduzindo um dedo. – Dói?

O menor não olhou para ele, a jovem face corada apenas fitou o teto. Estava ofegante.

– Não. É só... Estranho, desconfortável. – “Ótimo” foi o que Ciel escutou Sebastian dizer e sentiu-o começar a movimentar o dedo em seu interior. Não doía mesmo, mas era uma sensação estranha e constrangedora. Sebastian movia o dedo e acariciava suas nádegas e a parte interna da coxa. Quando sentiu ser invadido por dois dedos, o moreno inclinou-se sobre ele, beijando-lhe os lábios e dizendo que estava tudo bem. Logo veio o terceiro e, desta vez, Ciel sentiu uma pontinha de dor e ao mesmo tempo uma sensação de volúpia inexplicável.

Sebastian desejou mais ainda o jovem ao constatar que ele havia se preparado antes de vir entregar-se, o que significava que ele realmente queria transar com o demônio. O moreno mordeu os lábios ao imaginar o garoto no banho. Os olhos castanhos viram com grande prazer a primeira gota do pré gozo surgir na ponta da glande. Sebastian não resistiu, lambeu aquele pequeno líquido, seus olhos adquirindo um brilho avermelhado e arrancando um gemido mais alto do menor. Deslizou sua língua pela ereção do garoto, lambia a virilha e os testículos até abocanhar por completo o membro.

– S-sebastian! Ahh... não...

Sebastian o sugava com intensidade e paixão. Ciel agarrou os fios negros do cabelo do homem que mantinha a cabeça entre suas pernas. Sebastian o sugava e estimulava sua entrada. Ciel sentia todo seu corpo tremer e queimar como se ardesse em febre. Suas unhas deixavam cinco marca avermelhada no ombro do homem. A boca e a língua de Sebastian tomavam seu pênis com tanto vigor que Ciel sentia que o mais velho fosse capaz de arrancá-lo fora. Uma tensão indescritível lhe invadia o corpo, seu baixo ventre sofria espasmos, seu membro latejava tanto que chegava a doer. Parecia que seu corpo estava preste a explodir.

– Sebastian, S-sebastian pare, eu não... não... humm – contorcia-se e cravava as unhas na pele do outro.

Sebastian sentiu que o jovem estava quase no limite. Aumentou a sucção até ouvir seu nome ser pronunciado mais uma vez antes de sua boca ser invadida por um jato quente. O prazer liquefeito do garoto. A pureza da inocência sendo perdida. A primeira vez que Ciel gozava na vida. E aquele sabor era sem igual. A única coisa que lhe dava a prova de que aquela alma era imensamente deliciosa.

Ciel deixou seu corpo suado cair sobre o colchão. Sentia uma onda de espasmos percorrerem cada músculo seu. Por um instante não conseguiu perceber nada além daquela sensação em seu corpo. Logo os beijos de Sebastian queimavam seu abdome. Estimulavam seus mamilos. O maior o beijou ternamente nos lábios e fitou os olhos azuis com ansiedade.

Ciel acariciou o rosto e os cabelos molhados de Sebastian, aquele demônio parecia mais bonito e mais sedutor suado como estava. Ciel o beijou na curva do pescoço, massageando-lhe o peito alvo e o provocando com uma mordida perto da orelha. O garoto o abraçou iniciando um beijo de língua, arrancando um gemido quase inaudível do mais velho ao pressionar propositalmente seu corpo contra o membro dele.

– Eu quero você, Sebastian – sussurrou no ouvido do outro.

– Se estiver pronto, prometo ser carinhoso.

– Se eu mandar parar, você para.

– E onde estaria a graça?

Sebastian guiou as mãos do jovem até o tecido de sua boxer preta. Ciel retirou a cueca do homem e se deparou com uma ereção maior que a sua. Olhou para o outro que se atentava para cada reação sua com grande prazer. Com um sorriso maroto ele disse:

– O que posso fazer? Você me excita.

Constrangido, Ciel começou a estimular o membro do adulto. Mantinha o rosto abaixado, fugindo dos olhares do outro. Os orbes azuis fixos no falo rijo em suas mãos. O membro era pulsante e quente. Sebastian deixou um gemido escapar de propósito, apenas para ver a reação do menor. Ciel, aos poucos, voltou a ficar excitado. Os dois sentaram-se de frente um para o outro, Sebastian colocou as penas do jovem sobre as suas; uma de cala lado de sua cintura. Puxou o jovem para mais perto de seu corpo, pressionando os dois falos entre os abdomes. Beijavam-se com paixão e carinho. Ciel depositava beijos no ombro do maior enquanto este acariciava os dois falos ao mesmo tempo.

– Está pronto?

– Sim.

– Vai doer um pouco, mas não precisa ficar com medo. Vamos fazer isso juntos. Se fizer o que eu disser, não machucarei você. – Sebastian usara um tom mais terno e gentil. Ciel não estava com medo, sentia-se seguro e, naquele momento, ele não queria estar com nenhuma outra pessoa. Mantendo a mesma posição dos corpos, Ciel repousou as costas no colchão de modo que Sebastian continuasse entre suas pernas. – Lembra como você se contraiu há pouco? Não faça novamente. Relaxe e fique calmo, quando sentir que está pronto me diga.

Ciel respirou fundo, segurando o travesseiro com as duas mãos. Sebastian pegou o pequeno frasco sobre o criado-mudo, desenroscou a tampa e retirou dali um tipo de gel, o qual espalhou sobre o próprio pênis e depois aplicou um pouco na entrada de Ciel, fazendo movimentos circulares ali. Posicionou a glande de seu membro no centro de Ciel e aguardou um sinal. Ciel assentiu com a cabeça e Sebastian pressionou seu membro contra a entrada do jovem, vendo com satisfação o rosto juvenil se contrair, o exato momento em que o menino abandonava completamente a infância, para conhecer os prazeres da vida adulta. A inocência roubada, não, a inocência entregue, e de boa vontade. Parou a penetração no exato momento em que viu a glande ultrapassar o esfíncter anal. Mandou o jovem relaxar novamente, e quando esse não estava mais contraído o penetrava um pouco mais. Ciel sentiu um pouco de dor mais nada tão insuportável, Sebastian controlava a penetração de modo que não o machucasse, e todo o tempo acariciava seu corpo e sua ereção. Sem causar dano ao jovem, Sebastian lentamente conseguiu entrar completamente naquele espaço apertado.

Ciel sentia um desconforto, todo aquele volume o fazia se sentir cheio. Não era todo dia que tinha um pênis inteiro em seu interior. A princípio, ficou quieto, tentou mover o quadril para ver se melhorava, mas conseguiu apenas arrancar um gemido de ambos. Ao sinal do adolescente, Sebastian retirou-se quase que completamente e o penetrou novamente, movimentava-se de forma lânguida, com estocadas profundas e lentas. Ele segurava o quadril do jovem com força, deliciando-se com a pressão daquelas paredes estreitas sobre seu membro. Era realmente prazeroso! E o melhor de tudo era ter a certeza de que aquele garoto era apenas seu.

Só de olhar a maneira sensual que Sebastian movia o corpo para estocá-lo, Ciel ficava mais excitado. Era a primeira vez que alguém o tocava de forma tão íntima. Os corpos suados, a respirações ofegantes, os gemidos mudos que ambos não tentavam mais esconder. Estavam entregues um ao outro. Os olhos azuis percorriam os músculos suados e o rosto adulto e bem-feito ornado por cabelos negros úmidos. Aquele movimento de vai e vem tocando-o cada vez mais fundo e massageando sua próstata. Não havia explicação. As investidas de Sebastian estavam cada vez mais rápidas e intensas.

– S-sebastian...

Sebastian deitou-se sobre Ciel, os corpos deslizando um sobre o outro, o membro do menor sendo comprimido pelos ventres. Encaixavam-se perfeitamente. Beijavam-se quando conseguiam. A dança luxuriosa dos corpos roubava-lhes o ar. Logo os movimentos que começaram lentos e cautelosos, tornaram-se mais urgentes e profundos. O barulho dos corpos se chocando era ouvido em todo o quarto. Ciel abraçava-se a Sebastian com desejo, movimentando o quadril para facilitar a penetração, mordeu o lábio inferior com tanta força que o fez sangrar. Sebastian sugou o sangue voltando a beijar aqueles lábios vermelhos com uma necessidade sem igual. A entrada do garoto parecia cada vez mais estreita. Mais apertado. Tão delicioso!

O corpo de Ciel ardia como se estivesse em chamas, não sabia se Sebastian queimava os lábios ao beijar sua pele ou se eram os beijos dele que queimavam seu corpo. Contorcia-se num prazer sem igual, deslizando seus pés pelas pernas do outro, tocando aquele corpo perfeito, o peito, as costas largas, o quadril que se movimentava libidinosamente, as nádegas macias. Tudo naquele homem parecia feito pra lhe seduzir e o levar a perdição. Estava em êxtase, enlouquecido pelo cheiro lascivo que emanava dos corpos. Estava no seu limite.

As mãos se entrelaçaram.

– S-sebastan, Seb... eu não.... eu vou... eu..

Balbuciava palavras sem nexo até que seu gozo foi liberado ente os corpos ainda em movimento. Os espasmos percorriam seu corpo ao mesmo tempo em que continuava a ser estocado. Sebastian deu três investidas e mais uma última investida mais profunda e sofrida, antes que Ciel pudesse sentir um jato quente invadir seu interior.

Ofegantes. Respirações descompassadas. Entreolharam-se com um reconhecimento cúmplice que só a intimidade era capaz de proporcionar. Ciel levantou o tronco e deu um selinho em Sebastian, deixando-se cair sobre o colchão novamente. Sentiu Sebastian sair de dentro de seu corpo e limpá-lo com um lençol, ainda tremia e as imagens rodavam em sua cabeça. O moreno beijou, carinhosamente, seu pênis – agora flácido e dolorido –, seu umbigo, seu peito, seu pescoço, seu queixo e seus lábios. Deitou-se ao lado do jovem e afagou seu rosto suavemente.

– Você foi maravilhoso. Descanse... Meu Ciel.

Ciel virou-se de lado e aconchegou-se no peito do homem que abraçou sua cintura. Sebastian podia sentir o cheiro maravilhoso que o jovem tinha, podia ouvir os batimentos cardíacos dele aos poucos se normalizarem. Ciel fechou os olhos sentindo o cheiro do corpo do outro; sentindo os dedos de Sebastian acariciarem sua pele nua. Ficaram um bom tempo deitados juntos, apenas sentindo a respiração um do outro. Até Ciel, cansado, pegar no sono.

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O jovem não fazia ideia de que horas eram, depois de tudo, ignorava completamente que estavam em plena tarde, e o tempo frio e fechado transformara o dia em noite. Uma noite apaixonada.

Quando Ciel acordou, estava sozinho na cama. Virou o rosto para o lado e viu a poltrona virada para a janela.

– Sebastian? – sussurrou com a calma de quem acabou de acordar. A cabeça do homem apareceu ao lado da poltrona buscando o dono da voz que o chamava. Levantou e foi em direção à cama. – SEBASTIAN!! – o jovem exclamou recobrando de vez a consciência. O homem parou.

– O que foi?

– V-você está nu. – disse baixinho desviando os olhos. Sebastian olhou para o próprio corpo e sorriu.

– E o que tem isso? Há pouco não tocaste em cada parte de mim? – Ciel franziu a testa, estava ainda mais envergonhado. Sebastian segurou o rosto do garoto entre as mãos e beijou-o ternamente. – Sabia que eu adoro essa sua cara emburrada? Está tudo bem com você?

– Hum, hum. Eu dormi muito?

– Uns quarenta minutos. São cinco horas.

– Tenho que ir pra casa. Posso tomar banho aqui?

– Só se for comigo.

– Não começa a se aproveitar, não.

Ciel levantou-se da cama completamente despido. Ao caminhar para o banheiro pôde sentir seu corpo dolorido.

– Tudo bem, Ciel. É normal na primeira vez. Sexo é uma atividade física e, como tal, requer prática.

– Está falando desnecessariamente. – gritou do banheiro. Ciel entrou sob o chuveiro e sentiu a água percorrer toda a sua pele. Fechou os olhos lembrando-se de cada toque. – Sebastian! – chamou.

– Sim? – o garoto ouviu a voz do lado de fora do banheiro.

– Eu gostei. – disse baixinho. Um humano não conseguiria ouvi-lo, mas o sorriso no rosto de Sebastian provava que um demônio podia.

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Assim que Ciel entrou pela porta de sua casa foi surpreendido por uma irmã encolerizada.

– CIEL ONDE VOCÊ ESTAVA?! VOCÊ E O PAPAI SÃO DOIS IDIOTAS QUE ANDAM COM O CELULAR DESLIGADO. EU LIGO, LIGO E NINGUÉM ATENDE ESSA JOÇA. TEM CELULAR PRA QUÊ? ANDA TÁ FAZENDO O QUÊ AÍ PARADO? ME AJUDA!

– O que houve? Por que esse desespero?

A garota andava de um lado para o outro, abrindo gavetas e retirando as almofadas do sofá.

– Mamãe entrou em trabalho de parto. Tenho que levá-la agora para o hospital. TÁ ESPERANDO O QUÊ? SE MEXE! VAI PEGAR A BOLSA LÁ EM CIMA QUE EU VOU LIGAR O CARRO.

– E a mamãe?

– Tá no carro, eu tô procurando as chaves que se enfiaram não sei... ACHEI!! Anda, Ciel!

Ciel correu até o quarto dos pais para pegar a bolsa do bebê e as coisas da mãe. Descia as escadas rapidamente enquanto Angie buzinava na porta da frente.

Bibibi Bibibi bibiiiiiiii!!!!!!!!! Biiiiiii!!!!!!!!!!!!

– ANDA LOGO, Cieel!!

– Angie querida, eu estou apenas tendo um bebê, não estou à beira da morte.

– Ficou maluca? Com todo o respeito. Se não chegarmos ao hospital a tempo eu terei que fazer o parto eu mesma aqui em casa. A senhora sabe todos os risco que um parto na sua idade oferece tanto a mãe quanto ao bebê?

– Obrigada pelo conforto filha. Tenho pena dos seus futuros pacientes.

– Obrigada mãe. Só estou sendo clara. CIEL SE VOCÊ NÃO DESCER LOGO COM ESSAS BOLSAS EU JURO QUE PASSO COM O CARRO POR CIMA DE VOCÊ!

– Eu já estou aqui. Não fique me dando ordens! Onde eu coloco essas coisas?

– No banco de trás com a mãe. Entra aí. Rápido!

Angélica pisou no acelerador e saiu procurando todos os atalhos que conhecia até o hospital.

– Angélica vá mais devagar. – pedia a senhora Valentine.

– Se eu for devagar não chegaremos a tempo.

– Se morrermos também não. – Ciel ironizou.

Enfim chegaram ao hospital. E a senhora Valentine foi imediatamente encaminhada para a sala de parto. Ciel e Angie ficaram na sala de espera. Esperando. Impacientes.

– Machucou o lábio? – Angie perguntou do nada.

– O quê?

– Seu lábio, tá ferido. – o garoto levou os dedos ao lábio inferior, sentindo uma leve ardência ao tocar a língua no local. Lembrando-se de como conseguira o ferimento.

– Devo ter mordido enquanto descia as escadas, aparvalhado por seus gritos. – mentiu sem dar maior importância.

Duas horas depois o médico veio até os dois irmãos.

– E então doutor? – Angie tomou a frente.

– Sua mãe passa muito bem. Tem uma saúde de ferro. O bebê também tem ótima saúde. Parabéns, vocês ganharam uma irmãzinha!

– Podemos vê-las?

– Claro. Pode entrar.

Ao entrarem no quarto, encontraram a mãe com um pequenino embrulho nos braços. Era um bebê rosadinho e dormia tranquilamente. Angie chovia paparicos e elogios sobre o bebe e a mãe. As duas tinham um brilho no olhar e uma alegria radiante que só o instinto maternal era capaz de provocar. Ciel sentia um estranho contentamento ao ver a pequena irmãzinha e ao mesmo tempo, uma estranheza de não saber o que dizer ou como agir, resignou-se apenas a comtemplar o pequeno ser nos braços da mãe.

– Que nome a senhora vai dar?

– Ainda não decidi. Vamos esperar seu pai chegar pra escolher.

– Ah não! Deixa-me escolher? Papai decidiu o meu nome, a senhora o do Ciel. Nada mais justo que eu escolher o da minha irmãzinha.

Angie e Hortence passaram um bom tempo discutindo qual o nome que mais combinava com a nova Valentine.

– Ciel pode tentar ligar pro papai novamente?

– Ok.

Ciel retirou-se do quarto por um instante. Tentou ligar para o pai umas duas vezes e somente na terceira tentativa, conseguiu avisá-lo. Caminhou pelo corredor do hospital tentando passar o tempo. Enquanto passava pela ala da maternidade, Ciel sentiu uma estranha tontura. Seu olho direito começou a arder novamente, parecia que a lente que cobria seu olho imperfeito estava em chamas. A vertigem repentina o levou a se apoiar na parede. Sua cabeça doía e mal conseguia pensar. Sentiu algo escorrer de seu nariz, assustou-se ao perceber que era sangue. Deparou-se com seu reflexo no vidro de uma das salas, assustado tentou estancar a hemorragia nasal, não sabia por que aquilo estava acontecendo. Ficou ainda mais atônito ao ver uma grande quantidade de sangue pingar no piso branco do hospital. O sangue escorria de dois profundos cortes em seus pulsos.

– Não. Eu não fiz isso.

Ciel tentava parar o sangramento, mas parecia que seu sangue se esvairia completamente.

Preocupada com a demora do irmão, Angie foi procura-lo. Encontrou o garoto caído no corredor, ele se debatia como se estivesse tendo um ataque.

– Socorro! Ajuda, aqui!

Logo, enfermeiros e médicos apareceram para acudir o adolescente. Perguntaram se ele tinha epilepsia, Angie informou que não. Tentavam acalmar o jovem. Quando Ciel parou de se debater, sua respiração parou. Um médico pediu um desfibrilador automático que foi imediatamente entregue por uma enfermeira. Ciel recebeu dois, três, quatro cargas elétricas até seu coração voltar a bater e ele voltar a respirar. Enquanto Ciel era levado para um quarto ainda inconsciente, Angélica se perguntava o que teria acontecido para provocar tal reação. Achou melhor não contar a mãe e esperar que o irmão acordasse. Ficou por alguns instantes observando o irmão deitado numa maca. Seu corpo estava intacto. Sem ferimentos.

Sem uma mancha de sangue sequer.

Notas finais do capítulo
E então, meu primeiro lemon E primeira cena de sexo que escrevo na vida.... peguem leve. Não, sério, o que acharam?...não sou boa nessas coisas....Nota de esclarecimento: "ciel tomou um banho demorado, talvez o mais demorado de sua vida. Estava Limpo", não quiz deixar claro, mas Ciel se preparou ( se é que vcs entendem) para sua tarde caliente com o sebby.Tive uma ideia, vou deixar vocês escolherem o nome da irmã do Ciel. aceitando sugestões. o nome que eu achar mais legal estará no próximo cap.a música que aparece na fic é "Illuminated" - Hurts....foi essa música que me inspirou pro lemon, se não conhecem, confiram, tem um ritmo sedutor.espero que não tenha ficado ruim....contando os dias para as férias.Beijos da Tai e até o cap. 16=^.^=




(Cap. 16) Armadilha Para Quem?

Notas do capítulo
Tai Bluerose ainda vive!

Olá novamente....não irei perder tempo com desculpas pq finalmente estou de férias... *_______________* ......e pq todos já devem estar cansados de esperar.

Muito obrigada a todos que comentaram, principalmente a Liv, vou terminar de responder a todos, ok?...obrigada a Asuka May, Nyan animes, Perona, Sakurasinha, Darkgirl, Hannah san, Kimsive, Sweet Cookie, Bia s2 e a Thamy Stone por favoritarem e a e um super obrigada atrasado para BiaWonderwall, Sarah Okumura e a Kuro Fan pelas recomendações.
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Dedico esse capítulo a Yuka Harumi. Yuka, saudades de vc e das suas fics.
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Obrigada a todas as sugestões de nomes, nossa fiquei louca pq tinha que escolher só um, então dei um jeito de usar todas as sugestões, claro que só um foi para a personagem.

O capítulo não tá lá essas coisas, mas espero que gostem.

Capítulo 16: Armadilha Para Quem?



Naquele dia faria um ano desde que Ciel aceitara namorar Liza. A garota estava feliz, pois logo que começara o namoro, tivera a impressão de que o relacionamento não duraria um mês. Mas Ciel jamais se opôs a qualquer vontade dela ou sequer mencionara um término. No entanto, embora um ano tivesse passado, a relação dos dois não evoluiu em nada no quesito romance.





Os pais de Liza, os pais de Ciel e Angélica ficaram muito felizes com o namoro, Liza estava muito feliz com o namoro, mas este era o problema: todos estavam felizes com o namoro, exceto Ciel; Liza não era tão boba a ponto de não perceber isso.



Muitas vezes temia que Ciel tivesse se arrependido. Temia que Ciel não a amasse. Temia que ele a abandonasse. Um ano se passara sem que Ciel colocasse um fim a tudo, mas também um ano sem qualquer demonstração íntima de afeto com sua namorada. E eles continuaram com o pseudo namoro.

Elizabeth repetia para si mesma que Ciel precisava apenas de mais tempo, mais carinho, mas não conseguia evitar a tristeza que lhe abatia. Havia momentos que ela estava ao lado de Ciel, enlaçava o braço do jovem carinhosamente e repousava a cabeça no ombro dele e, ainda assim, sentia que ele não estava verdadeiramente ali.

Tão perto e tão longe.

Era assim que Elizabeth sempre se sentia em relação ao Ciel. Não importava o quanto ela se empenhava em agradá-lo e compreendê-lo, tudo parecia insuficiente para preencher o vazio que ela via nos olhos dele.

Mas naquele dia, eles fariam um ano de namoro. E Liza era esperançosa ou teimosa, tanto fazia. Terminara sua aula de esgrima e Ciel esperava por ela para levá-la para casa. Era quase sete da noite e Ciel, pelo visto, esquecera a data especial. Liza achou melhor nada dizer, ele poderia sentir-se constrangido por ter esquecido. Entretanto, para sua enorme surpresa e contentamento, assim que a viu, Ciel lhe entregou uma pequena caixinha com um laço de cetim lilás. Radiante, Elizabeth desfez o laço e retirou a tampa da caixinha, revelando um interior forrado de veludo rosa que abrigava uma pulseira. A pulseira era de ouro, com uma corrente se entrelaçando a outra, parecia um ramo dourado, com dois pingentes: um violino e uma bailarina.

– Eu não sabia o que você gostaria de ganhar, então comprei isto. Lembra quando nos conhecemos? O violino sou eu e a bailarina é você ou quase isso; e você pode acrescentar outros pingentes depois. Eu sei que não é grande coisa...

– Eu amei! É perfeito, Ciel.

Aquele pressente foi a prova do amor de Ciel, a dose extra de esperança que Liza precisava. A certeza de que ele a amava.

Mas amava de que forma?

De que forma...

.

.

Elizabeth lembrava-se dessas coisas durante a aula de esgrima. Olhava para a pulseira dourada em seu pulso com uma atenção melancólica.

– Dawson! Wilson! – chamou o treinador. Elizabeth colocou a luva branca de proteção, cobrindo a pulseira, apanhou seu sabre, colocou a máscara e caminhou até a pista onde Oliver Dawson, seu adversário, já a aguardava com sabre em punho. Os dois se colocaram na posição de guarda. – Comecem!

Dawson fez o primeiro ataque. Elizabeth defendia-se com custo, tentava se concentrar no confronto. Percebendo que a garota não estava concentrada como o de costume, Dawson aumentou as investidas; perdendo o equilíbrio, Elizabeth deixou o sabre cair. Pelas regras e pela ética, Dawson esperou que a garota recuperasse a arma, uma vez que não fora ele que a desarmara.

– Mais concentração, Wilson. Concentração! – dizia o treinador. Liza apenas meneou a cabeça em afirmação. Respirava ofegante dentro da máscara de proteção. – En Garde! Comecem!

O tilintar do toque das lâminas foi ouvido mais uma vez. Os pés se moviam com agilidade, adquirindo posturas de defesa e ataque. Liza acabou acertando a cocha do rapaz.

– Isso é uma luta de sabres e não de espadas, Wilson. Não pode mirar da cintura para baixo. – gritava o treinador – O que há com essa garota?

Infelizmente, aquele não era o melhor dia para a loira; acabou sendo atingia no peito pela ponta do sabre de Dawson umas três vezes seguidas. O professor parou o combate. Dawson tirou a máscara revelando um imenso sorriso; era a primeira vez que ganhara da Liza.

– O que foi isso, senhorita Wilson? – indagou o treinador com uma expressão desapontada.

– Desculpe-me, professor. Não consegui me focar...

– Então sugiro que vá para casa, e só volte quando estiver focada ou vai acabar perdendo um braço ou arrancando o de alguém.

– Sim, senhor.

Elizabeth guardava seu florete e o sabre, e organizava sua bolsa, preparando-se para sair da aula de esgrima. Com a manga do suéter, enxugou uma lágrima que teimava em surgir no canto do olho. Caminhava lentamente pelo corredor, passando silenciosa pelos outros alunos que combinavam treinarem juntos, exibiam seus floretes novos e discutiam sobre o torneio de esgrima. Tudo parecia tão menos importante. Quando saiu da escola, viu um rosto familiar a sua espera.

– Oi Lizzy!

– Oi Dimas! – forçou um sorriso. – O que veio fazer aqui?

– Bem... – o jovem embaraçado coçou a cabeça. – Ontem, durante a aula, Ciel comentou umas duas vezes que você tinha aula de esgrima hoje, mas que ele tinha um compromisso e não poderia vir buscá-la e, mesmo que ele pudesse, você provavelmente não gostaria de vê-lo. E seria perigoso você voltar sozinha pra casa assim tão tarde. Então... Acho que ele queria que eu viesse te buscar.

Isso foi amavelmente cruel. Saber que Ciel se preocupara com ela tinha um efeito doloroso em seu coração. Por que Ciel parecia ser duas pessoas diferentes? Uma que a abraça e outra que a afasta.

– Obrigada, Dimas. Mas o senhor Midford... quero dizer, o tio Claus ficou de vir me buscar. Mas ele virá apenas as dezenove e trinta, ainda falta meia hora, se quiser me fazer companhia até ele chegar? – sua voz saia sem força.

– Sem problemas.

Os dois ficaram parados em frente à escola, Liza fitava a rua sem realmente vê-la.

– E... como ele está, o Ciel?

– Bem, aparentemente. O pessoal da escola não tem sido muito legal com ele, sabe? Por causa daquilo que a Pauline te contou sobre o vídeo do Mason. Se você for voltar pra escola na segunda, é bom voltar preparada, provavelmente te perturbarão também. – Dimas falava meio sem jeito com o silêncio da garota. Estava frio e a névoa cobria tudo ao redor. – Ainda está brava com ele, com o Ciel?

– Não estou brava com o Ciel. Estou brava pelo que aconteceu, a forma como aconteceu, pois em parte foi culpa minha. Eu queria tanto que tudo fosse perfeito que me recusei a ver que as pessoas não são perfeitas; queria tanto que ele me amasse como eu o amava que o obriguei a me amar da maneira errada. Sabe qual foi a última coisa que a Amanda me disse? – Dimas meneou a cabeça negativamente. – Ela disse: “quando amamos realmente uma pessoa, não devemos ficar chateados se essa pessoa não nos ama dessa ou daquela maneira; mas devemos ficar felizes se ela apenas nos amar”. Na hora, eu não entendi muito bem o que ela quis dizer, mas acho que ela já havia percebido os sentimentos do Ciel e quis me reconfortar. Depois de muito pensar, eu cheguei à conclusão de que Ciel sempre me amou, mas como amiga. Mas não era o suficiente pra mim, e acabei fazendo mal a nós dois; ele se sentiu obrigado a sentir por mim o que não sentia e eu me sentia triste por não fazê-lo feliz como gostaria. Entende? Fui egoísta e boba. Por isso não estou brava com Ciel. Estou... triste.

– Não devia ser tão severa com você, Lizzy. Às vezes, as coisas estão além do nosso controle, sobretudo o Ciel... Mas, em todo caso, por que não diz essas coisas a ele?

– Acha que ele me ouviria? – a voz saía chorosa.

– Tenho certeza que sim. Ele ficaria menos preocupado com você, sabe?

– Você é um bom amigo, Dimas. – Elizabeth sorriu verdadeiramente e olhou para a rua ao redor. – Você não acha essa névoa estranha? Até agora não se dissipou. Eu nem consigo ver o que há no fim da rua.

– Verdade. – os olhos de Dimas fitavam a noite com desconfiança.

– Tamb...

Elizabeth soltou a bolsa com o uniforme de esgrima e o estojo com o florete e o sabre no chão. Levou as duas mãos a cabeça e caiu sobre os joelhos. Uma dor aguda e repentina na cabeça a deixara zonza e nauseada.

– Lizzy!! O que houve? Você está bem?

Ao abrir os olhos, Elizabeth viu a rua em que estava se tornar um longo corredor, o qual, em seguida, era tomado pelas chamas. Viu alguém fitá-la no fim do corredor, uma menina, talvez. Não enxergava direito, as chamas aumentavam cada vez mais até se desfazerem na névoa e o calor se tornar frio. Aos poucos a imagem da rua voltava a se formar diante de seus olhos.

– Lizzy? Lizzy?

Elizabeth escutava a voz preocupada de Dimas. Sua visão estava embaçada e todo o resto parecia girar. Aos poucos a dor foi diminuindo até que se extinguisse. Ainda atordoada, fitou o jovem de cabelos castanhos claros a sua frente.

– Você está bem? – indagava inseguro, ajudando a garota a se levantar.

– A-acho que sim.

– Tá. Certo – Dimas falou sem saber com certeza se a garota estava mesmo bem. – Veja, o senhor Midford.

Dimas acompanhou a garota até o carro. Elizabeth perguntou se ele não desejava uma carona, mas Dimas recusou.

– Richard ou a senhorita Rubinstein estão por perto? – Claus dirigiu-se a Dimas.

– Sim, senhor.

– Então fique com eles. Não é seguro andar sozinho por aí, você ainda é só um garoto. Boa noite, Gardner.

– Certo, senhor. Boa noite senhor Midford. Boa noite Lizzy.

Dimas viu o carro ser engolido pela névoa. Pegou o celular e ligou para Ruby pedindo sua localização e partiu logo em seguida.



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ALGUMAS HORAS DEPOIS






A brancura e a claridade do ambiente causaram estranheza aos olhos azuis que se abriam lentamente. A memória fragmentada impedia o jovem de definir com clareza onde e como fora parar ali. Avistou a figura feminina e ruiva em pé ao lado de seu leito e, só então, os pedaços de memória começaram a se encaixar.




– O que aconteceu? – ergueu o corpo da cama, olhou ao redor e reconheceu o hospital.


– Você teve uma convulsão ou pelo menos foi o que pareceu. O que houve? – a voz de Angélica oscilava entre séria e preocupada.

– Foi o que eu acabei de perguntar – Ciel ironizou.

– Eu estou falando sério, Ciel! Os pesadelos voltaram?

– Não. – a resposta foi seca, e o semblante já adquiria uma expressão nada animadora. Odiava quando Angie tocava naquele assunto.

– Tem sentido algum mal-estar, dor, tontura, estresse...

Você está me estressando com essas perguntas; eu já disse que não. Estou bem.

– Bem?! Ciel, você teve um ataque do nada, seu coração parou por alguns segundos, os enfermeiros tiveram que reanimá-lo. Eu não sei o que aconteceu, mas com certeza “bem” você não está.

– Eu não sei o que houve, ok? Eu não lembro o que aconteceu; eu tinha acabado de ligar para o papai e quando dei por mim, já estava aqui. Eu não fiz nada, não sonhei nada, não senti nada. Estou bem, eu juro!

– É justamente o fato de você não fazer ideia do que provocou isso que me preocupa. Se estiver mentindo para mim...

– Não estou!

Ciel inflou as bochechas, as sobrancelhas unidas numa expressão severa. Angélica respirou fundo tentando manter a paciência.

– É bom mesmo.

– Agora que você já sabe que estou bem, podemos ir embora?

– Ainda não. O médico vai dar uma checada em você. E nem pense em resistir ou eu conto agora pra mãe. Quer que eu faça isso? Você sabe como ela vai ficar.

– Que droga, Angie! Odeio médicos.

– Ora, vejam só, e eu achando que você fosse com a minha cara. – Daniel Morrison, o vizinho e amigo de infância de Angie, entrou pela porta do quarto. O jaleco impecavelmente branco, os cabelos pretos minuciosamente penteados. Os olhos azuis reluziam quando ele sorria, e ele parecia estar sempre alegre. Daniel é o tipo de pessoa que você não consegue odiar, mesmo que tente, pois ele é educado demais, gentil demais; talvez por isso Angie o amasse. – Muito bem Angélica, pode deixá-lo comigo agora. Não se preocupe Ciel, faremos apenas alguns exames pra ter certeza de que não há nada errado. Só para deixar sua irmã despreocupada. Tudo bem?

Ciel achava tudo aquilo desnecessário. Olhou do rosto do médico para o rosto da irmã, e chegou a conclusão de que não poderia continuar com a pirraça. Pelo menos não com aqueles dois. Devia sua vida a eles, não podia negar nada, ainda mais se envolvesse sua saúde. Além do mais, só assim Angie o deixaria em paz.

Daniel, ou melhor, Dr. Morrison fez algumas perguntas sobre o que Ciel tinha feito, comido, bebido. Ciel relatou todo o seu dia, alterando sua tarde na casa do Sebastian para uma tarde na Biblioteca Pública. O médico retirou uma amostra de sangue, checou a respiração e os batimentos cardíacos do jovem.

– Aparentemente, não há nada de errado com você, Ciel. Seu coração e pulmões parecem perfeitos. Mas não podemos ignorar que o episódio de hoje é de fato preocupante. Vamos esperar o resultado dos exames para ter certeza.

– Certo. Posso ir agora? O senhor sabe como detesto hospitais.

– Pode sim. – o homem respondeu bagunçando os cabelos do jovem como se este tivesse doze anos. – Só... Só prometa que vai me relatar qualquer coisa que venha a acontecer, certo? Não espere que as coisas fiquem fora do controle.

– Tudo bem.

Ciel saiu do quarto e, assim que viu Daniel sumir no fim do corredor, parou, fechou os olhos e respirou fundo. Mentiu para a irmã, ele se lembrava. Pelo visto tivera algum tipo de alucinação, pois suas roupas estavam intactas. Seu olho direito ainda queimava, mas apenas isso. Esfregou os pulsos, fitando-os por um instante; não havia neles nada além de uma fina cicatriz há muito curada. Seus olhos fitavam o nada. Perdidos.

– Será que Sebastian viu? – perguntou para si mesmo.

Ciel balançou a cabeça como se tentasse derrubar os pensamentos e foi em direção à ala da maternidade. Encontrou Angie a meio caminho.

– Daniel me liberou.

– Certo. Mamãe vai dormir aqui esta noite. Papai vai ficar com ela. Vamos, eu te levo pra casa.

Diferente do caminho de ida até o hospital, a volta estava sendo tranquila. Angie dirigia devagar e em silêncio, talvez por estar escuro e por causa da neblina que ainda cobria as ruas. Mas não. Pelo semblante da irmã, Ciel sabia que ela estava remoendo o acontecido. Ela parecia realmente preocupada, nem o nascimento da irmã, nem Daniel foram capazes de tirar aquela expressão do rosto dela.

– Daniel disse que minha saúde está perfeita. Pode ter sido só o estresse ou uma reação alérgica. Não há por que se preocupar... Então, como se sente agora que não é mais a única menina da família?

– Como uma mestra jedi ansiosa para treinar minha pequena padawan.

Angie falou com ironia, segurando o volante com apenas uma mão e gesticulando a outra no ar como se segurasse um invisível sabre de luz.

Ciel respirou mais aliviado.

– Como você é metida.

– Serei a Super Irmã. Iremos ao salão de beleza, faremos o cabelo e a maquiagem juntas, iremos ao shopping, vamos paquerar uns gatinhos, etc e etc. e você ficará morrendo de ciúmes.

– Você tem noção de que quando ela tiver doze anos você terá mais de trinta e cinco? Com sorte você será a Super Babá.

– Sério? Ai que droga! Vou ter que jogar meus planos fora. Diz aí... onde você estava a tarde?

– Na casa do Sebastian.

– Namorando é?

– ...

– Fizeram o quê a tarde inteira? Sexo?

– É. – disse meio sem jeito olhando pela janela do carro.

– Há! Há! Até parece que Ciel Valentine teria coragem. Muito engraçadinho você. – ainda sorria, achando que o irmão faria qualquer coisa para distraí-la – Então... você foi o ativo ou o passivo?

Angie e suas perguntas indiscretas. Por um momento Ciel lembrou-se da tarde com Sebastian.

– Ai. Meu. Deus. Você ficou vermelho! Ficou vermelho!! – Angélica apontou para o rosto corado do irmão, fazendo o carro ziguezaguear um pouco – É sério mesmo? Nossa! E como foi?

– B-Bom.

– Bom. Bom é legal. Vai me contar como foi?

– Não.

– Tá bom. – respondeu. Ficou em silêncio, mas vez ou outra espiava o irmão comprimindo um sorriso.

– E pare de me olhar assim!

– Tá bom.

– Angie!

– Parei.



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A segunda-feira amanheceu fria. A neblina havia diminuído, mas não dissipado.





A nova Valentine já habitava a casa e provara durante a noite que tinha ótimos pulmões, chorou várias vezes. Ciel foi para a escola com muito sono, não sabia se realmente dormira durante a noite ou se foi apenas impressão sua, pois sempre que fechava os olhos, acordava com o choro da irmã caçula.


Ao chegar a Academia Nottinghan, deparou-se com Elizabeth. A loira o fitou por um instante e murmurou um bom dia antes de entrar na sala. Na certa ainda estava magoada para falar. Liza não se sentou no lugar de sempre, ao lado de Ciel, trocou de lugar com Dimas e sentou-se com Pauline. Ciel não se incomodava com a atitude da amiga, achava que ela tinha todo o direito de evitá-lo, o que o incomodava eram os cochichos e os risinhos abafados de todos sempre que os via. Ciel tinha certeza de que eram comentários maldosos, pois eram sempre atiçados por Ivan Mason, que não passava por ele sem destilar seu veneno.

– Vejam só se não é a bicha mais famosa do colégio. – alfinetava Mason ao esbarrar com Ciel no corredor – Eu sei que foi você que apagou o vídeo da internet, não sei como você fez isso, mas sei que foi você?

– Fico lisonjeado por você achar que sou esperto a esse ponto, mas não sei de vídeo nenhum. – Ciel continuou andando sem dar muita atenção ao garoto.

– Você se acha muito, não é Valentine? Quem diria? Logo você com toda essa marra... Não vê que você virou a piada do colégio?

– Eu não acho nada. E não me importo com o que você pensa. Se está incomodado comigo, mude de escola.

Colocando Mason e outros idiotas a parte, o dia fora tranquilo.

.

.

A senhora Valentine segurava o pequeno bebê enquanto Roger Valentine abria as cortinas do antigo quarto de hóspedes, agora decorado com motivos infantis, para deixar a luz entrar. Ciel colocava os puffs ao redor da mãe para que Angie e a visita, o senhor e a senhora Wilson e Elizabeth, pudessem sentar.

Todos perceberam o mal estar em torno dos dois jovens quando se viram, mas preferiram não tocar no assunto e concentraram-se no bebê. Felizmente os pais de Elizabeth pareciam não ter nenhum ressentimento de Ciel por causa da filha, talvez a preocupação gerada pelo surgimento da família biológica da garota tenha tomado o espaço para qualquer outra preocupação.

– Olha só que coisinha mais fofa. E veja o tamanho dessas mãozinhas, mãe. – Elizabeth falava e balançava um pequeno chocalho colorido tentando chamar a atenção do bebê. De alguma forma, Ciel ficou mais contente ao ver Liza sorrindo, o constante ar melancólico da amiga o estava preocupando.

– Você deve me achar louca, Helen, ter um filho nessa idade. – Dizia a senhora Valentine.

– Deixa disso, Hortense. Se eu pudesse ter filhos, já teria uns oito.

– Ai de mim! – falou Edgar Wilson – Estou satisfeito com nossa Elizabeth.

– Vamos lá para baixo, Edgar, deixe as mulheres e as crianças aqui.

– Espero que o senhor tenha me incluído nas mulheres e não nas crianças, pai? – Angie jogava o cabelo para trás fazendo pose de mulher séria.

– Como quiser Angélica. Só espero que essa menina puxe ao Ciel e não a você.

– Que maldade, pai!

– E como andam as coisas na polícia Roger? – Edgar perguntou.

– Nem pergunte, Ed.

Os dois patriarcas deixaram o quarto, suas vozes foram sumindo a medida que se distanciavam. Ciel permaneceu encostado na parede ao lado da porta.

– Já escolheu um nome, Hortense? – Helen quis saber.

– Ainda não.

– Que tal Mel ou Emily? – sugeriu Liza.

– Emily é bonito. – disse Hortense.

– Que tal, Britânia é bem inglês, talvez Agatha, tem um toque misterioso. – sugeriu Angie.

– Agatha é o nome da minha “nova” avó. – disse Liza meio sem jeito.

– Sério? Aquela senhora toda chique que estava no enterro? – Liza meneou a cabeça – Podia ser Mandy ou Lola.

– Margaret? – falou Helen.

– Margaret era o nome da nossa professora que morreu. – Informou Liza – Pode dar azar.

– Annabeth ou simplesmente Anna. – Helen tentou mais uma vez.

– Sempre gostei de Catherine. Ou Luiza. – Hortense falou.

– Luiza? Coloca Cielly então. – Angie ironizou.

– O quê? – Ciel sobressaltou-se.

– Você ainda não opinou Ciel. – Angie falou – Dê sua sugestão.

– Poderia ser Rachel? – Ciel falou o primeiro nome que lhe veio à mente.

– Rachel é bonito. – Hortense falou.

– Que tal Aiko, não, Eiko, não, melhor, Keiko, coloca Keiko.

– É o quê menina? Que nomes são esses, Angélica?

– É japonês.

– Nem pensar. Nem consigo pronunciar isso.

– Por quê? É só treinar. Chame-a de Merlia, então.

– Evangeline. – Liza disse baixinho, mas ainda assim conseguiu atrair a atenção de todos no quarto. A bebezinha segurava o dedo indicador da garota. – Significa “aquela que traz boas novas”.

– Eu gosto de Evangeline. – Ciel falou e seus olhos azuis cruzaram com os olhos verdes de Liza.

– É diferente e não é ruim. – Angie analisava o nome. – Eu gostei também.

– É um nome fofo com significado fofo. – falou sorrindo ao ver a pequenina bocejar e fechar os olhinhos.

– Que seja Evangeline. Evangeline Valentine. – Hortense decidiu.

– Ela tem os olhos do Ciel, espero que tenha os mesmos cabelos ruivos meus e da mamãe. – Angie ajudava a mãe a colocar a neném no berço. E todos se retiraram do quarto.

Quando desciam as escadas, Liza sussurrou para Ciel.

– Não se preocupe, eu não contei a mamãe sobre você. Eu apenas disse que terminamos, não falei o motivo. Imaginei que não tivesse dito nada a seus pais. Sobre você sabe quem.

– Obrigado Liza. – Ciel agradeceu com um pequeno e sincero sorriso. Elizabeth corou e desceu as escadas na frente de dele.

Ciel deu uma desculpa qualquer para não ficar na sala para o chá. Observou Elizabeth por alguns instantes notando que havia algo de diferente nela ou na forma como ela olhava para ele. Não era desprezo, nem rancor ou tristeza. Era um olhar mais sério, mais compreensivo.



............................






Com a chegada de Evangeline, todos estavam trabalhando em dobro, pelo menos Ciel e Angie estavam. Os dois irmãos se alternavam com a mãe em cuidar do bebê, dar aulas na Little Mozart e ajudar nas tarefas de casa quando não estavam na universidade e na escola. O pior não era o tempo corrido, mas as noites mal dormidas; Evangeline adorava chorar entre as sete da noite e às cinco da manhã. Ciel odiava quando a mãe pedia ajuda para trocar a frauda, o jovem se perguntava como uma criaturinha tão pequena poderia produzir algo tão horrendamente fétido.





– Que horror! Ela só como leite. Como pode?


– Não reclame. Você e sua irmã não eram diferentes. Me passa aquela frauda limpa. – dizia a mãe.

Ciel passou a tarde tentando terminar o livro Classificação dos Demônios e Outras Criaturas Negras, o qual já teria concluído há muito tempo se o maldito livro não estivesse escrito metade em um inglês bem arcaico e metade em latim. Sempre que precisava recorrer a um dicionário ou passar horas pesquisando na internet, Ciel se lembrava de mentalmente de “agradecer” ao Sebastian pela ótima leitura. Além disso, tinha que concluir um trabalho de história sobre a Unificação Inglesa, mas sempre que se sentava para fazer o trabalho, sua mãe o chamava para fazer algo ou Evangeline começava a chorar.

– Posso dormir na casa de um amigo? –pediu finalmente, já sem outra opção.

– Está me pedindo pra dormir fora? – a mãe repediu perplexa – B-bom, não sei filho...

– Eu preciso terminar esse trabalho hoje, tenho que apresentá-lo amanhã. Não consigo me concentrar com a Evangeline chorando o tempo todo.

– Certo, certo, pode ir. – a mãe ninava o bebê no colo, caminhando de um lado a outro na cozinha. – Mas lembre-se de deixar o endereço e o telefone pra contato na geladeira. E me ligue quando chegar lá. E não vá ficar acordado até tarde.

– Tá. Ok. Está aqui. – disse colocando o papel preso a um ímã a geladeira e jogando vários livros na mochila.

– Sebastian? – disse Hortense lendo o bilhete.

– Ele tem uma biblioteca em casa.

– Mas será que não será um incomodo pra ele?

– Não. Eu liguei pra ele e ele disse que tudo bem.

– Bom... – Hortense olhou para o filho com a desconfiança natural das mães. – Está bem, mas tenha cuidado. E não se esqueça de deixar o quarto de hóspede exatamente como encontrou. Não quero que o moço pense que eu não soube educar meu filho direito.

– Certo, mãe.

Na tranquilidade da casa do Sebastian, Ciel finalmente conseguiu concluir o trabalho. Tinha até esquecido de como era maravilhoso o silêncio de uma casa na qual não habita um recém-nascido. Por volta de dez horas da noite, Ciel levou suas coisas até o quarto de hóspedes que já conhecia.

– O que está fazendo? – Sebastian perguntou, encostando-se a porta.

– Vou dormir. – o jovem respondeu sem olhar para ele e continuou a preparar a cama.

– Não aqui. – num espaço de um segundo Ciel ouviu a voz do moreno bem perto de seu rosto. Sebastian tirou o cobertor da mão do menor e o encarou com um olhar terno – Comigo.

Ciel olhou acidentalmente o moreno nos olhos e corou.

– ...

– O que foi? Tivemos uma tarde maravilhosa no sábado, não? Não me diga que ficou tímido agora. Não se preocupe, vou deixá-lo dormir, você tem trabalho amanhã, não é?

– Humph! Eu sempre dormi só, então não reclame se eu te chutar durante a noite.

Ciel deu-se por vencido e levou seu pijama até o quarto do Sebastian. Enquanto escovava os dentes ficou se encarando no espelho. Quando terminou, retirou a lente que cobria seu direito. Fitou o jovem do espelho, que possuía um olho azul e outro esbranquiçado e cego. Respirou fundo e saiu.

Sebastian já estava sentado no lado esquerdo da cama com livro nas mãos, sem desviar os olhos das páginas impressas ele falou:

– Não estou nem aí para seu olho. Sou um demônio, Ciel, perfeição não faz grande diferença pra mim.

Ciel o encarou por alguns segundos e caminhou até o lado direito da cama. Puxou o tecido branco que cobria o colchão e cobriu-se com ele. Era uma situação estranha, uma sensação estranha. Sebastian fechou o livro e o colocou sobre o criado mudo, deitou-se e virou-se para o jovem. Os olhos castanhos rubros analisavam os olhos do jovem enquanto Ciel fazia o mesmo.

– Você dorme? – Ciel perguntou.

