Sob a Luz do Sol

Autor(es): Tatiana Mareto


Sinopse

Beatrice decidiu ir embora do covil, para conhecer um mundo diferente. Em contato com o sol e com a realidade humana, tudo parecia funcionar.. até que ela descobriu que não conhecia certas regras. E que o jogo já havia começado.


Notas da história
ATENÇÃO LEITORES. EU LAMENTO, MAS SEM QUERER ACABEI DELETANDO A HISTÓRIA DURANTE UMA EDIÇÃO MAL SUCEDIDA. POSTEI NOVAMENTE ATÉ ONDE TINHA PARADO, MAS PERDI SEUS REVIEWS. LAMENTO MUITO, E ESPERO QUE TODOS CONTINUEM APRECIANDO A LEITURA! ;)

Sob a Luz do Sol é uma história que mistura duas realidades e cria algumas lendas novas.

As histórias de Twilight Series e todos os seus personagens pertencem à autora Stephenie Meyers.

Os demais personagens foram criados por mim.
As situações hipotéticas e algumas lendas também.



Os seres alternativos foram criados por mim. Quando escrevi, só havia lido Crepúsculo. Então, as coincidências entre a personagem Beatrice e outras histórias dos livros Lua Nova, Eclipse e Breaking Dawn decorrem do fato de tanto eu quanto a Stephenie termos estudado para compor os personagens ^^

Lembrem-se, essa é uma história de FANTASIA. Retrata aqui a idéia do autor, e as adaptações para que esta idéia se encaixe em um contexto. Algumas partes confrontam a realidade, outras os mitos já existentes, e outras trazem coisas completamente novas. Não pretendo retratar seres sobrenaturais com a precisão de uma lenda, ou colocar características muito próximas à "realidade alternativa".
Novamente, é uma FANTASIA. Seja bem vindo a ela ^^

Índice

(Cap. 1) Prólogo
(Cap. 2) Capítulo 1 - Vagando
(Cap. 3) Capítulo 2 - Os Outros
(Cap. 4) Capítulo 3 - Família
(Cap. 5) Capítulo 4 - Edward
(Cap. 6) Capítulo 5 - Compreensões
(Cap. 7) Capítulo 6 - Eles
(Cap. 8) Capítulo 7 - Outras Compreensões
(Cap. 9) Capítulo 8 - O Sol
(Cap. 9) Capítulo 9 - Garotas
(Cap. 11) Capítulo 10 - A Visão
(Cap. 12) Capítulo 11 - A Escolhida
(Cap. 13) Capítulo 12 - Apaixonada
(Cap. 14) Capítulo 13 - Connor
(Cap. 15) Capítulo 14 - Normalidade
(Cap. 16) Capítulo 15 - A Visão
(Cap. 17) Capítulo 16 - Experiências
(Cap. 18) Capítulo 17 - Europa
(Cap. 19) Capítulo 18 - Vertigem
(Cap. 20) Capítulo 19 - Maternal
(Cap. 21) Capítulo 20 - Realidade
(Cap. 22) Capítulo 21 - Redenção
(Cap. 23) Capítulo 22 - Redenção
(Cap. 24) Capítulo 23 - Decisão
(Cap. 25) Capítulo 24 - Humanidade
(Cap. 26) Capítulo 25 - O casamento - parte 01
(Cap. 27) Capítulo 25 - O casamento - parte 02
(Cap. 28) Capítulo 25 - O casamento - parte 03
(Cap. 29) Epílogo


(Cap. 1) Prólogo

Notas do capítulo
Ainda estou começando. É a primeira vez que escrevo algo e vou postando durante a escrita, gradualmente.

Espero que gostem! ^^

Foi rapidamente que decidi ser a minha hora. Eu estava cansada... simplesmente cansada de tentar fugir daquilo que eu realmente era.

_Não me esconderei mais. – Foi o veredicto, tão logo pude me dirigir a Randolph.

_Não tens opção. – Rudolph disse, saboreando o líquido avermelhado dentro de uma taça. – Ah, isso é quase tão bom quanto deveria ser.

_Rudolph... – caminhei até ele, olhar aflito. – parece que não me leva a sério. Mas falo sério. Vou embora...

_Embora para onde? Pretende sair ao sol, ir à terra, entre eles? O que sabe deles, Beatrice? O que sabe deles que te faça acreditar que poderá estar entre eles?

_Eu não sei nada, talvez seja essa minha inquietação.

Rudolph franziu o cenho, e deixou de lado a taça de odor nauseante. Eu o encarava, tentando entender onde encontrei coragem suficiente para desafiá-lo. Se aquele meu arrobo adolescente pudesse ser considerado desafio.

_Beatrice... não há nada neles que precise conhecer ou saber; nada deles é interessante. São mortais... eles envelhecem, engordam, alimentam-se...

_Também nos alimentamos. – Corrigi.

_É diferente, muito. Eles produzem dejetos... têm cheiros muito, mas muito confusos para nossas narinas sensíveis... eles são desagradáveis.

_Vivemos sob a terra. Não seríamos também desagradáveis a eles?

_E se eles desejarem matar-te? – Rudolph jogou-me uma isca.

_Podem matar-me? – Não me deixaria fisgar tão facilmente.

_Podem tentar. Podem descobrir fraquezas... mas pode ser pior... e se desejar matar-lhes?

_Vou desejar... não vou? Afinal, nossa alimentação não é baseada exclusivamente em...

_Sim, é. – Rudolph não me deixou falar a palavra. – Mas estás mesmo pronta para... matar, Beatrice? Conseguiria conviver com a morte de um humano em seus braços?

_Não desejo matar-lhes. Sei reprimir o instinto.

Rudolph soltou uma gargalhada. Pegou novamente a taça sobre a mesa, e aproximou-a de mim. O odor era desagradável, sim. O líquido viscoso não parecia saboroso, e ele sabia disso.

_Consegue bebê-lo? – Ele desafiou.

_Sim, se desejar. Alimento-me disso.

_Conseguiria resistir se ao invés deste cheiro fétido tivesse em sua frente o mais refinado dos banquetes? Preferiria a taça morna de sangue desconhecido à veia pulsante e viva de cheiro esfuziante?

Mantive-me muda, então. Rudolph riu novamente, e bebeu todo o conteúdo da taça, deixando o salão. Ele era irritantemente sábio. Sempre certo, sempre conhecedor demais de tudo que eu desconhecia. Mas eu já havia tomado minha decisão. Eu iria para o meio deles, mesmo que isso significasse algo ruim. Não passaria o meu “para sempre” ali, solitária. Eu queria mais, mesmo que mais significasse... menos.





(Cap. 2) Capítulo 1 - Vagando

Saí do covil sem que eles me vissem. Não queria que os meus me condenassem sob minhas vistas. Não queria que eles me criticassem durante minha incursão ao mundo deles. Ok, isso ficou confuso, não acham? Eles, deles… bem, os meus raramente nomeavam aqueles que viviam sob a luz do sol, e que tinham o sangue quente. Eles têm nome, humanos. Mas os meus não os nomeiam… porque foram eles que nos expulsaram de lá. Lá, a terra… o ar, a luz do sol. Fomos confinados a viver sob a terra, porque eles, os humanos, não nos queriam lá. Lá, na superfície.

Mas eu saí do covil, fugindo. Eu levava algumas roupas em uma pequena maleta. Quase corri, arrastando o vestido. Ao me aproximar da saída, a luz cegou meus olhos. A luz que eu nunca vi… bem, eu vi. Mas não me lembrava de ter visto. Eu tinha poucas memórias de quando era somente humana, e depois que me transformei e fui abrigada por Rudolph, eu nunca mais saí do covil. Não via a luz do sol, não me recordava dela, e tive medo que ela me fizesse mal.

Mas ela não fez. Meus olhos se retraíram ao primeiro contato com a luz amarelada e pálida do astro solar, e minha pele pareceu arder um pouco. Ardeu… olhei para cima, para frente, e eu estava em um local totalmente claro, sem luz artificial, cercada de cores. Cores… eu conhecia poucas cores. Sob a terra não se vê muitas cores, é tudo basicamente marrom, vermelho, preto e branco. Algumas variações. Eu mesma usava um vestido branco e vermelho. Era mais fácil camuflar quando nos alimentávamos, o vermelho.

Então, o sol não me machucava. Interessante. Talvez eu tivesse ouvido lendas demais, contadas por Felicia. Ela adorava contar lendas… e eu adorava ouvi-las. As mais interessantes eram sobre eles. Os humanos. Como eram frágeis e … Rudolph disse, não, ele garantiu… que nada neles era interessante. Mas eu me recusava a acreditar. A simples diferença nos fazia interessante.

Eu não tinha noção geográfica, e não sabia onde estava. Se é que isso fazia alguma diferença; se eles tivessem divisões e demarcações. Eu não sabia. Olhei em volta novamente, tentando situar-me. Havia verde… eu não me recordava de um verde daquela cor. Sob a terra o verde é tão diferente… é escuro e viscoso, como o sangue que bebíamos. Mas aquele verde era… vivo.

A palavra me veio à cabeça muito rapidamente. Vivo. O lado de fora era vivo… sob o sol, as coisas viviam. Sob a terra, eu imaginava que tudo era semi morto. As coisas não possuíam vida… não a vida que eu imaginava que eles tinham. Pus-me a caminhar, lentamente, por entre o verde. A mistura da luz amarela com o verde me deixava confusa. Não conhecia a luz amarela… ou não me lembrava. Esfreguei os olhos várias vezes, tentando mantê-los límpidos. Eu não sabia onde estava, mas havia verde… e relva. A relva era verde. Caminhava, arrastando a maleta e o vestido enorme, vitoriano, os sapatos de salto de madeira já meio apodrecidos.

Pensei se os meus viriam atrás de mim. Se eles se importariam, ou se achariam que desgracei a raça. Deveríamos se considerados uma raça. Imediatamente imaginei se eu era diferente deles. Se eles me olhariam e me reconheceriam. Se saberiam o que eu era. Se nossos corpos eram diferentes, se alguma coisa física poderia nos diferenciar. Talvez sim, eu nunca tinha visto um deles. Ou não me lembrava. Era sempre assim… eu dizia nunca, mas na verdade, eu não me lembrava. Seria eu diferente? Uma aberração? Eu parecia um monstro?