– Se eu quiser. Mas não é algo que seja extremamente necessário. Posso passar anos sem dormir assim como posso passar anos sem me alimentar.

– Qual é o sabor de uma alma humana?

– É algo difícil de descrever, não há um sabor para o paladar humano que seja comparável. Uma única alma é capaz de manter um akuma saciado por anos, mas muitos devoram uma atrás da outra simplesmente pelo prazer que elas proporcionam. É uma sensação de êxtase sem igual.

– Melhor do que o prazer do... – Ciel começou depois parou com vvergonha de terminar a pergunta.

– Sexo? – Sebastian sorriu e o jovem assentiu – Na verdade sim.

– Por que nunca me propôs um contrato? Minha alma não está à altura do seu paladar?

– Primeiro porque precisamos de você vivo. E existem outras maneiras de apreciar o sabor de uma alma sem precisar devorá-la.

Ciel ergueu-se um pouco da cama e beijou Sebastian carinhosamente. O mais velho sorriu e abraçou o corpo do jovem sob o lençol, beijou os lábios do adolescente com a mesma doçura com a qual fora beijado. Virou-se sobre o jovem sem quebrar o beijo, suas mãos corriam pelo sobre o tecido do pijama que cobria o peito tenro, ao mesmo tempo em que sentia Ciel acariciar suas costas. Ciel encerrou o beijo e virou-se de lado.

– Agora me deixe dormir.

Sebastian passou o braço pela cintura do jovem encaixando os corpos mais uma vez. Ciel pôde sentir o peito de Sebastian tocar as suas cortas e a respiração dele em sua nuca, sentia-se confortável e aos poucos foi tragado pelo sono.

Naquela noite não houve pesadelos. Nem se lembrava de qual fora a última vez que dormira tão bem.



.................................






Ciel acordara com um ótimo humor, a apresentação do trabalho tinha sido uma maravilha. Liza lhe dera um bom dia quando chegou e um tchau no fim da aula. Nem as intrigas e as ofensas dos colegas de escola foram capazes de perturbá-lo, nem o fato de Dimas derrubar acidentalmente suco de uva em seu livro de química o deixou zangado, bem, não muito zangado.





Evangeline dormiu a tarde inteira e ele pôde finalmente concluir o Maldito Livro das criaturas negras.


Achou que o livro lhe daria alguma pista, mas nada. Irritado, jogou o livro sobre a escrivaninha, mas só conseguiu derrubar no chão uma pilha de outros livros. Quando os juntava uma folha escorregou de dentro de um deles. Ciel pegou o papel, era um panfleto de uma livraria. Correu os olhos sobre o anúncio, fez uma bola de papel e a jogou no lixeiro. Já ia saindo do quarto, quarto sua mente deu um está-lo. Correu e pegou o papel novamente.

– É isso! – Ciel correu para o quarto do bebê que dormia tranquilamente. – Evangeline! – tentava acordá-la. – Evangeline, você tem me perturbado dia e noite, então só dessa vez, faz um favor pro seu irmão, maninha? – a pequenina o encarava com um par de olhos com o mesmo tom de azul que os seus. – Chore, Evangeline. Chore!

Como se tivesse entendido o pedido do irmão, a pequenina começou a se esgoelar. Ciel voltou correndo para o quarto e logo a mãe sua as escadas.

– Oh, não! Era bom demais pra ser verdade. Estou indo Querida! – dizia a mãe.

– Mãe, vou fazer um trabalho na casa do Dimas Gardner. Talvez eu tenha que dormir lá. Não se preocupe o endereço e o telefone está na geladeira. Tchau.

Ciel saiu voando de casa e mãe mal teve tempo de pensar com o choro da Evangeline.

– Essas crianças vão me deixar louca!

.

.

– Então, qual a emergência? – Richard perguntou com o cigarro pendurado na boca, se jogando no sofá da sala de visitas da casa do Sebastian.

– Acho que sei onde o assassino vai atacar novamente e talvez até quem será a vítima. – informou Ciel.

– Como descobriu isso? – Dimas perguntou esbarrando num vaso chinês que foi rapidamente aparado por Sebastian, o qual lançou um olhar de desaprovação para o garoto. Dimas sorriu sem jeito e sentou-se no sofá perto de Richard.

– Bom... há uma menina, deve ter uns doze ou treze anos, e tem o corvo e ela sempre aparece pra mim...

– Espere, Ciel. Você já mencionou essa menina antes, quem é ela. – Sebastian parecia sério.

– Evie. Ela começou a aparecer assim que conheci vocês. Cheguei a achar que ela também fosse do Clã Phantomhive, que fosse um dos Cães da Rainha, mas vocês disseram que não a conheciam. Ela simplesmente aparece e some.

– Como assim? Porque nunca me falou dessa menina?

– Eu não sei. Ela não me parece ser inimiga.

– Ela é um demônio? – Richard perguntou.

– Talvez sim. Talvez não. Ela tem um olho vermelho como os seus, Sebastian. – Sebastian levantou-se e caminhou em direção à lareira, incomodado – Mas até agora ela só me ajudou, além disso, é só uma criança, não parece ser um demônio.

– E eu pareço um? Tem que ser mais cuidadoso, Ciel. – Sebastian segurou o jovem pelos braços. – Um dos demônios mais perigosos e perversos que existe assume a forma de garotinhas inocentes. Não pode confiar nas aparências.

– Evie. Não. É. Má. E deixemos esses assuntos sem importância para depois, podemos voltar ao que realmente interessa? – Ciel falou autoritário se desvencilhando das mãos de Sebastian e caminhando até a mesa de centro, atraindo a atenção de todos. – Evie me deu uma pista, ela falou alguma coisa sobre amigos traidores ou não confiáveis e disse que eu devia ler um livro. A princípio, achei que ela estivesse falando coisa com coisa. Depois achei que fosse algo que estivesse no livro de Aodh Ferghus, Classificação dos Demônios e Outras Criaturas Negras, li o livro de capa a capa e nada. Foi quando encontrei isto... – Ciel retirou do bolso da calça um pedaço de papel dobrado, era um panfleto anunciando um evento de lançamento de um livro. – Vejam o slogan da livraria.

O panfleto era roxo com letras garrafais verdes.


MEGABOOK



*Leia Um Livro*



– Isso não é grande coisa, eu sei, mas vejam o título do livro que será lançado.



– “Esteja no lançamento do mais novo e aterrorizante livro de A. J. Ratchett, O Cavaleiro da Morte” – Ruby leu no panfleto.


– “Pois os mortos cavalgam céleres”. – Sebastian lembrou.

– Exato. A. J. Ratchett é uma mulher. Akasha Jaqueline Ratchett. Acredito que ela seja a próxima na lista do Serial Killer.

– Se o assassino estabelece algum padrão para suas vítimas, Ratchett ou o seu livro nos darão algumas pistas. – Richard disse soltando uma baforada de fumaça.

– Muito bem, precisamos garantir o nosso. Quando é mesmo esse evento aí? – falou Dimas.

– Hoje à noite. – Ciel disse fazendo Richard engasga-se com a fumaça do cigarro – Precisamos ser rápidos.

– Não podemos descartar a possibilidade de ser uma armadilha. – Sebastian disse sério.

– Armadilha para quem? Ratchett, a polícia ou nós? – perguntou Ruby.

– É o que vamos descobrir. – Sebastian falou – Richard, pegue toda a munição que for capaz de esconder na roupa.

– Agora eu gostei.

.

.

Megabook era uma das maiores e mais visitadas livrarias de Liverpool. Com espaço para os fãs e apreciadores de algum autor ou livro realizarem discursões, eventos ou rodas de leitura. Sempre que um livro novo era lançado, o escritor era chamado para participar de uma festa e sessão de autógrafos, como a que estava acontecendo naquela noite.

Ao contrário do que Ciel imaginou, a Megabook estava lotada. Havia uma música ambiente animada, mas não muito alta. Alguns dançavam, outros conversavam, muitos olhavam livros e outros os compravam. A grande maioria ansiosa para conhecer a nova escritora.

– Não imaginei que haveria tantas pessoas. Geralmente, quando é o lançamento de um escritor novo, os visitantes não passam de dez. deve ter mais de 60 pessoas aqui. – dizia Ciel. –Essas pessoas serão um problema se algo acontecer.

– Talvez o nosso “amigo” esteja contando com isso – disse Richard correndo os olhos pela multidão.

– Não há policiais, apenas sete seguranças armados espalhados em pontos diferentes. – disse Ruby.

– Estão distribuindo cupcakes grátis na seção infantil – Dimas apareceu comendo um bolinho colorido.

– Sério? Pra que lado... – Ruby indagou animada.

– Os dois idiotas querem prestar atenção?! – Ciel bradou.

– Foi mal. – os dois disseram em uníssono.

– É melhor que nos separemos.

Cada um foi para uma direção, observando as pessoas atentamente vendo se alguma tinha atitudes suspeitas ou se alguém poderia ser um demônio disfarçado.

– Não precisava vir comigo, Sebastian, sei me cuidar sozinho.

– Prefiro não arriscar.

Ciel tentava atravessar por entre as pessoas tentando chegar perto do local onde a escritora se apresentaria e acabou esbarrando em alguém. Uma mulher de compridos e lisos cabelos pretos se virou pedindo mil desculpas.

– Desculpe... esse frio embaça meus óculos e... Oh! Ciel?! – Era a senhorita Bathory, a mulher ajeitava os óculos para enxergar melhor o jovem. – Você veio!

– Ah, oi senhorita Bathory.

– Que bom que você veio, achei até que tivesse esquecido. E eu ando tão ocupada tendo que dar as aulas de Arte também. Mas você não tem mais ido à biblioteca, não é?

– Pois é. – Ciel reparou que a professora estava só. – E o senhor Cranston, não veio?

– Ele não pôde vir. Infelizmente ele teve que comparecer a um evento para professores de Geografia ou algo assim. – Ciel se perguntou se isso era verdade mesmo ou se era uma desculpa esfarrapada, pois todos na escola sabiam o quanto o professor de geografia era mulherengo. A senhorita Bathory era uma mulher tão inteligente, Ciel se perguntava se ela realmente não via a infidelidade do namorado ou se ela fingia não ver para não perdê-lo. Por um instante lembrou-se de Liza. – Mas ele ficaria entediado, não gosta muito de ler. Veja se uma coisa dessas pode? Um professor não gostar de ler. – a mulher sorriu e depois de olhar Sebastian, que estava um pouco afastado, perguntou baixinho – Mas e aquele homem que entrou com você, seu irmão mais velho?

Ciel olhou para as costas de Sebastian, hesitou um pouco e depois falou:

– Não. Ele é... meu... Namorado.

Ciel não sabia, mas um akuma sorriu a suas costas.

A professora o olhou com seus grandes olhos negro, um tanto surpresa, olhou mais uma vez para Sebastian e voltou para Ciel.

– Oh, ele não é... um pouco velho pra você?

– Não.

– Bom... ele é bonito. Seu bom gosto não é só para livros, não é mesmo? – a mulher sorriu deixando o jovem sem jeito – Me disseram que há um ótimo livro sobre as obras do Renascentismo, deixe-me ir comprá-lo antes que a A. J. Ratchett apareça, estou louca para conseguir um livro autografado, dizem que a história é muito boa. Até.

– Até.

A mulher se afastou e Ciel voltou a vigiar a multidão. Sebastian se juntou a ele novamente.

– Vamos pegar uma cópia do livro, meu namorado. – Sebastian sussurrou no ouvido do jovem.

– Calado... e faça seu trabalho. – Ciel falou completamente vermelho. Sebastian sorriu.

– Por mim tudo bem. – Sebastian sorriu e estendeu a mão para o jovem. Ciel estava com o cenho fechado, mas depois olhou surpreso ao perceber que o moreno estava dizendo tudo bem para o namoro. – Quer ser meu namorado?

Ciel olhou para os lados, mas ninguém parecia prestar atenção neles.

– Tá. – respondeu corando mais ainda, segurando a mão do mais alto. Ciel olhava atentamente todos os rostos até reconhecer um: o cara de óculos, cabelos castanhos e estranhos olhos verdes. – Veja! Aquele homem, já o encontrei em alguns locais dos crimes.

Sebastian olhou diretamente para o homem e este pareceu olhar diretamente para o akuma com imenso desagrado.

– Shinigami.

– O quê?

– Um ceifeiro. Aquele, no momento, não é nosso inimigo, mas se ele está aqui, significa que você está certo. Alguém morrerá esta noite.

De repente, um alvoroço começou. Akasha Ratchett finalmente apareceu para o público. Era uma mulher negra de cabelos cacheados e muito curtos. Parecia amedrontada, como um animal encurralado. Um mau sinal.

– Tem alguma coisa acontecendo, a neblina voltou a ficar densa. Está ao redor de todo o prédio. – Ruby falou ao encontrar Sebastian e Ciel. Logo Richard e Dimas os encontraram também.

– Parece que vem uma tempestade. – disse Dimas.

– Não conseguimos rastrear nada, se há algum demônio aqui, está se ocultando muito bem. – Richard informou.

– Ratchett vai falar. – disse Ciel.

Todos os presentes se voltaram para a escritora. A mulher estava visivelmente abatida. Talvez nervosismo ou medo do público. Mas não. Outra coisa a deixava apavorada. Ela se aproximou do microfone, tremendo. Olhou para uma cópia de seu livro que estava na tribuna. Olhou por um instante para o título, colocou as mãos sobre ele e respirou fundo.

– E-Eu sei que todos esperam que... que eu fale sobre meu novo livro, m-mas... mas há algo mais importante que, que todos devem saber. A verdade. O... – Ratchett fez uma pausa ao notar uma mancha vermelha em seu dedo. Seu coração começou a palpitar quando percebeu que era sangue. Ao abrir a capa do livro, deparou-se com uma mensagem escrita com sangue.


Eu confiei em você e em troca tenta me trair?



Isso é um desrespeito à memória dela.


Você merece morrer... como todas as outras.

Mas não se preocupe, darei um fim especial a você.

Veja se me encontra antes que a morte a alcance.


Ratchett encarou a multidão apavorada. Seus olhos arregalados e lacrimosos percorriam a multidão buscando a pessoa que deixara tal ameaça. Logo as pessoas começaram a cochichar, sem saber o que estava acontecendo. Ela tentava falar, queria sair correndo, mas suas pernas não se moviam.



Na multidão ali presente, Sebastian teve um sobressalto.


– O que houve Sebastian? – Ciel perguntou.

– Um demônio. Aqui. Está se afastando.

– Então vá atrás dele, capture-o!

Sebastian hesitou por um instante, olhou para Ciel e disse:

– Richard, Dimas, Ruby, protejam Ciel.

– Certo! – Disseram os três em uníssono, colocando-se em volta de Ciel e Sebastian seguiu aquela presença, sentindo uma terrível sensação.

– Precisamos chegar mais perto dela. – Ciel falou tomando a frente em direção à escritora. Alguns funcionários tentavam falar com Ratchett, mas ela estava paralisada, correndo os olhos cheios de pavor pelos presentes.

Quando estavam a três metros da escritora, todas as luzes se apagaram. Gritos de surpresa e um zunzunzum se espalharam por todo o local. O shinigami ali presente estranhou ao analisar seu livro e perceber que outros nomes surgiam logo abaixo do nome de Akasha Jaqueline Ratchett, o local da morte? Livraria Megabook.

– Mas o quê?! Isso não é bom. – sussurrou o shinigami antes de sentir uma estranha energia invadir seu corpo e sua mente. – O qu....

Toda a livraria foi invadida pelo estrondoso barulho de um trovão, o relâmpago iluminando tudo brevemente.

– Ela sumiu! – Ciel procurava a escritora, mas não conseguia vê-la.

Logo todo o lugar mergulhou no escuro novamente, e novos gritos foram ouvidos. Mas dessa vez eram gritos de dor. Vários deles, vindos de todas as direções. As lâmpadas de emergência se ascenderam permitindo uma vaga visão do local. Muitos corriam desesperados, passando uns por cima do outro, em direção à saída sem saber o que realmente estava acontecendo.

– Mas que droga! Kroboros estão aqui. – disse Richard já tirando duas pistolas do casaco – Fiquem de olhos abertos...

Do nada, um homem de olhos negros saltou sobre eles com a boca escancarada cheia de dentes pontiagudos e cheios de sangue.

– Dimas, cuidado! – Ciel gritou, mas o jovem girou e acertou o kroboro com um soco que o lançou de volta na escuridão. – Como...?

– Precisamos sair daqui. – Dimas falou.

– Não. Temos que encontrar a Akasha. O shinigami! – Ciel gritou ao ver o Shinigami arrastar a escritora pelo braço; a mulher gritava e se debatia. – Por ali.

Ciel seguiu o Shinigami pela escuridão, escutando os gritos desesperados das pessoas e os rugidos vorazes dos kroboros. Um homem ensanguentado caiu em cima de Ciel o derrubando no chão. Dois kroboros os atacaram; Ruby chutou a cabeça de um, tirou a pistola escondida sob a saia e começou a atirar neles.

Quando Ciel chegou à tribuna, viu a mensagem escrita com sangue, arrancou a página e a enfiou no bolso.

– Temos que tirá-los daqui... – dizia Ruby em meio à gritaria e a confusão, alguém esbarrou nela e Ciel a segurou para não deixá-la cair - ...ou eles matarão a todos.

– Não será necessário, acho que eles querem nos matar. – Richard falou ao perceber que os kroboros tinham os encurralado. As pessoas corriam apavoradas até as saídas tentando escapar não sabiam exatamente do quê, alguns diziam “monstros!” e outros gritavam “terroristas!”.

– Não podemos perder tempo aqui, ou aquele cara vai fugir com a Akasha. – Ciel falou.

– Então dê uma ideia do que fazer, garoto! – Richard falou.

Ciel olhou ao redor, conseguia ver pouca coisa naquele escuro. Viu uma garrafa de vidro no chão e a pegou.

– Ruby! – Ciel jogou a garrafa sobre os kroboros e Ruby acertou a garrafa com um tiro, estilhaçando vidro sobre os demônios. – Potejam-se! – Ciel jogou-se atrás de uma estante e pegou um livro muito grosso que estava ali. – Dimas, jogue com toda a força que tiver.

– Certo! – o jovem arremessou o volume 10 da Enciclopédia Britânica c om toda a força, atingindo a cabeça de um kroboro em cheio, que cambaleou. Logo Dimas arremessou outro volume e depois outro.

– Que maluquice é essa? Isso não vai matá-los. – Richard falou.

– Não, mas vai atrasá-los. Preciso ir para o andar de cima. Tá esperando o quê? Comece a atirar e não pare até matá-los. – Ciel ordenou.

– Como quiser chefinho. –Richard saiu de trás da estante atirando em todas as direções. – Vocês me fizeram perder o meu cigarro, agora fiquei irritado. COMAM BALA SEUS CÃES DO INFERNO MALDITOS. Anda logo, moleque!

– Vamos Ruby.

Ciel saiu correndo em direção as escadas que levavam ao andar superior por onde o Shinigami tinha ido, Ruby foi atrás dele.

Dimas ficou com Richard acertando os demônios carnívoros com livros, cadeiras, estantes e o que encontrava pela frente. Um dos kroboros lançou Dimas nos equipamentos elétricos provocando um curto. O jovem escutou vários estalos elétricos.

– Dimas! pegue mais munição no meu bolso esquedo, as balas estão acabando.

– Certo! – Dimas enfiou a mão no bolso direito de Richard e tirou um pequeno pedaço de arame. – O que é isso?

Richard olhou para a mão do garoto e arregalou os olhos.

– Eu disse o bolso esquerdo! ESQUERDO! – Richard tirou a granada de dentro do bolso e jogou-a sobre os kroboros.

– Uma granada?! VOCÊ É MALUCO?! A GENTE VAI MORRER!!

Richard agarrou a gola de Dimas e saiu o puxando.

– MERDA! Corre garoto, corre garoto!

.

.

Sebastian perseguia a estranha figura vestida com uma capa preta. Por mais que corresse o estranho corria mais rápido ainda. Já tinham percorrido uma longa distância, quando Sebastian quase conseguiu tocar a capa que o estranho usava. Mas ele desapareceu bem diante de seus olhos. Sebastian parou e ao virar-se viu o estranho parado, não conseguia ver seu rosto.

– Quem é você? – Sebastian perguntou, seus olhos brilhavam com um vermelho intenso. O estranho não teve reação nenhuma. Ele apenas girou a capa e foi tragado pela névoa, sua presença sumindo completamente. – Que inferno! Eu sabia, estava apenas me afastando de lá.

Sebastian deu meia volta em direção à livraria.

.

.

Quando Ciel e Ruby chegaram ao final da escada, agradeceram por ali haver luz.

– Por aqui. – Ciel falou apontando para uma trilha de sangue que seguia para a esquerda.

– O que é isso aí no chão? – Ruby apontou para o que parecia ser um pedaço de carne ensanguentado. Ciel abaixou-se e olhou de perto.

– É... Uma língua.

– Arg! Melhor eu ir na frente.

– Não seria nada cavalheiro da minha parte permitir isso.

– É. Mas eu tenho as armas – Disse a mulher exibindo as duas pistolas antigas de cano longo.

– Então me entregue uma. Pra que diabos você me treinou?

– Nem....

O barulho de uma explosão fez todo o prédio tremer. Os dois tiveram que se apoiarem nas paredes para não caírem.

– O que foi isso? – Ciel perguntou.

– Acho que foi lá embaixo. Espero que eles estejam bem. Vamos.

Os dois seguiram pelo corredor e foram parar num enorme salão cheio de tralhas e teias de aranhas. Logo na entrada, pisaram em uma poça de sangue, mais a frente encontraram o corpo de Akasha Ratchett, a garganta degolada, sem língua e os olhos furados. Várias faixas de luz, claras como neve, saíam de seu corpo e exibiam várias imagens que mudavam rapidamente.

– Memórias – Ruby virou o rosto tentando controlar a respiração e viu, numa parte mais vazia do salão, um circulo de sangue com vários símbolos. – Magia negra. Eu conheço esse símbolo... – Ruby falou, tentando lembrar-se o que aquele ritual significava.

Ciel continuou andando cuidadosamente, uma luz fraca atrás de uma pilha de caixas o atraiu. A luz fraca bruxuleava fracamente, provocando sombras e formas fantasmagóricas sobre as pilhas de entulho. Aproximava-se quase prendendo a respiração. Sentia o ambiente ficar cada vez mais frio, cada vez mais escuro. Quando foi virar-se para voltar para Ruby, uma lâmina passou a centímetros de seu rosto. O garoto caiu sobre uma pilha de caixas velhas e atingiu o chão com um forte e barulhento baque. O shinigami, que segurava a lança, a ergueu e desferiu o ataque com violência contra o jovem, Ciel desviou-se por pouco. O homem foi dar um outro golpe, mas Ruby o acertou com uma barra enferrujada de ferro.

– Corre Ciel. Não podemos lutar contra um shinigami.

Ruby puxou o garoto pelo braço. Quando saíram da sala, viram que chamas já consumiam todo o caminho pelo qual eles tinham passado.

– Pra direita! – Correram o mais rápido que podiam, percebendo que o shinigami já se aproximava. – Era um ritual, alguém fez um ritual de controle...

– Controle de quê? – gritou Ciel.

– Dele. Alguém o está controlando. – Subiram as escadas que davam para o terraço do prédio. Ciel tentou fechar a porta de acesso, mas o shinigami a arrombou. Ruby tentou atirar, mas as balas tinham acabado – Droga! Do auto do prédio puderam ver uma multidão de carros se formando diante da livraria e correram para a parte de trás do edifício.

– Como se para isso? – Ciel perguntou recuando.

– Precisamos do objeto usado para controlá-lo. Que com certeza está bem longe daqui.

A Ruiva tentou lutar contra o homem, desviando-se dos golpes da lança. O shinigami a jogou para fora do prédio, mas a moça se segurou na sacada. Ciel pulou sobre o shinigami derrubando-o no chão e voltou para tentar pegar Ruby que continuava pendurada.

– Me ajude!

– Calma.

– Cuidado Ciel!

Ciel virou-se e viu o shinigami vindo em sua direção, os olhos deles não estavam verdes, mas brancos e opacos. Não sabia o que fazer ou como escapar. Quando o shinigami ergueu a lança, uma menina de cabelos curtos surgiu entre os dois.

Evie.

A menina ergueu os dois braços, e foi como se o homem tivesse congelado no ar.

– In nomine Christi. Vade!

E o shinigami tomou outra direção. Evie virou-se para Ciel, sorriu e transformou-se em vários corvos.

– Obrigado – Ciel sussurrou.

– Ciel!

Ruby gritou. Ciel procurou a escada de incêndio, desceu por ela e tentou alcançar Ruby. A mulher teve que se jogar e Ciel quase não consegue segurar sua mão. Os dois descerão até o chão e encontraram Richard e Dimas com os cabelos chamuscados.

– E as pessoas? – Ciel perguntou.

– Fugiram todas. Algumas estão sendo atendidas por paramédicos, é melhor irmos, tá começando a chegar polícia, bombeiro. – Richard falou.

– Precisamos encontrar o Sebastian.

Os quatro seguiram pela rua tentando se afastar o máximo da confusão. A neblina pelo menos estava ajudando na fuga.

– Acha melhor voltarmos pra casa dele, Ciel? – Ruby perguntou – Ciel?

Os três se viraram e perceberam que Ciel havia parado muito atrás. Estava de quatro e tossia muito. Ruby voltou até ele.

– Ciel? – Ruby perguntou insegura, pois o garoto havia tossido sangue e a encarou com os olhos vazios como se não a reconhecesse ou não a tivesse vendo. – Ciel está tudo bem?

– Sim. Estou logo atrás de você. Vamos.

Richard e Dimas se entreolharam misteriosamente quando Ruby e Ciel os alcançaram. Continuaram correndo. Não demorou muito e logo começou a chover.

Ciel não disse nada, mas seu olho direito agora ardia como fogo e o mais estranho de tudo é que estava conseguindo enxergar com ele. Nunca conseguira enxergar nada com ele sem a ajuda da lente, mas quando fechou o olho esquerdo, percebeu que estava enxergando agora. Sim, enxergando tudo em um tom de vermelho sangue.


Notas finais do capítulo
Notas improvisadas:

Sabre e florete: são tipos de espadas usadas na esgrima.

Sebastian faz referencia a Lilith de Sobrenatural, alguém sacou? Ah...Lílian não tem NADA relacionado com Lilith, só pra não deixar vcs fazendo suposições erradas :D

Sim o nome escolhido foi Evangeline, sugerido por Vamp Chan, ela deu a sugestão, disse o significado, falou pq gostava do nome e deu essa explicação maluca que eu achei super 10: " Porque poderia ter essa ordem: Angélica, pula a letra B, Ciel, pula a letra D, e um bebẽ com a letra E".......e eu tbm gostei da sonoridade do nome.

Bom...é o que pude lembrar agora, espero...ESPERO poder atualizar bem rápido.

Obrigada por lerem e comentem
Bjs da Tai *3*




(Cap. 17) O Despertar

Notas do capítulo
Oiiiiiiii ^w^
Sentiram saudades de mim? eu senti de vcs *3*

Vamos pular a parte das explicações, tá?

Obrigada a DgsJulianaDgs, Akebelle, Hacamiah, Yin Lua, Suzume For Hire, LRC, Mary Wescot, Lady MIchaelis, Julia, Biia Lightwood Potter, Nayara Caroline por favoritarem, obrigada a todos que comentaram e um beijo especial para Milk Cullen, Suzume For Hire e Tenshi Sieghart com recomendarem, amo vcs.

Erros serão corrigidos depois.


Não sabem o alívio que é finalmente postar esse capítulo.


Boa leitura.

Capitulo 17: O Despertar

8 Anos Antes

Hortense Valentine terminava de limpar a mesa do jantar quando viu o filho falando ao telefone no corredor.

– Boa noite. Até amanhã... Pra você também – dizia o menino com um sorriso meigo nos lábios.

– Com quem estava falando, filho?

– Com a Liza.

– Nossa! Que tanto assunto é esse? Não passou o dia na casa dela hoje? – Angélica gritou da cozinha enquanto lavava a louça do jantar.

– Gostou mesmo dela, não foi? – a Hortense falou sorrindo, seus olhos de céu cinzento quase se fechando. – Anda, já está passando da hora de dormir.

Hortense acompanhou o filho até o quarto e o colocou na cama; afofando bem o cobertor em volta do filho.

– Escuta, Ciel. Angélica e eu estivemos conversando com seu pai, e decidimos que poderíamos dar uma festa de aniversário decente pra você este ano; afinal, não é todo dia que se faz nove anos. Está ficando um rapazinho. Poderá chamar a Liza.

– Mesmo? – o menino abriu um sorriso – posso chamar quem eu quiser da escola também?

– Bom, contanto que não seja a escola toda.

– Tá – o menino falou gargalhando, depois ficou sério. Sério demais. – Mãe, o papai não vai vir pra casa hoje de novo?

– Ele recebeu uma chamada do Departamento, era urgente. Seu pai trabalha duro para pagar o curso da Angie, pagar esta casa e você finalmente poderá ter uma festa.

– E se eu desistir da festa? Podemos ser apenas a senhora, o papai, Angie, eu e um bolo; como das outras vezes. Não me importaria. E papai não precisaria trabalhar tanto.

– Oh, querido, ele não trabalha somente por nós, mas para manter a segurança de outras pessoas também. Ele gosta do que faz. Não fique se recriminando por nada, seu pai não gostaria. Agora vá dormir.

Disse a mulher, gentilmente. Seus cabelos compridos e laranjas tocaram os ombros do pequeno Ciel quando ela se curvou para beijar-lhe a testa. Apagou a luz do abajur e caminhou até a porta.

– Boa noite, querido.

– Boa noite, mãe.

A porta se fechou. O quarto mergulhou numa semiescuridão. Após alguns segundos, uma voz doce chamou a atenção de Ciel.

– Onde esteve o dia todo?

– Com a Liza – Ciel falou com a voz macia de quem está quase caindo no sono.

– Fica muito com ela agora, talvez não precise mais de mim. Não se importa mais comigo.

– Não diga isso – Ciel ergueu o corpo da cama para fitar a figura de cabelo curto escondida nas sombras – Gosto muito de você.

– Gosta mais de mim ou dela?

– Gosto das duas, mas sabe que você é minha favorita.

A menina se aproximou mais da cama e sorriu para ele.

– Só não me deixe sozinha.

– Nunca. Boa noite, Evie.

– Boa noite, Ciel.

Ciel recostou a cabeça no travesseiro e nem soube ao certo por quanto tempo a menina permaneceu velando seu sono, ou quando ele de fato adormeceu. O abismo negro e infinito do sono o tragava para mais fundo, cada vez mais fundo. Não soube se começou a sonhar, mas tomou consciência do frio. Sentia que estava ficando cada vez mais frio. Até seus joelhos tocarem um chão de pedra; frio como a morte. Parecia que havia chegado ao fundo de um poço. Olhou ao redor e não via nada além da escuridão. De repente, o chão de pedra se transformou em madeira fria e envernizada. Pontos de luz começaram a surgir na escuridão e um burburinho de vozes. As luzes eram tochas, essas carregadas por pessoas enfurecidas; não, por criaturas sem rosto, outras com faces retorcidas; figuras de identidades desconhecidas que avançavam para si como quem vai à guerra. Sem entender a razão daquilo, sentiu as mãos agarrá-lo e arrastá-lo. Espancavam-no e gritavam ofensas que ele não conseguia compreender. Ciel chorava; queria grita por socorro, mas não conseguia. O medo e a dor se alternavam à medida que seus olhos fitavam os rostos de seus agressores, que ora eram pessoas comuns ora eram criaturas horrendas. Sentiu alguém passar uma corda em volta de seu pescoço e começar a erguê-lo do chão. Ciel tentava se soltar. Por que estavam fazendo aquilo? O que ele tinha feito de errado. Sentiu um líquido frio ser jogado em sua cabeça e percorrer todo o seu corpo. Era um líquido negro e tinha um cheiro tão forte que ele mal conseguia respirar. Seu desespero aumentou quando viu alguém trazer uma das tochas para perto dele. Tentou fugir, mas puxaram a corda em seu pescoço.

Foi inevitável.

Logo as chamas engoliram seu corpo por completo. A dor era terrível. Ciel começou a gritar com todas as suas forças. Queria morrer logo. Queria que aquilo acabasse.

– Ciel! Ciel! CIEL!

Ciel acordou se debatendo e logo reconheceu o cheiro da mãe. Hortense abraçou o filho com toda a força. Angélica observava a cena assustada.

– Queriam me matar! Eles... Eles iam me matar! – dizia o garoto soluçando, com a voz rouca de tanto gritar.

– Calma, foi só um pesadelo, filho. Foi só um pesadelo.

O primeiro de muitos.

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Agora

Passava das onze da noite e, apesar da chuva, um grupo de pessoas trajadas de capas e guarda-chuvas permanecia em volta da livraria que ainda ardia em chamas. Os bombeiros agradeciam a chuva por impedir que o fogo se espalhasse para os prédios vizinhos, mas ainda tentavam cessar o fogo no interior do prédio da livraria. Curiosos e a equipe médica, repórteres de TV e policiais competiam por espaço. A polícia passava uma fita amarela ao redor do local para impedir que as pessoas se aproximassem mais.

– Estamos transmitindo ao vivo a tentativa dos bombeiros em conter o incêndio que está destruindo a Livraria Megabook. – dizia a repórter em frente a uma câmera – Três mortos foram confirmados e até agora não se sabe as causas do incêndio, o relato das vítimas é dos mais variados.

– Acho que foi obra de terroristas. Vi um cara tirar um monte de armas do casaco e começar a atirar em todo mundo... – dizia uma moça loira.

– ....Eu tô falando sério, mas ninguém acredita em mim. Tinha monstros lá dentro! Um deles arrancou um pedaço da minha orelha, tá vendo? – um homem apontava para um lugar na cabeça ensanguentada onde realmente deveria haver uma orelha.

– Suspeita-se que possa ter havido vazamento de gás, que poderia ter provocado alucinações nas vítimas. A possibilidade de ser um incêndio criminoso não é descartada pela polícia. – continuava a repórter. – Até o presente momento a escritora Akasha Ratchett continua desaparecida. Esta era a noite do lançamento do... Espere um minuto... O chefe de polícia Roger Valentine acaba de chegar – a repórter correu para o oficial – Chefe Valentine, eu sou Shelly Sandoval, poderia dar uma rápida entrevista para o Liverpool Daily News?

– Por favor, senhorita Sandoval, permaneça afastada para sua segurança. No momento a polícia não fará nenhum comentário. Com licença. – disse Roger afastando-se das câmeras – HARRIS!

– Sim, Chefe!

– Tire esses repórteres daqui pelo amor de Deus, como podemos trabalhar assim?

– Sim, Chefe.

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Os quatro chegaram à casa do Sebastian e não demorou muito até que o demônio voltasse para lá também.

– De quem foi a brilhante ideia de explodir o local? – Sebastian entrou na sala lançando um olhar acusador para Richard.

– Nem olhe pra mim assim, a culpa foi do Dimas.

– MINHA!? Quem é que guarda uma granada no bolso?

– De onde veio toda aquela força? – Ciel perguntou a Dimas.

– Herança de família, ou genética, como preferir. Eu...

Dimas continuou a falar, mas Ciel parou de ouvir. Percebeu quando Ruby chamou Sebastian num canto e cochichou algo no ouvido dele. Seja lá o que Ruby disse, Ciel teve certeza que ele era o tema da conversa, pois Sebastian o olhou de uma forma que nunca olhara antes. Um olhar de desconfiança.

Automaticamente, Ciel desviou o olhar e fingiu prestar atenção em Dimas e Richard que tinham voltado a discutir. Os dois se calaram quando Sebastian falou:

– Chega! A criatura que eu segui era realmente um demônio, mas não sei dizer com certeza de que raça. Só consigo supor que é um akuma muito forte ou uma raça superior, pois conseguiu fazer sua presença aparecer e desaparecer em milésimos de segundos, sem deixar rastros. Seu objetivo obviamente era me afastar do local. A princípio, achei que fosse para... No entanto, os kroboros atacaram todos os presentes na livraria e, pelo visto, só atacaram vocês porque revidaram.

– Sim. O caos facilitou a captura da escritora e a fuga do assassino. – Comentou Richard com os braços cruzados. – É provável que eles nem soubessem que estaríamos lá.

– Eles sabiam sim. – afirmou Ruby – Do contrário, não teriam afastado Sebastian. Devem ter nos julgados menos perigosos. Ah! Sebastian, vimos uma insígnia de sangue. Se não estou enganada, os símbolos são os mesmos usados num ritual de aprisionamento de shinigami.

– Mas esse tipo de magia nunca funciona, não é? Quero dizer... não temos registros de algo assim já ter sido feito ou funcionado. – falou Dimas.

– Diga isso ao shinigami que tentou me matar. Ele parecia estar em outro planeta.

– Uma insígnia de sangue... – Sebastian ficou pensativo – quando alguém faz uso de Magia Negra, não deixa registrado nos livros de história, Dimas.

– Quer dizer que é possível, controlar um shinigami? – Dimas perguntou apreensivo.

– Essa noite foi uma armadilha, como imaginei desde o início. Mas não era uma armadilha para... – Sebastian olhou para Ciel por um instante – Não era para nós, era para aquele shinigami. Não podemos ter certeza, ainda. Precisamos falar com alguém que possa nos esclarecer algumas dúvidas. Mas deixemos isso para amanhã, já está tarde e Ciel está cansado.

– Não estou não! – Ciel saltou do sofá sem entender a repentina preocupação de Sebastian, pareceu até sua mãe falando. Mas foi completamente ignorado pelo mais velho que continuou dando instruções aos outros três e guiando-os até a porta.

– Não que eu ligue pra vocês, mas tomem cuidado. Nosso inimigo tem em suas mãos um shinigami que poderá usar quando quiser. – depois de fechar a porta, Sebastian voltou para a sala e deu de cara com um Ciel emburrado. – Você está sujo, precisa de um banho.

– Se você não fala, eu nem repararia. – Ciel ironizava enquanto seguia o mais velho até o quarto. – Dimas e eu temos a mesma idade, sabia?

– E daí?

– Daí que você dá tarefas a ele e manda-o fazer sei lá o que depois das aulas, mas quanto a mim, você me trata como se eu fosse um pirralho que pode tropeçar nos próprios pés e quebrar a cabeça. Não basta eles saberem sobre nós, você fica me tratando assim, pareço um idiota na frente deles.

– Você é hilário Ciel. Tenho certeza de que eles não pensam isso a seu respeito. – Sebastian virou-se para o jovem, segurou-lhe a mão e beijou-a. – Não me importo se Dimas vive ou morre, mas você por outro lado...

Sebastian inclinou-se para beijar o pescoço do menor, mas este desviou.

– Estou sujo.

– Não me importo. Pode continuar sujo, contanto que não esteja vestindo nada.

– Ora... – Ciel corou, mas não respondeu nada. Caminhou até o banheiro e bateu a porta com força. Dentro do banheiro de Sebastian, Ciel encarou seu reflexo: cabelos bagunçados, um arranhão na testa (cobriria com o cabelo, ninguém ia ver), um olho de íris opaca (isso não passaria despercebido). Nem percebeu que sua visão voltara ao normal. Durante todo o trajeto até a casa do Sebastian, Ciel estranhamente estava vendo tudo em tons avermelhados, mas agora, enxergava perfeitamente dos dois olhos. Só se perguntava como iria para o colégio com um olho azul e outro branco, uma vez que não fazia ideia de onde sua lente fora parar. Despiu-se e entrou no box, ligou o chuveiro e sentiu seu corpo relaxar. – Não me parece justo. – a voz de Ciel ecoou nas paredes do banheiro. – Você disse que os Cães da Rainha devem ser cinco, essa foi uma das regras impostas pelo Conde Phantomhive, se Dimas ou qualquer membro do Clã Phantomhive morrer, você terá muito trabalho até achar um substituto, não?

– De fato.

Após alguns minutos, Ciel saiu do banheiro enrolado numa toalha.

– Quer ajuda?

– Não. Vire-se, preciso me trocar e não olhe, estou mandando. – Sebastian ficou de costas para Ciel apenas escutando o som do movimento da toalha e de tecido, o cheiro de sabonete que emanava do corpo do jovem. – Pronto, pode olhar.

Ciel vestia uma camisa branca que cobria até suas coxas.

– O que você está vestindo?

– Uma camisa sua. – Ciel respondeu inocentemente, olhando a roupa em seu corpo.

– Humm. Não me lembro de ter uma camisa tão grande ou pode ser que você seja muito baixinho.

– Cala a boca. – Ciel falou inflando as bochechas e se virando em direção à cama.

– É brincadeira. – Sebastian abraçou o jovem pela cintura e beijou-lhe o pescoço, fazendo todos os pelos da nuca do menor se arrepiar.

Embora gostasse da sensação de ter o corpo de Sebastian tão perto, a proximidade o deixava constrangido. Mas as carícias de Sebastian eram mais poderosas que seu constrangimento. Antes que percebesse, suas costas já encontravam o colchão da cama. Sebastian tomou seus lábios num beijo.

– Sebastian...

– Hum?

– Podemos ficar só nos beijos hoje?

– Como desejar. – Sebastian deu um selinho em Ciel, puxou o cobertor para cobri-los melhor e apagou a luz do abajur. Os dois trocaram beijos e carícias cumplices de amantes até Ciel ser vencido pelo sono.

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Ciel acordou com a sensação de não ter dormido nada. Esfregou os olhos com o dorso das mãos e bocejou. Notou que Sebastian estava sentado naquela poltrona novamente, mas, desta vez, o encarava com seriedade e algo a mais; Ciel não sabia dizer se preocupação ou desconfiança. Talvez fosse apenas paranoia sua.

– O que houve? – o jovem perguntou sem transparecer emoção nenhuma.

– Tem algo que gostaria de me contar?

– O quê, por exemplo?

– Com o quê você sonha?

– Com nada. – Ciel respondeu bruscamente, visivelmente desconfortável com o assunto.

– Você ficou muito inquieto durante a noite. E hoje não foi a primeira vez, já tinha acontecido naquela noite em que o kroboro tinha mordido sua perna, mas achei que tivesse sido pela experiência ruim...

– E daí? Muitas pessoas se mechem durante o sono. Completamente normal.

– ... entretanto, hoje foi mais... Intenso.

– Foi só um pesadelo. – respondeu impassível.

– Depende de que tipo de pesadelo nós estamos falando. Ruby disse-me que você passou mal quando voltavam para cá.

– Ruby é uma exagerada; eu só tropecei...

– Não foi o que ela me disse. – Sebastian continuava a falar num tom frio.

– Não quero falar sobre isso. – levantou-se da cama ignorando o outro. – Que horas são?

– Dez da manhã.

– Dez?! Eu tenho aula hoje, porque não me acordou? – Ciel pegou a mochila que tinha trago no dia anterior e começou a procurar seu uniforme.

– Como conseguiu a cicatriz no seu pulso? – Ciel estacou. Puxou a manga da camisa para cobrir o pulso, como se isso fosse capaz de apagar a memória do outro.

– Foi só um acidente. – sua voz saiu quase num sussurro.

– Tem certeza d....

– Chega! Tenho que ir pra escola, você já me atrapalhou o suficiente por hoje.

Sebastian achou melhor não insistir, Ciel era muito teimoso e por alguma razão evitava até pensar no assunto. Ele não diria nada.

– Eu tenho que substituir Angie na Little Mozart às 15 horas – Ciel começou, tentando restabelecer um diálogo pacifico –, estarei aqui as 17.

– Avisarei aos outros. Use isto. – Sebastian entregou uns óculos escuros para o garoto. – Para esconder seu olho.

– Vai ser difícil me deixarem entrar a essa hora, ainda mais usando óculos escuros. – falou experimentado o acessório.

– Diga que está com conjuntivite. – Sebastian falou dando de ombros. – Você sabe mentir com perfeição quando quer.

– Humpf!

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Ciel conseguiu entrar na escola e assistir ao restante das aulas, mas nem é preciso dizer as piadinhas e fuxicos que seu atraso extrapolado e seu visual inusitado geraram entre os colegas. O pior foi a bronca que levou da mãe por chegar atrasado a Little Mozart e por ser desastrado o suficiente para quebrar a própria lente de contato. Suas explicações não foram suficientemente convincentes. Ciel percebeu que a mãe ficou desconfiada e não era pra menos. Mas a pequena Evangeline chorava tanto que ela preferiu deixar o filho com as duas turmas seguintes e voltar para casa com o bebê.

– Onde está a Srtª Angie? – perguntou uma garotinha oriental segurando um violino.

– Ela tem outro compromisso, por isso darei a aula hoje. Agora, peguem suas partituras. – disse Ciel iniciando o acompanhamento ao piano.

Alguns alunos fizeram um muxoxo. Ciel odiava ter que dar aulas para os alunos pequenos; não tinha muita paciência e era óbvio que as crianças preferiam a Angie. Pelo menos era melhor que ficar em casa e trocar fralda da Evangeline.

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Angie saía da faculdade à noite com alguns colegas quando uma garota lhe deu um recado.

– Você é Angélica Valentine?

– Sim, por quê?

– Aquele cara alí quer falar com você.

Era Sebastian.

– Wow! Que gato, amiga! Quem é o galã?

– Tire o olhinho, fofa. – dizia segurando o queixo da garota. – É o namorado do meu mano.

– Na-mo-ra-do? – surpreendeu-se um dos garotos. – Seu irmão é...

– Olha só.. – avisou Angie – é melhor você escolher bem suas próximas palavras, porque se disser alguma gracinha do meu irmão, eu não respondo por mim.

– ...é um garoto de sorte. Era o que eu ia dizer.

– Sei.

Angie foi até Sebastian.

– Podemos conversar em particular? É sobre o Ciel.

– Eu imaginei. Aconteceu algo?

– Espero que não. Senhorita...

– Angie, por favor.

– Angie, alguma vez Ciel apresentou algum comportamento fora do comum?

– Por que a pergunta? – a fisionomia de Angie ficou mais pesada.

– Ciel tem tido pesadelos. E durante eles, diz coisas preocupantes, e visivelmente, esses pesadelos o afetam fisicamente também.

Angie suspirou.

– Você não vai se afastar dele agora, vai?

– Não. Só estou preocupado com ele. Ele tem uma cicatriz no pulso, quando perguntei como a conseguiu, ele se alterou e não disse nada. Só quero ajudá-lo, mas para isso preciso saber o tamanho do problema.

– Tá, senta aí – Angie apontou um banco. – Sabe, Ciel, quando criança, era muito extrovertido; uma criança extremamente amável, doce e atenciosa com todos. O riso dele enchia a casa. Um menino normal. De uma hora pra outra tudo mudou. Quando faltavam alguns dias para ele completar nove anos, ele teve o primeiro pesadelo, foi horrível. Na noite seguinte veio outro, e depois outro e mais outro. Ele foi ficando instável e irritadiço. Não se concentrava; teve que sair da escola, mamãe lhe dava aulas em casa. Abandonou as aulas na Little Mozart. Ele tinha medo de dormir e achava que todos queriam lhe ferir. Com o tempo, os pesadelos viraram alucinações. Mamãe o levou em vários médicos, pediatras, psicólogos e até num padre, mas ninguém sabia ao certo o que ele tinha ou como curá-lo. Ciel só dormia por meio de sedativo. E foi ficando pior, ele começou a se flagelar. Ele dizia que não, mas sempre aparecia machucado. Outras horas era dizia estar machucado sem realmente estar. Isso durou um ano inteiro, estávamos todos esgotados e...

Angie fez uma pausa. Sebastian percebeu que ela tentava segurar o choro, mas ainda assim as lágrimas teimavam em descer.

– Papai e mamãe tinham que pagar o tratamento, os médicos e os remédios, os dois não podiam parar de trabalhar. Era eu quem ficava mais tempo com ele. Eu só tinha 17 anos e estava cansada. Tenho vergonha de dizer que eu queria que aquilo acabasse. – Angie fez outra pausa – Depois de fazer terapia por um mês, Ciel parecia estar melhor. Por duas semanas ele estivera bem. Naquele dia ele estava bem; eu devia vigiá-lo, mas o deixei sozinho vendo televisão. Quando voltei pra sala, ele não estava mais lá. Procurei-o pelo quintal, procurei-o pela casa, até chegar ao banheiro do andar de cima. Quando abri a porta... Quando abri a porta, ele estava caído ao lado da pia e havia sangue por toda a parte. Eu não sabia o que fazer. Corri pra chamar o nosso vizinho, Daniel, que é médico. Ciel havia cortado o pulso. Daniel estancou o sangue e o levou pra emergência o mais rápido possível. Se não fosse Daniel ter agido tão rápido... Eu nem gosto de pensar. Ciel tinha dez anos. Ele ficou duas semanas internado com muita febre. Quando saiu, estava “curado”. Tão repentino como começou, parou, embora de forma desastrosa. Ciel jura não ter feito o que fez. E todos nós evitamos tocar no assunto para não perturbá-lo. Mas ele mudou depois daquilo tudo.