Foi então que tive medo, pela primeira vez sob a luz do sol. Eu ainda caminhava, e o sol já deixava minha pele avermelhada. Eu era branca, porque assim eram todos os meus. Muito branca… e o sol não me machucava, mas minha pele estava vermelha e eu sentia que ela… coçava. Eu precisava parar, porque já caminhava por algum tempo. Eu não tinha a noção temporal deles… não fazia noção de como eles contavam o tempo, porque sob a terra era sempre tudo igual. Na verdade, não contávamos o tempo. Ele não passava, mesmo… parávamos de envelhecer tão logo nos transformávamos, e por isso o tempo jamais passava. Era sempre o mesmo… não importava se era dia ou noite, porque não havia qualquer luz além da artificial. Eu sequer tinha noção de dia e noite, porque só os como Rudolph eram autorizados a sair, vez em quando.

Vagando, achei uma sombra. Lugar onde não havia sol… sob o verde. Parei ali, o peito arfando. Nunca sentira nada daquilo… estava me sentindo estranha. Não conhecia palavras para aquele sentimento. Era um sentimento interessante, porque eu sentia a minha respiração… eu estava inspirando ar… ar puro. Nosso ar era canalizado. Nosso ar vinha de dutos que foram colocados por eles, para não nos matarem. Eu imaginava que eles, apesar de tudo, não fossem tão cruéis como Rudolph dizia. Afinal, eles não nos mataram. Talvez, matar-nos não fosse tão fácil… talvez, não precisássemos de… ar.

Foi quando parei de respirar. Fiquei sem respirar por alguns segundos… e ainda sentia a sensação. O barulho ambiente me irritava um pouco. À sombra, continuei sem respirar. Nada mudou… só o barulho que, lentamente, foi se exaurindo. Fechei os olhos, mas ainda estava tudo tão claro. E eu não respirava. Oras, eu não precisava de ar? Inspirei e soltei o ar pela boca, deixando que o oxigênio me refrescasse o sangue. Senti algo bom… uma sensação de alívio, e logo o ruído voltou. Então era assim? O ar parecia mais um prazer do que um dever. Oras, Felicia não havia me contado nada sobre essa… lenda.

Voltei a caminhar, sentindo minha pele menos quente. Eu era sempre fria, sob a terra. Lá era tudo frio, menos o sangue que bebíamos. O sangue era morno e fétido. Fora isso, tudo era frio e úmido. A luz do sol me deixou quente e arfante. Sensações que eu não conhecia. Não sei bem por quanto tempo vaguei… nem em que velocidade vaguei… eu só sei que o sol se esvaiu em determinado momento, dando espaço a uma escuridão pouco familiar. O céu estava cintilado de pontos luminosos, e uma grande bola acinzentada pairava no ar como se estivesse suspensa. Fiquei fascinada, por alguns instantes, sem saber o que era.

Algo aconteceu, enquanto eu me maravilhava com o mundo por sobre a terra. Caminhava de costas, adentrando cada vez mais no verde que já não era verde, até que a bola iluminada desapareceu e todos os pingentes de luz também. Grandes pedaços de verde escuro enegrecido estavam cobrindo o céu, e eu me vi realmente por entre… árvores. Eram árvores, pelo que eu podia saber. As grandes raízes penetravam sob a terra, e várias vezes questionei o que eram. Felicia me disse que eram a fonte de oxigênio deles. Oras, eles dependiam delas… das árvores. Por isso, tantas. Olhei par frente, e só vi as árvores. Para onde iria? Eu não sabia. Continuei andando, até que visualizei um animal.

_Você está pronta para matar, Beatrice?

A voz de Rudolph assombrou-me os ouvidos. Saltei para trás, meus olhos perderam-se no vazio buscando sua face redonda. Nada. Era apenas minha mente a me pregar peças. Olhei novamente o animal, e ele não parecia se dar conta de mim. Olhei para minha mão, e meus braços tinham pelos eriçados. Passei os dedos pelos lábios e senti o pontiagudo de meus caninos. Estava com sede? Precisaria de muito sangue para sobreviver sob o sol? Aquele que eu havia bebido no covil não me manteria saudável por muito tempo, como eu estava acostumada?

Encarei o animal, mas a sede não passou. Ele parecia mesmo não me ver… e eu não sabia o que fazer. Eu não estava pronta para matar. De repente, um outro animal pulou por sobre aquele, e o atacou. Ferozmente jogou o primeiro no solo, e dilacerou sua carne.

_Conseguiria resistir se ao invés deste cheiro fétido tivesse em sua frente o mais refinado dos banquetes? Preferiria a taça morna de sangue desconhecido à veia pulsante e viva de cheiro esfuziante?

As palavras de Rudolph, outra vez. Então, aquele era o cheiro do sangue fresco… ele penetrou em minhas narinas, e os pelos se eriçaram ainda mais. Senti um sabor doce em minha boca antes mesmo de provar qualquer coisa. Fechei os olhos… o animal continuava por sobre o menor, dilacerando partes de sua carne e expondo uma quantidade considerável de… sangue.

Meus olhos se abriram e minha reação foi assustadora. Pulei sobre o predador, afugentando-o. Ele ainda imaginou me enfrentar, mas eu parecia mais forte. Tomei-lhe a caça, e encarei o animal morto. Joguei-me por sobre a carcaça, abocanhando-a com ferocidade. O sangue me inundou a boca, e o sabor era indescritível. Não havia cheiro ruim ou viscosidade… era limpo, claro, não coagulado. Suguei o animal até não restar vestígio de seu cheiro mais. Olhei em volta, estava lavada de um vermelho claro que não parecia se misturar em meu vestido. Olhei para o animal, e dei conta do que eu havia acabado de fazer. Eu havia tomado sangue fresco. Talvez eu não fosse capaz de resistir, então.

Lancei-me em uma corrida frenética, assustada comigo mesma e com minha reação patética perante o animal morto que jorrava sangue. Eu não entendia aquele comportamento. Corri, sem saber para onde, sem saber se isso importava para eles, sem saber. Parei quando senti-me novamente cansada… precisava dormir um pouco.





(Cap. 3) Capítulo 2 - Os Outros

_Não sei como você pode perder o cervo. – Jasper reclamou. – Se fosse um animal feroz, ainda entenderia… mas um cervo?
_Não gosto de caçar com você, Jasper. – Edward protestou. – Você é muito chato.. Emmet não fica colocando defeitos em minhas preferências.

Os dois rapazes andavam pela mata. Eu não os via, nem ouvia. Eles vinham em minha direção, sem saber. Eles tinham presas expostas, e perseguiam algo pelo cheiro.

_Tenho sede. – Jasper vacilou, ao encontrar outro animal. – Bebo qualquer coisa, ou terei vontade de beber você

Ouvi ruídos. Grunhidos. Meus olhos estavam cerrados, mas meus ouvidos atentos como antenas. Sempre foram atentos… sempre ouvi muito bem. Aquele grunhido parecia de um animal. Um animal muito grande… e outros ruídos me preencheram os ouvidos e eu acordei plenamente. Abri os olhos, levantei as pálpebras rapidamente, e assustei-me. Finquei os dedos na terra, encarando o predador que me observava. Presas significativamente robustas… olhos acobreados… ele me encarava, e seu olhar me assustou. Franzi o cenho, pisquei algumas vezes, pensei em me levantar mas ele se aproximou. Tanto que seu nariz colou em minha roupa suja. Ah sim… eu estava suja. Do dia anterior. Eu achava, já que a noção de tempo me era confusa.

O predador cheirou-me, e empertigou-se. Colocou-se nas duas pernas, endireitou o jeans. Passou os dedos pelos cabelos e ofereceu-me a mão para levantar. Olhei diretamente em seus olhos, completamente aterrorizada. A forma era tão… ele parecia comigo. Seria um deles? Não… eles não tinham presas. Eles não caçavam com os dentes.

_Ora vejam… uma viajante. – Ele me sorriu, e eu só conseguia encará-lo com curiosidade. Não tinha medo dele, então… não sabia o que ele era. E não sentia nenhuma vontade de bebê-lo, como senti com aquele animal. Ou ele não era um deles… ou eu estaria segura no meio deles. Ou ainda, eu estava saciada. – Edward Cullen. – Fez uma reverência.
_Be… Beatrice Caldwell.

Ele então sorriu outra vez. O outro que o acompanhava chegou, e pude notar… minhas narinas puderam notar o sangue em seus lábios avermelhados.
_Edward é a sua vez… – Ele parou de falar ao me ver. – Humana? – Ele imediatamente alarmou-se.
_Não… uma viajante. – Edward sorriu. Ele parecia só saber sorrir…
_Sabe que não sou humana? – Foi minha vez de alarmar-me. Puxei minha mão, que ainda estava entre as suas, repentinamente.
_Não teria como errar… teria? – Edward pareceu confuso. – Apesar de que… por um momento, cheguei a confundir-me.
_Ela tem um cheiro… – o outro falou.
_Apresente-se, mal educado.
_Jasper Cullen. – Outra reverência. – Então, vaga sozinha? Ou tem família e está somente caçando?
_Não estou caçando! – O termo me causou desconforto. Eu não caçava…
_E esse sangue todo aí é seu, então? – Uma risada. Os dois rapazes se entreolharam. Eu me senti ridícula. Olhei para minhas roupas, e estava mesmo preenchida de sangue. Havia sangue por toda a extensão do vestido. E em meus cabelos longos.
_Eu… – Não tive palavras.
_Tudo bem… você me parece confusa. Talvez o sangue estivesse contaminado… pertence a algum clã? Precisa de ajuda para chegar em casa? Você.. está meio que em nosso território.
_Eu não tenho para onde ir. – Olhei diretamente nos olhos de Edward. Ele era muito… bonito. Mais do que os meus. Se ele não era um deles, o que ele era? Arfei, puxando uma grande quantidade de ar para meus pulmões. Seu aroma era doce, quase nauseante. Muito doce… senti repulsa e ao mesmo tempo, meu estômago pulsou. – Eu… o que são vocês?

Uma risada. Alta, daquela vez. Os dois novamente se olharam. E pareciam divertir-se com minha estupidez.
_O que é você? – Jasper me fitou. Ele estava mais próximo. – Somos vampiros, oras… você deve mesmo ter tomado sangue contaminado.
_Eu não sou um vampiro. – Balbuciei, olhos arregalados a encarar os dois. Vampiros! Eles não deviam existir… ou deviam estar exilados, como nós. Os vampiros… eles eram puros. Os puros eram os mais perigosos. Felicia não falava neles. Rudolph não falava neles. Todos temiam os puros. Mas… o que eles faziam andando ao ar livre?

E os dois me fitaram, então com muita curiosidade.
_O que é você, então? – Edward parecei cheirar-me novamente. – Você… não cheira como humana.
_Sou um híbrido.

Outra risada, mais alta ainda. Os dois gargalhavam de mim, porque minha frase pareceu um absurdo completo.
_Híbridos não existem! – Edward ria.
_São uma lenda! – Jasper segurava o estômago.
_Não são! – Protestei. Afastei-me dos dois, talvez com medo, talvez com ansiedade. – Não somos lenda… eu sou um híbrido.
_Híbridos não existem. – Edward então aproximou-se, segurando minha mão. – Você está muito confusa, acho que devemos levá-la para nossa casa.
_Ficou doido? – Jasper pareceu não concordar com o outro.
_Carlisle não vai ligar… ele vai até gostar. Não recebemos muitas visitas.. e ela é uma de nós, não temos que nos preocupar com a exposição. Talvez ele possa tratar dela… e ela deve tomar um banho. Daqui a pouco outros predadores com menos consciência vão atrás dela.
_Se ela é um de nós, não precisamos nos preocupar.

Edward puxou minha mão, sorrindo para mim. Ele sorria lindamente… cheguei a pensar que era mesmo um macho. E eu, uma fêmea. Mas não, não éramos da mesma espécie. Vampiros.. não conhecia nenhum. Jurava que eles não existiam. Que eles haviam sido banidos. Deveria temê-los? Aqueles pareciam tão inofensivos… decidi então segui-los, afinal eu não sabia para onde ir mesmo. Eu não tinha para onde ir.

_Espere. – Edward parou, pouco depois de iniciarmos nossa caminhada. – Ainda não me alimentei.
_Vá fazê-lo, então. – Jasper pareceu entediado. – E não demore.

Edward desapareceu, uma velocidade excruciante. Assustei-me, e Jasper pareceu achar graça das minhas reações. Elas não deveriam ser muito objetivas, claro. Eu vivenciava coisas que ignorava existirem. E estava na companhia de dois puros. Sentia-me confusa, demasiadamente confusa. Jasper pareceu desconfortável comigo, eu senti. Aquilo foi interessante… eu senti o desconforto dele próximo a mim. Talvez ele não acreditasse que eu fosse híbrida, mas também não sentisse que eu fosse inteiramente um vampiro.

Quando o vampiro de olhos dourados retornou, fui levada, guiada até uma clareira. Um espaço grande, sem as árvores, e com uma… estrutura interessante.
_Essa é nossa casa. – Jasper disse, apresentando a estrutura com uma palavra que me era familiar. – É aqui que moram os Cullen… o que acha?
_É… interessante. – Disse, olhando boquiaberta para a enormidade.
_Você parece assustada. – Edward disse. Ele também pode sentir?
_Eu estou… eu nunca vi… uma casa.
_Nunca viu uma casa? – Jasper gargalhou. Ele parecia sim.. divertir-se com a minha ignorância. – De que planeta você é?
_Morava sob a terra. – Confessei.

Os dois novamente se entreolharam. Será que acreditariam em mim? Ou teria que demonstrar? Edward abriu a porta, e conduziu-me para dentro. Os dois sorriam em direção a uma mulher que chegava, e que me encarava de forma nada sutil. Eu olhei em volta, e estava dentro da casa. Casa… minha casa, o lar, era algo muito diferente. As paredes não tinham cor, e os móveis não eram.. como aqueles. Os móveis ali tinham o aspecto macio. Suave. Como o toque da seda. Eu estava dentro de uma casa… seria parecida com a casa deles? Eu ainda tinha a idéia fixa de me encontrar com eles.

_Esme, bom dia. – Edward fez uma reverência. – Carlisle está em casa?
_Por sorte sim… está no seu escritório. Vocês… trouxeram uma amiga? – A mulher me observava ainda.
_Essa é …
_Beatrice Caldwell. – Senti-me instigada a me apresentar. Também fiz uma reverência.
_Gostaríamos de falar com Carlisle… Esme, você poderia ajudar Beatrice a lavar-se? – Edward sorriu para mim. – Parece que ela teve problemas com a comida.

Jasper novamente caiu na risada, e Esme também riu. Esme.. que nome interessante. Aliás, os nomes eram interessantes. Edward me agradava o som. Os rapazes sumiram em segundos, enquanto a mulher me conduziu para um outro ambiente, branco. Tanto branco que chegou a incomodar meu olhar.
_Você pode banhar-se aqui. – Ela abriu uma porta. Um lavatório… muito diferente do nosso. – Vou buscar toalhas limpas e uma roupa para vestir. Você… deve vestir o mesmo que Alice, tão pequena.

Eu era pequena? A mulher fechou a porta atrás de si, me deixando sozinha no cubículo que não era nada pequeno. O banheiro dos meus era antigo… muito antigo. Não tínhamos nos modernizado, porque a tecnologia não importava lá embaixo. O banheiro sequer tinha água quente… bem, água quente era um dos mitos de Felicia. Mas para que água quente, se não sentíamos frio? Era tão desnecessário… então, não tínhamos. Era tudo frio. Então despi-me, envergonhada sem saber por que, e liguei o chuveiro. Meio confusa, afinal, de como usar toda aquela parafernália.

Batidas à porta, e a voz de Esme ecoou. Eu já reconhecia sua voz, era muito boa para reconhecer vozes. Dos outros. Ela entrou, e eu me senti mais envergonhada ainda. Sorridente, Esme deixou-me toalhas e roupas. Ela disse qualquer coisa sobre alguém de nome Alice e depois retirou-se. A água deles era mais gostosa do que a dos meus. E parecia mais limpa. Senti-me revigorada. Limpa, sim. Mas não ousaria demorar-me, afinal. Aquela não era minha água… finalizei o banho imediatamente, e saí. Enxuguei-me e tentei caber nas roupas que me foram ofertadas. Muito diferentes do meu vestido… Havia um grande espelho na minha frente, e me fiz ver por ele. Calças… as fêmeas não usavam calças entre os meus. Calças e uma blusa; senti-me muito estranha.

Saí do banheiro, e Edward me aguardava do lado de fora. Recostado na parede, ele me encarou assim que eu saí, e ele inspirou o ar profundamente.
_Muito melhor… não parece mais um cervo. – Ele riu.
_Eu não parecia um cervo. – Protestei.
_Cheirava como um. Foi o que jantou ontem?

Envergonhei-me com a pergunta, e ele novamente pareceu divertir-se com isso. Conduziu-me então a outro ambiente… subimos escadas… e encontramo-nos com outra pessoa. Um homem mais velho. Ele parecia mais velho, mas não tão velho como Rudolph. Tinha cabelos muito bonitos, macios.
_Carlisle, essa é Beatrice. – Fui apresentada. Ele se virou para mim, curioso.
_Beatrice. Muito prazer… os rapazes me disseram algo intrigante a seu respeito.
_Deve ser que cheirava a cervo. – Eu não sabia se tinha senso de humor. Ou se eles tinham. Mas riam tanto… deveriam ter.
_Ela disse que é uma híbrida. – Jasper parecia excitado. – E eu disse que híbridos não existem…
_Eu também pensei que não. – Carlisle me fitou. Eu me senti em um observatório. Todos me olhava minuciosamente, como se eu fosse um experimento. – Mas… eles me disseram que você não cheira como um de nós.
_Eu não sei. – Falei, olhando para baixo. – Mas sei que sou híbrida.
_O que guarda de sua humanidade? Pode ferir-se?
_Sim, posso.
_Tá brincando! – Jasper alterou-se. – Você… sangra?
_Sim, eu sangro. Eu me machuco com certa facilidade, em verdade. Sou muito… delicada. – Envergonhei-me novamente, porque levantei os olhos e os três ainda me encaravam.
_O que acontecerá se eu te ferir, agora? – Edward perguntou, sombrio.
_Eu me regenero. A parte vampira…
_Sim, claro. A regeneração. – Carlisle parecia entusiasmado. – E o que mais? Você… adormece? Seu coração pulsa? Alimenta-se de algo além de sangue?
_Eu… – fechei os olhos, respirei fundo. Aquela conversa me aborrecia… mas eles me acolheram. Eu deveria ser grata e saciar-lhes a curiosidade. – Eu adormeço, sempre. Tenho sono, e sonhos. Meu coração pulsa lentamente… quase não posso senti-lo. Ele pulsa para levar o oxigênio pelo meu corpo. Eu respiro… mas estranhamente creio que não precise de ar. Já tentei.. quero dizer, já fiz o teste. E eu só me alimentei de sangue, até agora. Sob a terra… nada mais cresce, só para baixo.

Acho que eles entenderam que aquele assunto me aborrecia. Pararam o interrogatório e ficaram algum tempo em silêncio.
_Poderia… testá-la? – Carlisle aproximou-se. Elevei o olhar, e ele tinha algo em suas mãos.
_Sim, poderia. – Eu o encarei, sem temor. Seja lá o que ele fosse fazer, eu não imaginei nada ruim. – Se vai me golpear intentando me ferir, poderia golpear-me em um lugar mortal para os humanos. Assim, teria certeza.

Carlisle respirou fundo, como se adquirisse coragem para fazer o que faria. Vacilante, ele desistiu. Mas Jasper lhe tomou das mãos o objeto e veio em minha direção. Pensei em correr, era instintivo. Eu ali não era predador, era caça. Mas novamente não temi. Jasper me golpeou no meio do peito, atingindo em cheio meu coração. A dor dilacerante dominou cada célula, viva ou morta, de meu corpo. Caí ao chão desfalecida, sentindo-me partida em pedaços. Aos poucos, meu coração recomeçou a pulsar, tão lentamente que parecia sem vida. Quase o era. Respirei, e passei a mão no local da ferida. O objeto estava caído ao chão, e eu totalmente regenerada.