Angélica enxugou o rosto.

– Saber que algo assim pode acontecer novamente...

– Não se preocupe; se eu perceber algo, lhe informarei. – Claro que ele não diria nada. Pelo visto, a situação estava além do alcance de qualquer médico, o que era mais preocupante ainda.

– Sebastian, não sei quais são as suas intenções com o Ciel. Só peço que não o magoe. Você é a primeira pessoa que ele gosta de verdade.

– Ciel tem sorte de tê-la como irmã.

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O Clã Phantomhive, Claus Midford e Mark Callaway estavam reunidos na sala de visitas da casa de Sebastian. Os Cães relatando o que haviam descoberto e Midford contando como andava o trabalho da polícia.

– Então você realmente é um shinigami? – Ciel perguntava a Callaway.

– Shinigami, ceifeiro, deus da morte, como preferir. – fez uma mesura cheia de floreios – Pode me chamar de Undertaker; acho até melhor... hihihi.

– Senhor Callaway – Ciel prosseguiu ignorando o pedido do mais velho –, é possível controlar um Shinigami?

– Você quer dizer, ter controle total sobre ele, fazê-lo obedecer a sua vontade, como um akuma faria? Bem, ceifeiros obedecem somente aqueles que estão acima deles na hierarquia, anjos e arcanjos, por exemplo; mesmo assim, podemos, se quisermos, escolher não fazer o que eles pedem, ou fazer o que nos der vontade. Claro que eles te considerarão um desertor e... – Callaway começou a resmungar pra ele mesmo, como se falasse sozinho, depois voltou-se para Ciel de repente – Mas nunca nos sujeitamos a demônios. Mas existe uma forma de obter controle sobre um Shinigami e deixá-lo mais submisso que qualquer akuma se disporia a ser. Entretanto... Não sei se devo espalhar por aí métodos que poderão ser usados contra mim, não me parece sensato.

– Você esteve no local do crime com o Detetive Midford, viu a insígnia de sangue, conte o que descobriu.

– Mas assim, sem nenhum agrado, sem nada em troca?

– Olha só, seu esquisito, ou você começa a falar ou eu vou trocar umas balas com a sua cabeça. – Richard falava apagando o cigarro na manga do casaco e carregando uma pistola. Callaway lançou um sorriso sinistro pra ele, seus olhos amarelados escondidos pela franja cinzenta correram de Richard para Ciel.

– Sim, a senhorita Rubystein estava certa. A insígnia encontrada no andar superior da livraria era de um ritual de aprisionamento de um ceifeiro. A polícia ficou em chocada. No passado, muitos tentavam realizar esse tipo de ritual, para conseguir causar mortes ou impedi-las, mas eram poucos os que conseguiam. O ritual exige sacrifícios que nem todos tem sangue frio suficiente para realizar.

– Como assim?

– Veja! – Callaway pegou um pedaço de papel, pousou-o sobre uma mesa e começou a desenhar; os outros, em volta, olhavam. – Esta é a insígnia usada no ritual, é composta por cinquenta símbolos diferentes e deve ser desenhada com sangue sacrificial. E aqui... heheheh... está o segredo: dois símbolos não podem ser feitos com o sangue de uma mesma vítima. – falava com a empolgação de quem revela o segredo de uma receita de bolo.

– Então... – começou Ruby – se eu tenho cinquenta símbolos diferentes, isso significa dizer...

– Cinquenta assassinatos. – Ciel completou.

– Pela Coroa da Rainha! – exclamou Claus.

– Como já deve saber – Ciel sobressaltou-se ao ouvir a voz de Callaway em seu ouvido, e as palavras seguintes fizeram seu sangue gelar – todo grande feitiço, exige um graaande sacrifício.

– Então é por isso que estavam matando as mulheres? – perguntou Dimas – Quantas morreram mesmo?

– Foram menos de trinta – respondeu Richard –, mas lembrem de que há muitas pessoas desaparecidas.

– É necessário que as cinquenta vítimas tenham alguma característica em comum ou que cumpram algum requisito para que o ritual funcione? – Ciel perguntou.

– Não. Basta que sejam mortas pela mesma pessoa que realizará o ritual. Tanto faz se for homem ou mulher, criança ou velho, justo ou injusto. Além desses cinquentas, é necessário mais um sacrifício, e para este há um requisito: a alma de um traidor sem língua.

– Isso expli-plica a língua q-que encontramos. – Ruby comentou fazendo um cara de nojo.

– Por que sem língua? – perguntou Richard.

– Não faço ideia. – confessou Callaway.

– Explica também o bilhete que acusava Akasha Ratchatt de traição. – Ciel disse. – Como acontece?

– Depois que a insígnia é desenhada com o sangue das cinquenta vítimas, coloca-se o traidor ainda vivo perto da insígnia e com um punhal o fere mortalmente, isso atrairá um shinigami. Quando ele aparece para colher a alma do moribundo, essa mesma alma se tornará uma corrente arrastando o shinigami para a insígnia e, estando o shinigami dentro dela, você pode se declarar senhor sobre o ceifeiro e ele o obedecerá cegamente. Muitos tentavam realizar o ritual com sangue de uma mesma pessoa ou de animais, ou de pessoas mortas por outros, tipo substituir um ingrediente por outro...heheheehe... Mas nunca funcionava.

– Alguém queria capturar aquele shinigami, é óbvio, mas as vítimas parecem ter sido escolhidas a dedo, por alguma razão... O Bilhete também mencionava uma mulher... “Isso é um desrespeito à memória dela”. Ela quem?

Todos ficaram em silêncio por um momento, cada um formulando possibilidades em suas cabeças.

– Bom... a vantagem de se controlar um shinigami é poder escolher quem e quantos matar. – Richard comentou.

– Mas onde está a lógica nisso? Arriscar-se em cinquenta assassinatos para conseguir um assassino pessoal não me parece muito esperto nem muito lógico.

– Como eu disse – Callaway continuou –, esse tipo de ritual era muito realizado no passado. Veja por esse lado, se você está em guerra e possui um exército pequeno ou fraco, matar cinquenta e uma pessoas e poder usar um shinigami a seu favor é vantajoso. É vitória garantida.

– Mas não estamos em guerra e seja lá quem for esse assassino, ele já provou que pode matar quem ele quiser sozinho. Até agora nenhuma morte aconteceu. Para que outra razão alguém pode querer um shinigami? A única pessoa que poderia nos dar alguma pista era a Ratchett; tenho certeza que ela pretendia dizer algo, mas infelizmente já está morta.

– Bem... – começou Callaway – Posso fazer com que ela lhes dê alguma informação, mas terão que ir a minha humilde casa amanhã.

Quando saíam, Claus pediu para falar com Sebastian a sós.

– Minha mãe ligou, está vindo para Liverpool.

– Ah! Será um enorme prazer rever Agatha. – Sebastian fingiu entusiasmo.

– Não seja hipócrita. Você sabe por que ela está vindo.

– Senhorita Elizabeth.

– Precisamos apresar as coisas, ela já tem dezoito anos.

– Não se preocupe.

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O endereço dado por Callaway não levava a uma casa comum. Ciel tinha até se dado ao trabalho de imaginar em que tipo de casa o estranho legista moraria, mas nem sequer uma de suas hipóteses foi tão excêntrica quanto a realidade o era. Estavam todos parados em frente a uma funerária em péssimas condições, mas parecia abandonada. O antigo dono do lugar parecia não pisar ali há muito tempo. Ciel reparou numa placa de madeira com um letreiro improvisado escrito “UNDERTAKER” pregado de qualquer jeito sobre o letreiro original. O capacho estava mais empoeirado do que uma rua de terra e os umbrais da entrada cheios de teias de aranha.

– Será que estamos no lugar certo? – Ciel fazia uma careta para o desleixo do local.

– Oh, sim – dizia Sebastian – com certeza estamos no endereço certo.

Ciel procurou uma campainha, sineta o que fosse, mas acabou dando três batidas na porta com a mão mesmo. Não demorou muito para Callaway aparecer na porta e pedir que todos entrassem. Além do habitual cardigã cinza, usava também uma capa preta e um chapéu esquisito.

– Sejam bem vindos! É uma honra ter o Clã Phantomhive novamente em minha casa. Fiquem a vontade, sentem-se, sentem-se.

Todos olharam em volta e só viram um monte de caixas e móveis irreconhecíveis sob o manto de poeira.

– Preferimos ficar em pé, mesmo. – Ruby sorriu constrangida.

– Fala sério, esse doido acabou de arrombar esse lugar, aposta quanto? – Richard sussurrou para Dimas que riu baixinho em concordância.

– Então você e Sebastian já se conheciam? – perguntou Ciel.

– Há muito tempo, não é mesmo, demônio? Heheheehe! Os Cães da Rainha sempre recorrem a mim para obter pistas.

– Nem sempre tão úteis, Undertaker. – alfinetou Sebastian, seu olhar era fuzilante.

– Então, encontrou alguma pista relevante com o corpo? – Ciel perguntou.

– Isso vai depender do que você irá perguntar a ela. Espere um momento; irei buscá-la.

– O q...?

Ciel demonstrou não entender o que Callaway queria dizer, mas Sebastian fez sinal para que ele apenas observasse. Para espanto de Ciel, Akasha Ratchett entrou na sala empoeirada caminhando, amparada pelos braços de Callaway. Embora ela parecesse perfeitamente bem olhando de longe, ao se aproximar do grupo, Ciel pode notar que não era esse o caso.

Mesmo auxiliada pelos braços de Callaway, Akasha tinha um caminhar decadente, passos irregulares. Sua pele negra não tinha aquele brilho exótico que Ciel vira na livraria, mas um tom opaco e sem vida. Havia manchas escuras em sua pele, talvez hematomas. Seus olhos apagados, embora encarassem os presentes ali, pareciam fitar o nada. Ciel começou a sentir um cheiro nauseante e desconhecido, só pôde concluir que vinha dela. Não havia nenhum cabelo, apenas uma horrenda cicatriz recentemente costurada que fazia toda a circunferência da cabeça nua.

– Veja Aki, este é o Cão da Rainha sobre o qual eu te falei. – Callaway sentou a mulher numa cadeira em frente à Ciel, que horrorizado viu a mulher girar os olhos para ele. – Diga olá para ele.

Os lábios secos e rachados se abriram pesadamente e produziram um gemido em resposta:

– Oooooaaá...

– É...vai ser um pouquinho difícil de entendê-la, afinal ela perdeu a língua e eu tive que lhe arranjar outra que era consideravelmente maior.

– Você.... Ressuscitou ela? – indagou o jovem ainda com incredulidade. Sebastian olhava para Akasha como se ela fosse uma serpente pronta para dar o bote, Ruby e Richard não demostravam reação, Dimas foi o único além de Ciel a ficar surpreso.

– Não. Ressurreição envolve devolver a vida a alguém, fazendo ele ser exatamente como era, como se nunca tivesse morrido. Minhas habilidades ainda não alcançaram esse nível, hehehehe. Embora possamos ver claramente a senhorita Ratchett aqui, não é de fato ela. Isto, meu jovem, é uma quimera. Quimera artificial pra ser exato. Já fiz melhores, é verdade, mas foi o que pude fazer em tão pouco tempo, com tão poucos recursos, com um corpo em estado tão lastimável.

– Como?

– É um processo relativamente simples, é só dar um pedaço de vida extra a uma vida concluída, mas no caso dela, não faço ideia de onde sua alma fora parar, e nesses tempos é muito difícil conseguir uma alma viva que pudesse ligar a dela, de modo que usei a de um cachorro... pobrezinho... O que não é muito convencional, hehehhehehe.... Resumindo, o que vemos na nossa frente nada mais é que um corpo reanimado, não por muito tempo, claro. Mas que conserva apenas pensamentos instintivos, noções de necessidades básicas e alguma memória no cérebro. Terá que fazer as perguntas certas.

– Fooommmiiiii.... – o gemido ecoou no silêncio sepulcral da sala.

– Você é louco! Transformou-a num zumbi. – exclamou Ciel e, só então, se dando conta do absurdo que aquilo soava. – Ela realmente vai responder algo?

– Como eu disse, ela conserva apenas algumas memórias que ficaram registradas antes da morte, pode perguntar o que quiser, mas ela não irá responder exatamente como a verdadeira Akasha Ratchett responderia.

Ciel bufou impaciente e incomodado com a situação. Sebastian o encorajou.

– Tente fazer um pergunta certeira.

– Akasha, quem matou Você?

– Mooonstlos... mordi...am.

– Os kroboros a levaram – falou Ruby –, é provável que nem tenha visto quem a acertou e só se lembre dos demônios.

– Quem queria se vingar de você? – Ciel tentou novamente.

– Lii...vo........... Foooommme.

Ciel afundou o rosto nas mãos.

– Ciel... – Sebastian começou, mas Ciel levantou a mão pedindo silêncio. O jovem pensou por um instante. Encarou a mulher, a quimera, o zumbi, o que quer que ela fosse naquele momento; podia ver a cicatriz que atravessava sua testa bem de perto, olhou no fundo dos olhos dela e a própria Akasha pareceu estar hipnotizada.

– Muitos assassinatos ocorreram e você sabe quem é o assassino, sabe por que ele faz isso, por isso ele quer matar você também – akasha assentiu sem desviar os olhos de Ciel – você queria que isso parasse. Você diria a todos no lançamento do livro por que as mortes estavam acontecendo. Agora, me diga... Como ele escolhe as vítimas?

Akasha inclinou a cabeça para traz como se tentasse recordar de algo. Ela olhou novamente para Ciel e disse lentamente, movimentando com esforço a língua costurada.

– Me-li-ssa U-tter-son.

– Esse nome me é familiar… Ciel nem teve tempo de terminar seu raciocínio; a fisionomia de Akasha mudou inesperadamente e avançou sobre Ciel como um leão faminto. Ruby rapidamente puxou o garoto para trás, caindo os dois no chão empoeirado. Antes que Akasha pudesse alcançar Ciel, Sebastian segurou e girou a cabeça da mulher bruscamente, o barulho alto do pescoço se quebrando foi ouvido por todos, assim como o barulho do corpo caindo no chão.

– É por isso que detesto essas criaturas. – disse o akuma.

– E agora, como vou explicar isso aos policiais da perícia? – lamentou Callaway.

Ciel sentia seu coração acelerado. Fitou o rosto de Sebastian, e este tinha os olhos vermelhos como chama ardente. Sentiu um aperto em seu pescoço. Achou que Ruby estivesse lhe enforcando, mas a moça o segurava pelos ombros. O aperto ficava mais forte e a sensação de sufocamento também. A última coisa que viu foi Dimas ajoelhar-se ao seu lado.

Depois tudo era escuro.

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Estava deitado num sofá de estofado velho e puído. Ao longe, vozes discutiam, essas ficavam cada vez mais altas e claras. Permaneceu deitado com os olhos fechados, apenas escutando.

– ...a alma deste menino está fraca e enfraquece cada vez mais. Acaso fizeste alguma coisa que possa ter aumentado sua ligação com ele?

– Não.

– Está mentindo.

– Está insinuando que ele está assim por minha causa?

– Alguma coisa ou alguém está provocando essa reação extrema. Estou presumindo que seja você.

– Isso é absurdo. Tomei todos os cuidados necessários, assim como fiz com aqueles três, fiz com Ciel.

– Você sabe que foi além.

– Isso é absurdo! Você não mencionou que isso pudesse ser tão prejudicial. Algo não está certo. Isso não deveria estar acontecendo e tenho a impressão de que você sabe de algo, mas não quer falar.

– A única coisa que sei é que o jovem Ciel não sobreviverá a um Despertar. Sugiro que o mande de volta pra casa e procure outra pessoa que possa ser um Cão da Rainha.

– Nunca!

– Não está pensando nele, só está pensando em você e no seu desejo pela alma dele. Deixe-o morrer, então. Assim como fez com Lílian.

– Como ousa. Eu não tive nada a haver com a morte dela.

– Mas teve com as outras mortes.

– E daí?

– Não importa. Tentarei descobrir o que pode estar causando essa reação. Por hora, é melhor que ele não saiba sobre Lílian, pode ser...

– Sim eu sei.

– Ciel acordou!

Dimas o delatou, Ciel sentiu vontade de esganá-lo. Logicamente ninguém mais tocou no assunto e fingiram estar tudo bem. Ciel protestaria, mas não queria que os questionamentos inconvenientes se voltassem contra ele.

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– isso é tudo culpa sua. Não deveria ter confiado em você. – dizia Claus a Undertaker. – nada disso estaria acontecendo. Se algo der errado Sebastian vai acabar descobrindo.

– Se não tivesse confiado em mim ele já teria descoberto, meu caro. Salvei a pele da sua família.

– Não sei se foi realmente isso o que você fez.

– Ora ora. Quanta desconfiança. Como eu poderia adivinhar que aquilo aconteceria. Confie em mim, darei um jeito de manter o akuma no escuro.

– Como?

– Apenas garanta que sua sobrinha não dê com a língua nos dentes.

– Talvez fosse melhor contar logo tudo.

– Eles têm segredos. Nós temos segredos. Eles não contam pra nós. Nós não contamos pra eles. Estamos todos quites, somos todos um bando de mentirosos. – Undertaker sorriu.

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Ciel sentia-se cada vez pior. Os pesadelos voltaram mais frentes e piores, além disso, estava tendo algumas alucinações. Por vezes sentia-se doente. Agradeceu por estar usando os óculos escuros (sua mãe não conseguira marcar uma visita no oculista), assim conseguia esconder seu aspecto doentio. E quando a mãe ou Angie perguntavam se ele tinha dormido bem, colocava a culpa no choro noturno de Evangeline, depois, achando que não era justo culpar a irmãzinha por tudo, disse que poderia ser um resfriado (foi uma boa desculpa, já que a mãe deixou de questioná-lo, preocupada com sua saúde).

Além da sensação de estar realmente ficando doente, as implicâncias na escola o deixavam irritado. Na aula de matemática, quando o professor deixou a turma sozinha, Ciel percebeu um burburinho da turma e risinhos irônicos que ele sabia serem por sua causa. Um papel passava de mão em mão, alguns riam outros só passavam a diante se recusando a olhar. Ciel os ignorava.

– Ei Ciel, olha essa mensagem que me mandaram. – disse Dimas olhando para o celular – “O pai de John tem cinco filhos. O primeiro se chama Segundo, o segundo se chama Terceiro, o terceiro se chama Quarto, o quarto se chama Quinto e o quinto, como se chama?”.

– John.

– Que droga! Você olhou a resposta.

– Não. Agora guarda essa droga e faça o seu exercício, pois eu não vou te dar cola.

– Que cruel.

Alguém jogou o tal papel sobre a mesa de Ciel e Dimas e ficaram esperando. Ciel respirou fundo e desdobrou a folha. Um desenho tosco e obsceno de sodomia. Ciel amassou a folha devagar, contou até dez pra não dizer umas poucas e boas. A julgar pela risada que se sobressaiu, pode concluir que o autor da piada tinha sido Mason. Não perderia a cabeça, era isso que ele queria.

Embora conseguisse manter o autocontrole, lhe aborrecia mais ainda saber que Liza também era acossada por sua causa.

– ... As características de um ser humano, cujo conjunto chamado sexo, são, na reprodução, transmitidas geneticamente pelo resultado da combinação do par de cromossomos que determina o sexo. Toda mulher tem um par de cromossomos X, e todo homem tem um cromossomo X e um Y. Assim, se nas combinações de cromossomos do feto resultar um par XX, este será do sexo feminino; se resultar um par XY, será do sexo masculino. E blá blá blá... Os órgãos do sistema reprodutor da mulher são o ovário, as trompas e o útero (e a vagina como receptáculo do pênis e do sêmen na relação sexual); os do homem são os testículos e a próstata (e o pênis como penetrador e portador do sêmen na relação sexual) e blá blá blá.... Gente, que livro é esse? Só de ler estou ficando excitada. Ou o conselho escolar não reparou nisso quando escolheu esse livro de biologia ou eu sou muito doente mesmo. Então, achou a resposta da questão nove?

As duas estavam no jardim da escola durante o intervalo. Pauline esperando Elizabeth responder, mas essa olhava para longe; para Ciel.

Fazia um bom tempo que Liza observava Ciel sentado sob a árvore; sozinho. Ultimamente sua única companhia era Dimas, mas este andava muito ocupado com o treino do time. Tinha algo de diferente nele, parecia impaciente com algo, mas do que o normal. Ciel tirou os óculos escuros que estava usando; esfregou os olhos e continuou olhando para o livro em suas mãos. Quando uma brisa soprou as folhas caídas no chão, os olhos de Ciel cruzaram com os olhos esmeraldinos de Liza. A garota sentiu uma sensação inexplicável, quando se entreolharam, foi como se não se vissem há muito tempo. Sim, era como se ela o visse pela primeira vez. O coração apertou em seu peito.

– Liza, a questão nove. LIIIIIIIIIIIIIIIIIZAAAAAAAAAAAAAAA! – falou cantarolando.

– Foi a rainha Elizabeth I! – respondeu assustada.

– Tem razão, mas estávamos estudando História ontem. – falou sorrindo. – Você está bem?

– Sim... Tem alguma coisa errada com o Ciel, você não acha?

– Liza, supera isso...

– Não, não é isso. Eu sinto que ele... Não sei explicar.

– Você parece doente. Tem certeza de que está bem?

– Sim, eu só dormi mal.

– Ficou chorando até tarde?

– Não. Tenho tido sonhos estranhos. Sempre com a mesma menina de olhos bicolores.

– Ainda iludida com seu ex-namoradinho biba? – a voz repentina de Mason assustou as garotas.

– Sai fora, Mason – disse Pauline – estamos ocupadas.

– Não estou falando com você, estou? – respondeu bruscamente. O rapaz sentou-se ao lado de Liza passando o braço pelo pescoço da garota. – Então, Beth...

– Não me chame de Beth. Não lhe dei permissão para se referir a mim por apelidos. – Liza desvencilhou-se dos braços de Ivan.

– Não seja tão arisca. Venho em paz. Como deve saber, você se tornou a piada do momento; culpa do Valentine...

– Se veio pra jogar na minha cara....

– ....Escute... Há uma maneira de acabar com isso. – Falava todo garboso, sorrindo pros seus colegas que observavam a cena. – Dê o troco, faça a fila andar. Se você saísse com alguém importante, logo deixariam você em paz. Alguém tipo... Eu. Eu faria isso por você. Pra você ver como não sou tão ruim quanto você pensa.

Elisabeth encarou Ivan Mason por alguns instantes.

– Eu preferiria a morte! – tanto Mason, como Pauline e os observadores se assustaram com o ímpeto da resposta de Liza – Como você é prepotente e arrogante. Quando você vai entender que Eu-Amo-O-Ciel. Não importa o que ele fez ou o que ele fará; ainda que ele dissesse que me odeia, meus sentimentos por ele continuariam os mesmos. Seria uma grande hipocrisia minha, que sempre afirmei meu amor por ele, me juntasse a você numa vingança contra ele. Logo se vê que você não entende nada de sentimentos. Não passa de um idiota que acha que pode ter tudo o que quer só porque seu pai tem dinheiro. Ou pensa que não sei que você atormenta o Ciel porque tem inveja dele?

– Invej..

– Sim, inveja! Porque ele é o único que não se curva pros seus caprichos nem aceita as suas chantagens tolas. Que não está nem aí pra quem você é. O único, que mesmo sem querer, tem a garota que você JAMAIS terá!

O jardim pareceu parar num silêncio constrangedor. Percebendo que as pessoas começavam a rir do fora que havia levado, Mason, com as bochechas completamente vermelhas, tentou contornar a situação:

– Vim aqui fazer caridade, mas logo se vê que só mesmo aquela bicha poderia suportar você.

Elizabeth ficou tão furiosa e indignada com a maneira com a qual Ivan se referia a Ciel, que nem se deu conta de quando sua mão estalou um tapa tão forte no rosto de Mason que se formou o desenho perfeito de uma mão na face pálida do rapaz.

Com o orgulho ferido, Mason se voltou contra ela.

– Vai se fuder, sua vadia! – e empurrou Elizabeth com toda a força, a garota caiu sobre Pauline. Alguns alunos se revoltaram, outros apoiavam a confusão, mas antes que Mason pensasse no que faria depois, um soco o acertou com tanta força que o fez cair de cara no chão, sua boca se encheu de grama e terra. Desnorteado sem saber de onde aquilo tinha vindo; não precisou levantar para ver quem foi, aliás, não conseguiu, mas a voz lhe deu uma resposta.

Ciel pisou sobre as costas de Mason e empurrou a cabeça dele contra o chão impedindo que ele levantasse.

– Se você encostar um dedo nela novamente, nem que seja num fio de cabelo, eu acabo com você. Você me entendeu?

Ciel soltou Mason e foi em direção a Liza e Pauline. Não querendo passar por fraco, Mason pulou sobre Ciel e os dois começaram a distribuir socos. Ivan ia acertar o rosto de Ciel, entretanto, os óculos que este usava caíram; Ivan se refreou espantado, ao ver que Ciel tinha um olho azul, e o outro brilhava; um brilho de cor púrpura.

– CHEGA! TODOS PRA DIRETORIA, AGORA! – a voz de um adulto foi ouvida.

Ciel, Mason e até Elizabeth foram parar na diretoria; ficaram em detenção, cada um em uma sala diferente, só saíram acompanhados de um responsável. Ciel deu graças aos céus por Angélica ter atendido ao telefone, e não seus pais. Angie até mesmo compareceu vestindo um tailleur vermelho, os cabelos presos, um ar muito sério.

– Não se preocupe senhor Diretor, meus pais ficarão sabendo de todos os pormenores desse evento abominável e garanto-lhe que ele será severamente disciplinado. – dizia ela.

O diretor ficou muito satisfeito.

Claro, Angie deu uma bronca em Ciel, mas não diria nada aos pais.

Como a irmã tinha que ir pra faculdade e já estava atrasada, não pode acompanhá-lo até em casa. Deixou-o na metade do caminho e mandou-o pegar um taxi. Ciel já estava dentro do veículo quando recebeu uma mensagem de Callaway. Mudou seu destino.

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– Alguma novidade na polícia?

– Não.

– Algum recado pro Sebastian ou para os outros?

– Não.

– Então por que estou aqui?

– Queria apenas esclarecer algumas dúvidas. Por que aceitar fazer parte de tudo isso? Tem uma família admirável e que gosta de você, amigos, uma casa confortável. Não é milionário, mas nunca lhe faltou nada. Você tem tudo o que um jovem de sua idade poderia querer. Não faz ideia de onde está se metendo ao aceitar ser um Cão da Rainha, o nome Phantomhive é amaldiçoado. Se seguir em frente, sua realidade tranquila poderá mudar completamente. – Ciel parecia pesar as palavras do shinigami numa balança; Callaway continuou – Desista de tudo isso e volte para a vida feliz que lhe foi dada. Garanto-lhe que os pesadelos que lhe atormentam e mortificam desaparecerão.

– Não entendo sua preocupação comigo. Mas devo dizer que amaldiçoado já estou desde o dia do meu nascimento. Não nasci para levar uma vida normal, disso tenho certeza, nem para desistir de coisa alguma. O que me pedes na realidade é que eu feche os olhos e finja esquecer tudo o que vi, finja não saber de tudo o que agora sei. Não sou o tipo de pessoa que escolhe viver na ilusão só porque é mais agradável.

– Espero que não esteja baseando suas decisões em sentimentos afetivos por um determinado akuma. Não acha estranho essa aproximação tão rápida de vocês? Demônios sabem ser bem sedutores quando querem. Não se engane. Conheci uma moça que confiou nele, Lílian, e veja que fim trágico ela teve.

– Não me interessa nada disso. Tenho certeza de que não sou como essa tal Lílian.

– Aí é que você se engana. Ela também foi um Cão da Rainha... ou seria Cadela?

– Então não foi das melhores.

– Não sabe o destino que lhe aguarda se escolher este caminho.

– Todo mundo morre um dia. Vou fazer o que quero, não importa as consequências. Já fiz minha escolha, não me importa se é a certa ou a errada, com ou sem Sebastian, recebi um problema e não pararei até resolvê-lo. E se Sebastian tem o poder necessário para me ajudar, então sua presença me é vantajosa. Duplamente vantajosa. Mas quanto a você, se não pretende ajudar, não fique no caminho. Até mais ver, Sr. Callaway.

Ciel virou-se para sair, mas algo chamou sua atenção. Mais que isso, o atraiu. Uma pintura, colocada ali recentemente, não haveria como não a ter notado antes. Uma paisagem lúgubre e misteriosa. Uma ilha rochosa no meio do mar, um pequeno bote chegava à ilha, transportando em seu interior duas figuras misteriosas e um pequeno ataúde branco. A imagem parecia puxá-lo de alguma forma.

– Como se chama esse quadro? – perguntou esquecendo-se que estava de saída.

– A Ilha dos Mortos de Arnold Bocklin. – respondeu olhando não para o quadro, mas para o garoto.

– Acho... Acho que já vi esse quadro antes...

– É provável. É uma pintura relativamente famosa.

Ciel continuou olhando para a pintura, quanto mais olhava, mas intrigado ficava e uma sensação de torpor invadiu sua mente. Se estivesse atento, teria notado que Callaway pegara uma pá e vinha em sua direção. O golpe fez Ciel apagar.

– Sinto muito por isso Sr. Valentine. Mas preciso garantir que você não se lembre de determinadas coisas. E é Undertaker, por favor.

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Depois da confusão na escola e de ficar até tarde na detenção, Liza ainda teve que correr para a aula de esgrima. No meio do treino, um professor disse que tinha falado com um tio seu pelo telefone, e que ele viria buscá-la. Perguntava-se o que seu tio queria.

Na entrada da escola, o carro do Claus Midford estava estacionado. Elizabeth aproximou-se do carro e entrou. Para sua surpresa, não era Claus o motorista, mas Sebastian.

– Boa noite, senhorita Midford, serei seu chofer esta noite. – disse o homem sorrindo.

– Meu nome é Elizabeth Wilson. – Liza respondeu, lembrando-se que ali estava a pessoa que lhe roubara Ciel.

– Não por muito tempo. Anime-se Srtª Elizabeth, verá que o melhor é que sejamos parceiros.

– Para onde está me levando? – viu o carro adentar ruas mais vazias e escuras.

– Para um compromisso importante.

– E porque tio Claus não pode vir?

– Ele estava ocupado.

– Não posso, estou de castigo. Quero ir pra casa. – disse insegura.

– Você irá... Depois.

Não soube dizer por que, mas um pavor repentino começou a crescer em seu peito, ficou tão apavorada, e os olhos castanhos que lhe fitavam pelo espelho pareciam tão ameaçadores, que temeu por sua segurança. Sentiu tanto medo que abriu a porta e saltou do carro em movimento. Caiu rolando e assim que viu que estava viva e conseguia ficar de pé, pôs-se a correr.

– Ora... – Sebastian suspirou – Isso foi inesperado.

Elizabeth corria sem saber pra onde. Chocou-se com algo sólido, mas, antes que caísse, mãos a seguraram.

– Ruby?! Ruby me ajude.

– Calma, senhorita Elizabeth, não há porque se preocupar. – Ruby a segurou com força e logo Sebastian apareceu. Liza não entendia o que estava acontecendo. O que eles queriam?

– Isso foi completamente desnecessário. Vamos voltar para o carro.

Elizabeth tentou resistir, mas Ruby garantiu que ninguém queria machucá-la. Convencida por Ruby, mas ainda desconfiada, Liza voltou para o carro.

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Ciel sentiu alguém segurar a sua mão direita e erguê-la alguns centímetros. Quando abriu os olhos, deparou-se com os cabelos brancos de Callaway. O homem tinha em mãos um anel prateado com uma pedra azul. Aproveitando que o jovem ainda estava meio desnorteado, Callaway colocou o anel no polegar do garoto e afastou-se em seguida.

Zonzo, Ciel percebeu que estava nos fundos da funerária abandonada. Estava sentado sobre os joelhos e apoiava-se nas mãos. Sua cabeça latejava. Ao levantar-se, percebeu que se encontrava no centro de um circulo branco com cinco velas dispostas sobre ele. Callaway começou a ler um livro em voz alta, Ciel não entendia nada; o outro falava em latim. Como mágica, as velas se acenderam do nada. Ciel tentou sair dali, mas uma força invisível o impedia; estava preso no círculo.

– O que está fazendo? Eu exijo que me solte!

– Isso não será possível. Espero que sua alma seja mais forte do que parece. – e voltou a ler o livro.

Ciel sentiu seu olho queimar.

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Sebastian dirigiu até sua casa. Midford já o esperava como o combinado, mas ele não estava com uma cara agradável. Assim que saíram do carro, Liza correu para Claus. Richard apareceu preocupado.

– O que houve? – Sebastian perguntou.

– Sebastian, alguém invadiu a casa. Levaram o anel.

Mal Richard termina sua notícia, Elizabeth cai sobre os joelhos, apertando as têmporas com força, lágrimas surgem no canto de seus olhos e deu início a um choro compulsivo. Claus e Ruby tentavam acudir a garota, sem saber o que estava acontecendo.

– Sebastian, ela está Despertando! – disse Ruby.

– Preparem a insígnia, rápido! – disse Claus.

Sebastian olhou para as próprias mãos. Suas unhas tinham voltado a ficar negras como piche.

– Aquele maldito Shinigami. – foi a última coisa que disse antes de partir o mais rápido que podia para o esconderijo de Undertaker.

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A cabeça de Ciel parecia que iria explodir de dor. Seu corpo ardia e doía ao mesmo tempo. Uma enxurrada de imagens começou a encher sua mente. Tentou abrir os olhos, viu Callaway parado mais adiante ainda lendo, mas no instante seguinte, sua visão se tornou avermelhada e pode ver Callaway completamente diferente. Os cabelos cinza estavam extremamente compridos, suas roupas se tornaram uma vestimenta negra e longa, usava uma estranha cartola, e Ciel pode ver no homem a sua frente as cicatrizes que Sebastian mencionara, no pescoço e atravessando o rosto. Era a verdadeira forma do Shinigami.

– EXPERGISCENDUM!

A insígnia sob seus pés começou a brilhar. Fitas de luz, brancas como neve, saíram do peito de Ciel e começaram a girar ao redor de seu corpo, numa velocidade tão grande que o deixou nauseado. As fitas se tornaram imagens, memórias que lhe davam alegria e que atormentavam; giravam em tono do garoto quase formando um casulo. Ciel sentia sua força se esvair. Seu nariz começou a sangrar, seus olhos derramaram lágrimas de sangue. Não via nada além de luz.

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Sebastian foi rápido o suficiente para conseguir segurar o corpo do jovem antes que este atingisse o chão. Sentado sobre os joelhos e segurando o garoto no colo, o akuma correu os olhos pelo corpo do menor procurando algum ferimento, e, embora não houvesse encontrado nenhum, a pele tenra estava fria como o gelo.

– Ciel, acorde!

Sebastian sacudiu Ciel tentando reanimá-lo. Ciel não regia. Sebastian foi ficando impaciente nervoso. Undertaker apenas observava.

– Está morto? – perguntou o shinigami como quem pergunta as horas.

Tomado pelo ódio, Sebastian deitou Ciel no chão e levantou Undertaker pelo colarinho.

– Seu...

Os dois sentiram uma presença poderosa. Sebastian viu os olhos cheios de êxtase.

– Eis que ela surge. – sussurrou Undertake.

Ao virar-se, Sebastian viu uma menina, linda como a noite, trajada de preto e vermelho, curvar-se sobre Ciel. A menina pousou a mão sobre o peito de Ciel e este puxou o ar com toda a força que seus pulmões conseguiam.

Estava vivo!

Sebastian tentou se aproximar da menina, mas no momento que o fez, os braceletes de ouro que a menina usava nos pulsos, assim o arco em seu pescoço, brilharam com uma intensidade absurda, revelando símbolos angélicos da Ordem dos Serafins. Os olhos dela, em contraste, brilharam rubros. A menina gerou uma explosão de energia para manter Sebastian longe. Tanto o akuma quando Undertaker e tudo o mais ao redor da insígnia foi arremessado para longe.

Quando a poeira baixou, o shinigami havia fugido, a menina havia sumido, restavam apenas Sebastian e Ciel.

Como sempre fora.

Sebastian pegou o adolescente no colo como se este não pesasse nada. Fitou-lhe a face manchada de sangue.

– Não se preocupe. Tudo ficará bem, Jovem Mestre.

Notas finais do capítulo
Expergiscendum: Despertar em latim.

Comentem pfv
Beijos da Tai.


Ps.: leitores da fic DIÁRIOS....tentarei escrever um capitulo novo o mais rápido q for possível. não desisti de fic nenhuma. ^^




(Cap. 18) Enquanto Ele Dormia

Notas do capítulo
Oi Pessoal ^_^

Nossa, 318 comentários e 10 recomendações!!! Sabem quando eu sonhei com isso? nunca. Quando publiquei a fic, meu sonho era conseguir pelo menos cinquenta ..kkkkk...sério mesmo.
Só tenho a agradecer a todo mundo que lê e que comenta, e que continua acompanhando apesar da minha demora.

Obrigada a Karura, Lady Spoiler, Myla senseii, Pandora Beaumont e Liny Nyan por favoritarem...sejam bem vindas.


ATENÇÂO:

Já devem ter notado que esse capítulo é pequeno comparado aos últimos, como sabem, não tenho muito tempo pra escrever, e isso foi o que consegui fazer nesse feriado. é um capitulo chato, mas necessário, por que o próximo será muito longo, pra esclarecer algumas coisas, várias e acalmar seus corações...kkkkk

Como não faço ideia de quando vou poder escrever novamente e quando vou poder terminar o próximo captulo, resolvi postar logo essa parte.

Espero que gostem. apesar de tudo. e fala sério que vcs não perceberam? O quê? ora, boa leitura.
*-*

Capítulo 18: Enquanto Ele Dormia

ANOS ANTES, LONDRES

– Os pecados do passado deixam marcas profundas. – dizia Ciel em frente ao espelho, deslizando os dedos pela cicatriz em suas costas. Tinha o olhar perdido e o semblante triste. – Espero que sejam profundas o suficiente.

Sebastian se aproximou dele.

– Esta cicatriz não será mais que uma lembrança ruim. Mas isto... – Sebastian virou o corpo de Ciel de frente para o espelho, e apontou para o olho com o selo do contrato – Isto será seu verdadeiro estigma. O elo que nos manterá conectados. – Sebastian deslizou as mãos pelos ombros do homem; Ciel ainda observava a imagem dos dois no espelho. No fim, não conseguira ser tão alto quanto Sebastian, alcançando apenas a altura do ombro do moreno. Olhou para seu próprio cabelo, que Sebastian acabara de cortar. Estava bom assim. – Que blusa gostaria de vestir hoje?

– Escolha uma pra mim. – Ciel falou sentando-se no sofá da sala de vestir.

– Esta azul. Você sempre ficou muito bem de azul.

Sebastian ajudou Ciel a colocar a blusa e o colete. Como de costume, Ciel deixou Sebastian fazer o laço de sua gravata.

– Que vergonha, mestre, vinte e nove anos e ainda não sabe fazer um laço numa gravata. – Sebastian disse sorrindo.

– Humph! Não seja insolente, Sebastian. – Disse Ciel se afastando, ajeitando as abotoaduras e tossindo um pouco.

– É melhor levar seu casaco, fará frio. – Sebastian ficou olhando Ciel enrolar o cachecol em volta do pescoço. – Podemos ficar, não precisa ir se não quiser.

– Sabe que há apenas uma maneira de me fazer desistir.

– O mestre sabe que não vou fazer isso.

– Então prosseguiremos com nossos planos. Não tenho medo, Sebastian. Contanto que você esteja comigo. Agora vamos, não fica bem demorarmos tanto.

Sebastian fez uma reverência, pegou o casaco e as luvas de Ciel e o seguiu pelo corredor da mansão. Os dois desciam as escadas, os outros cinco já aguardavam no salão de entrada. Elizabeth foi a primeira a se virar. A mulher tinha os cabelos presos num penteado bonito. Ciel a cumprimentou e beijou-lhe a mão.

– Elizabeth, tu sabes que não precisa fazer isso.

– Ora, Ciel. Sabes muito bem que sou tão teimosa quanto você. Talvez até mais. Já estou decidida; todos nós estamos.

Os três servos confirmaram com a cabeça. Ciel suspirou. Olhou para Sebastian e sentiu segurança.

– Muito bem. Senhor Undertaker?

O Shinigami tirou o chapéu e fez uma mesura exagerada para Ciel que apenas o ignorou.

– Se alguém quiser desistir esse é o momento. – Undertaker falou e olhou para todos; um sorriso perpassou por seus lábios finos. – Não? Ninguém? Senhor Akuma... Você mostra o caminho.

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AGORA, LIVERPOOL

– Por aqui!

Dizia Richard abrindo a porta do salão subterrâneo sob a casa de Sebastian. Claus o seguia, descendo as escadas carregando Elizabeth no colo e ignorando as paredes decoradas com armas. A garota estava inconsciente, mas ainda gemia de dor e chorava baixinho. Ruby e Dimas desciam logo atrás deles carregando dois baús de madeira de tamanho médio. Ruby jogou o seu no chão, abrindo-o e retirando de dentro dele um giz.

– Rápido, por Deus! – Pedia Claus.

– Estou tentando! – Ruby se abaixou e começou a desenhar um círculo em volta de si. – Dimas, pegue o livro e vai me mostrando os símbolos.

– Tá!

Dimas pegou um livro velho no outro baú. Folheou as folhas e entregou a Ruby.

– Richard pegue as velas. Cinco. Disponha-as ao redor do círculo, em uma distância igual entre elas.

Richard pegou cinco velas grossas de cera da Babilônia e saiu medindo a distância em que elas deveriam ficar.

– Mais rápido! Se ela despertar sozinha...

– Senhor Claus, estou indo o mais rápido que posso. Esses símbolos são difíceis de desenhar. Nunca realizei um Despertar sem a ajuda do Sebastian.

– O quê?! Tem certeza de que sabe o que está fazendo?

– Não me pressione. Preciso de atenção. – dizia a ruiva tentando reproduzir todos os desenhos o mais rápido que conseguia, apagando-os quando não saiam perfeitos – Dimas o próximo símbolo!

– Certo!

Ruby terminou os desenhos e saiu do círculo. Pegou o livro com Dimas e começou a lê-lo.

– Coloquem-na no centro.

– Me dê ela. – Richard pediu a Claus. Pegou a adolescente no colo e a colocou no centro do círculo. Tendo o cuidado para não apagar os símbolos desenhados com giz.

– Afastem-se.

Ruby fez um gesto com a mão para que os outros se afastassem. Abriu o livro e respirou fundo. Estava nervosa. Mas já tinha visto Sebastian fazer isso antes e conhecia bem latim, ela podia fazer isso. Olhou para as inscrições e começou a recitar o encantamento. Como não era bruxa, a primeira frase era necessária para tornar o encantamento válido. A insígnia usada na alquimia permitia que qualquer humano pudesse fazer uso de magia.

– Haec signa facere verum augurium!

No momento em que as palavras foram pronunciadas, as velas se acenderam. Ruby continuou.

– Immemor oblivionem ánimam

“recordabitur enim omnium quae memoria vixit,

“At heri et nunc

“Numquam deficiet in memoria

“Inveniet viam tuam per tenebras

“Discere a erroribus

“Praeter unum, qui id, quod erat in eo

“Consonat omne corpus hoc praesentibus,

“Expergiscere ad novam vitam,

“Et omnes testimonium consequat

“ante Deum et Dominum nostrum

“EXPERGISCENDUM!”

A insígnia sob o corpo da jovem brilhou e inúmeras fitas de luz saíram de seu peito. Giraram em volta do corpo de Elizabeth formando um casulo de luz. A luminescência tomou todo o aposento ofuscando a visão dos ali presentes.

Após alguns segundos o casulo se desfez e as fitas voltaram para o corpo da jovem. Todos ficaram parados por um instante até verem que a garota respirava. Elizabeth começou a se mexer.

– Ela está acordando. – disse Dimas.

– Ainda bem. – Ruby suspirou aliviada caindo sobre os joelhos. Pelo menos a garota estava viva.

– Qual o seu nome, minha cara? – Claus perguntou ajudando a jovem a erguer a cabeça.

– Elizabeth Midford. – respondeu abrindo os olhos verdes.

– Seja bem vinda. Que bom que está bem. – Dimas sorrindo. A loira olhou para ele.

– Agora sei por que começou a me chamar de Lizzy. – Elizabeth falou sorrindo. Dimas retribuiu o sorriso constrangido.

– Nem tinha percebido.

Elizabeth olhou para todos e ao redor. Havia vários equipamentos de treino, armas variadas e uma estante cheia de objetos estranhos.

– Que lugar é este, tio?

– Estamos na casa do Sebastian.

– Devia ter imaginado. – depois ficou mais preocupada e tentou se levantar. – Onde está o Ciel?

– Acalme-se, Sebastian foi buscá-lo. – Claus falou segurando a sobrinha pelo braço.

– Não, tem algo errado com ele. Eu senti. – a adolescente falava aflita.

– Espere. Preciso falar algo a você. – Claus olhou para os outros três – Podem nos deixar sozinhos?

Richard fez uma cara desconfiada, mas subiu as escadas com Dimas e Ruby, deixando Claus e Elizabeth a sós.

– O que está acontecendo? – a jovem perguntou preocupada.

– Durante o tempo em que você esteve inconsciente, muitas coisas aconteceram. Antes de ir falar com aquele akuma ou com Ciel, precisa saber de algo...

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Elizabeth entrou na sala de visitas seguida por Claus. Seus olhos verdes cruzaram com os olhos rubros de Sebastian. Em pensar que ela achou que Sebastian estava tentando sequestrá-la algumas horas antes; agora aqueles acontecimentos pareciam tão distantes. Sem dúvida era uma sensação muito estranha. Lembranças que se confundiam e se encaixavam.

– Olá Sebastian. – falou hesitante.

– Senhorita Elizabeth, vejo que despertou perfeitamente bem. Espero que não esteja ressentida por nossos recentes desentendimentos. – Sebastian falou com toda a doçura e cortesia que podia, mas Elizabeth sabia muito bem que se pudesse beber aquelas palavras morreria envenenada.

– Não quero falar sobre isso agora. Onde está Ciel? – perguntou ao constatar que Ciel não estava presente na sala.

Sebastian fechou o cenho.

– Está lá em cima. Ainda não acordou. – a loira fez menção de subir, mas o moreno a impediu. – É melhor deixá-lo descansar.

– O que houve? – Dimas perguntou.

– Undertaker. – Sebastian falou como se o nome fosse um xingamento. Ergueu a mão para que todos na sala pudessem ver suas unhas negras e o selo em sua mão. – Ele realizou o Despertar. Ciel quase morreu.

– Callaway fez o quê?

– O que você ouviu, senhor Claus. Agora, queira fazer o favor de chamar seu amigo, gostaria muito de falar com ele. – Sebastian curvou os lábios num sorriso maldoso. Claus engoliu em seco e olhou para Elizabeth, que assentiu.

– Com licença. Vou ver se ele vai me atender. – o homem ajeitou a gravata e enxugou a testa com um lenço. Claus pegou o celular e se afastou do grupo.

– Não será necessário, eu já estou aqui.

Undertaker apareceu na entrada da sala com um sorriso cínico. Fez um gesto amplo com as mãos e uma mesura mal feita. E se sentou na poltrona apoiando as costas e as pernas nos braços desta. Não estava com sua aparecia original, mas como Mark Callaway, a forma humana escolhida por ele. Ficou sacudindo a manga comprida do seu cardigã cinza como se espantasse uma mosca.

– Então... Perdi alguma coisa? Como o garoto está?