_Isso é impressionante. – Carlisle parecia não acreditar. – Uma híbrida!
_Eu disse o que era. – Falei, mais aborrecida ainda. – Poderiam ter apenas acreditado.
_Desculpe-nos. – Edward ajudou-me a levantar. – É que… nunca ouvimos falar de um híbrido.
_Não vivemos sob o sol. – Recompus-me, com alguma dificuldade. – Nós… fomos exilados, muitos anos atrás. Eu não sabia que os puros podiam viver ao ar livre.
_Não podemos. – Jasper considerou. – Não sabem o que somos.
_Eles não sabem? Mas como… como se escondem? Somos parecidos com eles? – Minha vez de perguntar.
_Sim, somos. Fisicamente, quero dizer… temos aparência semelhante. – Edward sorriu. – Mas somos mais bonitos.

Risadas. Melhor do que golpes no coração, eu tinha que admitir.
_A que clã pertence, Beatrice?
_Aos Caldwell. Mas… eles não me seguiram. Saí sozinha de nossa clausura…
_Vai viver onde?
_Não sei.
_Pode ficar conosco, se quiser.
_Mas Carlisle… era é… meio humana. – Jasper considerou.
_Ela é meio vampiro. – Ele sorriu. – Será bem vinda à nossa casa





(Cap. 4) Capítulo 3 - Família

****** Enquanto isso, no covil dos Caldwell ******

_Alguém viu Bea? – A pergunta de Felicia.
_Não, ela não esteve em seu quarto hoje.
_Então ela desapareceu! – Felicia assombrou-se. – Bea não está em lugar algum do covil.
_Ela deve ter feito o que prometeu. – Rudolph aproximou-se.
_E o que seria isso?
_Ela foi até a superfície. Foi conhecer o mundo deles.
_Ela enlouqueceu!!! – Felicia desesperou-se. – E se ela se encontrar com eles? Pior, com os outros?
_Bea sabe defender-se. Deixarei que ela fique mais algum tempo sob o sol… depois vamos buscá-la. Eu e Ferdinand.

Os Cullen pareciam interessantes. Não eram eles… mas conviviam com eles. Talvez isso me ajudasse. Porém eu era um objeto tão curioso para os puros que me acolheram quanto eu era para eles. Outros puros apareceram depois, de nomes Emmet, Rosalie e Alice. Alice, a que me cedera forçadamente as roupas. Todos me cheiraram… e todos riram com a simples menção da palavra híbrido. Carlisle precisou deixar claro que eu fora testada, com sucesso. E que aquela descoberta era muito fascinante. Descoberta… eu era um achado científico, então. Eles, bebedores cruéis de sangue, e eu, um experimento.

Mas eu também era um cruel bebedor de sangue. Depois de provar o sangue fresco, senti-me saciada… como não me sentia há tanto tempo. Talvez eu não fosse nada diferente deles, e o que restava de minha humanidade fosse apenas uma fraqueza. Após o interrogatório e a bateria de testes, decidiram acomodar-me em algum lugar. Eu precisava de um lugar diferente do deles… os puros não dormiam. E eu sim, tinha sono. Pouco, mas tinha. O adormecer me era penoso, mas eu não conseguia livrar-me dele.

_Seu mausoléu é assim? – Esme perguntou, enquanto terminava a organização do meu espaço. Fora escolhido um quarto não utilizado na casa e ela tentava arrumá-lo para mim. – Espero que a palavra mausoléu não a incomode… é como visualizo um covil.
_Não, é úmido. – Disse, entrando. – E sim… pode nomear mausoléu. Não há claridade lá, só artificial. Nem… – toquei meus dedos em uma almofada, macia. – coisas como essas.
_Vai ficar bem aqui, Beatrice.
_Pode chamar-me de Bea… é como Felicia me chamava.
_Sua mãe?
_Minha tutora… não temos pais e mães… não sei, é confuso.
_Também não temos filhos aqui, Bea. – Esme foi gentil. – Eu tive um, quando humana… mas perdi. Eles são meus filhos, os cinco. E Carlisle..
_É seu companheiro?
_Sim, pode dizer. As famílias aqui são menores, creio eu. Quantos vivem em seu covil?
_Muitos. – Tentei fazer a conta mentalmente. – Acho que somos uns 50… algo assim. Já perdi a conta. Não me relacionava com todos.
_Bastante gente. – Esme sorriu. – Bem, este será seu quarto. Fique à vontade se quiser… dormir? E… sua pele… notei que está queimada.
_Foi o sol. Eu… nunca vi o sol.
_Ele nos é cruel, não? – Esme riu. – Bem, deveria usar sempre mangas. Além de fazer frio aqui, as pessoas não vão estranhar.
_Vou conhecê-los? Quero dizer… eles… os humanos?
_Ah, claro que vai. Deve ir à escola… ou trabalhar. Quantos anos têm?
_Tinha 20, quando fui transformada. – Disse, tentando me lembrar.
_Boa idade. De certa forma, é interessante ser sempre jovem. Meus meninos são todos mais jovens do que você…

Senti algo queimar em minhas bochechas, e instintivamente levei a mão até elas. Calor. Havia algo quente ali. Olhei-me no espelho correndo, e havia um rubor pálido e esfuziante em minha pele. Eu estava… corada? Aquela reação de meu organismo à superfície era quase assustadora.

Fiquei naquele ambiente chamado quarto por algum tempo, considerando o que estava fazendo. Eu havia deixado o covil para explorar a superfície… para conhecê-los. E fora encontrada por puros, enquanto eu acreditava que eles não existissem. O mito encontra o mito. A experiência de beber sangue fresco foi brutal demais. Em pouco tempo do lado de fora eu já havia.. experimentado muito.

Mas, o que exatamente eu estava fazendo? Havia encontrado para mim uma… outra família? Uma família pequena, onde as pessoas se relacionavam diretamente… sem tutores ou criadores, somente com pais e irmãos? Aquele conceito familiar de humanos, que Felicia também narrava como se fosse um mito, uma fábula para nos fazer acreditar que nosso lado fraco era, também, um lado bonito. Então, eu estava procurando uma… família?

Aqueles conceitos me eram pouco familiares, afinal. O emprego do vocábulo era duplamente divagante. Estava absorta em pensamentos simples e inadequados quando a porta se entreabriu, exibindo timidamente a figura confusa de Edward. E seus olhos caramelados.

_Vim ver se está bem acomodada. Sabe como é… Esme e Carlisle desejam que sejamos bons anfitriões. – Ele sorriu. Parei então para observá-lo. Foi como se o tempo realmente parasse, enquanto ele estava ali, de pé, contrastando com a porta branca. Eu ainda não o tinha observado, só mirado em seus olhos. Ele tinha cabelos de fogo. Quando a luz lhe iluminava, o cabelo reluzia. De fogo. Os olhos pareciam variar… eu os vira de várias cores, então. Caramelo, pareciam naquele instante. Como… um doce. Eu sabia o que era um doce. Eu só nunca tinha saboreado… mas eu sabia o que era. Ele tinha olhos de doce. E sua pele era quase tão branca quanto a minha. Sua pele era… lisa. A minha tinha bolhas, do sol. Ele não. Os puros não tomavam sol, pensei. Se tomassem, não sofriam seus efeitos. Eram puros… pensei que temiam o sol, mas caçavam à luz do dia. Ele vestia roupas pouco convencionais para os machos da minha espécie. Usava sapatos muito estranhos, com cadarços esgarçados. Jeans eu conhecia, mas os machos mais velhos raramente os vestiam. E uma blusa escura agradavelmente contrastando com todo o branco, evidenciando contornos de seu corpo. Corpo… eu nunca vira o corpo dos machos.

_Eu estou bem. – Disse, lembrando-me que ele me fizera uma pergunta. Talvez.
_O que acabou de acontecer? Você… saiu do ar por alguns instantes.
_Não sou sempre alerta. – Brinquei. – Tenho fraquezas humanas… envergonho-me delas.
_Não deveria. Elas te fazem mais interessante.
_Não sou interessante. – Balbuciei. Ele se moveu e sentou-se ao meu lado.
_Quer conhecer o lugar? Dar uma volta?

Encarei o vampiro, curiosa. Sim, ele parecia tão inofensivo. Eu havia sido acolhida por sua família, não podia temê-lo. Até porque eu não era tão frágil. Acabara de ser golpeada de uma forma bastante letal, e estava bem. Mas eu era muito mais frágil que eles todos. Sentia-me inferior. Mesmo assim, considerei que Edward era meu… parente, então. Parente. Palavra estranha… entre os meus, a gente nem se tratava por parente. Mas parente era família, e em família poderíamos confiar. Eu queria acreditar quando aceitei “dar uma volta” com um puro. Eu devia mesmo estar ficando doida e sem nenhum amor à minha existência.

Colocamos o pé para fora do quarto e Emmet surgiu, enorme. Ele era tão grande que me assustava. Edward era grande, mas o suficiente. Emmet era quase… gigantesco. Ele jamais caberia onde os meus residiam. O grande vampiro queria falar algo com Edward, e eu não compreendi a comunicação entre eles. Era confusa. Eles falavam sem se falar. Os meus precisavam usar a boca e a língua para se comunicarem… aqueles puros pareciam usar outros métodos.

Depois da pequena conversa, dirigimo-nos para o quintal.





(Cap. 5) Capítulo 4 - Edward

*tema: Yuko Ohigashi’s “If You’re Not Here” (Kimi ga inaito)

O vampiro caminhava ao meu lado, enquanto eu me deslumbrava com tudo. O sol havia sumido, diversas nuvens o encobriam. Percebi que o local era nebuloso… e gelado. Havia ar gelado soprando, mais gelado ainda do que imaginava ser a pele dos puros. Ou a minha própria. Ele caminhava sem dizer nada, apenas caminhava. Mãos nos bolsos, pude notar que ele sorria. Seria possível que aquele vampiro tivesse tanto senso de humor?

_Diga-me… prefere ser chamada Beatrice ou Bea? – O gelo foi quebrado.
_Bea. – O apelido me era confortável. – Minha tutora me chamava assim.
_Tutora?
_Sim, ela me cuidou quando cheguei ao covil. Recém transformada.
_O que recorda de sua vida humana?
_Nada. Rudolph diz que isso é característica dos híbridos, não se recordar de nada. Porque… a vida humana não nos deixa.
_Ora vejam. – Ele pareceu ainda não saciado com os questionamentos. – Então, Bea… quantos anos tem?
_Vinte.

Edward coçou o queixo. Um raio de luz escapou das nuvens e o atingiu. Caminhávamos em direção ao amontoado de árvores que ficava por trás da casa dos Cullen. Ele brilhou, imediatamente, reluzente. Olhei um tanto aturdida para ele, tentando compreender como alguém poderia brilhar mais do que o próprio sol.
_Sua pele… – Comentei, vendo o brilho lhe escapar pelas mangas da camisa.
_É, esse sol irritante. Notei que ele não causa esse efeito em você.
_Não. Mas… tenho bolhas. – Puxei as mangas da blusa, visando esconder as marcas que o sol me deixara.
_Bolhas? – Edward parou instintivamente e agarrou meu braço, com força. Seus dedos frios me comprimiram a pele enquanto ele saciava sua curiosidade. – Você se queima, como os humanos. Aha, o sol então te machuca mais do que a um vampiro…
_Talvez porque eu não seja um vampiro. – Balbuciei em protesto. Ele me intimidava; não me sentia à vontade para falar em voz alta com ele, em contestação. Puxei o braço de volta e o cobri com as mangas. Não gostava, mesmo de expor minhas fraquezas.
_Bem, Bea… você precisa ter 17 anos agora. – Ele continuou seu diálogo. Já estávamos por sob as árvores, e o sol havia novamente se escondido. Daquela vez, permanentemente… pois pesadas nuvens negras tomavam o céu de assalto.
_Preciso?
_Sim. Vamos estudar… e precisa ser mais jovem.
_Estudar? – A tola parecia apenas repetir as palavras do jovem vampiro macho. Tola.

Edward riu. Seus dentes brilhavam por sob a claridade que ainda me perturbava, e então percebi que ele era… que ele me exercia algum tipo de atração. Claro, ele era um macho. O que eu deveria esperar? Não conhecia outros machos da minha idade, ainda não estava preparada para eles, dizia Rudolph. Super protetor, sempre. Olhando para aquele, eu considerava se Rudolph não estaria certo. Talvez eu não estivesse mesmo preparada para eles.

_Como vou explicar a você? Bem… vivemos aqui, na superfície, porque nos misturamos aos humanos, Bea. Eles não sabem quem somos… o que somos. Por isso, vivemos aqui. Então, fazemos tudo que eles consideram normal fazer. Jovens estudam. Você poderia manter sua idade, e trabalhar… ou ir para a Universidade. Mas não existem Universidades em Forks. E também, você não me parece muito habilitada a trabalhar… não conhece algumas coisas básicas dos humanos, pode ser perigoso e constrangedor.

Se ele não sabia como explicar, imaginei quando soubesse.
_Isso é… confuso. – Baixei o olhar.
_É sempre tão evasiva? – Ele se colocou à minha frente. Estávamos tão dentro das árvores que temi estarmos perdidos. Ou poderíamos nos perder…
_Evasiva?
_Sim… fala baixo, olha para o outro lado…
_Não sei bem o que dizer. – Virei-me para ele. Talvez eu fosse, então, evasiva. – Eu… acabo de deixar meu covil. Não estou com muita noção de tempo, mas imagino que muito não tenha se passado. Eu não sei muito daquilo que vocês sabem, aqui sob o sol. Eu sei coisas que talvez vocês não saibam, mas que provavelmente não precisarão saber. Eu… eu só queria deixar o covil, ver como seria estar… do outro lado.
_E agora, o que pensa? Está aqui, do outro lado. – Ele falava e caminhava de costas, sempre a me olhar.
_Eu ainda não sei.
_Vamos voltar. – Edward decidiu, e passou por mim como se eu fosse feita de ar. Estremeci, e o segui. Ele podia saber como sair do meio das árvores, eu não.
_Já vi o que tinha para ver? – Perguntei. Sarcasmo àquela hora talvez não me fosse útil.
_Ainda não viu nada. – Ele sorriu, outra vez. Senti então um arrepio. – Mas eu terei muito tempo para mostrar… algo me diz que sua estada em casa será longa.

Edward começou a andar novamente, e daquela vez mais rápido. O dia parecia esvair-se aos poucos… o dia, o sol. Eu não sabia direito como seria minha vida entre os Cullen. Ou se eu me demoraria entre eles. Se eles se tornariam meu novo clã. Ou se voltaria para o covil. Mas eu estava decidida a provar. Decidida a experimentar aquilo que Edward disse, estudar. Talvez mais coisas. Eu queria viver entre eles. Queria sentir a pele quente deles.

Chegamos à casa dos Cullen e Carlisle aguardava na varanda. Sentado, ele parecia sereno. Um vampiro sereno. Eu que sempre os imaginei com garras… imaginava vampiros como monstros. Porque eles assim me foram apresentados… extintos monstros bebedores de sangue humano. Eles pareciam bem pouco extintos em minha frente, então.

_Beatrice. – Carlisle me cumprimentou. – Edward, preciso lhe falar.
Aquela deixa foi para que eu me retirasse. Edward franziu-se, e eu entrei na casa. Não me sentia à vontade, mas Carlisle disse que queria falar com Edward… de uma forma bastante sugestiva. Entrei, fechei a porta e encostei-me na parede, já arfante. Aquela coisa de respirar ar fresco também me era novidade. Talvez oxigênio demais, o coração a pulsar mais do que devia.

_Diga. – Edward falou, e eu ouvi. Então, poderia ouvir-lhes a conversa. Seria errado, mas eu costumeiramente fazia isso, em nosso covil. Não havia padrões éticos em questão.
_Edward… que impressão teve da híbrida?
_Que impressão.. ela é uma híbrida. Ela é estranha… porque às vezes o vento muda e ela cheira como um humano. Um odor me que confunde… desejei beber-lhe o sangue quando a vi pela primeira vez.
_Acha que pode controlar-se ao seu redor? – A voz de Carlisle demonstrou preocupação. – Edward, ela é uma vampira também… esse comportamento não é adequado.
_Posso me controlar. Aliás, o seu cheiro não mais me atrai tanto, agora.
Oras, meu cheiro não o atraia! Aquilo me indignou, mesmo não devendo indignar. Tola, novamente. Como poderia sentir-me indignada porque um puro não desejava minha morte? Mas a indignação passou pelo fato de que eu não o atraía. Como fêmea.
_Bom saber. Edward, quero que seja seu companheiro.
Silêncio. Silêncio cortante, como o gelo do exterior. Carlisle disse a frase, e nada mais podia ser ouvido. Nem Edward, em resposta. Até que…
_Mas Carlisle… pensei que deixaria esta escolha para mim.
_E a escolha é sua, Edward. Acalme-se… será companheiro dela durante a estada. Como um… primo. Sim, pode ser seu primo. Ela, minha sobrinha. O que acha? Boa a idéia? Quero apenas que não a deixe meter-se em encrencas… a híbrida parece bastante ingênua.
_Sim.. ela é ingênua. A idéia é boa… podemos apresentá-la na escola como uma prima. Poderá estudar algumas disciplinas. E… poderemos testá-la para saber se comida humana lhe apetece. Sempre tive essa curiosidade.
_Edward, a híbrida não é uma cobaia. Não a teste. Sua função é estar presente, não causar problemas.
_Está certo, Carlisle. Tentarei não permitir que ela se encrenque.

Devia ignorar o monte de insultos que me foram dirigidos. Ingênua, cobaia… eu já me sentia horrível, e aquele diálogo não serviria para me causar melhoras. Afastei-me da parede de caminhei freneticamente para outro lugar que não denunciasse minha fraude. Humana, sempre em um combate incansável com alguns valores desnecessários.

O caminho para meu quarto já era conhecido, então foi para lá que me dirigi. O coração estava mesmo pulsando mais vezes e fora do ritmo natural. Talvez não fosse somente o oxigênio em excesso, afinal. Talvez houvesse outra coisa que me fizesse sentir tudo aquilo. Meu coração sequer deveria bater… eu não estava viva. Mas ele batia, três, quatro vezes a cada vinte segundos… era tão lento que eu mal poderia senti-lo. Acelerado, eu sentia uma agonia terrível. Joguei-me na cama preparada por Esme, comprimindo minha cabeça com as duas mãos. Malditos vampiros… maldito ar fresco, malditas reações desconhecidas de meu corpo.

Sentindo menos dor, e a dor era dilacerante, deixei que meu cérebro pensasse… que Edward seria meu companheiro. Primo, era a palavra técnica. Secretamente gostei daquela idéia de pertencer a uma família pequena, e mais ainda de ter Edward como companheiro. Não adquiri por Jasper a mesma empatia que por Edward. Jasper parecia ansioso em minha presença… seu olhar sempre tenso, como um radar. Talvez a minha parte humana lhe incomodasse muito. Edward parecia mais controlado… ainda mais depois de garantir que eu não lhe atraía mais.

Batidas na porta, e alguém apareceu. A figura pálida de Alice me sorriu, enquanto ela entrava no quarto.
_Olá Beatrice… sente algo? – Ela perguntou. Tentei recompor-me…
_Sim.. não… quero dizer…
_Sim não? – Ela riu. Eu devia ser muito engraçada, pois todos riam muito perto de mim. Riam de mim.
_Eu estou bem. – Confirmei. – É que… estou ansiosa. São muitas sensações novas.
_Talvez você devesse ser examinada por Carlisle.
_Examinada? – Arregalei os olhos, pois aquela palavra me era estranha.
_Sim… Carlisle é médico dos humanos. Ele… os cura. Pelo menos tenta, os humanos são tão frágeis! E bem… você tem parte deles, não?
_Sim, tenho. – Confessei, mesmo diante da afirmação de minha fraqueza. Frágil.
_Vou pedir a ele que te examine… para saber se alguma coisa humana…
_Eu… – pensei em recusar, claro. Mas até eu não sabia a extensão da minha humanidade. Talvez fosse… divertido. – Tudo bem, eu agradeço.
_Vou falar com Carlisle então. – Alice virou-se para a porta, intentando sair. – Ah, e Beatrice… mais uma coisa.
_Sim? – Levantei uma sobrancelha, encarando-a.
_Não deixe Edward perturbar-te muito. – Ela sorriu. – Ele é o mais velho de nós… o filho mais antigo da família… mas é ainda o mais irritante.