– A alma dele estava muito fragilizada... Ele ainda não acordou e isso não é nada bom. – Sebastian falou agarrando o shinigami pelo colarinho, tirando-o da poltrona e o jogando-o no sofá. A poltrona continuou vazia. – Você sabia dos riscos que ele corria se fosse submetido a um Despertar naquele estado, você mesmo nos desaconselhou a fazer isso. O que pretendia?

– Ora, cheguei à conclusão que o melhor seria que ele despertasse logo ou morreria de qualquer jeito. Como você mesmo me relatou, as lembranças estavam provocando transtornos mentais e se revertendo em lesões físicas. Claro que havia 85% de chance dele não sobreviver ao processo; sabia que nenhum de vocês concordaria com isso, por isso o sequestrei, era preciso arriscar. E funcionou muito bem.

– Ele ainda não acordou. – Sebastian rosnou entre dentes.

– Mas está vivo. Não está? O que aconteceu com Você, Sebastian? Costumava ser mais paciente e divertido.

– E se ele demorar pra acordar? Ele não pode ficar aqui por muito tempo, a família dele vai ficar preocupada. – Elizabeth comentou.

– Dimas, ligue para a casa dos Valentine e diga que Ciel dormirá na sua casa por conta de um trabalho. – Sebastian falou como se aquilo fosse enfadonho. Tentando ignorar a súbita vontade de destroçar o shinigami.

– De novo? – Dimas resmungou.

– Invente a desculpa que quiser. O fato é que ele estará mais seguro aqui.

– A mãe de Ciel não é boba. Ela vai acabar desconfiando, se é que já não desconfia. – Elizabeth falou olhando para Sebastian com desgosto.

– Isso pouco importa. Ciel continuará aqui até acordar. – Sebastian falou. E Dimas se afastou dos outros treinando sua mentira em voz baixa, era péssimo nisso.

– Há algo estranho. – Elizabeth começou – Há alguns dias venho tendo pesadelos, e passei muito mal várias vezes. Imaginei que estivesse doente. Mas os sonhos estranhos continuaram. E acho que quase despertei sozinha umas duas vezes antes de hoje. A primeira vez foi quando eu voltava da aula de esgrima com Dimas. A segunda vez foi em casa. Nem sempre eram lembranças minhas.

– Pelo que a Irmã de Ciel me contou, ele teve esse mesmo tipo de reação quando estavam no hospital, mas com Ciel era sempre mais desastroso. E pelo que parece, quando Ciel teve as reações mais estremas foi exatamente no mesmo momento em que você também teve uma ligação maior com o passado, como hoje.

– Talvez tenhamos algum tipo de ligação. – A garota arriscou.

– O mais provável é que alguma coisa estava forçando Ciel a recuperar as lembranças. – Undertaker começou – Talvez essa mesma coisa estivesse exercendo alguma influência sobre você também, Lady Elizabeth.

– Alguma coisa ou alguém? – Sebastian perguntou. O shinigami voltou os olhos para o akuma. – Aquela garota era uma quimera, estou errado?

– Garota? Que garota? – Perguntou Richard com o cigarro pendurado na boca.

– Uma quimera? – Ruby falou.

– Sim. Tinha a forma de uma criança. Pergunto-me se não era ela quem Ciel chamava de Evie. Imagino que ela seja obra sua.

Undertaker começou a rir histericamente, como se toda a situação não passasse de uma grande piada.

– Minha, meu caro akuma. Obra minha. Heheheh! De fato, ela é a quimera perfeita. Corpo de demônio e alma humana. Ah! Quantas possibilidades... Quantas coisas podiam ser feitas com ela.

– Mas ela não está mais em seu poder. – Elizabeth falou com desprezo. Undertaker girou o corpo para olhar a jovem, parecia estar dançando. Fitou a jovem de maneira misteriosa.

– Sim. Não está mais em meu poder. Infelizmente, minha lady.

– Então uma das cinco quimeras roubadas era de sua criação. – Sebastian falou.

– Na verdade, me roubaram duas quimeras. Mas isso não vem ao caso.

– O que me deixou curioso, na verdade, foi o fato daquela quimera carregar símbolos angélicos. Pensei que a Corte dos Serafins não concordasse com a existência de quimeras, sobretudo do tipo demônio, como aquela menina. E você me aparece com uma quimera com selos angélicos? A Corte está de acordo com isso?

– Digamos que exista uma exceção. – Undertaker deu um largo sorriso.

– Eu não senti a presença daquela quimera até que ela estivesse lá, e pelo visto ela é mais forte do que qualquer quimera que eu já tenha visto. Tive a impressão de que você esperava que ela aparecesse. Aquela criatura estava em contato com Ciel, o que ela e o que você pretende com isso?

– Eu? Devo lembrar-lhe, demônio, que perdi todo o contato com as quimeras roubadas.

– Roubadas por quem?

– Se soubesse a resposta não seria necessário chamar o Clã Phantomhive, não é mesmo? O que posso dizer é que se resolverem usar elas contra nós, estaremos bem encrencados. Por isso é de vital importância encontrar o ladrão e assassino.

– Qual o interesse em Ciel?

– Não faço ideia. Como lhes expliquei no passado, tentar fazer com que alguém se lembre de sua vida anterior é extremamente perigoso. Sobretudo se alguém tem um passado como o de Ciel; acho que não preciso lembrar-lhe de como ele morreu da última vez. É possível que a quimera...

– Evie! – Elizabeth falou subitamente. Todos olharam para ela. – Sebastian disse que a quimera se chama Evie.

– Não tenho certeza, as características da quimera batem com a descrição que Ciel tinha nos dado. Undertaker? – Undertaker deu de ombros.

– Bom, chamemo-la de Evie. Hihihihi! – Undertaker continuou – Como eu dizia, é possível que Evie tenha forçado Ciel a recuperar a memória, talvez ela não soubesse que tal atitude pudesse ter consequências desastrosas.

– Ou talvez fosse justamente o que ela pretendia, já que a garota está com o nosso inimigo. – Richard comentou. – afinal, é muito suspeito, se a quimera, Evie, está nas mãos dos responsáveis pelos assassinatos, como que ela consegue andar por aí. Teoricamente ela é uma prisioneira.

– Pelo menos deveria. – Sebastian declarou ainda muito intrigado com toda aquela situação. Como ele não conseguiu sentir aquela Quimera antes, Undertaker teria finalmente conseguido criar uma criatura tão poderosa? Não tirou os olhos das reações do shinigami e de Claus, não conseguia deixar de lado o pressentimento de que havia algo errado e o que mais incomodava era o fato de ele não fazer ideia do quê. Como era possível que ele, um akuma de alto escalão, não conseguisse desvendar esse mistério?

Uma quimera do tipo demônio com selos angélicos.

Isso sim era estranho. Desde a criação dos Phantomhive, os anjos não interferiam mais nos problemas dos humanos. Qual o interesse dos serafins nas quimeras? E como seriam as outras quatro? Se havia alguém que Sebastian odiava mais que shinigamis eram os anjos. Por nada em particular, apenas por serem inimigos naturais. E ver Undertaker mancomunado com os Serafins não era nada agradável. Boa coisa não era.

Continuaram conversando, expondo cada um suas opiniões. Claus relatando o que a polícia de Liverpool tinha conseguindo, quais suas suspeitas, o que não era muita coisa. Como era de se esperar, apesar de Sebastian considerar a investigação empacada, os Cães da Rainha ainda estavam muito a frente da polícia.

Dimas disse que a mãe de Ciel não ficou convencida, sobretudo porque não falou com o filho. A mulher exigira que o filho fosse para casa. Sebastian disse que daria um jeito. Elizabeth também se recusou a ir para casa, mas como estava com o tio, não havia problema; uma das exigências que os Midford fizeram para que a garota continuasse morando com os Wilson, já que eles tinham a guarda legal dela, foi permitir que Elizabeth visitasse os Midford pelo menos uma vez por semana.

Depois de algum tempo Undertaker foi embora. Claus nunca gostou muito da presença de Sebastian, mas se recusou a deixar a sobrinha sozinha com o akuma por mais que a loira tenha dito não haver problema.

– E se Ciel não acordar? – Dimas perguntou tristonho.

– Ele vai acordar! – Elizabeth e Sebastian responderam em uníssono. Olhos verdes e rubros se encontraram e se separaram rapidamente.

A contra gosto, Sebastian disse que precisava sair. Deixou a segurança de Ciel nas mãos de Ruby e Richard e antes de sair pela porta, olhou para o topo da escada como se pudesse ver Ciel parado ali. Desceu os olhos lentamente para o símbolo gravado em sua mão e tentou não pensar em como seria se Ciel acordasse e ele não estivesse ali ou pior, se Ciel não acordasse.

O akuma fechou a porta e partiu.

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MANCHESTER

A Louca de Berwik.

Era assim que todos no bairro de Berwik, em Manchester, chamavam Sibyl Ashton. Sibyl tinha 28 anos e sempre fora uma mulher estranha, reclusa e um tanto paranoica. Mas no último ano seu comportamento havia piorado, principalmente nos últimos meses. Recusava-se a sair de casa e a falar com quem quer que fosse; não queria que os dois filhos pequenos, os pequenos Paul e Adrian fossem para a escola. Fazia uma confusão sempre o marido saia para o trabalho e mais de uma vez, tentou agredir o carteiro e o entregador de jornal. Não aguentando mais a situação e temendo pela segurança dos filhos, o marido dela pegou as crianças e foi embora de casa, já que ela até mesmo se recusava a procurar tratamento.

Naquela noite fazia três meses que estava sozinha. Três meses sem sair de casa. Três meses sem qualquer contato humano. Mas naquela noite estava mais inquieta que o normal. Sabia que ela era a próxima, mais cedo ou mais tarde. Viriam atrás dela.

Estava sentada no sofá a meia luz, vendo o noticiário. Era só o que assistia o dia inteiro, o noticiário. Via todos os jornais que podia, até os de outros estados. Estava ali encolhida, quando seus ouvidos atentos capitaram um som vindo do portão. Não poderiam ser as crianças baderneiras, elas só apareciam durante o dia e faziam questão de ficarem gritando “Louca de Berwik!” a plenos pulmões. Estava torcendo para que fosse algum ladrão.

Ouviu passos.

Seja quem fosse, tinha conseguido abrir o portão e estava agora avançando pelo jardim. Sibyl desligou a TV e ficou quieta. Não houve barulho além dos batimentos de seu coração. Encolheu-se mais ainda. Talvez tenham ido embora, ela pensou. Mas ouviu um forte baque na porta de entrada que a fez pular do sofá e soltar um gritinho de pavor. Sibyl se escondeu atrás do sofá, todo seu corpo tremia. Um vento gélido percorreu sua espinha. Olhava fixamente para a porta implorando para que tivesse apenas imaginado.

O baque novamente.

Mas dessa vez foi seguido por rosnados. Parecia que vários cães arranhavam a porta. E batiam contra a entrada com tanta força que o porta guarda-chuvas ao lado caiu no chão, as paredes tremiam. Todas as janelas estavam fechadas, as portas bem lacradas, mas os cães nas portas estavam quase a derrubando e pareciam furiosos.

Não sabia o que fazer suas pernas tremiam. Tomou coragem, começou a empurrar uma estante contra a porta, os baques eram tão violentos que a empurraram para trás quando ela se aproximou da porta. Viu garras atravessarem a madeira.

– O que é isso?!

Exclamou apavorada. E em seguida ouviu uma voz.

– Sibyl abra a porta!

Ao ouvir aquela voz, Sibyl sentiu todo seu corpo congelar. Parecia que seu coração sairia pela boca. Parecia que uma pedra de gelo havia caído em seu estomago.

– Eu sei que você está ai.

As garras estavam quase estraçalhando a porta. Subiu as escadas tropeçando nos próprios pés. Entrou no quarto e jogou o máximo de coisas que podia para barrar a porta. Começou a abrir todas as gavetas do guarda-roupas até achar um álbum de fotos. Pegou um recorte de jornal e o dobrou várias vezes até ele ficar o menor possível. Ouviu a porta ser arrombada e o barulho de patas e rosnados avançando escada a cima. Foi até o banheiro pegou um saco plástico e enrolou em volta do pedaço de papel dobrado. Respirou fundo, estava quase chorando, e colocou o embrulho na boca e o engoliu. Encheu a mão de água da torneira e bebeu. Quase se engasgou, tossiu várias vezes. Tinham chegado à porta do seu quarto. Sabia que não conseguiria fugir. Sabia como as outras tinham sido mortas, não se escondeu durante tanto tempo para morrer daquele jeito.

Quando a porta foi derrubada, nem olhou para ver o que estava a perseguindo, apenas saiu do banheiro e correu para a janela e a abriu. Colocou o corpo para fora e tentou se atirar dali. Mas antes que conseguisse completar o suicídio, sentiu uma mão segurar seu pulso com força, puxá-la para dentro e arremessá-la contra a parede. Para sua surpresa, homens a seguravam, mais tinham uma aparência grotesca. Sibyl se debatia desesperada tentando se libertar. Então aquela pessoa entrou.

– Que vergonha Sibyl. Sabe muito bem que não pode escapar de mim. Gostou dos meus novos amigos? Podem soltá-la.

Ela foi arremessada contra o chão.

– Você. Eu sabia que era você. Por que está fazendo isso? Eu não tive culpa, sabe que não. Sou tão vítima quanto ela. Todas nós somos. Por favor, tenha piedade.

– Piedade, sua vadia imunda. Víbora. Vou mostrar pra você o que é piedade. Matarei você bem rápido se me disser onde a sua prima Gladys se escondeu? Você se acha esperta. Há! Sempre soube onde te encontrar, mas a Gladys, ela sim é esperta, mas eu sei que você sabe onde ela está.

– Nunca vou dizer nada.

– Não tem problema. Eu adoro brincar. Mas você já sabe disso, não é?

Apavorada, Sibyl levantou-se de súbito e tentou escapar. Não deu nem três passos completos e sentiu o que pareceu ser agulhas acertarem suas pernas. Caiu no chão sentindo uma dor aguda que se irradiava por toda a perna. Suas pernas não se mexiam.

– Quando vão aprender que isso é inútil? – disse pisando sobre as pernas de Sibyl fazendo as agulhas penetrarem a carne e atingirem os ossos. Sibyl gritou desesperadamente, a dor era terrível. – Pode gritar o quanto quiser, todos acham que você é louca mesmo. Como te chamam mesmo? A Louca de Berwik.

Sibyl chorava de tanta dor. Não conseguia mover as pernas, mas ainda assim, sentia a dor. Sabia que iria morrer, tinha certeza disso. Só conseguia pensar nos seus filhos. Teve tanto medo de morrer durante todos esses anos, que nem percebeu que havia deixado de viver. Em pensar que poderia ter passado esses últimos dias com sua família. Pobres meninos cresceriam achando que a mãe era uma louca. Pelo menos estariam seguros. Sibyl foi agarrada pelos cabelos e arrastada pelo quarto. Os homens com aspectos animalescos jogaram a cama para um canto do quarto, deixando um espaço vazio no centro. Prenderam um tipo de gancho no teto ao lado da lâmpada.

Alguns minutos depois, Sibyl estava pendurada pelos pés; os braços amarrados num bloco de cimento que a impedia de levantá-los e fazia os ossos do ombro doerem. Estava nua. Sentia a pressão em sua cabeça aumentar. Seu rosto estava vermelho e seus pés doíam muito.

– Tive uma ideia divertida. – Pegou uma meia no guarda-roupa e enfiou na boca da mulher com violência. – que tal começarmos fazendo uns desenhos com essa faca aqui, depois, se você se comportar poderemos introduzir mais umas agulhas em lugares mais divertidos.

Deslizava os dedos pelo abdome da mulher parando em seu baixo ventre.

– Até que você ficou bem bonita, vamos ver se vai continuar assim. – Sussurrou no ouvido de Sibyl, que gemeu implorando para que não a machucasse, mas nada adiantava. Seus olhos foram vendados. – Vamos começar?

A sensação era terrível. Tudo estava escuro. Não conseguia respirar direito e não fazia ideia de onde a faca viria, que parte de seu corpo seria cortada primeiro. Até o ar frio em sua pele lhe causava espanto, achava que já era a lâmina lhe perfurando. Só a expectativa a mortificava, mas era essa a intenção. Tortura.

Por um instante era como se estivesse só naquele quarto. Mas então veio a dor. A lâmina abrindo sua pele; gritou, mas seu grito saía abafado.

– Se ficar se mexendo vai ser pior, a faca pode ir mais fundo. Não se preocupe, minha queria vadia, antes de eu terminar, você me dirá onde está Gladys.

Sibyl escutava a voz dançar ao seu redor. E novamente mais um corte. E dessa vez foi pior, pois a lâmina esta quente. Sentia o cheiro de sangue impregnar suas narinas e o líquido escorrer por seu corpo. Seus ouvidos invadidos por seu choro e pelo rosnar daqueles monstros.

– Acalmem-se, talvez eu deixe comerem ela no fim.

Sibyl sabia que aquilo era só o começo e que a tortura ficaria cada vez pior. E por uma ironia cruel, extremamente cruel, do destino, ela que sempre pediu para ficar viva, agora implorava para morrer depressa.

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LIVERPOOL

Hortense ninava a pequena Evangeline quando escutou a campainha. Foi atender e para sua surpresa era Ciel.

– Ciel? São dez horas da noite filho! Não sabe como é perig... Por que tocou a campainha?

– Esqueci. Posso entrar?

– Mas é claro. – falou olhando para o filho. – E o trabalho? Dimas ligou, mas...

– Tudo bem. Conseguimos terminar a tempo.

Hortense achou o filho um pouco estranho.

– Você ficou chateado? Sabe Ciel você nunca foi de ficar tanto tempo fora de casa, de dormir fora de casa, você anda diferente... gostaria de conversar...

– Não. Está tudo bem... mãe. Sou o mesmo de sempre.

– Oh! Certo... vai querer jantar?

– Não, já jantei, a avó do Dimas fez o jantar. Posso ir me deitar?

– Claro... Pode colocar a Evangeline no berço pra mim, por favor? Vou guardar as sobras na geladeira.

Ciel ficou parado encarando a mãe. Depois pegou o bebê no colo. E subiu as escadas. Viu a porta do quarto com uma bonequinha pendurada segurando um cartaz escrito Evangeline. Entrou e parou diante do berço. Olhou para a pequena garotinha em seus braços e aproximou-a de seu rosto sentindo o aroma.

– O que está fazendo?

Angie estava parada na porta.

– Ela tem um cheiro bom. Mas nem tanto.

– Bom, então da próxima vez, você escolhe o perfume.

Ciel colocou o bebê no berço.

– Se eu fosse você, contava logo pra mamãe. – a ruiva falou, Ciel continuou olhando para o bebê. – Cara, você está sendo muito relaxado, sabia? Acha que pode mudar seu comportamento da noite para o dia que ela não vai desconfiar? Terminou seu namoro com a Liza sem dar explicação nenhuma, não sai da casa do Sebastian e ainda dorme por lá. Como eu disse, eu vou te apoiar no que você quiser fazer. Mas se você realmente não quer que nossos pais saibam, seja mais cuidadoso, tá?

– Vou me lembrar disso. Boa noite, Angie.

Angie ficou olhando o irmão seguir para o próprio quarto.

– Ciel?

– Quê?

– Nada. Boa noite.

Ciel entrou no quarto, apagou a luz. Entrou embaixo das cobertas e fechou os olhos.

Era só esperar o dia amanhecer.

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Quando Sebastian chegou em casa, todos ainda estavam na mesma sala. Ruby servia café.

– Onde esteve? – Richard perguntou.

– Isso não importa.

– E a família do Ciel? – Dimas indagou, queimando a língua no café quente.

– Pensa que Ciel dormiu em casa e que está na escola. – o moreno respondeu sentando no sofá.

Ninguém fez mais perguntas, porque perceberam que Sebastian não estava com humor para dar respostas. Ciel ainda não havia acordado. Depois das oito da manhã, Claus teve que ir para o Departamento de Polícia. Na sala, reinava um silêncio incomodo. Sebastian preferia que nenhum deles estivesse ali.

Ruby puxou conversa e com muito custo conseguiu fazer Dimas e Elizabeth falarem também, depois, Richard. Conversavam bobagens, claro, mas mantinham todos distraídos. Apenas Sebastian mantinha seus pensamentos focados em apenas um lugar daquela casa, embora não tenha voltado a pisar lá depois de deixar Ciel naquela cama.

Era mais de dez horas da manhã, quando Elizabeth viu os olhos de Sebastian brilharem com um vermelho intenso. E naquele momento ela soube, porque Sebastian havia sentido, que Ciel havia acordado.

– Ciel acordou!

E todos subiram as escadas correndo.

Mas Sebastian continuou parado onde estava.

– Sim, ele acordou. Finalmente. – disse para si mesmo.

Notas finais do capítulo
Explicações: Gente, eu trabalho o dia inteiro e faço faculdade T.T por isso não tenho tempo pra nada.... gostaria de escrever mais rápido e postar mais rápido, mas não dá...quero só que saibam que eu não demoro por preguiça. nem sempre se está inspirado, por exemplo, prometi atualizar Diários, mas é uma fic que exige um estado de espírito muito... poético... pra escrever aquilo...tenho medo de forçar a mente e fazer merda, tenho um carinho especial por aquela fic e não quero que ela saia do rumo. Odeio quando eu demoro, sou leitora tbm e sei a agonia que dá.

Bom...

Sério que não perceberam? eu acho que muitos sacaram, mas ficaram com medo de falar e eu trollar vcs, não é? ^.^ bem...sim, Ciel Valentine é a reencarnação de Ciel Phantomhive, por isso eu disse no cap anterior que era um alívio publicar aquele cap, achei que todos perceberiam. Dei pistas desde o início, até o sobrenome Valentine foi escolhido propositalmente para rimar com Phantomhive.

agora resta outros mistérios a resolver, não é?
no proximo capitulo faremos uma viagem ao passado... e o que acontecerá quando Ciel acordar?
Veremos no próximo episódio de X-men Evolution, não, pera...

beijos da Tai e até o cap 19
=^.^=




(Cap. 19) Os Pecados do Passado – Parte I

Notas do capítulo
Olá, Tudo beem!!Primeiro, obrigada a Cherry Bomb, Mih Rosier Black Malfoy por favoritarem e a todos vcs que comentaram....amo ler seus comentários.ATENÇÃO: Não poderia dizer isso lá no inicio da fic, por motivos óbvios, mas agora posso. Bem, Phantomhive não é um tipo de terceira temporada, é na verdade uma nova segunda temporada. a estória dessa fic se passa após o fim da primeira temporada do anime. por quê? pq eu imaginei assim e pq pra mim só existe um kuro 3, o da Gaia Syrdm, perfeição aquilo *-*. Eu pretendia contar a história do passado em um único cap, mas quando percebi já tinha 10 mil palavra, então serão dois cap na era vitoriana, o que eu não gostei pois queria voltar pro caso principal, mas fazer o quê?Não sei se vão gostar desse cap, achei um pouco parado e tals...XDApesar de disso....Boa leitura o/

Capítulo 19: Os Pecados do Passado – Parte I: de 1888 a 1892

Amar alguém incondicionalmente é não nos preocuparmos com o que essa pessoa é ou faz.

Richard Bach

LONDRES, 1888

Perdida no meio do mar. Proibida aos navegantes e aventureiros humanos. Inabitada. Assim era a ilha de aspecto sombrio e sedutor. A ilha dos Mortos. O vento frio fazia o tronco das árvores estalarem, era possível ouvir as ondas quebrando nas rochas ao longe. Um pequeno barco a remo parado nas margens, deixado entre a areia e as rochas. No centro da ilha havia as ruínas de um antigo templo, onde restara de pé apenas um banco de pedra. Ali estavam duas criaturas: um demônio devorador de almas e um menino a beira da morte.

Sebastian sentia seu corpo estremecer de êxtase e sua boca salivar só de pensar no sabor que aquela alma teria. O deleite que seria finalmente poder prová-la. Finalmente, após tanto tempo de trabalho e dedicada servidão, receberia sua tão desejada recompensa.

Submetendo-se por completo ao destino que sempre soube que teria, Ciel fechou os olhos assim que viu o akuma se aproximar e retirar-lhe o tapa-olho. Sim, tinha conseguido no último momento realizar seu último desejo, morrer como uma alma que Sebastian desejasse. Era uma boa morte, pensava Ciel. O toque de Sebastian lhe pareceu tão agradável, tão acolhedor, que o garoto sentiu-se adormecer. Talvez fosse o cansaço de uma vida curta, mas atribulada, ou talvez fosse a morte finalmente o abraçando.

Sebastian estava prestes a tomar aquela alma para si, nada o impediria agora, exceto...

Ciel desfaleceu.

Ciel sempre fora um garoto forte. Corpo frágil, mas espírito forte. Ali estava o Conde Phantomhive, não mais que um garoto. Preste a ser morto. Mas ainda se agarrava a um fio de vida, tão frágil que a menor brisa poderia parti-lo. Ciel devia estar mais que esgotado. Voltara para Londres escondido em um navio, sem comer, sem beber, sem um descanso adequado. Retomara seu posto de direito como mestre de um akuma. Fora baleado, e perdera muito sangue, muito mesmo. Enfrentara um anjo caído e sobrevivera a mais um grande incêndio. Quase se afogara.

Ciel era um sobrevivente. Depois de tudo, embora tenha dormido um pouco, fizera questão de fazer toda a viagem acordado, num esforço de manter-se vivo para Sebastian. Apreciando o mar solitário e negro, ignorando suas lembranças e admirando os sentimentos que tanto renunciara. Sebastian observara Ciel atentamente durante todo o caminho até a Ilha dos Mortos, sabia que Ciel não hesitaria e nem tentaria barganhar, como alguns faziam quando viam que o momento do fim havia chegado. Não, Ciel não estava implorando pela vida, embora estivesse rumando para a própria morte, ele parecia finalmente ter encontrado a paz que tanto procurava.

Ali, naquele barco. Sozinho com Sebastian num oceano sem fim.

Ciel estava ali, inconsciente, a um sopro da morte, bastava Sebastian fazer um movimento apenas.

Queria tanto devorar aquela alma, e agora que o momento havia chegado, estava gastando tempo ao observar o jovem. Que mal fazia? Afinal, a alma já lhe pertencia mesmo.

– Se dormir agora, Jovem Mestre, acordará de madrugada, ficará sonolento amanhã.

Sebastian alfinetou, mas Ciel não lhe ouvira, tampouco respondera. Que coisa engraçada e sem propósito a se dizer, o akuma pensou. Não haveria um anoitecer para Ciel, muito menos um novo dia para ele ficar sonolento.

Então, Sebastian tirou a mão do rosto do jovem, ficou de pé e pôs-se a observá-lo do alto. Depois, vendo que estava novamente perdendo tempo, direcionou-se para o garoto; não podia se dar ao luxo de ficar procrastinando, havia tanto a ser feito amanhã.

Foi quando se deu conta.

Não haveria nada para fazer no dia seguinte.

Não precisaria acordar aqueles quatro preguiçosos para cuidarem de suas tarefas cedo. Não precisaria preparar um desjejum melhor e mais saboroso que o do dia anterior. Não precisaria acordar Ciel, nem recitar sua lista de tarefas. Nem fazer milhares de tarefas domésticas enfadonhas; estava livre. Finalmente livre. E sua alma estava ali. Era só estender a mão e pegá-la. E seria adeus, Ciel.

Para sempre.

Não o ouviria bocejar ao acordar. Nem seu olhar curioso a fitar-lhe. Nem o veria virar o rosto sempre que Sebastian o despia ou o vestia. Nem suas provocações maldosas, nem suas ordens impossíveis, nem sua cara emburrada sempre que Sebastian conseguia cumpri-las, sem mais missões secretas, sem tarefas para a Rainha, sem aventuras. Sem alguém novo para caçar e capturar. Sem ordens dadas com ímpeto. Sem o brilho azul celeste do seu olhar de aprovação. Depois daquele dia, nunca mais sentiria a doce fragrância daquela alma, nunca mais ouviria aquela voz ordenar-lhe nada. Nunca mais ouviria aquela voz pronunciar o nome Sebastian.

Nunca mais haverá Sebastian Michaelis.

Voltaria a ser o akuma de antes, que só existia para comer; almas fracas, mestres tolos e contratos rápidos. Sem desafios, sem obstáculos, sem emoção, sem razão para existir. Quando encontraria outro mestre como Ciel?

Sebastian nem percebeu, mas, antes de conhecer aquele garoto, provavelmente teria se perguntado quando encontraria outra alma como a de Ciel. Mas naquele momento, não era na alma que ele pensava, pois ela estava bem ali para ele se servir. Aquele akuma começou a pensar que gostava de ser Sebastian, que aquela vida lhe era agradável e divertida. Se Ciel morresse, sua existência voltaria a ser o tédio que o fizera aceitar uma criança como mestra. Que boa surpresa foi descobrir que Ciel não era uma criança comum, muito menos um humano comum. Não que se importasse com o garoto verdadeiramente ou que não quisesse que ele morresse, mas, verdade seja dita, a vida ao lado de Ciel era mais emocionante; quantos mestres tinham um trabalho como o de Cão da Rainha? Quantas pessoas adultas teriam a mesma capacidade sádica e inteligente de provocar Sebastian?

Tinha aprendido muitas coisas novas por causa de Ciel, a começar pela função de mordomo. No início, por inúmeras vezes amaldiçoou-se por ter escolhido tal forma, dada a exigência do garoto em querer que ele fosse perfeito em tudo. Mas acabou criando gosto pela ideia e se tornou o mordomo perfeito. E quantas outras coisas ele teve de aprender para cumprir suas ordens? Embora algumas tenham sido estudadas por vontade própria, para garantir a saúde, o bem estar e o contentamento de Ciel; quanto esforço!

Claro, Sebastian não abriria mão da alma que tanto lutou para conseguir, mas começou a achar que Ciel fora um mestre muito digno, e merecia uma morte a altura de um Conde. E naquele momento, o jovem não era mais que uma criança ferida.

Concordando com seus próprios pensamentos e vendo que eles lhe agradavam, Sebastian deitou o corpo de Ciel no banco de pedra. Não fazia isso pelo garoto, mas por si mesmo. Mordeu o próprio pulso e deixou que uma única gota de seu sangue caísse nos lábios tenros, os quais se tingiram de vermelho vivo. O sangue penetrou a boca devagar e, tão logo tocou a língua do menino, devolveu-lhe o rubor a face pálida. Isso manteria Ciel vivo durante a viagem de volta para casa, onde Sebastian ofereceria um tratamento adequando para que o garoto se recuperasse, e quando este último tivesse recuperado toda sua altivez, então Sebastian lhe ofereceria a morte novamente.

Enquanto abandonavam a Ilha, Ciel, perdido num sono profundo, nem sabia que fora o único contratante a sair de lá vivo; e Sebastian nem estranhara o fato de chamar a mansão Phantomhive de casa.

.

.

Maylene, Tanaka, Bard e Finny tinham voltado para a mansão, ou melhor, para as ruínas dela. Toda Londres estava sendo reconstruída do incêndio, que só os quatro sabiam quem tinha provocado. Pluto, o cão demônio que cuspia fogo, perdera o total controle sobre si, havia começado o incêndio na mansão e seguido pra Londres. No fim, Ciel estava certo, não havia mais salvação para Pluto. Foi duro ter que dar fim a vida de alguém que passara tanto tempo com eles, mas Pluto não gostaria de terminar como aquela criatura destruidora. Todos eles, principalmente Finny, preferiam lembrar-se dele como aquele cão brincalhão que sempre fora. Os quatro não tinham encontrado Ciel desde então, estavam realmente preocupados com o garoto, mas se Ciel estivesse com Sebastian, então ele estaria seguro. E se os dois ainda estivessem vivos, voltariam para a mansão, com certeza.

Se Sebastian e Ciel não voltassem, os quatro não saberiam o que fazer, pois não havia outro lugar para voltar, nem para quem voltar. Tudo o que eles tinham era aquela mansão e as pessoas que viviam nela.

Abrigaram-se no estábulo, o único lugar no terreno que restara em pé. Revezavam-se para voltar até a cidade à procura de alguma notícia de Ciel. Era o terceiro dia que estavam ali, quase perdendo a esperança de que o garoto estivesse vivo. No final do terceiro dia, quando a lua já ia alto, Maylene assustou-se ao ver a mansão erguer-se imponente diante de seus olhos, como num passe de mágica. Chamou os outros três, para ter certeza de que não estava alucinando. Os homens ficaram estupefatos.

Como era possível?!

Ao entrarem na mansão, deram de cara com Sebastian carregando Ciel; ficaram tão felizes por verem os dois sãos e salvos que saíram apressados a cumprir as tarefas dadas pelo mordomo. Só depois, eles viriam a estranhar o ocorrido e começariam a ligar alguns pontos, e depois de muito desconfiarem e muito observarem, chegariam à conclusão de que Sebastian não poderia ser um humano normal. Mas havia três verdades importantes: Sebastian tinha dado um objetivo de vida para cada um deles; Sebastian protegia Ciel; Ciel gostava de Sebastian. Então, tanto fazia quem ou o que Sebastian era ou deixava de ser.

O mordomo também fazia parte do que eles gostavam de pensar como família.

.

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Ciel acordou com o som da voz de Sebastian. Tentou abrir os olhos, mas fechou-os imediatamente, pois a luz do sol adentrou o quarto no momento em que o mordomo abriu as cortinas. Ciel bocejou devagar, sentindo como se tivesse dormido por um mês. Seus olhos seguiam os movimentos do homem que anunciava o que tinha preparado para seu café. O garoto o observava atentamente, mas sem prestar muita atenção no que ele dizia. Havia algo de diferente.

– ... qual o Mestre prefere?

– A segunda opção.

Ciel respondeu, tentando disfarçar que não escutara as opções. O mordomo deixou a mesa preparada para que o jovem se servisse e depois foi até a cama para ajudá-lo a se trocar. Estava tudo exatamente como sempre fora, mas o que estava errado? Foi quando Sebastian despiu lhe o pijama do corpo, revelando sua nudez. Inconscientemente, o garoto levou sua mão ao lado de sua barriga e sentiu um curativo ali. Sim, o tiro. Fitou o homem a sua frente com surpresa. Sebastian trazia-lhe as vestes. Ciel lembrou-se, não havia sido um sonho.

– Você cumpriu o contrato.

– De fato. Quanto a isso não há dúvidas.

– Por que ainda estou vivo?

– Digamos que eu ache que ainda não é o momento.

– Perdeu o interesse...

– De forma alguma. Sua alma ainda é a coisa mais desejável para mim, no entanto, creio que será divertido adiar um pouco o meu jantar. Até lá, continuarei servindo o Jovem Mestre como sempre.

Sebastian continuou vestindo o garoto e Ciel ficou em silêncio, sua mente analisando aquela nova situação.

– Você é quem sabe.

Ciel não questionou mais o akuma, e se ele queria continuar trabalhando como um mordomo o problema ela dele. Mas o garoto, embora tenha conseguido esconder bem, sentiu-se desconfortável. Estar vivo não era algo ruim, mas todos os seus planos estavam traçados para acabar com o fim do contrato, com o fim de sua vingança. Antes seu futuro era certo, a morte nas mãos de Sebastian. Agora, seu futuro era o desconhecido, como a vida de todos os humanos.

Aquele dia foi tranquilo e embora Ciel tenha sentido certa estranheza ao dar ordens a Sebastian, agora que sabia que ele não era obrigado a cumpri-las, acabou por esquecer seu desconforto e voltou a agir como sempre agira. Por sorte, as fábricas e as lojas pertencentes à Funtom Company não tinham sofrido grandes danos e tudo foi logo posto no lugar. Dois dias depois de Ciel ter acordado e se recuperado completamente, tanto ele quanto Sebastian foram surpreendidos por uma carta da rainha.

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Quando estavam apenas o conde e seu mordomo e a rainha e seus mordomos, a Dupla Charles, sozinhos na sala, a mulher começou a falar.

– Estou surpresa ao saber que o famoso Conde Phantomhive é tão jovem. Bem, como já deve saber, pela carta que lhe enviei, não sou a verdadeira rainha Vitória.

A semelhança entre aquela senhora sentada ali e a verdadeira regente do Reino Unido era assustadora. A verdadeira rainha Vitória tinha morrido; isso antes de ajudar um anjo caído a tentar por fim aos Phantomhive e destruir meia Londres num incêndio. Ciel tinha sido baleado justamente por pensarem que ele tinha sido o assassino.

– Deve saber minha senhora, que não tenho mais nenhuma ligação com a realeza...

– É justamente sobre isso que quero falar, meu jovem. Entendo que tenha suas razões para odiar o Império, mas peço que mantenha o seu cargo como Cão de Guarda da Rainha. Pense que sua família vem desempenhando esse papel há anos, e que a rainha foi induzida a tramar contra sua casa e contra seu próprio reinado. Os Anjos Serafins não interferem mais no plano terreno há muitos anos, por culpa nossa mesmo, agora temos de arcar com as consequências de nossos próprios erros. Mas eles deram a sua família a função de manter as coisas em ordem. Embora nem eles, nem demônios mais perigosos possam vir para este plano, outros demônios e até mesmo anjos corrompidos como aquele, podem causar grandes problemas, sem mencionar os problemas criados pelos humanos mesmo. Entenda, ainda precisamos da sua família e de seus serviços.

– Acredito que não sou a única pessoa que a rainha possui para eliminar os inimigos abjetos. – Ciel olhou para o conde Charles Gray, um dos mordomos da rainha.

– De fato. Mas manter a aliança com sua família é estritamente importante. Não pode recusar, está tão preso a essa função quanto eu. Estou aqui apenas para evitar um conflito político, mas quando eu morrer, o príncipe Eduardo assumirá, e a linhagem real permanecerá intacta. Se fizer meu trabalho, eu vivo, se não, morro. Mas enquanto estou aqui, poderei ao menos conseguir isso de bom para o país.

– Há momentos em que o melhor é mandar o país para o inferno.

– Isso não é algo muito patriótico para um inglês dizer.

– Sinto, mas tenho minhas razões para ser rude.

– Quero apenas que me garanta que a Inglaterra poderá contar com sua ajuda, pois sei que esse não foi o último problema a surgir. Tenho certeza de que este era o verdadeiro desejo da rainha Vitória e desta pobre velha que vos implora.

– Acontece, minha senhora, que minha família se reduz apenas a mim, e eu logo morrerei, não poderei levar esse cargo por muito tempo.

– O que dizes? Tu és apenas um garoto e tens uma noiva de família nobre, que eu sei, e certamente teus filhos serão fortes e espertos como tu, e se ensinar-lhes bem, serão pessoas a altura do título de Cão da Rainha ou Cão do Rei.

Ciel se empertigou um pouco na cadeira e Sebastian riu, pois sabia que aquela ideia de casamento e filhos não pareceu agradável ao garoto.

– Temo que isso não seja poss...

– Com licença, Jovem Mestre, eu acredito que poderá muito bem desempenhar suas antigas funções com grande maestria, como sempre fez. Caso fique impossibilitado de levar seu trabalho adiante, poderá apenas solicitar sua retirada a rainha, creio que vossa majestade entenderá.

– Muito bem, então. Acredito que precisamos estabelecer um novo contrato, minha Rainha.

Assim um novo acordo foi feito entre o Império Britânico e a família Phantomhive, no qual Ciel serviria como Cão da Rainha e seus herdeiros depois dele. Claro que Ciel não pretendia durar muito tempo nisso, sabia que Sebastian não seria tão paciente, ainda mais depois de ter cumprido sua parte no acordo. Não sabia o que o demônio pretendia com o adiamento de sua morte, mas não se importava; a vida não lhe pertencia mais.

– Ela mencionou Corte dos Serafins. Sabe o que é isso?

– Há muitos anos esses anjos guerreiros protegiam os humanos dos demônios, diretamente. Embate corpo a corpo. No entanto, sua presença nesse plano dava margem para que demônios pudessem vir para cá também. Eles criaram um tipo de barreira para impedir que criaturas negras pudessem tentar dominar a terra, mas isso impediria qualquer criatura muito poderosa de vir para cá, o que incluía os próprios Serafins. Era um sacrifício necessário, tiveram que deixar os humanos por conta própria para protegê-los. Que ironia. Mas não sei o que isso tem a ver com sua família.

– Então quer dizer que existem outros mais poderosos do que você?

– Infelizmente. Mas eles não podem vir se divertir aqui como eu. Então estou no lucro.

Não demorou muito tempo para que uma nova carta chegasse e logo começaram uma nova investigação. Ciel não achava ruim, afinal, amava quebra-cabeças. Depois veio um segundo caso, um terceiro, um quarto, um... Eram sempre casos demorados, que levavam tempo e muito esforço, às vezes exigia trabalho disfarçado. Entretanto, o que intrigava Ciel era a paciência de Sebastian. O akuma continuava a servi-lo como sempre e a cumprir suas ordens como sempre. Ciel o desafiava ao extremo, para provocá-lo, para contrariá-lo, mas Sebastian continuava a seu lado e não fazia qualquer menção de devorar sua alma.

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Sebastian viu Ciel crescer e se transformar. A criança fraca e moribunda se tornou um garoto vingativo e maduro. O garoto se transformou em um jovem astuto e malicioso. Ciel sempre fora essa ambiguidade de sentimentos e qualidades, dois estremos em um só. A beleza e o horror, a crueldade e a condescendência, a ingenuidade e a malícia, o bem e o mal. Esse era Ciel Phantomhive. Talvez por isso Sebastian o achasse uma criatura tão fascinante.

Quanto mais crescia, mais aumentava o desejo de independência natural da adolescência. Aos catorze anos, começou a realizar algumas tarefas sem a ajuda de Sebastian. Em parte porque não queria ter de chamá-lo a todo o momento. Não que quisesse dar uma folga ao mordomo, mas ultimamente sentia um estranho desconforto sempre que ficavam a sós, exceto quando tratavam de negócios. Sebastian ainda preparava seu banho e o vestia, mas ele preferia tomar banho sozinho. Mas tarde, aos quinze anos, passou a se vestir só também; tinha orgulho de jogar na cara do mordomo que podia muito bem fazer aquilo sem a ajuda dele.

Onde estava a graça em fazer isso? Depois de algum tempo, Ciel percebeu que Sebastian gostava especialmente de executar tarefas que estivessem intimamente relacionadas a ele, como banhá-lo, vesti-lo, pentear seu cabelo, por uma razão, nesses momentos o mais velho tinha ótimas oportunidades de alfinetá-lo, provocá-lo e aborrecê-lo. Ciel não daria mais esse gostinho a ele. Embora uma vez ou outra, quando não estava muito a fim de trabalho extra, deixava o mordomo seguir a velha rotina. Claro, Sebastian tinha um estoque de provocações para usar em momentos assim. Mas esses momentos foram ficando cada vez mais raros. Principalmente quando as transformações em seu corpo começaram a lhe causar rubor.

Ciel também achava um pouco ilógico o fato de ele saber atirar, caçar e até matar e não conseguir abotoar um colete. Não era por menos que Sebastian zombava dele. Mas agora ele já conseguia se vestir só. No entanto, por mais que tentasse, nunca acertava fazer o nó da gravata. Sempre saía algo torto e malfeito. Até que em um belo dia, de tanto ver Sebastian fazê-lo, Ciel acertou. Estava em frente ao espelho e ao ver que a gravata de tecido azul celeste estava perfeita, deixou escapar um sorriso de contentamento.

– Sebastian! – chamou. Queria mostrar o feito ao mordomo, provar que conseguira. Era tão simples, tão fácil. Agora o outro não o importunaria mais com isso.

– Só um momento, Jovem Mestre.

A resposta veio do quarto, Sebastian arrumava a mesa com o desjejum. Enquanto o mordomo não vinha, Ciel fitou a gravata no espelho. Agora poderia se arrumar todos os dias sem Sebastian. Pelo menos durante a manhã, a ajuda do mordomo para se vestir não seria mais necessária. Sebastian poderia servir seu café e fazer as outras tarefas da casa, sem perturbá-lo.

O mordomo colocou o guardanapo elegantemente dobrado ao lado da xícara de porcelana chinesa e seguiu para o quarto de vestir para ver o que o garoto queria.

– Pois não... – Ciel estava com sua habitual expressão de descontentamento; apontava para a gravata por fazer. – Oh, Mestre, um rapazinho de quinze anos já deveria saber dar um nó na própria gravata.

– Não me chame de rapazinho, faz-me parecer infantil. E não preciso aprender nada, tenho você pra quê?

– Tens razão, Mestre, perdoe minha indiscrição. – terminou o laço e fez uma reverência. Em seguida, levou o jovem até a mesa de café e serviu o chá.

No último instante, antes de Sebastian entrar, Ciel desfez o nó que fizera. Por quê? Porque ele não tinha mais coragem de permitir que o outro o banhasse, nem o trocasse, mas aquilo era a única coisa que poderia deixá-lo fazer sem sentir-se profundamente envergonhado. Quando o mordomo arrumava sua gravata, Ciel o sentia bem perto de si, sentia o seu perfume, não sabia se ele usava esse tipo de coisa, mas Sebastian tinha um aroma característico apenas dele, muito agradável ao seu olfato. Enquanto mantinha a cabeça erguida, podia arriscar uma olhada bem de perto dos olhos do maior e via que aqueles olhos castanhos tinham matizes vermelhas e laranja, como duas bolas de fogo esperando para queimar. Por isso, todas as manhãs que se seguiram, Ciel fazia o laço apenas para ter certeza de que o sabia fazer só e o desfazia para que Sebastian o refizesse. Tinha apenas que fingir aborrecer-se com as provocações do mordomo, para ver o sorriso cínico surgir em seus lábios.

Um mês depois, Sebastian descobriu a farsa do rapaz. Primeiro achou hilário o fato de ter sido enganado de forma tão boba. Segundo, achou a atitude de Ciel muito... Meiga. Seu mestre era tão imprevisível. Decidiu continuar com a farsa, porque Sebastian gostava de estar próximo de Ciel, pela alma é claro, podia sentir sua essência. Mas no fundo, queria descobrir até quando os dois usariam aquele artifício bobo para estarem perto um do outro.

Mas nem só de calmaria se deu o crescimento de Ciel. Queria evitar se apegar a quem quer que fosse, visto o seu trágico destino. E quanto mais mantinha afastados Sebastian e os outros, mais instável se sentia. E aliado a isso veio o estresse provocado por um caso de resolução problemática. Aos dezesseis anos Ciel estava uma confusão de atitudes, sentimentos e pensamentos. E sua impaciência com a demora de Sebastian em dar um fim ao contrato ou pelo menos dar uma explicação sobre porque não o fazia, fez o garoto direcionar todo seu descontentamento para o mordomo.

A cada dia Ciel sentia-se mais angustiado, aflito, sem saber por que exatamente. Num dia, se estressava e se divertia com as trapalhadas de seus empregados, relaxava e se envergonhava com as visitas de Elizabeth, no outro dia sentia-se profundamente triste. Demorou um bom tempo até perceber o que o deixava assim. Jamais admitiria, mas começava a se apegar a todos, a apreciar suas companhias, começava a gostar da vida; mas ele sabia que isso não duraria, pois Sebastian poderia a qualquer momento reivindicar o que lhe era de direito. Essa constante incerteza o mortificava. Mas o pior de tudo era sentir que, de alguma forma, estava se afeiçoando ao mordomo mais do que devia, mas do que seria aconselhado, isso era um risco. Que tipo de tolo faz de seu assassino um amigo? Ciel não queria confundir as coisas, os sentimentos, por isso tentava manter-se distante e frio, mas como Sebastian era quem estava sempre mais próximo, terminava por ofendê-lo e tratá-lo rudemente. Numa tentativa de fazer Sebastian por um fim a tudo, Ciel começou com um plano de aborrecer o demônio. Faria o que fosse preciso para que Sebastian colocasse um fim definitivo a sua vida, antes que ele se apegasse tanto a ela a ponto de não querer mais morrer. Esse era o maior medo de Ciel: não desejar mais a morte.