Alice fechou a porta atrás de si e novamente a figura de Edward Cullen me dominou o que restava dos sentidos. A palavra cobaia não me saía da mente enquanto pensava em ser examinada por quem quer que fosse. Melhor que fosse por alguém parecido comigo. Pior era não saber se eu mais parecia um vampiro ou um humano. Eu sequer sabia quem gostaria de parecer. Edward Cullen. Por que seria que Alice me alertava sobre ele? Seria um alerta ou um comentário de irmãos? Seria implicância simples ou… algo com o que me preocupar? As perguntas começaram a surgir e eu não sabia se teria respostas para todas.





(Cap. 6) Capítulo 5 - Compreensões

*tema: Bach’s Toccata and Fugue*


Eu havia decidido não deixar mais o meu ambiente. Não que estivesse sentindo nada. É que eu estava acostumada a manter-me em meu lugar. Aquele era meu lugar, havia sido destinado a mim. Não me sentia confortável envolvendo-me na família mais do que deveria. Eu era uma convidada, afinal. E eu não tinha sede, ou sentia desejo de nada. O sangue fresco ainda me inebriava os sentidos. Aquilo me causava certo pavor, por não saber até onde eu poderia controlar aquela sensação.

Deitada olhando a grande parede de vidro que me permitia observar o lado de fora, pude perceber a luz do sol desaparecer e dar lugar novamente à grande bola iluminada da noite. E todo o brilho prateado que ela trazia. Uma sensação boa me fez relaxar. Eu me sentia tensa. Havia muita vida dentro de mim… vida com a qual eu não estava acostumada a lidar.

Batidas à porta novamente me fizeram alerta. A figura clara e sorridente de Edward colocava-se para dentro do meu quarto escuro.
_Bea. – Ele pronunciou meu nome como música. – A família está reunida, não deseja juntar-se a nós?
_Não desejo me intrometer, obrigada. – Tentei ser educada.
_Não vai se intrometer… é nossa convidada. Emmet tem algumas curiosidades, Esme parece gostar de você, e todos desejam compartilhar o conhecimento com você. Você… parece saber muito pouco sobre como são as coisas por aqui.
_Passei toda a vida que me lembro dentro de um covil. Não, eu não sei muito. Definitivamente.
_Parece embaraçada. – Ele riu. – Sentimento engraçado, este. Vamos… acompanhe-me.

Edward ofereceu-me a mão para que eu me levantasse, e depois conduziu-me para a grande sala. A família estava mesmo ali, sentados. Pareciam animados e conversavam muito.
_Beatrice! – Esme recebeu-me animada. – Que bom que Edward conseguiu trazê-la… preocupávamos com sua clausura.
_Edward é sempre indicado para esse trabalho. – Emmet deixou escapulir o comentário, e eu não o compreendi. Não me sentia muito esperta desde que deixara o covil. As novidades me confundiam.
_Gostaríamos de conversar com você, Bea. – Carlisle disse, cruzando as pernas e me encarando.
_Treinar-me para que eu não cause problemas? – Mais sarcasmo. E eu nunca saberia a dosagem adequada.
_Sim, pode-se dizer que sim. – Edward caiu na risada. Esme o repreendeu com o olhar.
_Não sejam rudes. – Ela protestou. – Bea… não ligue para eles. Você tem mesmo muito a aprender, e gostaríamos apenas de conversar. Tirar as dúvidas que você possa ter.. deixar-te à vontade para perguntar.

Sentei-me. Havia uma oportunidade de me tornar a inquisidora, enfim. Era uma boa idéia, pois eu tinha mesmo muitas dúvidas. Tentando ficar à vontade, comecei a fazer perguntas. Queria saber sobre o tempo… como eles contavam o tempo. Queria saber o que o tempo significava para os humanos… e se para eles, os puros, o tempo tinha significado. Como eles o contavam. Também quis saber sobre alguns simples hábitos. Eu não queria parecer uma alienígena das lendas de Felicia. Uma fábula ambulante. Gostaria de ter, ao menos, hábitos mínimos que me fizessem encaixar entre eles. Perguntei sobre relacionamentos. Como eu deveria me dirigir às pessoas, como tratá-las, se eu deveria dirigir-me a elas. Não desejaria ser rude, ou solícita demais. Não desejaria abusar do tratamento.

Havia dúvidas demais, mas o tempo dos Cullen parecia inacabável. Afinal, eles não adormeciam. Mas eu sim. Enquanto ouvia as explicações deles, enquanto absorvia todas as compreensões, enquanto minha mente se enchia do novo e do inexplicado, meus olhos pesaram e meu organismo começou a falhar. Meu corpo estava enfraquecido, e tudo começou a ficar enegrecido.
_Ora vejam. – Rosalie pareceu divertir-se. – A híbrida tem sono.
_Como fomos insensíveis. – Esme considerou. – Já passa de 3h da manhã… esquecemo-nos de que ela dorme.
_Dorme não. Ela simplesmente apaga. – Jasper considerou, passando a mão à frente de meus olhos. Eu ainda mantinha um estado de semi consciência, apesar do sono latente. Meu corpo desejava dormir e minha mente desejava manter-se acordada. Era uma luta insana, e a mente nunca vencia.
_Edward, você poderia levá-la a seu quarto? – Carlisle determinou. – Devemos compreender muita coisa sobre ela, ainda. Mas por favor… seja gentil. Lembre-se, ela é mais frágil que você.

Senti um toque frio em minha pele, e repentinamente eu não mais tocava o sofá. Senti-me movendo, meu corpo indo e vindo como em um galope lento e cadenciado. Meus braços amolecidos não obedeciam à minha vontade de conduzir as mãos a tatearem o que me carregava. Mas o nome dele ainda ecoava em meus ouvidos quando finalmente fui depositada em algum lugar. A mão fria me acariciou os cabelos, e eu pude sentir a luz de um sorriso, mesmo estando praticamente adormecida, já.
_Tenha bons sonhos. – Foi o desejo. Ouvi o baque da porta, e nada mais.

As noites de sono eram sempre inconvenientes, para mim. Não sabia se por minha natureza híbrida ou se por algum distúrbio de minha humanidade anterior, eu nunca conseguia apagar, como outros de minha espécie faziam. Eles apagavam completamente, em estado de total inconsciência. Eu não. Minha consciência ia e vinha, mesmo se meu corpo não respondesse aos estímulos de meu cérebro. Mas eu estava ali, como que presa àquele cárcere de carne e ossos. Porém o que mais incomodava eram sempre os sonhos. Fragmentos de fantasia que me povoavam o adormecer, e que pareciam agradar aos humanos, segundo os contos de Felicia. Os humanos gostavam de sonhar. Eu não.

Naquela noite, naquele adormecer, eu sonhei. Vagava ainda por locais incertos, perambulava pela superfície como se nunca tivesse sido encontrada pelos Cullen. Havia acabado e me alimentar… e a carcaça que ainda exalava um falso cheiro era… semelhante à minha. Aproxime-me do corpo inerte e sem vida e notei que a semelhança era singular. Eu havia me alimentado de um humano. O cheiro de sangue estava forte demais, mas eu sabia que ele era falso. Não poderia haver sangue onde eu estava, e muito menos aquilo representava a realidade. Mesmo assim, eu estava inaceitavelmente perturbada. Meus olhos emitiam uma agonia dolorosa, e meu peito se enchia de angústia. Ajoelhei-me ao lado do cadáver e o encarei. Soltei um grito de desespero, pelo monstro que temia tornar-me.

Em um instante, eu estava de volta à consciência. Claridade entrou pelos meus olhos, e a porta aberta do quarto evidenciou a figura magra e desalinhada. Em um segundo, senti o toque frio em minha pele, e os olhos que me encaravam.
_Beatrice! – As mãos de Edward seguravam meus braços violentamente. – Acalme-se… o que houve? Você está bem?
Arregalei os olhos, assustada e confusa. Olhei em volta e notei que estava em meus aposentos, e que tudo aquilo era mesmo um sonho. Aquela sensação de oxigênio demais estava de volta. Edward me encarava assombrado, os olhos cor de noite. Aos poucos, minha respiração voltava ao normal, e o maldito coração pulsante diminuía seu ritmo.
_Eu… – pouca voz saía de minha boca. Edward soltou-me, e olhou suas próprias mãos.
_Está quente. – Ele considerou, talvez mais espantado ainda. – E… você está suando, muito. Seu sangue… ele é quente?
_Eu sou fria. – Disse, sentindo o rubor incandescente como da última vez. – Mas não sei, desde que subi à superfície… eu tenho calor. Eu sinto…
_Deite-se novamente. – Edward usou suas mãos para me empurrar suavemente contra o colchão. – Durma… você precisa disso. Estarei ao lado, se precisar.

No dia seguinte, eu me levantei com a luz do sol. Oscilara períodos de consciência e inconsciência durante todo o sono, o que o tornou ainda mais inconveniente. Ao deixar meu quarto, encontrei Jasper e Alice Cullen confabulando no salão. Eles sorriram ao me ver, mas Jasper mantinha a mesma postura esquisita de antes. Eu teria coisas interessantes a fazer… era, ao que sabia, um dia de semana. Pelo que me haviam informado antes, pelas explicações dos Cullen, tratava-se de hoje, amanhã e ontem… e semanas e finais de semana. Parecia até complexa a divisão humana, mas era simples de armazenar. E nos dias de semana, as pessoas trabalhavam.. por isso, Carlisle já havia saído de casa e os filhos me aguardavam para a escola.

_Primeiro – Alice interrompeu a euforia aparente de Jasper e Edward para me conduzir ao veículo – ela vai até Carlisle no hospital. Ela precisa ser examinada.
_Assim vamos perder a aula. – Edward resmungou, em som quase inaudível.
_Não precisa ir, Edward. Eu me encarrego de levá-la…
_Carlisle pediu que eu tomasse conta dela. – Edward resmungou novamente, e daquela vez foi realmente inaudível. Alice o encarou com olhos curiosos, e Jasper pareceu não se importar. Talvez Jasper fosse mais desligado do que incomodado… eu ainda não tinha descoberto.
_Vai levá-la, então? – Alice deu de ombros. – Posso fazê-lo, mas se deseja ser o cão de guarda…
_Estou cumprindo ordens. – Ele posicionou-se a meu lado.
_Sei.

Aquelas conversas entre eles sempre me soaram enigmáticas. Eles pareciam comunicar-se em dialeto próprio, o que me aborrecia, também. Não que eu tivesse o direito de aborrecer-me, mas eu me aborrecia facilmente com tudo. Era geniosa, como Rudolph dizia. Razões que explicavam minha presença fora do covil dos Caldwell. De qualquer forma, meu então revelado guardião levou-me até o consultório de Carlisle. Bem, era um lugar tão grande que me assustou. No caminho, eu vi muitos… deles. Eu imaginava que eram humanos, pois os Cullen me garantiram que eram os únicos vampiros da região. Então… éramos mesmo muito semelhantes.

Carlisle me examinaria, como eles determinaram que deveria ser. O tal exame foi uma coisa bastante desconfortável. Ele realizou testes… e me colocou dentro de aparelhos muito estranhos.
_Beatrice, gostaria de lhe fazer uma pergunta. Você sabe… se o sangue que corre em suas veias é… vivo?
Eu não sabia.
_Não sei. – Confessei. – Pode testar… se quiser.
_Tentarei.
O médico se utilizou de um objeto estranho para tentar obter um pouco do meu sangue. Mas ele não teve muita sorte… pois toda vez que introduzia o objeto em minha carne, a regeneração o expulsava de meu corpo. Eu regenerava muito rapidamente, e aquela pequena abertura era imediatamente identificada como uma agressão, e se fechava.
_É, parece que não terei sorte. – Carlisle sorriu. – Se um dia machucar-se, talvez consigamos seu sangue… mas por agora, creio que terei que me contentar com o que tenho.
_Posso machucar-me. – Elevei o olhar e encontrei um objeto cortante. – Onde devo depositar o sangue?
_Beatrice… não deve…
_Pode ser aqui? – Peguei nas mãos um tubo de vidro que suspeitei ser um compartimento para o sangue.
_O que ela pretende fazer? – Edward não entendeu, eu sei que não. Mas antes que ele pudesse captar ou Carlisle pudesse me impedir, eu tomei o objeto em minhas mãos e golpeei meu pulso. Eu sabia que ali vertia muito sangue. Rapidamente, eu tomei o vidro nas mãos e deixei escorrer o líquido avermelhado que jorrou, por alguns segundos. Logo, a ferida estava totalmente cicatrizada.

Os olhares que Carlisle e Edward dirigiram a mim eram… frustrantes.
_Você está louca? – Edward pulou sobre mim, agarrando meu pulso com força.
_Ontem me apunhalaram no peito e quase nada senti. Um pequeno corte não me faria mal algum…
_Ela está certa, Edward. – Carlisle tentou acalmar o filho. – Apesar de reprovar a sua atitude, agradeço pelo sangue… será de grande valia para estudar a sua… condição. Obrigado.

Depois que deixamos o consultório de Carlisle, eu seria conduzida à tal escola.





(Cap. 7) Capítulo 6 - Eles

*tema: Beethoven’s Pathétique*

A escola. Eu tinha 20 anos na minha idade humana, mas não havia estudado em nenhuma ocasião. Eu sabia que não havia, pois aprendi a ler e escrever no covil. Os meus tinham seus truques. Rudolph e os outros líderes saíam vez ou outra… eles buscavam comida, eles aprendiam as novidades, e eles encontravam humanos dispostos a nos ajudarem. Desde que ficássemos longe, essa era a verdade. Então, aprendi a ler… a escrever… aprendi várias coisas. Felicia era minha tutora. Ela ensinava a mim e a outros do covil, os chamados jovens. Jovem era quem fosse transformado jovem… enquanto os outros eram os anciãos. Felicia estava no meio… ela tinha idade para ser minha ama. Talvez minha mãe. E eu creio que, vendo os Cullen, Felicia tenha sido minha mãe.

Mas aquilo era a escola. Eu ouvi os Cullen falar sobre ela durante longas horas… mas ainda não sabia o que seria. Chegaria atrasada, claro. Isso foi o que Edward disse… que estávamos atrasados por causa das idéias de Alice. Que eu não precisava se examinada… não precisava ser testada, ou nada. Afinal, eu não era uma cobaia, certo? Naquele instante, eu previ que ele não desejava que eu fosse revelada. Afinal, eu era parte humana… e Edward poderia não estar interessado nesta parte. Ele poderia não estar interessado no que esta parte humana poderia representar. E então, ele não desejava que ocorresse. Eu não queria que as fraquezas da minha humanidade fossem expostas de uma maneira que o fizessem sentir ainda menos interesse por mim. Mas estávamos na escola, e tão logo Edward parou o carro – que eu logo descobri amar! – e tão logo nos dirigimos ao prédio, eu entendi que estava próxima a eles.

_Esse… – eu disse, sorvendo o ar, olhos fechados.
_Sim, o cheiro. – Ele sussurrou. – Tentador, não?
O cheiro dos humanos era totalmente diferente do que eu estava acostumada.
_Faz-me considerar meu verdadeiro desafio deste lado da terra. – Fui verdadeira. Minha boca salivou no primeiro instante em que eu inspirei o ar límpido do estacionamento.
_É uma questão de controle… e sede. Sente sede? – Ele continuava sussurrando, enquanto me empurrava em direção aos lugares certos.
_Não. Estou bem.
_Então isso basta por enquanto.

Meu tutor vampiro cuidaria de mim até o final do dia. Ele teve o cuidado de me colocar para realizar as mesmas atividades que ele, mesmo que seus irmãos não estivessem em todas. Edward pareceu muito afeito a todos naquele lugar. As pessoas com quem ele conversou pareciam lhe abrir largos sorrisos de condescendências, sempre. Aquilo era quase irritante, pensei. Na verdade, eu não sabia o que faria ali, ao certo. Disseram-me que era um lugar de aprendizagem… que entre eles eu não aprenderia em casa com os tutores, mas naquele lugar. Com professores. E outros semelhantes.
_Como você… se mistura? – A curiosidade, assim que entramos no que ele chamava sala de aula.
_Eu não me misturo. – Ele sorriu. Fazia tempo que não sorria. Fazia tempo… fazia tão pouco tempo que estava entre os outros, como poderia fazer muito tempo que eu não o via sorrir? O paradoxo do tempo me perseguia, sempre. Mas o sorriso de Edward me havia tomado conta da sanidade desde o primeiro momento. Era como se houvesse uma ligação tênue e complicada entre seu sorriso e meu autocontrole. Era mais fácil manter o controle sem o brilho cortante de seus lábios à luz.

Edward levou-me até o professor e me apresentou. Beatrice Caldwell, prima. Por sorte, aquela seria a única exposição que eu parecia ter que enfrentar. Depois, ele me puxou até um par de cadeiras no canto da sala, e ali ficamos durante toda a denominada aula.

A aula. Eles eram interessantes, afinal. O professor parecia deter tanto conhecimento… e ele passava de forma simples e desinibida para aqueles que chamava alunos. E eles tinham que responder… acertadamente, sempre que inquiridos. Ora, não tão desinibido assim, então. Observei em volta enquanto o professor falava algo que eu já estava cansada de saber, sobre literatura antiga. A literatura que eu vivi, e que me acompanhou nos momentos de solidão, no covil. A literatura não me era mistério. Eu não tinha interesse no tema, e divaguei. Os olhos os procuravam… eles. Tantos, e tão diferentes. Sim, éramos parecidos e podíamos passar desapercebidos. Mas… eles cheiravam mesmo muito diferente.

Imediatamente, senti empatia por uma garota que trajava azul e tinha olhos claros. Pensei se os olhos humanos também mudavam de cor. Como se lesse minha mente, Edward me fez olhá-lo e, com uma cara bastante amistosa, sinalizou que não. Ele não lia mentes, claro. Vampiros não lêem mentes… claro. Eu era óbvia, essa era a questão. Talvez fácil demais de se ler… um problema. A garota parecia absorta nas palavras do professor, e não percebeu que eu a observava. Alguém ao seu lado sim. Um rapaz, loiro de olhos também claros. Era bonito… eles eram bonitos, então! E sua beleza era ainda mais interessante associada ao seu cheiro de sabor confuso. Talvez doce, talvez amargo, eu praticamente pude sentir o sabor e o calor do… sangue. Ele me fez ser vista pela garota que eu observava, e ela então me olhou. Senti algum constrangimento, então decidi parar de prestar atenção nos humanos.

Passaram-se outras aulas, e todas muito parecidas afinal. Somente os conteúdos ensinados mudavam, e eu fiquei seriamente entediada. Edward por algumas vezes segurou minha mão e apertou-a com força, provavelmente para repreender-me por agir de maneira estranha. Eu agia de maneira estranha inconscientemente, pelo simples fato de não saber portar-me em público. Vivera toda a eternidade em um covil, ele poderia ter paciência. Mas eu entendia que ele tentava apenas proteger o disfarce.

_Tente ser menos indiscreta. – Ele disse, quando a quinta das aulas acabou. Repreensão, então.
_Lamento. – Olhar baixo, sempre submissa.
_Bea. – Ele disse, puxando-me o queixo. – Não precisa desculpar-se. Eu… só quero manter-te na linha. Afinal, me fora designada esta missão… quero cumpri-la a contento.
_O que fazemos agora? – Tentei não prestar muita atenção nele. A claridade fazia seus olhos muito… atraentes.
_Almoço.
_O que é?
_Hora de comer.

Arregalei os olhos, surpresa. Não, assustada. Hora de comer… alimentar-se?
_Calma, Bea… – ele riu novamente, e muito. – nós não nos alimentamos agora. É que os humanos… eles comem várias vezes ao dia. Comida humana.
_Vocês também comem com eles?
_Fingimos. – Ele sorriu. Chegamos ao local de alimentação, e o restante dos Cullen já estava ali, sentados em uma mesa, com bandejas a frente. – Sirva-se de algo, distraia a comida, e depois estamos livres.