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Certa vez, durante o chá da tarde, Elizabeth começou falar sobre o futuro casamento e Sebastian começou a dar margem para que a jovem se empolgasse mais ainda, dizendo que ela ficaria linda num vestido de noiva. O mordomo sabia que aquele assunto incomodava Ciel. Cresceu sabendo que casaria com a prima, tão certo disso, quanto saber que o sol nasce toda manhã. Zelava por seu noivado com a prima como se esse fosse mais uma tarefa a cumprir, mas um jogo a ganhar, mais um desafio a conquistar. E esse era o problema. Nunca imaginou que esse dia chegaria, nunca parou pra pensar como seria se realmente tivesse que fazer isso. Gastava da Elizabeth, até podia imaginar os dois casando, mas não conseguia conceber a ideia dos dois como marido e mulher. A prima parecia sempre muito empolgada, e ficava mais a cada dia, provavelmente por que já tinham dezesseis anos, e logo Ciel deveria oficializar o compromisso e marcar a data do casamento. Quanto mais velhos ficavam, mas convicta da ideia Lizzy ficava. Mas Ciel apenas sentia que não era isso que ele queria, não era o que desejava. Não era o momento certo.

Seus sentimentos estavam um caos. Ver Elizabeth tão alegre com Sebastian o irritou. Qualquer coisa que o mordomo fazia o irritava. Desde quando Sebastian conversa com Lizzy? Odiou-o ao vê-lo aumentar as esperanças de Lizzy, mesmo sabendo que Ciel morreria, odiou-o por aumentar suas esperanças. Por que Sebastian brincava dessa forma com os sentimentos dos outros? De certo, o demônio ria internamente da ingenuidade da jovem que mais provavelmente seria viúva e não mulher casada. Odiava-o por ignorar sua vontade.

Ciel colocou a xícara sobre o pires com força. O barulho da louça chamou a atenção dos outros dois, fazendo-os encerrarem a conversa.

– Quando foi que lhe dei liberdade para se intrometer nos assuntos dos patrões, Sebastian? – Ciel falou de modo tão rude que até Elizabeth se sentiu constrangida pelo mordomo.

– Perdão, Mestre. Fiz algo de errado? – Sebastian indagou após alguns segundos de silêncio entre todos. Tentava entender a razão do rompante de grosseria do jovem. Não era seu habitual e zombeteiro tom de provocação, fora rude de verdade.

– Sim, sua presença me incomoda. Retire-se! E leve esse chá com você está intragável.

– Eu achei o chá ótimo. – Elizabeth falou, tentando apaziguar a situação.

– Não, Lizzy. Você merece o melhor. Como ousa Sebastian, oferecer tal chá a minha noiva?

– Não é necessário, Sebastian. Tudo bem, Ciel. Este está bom. – desviava a tensão torcendo o guardanapo entre as mãos com luvas de renda.

– Não, não está sua tola. Nada está bem. Por que ainda o defende?

Ciel levantou-se jogando o guardanapo sobre a mesa. Percebeu que todos o olhavam atônitos. Maylene e Paula seguravam as mãos apreensivas. Até Bard e Finny, que estavam mais afastados cuidando do jardim, estavam o encarando. Ciel percebeu o quanto fora rude. Mas não se desculpou, apenas se afastou e entrou na mansão.

Depois que o jovem havia saído, Elizabeth começou a chorar. Paula, sua dama de companhia, correu para ela.

– Eu fiz algo errado? Tenho certeza de que o irritei de alguma forma.

– Oh, não, senhorita. – Paula tentava consolá-la.

– Não se preocupe Lady Elizabeth, o Jovem Mestre não estava bravo com você. Eu é que me portei inadequadamente. Esses dias têm sido estressantes e esgotantes para o Mestre. Tenho certeza que ele não pretendia ofendê-la.

Sebastian tentava justificar a atitude de Ciel, mas Elizabeth sabia que ele fora o mais ofendido ali.

A loira sempre fizera de tudo para agradar ao Ciel. Seu maior medo sempre fora não ser uma esposa adequada, que ele acabasse a odiando, que ele não quisesse casar-se com ela. Depois daquele dia, esse medo passou a assombrá-la como nunca.

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A revolta de Ciel se tornou constante. Para fugir de seus fantasmas internos, o jovem atirava-se nos casos mandados pela rainha com a mesma gana que buscava sua vingança. Não demorou muito para Sebastian perceber que o rapaz tinha feito do seu trabalho de Cão de Guarda da Rainha uma válvula de escape. E por mais que Ciel o tirasse do sério e muitas vezes o levasse ao limite da paciência, o akuma se agarrava a decisão de não matá-lo. Sabia por que o jovem estava agindo daquela forma. Sebastian só não tinha mais tanta certeza de porque ainda se submetia. Porque suportar tudo?

Quando estavam resolvendo um caso, as coisas se apaziguavam. E eles se relacionavam como sempre. Mas quando tinham que ficar por longos períodos enfurnados em casa, as coisas ficavam mais tensas.

Em novembro de 1891, Ciel e Sebastian estavam investigando um caso de tráfico humano. Nativos indianos estavam sendo contrabandeados para a Inglaterra para trabalharem nos bordéis, o dinheiro era utilizado para comprar e introduzir outras drogas piores que o ópio no país. Não seria um assunto tão sério, se o nome do Príncipe Soma não estivesse envolvido no caso, o herdeiro indiano fora acusado de facilitar o comércio ilegal. Cabia ao Cão da Rainha provar a inocência de Soma e capturar os verdadeiros responsáveis por degradar a moral do país, por mais que esta não fosse lá tão pura. No decorrer das investigações, mestre e servo tiveram outro desentendimento. Ciel chegou a ordenar a Sebastian que ele fosse embora. E foi exatamente o que o mordomo fez.

Ciel achou que Sebastian voltaria para casa à noite, mas isso não aconteceu; nem naquela noite nem nas cinco noites seguintes. Teve que se virar sozinho com as investigações.

Algumas vezes os servos perguntavam para onde Sebastian tinha ido e se demoraria a voltar e Ciel dizia não saber, e não sabia mesmo. Outro dia, perguntaram se ele de fato retornaria. “Mas é claro que sim!” Ciel respondeu com uma certeza que não tinha, era mais um desejo. Aquele tolo não podia ser tão sentimental assim. Duas semanas se foram e nada do mordomo. Os outros empregados se viravam como podiam, afinal se Sebastian chegasse de surpresa não teria do que reclamar. E Ciel... Ciel começava a pensar que, se isso era algum tipo de castigo, Sebastian poderia voltar, pois ele já havia entendido. Era o que o jovem pensava, embora ele preferisse morrer a admitir.

Com o passar dos dias, a cada barulho a cada voz, Ciel se virava para ver se não era o mordomo. Nas refeições tinha sempre o olhar perdido e por três vezes chamou Bard e Maylene de Sebastian. Se estivesse no escritório sempre fitava a janela. Se estivesse na cidade a trabalho seus olhos sempre percorriam a multidão. Quando estava no jardim tomando chá com Lizzy, Ciel sempre espiava disfarçadamente a entrada da propriedade. O jovem parecia cada dia mais solitário e perdido. Depois de um mês, até Elizabeth percebera que ele sentia a falta do mordomo. E no final de um mês, Sebastian retornou, justamente durante o chá da tarde.

Todos soltaram exclamações de alegria ao ver o mordomo com seu uniforme negro como sempre, até Elizabeth felicitou o seu retorno. Depois todos olharam para o jovem conde. Assim que vira Sebastian aparecer, servindo chá como se nada tivesse acontecido, Ciel pôs-se de pé num salto. O semblante do jovem mudou minimamente, como se fosse sorrir, mas não o fez. Ciel apenas saiu da mesa sem nada dizer. E ignorou o homem pelos dois dias seguintes. Mesmo durante o caso que ainda não tinha sido concluído, Ciel evitar falar com ele.

Três dias depois, os ânimos já estavam exasperados novamente.

– Eu não entendo porque você está tão aborrecido. – Dizia Sebastian seguindo o jovem até o escritório. – Fiz exatamente o que me ordenou. Resolvemos o caso, não resolvemos?

– É claro que resolvemos, mas podíamos ter terminado muito antes disso. E com menos perdas. – jogou o casaco sobre a poltrona e começou a remexer nas papeladas sobre a sua mesa. – Terei que fazer relatórios e mais relatórios pra explicar isso.

– Está bravo por isso?

– Não. – falava sem lhe olhar nos olhos, Sebastian já estava se aborrecendo com as infantilidades dele.

– Então me diga por quê. O que eu fiz de errado?

– Nada, Sebastian. Você não fez nada. Você é o mordomo perfeito, o que poderia fazer de errado?

– Se não tem mais ordens para mim, vou me retirar. – colocou a mão na maçaneta, mas o jovem o interrompeu.

– Vai se retirar por essa noite ou por dois dias ou por uma semana... ?

Bard, Maylene e Finny, no andar de baixo, escutavam a discursão sem saber por que eles realmente brigavam, queriam chegar mais perto para tentar entender o que eles diziam, mas Tanaka, o velho mordomo, puxou-lhes as orelhas.

– É por isso que está zangado? – Sebastian indagou.

– Você me abandonou! Por um mês. UM MÊS! Eu tive que ir atrás do cretino do Lau para conseguir homens o suficiente para a emboscada. Quase perdi um informante importante de Hertfordshire. E tudo por culpa sua. Quase que o plano vai por água a baixo. Que explicações eu daria a rainha?

– A verdade. Que o Cão da Rainha não passa de um pirralho mimado e arrogante. – Que se danasse tudo, não precisava aturar aquilo calado. Se era pra ofender, ele também o faria.

– Como ousa! – Ciel, enfurecido, bateu a mão sobre a mesa com tanta força que quebrou um pires de porcelana e jogou uma xícara que estava sobre a mesa em Sebastian, que desviou facilmente.

– Você está descontrolado.

– Eu. Ainda. Sou. O. Seu. Mestre. Não admito que me trate dessa forma. – Ciel tentou catar os pedaços do pires partido, mas acabou cortando a mão nos cacos da louça.

– Você me mandou embora. Você ordenou que eu desaparecesse da sua frente. Esqueceu-se disso? Mestre. – a última palavra fora dita debochadamente.

– Mas não era pra me obedecer, seu tolo! É a segunda vez que faz isso, me deixa sozinho sem uma explicação. É assim que um mordomo perfeito age?

– O QUE VOCÊ QUER DE MIM?

– QUE CUMPRA O CONTRATO! Que cumpra com o que foi acordado.

– Quer que eu coma sua alma.

– Sim. Não foi o que você pediu em troca? Ou será que minha alma se tornou tão repulsiva que você perdeu o desejo por ela? Que agora me trata como um qualquer sem valor.

– De modo algum, ainda a desejo imensamente.

– Então a pegue!

– Por quê? Por que deseja a morte? Estou dando a você o que milhares de mestres e mestras imploraram para conseguir. Quando suas vinganças acabavam, quando conseguiam o que tanto desejavam e o momento chegava, eles se ajoelhavam aos meus pés implorando por mais tempo, por piedade, por uma forma de desfazer o que fora feito. Ofereciam-me riquezas, prazeres e promessas, como se eu quisesse alguma dessas coisas, como se isso fosse capaz de me fazer mudar de ideia. Na hora da morte, todos imploram pela vida. Que tolos medíocres! A alma deles nem era tão valiosa assim. Não como a sua. E eu, deliberadamente, te dei mais tempo.

– Não sobrevivi a tudo aquilo para alcançar a felicidade, Sebastian, mas para conseguir minha vingança. E depois viria a morte. Já me vinguei, não tenho mais objetivo.

– Por que quer morrer?

– Porque eu não aguento mais isso... Essa... Sensação é insuportável!

– Que sensação?

– Essa... – Ciel fez um gesto com as mãos, como se segurasse uma bola invisível em frente ao peito e depois deixou os braços caírem derrotados. – Eu não sei! Não sei.

Ciel jogou-se na poltrona e ficou um bom tempo parado ali. Imóvel. Sebastian também ficou em silêncio, tentando manter a calma com o garoto ou acabaria o matando mesmo.

– Por mais quanto tempo pretende ficar me ignorando, Mestre?

– Mestre. Humph! Que piada. Acha que pode desaparecer assim sem explicações e voltar do nada e tudo vai ficar bem? – falou quase sussurrando.

Sebastian suspirou, caminhou até a poltrona e ajoelhou-se aos pés do jovem. Tomou-lhe a mão ensanguentada e passou a limpá-la com um lenço que tirou do bolso. O cheiro do sangue de Ciel era tentador, como tudo nele.

Ciel devia estar exausto mesmo, pois nada mais disse. Limitou-se a observar o mordomo fazendo um curativo sobre o corte.

– Devia ser mais cuidadoso, Mestre. Não quero que se machuque.

– Até parece que se importa. – falou sem força.

– Talvez não o tanto que deveria, nem da forma que você queira, mas eu me importo. Não acredita em mim?

– ...

Sebastian começou a enfaixar a mão do menor com uma atadura.

– Por que você não me matou naquela noite na ilha?

Sebastian o encarou, depois começou a dar uma explicação.

– Eu sabia que não precisava cumprir aquela ordem, de ir embora, mas eu estava com fome. Então parti e fiz um contrato e assim que estava alimentado voltei para você, Mestre.

– Conseguiu um novo contrato e o concluiu em apenas um mês?

– É fácil conseguir almas medíocres. Basta não ser criterioso. Muitos humanos trocam suas almas por coisas tão tolas. Sem valor, sem sabor, mas alimentam. Se não tivesse feito isso, eu não teria sido de grande utilidade. Acredite.

Sebastian olhou profundamente nos olhos do jovem. E aqueles olhos azuis pareciam clamar por ele, mesmo que Ciel nada dissesse; aquele olhar o atraia com uma intensidade sem igual. Como não percebera antes? Como não se dera conta disso?

– Entretanto, uma alma rara é como uma moeda de ouro que encontramos na rua. Ficamos felizes por encontrar algo tão belo e valioso em lugar tão inusitado. E tudo o que pensamos é em como gastá-la. Mas quando estamos perto de fazer isso, olhamos para ela e percebemos que aquele brilho dourado nos encanta. E a guardamos apenas para continuar admirando-a. Porque, mesmo querendo gastá-la, fizemos dela nosso bem mais valioso.

Sebastian tocou o rosto de Ciel levemente. O tecido de sua luva branca acariciando a pele clara do jovem, que em nenhum momento quebrou aquele olhar. O mordomo empertigou o corpo, ainda ajoelhado perante Ciel, e se aproximou lentamente dele.

Seu rosto estava tão próximo do garoto que podia sentir sua respiração quente. Fez menção de beijá-lo e Ciel não se opôs. Pelo contrário, Sebastian sentiu todo o corpo do adolescente pedir por aquilo. E selou os lábios.

Ciel fechou os olhos devagar. Não fez movimento nenhum, permaneceu imóvel sentido seus lábios serem pressionados. Nem respirava. Sebastian separou os lábios por um instante para tocá-los novamente, dessa vez, aprisionando o lábio inferior do jovem. Ciel ficou nervoso e ofegante, acabou abrindo um pouco a boca e sentiu a língua de Sebastian tocar-lhe. Respirou fundo e afastou-se, surpreendendo-se com o par de olhos vermelhos que o fitavam.

Sim. Ao beijar o jovem mais intimamente, mesmo naquele breve segundo, Sebastian sentiu o sabor daquela alma, o gosto de Ciel. E era maravilhoso.

Apesar de tudo, Ciel era um humano. Um humano incompleto, na visão de Sebastian. Ciel fora uma criança incompleta, era um jovem incompleto e seria um adulto incompleto. Pois precisou amadurecer cedo demais, de modo que sabia e havia presenciado coisas que muitos adultos não sabiam ou tinham visto; situações que criança alguma deveria presenciar. Mas ainda assim, nunca passara por experiências naturais da infância, nem da juventude. Embora fosse muito inteligente e sagaz, em muitos aspectos, Ciel era inocente e ingênuo, havia muitos assuntos que ele desconhecia ou ignorava, assuntos que ainda lhe causavam constrangimento ou vergonha. Talvez fosse por esse amadurecimento forçado que Ciel, apesar de todo o horror que sofrera, presenciara e até mesmo causara, ainda conservava sua inocência.

Ciel não deixava de ser um humano, um jovem humano. E como tal necessitava de atenção, de um toque ou abraço, de carinho e de carícias. Estava na fase em que, apesar de muito ignorar e não admitir, seu corpo ansiava por isso, desejava isso. Ele podia não saber, não perceber, mas seu corpo sabia, ele sentia, desejava ser tocado e ser beijado. Era isso que tanto o angustiava era isso que lhe causava a sensação de que lhe faltava algo. Ignorar esses desejos naturais, fingir que não os sentia só fizeram piorar tudo, só os fizeram aumentar. E por mais que julgasse inconcebível tê-los, ele era um humano. E precisava disso.

Os dois apoiaram-se na testa um do outro; ofegantes pelas sensações novas sentidas. Ciel sentia uma mistura de sentimentos estranhos. Sentia uma angustia reprimida, a sensação de que não devia fazer aquilo, de que era errado, mas ao mesmo tempo, seu corpo implorava para fazer novamente. Sebastian aproximou os lábios novamente e Ciel apenas retribuiu. A confusão no interior do jovem era tanta, que seu corpo estremeceu com o beijo e uma lágrima silenciosa escorreu por seu rosto. Ele que jamais chorara desde a morte dos pais, desde o contrato.

– Tudo bem, Jovem Mestre – Sebastian sussurrou com a voz rouca, Ciel ainda estava com os olhos fechados – Você precisa disso. Vai ficar tudo bem.

O mordomo voltou a beijá-lo e a acariciar sua nuca. Quanto mais beijava Sebastian, mas Ciel sentia seu peito se acalmar, todo o resto desaparecer como fumaça. Sentia-se leve como uma nuvem, e nunca o cheiro daquele homem lhe pareceu tão agradável. E tudo que o incomodava recentemente, tudo que lhe afligia foi esquecido. Existiam apenas os dois. Era como se toda a confusão alcançasse um equilíbrio.

Ouviram uma batida na porta.

– J-jovem Mestre Ciel, está tudo bem?

Era a voz de Maylene. Como tudo ficara silencioso de repente, eles resolveram conferir se os dois ainda estavam vivos. Não podiam ter chegado em hora mais inconveniente.

– Está tudo bem, Maylene. Eu e Sebastian estávamos apenas... nos entendendo.

Depois nada disseram sobre o ocorrido. Ciel apenas disse que ia se deitar e se retirou para o quarto.

No dia seguinte, agiram como se nada tivesse acontecido, nem Sebastian nem Ciel tocaram no assunto. E continuaram com todos os afazeres habituais, embora em alguns momentos Ciel ficasse corado quando Sebastian o olhava, e o mordomo sorria maldosamente, pois sabia que o jovem estava recordando aquela noite.

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Duas semanas depois, Bard terminava de preparar os cavalos. Era um dia de sol fraco e Ciel gostava de fazer um piquenique na colina em dias assim.

– Pegue o outro cavalo, Sebastian. Vamos apostar uma corrida até o topo. – Ciel já montado no cavalo falava sorrindo, com seu habitual tom de desafio. Era impressionante como seu humor havia mudado nos últimos dias. – Não vou deixá-lo ir correndo, seria trapaça.

Bard, entregando as rédeas do outro cavalo a Sebastian, olhou para Maylene, que trazia a cesta de comidas, sem entenderem como um homem a pé poderia trapacear um cavalo veloz.

– Vocês têm certeza de que não querem vir conosco? – Ciel perguntou aos servos.

– Já que tocou no assunto... – Bard começou a falar ao sentir o cheirinho de torta de maçã que vinha da cesta, mas Maylene o interrompeu.

– T-temos sim, Jovem Mestre Ciel. Nós precisamos ir até a cidade para comprar algumas coisas. – a ruiva dizia envergonhada por alguma razão, tentando manter a cesta longe de Finny, que tentava ver o que tinha dentro. – T-tome a-aqui sr. S-sebastian.

– Vamos, Sebastian.

Os dois partiram em disparada, subindo a colina coberta por um manto verde. Os cavalos trotavam depressa. Sentia o vento cálido tocar seu rosto e seus pulmões encher-se de ar. Em poucos minutos a mansão já estava distante e os dois avançavam pelo descampado, chegando ao terreno plano onde fariam o piquenique.

– Eu ganhei! – Ciel anunciou sorrindo.

– Claro, meu cavalo é mais lento.

– Não culpe o cavalo, Sebastian. Você perdeu, admita.

Sebastian estendeu a toalha sobre a grama e preparou o lanche. Ciel aproveitou para ler um pouco, já que aqueles barulhentos tinham resolvido não vir de última hora, iria aproveitar o silêncio. Depois apreciou uma deliciosa fatia de torta de maçã com cobertura de creme. Quando terminou, Sebastian começou a rir.

– O que ouve? – perguntou irritado.

– Com sua licença, Mestre. – Sebastian pegou um lenço e limpou um restinho de creme que tinha ficado no canto da boca de Ciel, deixando o garoto constrangido.

– Isso foi desnecessário. – falou fingindo aborrecimento para disfarçar seu constrangimento. Ciel sentiu o tempo ficar um pouco mais quente e reparou na roupa que o mordomo usava. – não está com calor, usando isso? Se quiser pode tirá-lo.

– Quer que eu tire meu fraque? – usou de um tom bem sugestivo.

– Eu disse “se” você quiser, mas se prefere cozinhar na sua fantasia de corvo o problema é seu.

Sebastian sorriu achando gracioso a maneira como o jovem ficava facilmente envergonhado. Aproveitando-se de sua distração, inclinou-se sobre ele, mas Ciel o afastou.

– Alguém pode nos ver.

– Me diga quem, Mestre? Não há ninguém por perto.

Ciel olhou ao redor e tudo o que via era grama, colinas e árvores. E o sorriso cínico de Sebastian.

– Tudo bem. – falou emburrado, como se aquilo fosse enfadonho. Mas Sebastian sabia que era puro orgulho do jovem, orgulho facilmente quebrado.

Enquanto se beijavam nada mais importava. Era a primeira vez desde aquela noite. Porém, nem mesmo ali, quiseram realmente conversar sobre as razões dessa nova relação, talvez temessem encontrar a resposta. Para Ciel era simplesmente agradável. Para Sebastian era uma nova forma de desfrutar da companhia do Conde.

Sebastian nunca fora dado a esse tipo de coisa, por mais que alguns mestres pedissem. Mas com Ciel era diferente, a começar pelo fato do rapaz não ter pedido, foi mais um acontecimento inevitável. Via tudo como mais um desafio. Era divertido lidar com a inexperiência do menor e ver como ele aprendia rápido. Era curioso como apesar de ainda conservar muitos preconceitos e muitos conceitos de moral, Ciel ainda se prestava a isso. Sebastian preferia pensar naquilo como um novo jogo, achando que uma simples necessidade biológica fosse a única resposta para o jovem concordar com aquilo, que se Lady Elizabeth estivesse ao lado dele naquela noite Ciel a teria beijado da mesma forma. Na melhor das hipóteses, pensava que era uma ótima forma de tornar aquela alma ainda mais desesperada. Sebastian terminou ignorando que Ciel era um humano e como tal, acabaria se afeiçoando a quem estivesse mais próximo a ele. Ignorou a possibilidade de que o rapaz pudesse realmente acabar se apaixonando por ele. Mas isso era impossível, uma vez que Ciel amava Elizabeth.

Era o que Sebastian pensava. E talvez fosse o que Ciel pensava. Mas acabaram ficando presos naquele relacionamento. Quando se deram conta, não era mais possível voltar atrás.

Sebastian sentia-se cada vez mais preso àquele humano. O que começou como um simples divertimento para ele ganhou nuances cada vez mais atraentes, mas complexas e traiçoeiras. Julgava-se imune a tais fraquezas humanas como sentimentos. Foi orgulhoso o suficiente a ponto de achar que não seria afetando após tantos anos de convivência com o humano, assim como esse fora afetado por ele. Não dava valor a essas tolices efêmeras e fúteis. Superestimou demais sua própria natureza e subestimou os seus desejos. O akuma não soube exatamente quando, como ou onde, mas em algum momento, entre ordens e chás da tarde, aquele garoto tinha o aprisionado com um laço mais forte que o próprio contrato. Pois ele tinha virado seu vício, sua obsessão, pois não se atrevia a classificar de outra forma. Antes tivesse devorado a alma dele naquele dia.

Sebastian tinha cometido o pior erro que qualquer predador pode cometer. Seu maior erro foi brincar com a comida.

Se antes não o matou porque lhe convinha, agora não o fazia porque simplesmente o desejava vivo.

.

Enquanto o relacionamento de Ciel e Sebastian se tornava mais amigável e íntimo, o relacionamento do jovem com Elizabeth ficava cada vez mais frágil.

Elizabeth mudara um pouco. O pouco de maturidade que ganhou a fazia se comportar de maneira mais recatada. Evitava abraçar o primo a todo o momento e sorrir histericamente. Sua mãe lhe ensinara que uma boa esposa tem de ser discreta e educada. Era o que Elizabeth tentava fazer. Seus olhos adolescentes viam Ciel agora de outra forma, não apenas como um garoto fofo, mas como um rapaz belo de olhar intenso e voz firme. Achava adoravelmente fofo quando ele corava perto dela e gaguejava sempre que ela chegava mais perto. Quando caminhavam pelo jardim, um dos raros momentos em que ficavam fora da vista de Paula e Sebastian, Lizzy implorava para que Ciel tentasse algo; não era um pensamento de moça decente. Mas em sua inocente e romântica imaginação sonhava com o noivo tentando roubar-lhe um beijo. Mas isso nunca acontecia. E quanto mais o tempo passava, mais distante Ciel se tornava.

Depois que aquele período tenso com o mordomo havia passado, Ciel parecia mais calmo. Ele e Sebastian estavam mais conectados do que nunca, qualquer um percebia. De tanto observá-los, Elizabeth começou a notar aqui e ali alguns sinais, gestos e atitudes, olhares que remetiam seus pensamentos aos romances que tanto lia. Uma ideia estranha começou a nascer em sua cabeça.

– Mãe... – comentou certa vez enquanto Frances a ajudava a manter o penteado bem alinhado – é possível um rapaz gostar muito de outro rapaz?

– Claro. – Respondeu a marquesa, pegando a escova sobre a penteadeira, Elizabeth estava de frente para o espelho. – Quando a amizade é realmente forte podem se considerar como irmãos.

– Não. Não falo de sentimentos como amizade ou amor fraternal. Refiro-me a paixão. É possível um homem amar outro assim como um homem ama uma mulher?

A marquesa encarou o próprio reflexo no espelho ainda segurando os cachos dourados da filha.

– Possível é. Mas não é algo correto, nem aceitável. É contra a lei e contra a moral. Nunca vi tamanha falta de vergonha! Por que a pergunta? Não está falando do seu irmão, está? Porque se Edward estiver me aprontando alg....

– Não, não! Não pensava em ninguém em particular, é apenas curiosidade minha. Bobagem, minha mãe.

A ideia não saiu de sua cabeça. Começou com uma pequena sementinha de desconfiança, mas seus olhos mais experientes e observadores deram força aquela desconfiança. Não sabia muito bem o que pensar daquilo. Não queria por Ciel em problemas, nem queria perdê-lo, mas verdade seja dita, ele não parecia nem um pouco animado com a ideia de se casar com ela. A dúvida a machucava mais do que a certeza, mas não havia outra explicação, Ciel não a amava porque já amava outra pessoa. Em seus passeios, como quem não quer nada, ela comentou de propósito:

– Estive pensando, quando nos casarmos, não poderei trazer Paula comigo. Paula é uma ótima pessoa, muito prendada, mas já passou e muito da idade de casar. Sebastian também é um homem bem apanhado, e solteiro. Se Sebastian e Paula se casassem, poderíamos nós dois termos nossos servos sempre por perto. Seria perfeito, não acha?

– Sebastian tem suas obrigações, não tem tempo pra ficar de namorico por aí.

– Não pode controlar a vida dele assim Ciel. Ele precisa viver a própria vida, afinal, ele não pertence a você.

– Quem foi que disse que não?

Os dois pararam de andar. Elizabeth encarou o noivo em silêncio.

– Você me ama Ciel?

– Por que esse assunto assim de repente?

– Ama?

– Mas é claro, você é minha prima. – falou voltando a caminhar sem esperar a loira.

Era sempre assim, Elizabeth percebera há algum tempo. Ele nunca se referia a ela como noiva, era sempre prima. “Essa é minha prima, Elizabeth” ele dizia, “Prazer, sou Elizabeth, a noiva do Ciel” ela sempre enfatizava.

– Você ama o Sebastian?

A pergunta atingiu as costas do jovem que parou e voltou-se para ela com o rosto corado.

– Que absurdo é esse agora?!

Não era necessária resposta. Ela via a resposta a sua frente.

– “Você me ama Ciel?” Só havia uma resposta certa, “Sim, eu te amo” ou simplesmente “Amo”, no entanto você não o fez. Não conseguiria mentir pra mim, não é? Não sobre isso, o que você realmente sente. Não precisa casar comigo se pretende fazer isso forçado.

Naquele dia Elizabeth chegou em casa com uma notícia que foi mal recebida pelos pais.

– VOCÊ FEZ O QUÊ?! – gritava Frances. – Sabes quantos anos você tem? Dezessete! A maioria das moças da sua idade já está casada e com filhos. Sabe como é difícil arranjar um noivo a essa altura? Que maluquice foi essa de desfazer o noivado com o Ciel?

Elizabeth dissera a família que ela tinha desfeito o noivado, o que não deixava de ser verdade, sob a alegação de não estar preparada para a vida de casada. Por mais que estivesse sofrendo, não queria causar problemas a Ciel, pois poderiam começar a perguntar porque ele não casara com a jovem. A loira descobriu-se incrivelmente forte, pois conseguiu segurar o choro até que estivesse sozinha. Se começasse a chorar na frente de todos, sua farsa iria por água a baixo.

O marquês e a marquesa viam como a filha parecia definhar, mas não conseguiam a fazer mudar de ideia. Edward fora até a mansão tirar satisfações com Ciel, o qual chegara a ir visitar a prima, mas esta se recusara a recebê-lo. Passar-se-iam cinco meses até que Elizabeth tornasse a ver Ciel.

.

.

Elizabeth dormia tranquilamente em seu quarto quando ouviu um barulho estranho. Acordou assustada e pôs-se a ouvir, parecia haver alguém em frente a sua porta. Ela desceu da cama e caminhou silenciosamente até a porta, não havia mais som. A garota olhou pelo buraco da fechadura. A princípio, não viu nada, mas um vulto negro passou diante de seus olhos, tão repentino foi que a moça caiu para trás. A porta abriu sozinha, lenta e ruidosamente.

Elizabeth levantou e foi andando de costas até alcançar sua espada de esgrima deixada sobre a mesa de canto, não tirava os olhos da porta. Permaneceu parada fitando a escuridão do corredor. Por mais que achasse muita imprudência, sua curiosidade a levou para fora do aposento. Antes de sair completamente, deu uma espiadela no corredor e começou a explorá-lo lentamente com a espada em punho. Talvez fosse apenas Edward indo fazer um lanche na cozinha, ela pensava, mesmo sentindo que algo dentro de si a alertava.

Seus pelos arrepiaram-se, estava ficando mais frio. Com o braço livre abraçou o próprio corpo numa tentativa inútil de se esquentar. Seus pés descalços tocavam o carpete vagarosamente. Os trajes brancos que usava davam a ela, naquele corredor mal iluminado, um aspecto fantasmagórico. Sentia que alguém a observava e que estava perto; tão perto que poderia tocá-la.

– Quem está aí?

A pergunta ecoou no escuro. A jovem sentiu uma corrente gélida de ar em seu rosto, e, subitamente, e todo o caminho que estava a sua frente desapareceu, seus pés quase tocando o nada. Girou sobre os calcanhares e tentou voltar para seu quarto, mas tudo atrás de si também tinha sumido. O carpete diminuía pouco a pouco, como que devorado pelas trevas até que ela caiu no vazio.

Gritou. A queda fazia seu estômago girar e ir para trás desconfortavelmente. Sentiu alguém segurar-lhe pela cintura e a levar até uma rocha. Era alto, como o topo de uma montanha. Foi largada ali. O terreno irregular e áspero fazia seus pés doerem. O frio fazia os pelos de seu corpo eriçar; a camisola de tecido fino e branco, que mal escondiam suas formas feminina, em nada lhe aquecia. Ficou de pé e viu que se encontrava agora a um passo do abismo. Não entendia o que estava acontecendo nem se aquilo era real. Parou na borda do precipício, apertando a guarda da espada com força, fitou a escuridão abissal. Aquela profundeza fria parecia lhe chamar.

– A morte parece realmente tentadora quando achamos não haver mais nada para nós nesse mundo, não é mesmo?

Elizabeth sobressaltou-se ao ouvir a voz atrás de si. Fincou os pés com força no chão para não perder o equilíbrio, algumas pedrinhas despencaram no vazio.

Encarou com perplexidade a figura alta e negra a sua frente. Tinha o sorriso de sempre. Trajava as roupas preto piche de sempre. Mas seus olhos brilhavam como duas bolas de fogo. Sua forma esguia e elegante parecia desvanecer entre a neblina.

– Sebastian?!

– O próprio. – fez uma mesura, sorrindo da indecisão da garota em apontar ou não a espada para ele. – Sugiro que não baixe a guarda, Milady, pois sou de fato uma ameaça.

A garota não colocou a espada em riste, mas apertou a guarda com mais força e empertigou o corpo como quem diz “Não tenho medo!” Sebastian gostou da atitude da jovem e aproximou-se dela. Elizabeth, sem ter para onde fugir, escorregou. Sua queda para a morte foi impedida por Sebastian, que a segurou pelo pulso e a puxou para cima.

– Por que a pressa?

– O que pretende, Mordomo? Não basta ter me roubado Ciel, veio pra me importunar também? – esbravejou a moça ainda sem ter certeza se aquilo era ou não um sonho.

– Os humanos são deveras interessantes. Você sabe que está vivendo uma experiência sobrenatural, mas ainda insiste num assunto tão banal.

– Do que está falando?

– Você sabe. No fundo os mais espertos sempre sabem, mas humanos só veem o que querem ver. Só acreditam no que querem acreditar. Pulemos as explicações longas e cansativas, vamos direto ao ponto. Eu sou um demônio e Ciel é meu mestre.

– Isso é algum tipo de brincadeira? Porque não estou vendo graça.

– Ora, vamos, Milady. Não há como um simples mordomo fazer isso tudo. – Sebastian fez um gesto com os braços para que Elizabeth olhasse em volta, e a moça o fez. Pareciam estar em um mundo de escuridão, onde não havia nada além daquela rocha, eles dois, névoa e o abismo. E aqueles olhos. Desde a primeira vez que viu Sebastian, sentiu nele algo ruim, mas aquela sensação tinha ido embora há muito tempo, no entanto, voltara naquele exato momento. Percebendo que a moça finalmente se convencera, Sebastian continuou. – Depois da morte dos pais, Ciel selou um contrato comigo em troca de sua alma.

– Mentiroso! Ciel jamais faria tal coisa.

– Jamais? Logo se vê que você não conhece o verdadeiro Ciel.

– É claro que eu o conheço. Ele é meu noivo, meu primo, crescemos juntos. Ciel é gentil, amável, bondoso, generoso e... E... e fofo. Jamais faria pactos com demônios.

– Ciel é rude, sádico, cruel, arrogante e vingativo, quanto a fofo, ele não possui nenhum antônimo para isso, isso de fato ele é. Mas, essas facetas, você ignora. Diga-me se estou mentindo, se você já não o viu, pelo menos uma única vez, demonstrar qualquer um desses adjetivos.

– ...

– Ciel é na verdade a pessoa descrita por mim e por você. Os dois em um só. A diferença é que eu conheço muito bem esses dois lados; e você conhece apenas um. – Fez questão de esnobar-se por isso.

– Não consigo acreditar que Ciel fosse capaz de tanto.

– Disso e de muito mais, como esperado do meu mestre.

– Por que está me contando tudo isso? Vai me matar?

Sebastian desapareceu de seu campo de visão. Tinha ido para trás dela. Sentiu cinco dedos fechar-se em seu pescoço. A pele da loira ficou tão branca quanto sua camisola, seu peito pulava de pânico. A voz do demônio saiu ao lado de seu ouvido.

– Confesso que a ideia é tentadora. Ah! Quantas vezes desejei fazer isso. Principalmente quando você era menor. Como era irritante e mimada. Sempre mudando tudo, sempre querendo tudo a seu modo, atrapalhando meu trabalho e o do Jovem Mestre. Sempre no meu caminho. E seria tão fácil. – falou apertando mais o pescoço jovem. – Mas...

Sebastian soltou Elizabeth, que caiu sobre os joelhos, tossindo e massageando o pescoço, seus olhos estavam cheios de lágrimas. O homem tinha tirado a espada de sua mão e torceu a lâmina fina como quem dá um nó numa fita.

– Se eu fizesse isso, Ciel jamais me perdoaria. Ele também a ama. E pensando bem, você teve sua serventia. Ciel tem novos planos. E eu tenho novos planos para ele também. Mas isso não será possível sem a sua cooperação. Mas você não há mais de querer ter tratos com o Jovem Mestre, agora que sabe o que ele ocultava. – deu as costas para a moça caída no chão e caminhou até a outra borda.

– Nada disso muda o que eu sinto. – Sebastian sorriu maliciosamente, depois, recompôs sua expressão de desinteresse e voltou-se para ela.

– Então você ainda o ama?

– Profundamente. – Os olhos verdes brilharam de convicção.

– Então me responda: o que você seria capaz de fazer por ele? – Falou sedutoramente, estendendo a mão para ela.

– Qualquer coisa.

Elizabeth segurou a mão do homem e ele a ajudou a levantar.

.

– Elizabeth! Elizabeth!

Edward e seu pai gritavam e por fim arrombaram a porta do quarto da garota. A jovem estava em pé de frente para a janela aberta. Edward correu para a irmã e abraçou-a.

– Ouvimos você gritar. E você não respondia. – Falou o rapaz.

– Estou bem. Pensei ter visto alguém, mas foi só um pesadelo.

Alexis e Frances olharam para a filha, preocupados. Sabiam como ela tinha ficado abatida com o término do noivado com Ciel, tinham até imaginado o pior.

Enquanto era abraçada pelo irmão, Elizabeth fitava a espada retorcida ao lado da sacada.

Notas finais do capítulo
A frase inicial: escolhi pq acho que representa bem os sentimentos dos três. Sebastian escolhe ficar com Ciel apesar dele ser humano e ser a alma que ele quer devorar. Ciel escolhe ficar com Sebastian mesmo sendo do mesmo sexo e sendo um demônio. Elizabeth escolhe ficar com Ciel mesmo sabendo de tudo o que ele fez. Isso é amor de verdade. ..Não sei se perceberam, mas algumas coisas desse cap. já apareceram antes, nos sonhos e nas visões do Ciel...É uma pena, mas as explicações de verdade e tudo que os levou a reencarnação só acontecerá no próximo cap.Não sei se ficou confuso, mas qualquer duvida perguntem.espero que tenham gostado.ps: Não gosto de face, pq não tenho muito tempo e nem gosto de postar fotos minhas na net, mas criei um pra fic, pra quem quiser adicionar. Pretendo postar algumas coias sobre a fic, desenhos...quando puder fazê-los. e se alguém quiser me mandar algo ou dizer algo...O nome lá é Nathalia Tai Monteiro, pq o troço não aceitou Tai Bluerose.Enfim... seque o link:https://www.facebook.com/nathalia.monteiro.9256Beijos *3*




(Cap. 20) Os Pecados do Passado – Parte II

Notas do capítulo
Olá :D Primeiro, abrigada a Lia Misaki, Thaiis Takuumi, FallenMoon, MaraSalvatore por favoritarem e um muuuuuiiiito obrigada a Misakim por recomendar, muito obrigada flor, amei *3* Explicações: a primeira parte desse cap se passa durantes os cinco meses que Ciel e Elizabeth ficaram sem se falar. Eu dividi o capítulo em dois, pois estava ficando absurdamente grande. Então haverá uma parte III, espero que logo. Tenho a impressão que estou esquecendo algo, mas deixa pra lá... Boa leitura :)

Capítulo 20: Os Pecados do Passado – Parte II: de 1892 a 1897

Londres, Inglaterra. 1892

Depois da pausa em seu noivado com Elizabeth (a moça não deixara claro se tinha terminado ou não), Ciel pode desfrutar um bom tempo da companhia de Sebastian sem a intromissão da noiva. Não que eles de fato ficassem livres de todos, na mansão do campo eram aqueles três atrapalhados causando problemas o dia todo; sem mencionar que Finnian e Maylene eram por demais curiosos. Na mansão da cidade, havia as visitas surpresas e totalmente inconvenientes de Soma e Agni que duravam até mesmo semana. Todos esses empecilhos fizeram com que a aproximação íntima entre mestre e seu servo acontecesse de forma sutil e lenta.

Isso se devia também ao fato de Ciel e, até certo ponto, Sebastian não serem muito dados a libertinagem.

Sebastian era muito profissional; durante o dia ocupava-se com todas as tarefas dadas por Ciel e somente à noite, quando teoricamente estaria livre das obrigações, era que se dedicava a sua mais nova e favorita tarefa: o seu relacionamento amoroso com Ciel.

Ciel não lhe permitia qualquer tipo de intimidade durante o dia, a não ser que o próprio rapaz quisesse algo assim, afinal o jovem gostava de se sentir no comando. Não faziam grandes coisas, demorou algum tempo até que Ciel convidasse Sebastian para dormir com ele em sua cama pela primeira vez, e quando o fez, pareceu mais um sermão do que um pedido. Sebastian não dormia no quarto do Conde todos os dias, mas a frequência foi aumentando e a intimidade também. No início, eram apenas beijos, depois abraços, depois carícias. Mas nunca chegavam a ir além; Ciel era receoso quanto a isso. Porém, quanto mais íntima a relação se tornava, mais Sebastian sentia seus instintos atiçarem. Queria mais daquele humano, e a relutância de Ciel só servia para provocar ainda mais a sua luxúria.

Certa vez, Sebastian tentou algo mais ousado para ver o que aconteceria, mas a reação do rapaz não foi das melhores.

Em uma noite fria de outono, os dois estavam bem confortáveis na cama. Enquanto se beijavam, o akuma deslizou a mão sobre a pele macia do abdômen de Ciel e foi descendo até tocar o púbis, teria chegado ao seu destino final, se o conde não tivesse se afastado repentinamente e acertado seu rosto com um sonoro tapa.

– Não toque em mim! O que pensa que está fazendo? – o rapaz perguntou alterado, saindo da cama com um salto e se afastando de costa até chegar à cortina da janela.

– Jov...

– Saia.

Sebastian encarou Ciel, que tremia e tinha os olhos estranhamente nublados.

– Você está bem?

– Eu mandei sair. AGORA!

Sebastian permaneceu por alguns segundos na cama, observando preocupado Ciel abraçar o próprio corpo. Depois se levantou, pegou o fraque e a gravata sobre uma cadeira, calçou os sapatos e saiu.

Resultado: Ciel ficou umas três semanas sem chamá-lo para dormir em seu quarto.

Depois daquela noite, ficou claro para Sebastian que Ciel não estava pronto para ir além; e talvez nunca estivesse; não depois de tudo o que ele tinha passado. Apesar de uma parte sua achar que seria prazeroso forçá-lo e ver o desespero romper mais essa parede dentro do jovem, uma outra parte, não queria fazer isso. Essa outra parte queria respeitá-lo, afinal, Sebastian não precisava realmente disso. E foi esse segundo lado que o akuma resolveu ouvir.

Mas ninguém pode culpar um demônio por ter a mente maliciosa. Mesmo respeitando a distância de Ciel, o mordomo não conseguia evitar pensar em como seria estar com ele daquela forma.

.

Sebastian soube bem aproveitar um pequeno defeito de Ciel: o ciúme.

Ciel era egoísta e o egoísmo é de certa maneira uma forma de ciúme. O conde nunca gostara de ter Sebastian tão longe de si, odiava ainda mais deixá-lo com outras pessoas. Seus olhos mais maduros começaram a notar coisas que antes lhe passavam despercebidas, como a sutil insinuação de algumas damas. Some-se a isso o recém-descoberto sentimento pelo mordomo. Qualquer atenção que o mordomo dispensava a uma dama já atraía o olhar reprovador de Ciel. Imagine então a reação do conde ao encontrarem-se os dois em um bordel.

Por que estavam ali?

Para capturar um comerciante de armas que se reuniria com outros criminosos numa sala especial daquele bordel ou Casa do Prazer como chamavam. Sebastian e Ciel, disfarçados, estariam nos quartos à direita e a esquerda da sala, vigiando e esperando o momento certo para agir. Para tal, precisaram pagar duas prostitutas para acompanhá-los até os quartos e estando lá, pagaram novamente para que elas ficassem quietas e não fizessem nada. No entanto, mesmo Ciel tendo pagado uma fortuna para que a mulher apenas o fizesse companhia, esta, uma ruiva de sotaque francês, tendo ficado encantada pelo rapaz, insistiu em tentar seduzi-lo.

– Por favor, senhorita. Eu já disse que não quero que faça nada. Apenas me deixe trabalhar, sim? – o jovem dizia completamente vermelho.

– “Senhorrita”? Você é bem gentil, mon cher. Tem cerrteza que non querr que eu faça um carrinhô no ...

A mulher se movia sinuosamente, ajoelhava-se e já pousava as mãos nas caças de Ciel, que a interrompeu e a guiou até a cama.

– Sim; tenho certa. Não quero nada. Agora fique quietinha aqui.

Enquanto espiava pela abertura oculta da parede, Ciel ouviu a mulher suspirar desapontada, dizendo que sua amiga devia estar se divertindo mais. Isso gerou uma profusão de pensamentos na cabeça do jovem conde. Não devia ter deixado Sebastian sozinho com uma prostituta.

Depois que fizeram a armadilha e capturaram o bando, os dois partiram do bordel. Mas quando estavam já na saída, a “acompanhante” do Sebastian veio despedir-se dele.

– Obrigada por tudo. Venha me visitar para conversarmos mais – falava com uma voz fininha, talvez o espartilho que apertava seus seios para cima não a deixasse respirar direito.

Ciel ficou possesso de raiva e como esperado, ficou em silêncio todo o caminho. Entraram em casa discutindo, o que não era tão fora do comum. Pelas reclamações do conde, Sebastian pode perceber que Ciel acreditava que ele tinha fornicado, foi a palavra que Ciel usou, com a moça do bordel.

Sebastian achou graça.

– Eu não aceito esse tipo de comportamento. Quero que você seja fiel a mim. Em tudo.

Ciel odiava a sensação de não poder confiar nele.

– Como espera que eu seja fiel a você se não sacia a minha fome?

– O q...? Isso não tem nada com... Não seja hipócrita, Sebastian. Foi você que escolheu me deixar vivo.

– Não me referia a esse tipo de fome, Jovem Mestre.

Ciel o encarou perplexo. Alguns segundos depois, suas bochechas adquiriram um tom avermelhado mostrando que havia compreendido o que o mordomo quisera dizer. O conde inflou as bochechas e foi para seu escritório batendo a porta com força.

Sebastian dissera aquelas palavras só por maldade. Para ver a reação dele. Ele, na realidade, não havia feito nada com a prostituta. A verdade é que a mulher era amante de gatos, então os dois ficaram o tempo todo falando sobre isso. Sebastian deu alguns conselhos sobre como cuidar deles; e a mulher mostrou-lhe um álbum com fotos de todos os seus bichanos. Mas Ciel acreditou que eles tinham feito algo e Sebastian preferiu deixar o jovem acreditar nisso. Não forçaria Ciel, mas esperava que o próprio desejo do jovem o colocasse em ebulição.

No final das três semanas, Sebastian se surpreendeu ao ouvir o jovem conde entrar em seu quarto, na ala dos empregados. Ciel enfiou-se sob as cobertas e deitou-se ao lado do mordomo na cama.

– Que grande surpresa o Jovem Mestre aqui. Espero que amanhã não venha dizer que é sonâmbulo.

– Quieto!

– Como quiser.

– ............................... Seu colchão é duro.

– Eu sou mais macio; se quiser chegar mais perto...

– Humph!

Foi de fato uma ótima surpresa. Maravilhosa na hora, mas resultou num grande problema pela manhã. Foi uma grande dor de cabeça tirá-lo do quarto sem que os outros empregados percebessem que o conde passara a noite ali.

.

Demônios conseguem ler muito bem todos os sinais que um humano consegue passar com o corpo. É dessa forma que eles sabem o que se passa em suas mentes, é dessa maneira que os manipulam. Depois de algum tempo, Sebastian percebeu, muito satisfeito, que seu mestre o desejava de forma carnal, era por isso que vinha flagrando seu mestre a observá-lo sempre com o rosto corado. Ciel jamais assumiria isso e também não possuía a coragem para consumar o ato. O mordomo achou que já estava na hora de ele interferir um pouco, ou Ciel jamais superaria esse medo.

– Para amanhã, quero que prepare a carruagem, vamos até a cidade; tenho assuntos a tratar com Lord Randall, parece que a Scotland Yard...

Ciel estava sentado na cama com vários papéis nas mãos, mas parou o que dizia ao ver Sebastian muito tranquilo tirar a blusa, os sapatos e o cinto da calça. E veio em sua direção, ignorando-o completamente, e tirando-lhe os papéis das mãos.

Ciel estava sentado na cama com as pernas para fora. Seu coração batia acelerado, sentia as mãos suadas. Sebastian se aproximou dele e beijou-lhe o pescoço.

– Relaxe. – Sebastian sussurrou com a voz rouca. Aproximando-se do corpo do garoto. – feche os olhos. Permita-me apenas mostrar-lhe isso. E apenas sinta.

Ciel fechou os olhos. Sentia o homem se aproximando cada vez mais e com ele o ritmo em seu coração. Sentiu-o segurar-lhe o queixo e levantar seu rosto gentilmente. E finalmente... O toque. Pode sentir o toque dos lábios dele nos seus. A maciez da pele. Uma mão segurava seu rosto e a outra deslizava por sua cintura. Suas próprias mãos levantaram-se em busca do outro. Seu corpo foi aos poucos se inclinando, até que suas costas repousassem na cama.

– O que acha de fazermos algo especial esta noite?

– Algo especial, você diz...

– Sim. Algo que nos una completamente – o akuma foi abrindo botão por botão da camisa do rapaz e beijando delicadamente a pele exposta.

– Algo assim é... Não sei, Sebastian...

– Não precisa ter medo, Jovem Mestre. É realmente bom e prazeroso se feito com alguém que você gosta; se feito com desejo, paixão e amor – Sebastian já abrira toda a camisa do jovem e fez o caminho de volta até o rosto corado dele, sentindo o doce aroma de sua pele.

– Amor? – Ciel olhava para cima, sentindo os carinhos do akuma. – Amor é uma palavra muito forte. Eu não sei o que é esse sentimento de fato.

– Nem eu posso entendê-lo. Mas podemos nos amar da maneira que sabemos. Se o Mestre quiser.

Sebastian deslizou a mão pelo antebraço de Ciel até que seus dedos se entrelaçaram.

– O que você queria fazer naquele dia?

– Queria lhe fazer um agrado. Apenas isso. Pense nisso como uma massagem; sei que você iria gostar, é até relaxante. Não é algo ruim, se fosse as pessoas não o fariam.

– Eu não queria ter reagido daquela forma. Eu fiquei... Só me avise quando for tentar algo assim novamente.

– Certo. Vamos fazer assim: você me guia, assim não se sentirá tão inseguro.

– Como assim?

– Me diga o que quer que eu faça. Por exemplo, onde você gostaria que eu o beijasse?

– Na boca? – Ciel falou como se o outro tivesse feito uma pergunta idiota.

Sebastian ri.

– O que foi?

– Existem muitos lugares no seu corpo para serem beijados, Jovem Mestre. Seja mais criativo.

– Você é um pervertido, Sebastian! – Ciel exclamou completamente vermelho.

– Oh! Vejo que pensou em um lugar bem interessante, não foi? Se me disser onde, eu posso fazer agora.

– Quieto! Eu não disse nada.

– Mas é essa a intenção, Mestre. Tem que ser uma experiência divertida e prazerosa. O que não vai acontecer se permanecer frio e retraído desse jeito – vendo que o jovem permanecia imóvel e emburrado, Sebastian suspirou. – Certo, então. Fique tranquilo. É melhor deixarmos para outro dia.

– Não. Eu quero que faça. É que sempre que eu começo... as lembranças...

– Esqueça tudo e concentre-se em mim. Pense apenas em nós dois.

Sebastian livrou o rapaz das calças, deixando-o apenas com as meias e voltou a beijá-lo ternamente.

Ciel estava com as costas apoiadas sobre o colchão macio, o toque do mordomo fez toda sua pele arrepiar. Sebastian deslizou a mão sobre sua coxa, flexionando seu joelho, seguiu pelo quadril do jovem, afagou seu baixo ventre e, finalmente, Ciel sentiu seu membro ser tocado. No início era uma experiência estranha, mas aos poucos, uma sensação prazerosa foi surgindo dentro de si.

Sebastian tentou não quebrar o beijo, para manter Ciel distraído. Não demorou muito até sentir o corpo do jovem emanar calor; e Ciel, antes estático, começou a arfar e a se mover, desconfortável com a sensação.

– Espere; Sebastian. Pare.

Ciel, completamente corado, sentia seu corpo queimar. Embora tivesse mandado o outro parar, percebeu, no exato momento em que Sebastian parou, que queria que aquilo continuasse. O jovem olhou para o próprio corpo.

– Mas o que foi que você fez? Ele está maior.

Sebastian começou a rir.

– Do que é que você está achando graça, seu bastardo?

– O Mestre parece tão crescido, mas nesses assuntos continua ingênuo como nunca. Isso é perfeitamente normal; é o que acontece quando o Mestre fica muito excitado – Sebastian coloca a mão nas costas de Ciel puxando-o para um beijo mais urgente, que deixou Ciel completamente sem ar. – Vê? – Sebastian apontou para o membro do rapaz, que havia reagido ao beijo. – Comigo acontece o mesmo, quer ver?

– Agora não! – o jovem respondeu completamente constrangido. – Continue.

Sebastian sorriu e continuou a beijá-lo e a tocá-lo. Estava tão absorto em todas aquelas sensações que nem percebeu em que momento o mordomo ficara nu também. Tudo parecia embriagante. A dança lenta dos corpos, pele indo de encontro à pele. Sentia todos os pelos de seu corpo se eriçar. Gotículas de suor se formavam em toda a extensão de seu corpo. Era uma sensação dolorosa, porém prazerosa.

Sebastian estava indo bem devagar e da maneira mais sensual possível. Queria que o conde tivesse uma experiência agradável, queria lhe proporcionar prazer. Nem se lembrava de qual fora a última vez que fora tão gentil durante uma relação sexual, se é que essa vez existiu, nem se alguma outra vez ficou preocupado em proporcionar prazer a outra pessoa em vez de apenas querer sentir.

Ciel só queria apreciar mais daquele momento e descobrir tudo o que aquele akuma poderia lhe proporcionar. Estavam os dois nus não apenas de suas vestimentas, mas de todas as máscaras e desculpas que usavam no dia a dia. Naquele momento não havia mestre e servo, nem demônio e humano, havia apenas dois amantes.

Sentiu seu membro ser envolvido pela boca úmida e quente, a língua sugando-o com força. Em êxtase, Ciel puxou o rosto de Sebastian para si.

– Me beije.

Ciel falou com a voz arrastada. Sebastian o beijou lentamente. Sentiu um sabor diferente naquele beijo, o seu próprio gosto.

Sebastian continuou a masturbá-lo com a mão, e vendo que o jovem estava quase no seu limite, aumentou os movimentos e a pressão. Sentiu o corpo de Ciel arquear de encontro ao seu, e interrompeu o beijo para olhar naqueles olhos azuis o brilho de prazer ao ejacular pela primeira vez. Os dois se olharam intensamente. Sebastian não sorria, apenas admirava o rosto suado do jovem ofegante sob si. Os cabelos grudados em sua testa e a marca do contrato brilhando intensamente no olho do jovem.

– Não existe nada como você no meu mundo. Seja meu, Ciel.

Sebastian nunca fora tão sincero e não se referia apenas aquele momento, mas a tudo. Ciel nunca ouvira o mordomo pronunciar seu nome.

O jovem respondeu com um beijo suave, que o mordomo entendeu como uma autorização para continuar.

Depois da totalmente constrangedora experiência de ser preparado, Ciel viu Sebastian se encaixar entre suas penas e colocar estas em volta da cintura. Sentiu o membro do outro pressionar-lhe o ponto mais íntimo e escorregar pra dentro de si lentamente. O conde deixou escapar um arquejo alto e seus olhos se apertaram com a dor. O outro esperou seu sinal para prosseguir. As primeiras estocadas foram igualmente dolorosas, mas não demorou pra que a dor se transformasse em prazer.

Sebastian podia ouvir o coração do jovem batendo como um tambor, um som inebriante. Ciel era silencioso. Sensualmente silencioso. Ele gemia baixinho, e prendia os gemidos mais altos na garganta, produzindo um som que Sebastian comparou com um ronronar. Tão gracioso. De fato, ele conseguira o melhor mestre.

Depois de algum tempo naquele movimento de vai e vem, Ciel sentiu uma onda de prazer avassalador invadir todo o seu corpo e um líquido quente preencher seu interior. Ofegante, Sebastian encaixou a cabeça na curva do pescoço do jovem, que o abraçou. Quando já estavam mais calmos, o maior se levantou, desconectando os dois. Ciel sorriu constrangido ao ver o mordomo completamente nu ir apagar as velas, que já estavam pela metade, e voltar para os seus braços na cama.

Ciel estava exausto, dormiu rapidamente. E não houve pesadelos.

Era visível na manhã seguinte, que Sebastian acordara de bom humor. Não reclamou quando Maylene quebrou o jogo de porcelana que ainda nem havia sido usado, nem quando Finnian matou todas as magnólias do jardim com inseticida, nem quando Bardroy incendiou meia cozinha.

– Que estranho o senhor Sebastian está hoje – comentava Finny.

– Vai ver ele está pensando em se vingar quando menos esperarmos – cochichava Bard com os outros três.

– Hohohoho! – dizia o velho Tanaka.

– Ainda não vi o Jovem Mestre hoje – Maylene constatou. E quando foram perguntar a Sebastian a resposta foi:

– O Jovem Mestre estava muito cansado, então resolvi deixá-lo dormir até mais tarde hoje.

– Cansado de quê? Ele não faz nada – Bard deixou escapar, mas recebeu um beliscão de Maylene como castigo.

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Embora a grande maioria dos crimes ocorresse nos becos mais escuros e nos estabelecimentos mais ocultos do submundo, tudo sempre era custeado por alguém e sempre havia alguém lucrando de alguma forma; esses alguéns só poderiam estar em um único lugar, o melhor disfarce, o esconderijo supostamente inalcançável.

A alta sociedade.

A rainha queria que o conde Phantomhive se tornasse mais próximo dessas pessoas para vigiá-las de perto, descobrir suas intenções e seus segredos. Sua Majestade sofrera inúmeros atentados, por essa razão, temia que houvesse inimigos internos. Isso não era exagero dela, nem estava fora de lógicas. Mas para que o conde conseguisse isso, era preciso tornar-se um membro constante das atividades sociais. E esse era o maior problema.

– Isso é um absurdo! Como ela espera que eu faça isso? – Ciel jogava a carta da rainha sobre a mesa do escritório.

– Não é uma tarefa tão difícil assim, Mestre. Já fizemos coisas parecidas antes; naquela escola, no circo, no...

– Eu sei – Ciel falou com voz desanimada, revirando a gaveta da mesa.

– Além do mais, a rainha tem toda razão, a melhor maneira de vigiar seus inimigos é mantê-los ao alcance de seus olhos.

– Disso eu sei. Não me trate como se eu fosse um idiota.

– Então onde está o problema?

– Não suporto o estilo de vida dessa gente. Eles só vivem de festas, eventos, almoços, jantares, conversas fúteis. Eu não suportaria isso por muito tempo.

– Isso é verdade. Mas o Mestre é um ótimo fingidor. Tenho certeza que conseguiria enganar e manipular muito bem esses nobres inferiores. E o Mestre não estaria sozinho, eu estaria ao seu lado. Além disso, não precisaria ficar o tempo todo com eles, basta oferecer boa música, boa comida e boa bebida e todos logo estariam comentando o quão excelente anfitrião o Mestre é.

– Posso me virar muito bem com os contatos que tenho. Não preciso bancar o Druitt.

– Seu antecessor era conhecido como um ótimo anfitrião. Muitos o admiravam e ele era muito querido pela sociedade.

– Sim. E veja só como ele terminou. – Ciel falou sem interesse; polia um pequeno revolver na maior displicência.

Sebastian suspirou. Que jovem teimoso.

– Sabe, Mestre, muitas pessoas ao ouvirem falar de conde Phantomhive lembram-se primeiramente de Vincent, e quando ouvem falar de Ciel Phantomhive ainda pensam em você como, com o perdão da palavra, um pirralho órfão. Os mais jovens nem fazem ideia de quem é o dono da Companhia Funtom. Falando sinceramente, se tirarmos os Midford, Lau, o príncipe Soma e a polícia, quantos membros da sociedade londrina de fato sabem quem é o líder da casa Phantomhive?

– ...

– Não acha que já está mais do que na hora de todos saberem quem é o Conde Ciel Phantomhive? Não acha que todos deveriam logo se lembrar de seu rosto ao escutarem seu sobrenome? Como espera superar seu antecessor em todos os aspectos se insiste em permanecer oculto de todos? Pense nisso como um novo jogo.

– Um jogo? – Ciel ergueu um pouco a cabeça, Sebastian parecia estar conseguindo prender sua atenção.

– Sim. Você atuará como um bom anfitrião, e o objetivo é enganar o máximo de pessoas possível sem deixar que elas percebam a sua máscara. O Mestre é bom nisso – Sebastian contornou a mesa do conde e pousou as mãos sobre seus ombros e passou a sussurrar as palavras em seu ouvido. – A melhor maneira de controlar as pessoas e conseguir delas o que se quer é fazendo com que elas confiem em você, que se afeiçoem a você. Elas se sentirão a vontade para revelar seus segredos.

– Disso nós entendemos bem, não é? – Ciel deu um sorriso malicioso, o qual foi retribuído pelo mordomo.

– De fato.

– Mas e os jantares tediosos e as conversas fúteis... – Ciel começou a reclamar, mas Sebastian girou a poltrona, mantendo o conde de frente para si.

– É nos jantares tediosos e nas conversas fúteis que eles costumam cometer deslizes. Faça com que eles o admirem, o respeitem, o desejem e até mesmo o invejem.

Sebastian deslizou os dedos enluvados pelo rosto do menor e brincou com o cordão de seu tapa-olho. Ciel, constrangido, levantou-se e fingiu ir pegar um livro na estante.

– Às vezes, para se chegar ao xeque-mate é preciso perder tempo com os peões. – Sebastian completou ao olhar para o jogo de xadrez na mesa de canto.

– Muito bem, você venceu. Comecemos a operação Me Tornando Um Nobre Anfitrião Fútil. – Ciel falou ainda folheando um livro qualquer, não adiantava discutir mesmo. – Mas esse plano tem seus riscos. Ao me tornar mais próximo dos membros da sociedade terei que ter o dobro de cuidado para que não descubram meu trabalho como Cão de Guarda da Rainha.

– Ora, todo jogo perde a graça se não tiver um pouco de risco. Não concorda? – Sebastian aproximou-se silenciosamente por traz e depositou um beijo na bochecha do jovem.

– Ora, seu... Como ousa?! Já disse que durante o dia não. Ponha-se no seu lugar.

Atrapalhava-se com as palavras, completamente vermelho; saiu do escritório bufando de indignação.

Sebastian adorava irritá-lo. Era imensamente gracioso vê-lo perder o controle.

E assim eles começaram a se preparar para entrar no meio do círculo social da nata de Londres. Não que Ciel precisasse de convite, afinal ele recebia muitos e recusava todos; e qualquer um ficaria feliz em receber um conde em uma festa ou dificilmente recusaria o convite de um conde para um jantar. Mas Ciel nunca foi uma pessoa sociável. Ele tinha boa aparência e era inegavelmente bem abastado; apesar da arrogância, o jovem tinha uma doçura natural que conseguia cativar as pessoas logo de cara. O difícil era fazê-lo revelar essa doçura, pois nem todos eram tão ingênuos quanto o príncipe Soma. Era impressionante como todas as ofensas e reprimendas que Ciel fazia ao indiano simplesmente batiam nele e caíam no chão sem efeito algum.

Sebastian podia até fazer com que Ciel fosse gentil e amigável, e o jovem tinha uma habilidade incrível de simular um sorriso que desarmaria qualquer um, mas Ciel jamais seria carismático e jovial, embora fosse jovem, o que era irônico. Mesmo que tentasse disfarçar, mais cedo ou mais tarde Ciel se cansaria e acabaria sendo grosseiro com alguém; Sebastian conhecia seu mestre melhor que ninguém e sabia que o jovem conde não conseguiria manter por muito tempo a pose de bon vivant diante de pessoas como Druitt. Pelo menos não sozinho. E Sebastian não poderia fazer muita coisa para ajudar nesse ponto; sendo um mordomo, sua intromissão seria considerada uma falta de decoro.

Logo ficou claro que eles precisariam de um apoio específico. Algo que fizesse Ciel parecer alguém bem sucedido não só nos negócios, mas na vida social também. Um apoio para todo e qualquer evento social. Uma pessoa que estivesse a par de tudo e que fosse encantadoramente expansiva. Alguém que tornasse Ciel invejado pelos homens e desejado pelas mulheres. E Sebastian já sabia exatamente do que Ciel precisava, embora não se agradasse muito da ideia.

Uma bela e bem nascida noiva.

Estava na hora de fazer uma visita a casa dos Midford.

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Depois daquela estranha noite, na qual o mordomo Sebastian viera lhe fazer uma visita, Elizabeth acordou cedo e de bom humor. Pediu que Paula lhe preparasse um belo vestido e que a ajudasse com o penteado.

– Que bom que acordou disposta hoje, querida – a marquesa Frances foi falando ao ver a filha adentrar a sala de visitas com um enorme sorriso. – Você receberá uma visita hoje à tarde.

– Que repentino! Bom dia, papai!

– Bom dia! – o marquês retribuiu o sorriso da filha.

– E quem será? – sentou-se no sofá e pegou uma xícara de chá que estava sobre a mesa de centro.

– Lord Tindall virá vê-la.

– Com que propósito? – perguntou sem dar muita importância, deu mais atenção ao delicado glacê que decorava um bolinho. Seu pai automaticamente ocultou o rosto com o jornal.

– Ele ouviu dizer que você estava descompromissada e ficou deveras interessado em conhecê-la melhor, com o intuito de desposá-la. Devo pedir que se porte bem, ele é um grande partido.

– Ele é um grande velhote, isso sim! Ora, vejam só! Tem idade pra ser meu avô.

– Elizabeth! Alexis, diga alguma coisa.

– Mas ela tem razão, Frances, querida.

– Pois não poderei ficar. Sairei logo a pouco e só retornarei à tardinha.

– Posso saber onde pensa que vai? – Frances falou autoritária, com as mãos na cintura, seu rosto vermelho de raiva pelo comportamento da filha.

– Vou visitar meu noivo.

– Mas onde já se viu, eu tentando arranjar seu futuro e você de passeio... Quem?

– Ciel.

A mulher piscou duas vezes para ter certeza de que estava acordada. O Marquês abriu um enorme sorriso.

– Que maluquice é essa? Não disseste que não queria mais casar com ele. Faltas-te me por louca.

– Eu disse que ainda não estava pronta para casar com ele. Mas agora estou. E eu jamais casaria com outra pessoa que não fosse Ciel. Que ideia mamãe; já imaginou, Elizabeth Tindall? Que horror! Não. Eu nasci para ser Elizabeth Phantomhive. E tenho dito!

A jovem colocou as luvas e um chapéu, pegou uma sombrinha com adornos de bordados e disparou pelo corredor com passos firmes.

– E o que direi ao Lord Tindall?

– Que vá procurar uma noiva na esquina.

– Homessa! Mas o que há com esta menina?

Naquela mesma tarde, Elizabeth reencontrou Ciel, que já a esperava. Ciel se mostrara bem relutante em relação à ideia de manter um casamento fajuto com a prima. Não que a repudiasse, mas porque queria que ela tivesse um casamento real, com um marido que a amasse. Ela merecia isso. O conde ficara irritado com o fato de Sebastian ter agido sem lhe consultar e por ter contado tudo a Lizzy.

– Que inconsequente! E se ela não tivesse concordado?

– Nesse caso eu teria de matá-la, mas eu tinha plena certeza de que não seria preciso.

Sebastian respondeu sinceramente.

Era deveras vantajoso casar-se, visto que um homem de família era muito mais respeitável que um homem solteiro; as pessoas costumavam falar mal dos homens solteiros com mais de vinte e cinco anos. Ciel estava mais preocupado com a prima, mas ela parecia decidida a aceitar o acordo proposto por Sebastian com todas as desvantagens que isso pudesse lhe oferecer. Eles seriam legalmente casados, agiriam como casados perante todos, mas não seriam realmente um casal.

– Por favor, Ciel – Elizabeth falou segurando a mão do primo. – Não permita que eu seja a esposa de outro homem. Não me importo de ser sua eterna noiva, contanto que eu possa ficar ao seu lado. Pra mim já é o bastante.

– Sabe que eu não poderei retribuir o seu amor da mesma forma.

– Apenas deixe-me ajudá-lo. Deixe-me fazer parte da sua vida. Eu estudei e treinei a vida inteira para proteger você, para amar você. Esse é meu objetivo. Permita que eu lhe seja útil de alguma forma.

Diante dos argumentos de Sebastian e do pedido sincero de Lizzy, Ciel concordou. Mas aquela decisão mexeu muito com seus sentimentos. Principalmente em relação à Sebastian. Seguir com o casamento fora ideia do akuma, e se o próprio Sebastian não tivesse ajudado Lizzy a convencê-lo, Ciel jamais teria concordado.

Mesmo Lizzy tendo dito que apenas estar ao seu lado seria o suficiente, Ciel tinha plena certeza de que mais cedo ou mais tarde ela perceberia que apenas isto não bastaria. Sabia por experiência própria, afinal, vivera tanto tempo dizendo a si mesmo que precisava de Sebastian apenas para conseguir sua vingança, e veja só o que aconteceu. Não podia simplesmente negar seus sentimentos por Sebastian e também não queria ver a prima casada a força com qualquer desconhecido, mas aceitar seguir com o casamento, apesar de evitar falatórios da sociedade, resultaria no sofrimento da prima.

– Sebastian; está acordando?

Estavam os dois deitados na cama e Ciel observava os olhos fechados do mordomo por algum tempo. Sebastian apenas fingia dormir, como era de costume, mas mesmo que estivesse de fato dormindo, jamais deixaria de escutar um chamado de seu mestre. Abriu os olhos e olhou para o lado direito da cama.

– Sim. Algum problema?

– Não é nada.... – Ciel fez uma longa pausa. Sebastian voltou a fechar os olhos. – Hum; você realmente não se importa se eu me casar com a Lizzy?

– Não vejo grande problema nisso.

– Ah... Então tudo bem.

Ciel respondeu num tom frio e girou o corpo para o outro lado. Sebastian conhecia aquele tom e aquela reação, ele tinha falado algo errado. Quando o irritava propositalmente era divertido, mas quando o fazia sem querer, era um problema. Isso acontecia com mais frequência do que o mordomo queria. Quando ele sabia o que tinha feito de errado era fácil reparar o erro, mas quando não fazia ideia, tinha que se virar para descobrir como e pelo quê pedir desculpas; Ciel era capaz de passar uma semana inteira de cara fechada sem dizer a razão.

Não havia como a vida ao lado de Ciel se tornar monótona, apesar de toda a rotina a cumprir, quanto mais crescia, mas complexo o garoto se tornava. Por mais que achasse conhecer todas as facetas de seu mestre, vez ou outra, o mordomo se via as voltas para tentar entendê-lo.

– Não é um grande problema pelas vantagens que nos oferece. O Mestre já a conhece e sabe como ela é; Elizabeth sabe sobre seu trabalho como Cão de Guarda da Rainha e sabe sobre nós; ela concordou em realizar o casamento sem precisar consumá-lo. Então não vejo porque não. Mas concordar com isso não significa que me agrade, preferia mil vezes não ter que dividir meu mestre com ninguém. É egoísta, eu sei, mas fazer o quê? Sou um demônio.

Ciel, ainda de costas para o mordomo, se mexeu um pouco, puxou o cobertor sobre os ombros.

– Se eu fizer de Elizabeth a minha esposa, consequentemente você será meu amante.

– É com isso que está preocupado? – o maior curvou os lábios num sorriso. – De mordomo a amante, já é um progresso. A ideia me parece até mais divertida.

– Tsc!

Depois de uns cinco minutos em silêncio, Ciel virou-se para Sebastian e aconchegou-se no peito do mesmo.

– O Mestre sempre dorme mais tranquilo nessa posição, não é?

– Cala a boca e dorme!

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Sebastian deu graças por Elizabeth ter amadurecido consideravelmente. Tinha que admitir que a moça não era mais irritante como fora na infância e parecia ter herdado a altivez da mãe. Precisou dar orientações tanto a ela como a Ciel, para que não cometessem erros em público. No primeiro grande baile que Ciel ofereceu, no qual os dois se apresentariam como anfitriões, Elizabeth provou estar à altura do conde.

Quando Sebastian foi ajudá-la a descer da carruagem, reparou que a jovem viera com um elegante vestido verde feito pela senhorita Hopkins. Ela estava encantadora, logo se via que seus traços de menina haviam ficado para trás.

– Está encantadora, srtª Elizabeth – Elizabeth encarou o mordomo sem saber se ele estava sendo sincero ou se debochava. – Lembre-se: não importa o que digam, você é a rainha dessa festa, se você cair, Ciel cai.

A loira apenas assentiu e adentrou o salão com um enorme sorriso. Atraiu a atenção de todos quando entrou e postou-se ao lado de Ciel, que ficou um tanto surpreso ao ver a prima naquele vestido de baile. Elizabeth sempre se vestira como uma boneca. Mas ali estava uma linda mulher.

– É falta de educação ficar encarando uma dama, Mestre. Mesmo que esta dama seja sua noiva. – Ciel ouviu Sebastian sussurrar a suas costas.

– Quer beber algo? – Ciel perguntou a prima. – Vou lhe buscar algo para beber.

Ciel se afastou e Elizabeth sussurrou disfarçadamente para Sebastian.

– Veja, ele até foi buscar-me algo para beber. Poderia ter pedido que você o fizesse.

– Sim, mas quis buscar ele mesmo. Meu mestre é um cavalheiro.

– Não está com ciúmes?

– Oh, não. Aproveite-o durante o dia. Mas a noite ele é meu.

A loira olhou surpresa para o mordomo.

– Estou só brincando. – ele completou com um sorriso cínico.

Estranhamente, Elizabeth e Sebastian adquiriram o costume de se alfinetarem de alguma forma. Elizabeth o fazia porque era sua forma de vingança, pois sabia que já tinha perdido pra ele; e Sebastian o fazia porque simplesmente gostava de provocar as pessoas.

– Ora. – Uma mulher oportunista, chamada Lenora aproximou-se. – Ouvi dizer que o seu noivado com o conde estava desfeito.

– De certo foi um boato equivocado, pois, como vê, estamos muito bem. Não costumo acreditar em boatos, Lady Lenora, normalmente não passam de fofocas maldosas. – Elizabeth respondeu sem abandonar o sorriso.

O plano de Sebastian dera certo. Em pouco tempo, o jovem casal era bem conhecido e bem quisto. Os homens invejavam e admiravam Ciel por ser tão jovem e já possuir tudo o que possuía e por sua noiva; as mulheres invejavam Elizabeth e, mesmo as casadas, disputavam pela atenção do jovem conde. O engraçado é que todas chegaram ao consenso de que Ciel era o rapaz perfeito, pois nunca dava demasiada atenção à outra dama que não fosse sua noiva; isso porque elas não sabiam que vez ou outra durante os baile e jantares, Ciel se retirava para o escritório para ficar sozinho com o mordomo, não que eles fizessem algo lá, era apenas o tempo de descanso do conde, mas já queria dizer alguma coisa.

E claro que a aproximação surtira efeito. Ciel nunca imaginou que as pessoas pudessem ser tão descuidadas com seus comentários. Em pouco tempo conseguiu descobrir quem estava envolvido com negócios ilegais e até quem gastava a fortuna da família nos bordéis e nas casas de ópio.

Ao começar a fazer parte desse mundo, Elizabeth pode ver como tudo não passava de uma ilusão. As pessoas viviam de aparências. Achou até que tinha sorte por saber a verdade oculta naquele mundo de fantasias.

Em maio de 1894, foi realizado o casamento dos dois. O mais belo já visto naquela época. O período em que Elizabeth mais se divertira. Edward, seu irmão, chorou o tempo todo. Sua mãe estava orgulhosa e seu pai deu uma enorme caixa de charutos de presente para Ciel, depois de quase o esmagar num abraço.

– O que eu vou fazer com isso? – Ciel perguntou a Sebastian, sacudindo a caixa de charutos.

– O Mestre pode usá-los para acender a lareira.

Maylene pegara o buquê.

À volta para a Mansão Phantomhive, agora sua casa, também foi animada. Mas toda a fantasia acabou assim que subiram as escadas.

Ciel parou diante da esposa, sem saber o que fazer. Girou a cartola nas mãos, olhando para a barra do vestido branco de Lizzy.

– Bom, er... Boa noite.

– Boa noite.

– Seu quarto. Este, quero dizer, nesta porta. Espero que fique confortável e durma bem.

– Obrigada.

Ciel deu-lhe um beijo no rosto e saiu.

Elizabeth respondeu com um singelo sorriso. Adentrou o espaçoso quarto, seus paços ecoando no silêncio. Retirou os adornos em seus cabelos e despiu-se do vestido de noiva. Colocou sua roupa de dormir e deitou no colchão macio da enorme cama de érable. Deixou escapar um suspiro minguante e dormiu.

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Ciel sentia um pouco de culpa em relação à esposa, por isso tentava retribuir tudo de alguma forma. Nunca se deu muito bem com palavras afetuosas, então buscava agradar-lhe de outras maneiras. Ciel nunca deixava faltar nada a Elizabeth e praticamente nunca negava-lhe qualquer pedido.

Elizabeth tinha os enfeites mais fofos. As joias mais bonitas. Vestidos belos e únicos, pois nenhuma outra modista era tão criativa e moderna quanto Nina Hopkins. Tinha até mesmo ganhado seu próprio cavalo, um sangue-puro branco. Entretanto, mesmo desfrutando de todos os mimos possíveis e tendo uma liberdade que nenhuma outra dama possuía, nada era capaz de preencher o vazio em seu peito.

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Um acontecimento triste abalou todos na mansão. Depois de anos de servidão, o velho mordomo da casa, o senhor Tanaka, veio a falecer. Foi um choque para todos, que nunca sequer tinham pensado na possibilidade de perder o velho japonês para a morte. Embora não fizesse muita coisa na mansão, Tanaka sempre parecera muito bem. Ciel quis prestar todas as homenagens devidas ao antigo mordomo de seus pais.

– Que coisa mais absurda; enterrar um empregado no cemitério da família. Daqui a pouco ele vai querer enterrar aqui o Sebastian também e os outros.

– Ora, mamãe, não seja cruel. O terreno é dele, os empregados são dele e pode fazer o que bem entender com todos.

– E isso lá é jeito de falar com sua mãe?

– Só estou dizendo que o senhor Tanaka está nessa família há mais tempo que qualquer um dos presentes aqui e nada mais justo do que deixar que ele descanse em paz ao lado da família a quem ele serviu fielmente.

Elizabeth dirigiu os seus passos por entre os túmulos memoriais, caminhando calmamente até as lápides de seus tios. Fitou os nomes Vincent e Rachel Phantomhive gravados no mármore frio. As lembranças daqueles dias fizeram seu coração apertar. Elizabeth sabia que a tristeza que sentiu durante aquele período nem se comparava a tudo pelo qual Ciel passou.

Sebastian jamais lhe contou o que realmente ocorrera com Ciel quando este estivera nas mãos de seus sequestradores; a loira nunca soube o que ou o quanto Ciel sofrera, só conseguia imaginar que fora algo horrível o suficiente para transformar uma criança doce e tímida em alguém capaz de invocar um demônio.

A jovem dama olhou para Sebastian e não conseguia ver naquela figura esguia e elegante a imagem de um ser extremamente cruel e perversamente libertina de um demônio, principalmente quando ele estava com Ciel; era como se um tivesse vindo a existir exclusivamente para o outro. Talvez Sebastian fosse um demônio diferente, talvez Ciel tivesse o corrompido com humanidade, assim como ele corrompera Ciel com vileza. Isso seria possível? Corromper um demônio com humanidade. Ou, talvez, essa fosse a maior arma dele, nunca demonstrar ser como é. Enlaçando a todos com suas gentilezas e, depois, os enforcando com suas mentiras.

A jovem engoliu em seco. Ao se afastar das lápides, reparou em uma terceira ali ao lado que, até então, não havia notado. Nessa estava gravado o nome Ciel Phantomhive. Elizabeth sentiu seu sangue congelar numa assustadora sensação de mau agouro. Deu um pulo ao sentir uma mão tocar-lhe o ombro.

– Por que a demora Lizzy? – Ciel viera buscá-la.

– Ciel, o que isto ainda está fazendo aqui?

Os olhos azuis desviaram da mulher para as três lápides, pousando sobre a gravação do próprio nome na terceira. O semblante de Ciel era frio e distante, como se vislumbrasse um monstro há muito esquecido.

– Aquele Ciel Phantomhive que todos conheciam realmente morreu naquela noite, nada mais lógico do que manter a memória dele ao lado dos pais.

– Então com quem estou falando agora?

– Com a personificação do ódio e do sofrimento dele. Aquele enterrado ali continua puro, pois tudo o que o maculava permaneceu comigo.

– Mas você já se vingou, certo?

– A vingança não traz contentamento, tampouco apaga as lembranças ou faz esquecer a dor. Mas não quero abandonar isso. Já morri há muito tempo, Lizzy, só ainda não fui sepultado. É esse sentimento corrosivo, o qual leva tantos à ruína, que me mantém de pé..., que o trouxe pra mim.

– Por que não enterrar tudo isso também e seguir em frente?

– ...

– O que você teme, Ciel? A felicidade ou a possibilidade de ele o abandonar caso fizesse isso?

– Talvez os dois...

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No primeiro momento, a vida a três fora até pacífica, mas não demorou a ocorrerem atritos aqui e acolá, sempre por causa de ciúmes. Não eram brigas horríveis, nem chegava a abalar o convívio entre todos na mansão, mas alguém sempre saía magoado; na maioria das vezes Elizabeth.

– Já leu o jornal desta manhã? – Elizabeth perguntou a Ciel ao entrar no escritório.

– Ainda não tive tempo. Por quê? Alguma notícia interessante?

– Sim; aquele escritor que esteve aqui num jantar do verão passado, o Senhor Wilde, lembra-se dele?

– Oscar Wilde. Sim, o que tem ele? – perguntou sem tirar os olhos dos livros contábeis da Companhia Funtom.

– Foi preso. Parece-me que foi enviado para a Prisão de Pentonville.

– Sob qual acusação?

– Sodomia.

Ciel levantou os olhos para encarar a mulher.

– A culpa é dele mesmo; quem manda levar uma vida tão desregrada e ser tão descuidado.

– Não creio que ele mereça todo o crédito por sua prisão, afinal, foi o Marquês de Queensberry que fez questão de vê-lo condenado. Acho que o sr. Wilde não podia imaginar que o pai do Lord Alfred Douglas fosse tão vingativo.

– O que realmente pretende com essa conversa enfadonha, Elizabeth?

– Nada. Só estava aqui pensando que nem todos têm a sua sorte.

– O que está insinuando?

– Exatamente o que sua consciência diz. Tenha cuidado, Ciel; a rainha não hesita em condenar pessoas como tu.

– Como assim pessoas como eu?

– Sabe exatamente do que estou falando. Odiaria ver o que aconteceria se alguém fizesse tal acusação contra ti. Acha que a rainha abandonaria seu precioso conceito de moral para livrar-lhe? Não. Ela não faria isso, mesmo sendo você o Cão de Guarda da Rainha. Ela não arriscaria sujar seu nome e você sabe disso.

– Não tenho tempo pra ficar ouvindo...

– Não me trate como se eu fosse uma idiota, Ciel! Sei muito bem o que estava implicado em aceitar manter esse casamento de mentira. Mas sou a sua esposa e a única coisa que exijo é que zele pela minha honra e que zele pela sua também, pelo menos enquanto estivermos na mansão da cidade. Acaso acha que ninguém vai desconfiar do fato de você nunca dormir com sua esposa, mas o mordomo o visita todas as noites. Céus! Eu não sei o que vocês fazem, nem me interessa saber, nem me importa. Mas tenha cuidado. As línguas maldosas da sociedade já espalham mentiras pelo simples desejo de agredir e caluniar, não dê margens para elas.

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Frances Midford era uma mulher controladora, forte e decidida. Sabia controlar as coisas e chegava a ser mais rigorosa que o marido. No entanto, apesar dessa faceta independente, Frances era uma mulher agarrada às convenções sociais e prezava muito por todas as regras que uma mulher deveria seguir. Consequentemente, mesmo incentivando a filha a ser forte e habilidosa em atividades não próprias do delicado requinte feminino, ela exigia da filha essa submissão às regras. E ultimamente, sempre que fazia uma visita à filha, acabava por importunar a jovem.

– A esposa de seu irmão está grávida, novamente; Edward foi nos dar a notícia no último domingo.

– Estou feliz por ele.

– Ele está mais agitado que uma lebre. Jocelyn está bem, face corada, creio que será um menino, como deve ser.

– Espero que Deus a abençoe com um.

– E você?

– O que tem eu?

– Seu irmão casou-se com Jocelyn muito tempo depois de você e ela já está prenha pela segunda vez. Não acha que já estava na hora de me dar um neto?

– Não estou preparada para ter filhos.

– Que história é essa? Toda mulher já nasce preparada para ter filhos. É nossa função magistral.

– Pois não concordo com isso. Ainda tenho muito que fazer antes de ser mãe, além disso, não há vestidos capazes de deixar a mulher fofa com esses barrigões.

– Tolice! Se ainda não engravidou é porque não está cumprindo corretamente seu papel como esposa. Vocês não têm tentado muito?

– MAMÃE! Não quero manter esse tipo de conversa. A minha vida íntima com meu marido não é coisa a ser discutida com a mãe.

– Escute, filha, Ciel não tem família, a continuação do nome Phantomhive depende unicamente de você.

– Eu sei...

– Se não lhe der um filho, ele poderá achar que você é uma esposa inútil.

Elizabeth ignorou a mãe, assim como ignorou todas as outras vezes que ela voltava com a mesma conversa. Alguns meses depois, quando foi visitar o irmão, tentou disfarçar a tristeza que sentiu ao ver Jocelyn com a barriga já crescida. Elizabeth mentira; achava as mulheres grávidas muito fofas. E ao ver os olhos brilhantes da cunhada, sentiu uma pontinha de inveja. Não porque toda atenção estava centrada na esposa de Edward, mas porque Jocelyn tinha algo que era apenas seu e de seu marido, algo que unia os dois. Algo que parecia impossível a Elizabeth visto que nunca consumara seu casamento. Todos exigiam dela um herdeiro, quando o próprio Ciel não fazia questão disso. E como conseguiria um filho se seu marido jamais a tocara? E todos terminavam a culpando por isso. Quem foi que determinou que a mulher é a culpada quando um casal não tem filhos? Que desculpa ela poderia dar?

Quando soube que o filho de Edward e Jocelyn havia nascido, Elizabeth fez questão de visitá-los. Como Ciel tinha que levar o relatório do último caso à rainha, a loira fez a visita sozinha, acompanhada por Sebastian.

– Quando voltarem da casa de Edward, vocês deverão me encontrar no escritório da fábrica. Da rainha eu pegarei um coche de aluguel até lá.

– Sim, Mestre. – Sebastian respondeu e entrou na carruagem com Elizabeth. Os dois evitavam conversar, como sempre.

Ao chegarem à mansão de Edward, na cidade, não encontraram apenas a família, mas muitas mulheres que foram convidadas para um chá de boas vindas.

– Não sabia que estava em Londres, querida irmã, teríamos enviado um convite.

– Acabei de chegar, não precisa se justificar. Recebi seu postal anunciando o nascimento.

– E onde está o Conde Phantomhive? – perguntou Lady Lenora olhando para Sebastian parado à porta.

– Meu marido tinha negócios a resolver. Estamos só de passagem.

Elizabeth ficou encantada com o pequeno Herdeiro Midford. Sim, nascera homem. Elizabeth pretendia não se demorar, mas no fim, antes que conseguisse sair dali, a conversa se bandeou justamente para o ponto que ela tanto temia.

– E a condessa, quando terá o seu? – perguntou inocentemente Marie Worsley. Foi uma surpresa não ter sido Frances, talvez a mãe tenha cansado de questionar a filha.

Elizabeth abriu a boca para dizer qualquer desculpa, mas foi interrompida por Lady Lenora.

– Depois de tanto tempo, é estranho ainda não ter um filho.

– Talvez Elizabeth não queira perder o corpo que tem agora. – Lady Kent comentou sorrindo.

– Ora um filho vale o sacrifício. – Jocelyn declarou.

– E se vale. Amo meus dois meninos. – completou Marie.

– Oh! Depois de três meninas finalmente tive um filho homem – Lady Kent suspirou. Meu marido já estava preocupado. Sabe, ele já está com a idade bem avançada. Se morresse sem um herdeiro...

– O conde não se preocupa com isso Elizabeth? Todo homem deseja um herdeiro e se você não puder dar um? É realmente preocupante. Já foi ao médico? Pode ser que você seja estéril.

Todas olharam para Elizabeth com apreensão. Lady Lenora comentou não por preocupação, mas por malícia. Ser estéril era uma desgraça terrível para uma mulher. Uma esposa infrutífera era uma esposa sem valor. Diante de toda aquela pressão, Elizabeth se ouviu falando o que não pretendia, mas desejava que fosse verdade.

– Eu não pretendia contar ainda, mas acho que estou, finalmente – todas gritaram, até Frances. – Ciel e eu não viemos só a negócios, mas para visitar um médico também.

– Oh! Isso é maravilhoso, Elizabeth! – exclamou Jocelyn.

– Como é que é? Que história é essa de grávida? Como isso foi acontecer?! – Edward sobressaltou-se da cadeira, até então fingira não prestar atenção na conversa das mulheres.

– Homessa, Edward! Exatamente como aconteceu o seu. – falou Frances abraçando a filha. – estou tão feliz, Liz, querida. Terei netos dos meus dois filhos.

– Acalmem-se, não tenho certeza...

– Suas regras estão atrasadas há muito tempo?

– Seus seios estão doloridos?

– Tem se sentido inchada?

Elas foram jogando várias perguntas e Elizabeth foi apenas confirmando, sem saber se isso comprovava alguma coisa de fato, mas as mulheres já estavam convencidas.

Elizabeth retribuiu os sorrisos e agradeceu as parabenizações.

– Que bom, filha. Demorou tanto que estava achando haver algo de errado – Frances confessou a filha ao despedir-se dela no portão.

Quando saiu de lá, caminhou silenciosamente ao lado de Sebastian que a encarava sem dizer absolutamente nada. A carruagem começou a andar, levando um intrigado Sebastian e uma Elizabeth lívida.

– Peça para parar aqui. – Elizabeth ordenou, quando estavam já bem afastados da mansão.

A loira respirou profundamente e olhou pela janela. Algumas crianças, filhos de operários, corriam pela rua de paralelepípedos. Um jovem casal passeava com um carrinho de bebê. Elizabeth tentou segurar, mas toda aquela frustação foi crescendo em seu peito até se derramar por seus olhos. Não queria chorar na frente de Sebastian. Não na frente dele. Mas não conseguiu aguentar. Aquela dor terrível esmagava seu peito de tal forma, que chegava soluçar em seu pranto. Sentia vontade de arrancar seu coração fora. Era como se tudo que ignorara, tudo que tentara manter preso tivesse fugindo de dentro de si. Naquele momento ela percebeu que nunca seria uma esposa de verdade. Que nunca teria um marido de verdade, nem um filho a quem cuidar e amar. Morreria sozinha. E tinha plena consciência de que ela mesma se colocara naquela situação.

– Vai... Pode falar... – sua voz era entrecortada pelo choro.

– Milady?

– Pode dizer... Eu sei, essa foi a maior tolice que eu já fiz. Coloquei tudo a perder com essa mentira. O que eu direi depois... serei motivo de chacota. Pode rir se quiser.

– Não farei isso.

– Eu o amo tanto, tanto... Eu faria qualquer coisa pra ficar perto dele, mas não estou mais aguentando isso. Dói muito tê-lo tão perto e senti-lo tão longe. Eu só queria que ele me amasse. Eu odeio você, sabia?

Sebastian entregou um lenço à mulher deixou que ela chorasse até que se sentisse melhor.

– Sebastian, não deixe que ele perceba que eu chorei.

– Como desejar Milady.

– O que eu vou fazer agora?

– Para tudo dá-se um jeito.

E a carruagem seguiu para a Companhia Funtom.

Notas finais do capítulo
É isso.....eu tinha prometido esse cap pra semana q vem, mas como dividi, quis postar logo. Percebi pq geralmente não gosto muito do captulo quando o posto. eu tenho que lê-lo várias vezes pra ver se tá tudo ok, e isso cansa, não sabem como. Bom....espero que tenham gostado e qualquer dúvida, me perguntem.




(Cap. 21) Os pecados do Passado – Parte III

Notas do capítulo
Olá ^^/ Há quanto tempo, né? Primeiro, desculpa a demora. Gostaria de agradecer a Hannah Rivaille, Lady Caroline, Mizaki Phantom, Bolengo, Catarina MeMs, Cherie Fox, Flávia Elric( que deixou um comentário que fez o meu dia quando estava desanimada), Lady Kyary Michaelis, Pure Blood, Bea Rowling por favoritarem. Super obrigada a todos que deixaram comentário. Avisos: Lembrem-se que neste cap Ciel tem 22 anos. Se depois de lerem estiver muito confuso e não tiverem entendido nada, me perguntem que eu explico. Se encontrarem algum erro de escrita, ortografia, concordância sei lá do quê, me avisem OK? Depois de um cap meloso e cheio de lemon (nem tanto né?) as coisa tinham que começar a desandar.... Enredo fictício, qualquer semelhança com a vida real é mera coincidência. Foi o melhor que eu pude fazer. Espero mesmo que gostem. 11 mil palavras !!!! o Nyah diz " não poste cap com mais de 4 mil" ...não dá Nyah, é impossível!!!! Boa leitura.

Capitulo 21: Os pecados do Passado – Parte III: de 1897 a 1898

Num galpão escuro e frio, na parte mais distante e abandonada de East End, um homem, miserável em todos os sentidos, acreditando não ter mais alternativas em sua vida miserável, terminava de montar o altar para um ritual. Fez exatamente como mandava o livro negro e começou a invocar um demônio. O cheiro de vela derretida se espalhava pelo lugar, misturado ao ar frio e poluído. Postando-se no meio do pentagrama, cortou o próprio pulso e deixou o sangue pingar. Não sabia se daria realmente certo, mais continuou a chamar a criatura. Depois de algumas horas, nada havia acontecido. Tomado pela cólera, começou a destruir todos os objetos do ritual.

Repentinamente, um buraco surgiu na parede, e línguas de fogo escaparam por ele. As chamas correram em volta do homem, alcançando o teto. Não tinha como fugir. Ele sentia um calor insuportável e o cheiro de enxofre enchia suas narinas.

– O que você deseja, humano? – a voz grotesca saiu de dentro do buraco fazendo o homem tremer de pavor.

– E-eu, eu... – gaguejou sem saber o que fazer até que as palavras se desprenderam de sua garganta. – Eu quero ser rico. Rico como o infeliz que tirou de mim tudo o que eu tinha.

O demônio riu. Uma gargalhada apavorante. O homem viu as chamas tomarem uma forma humanoide e começarem a tremular ao redor dele; não havia rosto, apenas fogo.

O demônio riu, mas estava irritado. Observava a criatura deprimente que tremia da cabeça aos pés diante de sua presença. Que perda de tempo. O humano cheirava a bebida barata e a vômito. Não passava de um sacrifício sem valor. Era fraco. Entretanto aquela criatura patética poderia ser útil. Pelo que aparentava era do tipo facilmente manipulável. Talvez pudesse moldá-lo a seu bel-prazer.

– Sempre tão previsíveis. Vejo que seu coração é ambicioso. Isso poderá ser aperfeiçoado com o tempo. Por que só ter dinheiro, se você pode ser o mais rico de todos? Por que só ter poder, quando você pode ser o homem mais poderoso da Inglaterra? Por que subjugar apenas um homem se você poderá ter todos aos seus pés?

– Poderia fazer isso?

– Se eu posso? Há! Ora, você me subestima. Eu tenho o poder necessário para lhe conceder isso e muito mais. Mas terá um preço.

– Minha alma.

– E o que eu haveria de fazer com ela?

– Mas você não é um akuma? Aqui diz que akumas exigem...– indagou pegando o livro no chão e o folheando para ver se fizera a invocação correta.

– Sou um demônio. Chamaste um demônio, não foi? – vociferou e incendiou o livro nas mãos do outro. – Que importa de que raça sou? Vai querer realizar seus desejos ou prefere morrer na miséria?

– Sim! Quero dizer, não. Quero seus serviços.

– Perfeito. Mas... Eu quero um favor em troca – falou passando os dedos de fogo pelo rosto do homem, chamuscando a barba malfeita do humano.

– E o que seria?

– Eu farei de você o homem mais poderoso da Inglaterra; mas para conseguir isso, você deverá tirar um inimigo do caminho. Depois que fizer isso, tudo o que desejar será seu.

– Que inimigo?

– O Cão de Guarda da Rainha. Phantomhive.

– O comerciante de brinquedos? Mas ele não é meu inimigo, não. Nunca nem cheguei perto d...

– Silêncio! Eu direi quem você deverá tirar do tabuleiro e você o fará. Com sua ajuda conseguirei minha vingança.

– Não pretende me enganar, não é, demônio? Você tem que fazer o que eu pedir.

– Oh, não. Tenho grandes planos para você. Mas você deve me libertar daqui. Eu preciso de uma forma completa.

– Como faço isso?

– Eu direi como...

O demônio começou a dar as instruções, as quais foram ingenuamente seguidas pelo homem. O humano desenhou todos os símbolos e realizou o novo ritual ensinado pelo demônio. Começou a pronunciar as palavras desconhecidas. Tão logo terminou de falar tudo o que o demônio lhe ensinara, as chamas de fogo se transformaram em nuvens negras e densas que produziam barulhos estrondosos como trovões. Pareciam capazes de destruir o lugar. O homem não conseguia enxergar nada além da espessa massa negra. Ele gritou pedindo socorro, mas era inútil. Sentiu garras percorrerem sua pele e mãos abrirem sua boca a força e algo que parecia brasas ardentes invadir sua garganta, sufocando-o. A densa nuvem foi entrando no homem até que não restasse mais nem uma partícula de escuridão fora dele. Ele apertou o estomago como se fosse regurgitar, entretanto não o fez. Empertigou o corpo e apertou os olhos ardentes. Testou o movimento das mãos. E sorriu satisfeito.

– Primeiro, vamos encontrar meus leais súditos.

.

.

Assim que a carruagem chegou a Funtom Company, Ciel entrou e bateu a porta com tanta força que os cavalos relincharam de susto. Quando o veículo começou a se mover, Ciel reparou nos olhos vermelhos de Elizabeth.

– Andaram brigando de novo? – o rapaz ralhou com os dois. Reparando que Ciel estava muito irritado, o mordomo e a mulher preferiram permanecer em silêncio.

Quando voltaram para a mansão, Ciel continuou irritado, mas não quis dizer a razão. Sebastian até preparou um chá para acalmá-lo. Quando os ânimos do jovem pareciam ter se acalmado um pouco, Elizabeth tentou conversar com ele. O conde parecia disposto a revirar todos os papéis do escritório a procura de sabe-se lá o quê.

– Ciel, eu posso falar com você? – Lizzy perguntou torcendo as mãos.

– Claro. Vai falando que estou te escutando – e continuou a revirar as gavetas do escritório e a examinar papéis das caixas de arquivos.

Elizabeth, apreensiva com a atitude do marido, olhou sobre o ombro, para Sebastian, que estava na porta de entrada. O mordomo deu de ombros e fez um gesto com as mãos para que ela dissesse logo. Não parecia ser o momento certo. Mas havia a chance de Ciel nem prestar atenção no que ela dizia. Então ela começou a contar tudo o que havia ocorrido na casa de seu irmão e o que ela havia dito sem querer. E Ciel continuou a olhar as pastas de papel. “Acho que ele não ouviu nada” foi o que Elizabeth pensou.

– Você disse o quê?! – o rapaz parou subitamente o que fazia.

– Exatamente o que ouviu – a voz saiu vacilante.

– Será possível que eu estou cercado de irresponsáveis?! Como pôde dizer que estava grávida?

– Encurralaram-me – falou nervosa –, Lady Lenora insinuou que eu sou estéril. Eu fiquei assustada, acabei falando sem pensar. Não fiz por mal.

– Deixasse Lenora dizer o que quisesse. Que praga de mulher fofoqueira!

– Não compreende o problema, Ciel. Se saírem por aí dizendo que sua esposa é estéril e que os Phantomhive não possuem um herdeiro será vergonhoso para mim. Vão dizer que eu sou uma esposa inútil, sem valor. Isso não é justo, Ciel. Não é. Você sabe que tudo o que faço, faço pensando em não prejudicá-lo.

– Eu sei que você é capaz de superar isso. Basta dizermos que foi um engano, sei lá... – falou coçando a cabeça, parecia agoniado. – Pense em alguma coisa.

– Não é só isso – Sebastian os interrompeu. – Durante o chá, ouvi Lady Lenora questionando sobre as possíveis razões que poderiam impedir que vocês dois tivessem um filho. Ela insinuou a esterilidade de sua esposa, uma possível amante sua e... Insinuou que talvez você não gostasse da companhia feminina.

– Mas que inferno! O que diabos essa mulher quer com as nossas vidas? Deveria mandar jogá-la da ponte.

– Lenora se diverte espalhando a discórdia – comentou Elizabeth. – Não é a primeira vez que ela insinua esse tipo de coisa, e se as pessoas começarem a acreditar?

– Se ela fosse a única a fazer esse tipo de comentário seria fácil de resolver – continuou Sebastian –, mas sabe que ela não é a única.

– Depois do escândalo causado pela prisão do senhor Wilde as coisas ficaram mais delicadas para pessoas como vocês?

– Como assim pessoas como nós, Lizzy?

– Eu não quis ser rude, mas você me entendeu.

– Como é possível que alguém saiba sobre nós? Somos discretos, não somos?

– Até demais – comentou o mordomo. – Mas as pessoas não estão preocupadas se é verdade ou mentira, se um boato como esse se espalhasse...

– Sim, eu sei.

Ciel sabia muito bem o que poderia acontecer se seu adultério viesse a público, e pior, se descobrissem que seu amante era outro homem. Não seria apenas o seu status de nobre honrado que estaria ameaçado. Ciel odiava aquela sociedade onde tudo era proibido e ao mesmo tempo permitido, contanto que ninguém soubesse.

Ciel sabia muito bem quem eram todos os homens que posavam de maridos honrados com suas esposas castas e puras em casa e se divertia com prostitutas de luxo nos bordéis de East End, sabia também quem eram os que visitavam secretamente as ainda mais secretas casas de prostitutos. Quem eram os tipos de pessoas que prezavam tanto a pureza da virgindade, que mandavam sequestrar meninas inocentes para roubar-lhes a primeira vez. Quantos desses falsos moralistas ele mesmo já não dera um fim definitivo? Era esse mesmo tipo de pessoa que costumava ser o primeiro a apontar os erros dos outros e jogar na fogueira quem fosse diferente. No entanto, sendo o Cão da Rainha, Ciel não podia se expor dessa maneira. Se fosse capturado ou preso por alguma razão, o problema seria inteiramente seu; como Lizzy lembrou uma vez, a rainha não interferiria. E não interferiria mesmo.

Ciel podia até ser casado com uma mulher e se deitar com um homem, mas pelo menos havia verdade no relacionamento entre os três. Cada um tinha plena consciência das consequências de suas escolhas e concordavam com isso.

Ciel sentou-se apoiando os cotovelos na mesa do escritório, mergulhando todos os dedos nos seus cabelos. Olhava para baixo, para um documento, que parecia ser o que ele estava procurando. Pensava em toda a situação. Parecia que o universo estava de complô para que ele chegasse a esse ponto. Mas por quê?

Elizabeth e Sebastian ficaram olhando para Ciel, que parecia pensar. Depois de algum tempo em silêncio, o conde falou:

– Talvez esse deslize da Elizabeth tenha vindo em boa hora. Talvez não seja uma má ideia ter um filho.

– Não é?! – a mulher perguntou surpresa.

– Não é?!! – o mordomo perguntou mais surpreso ainda.

– Isso – Ciel respondeu. Mulher e mordomo se entreolharam, cada um estranhando a reação do outro. Elizabeth pareceu aliviada e alegre; Sebastian pareceu levemente irritado.

– Tem certeza disso, Mestre?

– Não. Eu não nasci pra ser pai de ninguém. Eu não tenho condições de ser pai de ninguém. Crianças me irritam! Elas são faladeiras e bagunceiras. Isso com certeza não estava nos meus planos.

– Então?

– Mas eu preciso ser...

– Por quê?

– Porque aquele maldito contrato que eu assinei me obriga.

– Que contrato? – indagou Elizabeth.

– O da rainha. Aquele que Sebastian falou que estava tudo bem em eu assinar.

– O quê?

– Eu disse, Mestre, que você poderia continuar com sua função como antes, de minha parte não haveria objeção, como de fato nunca fiz. Mas foi o Mestre quem leu contrato inteiro. Você disse que concordava com tudo – isso era verdade. Ciel não ligou muito para o que o contrato dizia porque achava, na época, que morreria antes de completar quatorze anos.

– Só que agora eu não posso mais me afastar do cargo nem que eu quisesse.

– Explique melhor, Mestre.

– Depois que vocês partiram para a casa de Edward, eu fui ao encontro da rainha. Mas ela não estava. Grey e Phipps me aguardavam...

– Que milagre aparecer sem seu ilustríssimo mordomo a tiracolo.

Charles Grey comentou ao ver Ciel entrar na sala. Não era segredo que Ciel e Grey não se davam lá muito bem, mas como cavalheiros mantinham a cordialidade. O conde esperava encontrar a rainha, mas pelo visto ela mandara apenas a dupla de mordomos.

– Aqui está o relatório do último caso – Ciel jogou a pasta sobre a mesa.

– Aqui está o pagamento – Charles Phipps entregou uma pequena bolsa e se postou ao lado da mesa, apontando a cadeira para que Ciel se sentasse.

– Infelizmente – continuou Grey – a rainha está muito adoentada e não pôde comparecer, no entanto, ela nos deixou encarregados de alguns assuntos importantes que ela gostaria de tratar com você. Acredito que já podemos adiantar o primeiro tema. Uma dúvida em relação a você tem preocupado Sua Majestade: quem será o seu sucessor?

– Como assim?

– A rainha está morrendo e ela se pergunta se os netos e o filho dela, Eduardo, contarão com o apoio dos Phantomhive após a sua morte.

– Mas é claro; não é esse o meu dever?

– Exato; seu dever. Mas e se você vier a morrer, quem apoiará o rei se você não tem herdeiros? Quem levará adiante o seu legado? Poderíamos escolher alguém para substituí-lo, mas sabe o risco que corremos ao escolher outra família para o cargo de Cão de Guarda da Rainha? Na verdade, não podemos escolher outra. Poderemos estar jogando a Inglaterra aos lobos. Apesar de todos os seus rompantes de desobediência, a rainha confia em você.

– Como se a própria rainha já não tivesse tentado me jogar no fogo.

– Isso foi a “outra” rainha.

– E as vezes que foram “esta” rainha?

– Você fez por merecer todas as punições, não fez?

Grey se levantou e começou a dar a volta na mesa. Tirou a espada da bainha e pareceu admirar a lâmina por alguns segundos, depois a colocou sobre a mesa, ao lado de Ciel. Ciel não sabia se Grey pretendia ameaçá-lo ou mostrar que não queria encrenca.

– Por que estamos tendo essa conversa exatamente?

– A rainha quer garantir um reinado tranquilo para o filho e a segurança da população, isso depende muito da continuidade do trabalho da sua família, conde. Portanto – Grey se inclinou e sussurrou para Ciel – você pode até se divertir mais com caras altos e morenos do que com sua linda esposinha, mas, sendo você o Cão da Rainha, os interesses da Inglaterra devem vir primeiro que os seus.

Ciel o encarou atônito, depois olhou para o rosto de Phipps para ver se este havia escutado. Phipps permanecia parado sem dar sinal de que ouvira alguma coisa. Grey começou a gargalhar.

– Confesso que era só uma suspeita minha, mas pela cara que você fez, percebo que eu estava certo – Grey declarou com um sorriso maldoso ao sentar-se sobre a mesa. – Deve estar se perguntando como eu descobri. Tenho um faro pra essas coisas. Além disso, nossa função envolve conferir se você está cumprindo seu trabalho; então espiamos aqui e alí... Não é verdade, Phipps?

– Não sei do que está falando.

– Não me ignore desse jeito, é claro que você sabe! – irritou-se o secretário, depois voltou a olhar para Ciel, adquirindo o tom de antes. – Não se preocupe, seu segredo está seguro comigo. Não contarei nem para a rainha. Apenas apresse-se para conseguir um herdeiro.

– Que ideia estapafúrdia! Estou perdendo meu tempo aqui. – Ciel levantou-se ofendido, pegando seu chapéu e a bengala.

– Qual o seu problema Conde. Acho que essa é a melhor ordem que você já recebeu até hoje. Não é todo dia que alguém recebe uma permissão Real para fornicar. – Grey concluiu em meio a mais gargalhadas.

Ciel irritou-se mais ainda, era óbvio que Grey estava fazendo troça com sua cara.

– Isso é um absurdo! Não sou obrigado a ter filhos só porque a rainha exige.

– Na verdade é sim. Agora estou falando sério – o homem mudara o tom repentinamente, falando com uma seriedade preocupante. – O contrato que você assinou com a rainha era mais que um contrato, era uma maldição. Ele continha termos invisíveis aos olhos humanos.

– O quê? Isso é contrato insidioso.

– Eu chamo de medidas desesperadas. Ao assinar o contrato, você colocou sua família e toda a sua descendência em submissão, em primeira ordem, a Corde dos Serafins e, em segunda ordem, ao rei ou rainha da Inglaterra. Exigia também que seus herdeiros assumissem sua função depois de você. Ou seja, você é obrigado a proteger o Império. Além disso, a rainha está preocupada com o destino de sua família, por isso ela exige que você apresente um herdeiro o quanto antes.

– Que absurdo você está dizendo? – Ciel se irritou com aquela maluquice toda. A rainha só podia estar caduca. Mas percebendo as expressões de seriedade de Phipps e Grey, uma sensação estranha lhe perpassou. – Por que essa preocupação repentina com o fato de eu ser ou não o último Phantomhive?

Grey e Phipps se entreolharam de modo estranho. Ciel notou que Phipps disfarçadamente olhou para a porta e para a janela antes de fazer um sinal para Grey continuar. Quando Grey falou, sua voz saiu muito baixa, mas firme.

– O contrato não amaldiçoou somente você, mas a coroa também. Assim como você não poderá nunca mais abandonar seu cargo, nenhum outro rei ou rainha poderá destituí-lo do cargo de Cão de Guarda. Temos uma nova missão para você, Phantomhive. O Império está em perigo.

– Me diga quando não esteve?

– Mas dessa vez, o inimigo não pode ser morto pela polícia. Soubemos por meio de uma fonte confiável que alguém está tramando contra o Império e contra o Cão da Rainha. Acredite Conde Phantomhive, você precisa de um herdeiro, e nós precisamos dos Phantomhive. Faremos uma visita a sua casa no final da semana. Há alguém que quer falar com você. Lá, explicaremos melhor. Até lá, cuidado!

Quando Ciel terminou de narrar seu encontro com a Dupla Charles, Sebastian ficou pensativo. Era muito estranho essa repentina insistência para que Ciel tivesse um filho. O que eles realmente pretendiam ao exigir isso de seu mestre? A ideia pareceu estranha e sem propósito.

Um primogênito Phantomhive.

De certa forma, Ciel era o último Phantomhive. Elizabeth também o era agora, por meio do casamento. Mas Ciel era o último a herdar o nome e o sangue. Porque a preocupação em dar continuidade à família? Sebastian não ligava para isso, só lhe interessava Ciel, mas essa novidade lhe pareceu mais do que estranha, suspeita. Pelo visto essa mesma dúvida se passava na mente do conde. Até Elizabeth, que de início ficara feliz com a possibilidade de ter um filho, pareceu estar estranhando a situação também. Sebastian não gostou nada de saber que os Phantomhive deveriam se sujeitar a Corte dos Serafins. E quem estaria ameaçando a vida de seu Jovem Amo?

– O que pretende fazer? – indagou finalmente o mordomo.

– Eles virão no sábado para dar explicações. Dependendo de qual for a razão de todo esse disparate... Bem, então saberei se teremos um filho ou não. Se você concordar com isso, lizzy; é claro.

Elizabeth sorriu um pouco sem jeito. “Até parece que ela não concordaria” pensou Sebastian. Quando Ciel achou a cópia do contrato, Sebastian pôde lê-lo. Realmente havia um tipo de segundo contrato oculto sobre as letras do outro, somente com seus olhos demoníacos conseguiu ler. O texto estava em um dialeto de aramaico antigo, língua usada entre anjos e humanos há muitos, muitos anos. Depois daquele dia, Sebastian sentiu que haveria problema pela frente. Eles só puderam aguardar até que chegasse o sábado.

.

A carruagem dos secretários da Rainha chegou por volta de três horas da tarde de sábado. Grey dissera que alguém gostaria de falar com Ciel, no entanto vieram apenas ele, Phipps e John Brown, este último permaneceu na carruagem, não quis entrar.

Todos se reuniram na sala de visitas e Grey começou a falar.

– Nos últimos anos, percebemos certa movimentação dentro e fora da Inglaterra. Não alarmante, mas de certa forma, desagradável. Você já deve ter percebido também, afinal, recebeu mais missões nesses últimos dois anos do que em todos os anos anteriores. Parece que tem alguém tentando nos manter ocupados, não é?

– Nos manter ocupados?

– Sim, veja. Durante o reinado da rainha Vitória a Inglaterra cresceu muito, tanto em território, como em economia e tecnologia. Mas você, assim como o resto do mundo, já deve ter notado que esta era está para acabar. A Rainha, que só vive adoentada, não durará por muito tempo. E quando isso acontecer, a morte da rainha, teremos algumas mudanças. Muitos países estão doidos para passar a perna na Inglaterra e tomar nosso posto. Cá entre nós, nossa aliança com a Itália e a Alemanha não anda mais tão amistosa assim. Esses países ainda estão insatisfeitos com a divisão dos territórios da Ásia e da África. Estamos enfrentados alguns problemas sérios nas colônias da Índia e da África.

Eduardo, nosso príncipe, é um pacifista, tem tentado controlar as coisas e imagino que seguirá esse plano quando assumir a coroa. Mas sempre que resolvemos uma questão outra surge e tem piorado agora que a Rainha está cada vez mais ausente. Literalmente tem explodido problemas em todos os cantos, por isso você tem recebido tantos casos. As alianças estão fracas e tem alguém na surdina fazendo de tudo para rompê-las de vez.

– Com que propósito?

– Uma palavra: guerra.

– Guerra?! Impossível! Ninguém teria coragem de desafiar a Inglaterra num conflito assim.

– Há muito poder em jogo. E esse comentário corre em segredo entre as nações. Ninguém quer admitir e preferem manter as alianças por enquanto, mas você acha que eles já não estão se preparando as escuras? É claro que estão! Eles estão investindo mais do que nunca em armamento. Por que fariam isso se todo mundo está em paz? Alguém está manipulando as nações, tentando, de uma forma ou de outra, jogar um país contra o outro?

– Nos últimos casos que resolvi estavam em jogo as boas relações entre a Inglaterra e os demais países. Os casos antigos costumavam ser apenas de problemas internos do país.

– Não parece haver alguém tentando criar uma desavença?

– Sim, de fato. Mas se uma guerra acontecesse muita gente lucraria com isso, incluindo a Inglaterra.

– Você sabe bem disso, não é? Sabemos que está envolvido num projeto de produção em massa de armas, juntamente com comerciantes alemães e norte americanos.

– Como sabe disso? Esse projeto é altamente sigiloso, como conseguiu essa informação?

– Nada permanece oculto por muito tempo. Não se preocupe. Como eu disse, a rainha confia em você, embora essa sua atitude pareça muito suspeita no presente momento. Mas não pretendemos perder a aliança com os Phantomhive. Sabemos que você possui aliados na Alemanha, na França, na China, no Japão, na América e até na Austrália. Isso poderá nos ser útil, caso as coisas se intensifiquem. A Alemanha fala em unir todos os povos germânico em um único império, a Rússia quer juntar os povos eslavos em único império também, se conseguirem isso, terão poder o suficiente para enfrentar o Império Britânico.

– Se começasse uma guerra, eu não poderia impedi-la. Ainda não entendi como eu entro nisso e por que tenho de ter um filho.

– Você tem controlado as coisas. Depois da rainha e do Parlamento, você é a pessoa de maior poder. É você quem atua por baixo dos panos limpando a sujeira e eliminando os galhos podres. Quem quer que esteja fazendo toda essa confusão, vai tentar tirar você do caminho. Além disso, não se trata apenas de jogo político. Sua família é a única “habilitada” para casos anormais.

– Habilitada? Casos anormais?

– Casos envolvendo o sobrenatural. Bom... Acho melhor você se segurar na poltrona, essa informação pode ser surpreendente demais. Você pode até não acreditar, mas anjos e demônios realmente existem.

– Não diga – Ciel falou sem disfarçar o sarcasmo, que Grey interpretou como incredulidade da parte do conde, pois não fazia ideia de que naquele exato instante estava na companhia de um demônio em trajes de mordomo.

– Estou a falar sério. Como eu disse antes, o contrato coloca você, e o Império também, em submissão a Corte dos Serafins. Caso não saiba, são anjos, de cuja ajuda precisaremos no futuro. Isso tem haver com a história da sua família. Mas essa parte não serei eu a explicar.

Ciel olhou para Phipps, mas este permaneceu quieto e calado. Grey tirou do interior de seu casaco algo que parecia ser uma miniatura de flauta, como se fosse um apito dourado com uma longa correntinha.

– Eles têm de ser invocados, sabe? – comentou levando o instrumento a boca.

Quando Sebastian olhou para o objeto nas mãos do humano, logo o reconheceu. Era uma Flauta Celeste.

– Você não vai trazê-los p... – o mordomo exclamou, surpreendendo todos com sua intromissão repentina.

Mesmo sendo tão rápido, o mordomo não conseguiu impedir que Grey assoprasse o instrumento. Grey assoprou com tanta força, que Ciel e Elizabeth esperaram ouvir um som alto e agudo, mas não ouviram som nenhum. Diferente do casal, o mordomo caiu sobre os joelhos, a meio caminho de Grey; tapando os ouvidos, que eram agredidos pelo som emitido pelo objeto. Sua forma humana tremulou por alguns instantes.

Phipps e Grey olharam para o mordomo, espantados.

– Sebast... – Ciel começou a falar, mas se interrompeu ao sentir o chão tremer levemente. Sentiu o ar ficar mais pesado e uma leve brisa girar pela sala ao mesmo tempo em que sentia uma fragrância estranhamente agradável. Assustou-se ao olhar para Lizzy e perceber que a pele dela começava a brilhar. Elizabeth parecia mais assustada ainda.

O conde sentiu Sebastian segurar sua mão e puxá-lo para longe da mulher. O corpo de Lizzy foi brilhando cada vez mais, até que ninguém conseguisse enxergar nada. Quando a luz se dissipou e Ciel abriu os olhos, viu a sua frente, não mais Elizabeth, mas outra mulher.

– Meu nome é Iridel. Vigésimo primeiro anjo mensageiro da Corte dos Serafins. Estou aqui para representar a Corte. Que sejam abençoados por receber-me.

Ela era alta. Tinha longos cabelos de um branco sobrenatural. Seus olhos brilhavam como prata derretida. Sua pele reluzia. Sua vestimenta era branca com uma couraça dourada. Sua voz era suave como seda. Ciel soube naquele momento que estava olhando para um anjo. Mas este era diferente de Ash e Angela, imensamente diferente. A figura a sua frente tinha algo encantador e surpreendente.

– Há quanto tempo Iridel; vejo que não mudou nada – a voz de Sebastian pareceu acordá-lo de seu transi momentâneo.

– Você, pelo contrário, tem uma nova aparência. Sebastian; é assim que devo chamá-lo agora?

– Sim, eu prefiro. E como vai Ezael? – Sebastian indagou como se fossem velhos amigos, mas Ciel podia sentir uma certa tensão por parte do akuma. Como a que havia entre o akuma e os shinigamis, só que maior.

– Vigiando os seus passos. O Serafins ainda não esqueceram os estragos que você fez no passado, você ainda está sob vigilância. Embora suas atitudes recentes tenham sido muito ambíguas; só me pergunto se pelos motivos corretos – os olhos do anjo deslizaram suavemente para o jovem homem ao lado do akuma, Ciel. Os olhos prateados fitaram o penetrante olho azul. Depois, os olhos de Iridel desceram para as mãos do rapaz e viu que Sebastian segurava firmemente uma delas. – Não tenha medo, akuma. Não vim para levar seu humano. O Contrato de Fausto é fidedigno, portanto a alma é legalmente sua. Além disso, ele possui livre arbítrio, se escolheu ficar com você, não posso interferir.

– Agradeço sua justiça – Sebastian cumprimentou movendo levemente a cabeça. Ciel pôde sentir que a presença daquele anjo deixava Sebastian desconfortável. O conde nunca vira o mordomo agir assim.

– Não agradeça. Não estou contente com isso. Mas a escolha é de vocês.

– Você a conhece?! – Grey perguntou surpreso, afinal estava vendo o anjo pela primeira vez, como podia o mordomo já conhecê-lo? – Você... Você é um anjo também?

– Não me insulte – disse o mordomo olhando para o secretário real com furiosos olhos vermelhos e pupilas em fendas.

– DEMÔNIO! – Grey gritou apontando a espada para o peito do mordomo.

– Não vai enfiar a espada no meu mordomo novamente, vai senhor Grey? Então abaixe isso e cale-se – Ciel voltou-se para Iridel. – Onde está Elizabeth?

– Está aqui – colocou a mão sobre o peito –, mas você apenas vê a mim. Não se preocupe, ela não sofrerá nenhum dano.

– Mensageiros não podem vir a Terra em sua forma plena, precisam de um receptáculo para isso. Em outras palavras, Iridel está possuindo o corpo da senhorita Elizabeth – explicou Sebastian, encontrando mais um motivo para ter inimizade com a jovem Midford. Receptáculo de anjo; era só que faltava.

– Vai me explicar o que está acontecendo? – Ciel perguntou a Iridel.

– Mesmo estando em um receptáculo, não posso ficar por muito tempo. Então, tentarei resumir. Quando estas eram terras sem lei e sem rei, os demônios causavam todo tipo de terror e destruição. Os humanos invocaram uma Ordem Angélica, a Corte dos Serafins e pediram ajuda. A ajuda foi concedida. Por séculos, a Corte lutou ao lado dos humanos contra os demônios, no entanto, por mais que lutassem isso parecia não resolver o problema. Foi quando decidiram criar uma barreira protetora para o domínio humano. O Domo. Os demônios foram banidos para o seu próprio domínio e nós para o nosso. O que vocês humanos erroneamente chamam de Inferno e Céu. Entretanto, o Domo impedia apenas a passagem de forças mais poderosas, criaturas menores como Mensageiros e demônios do caos poderiam passar, mas destes os humanos poderiam se proteger sozinhos.

– Demônios do caos?

– Os demônios do caos se subdividem em várias espécies. São demônios que se alimentam das fraquezas humanas, como raiva, inveja, sofrimento, luxúria – explicou Sebastian.

Iridel prosseguiu:

– Mas alguns humanos tinham um interesse especial em determinada raça de demônios. Os akumas.

– Porque são demônios controláveis e podiam conceder desejos, por assim dizer – raciocinou Ciel.

– Exato – continuou Iridel. – Os akumas são umas das poucas raças demoníacas que conseguem assumir a forma humana sem precisar possuir um corpo humano. Uma vez libertos da barreira, eles podem transitar livremente entre os dois domínios. Muitos akumas conseguiram trazer para cá outros demônios. Assim o caos se instalou novamente. Os Serafins não poderiam voltar, se voltassem, sua poderosa presença romperia a Domo e criaturas mais perigosas entrariam. Deixamos os humanos em segurança e eles se atiraram no fogo por conta própria. Mas havia humanos bons na Terra. Foi quando a Corte escolheu cinco famílias diferentes para continuar o trabalho de proteger o Domínio Terreno, já que eles não poderiam mais interferir. Isso não só aqui, mas em outros lugares do mundo também. No início, todas as famílias desempenharam bem o seu papel. Com o passar dos anos, as famílias foram se extinguindo, outras se desviaram de seu propósito e a última que restou se aliou a um governo humano, servindo aos propósitos egoístas de um monarca e, atualmente, até mesmo conta com um akuma como ajudante.

– Está dizendo que os Phantomhive eram uma dessas famílias escolhidas?

– Descendem de uma. Por que acha que geração após geração, de um jeito ou de outro, alguém tenta por fim a sua linhagem? E aqui entra a parte que interessa sua Rainha: por anos, tanto sua família como este reino tiveram o apoio da Corte, mas os antepassados desse reino fizeram tantas coisas detestáveis, que os Serafins cortaram os laços com eles. E seu reino ficou a mercê da própria sorte.

– Com sua licença, senhorita Iridel – interrompeu Grey. – Podemos contar essa parte? É que preparamos alguns recursos visuais.

Iridel olhou para o homem de branco mais baixo e sorriu gentilmente. Grey jogou vários papéis sobre a mesa de centro, desenrolou um que parecia conter uma árvore genealógica e apontou para um nome. E continuou a falar:

– O Império perdeu a proteção da Corte antes mesmo da Idade Média, então foram séculos de “se virem como puderem”; mas sua família nunca perdeu tal proteção. Muitos anos se passaram até que... Depois da morte da rainha Ana I, o Parlamento decidiu escolher um rei protestante, por causa da Reforma: o rei Jorge I da Casa Hanôver; tal escolha provocou a união dos tronos do nosso reino com o de Hanôver, o que gerou descontentamento em alguns; mas foi com o neto de Jorge I que começou nosso problema.

“O rei Jorge III participou de muitas batalhas e em uma delas, encontrou um inimigo que estava além de seu poder, um demônio. Não possuímos muitas informações sobre isso, o que sabemos é que ele e seus homens enfrentaram e baniram para o inferno um demônio que vinha causando problemas ao reino por longos anos. Dizem que este demônio o amaldiçoou antes de ser banido e jurou vingança. Não sabemos se foi a maldição ou um coincidente infortúnio do destino, mas o fato é que ele foi acometido por uma terrível doença que lhe impedia de se expor ao sol, lhe fazia ingerir sangue para aplacar as dores e por fim, foi tomado por uma loucura que o levou a morte. Ele mesmo dizia estar amaldiçoado, mas como sua razão estava afetada, ninguém lhe deu ouvidos. E a desavença com o demônio e a maldição foram consideradas desatinos de um moribundo louco. Em 1875, a rainha Vitória recebeu isto de uma fonte confiável."

O secretário entregou a Ciel um pedaço de pergaminho, onde estava escrito:

“Enforque o dono o seu cão com a corrente

Antes que ele lhe devore a destra”

– Como conseguiram isso? – Sebastian perguntou.

– Isso é segredo – Phipps respondeu.

– O que é isso? – Ciel perguntou, relendo a inscrição.

– É uma profecia – Grey continuou. – Ash, que era então o secretário e conselheiro mais próximo a Rainha, a convenceu de que essa previsão falava sobre o Cão da Rainha, que este lhe trairia. Depois, forjou provas de uma traição dos Phantomhive e assim ele conseguiu convencer a rainha Vitória a tentar destruir sua família. Só depois viemos a saber que o “o cão” se referia ao próprio Ash e “ sua destra” se referia aos Phantomhive, ou seja, a profecia advertia a Rainha a se livrar de Ash, pois este tentaria destruir sua “mão direita”, os Phantomhive. Pouco tempo depois de assumir o lugar da verdadeira Vitória, a nossa “nova rainha” recebeu isto.

Ciel recebeu um pergaminho semelhante ao primeiro.

“Quando o cão que vigia na morte adormecer

A Casa Hanôver terá de perecer”

– A família Real! – Ciel exclamou. – A Rainha é a última da Dinastia Hanôver.

– A Rainha teme que com o fim de sua Linhagem, alguém tente algo contra o Império. Por isso, por meio do contrato, ela tentou reatar os laços entre o Império, os Phantomhive e a Corte dos Serafins. Lembra que eu falei que tínhamos um novo caso pra você?

Grey chamou Phipps, que abriu uma pasta de arquivos sobre a mesa e espalhou cinco fotos de mulheres. Ele disse:

– A polícia recebeu a denúncia de cinco desaparecimentos. Essas duas desapareceram há mais ou menos dois meses, essas duas aqui desapareceram há um mês, e esta ultima, há umas duas semanas. Uma semana atrás os corpos das duas primeiras foram encontrados assim – Phipps mostrou a Ciel as fotos dos corpos mutilados, que usavam roupas e maquiagens características de prostitutas. – Apesar da aparência, todas eram mães de família, esposas de operários e estavam grávidas. O fato lembrou um pouco o caso Jack, o estripador, por isso a polícia decidiu não levar nada a público para evitar alvoroço.

– Querem que eu descubra quem é o assassino.

– Não; nós sabemos quem é. Queremos que descubra quem o ajuda, e o pare. Isso veio com o segundo corpo. Não é uma profecia, é uma ameaça.

“Caríssima Vitória,

Seus dias de glória estão chegando ao fim.

Longa vida ao Império Britânico!

Ad mortem fidelis canis!”

“Morte ao leal cão!”. Ciel leu na mente a inscrição em latim. A carta manchada de sangue tinha o mesmo símbolo que marcava suas costas. O mesmo símbolo da seita que Ash e Angela apoivam.

– A Rainha já vinha recebendo ameaças desse tipo com o mesmo brasão, mas esta foi a mais direta, por isso sua saúde se agravou tanto e se recusa a sair em público – falou Grey.

– Porque só estou sabendo disso agora?

– Só recentemente tudo se encaixou. Só agora descobrimos sobre a maldição e sobre o demônio.

– O demônio é um Possessor – Iridel voltou a falar.

– O que é um Possessor? – Ciel perguntou.

– Um demônio que não assume a forma humana, são possuidores de corpos e extremamente cruéis. Este conseguiu de alguma forma entrar no domínio terreno com o auxilio de um humano. Ele precisa ser imediatamente banido de volta, antes que faça algo desastroso.

– Ele quer se vingar dos que o baniram destruindo o Império. Por isso tem colocado uma nação contra a outra. Sabemos que é este demônio, mas não sabemos qual sua aparência, nem onde se esconde.

– Você não tem essa informação, Iridel? – Ciel perguntou ao anjo.

– Infelizmente não. Para trazer demônios ao domínio terrestre é necessária magia negra. Os locais onde é realizado esse tipo de ritual são protegidos por maldições que anulam nossos poderes e impedem a nossa entrada. Não se preocupe apenas com a Rainha, Ciel; lembre-se que ele virá atrás de sua família primeiro.

– O quê? Por quê? Por causa da profecia idiota?

– Por que é único que pode impedi-los. Quando humanos decidem trilhar um caminho errado, não podemos interferir, pois estaríamos quebrando o direito de Livre Arbítrio; só poderíamos agir se fossemos invocados. Os demônios se aproveitam disso, influenciando e manipulando humanos para seus propósitos. Se um demônio coloca em risco a vida de uma pessoa, isso é entre os dois, e ambos sofrerão as consequências no devido tempo. Mas se um demônio coloca em risco a vida de muitas pessoas ao mesmo tempo, nós encontramos meio de interferir sem ferir o Livre Arbítrio. O contrato que sua rainha fez você assinar não faz de você nosso escravo, mas concede a você nosso apoio. Por isso tentarão eliminá-lo. Você é o único com nosso apoio, o apoio da rainha e... e de um demônio.

– Lembrem-me de agradecer a Rainha por isso – Ciel falou ironicamente aos secretários reais.

– Esse aqui não pode se virar contra nós? – Grey apontou para Sebastian.

– Poderia, mas ele está sob as ordens de um mestre – Informou Iridel.

– Akumas costumam ser mais fiéis a seus estômagos do que a outros demônios – Sebastian brincou, mas Ciel o olhou feio. – Nenhum outro demônio tocará no meu Mestre.

– Se concordar em nos ajudar a banir esse Possessor, Ciel Phantomhive, terá nosso apoio quando precisar.

– Apoio? Quando precisar? – Ciel falou com amargura. – Eu tenho o Sebastian. Assumirei este caso como todos os outros porque é minha função, como foi a função de meu pai e dos que vieram antes dele. Mas não preciso do seu favor ou do resto da sua Corte.

– Não despreze nosso apoio, Phantomhive. Precisará de nós no futuro. Depois de tudo o que já fez, não pode ser arrogante a ponto de nos ignorar. Isso seria desastroso, seu akuma sabe disso.

– Já sei qual é o meu destino. Não tenho medo de pagar pelos meus pecados.

– É bom que não tenha. Nosso acordo está limitado em prestar-lhe ajuda apenas para salvar vidas e fazer o que for justo. Qualquer decisão iníqua será de sua responsabilidade. Não estamos barganhando sua salvação, pois somente o verdadeiro arrependimento limpa os pecados. Sua alma já pertence a outro.

– Tenho plena consciência disso. E quanto ao filho?

– Isso é sua rainha quem exige. Se todos os Phantomhive morrerem, os humanos perderão sua ligação conosco – Iridel pediu a Grey a flauta que ele tinha usado para chamá-la e entregou a Ciel. – É uma Flauta Celeste. Produz um som que atrai os anjos e afasta os demônios. É um guia para nós. Use somente quando for extremamente necessário. Já fiquei tempo demais aqui. Preciso partir. Enquanto este demônio estiver livre, pessoas estarão em perigo, além disso, ele quer desesperadamente lhe fazer mal. Portanto tenha cuidado Phantomhive. E antes da minha partida quero que saiba de algo: naquela noite, seu medo chamava por Deus, seu sofrimento chamava pelos anjos, mas seu coração não invocou nenhum dos dois. Quem seu coração invocou, Ciel? Lembre-se disso.

Depois disso, Iridel deixou o corpo de Elizabeth. A mulher disse ter ouvido tudo o que eles tinham conversado, embora não tivesse nenhum poder sobre seu corpo.

– Seu mordomo é um demônio? – Phipps falou finalmente. – Porque você tem de ser tão estranho, Phantomhive?

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Pelo que Ciel pôde entender, algum idiota invocou um demônio de uma raça diferente e mais poderosa que a de Sebastian, Possessor; este demônio foi banido pelos ancestrais da rainha Vitória e agora voltara querendo vingança. Ciel tinha que descobrir quem eram e impedi-los antes que concluíssem seus planos.

A missão ele havia aceitado. Caçar demônios parecia ser bem instigante. Queria, sobretudo, ver qual seria a reação de Sebastian, visto que o mordomo teria de lutar contra os seus nesse caso. Mas pelo que o akuma mencionara, parece que a filosofia dos demônios era “cada um por si e que se dane o resto”. Mas quanto ao herdeiro que a rainha exigia, ainda parecia uma ideia absurda. Pensando bem, ele preferia enfrentar um demônio a ter um filho.

Entretanto, uma vez que disse estar grávida, Elizabeth sentiu o desejo de ser mãe se acender em seu peito, e com tal força, que a mulher decidiu que estava na hora de lutar por seu sonho. Percebeu que Ciel estava novamente inclinado a desistir da ideia de ter um filho. Quando todos já haviam ido embora, foi até o escritório falar com o marido e pediu que Sebastian também estivesse presente.

– Ciel escute. Durante toda a minha vida eu abri mão de coisas que eram importantes pra mim somente para ficar do seu lado e vê-lo feliz. Tudo o que eu sempre quis é que você me amasse. Sempre tentei ser útil pra você de todas as formas possíveis, embora eu tenha atrapalhado na maioria das vezes. Eu concordei com esse casamento porque eu sabia que eu jamais conseguiria amar outra pessoa como amo você, e se eu tivesse outro marido, ele não me permitiria vê-lo. Mas este arranjo me machuca, como você me advertiu que seria, como eu sabia que seria. Mas eu sei que sofreria ainda mais se não pudesse estar com você.

“Não estou culpando você nem o Sebastian. Mas você é meu marido e eu sou sua esposa; as pessoas esperam que eu cumpra com minhas obrigações como esposa. Sei que você não se importa com isso e eu realmente não me importo com o que as pessoas pensam ou dizem sobre mim, mas me importo com o que dizem sobre você. No entanto não posso ignorar meus sonhos e desejos. Eu não ligava pra isso antes, mas já faz algum tempo que venho sonhando com isso. Eu quero ser mãe, Ciel. Quero um filho seu. Não é possível que não tenha notado meu olhar triste sempre que vemos as senhoras e seus filhos. E eu sei que você poderia me conceder isso. Vocês sempre tem um ao outro e eu não tenho ninguém. Mas se me desse um filho... Se me desse essa alegria... Depois, você ainda teria o Sebastian, e o Sebastian ainda teria você, e eu teria meu filho.”

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Não dava mais para simplesmente inventar uma desculpa. A mentira de Elizabeth se espalhou com uma rapidez surpreendente. Muita gente sabia que os Phantomhive ganhariam um herdeiro em breve. Pelo visto a única diversão que as pessoas tinham em suas tediosas e fúteis vidas era fofocar da vida alheia. Na segunda-feira, eles receberam cartões de parabéns de várias pessoas, incluindo Lau e a Rainha. Na terça-feira, todos foram surpreendidos com uma visita inesperada de Soma e Agni.

– Parabéns Lady Elizabeth. Ah, Ciel, por que não me contou que eu ia ser tio? Estou tão feliz!

– Como assim tio? De onde tirou essa ideia?

– Lady Elizabeth foi abençoada por Shiva – dizia Agni.

– Minha ama dizia que mulher grávida não deve comer melancia.

– Não? – Lizzy parecia confusa.

– Não. O bebê nasce com pintinhas pretas.

– Que idiotice é essa? – Ciel esbravejava. – Não ignore o que estou falando.

– E não pode levantar os braços muito alto, pode enforcar o bebe no cordão umbilical.

– Eu não sabia disso! – Lizzy assustou-se e juntou os braços ao corpo.

– Sim, as senhoras inglesas não sabem dessas coisas, por isso perdem tanto os filho.

– Minha nossa!

– Você não está realmente acreditando nisso, está? – Ciel se irritava com o absurdo dos três, mas continuava a ser ignorado.

Não havia outra saída, eles teriam que ter um filho. E não podiam se dar ao luxo de protelar, afinal todos acreditavam que Elizabeth já estava grávida. E também porque se comoveu com o pedido da esposa; depois de conversar com Sebastian, chegaram a um acordo. Claro que o mordo disse que exigiria uma recompensa muito cara para concordar com isso. Ciel não contou a ninguém, pois sabia que soava ingênuo, para não dizer idiota, mas quando concordou com a ideia, não lhe passou pela cabeça que para terem um filho, eles teriam que ter relações. Sua cabeça estava cheia de problemas, não parou para pensar nisso direito.

Ele só se deu conta do fato quando Sebastian, de visível mau humor, perguntou se ele pretendia tentar naquela mesma noite ou em outro dia. A pergunta de Sebastian também lhe lembrou de outro fato; se não desse certo na primeira vez, teria que haver uma segunda, talvez uma terceira. A possibilidade de deitar-se com Elizabeth era assustadoramente absurda. Definitivamente, não conseguia nem imaginar ele e a prima compartilhando os mesmos prazeres que ele compartilhava com Sebastian. Mas o que poderiam fazer, roubar um bebê? Até que não era má ideia. Não; era uma ideia absurda.

Num primeiro momento, Sebastian não tentava nem disfarçar seu descontentamento, mas depois voltou a provocar Ciel como sempre.

– Como deve saber, com uma mulher é, de certa forma, diferente.

– Diferente como?

– Se o Mestre realmente tivesse prestado atenção nas aulas de biologia quando falávamos de reprodução humana, você saberia a resposta.

– Eu era só um garoto de doze anos. Aquela aula era constrangedora.

– Interessante... Pensei que você fosse adulto naquela época.

– Shiu!

– Parece que o assunto ainda é constrangedor. Isso é irônico, pois você é mais desinibido na prática.

– Calado! Vai ficar me importunando agora?

– A questão é: vai saber o que fazer?

– É claro; eu não sou idiota. E não tem nada de tão diferente assim. Eu só não vou precisar... e eu tenho que... nela... – Ciel se embaraçou com as palavras e ao ver o mordomo fitá-lo com uma sobrancelha levantada e aquele sorriso faceiro, o conde ficou completamente vermelho. – Ora essa! E o que te interessa isso seu demônio de mente suja?

– E existe demônio de mente limpa?

– Pare de me importunar com isso, Sebastian. Que inferno! Não quero ficar pensando nisso, só quero que passe logo. Vai procurar o que fazer!

Quando Ciel já estava decidido, Sebastian apenas pediu para retirar-se da mansão por aquela noite e recebeu permissão do Ciel. Houve uma época em que não se importava muito com o que Ciel fazia. Sim, houve essa época, mas parecia nunca ter havido. A simples imagem que sua mente fez da tão tardia primeira noite do jovem casal lhe produziu uma raiva tão grande, que Sebastian percebeu que o melhor era se afastar da mansão aquela noite. E mesmo estando longe, tudo o que conseguia pensar era que seu mestre estaria com outra pessoa. Ocultou-se em um lugar bem solitário, pois sabia que se alguém aparecesse na sua frente, ele seria capaz de trucidar.

Por que era tão ruim dividir seu mestre?

Porque Sebastian sempre fora o único a poder tocá-lo, agora sentia como se perdesse seu mestre.

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O conde entrou no quarto de Elizabeth vestindo seu pijama e um roupão de veludo verde escuro. A mulher trajava um chemisier comprido até os pés, de tecido leve e branco; tinha os cabelos loiros soltos; seus olhos verdes brilhavam de ansiedade. Ela era realmente uma mulher muito bonita. E era sua esposa. Não havia nada de errado nisso. Então porque Ciel sentia que estava fazendo algo errado?

Elizabeth aproximou-se de Ciel e o beijou com relutância. Ciel recebeu o beijo com relutância. Ambos se olharam com certa estranheza.

– Talvez.... – Elizabeth começou. – Você pode tentar fingir que sou ele. Talvez fique mais fácil assim.

– Isso seria assustador.

– Acredito que sim...

Os dois ficaram alguns instantes parados, em silêncio. Instantes que pareceram horas. Aborrecendo-se com a situação constrangedora, Elizabeth começou a rir. Uma risada amarela e sem força, e se afastou do marido.

– É melhor desistirmos disso. O erro foi meu, eu assumo as consequências. Não vai dar certo mesmo. Tenho que aprender a controlar minha língua quando fico nervosa. É isso. Essa foi uma ideia ruim. Se eu não...

– Lizzy.

– O quê?

A mulher calou-se ao perceber que Ciel segurava sua mão.

– Não faça tanto barulho.

Elizabeth assentiu.

Ciel pensou que a melhor maneira de lidar com essa situação era ser rápido e acabar logo com aquilo. Mas ao segurar a mão da prima, percebeu que ela tremia. Lembrou-se de sua primeira vez com Sebastian, como estava com medo e nervoso, e como Sebastian fizera de tudo para deixá-lo confortável, como o ajudara a perceber que aquilo não era uma experiência ruim como pensava. Lembrou-se que Lizzy ainda era virgem e que se conservara assim por tanto tempo somente para tê-lo a seu lado. Lembrou-se, sobretudo que ela o amava. Não seria justo tornar a primeira vez dela uma experiência rápida, forçada e sem sentimento. Já que tinha que ser feito, que fosse feito com carinho, pois nem ele se agradava da ideia de fazer aquilo obrigado.

Então pensou que o melhor seria não pensar. Apenas deixou que acontecesse. E dessa forma se deu o primeiro beijo, um de verdade, e assim se deu todo o resto.

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Elizabeth, ainda corada, tinha o lençol de seda chinesa cobrindo seu corpo. Estava deitada no lado esquerdo da cama e observava o homem de cabelos pretos e úmidos ao seu lado. Ele fitava o teto pensativo.

– Sabe, mesmo que eu não engravide, acho que não devemos fazer isso novamente.

– Por quê? Não gostou?

– Gostei muito – puxou mais o lençol sore o corpo, corando mais ainda. – Mas acho que se fizéssemos isso novamente, Sebastian seria capaz de me matar.

– Provavelmente – Ciel riu pela primeira vez naquela noite.

– Você gosta dele. Eu vejo. Seu semblante muda sempre que está com ele ou quando fala dele. Por isso não vou mais forçar você a isso. Meu desejo é ver você feliz, mesmo que não seja comigo.

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Na manhã seguinte, quando Sebastian entrou no quarto de Ciel com o café da manhã, o conde já o esperava.

– Prepare um banho pra mim.

– Sim – o mordomo ficou observando Ciel escolher uma roupa enquanto enchia a banheira com água. – Então, como foi?

– Bom.

– Bom?

– Foi estranho. Mas não foi ruim como imaginei.

– Que bom para o senhor – Sebastian falou indiferente enquanto aquecia a água. – Seu banho está pronto.

– Ótimo – Ciel caminhou até o banheiro olhando para o mordomo de soslaio. – Na verdade, acho que deveria repetir a experiência outras vezes.

– Outras vezes?

– Isso mesmo, sem a pressão de gerar um filho deve ser melhor.

– Certamente. Creio que não será necessário.

– Não vejo porque não – Ciel falou virando as costas para o mordomo e seguiu até a banheira. – Ela é minha esposa, não é?

– Mas você é meu!

Sebastian segurou Ciel pelos braços, suas mãos o apertando com força. O homem mais jovem encarou o mordomo com olhos furiosos, deixando o akuma mais irritado ainda. Mas para surpresa do maior, os lábios de Ciel se curvaram num malicioso sorriso.

– Estava blefando – o mordomo concluiu.

– Sim.

– Você é um mestre cruel. Posso saber por que fez isso?

– Às vezes, tenho a impressão de que você dorme comigo porque sou seu mestre. É bom saber que sente ciúmes.

– Eu passei essa impressão? Desculpe-me.

– Isso não importa. O que foi?

– Ainda posso sentir o cheiro dela em seu corpo.

– Então o tire de mim.

– Agora?

– E por que não?

– Você disse “nunca durante o dia” – Sebastian abriu o roupão de Ciel.

– Eu sou o mestre. Eu digo quando quebrar as regras.

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Para alegria de Sebastian e alívio de Ciel, a primeira tentativa funcionou muito bem. Elizabeth ficou realmente grávida. Ninguém nunca a viu tão feliz. Ela encontrara na criança que crescia dentro de si, alguém para receber o amor que ela não podia dar a Ciel. Claro que haveria uma divergência na data de nascimento da criança, mas eles já tinham pensado numa solução. Quando estivesse perto da data em que Elizabeth supostamente ganharia o bebê, ela faria uma viagem para França e só voltaria quando o bebê realmente tivesse nascido; o que daria uma diferença de dois ou três meses.

Apesar de dar total assistência à esposa, Ciel tentou ignorar tudo aquilo, pelo menos até o sétimo mês de gravidez, quando colocou a mão sobre a barriga da mulher e sentiu o bebê se mexer. Foi a primeira vez que realmente se deu conta de que ali crescia um ser vivo, seu filho. Essa ideia o fez sentir um calorzinho no coração, um sentimento que o fez sorrir.

Com a gravidez, Ciel passava mais tempo com Elizabeth do que com qualquer outra pessoa. Alguém não se agradou disso. O akuma começava a se arrepender de ter concordado com a ideia. Se as coisas estavam assim agora, como seriam quando o bebê nascesse?

Mas diferente do que achava o akuma, Elizabeth não se esquecera da promessa que fez. Mesmo apreciando a atenção extra que recebia de Ciel por conta da gravidez, a mulher sempre tentava fazer os dois homens ficarem juntos, e em paz. Parecia que os dois viviam em constante provocação.

– Por que você trata o Sebastian assim, Ciel?

– Assim como?

– Por que não tenta ser mais carinhoso e dizer algo romântico.

Elizabeth começava a imaginar uma cena fofa entre Sebastian e Ciel, mas o conde apenas olhava pra ela com uma cara de desaprovação, como se ela tivesse dado o conselho mais idiota do mundo. Depois de um tempo, Elizabeth percebeu que o normal dos dois era se provocarem mesmo.

E se seguiram oito meses de gravidez tranquila.

Oito meses de investigação.

Outras mortes aconteceram. A rainha continuava a receber ameaças e o demônio anônimo continuava a gerar problemas. Foram meses de investigação, mas sempre que pareciam estar chegando perto, tinham que evitar algum conflito político.

Algumas noites, Sebastian saia sozinho para investigar, pois o trabalho excessivo estava prejudicando a saúde de Ciel.

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Sebastian tinha saído àquela noite.

Bardroy acordou no meio da noite com uma sede avassaladora.

Como teria que passar a noite fora para investigação, Sebastian tinha preparado um prato picante para o jantar e Bard acabou exagerando no molho. Não deveria ter comido tanto, agora estava com uma sede insaciável que não o deixava dormir. Demorou-se um pouco na cama, estava com uma preguiça de levantar, mas não teve jeito.

Vencido pela sede, levantou-se meio grogue e saiu tateando pelo quarto escuro. Infelizmente, sua canela encontrou a cama de Finnian. A dor da pancada tratou de acordá-lo e ele passou pela antiga cama de Tanaka mancando. Chegando a cômoda, pegou a jarra de água e virou-a na boca, mas a jarra já estava vazia.

– Maldito Finny, bebeu tudo! – o cozinheiro reclamou, olhando feio para o contorno do jardineiro esparramado na cama.

Derrotado, Bardroy seguiu para a cozinha em busca de água, reclamando que já estava velho para ficar andando durante a noite. Bebeu quase um litro de água. Estava voltando para o seu quarto quando ouviu uma movimentação estranha. Seus instintos de soldados o fizeram esconder-se nas sombras e espremer-se contra a parede do corredor. Seus olhos espreitando a cozinha mal iluminada. Antes que conseguisse ver quem estava entrando ali, ouviu a voz de Maylene vinda do corredor.

– Minha água acabou, estou com uma s... – disse a empregada erguendo uma jarra no ar. Ela nem conseguiu terminar de falar, Bardroy a puxou para o lado ao mesmo tempo em que ouviram um tiro acertar a jarra em suas mãos.

– Estão invadindo a casa! – os dois disseram em uníssono.

O tiro inicial foi seguido por outros, os dois empregados fugiram em meio às balas até conseguirem chegar a seus quartos. Armando-se com as armas escondidas em seus aposentos, saíram de lá atirando em revide. Maylene seguiu pelo outro lado do corredor, abriu a janela e saiu para pegar os invasores que estavam do lado de fora. O barulho fez Finnian sair da cama num pulo.

– O que está acontecendo, Bard?

– Invasores, vários. Jogue alguma coisa neles – disse o cozinheiro desviando de uma bala que passou a milímetros de seu cabelo grisalho.

– Jogar o quê? – perguntou o homem mais jovem, olhando para o corredor vazio de objetos.

– Qualquer coisa.

Finnian entrou no quarto e voltou de lá carregando a cômoda.

– Abaixa!

– Não! Finny, isso não!

Bard tentou impedi-lo, mas o móvel já voava pelo corredor, derrubando os atiradores. Os dois servos seguiram o caminho da cômoda. Ao ver o estrago que os invasores tinham feito na cozinha, Bard ficou mais zangado ainda.

– Agora é guerra!

Alguns minutos antes, três mascarados subiam silenciosamente pelas escadas da mansão, quando ouviram o barulho de tiros vindos da cozinha.

– O que esses idiotas estão fazendo? – disse um deles. – Não era para começar a atirar agora.

– Nosso alvo está lá em cima – falou outro –, se não formos logo vão nos ouvir.

Eles seguiram pelo corredor do andar superior em direção ao quarto do Ciel. Quando invadiram o lugar, a cama estava vazia.

– Está vazio! – um dos mascarados constatou o óbvio. – Eles deveriam estar aqui, não tem como ter saído. Devem estar aqui em algum l...

Um tiro atravessou a cabeça do mascarado que falava. Ciel saiu do quarto de vestir atirando nos dois invasores restantes. O conde enfiou-se apressadamente em um roupão e pegou mais uma arma e munição dentro de uma gaveta. Encontrou Elizabeth no corredor.

– O que está havendo?

– Parece que estamos sendo atacados. Por favor, fique no quarto e não saia.

– Certo.

Quando Ciel chegou às escadas, deparou-se com uma zona de guerra.

– Cuidado, mestre Ciel! – ouviu a Finnian gritar. Ciel abaixou-se e por pouco não foi atingindo por uma estátua voadora.

– Olha pra onde você está jogando, idiota! – ralhou.

– Eu não tive culpa, o senhor apareceu aí de repente.

Balas ricocheteavam de um lado para o outro. Estilhaços de madeira e porcelana voavam entre os atiradores dos dois lados. Com uma enorme pancada, as portas do grande salão se abriram repentinamente e Maylene entrou segurando dois rifles. Com uma agilidade digna de Sebastian e uma precisão absurda, a empregada avançou pelo salão acertando em cheio todos os invasores. Quando acabaram as balas, ela segurou os rifles pelos canos e, usando-os como porretes, arrancou sangue do nariz do último intruso que sobrou em pé. A empregada já se preparava para dar o golpe final...

– Espere! – Ciel gritou e a mulher deteve-se.

Bardroy e Finnian seguraram o homem pelos braços, para que este não pudesse escapar. O conde arrancou a máscara de tecido que o intruso usava. Era um homem caucasiano de rosto comum, olho roxo e um nariz lavado de sangue.

– Por que invadiram minha casa? O que queriam?

– Não sei. Só nos mandaram vir executar alguém aqui. Disseram pra trazer muita gente. Estou vendo a razão.

– Quem? Quem mandou me matar? Responda!

Nesse momento, o intruso levantou a cabeça lentamente e sorriu. Um sorriso manchado de sangue.

– Quem disse que você era o alvo?

Ciel sentiu um arrepio quando ouviu aquilo. Mal o homem terminou de falar, ouviram um barulho de vidro se partindo e um grito de mulher veio do andar superior.

– Lizzy!

Ciel e Finnian correram para o quarto de Elizabeth. Encontraram a loira caída no chão, com um tipo de dardo em seu pescoço.

Elizabeth estava muito gelada, seu corpo tremia e ela começava a chorar.

– Ciel... A-acho que vou ter o bebê.

O conde imediatamente chamou Sebastian. Quando este apareceu, espantou-se com toda a situação.

– Mas o que houve aqui?

– Não há tempo para explicações. Rápido, traga um médico.

O mordomo saiu o mais rápido que pôde e conseguiu arrastar um médico para a mansão aquela hora da noite. O médico foi rapidamente levado até o quarto de Elizabeth e a examinou.

– O que houve com ela?

– Ela foi envenenada com isso – Sebastian entregou ao homem o dardo. O médico sentiu o cheiro deixado pela substância, mas não soube identificar o que era, ninguém pôde.

– Ela terá o bebê de qualquer jeito, já está perdendo sangue. Vou tentar um antídoto comum e esperar que funcione, tenho que realizar o parto antes que o veneno chegue a corrente sanguínea do bebê. Vou precisar de ajuda. Você! – o doutor apontou para Maylene.

– E-eu?!

– Sim, você. O resto espera lá fora – dizia colocando as mãos dentro de luvas brancas.

Elizabeth não conseguia ver nem escutar nada direito. Sentia apenas como se chamas corressem por suas veias, espalhando-se por todo seu corpo. Implorou ao médico que não deixasse nada acontecer ao seu filho, mas não soube se suas palavras saíram com nexo ou não. Sentiu Maylene segurar sua mão e tentar acalmá-la.

.

.

Os gritos de Elizabeth podiam ser ouvidos do escritório. Ciel andava de um lado para o outro impaciente.

– Tem certeza de que ela não está morrendo?

– Acredito que os partos costumam ser assim mesmo, Mestre. Não é fácil trazer um filho ao mundo.

– Deus! Ela está sofrendo muito. Isso foi uma péssima ideia, eu nunca deveria ter concordado com isso.

– Agora já é mais do que tarde, não acha? Acalme-se. Vai ficar tudo bem.

Sebastian falou tranquilo, quisera ele estar realmente tão certo de suas palavras. Continuou girando o pequeno dardo na mão. Vasculhando sua mente, tentando lembrar se realmente não conhecia tal substância, mas nada lhe vinha à memória.

O médico, Elizabeth e Maylene ficaram um bom tempo no quarto. Três horas de um doloroso parto. Ciel permaneceu no escritório, quase explodindo de ansiedade. Sebastian o deixou por uns instantes para consertar os estragos feitos na mansão. Depois de colocar tudo no lugar, Sebastian foi fazer companhia ao conde.

O sol já surgia no horizonte quando um choro de bebê se espalhou pela mansão. Aquele som produziu em Ciel uma sensação única e inexplicável de alegria. Ciel encaminhou-se até a porta do quarto de Lizzy, não queria esperar mais.

– Parabéns, conde. É um menino! – disse o médico, trazendo no colo um pequeno bebê de pele rosada embrulhado num lençol manchado de sangue.

Receoso, Ciel pegou o bebê no colo e o pequenino foi parando de chorar aos poucos.

– É meu filho – disse ele a Sebastian, como se só agora, vendo aquele pequeno ser em seus braços, aquela realidade tivesse de fato o tocado. Ele era pai. – É meu filho.

– É sim – respondeu o mordomo. Ele observava mais as reações de seu amo do que a pequena criatura.

Ciel entregou o bebê a Elizabeth. Ela parecia exausta e doente. A mulher segurou o bebê com o cuidado de quem teme quebrar algo. O aconchegou em seus braços e acariciou o rostinho com uma ternura que só as mães são capazes de dar. Contemplou seu filhinho por um bom tempo, era como se nada mais existisse. E foi observando o bebê, que ela notou que ele estava muito quieto. Tentou movê-lo um pouco, mas ele não reagiu.

– E-ele não... Ele não está respirando – falou ofegante.

O médico examinou o bebê e olhou com piedade para a jovem mulher a sua frente.

– Eu sinto muito... Eu não sei o que houve. Acho que o veneno...

– Não, ele só está dormindo. Está um pouco frio, mas é só agasalhá-lo melhor.

– Lizzy...

Naquele momento, Ciel achou que Elizabeth fosse gritar e chorar como fazia quando criança, mas não. A mulher apenas agasalhou mais o corpo inerte de seu filho e o apertou contra o peito. As lágrimas começaram a brotar de seus olhos, silenciosas e sofridas. Ciel conhecia bem aquela dor silenciosa, a pior que existe.

Levou horas para que conseguissem tirar o corpo do bebê dos braços de Lizzy. E quando Bard e Maylene tiraram o corpo do bebê do quarto, Elizabeth caiu em prantos.

– Vai ficar tudo bem Elizabeth – dizia Ciel.

– Por que está tentando me acalmar? Sou uma inútil. Não sirvo nem para lhe dar um filho.

– Elizabeth...

– Melhor seria se eu tivesse morrido... – dizia chorando.

– Nunca mais repita isso – o conde falou sacudindo a loira pelos ombros. – Você é meu lado bom, minha âncora. Sem você já teria me perdido. Nunca mais pense nisso. Nunca mais, ouviu?

Ciel abraçou a esposa, que continuou a chorar no peito do marido.

Ciel sentiu uma mistura de sentimentos ruins. A terrível sensação de perda se misturava a uma amarga sensação de remorso e pena. Sobretudo sentiu uma raiva imensa. E ódio. Alguém mais uma vez tentara destruir sua família. Alguém causara dor a sua esposa. Alguém roubara de seu filho uma vida inteira por viver.

Indiferente à dor da mãe que chorava a perda do filho Sebastian não gostou muito de ver a forma como ela e Ciel se abraçavam. A dor em comum unindo-os, reavivando os sentimentos que um nutria pelo outro. Como demônio, ele não conseguiu sentir pena de Elizabeth, de Ciel ou do pequeno que tivera uma morte tão prematura. Não conseguia compreender o sentimento tão humano que unia o jovem casal naquele momento. Mas um sentimento foi capaz de ter.

Ciúme.

Vinha experimentando muito esse sentimento ultimamente. Sabia que não deveria interrompê-los, os outros servos estavam presentes. Sabia que não ficaria bem ele dizer algo. E já que ele era incapaz de fingir compaixão, achou melhor retirar-se do aposento. Estava preste a sair do quarto, mas algo chamou sua atenção. Sentiu uma energia vinda de seu mestre. Uma aura forte, destrutiva e sedutora como há muito tempo não via em Ciel. Uma energia forte o suficiente para fazer seu corpo vibrar.

– Sebastian.

– Sim, Mestre?

– Não descansarei até que os responsáveis paguem por tudo. Isso é uma ordem: você me ajudará na minha vingança.

– Sim, Meu Lord!

.

.

Sebastian e Ciel desceram até o porão da mansão, onde o invasor estava jogado no chão com os braços e pernas amarrados.

– Pensei que tivessem se esquecido de mim.

– Se me contar tudo o que sabe deixarei você ir.

– Já disse que não sei de nada. Vai para o inferno!

– Sebastian.

– O mordomo fez uma reverência, levantou o homem do chão e encaixou a cabeça dele entre duas placas de ferro de um aparelho estranho. O homem, sem poder movimentar a cabeça, escutou um barulho de engrenagens girando. Logo, as duas placas de ferro começaram a pressionar sua cabeça. Ele começou a entrar em pânico enquanto o conde continuava a observá-lo impassível. Sua cabeça doía com a pressão, percebeu que eles não parariam até que sua cabeça fosse esmagada.

– EU FALO! EU FALO! Mas pare com isso, por favor!

O homem sentiu sua cabeça se desprender do aparelho e caiu com o rosto no chão.

– Estou escutando.

– Como eu disse antes, não sei muito. Eu não era o encarregado da operação, apenas fui chamado para ajudar. Nos disseram que tínhamos de matar alguém, uma mulher grávida. Só nos deram o endereço do local e nos disseram para trazermos reforços e virmos bem armados. Não cheguei a ver de perto quem encomendou o assassinato, mas sei que veio em uma carruagem Post Chaise puxada por quatro cavalos. É só o que eu sei. Juro!

– Já é uma pista. Somente os nobres mais afortunados utilizam Post Chaises com quatro cavalos. Sebastian faça uma lista com todas as pessoas que possuam esse tipo de carro.

– Entendido. E o que devo fazer com este?

– Livre-se dele. Só não o deixe fazer muito barulho, e seja rápido.

– O quê?! Você disse que me deixaria ir. Disse que me deixaria ir!

– Eu menti.

.

.

Undertaker veio ao meio dia, trazendo um pequeno caixão para o bebê. Fizeram todos os preparativos para o enterro no cemitério da mansão.

– Que nome ele teria? – Undertaker perguntou ao Conde.

– O quê?

– Para colocar na lápide.

– Eu não cheguei a pensa... – confessou.

– Phillip – Elizabeth pronunciou o nome em voz baixa. Não chorava mais, apenas tinha uma expressão de profunda tristeza.

– Phillip... – repetiu o funerário. – É um bom nome. Chamar-se-á Phillip.

No final do dia, Undertaker deixou a Mansão Phantomhive com um túmulo a mais, no qual estava escrito:

Aqui jaz

Phillip Phantomhive

(1898 – 1898)

Quando estava bem afastado da Mansão, Undertaker olhou para todos os caixões, urnas e objetos funerários em sua carruagem. Sorriu satisfeito e seguiu cantarolando.

– Agora as coisas ficarão piores, Conde.

Notas finais do capítulo
Nossa, esse cap deu mais trabalho que o cap com a primeira vez do Ciel V. foram tantas coisas. Podem até não acreditarem, mas minha irmã estragou meu computador, minha mãe lavou minha roupa com o rascunho de uma cena inteira ( que pra minha alegria deu pra recuperar), e depois de fazer uma colcha de retalho com as cenas escritas aos pedaços, finalmente terminei. Modifiquei e reescrevi o cap várias vezes, pq achei que não estava ficando legal...e o resultado foi esse. Espero que tenham gostado. Queria deixar as notas, mas estou sem tempo pra fazê-las...pra variar ¬¬ Bom já 2 da madruga e tenho que trabalhar amanhã. É isso. Nos vemos em breve..espero. Agora tenho alguns comentários pra responder e algumas fics pra ler. Uffa!!




(Cap. 22) Os Pecados do Passado – Parte IV

Notas do capítulo
Oi, ainda se lembram de mim? Gostaria de pedir desculpas, pela demora e pelo capitulo que vou postar. Não é o capítulo completo, é apenas parte dele. Não queria ter que dividi-lo novamente, queria que este fosse a última parte de flashack, mas.... eu achei que eu teria tempo pra concluir a capítulo nesse feriado, mas o universo me deu um tapa na cara e me presenteou com tarefas até o final de maio. Sério, eu tenho um trabalho diferente pra entrega toda semana até junho. Então passei esse feriado terminando o trabalho pra entregar quarta e ainda tenho prova sexta aff....como percebi que não ia conseguir terminar o cap e já passou muito tempo desde a última atualização, decidi postar só o começo dele...só pra saberem que ainda to viva...espero que entendam. boa leitura o/

Capítulo 22: Os Pecados do Passado – Parte IV

Londres, 1898

Três dias depois, algumas pessoas, sabendo da tragédia, apareceram na mansão para visitá-los. No entanto a versão contada a sociedade era de que o bebê nascera com o cordão umbilical enrolado no pescoço, isso geralmente acontecia. Dizer a verdade geraria uma porção de perguntas incômodas. Ciel proibiu que Soma e Agni vissem Elizabeth. O príncipe chorava tanto que só deixaria a loira mais deprimida. Ciel estava aborrecido com a presença de todas aquelas pessoas. Excluindo o príncipe indiano e a família de Elizabeth, o resto não estava ali para saber se eles estavam bem ou para dar conforto, mas para ter assunto para fofocas futuras. Sabia que devia se esforçar para consolar a esposa, mas ele não estava em condições de confortar ninguém; nunca esteve.

Sebastian arranjava desculpas dizendo que Ciel estava muito abatido para receber as pessoas. As pessoas acreditavam. Nem era tão mentira assim.

Maylene maquiava Elizabeth, tentando disfarçar as olheiras de choro com pó de arroz. Antes de descer para receber as visitas, Elizabeth viu o mordomo entrar em seu quarto. Sebastian segurou seu queixo delicadamente, fazendo-a erguer o rosto. E ela pôde olhar fixamente para aqueles olhos carmesins. Sebastian pareceu querer recuar, incomodado com algo, mas continuou.

– Aquela corja lá embaixo não veio para demonstrar compaixão. Estão esperando para vê-la fraquejar, vê-la cair, derrotada. Mostre a todos eles que você é superior, que nada pode derrubá-la. Que você é inabalável.

– Como uma Midford?

– Não, como uma Phantomhive.

Os lábios da mulher se curvaram num sorriso. Ela apertou a mão do mordomo como se buscasse forças para não chorar. Sebastian não fazia ideia do quanto aquelas palavras significaram para a loira.

– Obrigada, Sebastian.

– Não por isso – o mordomo se afastou em direção a porta. Meylene guardava os estojos de maquiagem.

– Espere. Eu prometo fazer tudo o que estiver ao meu alcance para deixá-los juntos se me ajudar a vingar meu filho.

– Essa já é a vontade do meu Mestre, mas quem sou eu para negar um pedido da senhora Phantomhive?

E com uma reverência saiu do quarto.

O único momento realmente reconfortante foi quando ela pôde ficar sozinha com sua mãe. Francis nada disse. Apenas a acolheu em seus braços. E provavelmente ela era a única pessoa ali capaz de entender a dor da filha.

No final do dia, Ciel juntou-se a ela no sofá em frente à lareira. Colocou um chale de lã em volta de seus ombros e abriu um livro. O conde pigarreou e começou a ler:

– “É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro, de posse de boa fortuna, deve estar atrás de uma esposa.”

Elizabeth sorriu. Era seu livro favorito. Orgulho e Preconceito. Ciel não era bom com palavras, principalmente quando o assunto era sentimento. Aquela era a maneira dele mostrar que se importava com ela.

– Obrigada – ela sussurrou. Ciel deu apenas um meio sorriso e continuou.

– “Por mais desconhecidos que sejam os sentimentos e as opiniões desse homem no momento em que chega a uma nova vizinhança...”

.

.

Sebastian procurou Ciel pela mansão, mas não o achou. O mordomo foi até o jardim, mas não havia ali sinal de seu mestre. Como o conde não poderia ter saído sem carruagem ou cavalo, só havia um lugar onde ele poderia estar: o cemitério da família.

Ciel estava em pé ao lado do túmulo de Philip e fitava a lápide com intensidade. Sebastian aproximou-se dele lentamente e parou a uma pequena distância do rapaz. Ao perceber a presença do akuma, Ciel olhou para ele por um breve instante e voltou a fitar a lápide.

– Por que ficou aí escondido? Queria ver se eu estava chorando? – o conde indagou.

– Não estava escondido, apenas achei melhor esperar você terminar o que quer que esteja fazendo. Não fica bem um mordomo interromper seu mestre.

– Humph...

– Não me importo se você quiser chorar. Por que acha que eu não aprovaria? Você é um humano, depois do que aconteceu nada mais natural do que...

– Mas eu não vou! E não ligo a mínima pro que você aprova ou deixa de aprovar. Não sou eu quem dá as ordens?

– Sim, Metre – Sebastian falou sorrindo.

Os dois permaneceram em silêncio. O vento soprou gélido, levando pétalas do buquê de flores deixado ali por Elizabeth. Sebastian ficou pensando em como seu mestre parecia perfeito naquele cenário frio e mórbido. Não compartilhava sua dor, mas sentia seu desejo por vingança.

– Parece que esse é o meu destino, jurar vingança sobre o túmulo dos inocentes. Chorar não resolve nada; agir, isso sim, faz grande diferença – uma nova rajada fria o fez tossir. Enrolou o cachecol no pescoço para aquecer-se melhor e virou-se para o mordomo. – Descobriu alguma coisa?

– Sim. Há pelo menos 14 pessoas em toda Londres, entre nobres e burgueses, que possuem o tipo de carruagem que o invasor mencionou. Desses, onze tem algum tipo de ligação com comércio estrangeiro e ligação com pessoas do submundo.

– Então vamos vigiar mais de perto esses onze.

– Recebi uma informação do conde Gray também, parece que um carregamento de munição foi interceptado. Não se sabe o que aconteceu.

– Isso é ruim. Se usarem as armas com o selo real para atacar algum lugar fora da Inglaterra, isso poderá gerar um conflito.

– Acredito que seja exatamente esse o objetivo do demônio. Conheço o tipo. Ele não vai querer só vingança, vai buscar caos e poder.

– Um demônio que não conhecemos o nome e nem a face de quem o ajuda. Dessa vez o inimigo tem a vantagem. Eles sabem quem somos, mas nós não sabemos quem eles são. Encontrou o livro sobre o qual me falou?

– Sim. O que pretende fazer, Mestre?

– Por enquanto. Tente encontrar esse carregamento e trazê-lo de volta para seus legítimos donos. Quanto a mim... Acho que é hora de mover alguns peões. Precisamos capturá-lo antes que ele consiga a cabeça da rainha.

.

.

Seu nome era Jonanthan Brent. Mas pelas artimanhas daquele demônio passou a ser chamado de Jonanthan Weatherfield.

O demônio, que se apresentou a ele como Dhalion, tomou seu corpo como morada naquela noite. A princípio teve medo do que poderia acontecer quando percebeu que Dhalion tinha total controle sobre o corpo que ambos habitavam. Por vezes tomando a rédea da situação e mandando a mente de Jonanthan ir passear em algum canto escuro de sua consciência. Mas em troca, Dhalion lhe deu fortuna e status. Deu-lhe mais do que seu falho desejo de vingança poderia ansiar.

Dhalion escolheu a dedo um velho e recluso visconde que vivia numa cidade bem afastada de Londres. Arquimed Weatherfield. A inesperada morte do velho só não causou mais espanto a sua viúva e filhas porque ele já era de idade avançada; mas as mulheres ficaram chocadas quando souberam que o velho tinha deixado toda a fortuna da família como herança para um sobrinho até então inexistente: Jonanthan. O homem até sorria ao lembrar-se da expressão de incredulidade e desespero das mulheres. Mas para um demônio como Dhalion, um possessor, mestre em manipular mentes, foi muito fácil subjugá-las.

Depois de quatro meses ali, Dhalion disse que havia chegado o momento de dar início a segunda fase de seu plano e retornaram a Londres. Jonanthan se apresentou a sociedade londrina como um recém-chegado a cidade, e, para todos os efeitos, ele estava li para comandar uma fábrica de tecidos pertencente ao seu suposto e falecido tio. A fábrica, é claro, era apenas uma fachada. Ele ganhava dinheiro com outros negócios. O falso visconde conseguia aliados facilitando e ajudando o comércio ilegal e outras atividades ilícitas. Exigia como pagamento pela ajuda certos favores. Esses favores envolviam desde roubos e ataques a mercadorias importadas e exportadas legalmente pela Inglaterra até atentados contra a vida de membros da realeza.

Weatherield nunca agia diretamente. Sempre usava terceiros para fazer os serviços. Em pouco tempo, ele conseguira se tornar alguém realmente importante. E com o carisma de Dhalion, se tornou um querido e admirado nobre respeitável. Que hilário! Mas existiam duas pessoas em especial cuja atenção Dhalion queria ganhar. A rainha e o conde Phantomhive.

Eles eram seu objetivo maior.

Mas não conseguia resistir à tentação de causar pânico e conseguir poder. De derramar sangue. Demônios são gananciosos por natureza. Sempre querem mais do que lhes é concedido. Ele era um Possessor e não um Akuma. Não se contentava com uma alma de cada vez. Queria todas sob seus pés.

Experimentar todo o luxo, poder e glória concedido por Dhalion fez o coração de Weatherfield ficar mais ganancioso. Ele tinha grandes ambições agora e alegrava-se com a sensação de controlar e manipular as pessoas e as situações. Cego pelo poder, não se dava conta de que era o demônio possessor quem realmente manipulava tudo.

Estando bem estabilizado em Londres e com uma boa quantidade de aliados ao seu dispor, Dhalion colocou em prática a terceira fase do seu plano. Começou a enviar mensagens ameaçadoras para a rainha, anunciando seu retorno. E começou a reunir súditos que pudessem realizar seu pequeno projeto. E assim capturou as primeiras mulheres. Seus planos estariam se cumprindo com maior rapidez se não fosse a constante intromissão do jovem conde Phantomhive. Sempre há um Cão de Guarda para atrapalhar tudo. Iria se livrar dele também, mas ainda não era o momento apropriado.

Mas para realizar sua audaciosa jogada, teria que tirar o conde do tabuleiro. Já tinha uma ideia de como.

Weatherfield intensificou a captura de mulheres, não que mais delas fossem necessárias para Dhalion naquele momento, mas queria fixar a atenção do conde nos assassinatos. Num espaço de três semanas, foram seis mulheres desaparecidas e quatro encontradas mortas. Era um plano arriscado. O conde poderia chegar até ele ou encontrar o local onde a seita escondia as mulheres, mas ele tomava o cuidado de conseguir os álibis perfeitos para todas as ocasiões. E protegeu o local da seita contra o cãozinho traidor do conde. Tanto Weatherfield quanto Dhalion divertiam-se com o pânico da população e a irritação do conde ao não conseguir sequer algo que colocasse em dúvida a inocência de alguns dos nobres que ele tanto observava. Weatherfield foi além.

Seu plano de capturar a esposa do conde falhou. Aqueles idiotas interpretaram uma ordem de sequestro silencioso e discreto com um ataque em massa. Tolos! Incompetentes! Queria a mulher grávida. Seu plano falhou, embora tenha conseguido o bônus de matar o herdeiro Phantomhive. Mas queria tirar do conde sua preciosa honra antes de tentar matá-lo novamente.

.

.

– Sua Majestade – Charles Gray entrou no escritório do príncipe Eduardo com uma expressão preocupada. – O Cão da Rainha conseguiu recuperar o carregamento de armas que tinha sido roubado.

– Graças! – o homem suspirou de alívio, mas as rugas em seu rosto lhe deram uma aparência mais velha e cansada ao perceber que o secretário não viera até ali apenas para dar boas notícias. – O que mais?

– Uma diligência real foi atacada essa manhã. Não se preocupe, os soldados foram bravos e seu primo George passa bem. Mas deixaram mais um bilhete ameaçador para a rainha.

Gray entregou o bilhete ao príncipe. O homem mais velho sentou-se na poltrona de espaldar alto e vermelho.

.

Enquanto o cão caça o bandido quem protege a casa?

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– Não podemos contar apenas com a sorte e deixar tudo nas mãos do conde Phantomhive. A rainha está muito doente e aqui ela fica muito exposta. Vou mandar minha mãe e meus filhos para um lugar seguro. Se o demônio não conseguir matar a rainha a profecia não se cumpre e a família real continua. Mesmo que eu morra, meu filho tem plenas condições de assumir o trono. Mande o Phantomhive ficar em alerta também e ofereça algum reforço se ele desejar. Estou no controle por enquanto, mas para qualquer um que possa perguntar a rainha continua aqui em Buckingham.

– E quanto a elas, senhor?

– Elas? – o príncipe alisou seu bigode branco. Nervoso.

– As deixaremos aqui?

– Não. Levarei junto. Não quero pensar o que os nossos inimigos, demônios ou não, fariam com elas. Se não as usarmos de modo indevido, os Serafins não as tirarão de nós.

– Certo.

.

.

A situação política do país não era das melhores. A Família Real estava em alerta constante. E a sociedade escondia suas grávidas temendo que elas fossem roubadas de suas mãos.

Nas últimas semanas, Elizabeth vinha tendo que lidar com os assuntos na Funtom Company da melhor maneira que conseguia, pois Sebastian e Ciel passavam o dia resolvendo um problema atrás do outro e investigando o caso das mulheres grávidas.

Graças a uma informação conseguida por Lau, Ciel preparou uma armadilha para o tal demônio. Tudo parecia estar saindo bem até dar tudo errado. Na confusão, Ciel se afastou de seu akuma e cada um seguiu um suspeito em direções diferentes. O suspeito que Ciel seguiu o levou até um hotel duvidoso numa das partes mais movimentadas de East End. O conde não o perderia de vista. O seguiu pelos corredores, esbarrando em homens com as roupas mal colocadas e em mulheres com vestimenta questionável. Derrubavam pessoas e móveis e ignoravam as reclamações de protestos. Alguns começaram a chamar a polícia a plenos pulmões ao ver que Ciel estava armado. O suspeito se embrenhou pelos corredores com Ciel em seu encalço e entrou num dos quartos.

Ciel entrou no quarto completamente atento a todos os sons ao seu redor. Ouviu três disparos vindos da sala ao lado. Uma capa negra passou diante de seus olhos, tão rápido que não conseguiu ver o rosto. Ciel atirou, mas o estranho saiu pela janela, como se pudesse voar. A janela, por sua vez, fechou-se sozinha assim como suas travas de segurança, antes que o conde chegasse até ela.

Ciel tentou abrir a janela, mas estava presa e nem se movia. Não era possível que alguém sobrevivesse a uma queda daquela altura. Lembrou-se de que o estranho tinha atirado em algo ou em alguém no outro cômodo. Era uma mulher. Uma das desaparecidas.

– Que lástima! – disse Ciel, notando onde havia se enfiado.

Naquele exato instante, a polícia, atraída pelo barulho dos tiros, invadiu o quarto. Havia uma mulher seminua sobre uma cama ensanguentada, morta com três tiros. Ciel tinha uma arma e pólvora nas mãos. Roupa ensanguentada. A janela estava lacrada impossibilitando a saída de qualquer um. Logo o culpado não tinha como ter fugido e só havia ali um único suspeito. O conde podia até ouvir as engrenagens dos cérebros dos policiais se movendo. O que parecia essa cena?

– Acreditariam se eu dissesse que sou inocente?

Os policiais apenas riram e algemaram Ciel. Seria mais do que complicado explicar tal situação. Acabou sendo preso e passou a ser um dos principais suspeitos dos assassinatos. Como ele fora tão descuidado? Era exatamente o que o demônio queria; tirá-lo do caminho. Estava profundamente zangado. Além de ser pego numa armadilha tola, sua honra estava jogada na lama. Mas aquele era seu território, e vira-lata nenhum iria lhe passar a perna.

– Ora, ora... nunca pensei que viveria para ver o dia em que o líder de todos os nobres maus fosse finalmente preso – dizia Lord Randall com certa satisfação.

– Espero que viva o suficiente para ver que não permanecerei aqui, Lord Radall – Ciel falou convicto, sorrindo.

– Nem mesmo atrás das grades você perde a postura, não é conde Phantomhive?

– Nós dois sabemos, senhor, que não sou eu quem deveria estar aqui. Sabe muito bem que sou inocente. Quanto mais tempo me mantém aqui, mais atrapalham o meu trabalho.

– Muitas pessoas viram você no local do crime, não podíamos deixá-lo sair como se nada tivesse acontecido. As pessoas poderiam achar que a polícia não está fazendo seu trabalho.

– Pra começo de conversa, se a polícia realmente fizesse seu trabalho não precisariam da minha ajuda. Admita, você não quis perder a oportunidade de me prender, mesmo sabendo que a melhor possibilidade que vocês têm de obter sucesso neste caso depende unicamente de mim.

– Ora seu... Como ousa falar comigo assim? Mal saiu das calças curtas e acha que pode...

– Vejo que o Mestre já se enturmou aqui – Sebastian falou ironicamente ao chegar para visitá-lo.

– O mordomo não tarda a chagar. É realmente curioso, senhor Sebastian, sempre que o vejo, parece ter a mesma aparência. É como se não envelhecesse – Randall encarava Sebastian com curiosa atenção.

– Devo ter herdado um bom tipo físico dos meus pais. Mas devo dizer que apesar da minha aparência, minhas juntas me matam – falou de modo inocente fingindo uma dor nas costas. – Eu trouxe uma torta de limão para seu lanche, Mestre. Mas infelizmente o senhor Abberline disse que seria necessário confiscá-la.

– Esqueça a torta. Chegue mais perto, preciso falar com você.

Sebastian aproximou-se das grades. Percebendo que Randall os observava atentamente, Ciel puxou Sebastian pela gravata, ficando os dois mais próximos que o aconselhável, e sussurrou em seu ouvido de forma demasiadamente íntima. Depois falou em alto e bom tom:

– Será que posso ao menos conversar com meu mordomo em particular?

Randall, envergonhado, se afastou resmungando qualquer coisa como “ além de tudo é um degenerado”. Assim que o velho se afastou, Ciel continuou.

– Ouça com atenção, Sebastian, fará exatamente como eu disser...

.

.

– O que está fazendo aqui Lady Elizabeth? – indagou Gray assim que viu a senhora Phantomhive entrar em seu escritório.

– Vim exigir que entre em contato com os energúmenos da Scotland Yard e providencie a soltura do meu marido. Agora.

– Gostaria muito de poder ajudá-la, mas não posso.

– Claro que pode! Vocês sabem muito bem que ele é inocente. Por que insistir nessa idiotice de mantê-lo preso?

– A população está em pânico. E dar a ela um culpado, um culpado que está preso a manterá calma por enquanto. Até acharmos o verdadeiro culpado.

– Têm noção da tamanha idiotice que acabou de dizer? Quanto mais tempo Ciel ficar preso, mais tempo o inimigo terá para agir. O país está um caos, como espera que Ciel aja estando preso?

– Sim, eu sei. Faz ideia de quantas pessoas o viram na cena do crime? Não podemos simplesmente soltá-lo sem provas do verdadeiro assassino para apresentar a população.

– E por isso vão prender um inocente?

– Inocente?! Ele pode ser inocente nesse caso, mas acredito que essa palavra não se aplica ao Cão da Rainha – sorria como se tivesse ouvido uma piada. O rosto da loira ficou vermelho de raiva.

– Escute aqui, seu infeliz! – Elizabeth apontou o leque para o nariz de Gray. – Se algo acontecer a Ciel ou a rainha, saiba que a culpa será sua. Passar bem, senhor Gray.

A loira saiu batendo a porta com força. Sabia que aquele não era um comportamento nada fofo, mas estava furiosa. Esbarrou no visconde Weatherfield no corredor.

– Perdão senhor.

– Oh, não se preocupe. A propósito, sinto muito por seu marido. Deve ser realmente difícil e vergonhoso para uma jovem dama como você...

– Não há do que ter vergonha. Meu marido é inocente.

– Acredito que sim – o homem colocou o braço em volta dela de maneira muito intima. Era impressão ou o homem estava se aproveitando dela. – Se precisar de alguém para se consolar...

Elizabeth ficou horrorizada. Não tinha conversado muito com Jonanthan Weatherfield no passado, mas aquele atrevido não se parecia com o homem gentil que se apresentou a ela certa vez. O homem ainda deslizou os dedos pela alça do seu vestido e tentou tocar sua clavícula, mas se refreou, olhou para os seios da mulher descaradamente.

– Agradeço, mas vou recusar – a loira falou livrando-se dos braços do homem.

– Certamente – falou a contragosto.

Elizabeth pôde jurar ter visto um brilho estranho nos olhos do homem.

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Com suas intrigas, Weatherfield e Dhalion conseguiram gerar um estado de descontentamento e desconfiança entre as nações. Aproveitaram-se da prisão de Ciel para forjar atentados de um país contra outro, colocando a Inglaterra como suspeita na maioria das vezes. A rainha Elizabeth e o príncipe Eduardo sabiam quem estava por trás disso tudo, mas os outros países não, e dificilmente acreditariam. Por isso tentavam manter a situação política equilibrada. Isso se mostrava uma tarefa quase impossível quando um oficial condecorado alemão é atacado sem razões aparentes por soldados ingleses, que ao serem capturados não se lembravam sequer de terem saído de suas casas, muito menos de terem tentado matar alguém.

– Isso é um absurdo sem tamanho! Acha que somos tolos para crer em tão absurda desculpa? O que a Inglaterra pretende com isso? – esbravejava o embaixador alemão ao exigir a prisão dos tais soldados.

– Isso será resolvido, Senhor – dizia um ministro inglês. – Garantimos que nosso país não teve qualquer participação com esses atentados. Nenhum interesse político. Foi apenas um incidente infeliz.

– Há! A quem vocês querrem enganar? – ironizou o cônsul francês. – Um de nossas navios forram atacados porr uma navio de bandeirra inglesa. Que isso enton? Voltamos a erra da pirratarria?

– É isso esmo....

– E onde está a rainha?

– Por favor, acalmem-se! – os ministros ingleses tentavam apaziguar. Mas logo todos entravam em discursão.

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– Possessores. De uma classe mais baixa. Servos.

Sebastian conversava com Undertaker, Elizabeth e os três servos na sala da mansão Phantomhive.

– Então você também pode senti-los – o funerário falava de maneira arrastada rondando o mordomo. – Sim. Muitos deles entraram no Domínio Humano nas últimas semanas.

– O que eles fazem? – Finnian perguntou.

– Possuem os humanos. Roubam seus corpos e fazem o que querem com eles – Undertaker explicava com um sorriso no rosto.

– Isso significa que o Possessor que procuramos deve possuir uma seita própria. Um lugar para convocar os seus servos. E consequentemente as mulheres devem estar servindo pra isso – Sebastian explicou.

– E por que mulheres grávidas?

– Não sei. Cada demônio com sua obsessão.

Os olhos de Undertaker corriam de Sebastian para Elizabeth com grande excitação. Por fim decidiu falar:

– Há algo que esqueci de contar ao conde. As mulheres encontradas. Os fetos não estavam mais em seus ventres.

– Que horror! – a loira exclamou chocada. Sebastian estreitou os olhos para o shinigami. – Ei de vingar a morte do meu filho e dessas pobres mulheres. Sebastian, se você pode sentir esses possessores, não poderia rastrear o lugar onde eles estão? Onde estão escondidos?

– Não se estiverem possuindo um corpo humano. E a seita deve ser um lugar protegido contra anjos e... eu. Se não fosse assim, eu já teria encontrado.

– Acho que eu posso encontrar o local da seita – o shinigami confessou.

– Como? – todos perguntaram em uníssono.

– Isso é comigo. Mas saberíamos apenas onde as mulheres podem supostamente estar. Mas não seria sábio ir lá sem antes saber quem é o humano portador do demônio que devemos capturar.

Repentinamente Elizabeth pôs-se de pé. Agitada. E caminhou em direção a Sebastian, postando-se de frente para ele. Muito próxima. O mordomo deu um passo para trás, estranhando a atitude da loira tanto quanto os outros. A mulher se aproximou dele novamente, quase tocando seus corpos. O mordomo automaticamente recuou.

– Me estrangule. Com as mãos – o akuma a olhou como se ela tivesse enlouquecido. – Anda logo!

Sebastian direcionou as mãos para o pescoço da mulher, mas refreou-se encarando com severidade os seios da loira. Elizabeth deu um salto para trás e apontou o dedo para o mordomo como a criança que encontra alguém numa brincadeira de esconde-esconde.

– Você olhou pros meus seios. E não conseguiu me tocar! – Sebastian chegou a ficar encabulado com a afirmação absurdamente sem propósito. Maylene ficou completamente vermelha. Os outros tiveram certeza de que a loira tinha ensandecido. – Você não me tocou. Você olhou para meus seios. DEUS! Eu sei quem é o possuído! Aquele infeliz, mentiroso, falso, traiçoeiro e aproveitador. “Sinto muito” ele disse, pois sim.

– Ahhhh.... Lady Elizabeth? – Sebastian a chamou.

A loira puxou a correntinha dourada que usava no pescoço. E algo como um apito dourado e comprido saiu do abrigo de seu busto. Uma pequena flauta dourada. A Flauta Celeste.

– O anjo Iridel me deu isso. Acho que repele demônios também.

– Não repele – Sebastian disse –, mas dá certa repulsa.

– Visconde Weatherfield. O encontrei quando fui falar com Gray. Ele tentou me galantear, como nunca tinha feito. Não era seu feitio. Mas ele recuou ao se aproximar de mim. A expressão foi a mesma que Sebastian fez. Ele olhou para o meu seio. Eu achei que era pro meu seio, mas era pra Flauta Celeste. Ele não sabia que estava escondida aqui. É ele. Tenho certeza, Sebastian.

A loira vibrava.

– Vou confirmar isso. E tirar meu Mestre daquele lugar. Mas antes disso, preciso que aprenda isso, Meylene também.

O mordomo entregou um livro antigo nas mãos da loira. A empregada se sentou ao lado de Elizabeth.

– O que é? Está em latim.

– Rituais de banimento. Precisam saber como vamos mandar o demônio de volta para o inferno. Se ele realmente estiver em Weatherfield.

– E por que só elas e nós não? – Bardroy perguntou sentindo-se injustiçado.

– É. Por que nós não? – Finnian lhe fez coro.

– Por que o Mestre disse que seria perda de tempo tentar ensiná-los.

– Acho justo – Bard deu de ombros.

– Está faltando algumas páginas – Elizabeth falou analisando os restinhos de folhas no meio do livro.

– Eu arranquei a parte que se referia aos Akumas.

– Acha que eu usaria contra você? – perguntou indignada.

– Acredito que não. Mas como dizem os anjos: é melhor manter a tentação longe dos olhos.

– E como vai libertar Ciel?

– O plano do Mestre é o seguinte...

Notas finais do capítulo
Mereço comentários? não sejam maus T.T Então.... eu não escrevo a história em linha contínua, escrevo cenas, partes, depois vou encaixando, conclusão o inicio e o fim do capitula estão prontos, mas o meio não. então postei só o inicio....pensei um negócio aqui...vou tentar postar capitulos mais curtos, mas com mais frequencia....o que acham? sim, não? eu disse que vou tentar...mas pra fazer isso, claro, alguns capítulos poderão ficar com a ideia cortada pela metade...mas... fico preocupada pq cada dia fico mais atarefada e falta tempo pra escrever, mas vou fazer um esforço. amo vcs




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