Demorei a entender, e preferi seguir Edward. Fiz exatamente tudo que ele fez, mas…
_Ei!! – Uma mão me segurou enquanto passava pelas mesas. – Ei… – era a garota que observei durante as primeiras aulas. – Novata na escola… ninguém vai apresentá-la a nós?
Notei que os Cullen me olharam, um tanto apreensivos. Edward parou, e intentou retornar para me socorrer.
_Sou Beatrice Caldwell… – tentei parecer gentil, e ensaiei um sorriso. – Sobrinha do Dr. Carlisle Cullen.
_Oh! – A garota pareceu bastante interessada, repentinamente. – Sobrinha do doutor! Que divertido… é de onde?
Ótima pergunta, que não me havia sido ensaiada antes. Eu não conhecia a superfície geograficamente, e não sabia responder “de onde”. Foi quando precisei efetivamente de socorro. Não havia treinado respostas, estava apenas arriscando. Eu não sabia que me fariam perguntas… não imaginava que eles interagiriam comigo.
_Ela é européia… e estudou até hoje em colégios internos. – Edward aproximou-se. Notei que a sua aproximação causou uma reação química nas presentes. Eu era notavelmente sensível à química, e aquela exalou um odor bastante complexo. Elas pareciam… satisfeitas com a presença dele, ali. Eu também estava, era fato. Poderia o meu cheiro denunciar-me, como o delas o havia feito?
_Sente-se conosco. – A garota então pediu. – Meu nome é Sylvia…
Olhei para Edward, assustada. Eu não estava preparada para ser abordada por eles… senti pânico. Um pavor terrível, muito pouco familiar. Pensei que meu coração ainda pulsante – e bastante perturbado desde minha fuga – fosse escapulir por entre os meus dentes. Que estavam cerrados, travados.
_Amanhã, Sylvia. – Edward empurrou-me para frente. – Bea está muito confusa hoje, o fuso horário a deixa alterada. Prefiro tomar conta dela até que ela se sinta totalmente… bem.

Eu não olhei para trás, mas pude ouvir várias exclamações após a fala do meu tutor. Elas pareciam, então, lamentar que eu não ficaria com elas. Ou lamentar o afastamento de Edward.
_Obrigada. – Falei, enquanto me sentava com os Cullen. – Não saberia como me sair dessa.
_Por isso precisa ficar conosco no início. – Alice sorriu, condescendente. – Mantenha-se por perto… Edward vai cuidar de tudo.
_Eu… não sei por que são tão gentis comigo. Por que me acolhem… e por que eles demonstraram interesse em mim.
_Você por vezes lembra muito um deles. – Jasper falou, e pude notar hesitação em sua voz. – Você… chega a cheirar como um deles.
_Ela também é humana, Jasper. – Alice o cutucou. – Não seja complexo demais, faz mal para sua adaptação.
_E… por que me acolhem? Vocês…
_Cuidamos uns dos outros. – Emmet era de poucas palavras com estranhos, pensei. – Você… Carlisle é uma pessoa ótima, ele sempre acolhe os que necessitam dele. Ele acolheu você, passou a ser parte da família.
_Simples assim. – Edward sorriu, enquanto se divertia com um alimento.
_Isso tem um aroma bom. – Eu disse, pegando o alimento de suas mãos e levando até as narinas. – Come-se?
_Sim. Mas só para quem tem sistema digestivo que funcione. – O comentário de Jasper desencadeou risos entre os Cullen; todos eles. Não era tão divertido assim ser o centro das atenções quando se está sendo ridicularizada. Mas parecia um passatempo divertido para eles, ridicularizar-me. Sim, eu era bastante ingênua como mencionara Esme. Talvez uma ingenuidade irritante, insatisfatória. Eu não queria ser ingênua. Eu queria ser sábia como Esme, linda como Rosalie, prosaica como Alice. Queria ser uma… mulher. E não somente uma fêmea. Eu parecia um animal cativo ao lado deles… uma tola sem conhecimento algum da vida.

Meu primeiro dia entre eles não foi muito ruim. Foi apenas diferente, como tudo que vinha acontecendo naquele lugar. Sob o sol as coisas aconteciam, foi como pensei. Sob a terra era sempre o mesmo… nos alimentávamos, ouvíamos Felicia e suas fábulas fantasiosas, conversávamos, líamos, adormecíamos. Sob o sol as pessoas faziam outras coisas… pude perceber. As conversas eram tão animadas e eles pareciam envolver tantos semelhantes…

Ao final do dia, eu estava exausta. Eu não estava acostumada a sentir exaustão, porque eu não dormia muitas horas por vez. E levava um grande tempo até me sentir exausta novamente. Não era exaustão… era apenas a necessidade do meu corpo em adormecer. Naquele dia não, senti-me exausta. Principalmente porque Alice e Rosalie, após a aula, me levaram para fazer algo completamente inusitado. Comprar roupas.

_Não acredito que nunca fez isso! – Rosalie reclamava, enquanto chegávamos a uma loja.
_As fêmeas mais velhas fazem as roupas de todos no covil. – Comentei, sentindo ansiedade.
_Mulheres, Bea. – Alice corrigiu-me. – Os humanos usam o termo mulher para definir a fêmea… e homem para definir o macho.
_Ah… então sou uma mulher. Edward é um homem.
_Sim, você entendeu. – Alice sorriu. – Venha… temos que lhe escolher roupas. Você não pode continuar usando as minhas… precisa de estilo próprio.
_E seu guarda roupas não agüenta. – Rosalie implicou.

Comprar roupas era divertido, então. Eu fui obrigada a vestir diversas diferentes, e as duas me ajudavam a escolher o que combinava. Enquanto isso, me explicavam coisas de mulheres. Femininas, como diziam. Eu não sabia quase nada daquilo… as mulheres no covil limitavam sua vaidade aos cabelos. Os meus eram longos, muito longos… não muito escuros, com cachos nas pontas. Eu tinha o cuidado de mantê-lo preso a maioria do tempo, e os escovava diariamente. Fora isso, nada mais. Usávamos o mesmo vestido até que ele se acabasse e tornasse imprestável. Alice me disse que as mulheres usavam vários vestidos até no mesmo dia… que precisávamos de muitas roupas.

_Se você dorme, melhor comprarmos peças específicas. – Rosalie considerou, aparecendo com mais roupas.
_Usamos roupas… para dormir? Quero dizer, roupas especiais?
_Claro, boba! – Riram as duas. – Bem, nós não dormimos… mas sabemos das tendências da moda. As mulheres adoram modelos ousados…
_Acalme-se Rosalie. – Alice tomou algo de suas mãos. – Bea terá que passear na casa… gostaria que ela desfilasse para Emmet neste visual? Afinal, mulheres são mulheres… homens são homens…
Rosalie me encarou, mesmo sem eu ter feito nada, aparentemente. As duas falavam difícil demais. Um vocabulário moderno… e confuso Eu demorei muito a entender que elas não desejariam me tornar atraente para dentro da casa. Afinal, aquilo implicaria nos machos delas. Homens… nos homens delas. Se eu estivesse certa, claro. Se Emmet e Jasper fossem realmente tudo que eu pensava que fossem.

O período entre eles parecia divertido, e os puros demonstravam estar completamente integrados no mundo dos humanos. Se os meus tivessem agido da mesma forma… talvez nunca tivéssemos sido banidos. Mas não… os meus tinham que se mostrar. Queriam mostrar que não eram perigosos… sempre foram! Sempre fomos perigosos. E muito. Por isso, banidos. Tivéssemos ficado em silêncio… eu nunca teria sido confinada à escuridão.

Ao retornar para a casa dos Cullen, eu logo me recolhi aos meus aposentos e lá fiquei. Deixei as roupas em qualquer lugar, e joguei-me na cama. Meu corpo ansiava por algum descanso, enquanto os puros pareciam completamente renovados a cada instante que se passava. A luz do exterior já havia se extinguido, até porque lá os dias duravam muito pouco. A luz do sol era quase pálida e sem vida, um pouco diferente daquela que vi quando saí à superfície. Ou não… ou meus olhos, por estarem condenados a nunca ver o sol, não conseguiram distinguir bem suas nuances.

Eu tinha os olhos fechados e tentava em vão perder a consciência em um sono profundo, quando meus ouvidos se enganaram com uma melodia. Música… ela penetrava em meus ouvidos, e me faziam sentir algo estranho. Um arrepio talvez. Eu não sei se eu sabia o que era um arrepio… era uma sensação tão humana. A minha consciência retornou por completo, e eu me dei conta de que a noite já pairava. A bola cinzenta – a lua – preenchia o céu com sua grandeza. As nuvens encobriam grande parte das estrelas, dando ao céu um aspecto aveludado. Senti conforto, a melodia me fazia sentir aquilo.

Saí do meu quarto, vagante. Era como nas lendas de Felicia, a pessoa que caminhava durante o sono. Movi-me lentamente, como em um baile, deixando que meus ouvidos se guiassem pelo som abafado do piano. Desci as escadas lentamente, para deparar-me com uma cena que me causou… desconforto. Edward, sentado ao piano. Era de seus dedos que a melodia surgia. Olhei em volta, não vi mais ninguém além dele. A sala era muito grande, e parecia na penumbra. Apenas a luz da lua e uma pequena luminária artificial traziam brilho às teclas amadeiradas do instrumento. Preto, eu pude ver as cordas vibrando suavemente a cada toque dos dedos longos e cadenciados de Edward.

_Beatrice. – Ele disse, sem desconcentrar-se da melodia. – Além de tudo é uma espiã? – Ah, ele também tinha senso de humor.
_Eu… acordei com sua música.
_É Beethoven. – Ele parou de tocar, e levantou o olhar. Aproximei-me um pouco, respirando bem lentamente. Eu sempre respirava lentamente, mas daquela vez a sensação era de agonia. Talvez Alice estivesse certa, e eu precisasse mesmo dos cuidados de Carlisle. Eu… parecia outra pessoa, sob o sol. Edward trajava apenas calças. Nada cobria seus pés ou peito. Minha cabeça entortou e meus olhos se acomodaram para visualizar melhor a sua figura. Ele me encarava, e sua expressão me denotava dúvidas. – Aconteceu algo?
_Por que veste-se assim? – Eu tinha que perguntar. Eu sempre perguntava demais, era a crítica de Rudolph. Aquela curiosidade ainda iria me levar a lugares ruins, ele me dizia. Mas, se a curiosidade me havia levado até os Cullen… e se aquele era um lugar ruim… que eu padecesse no inferno eternamente.

Então, ele demorou a responder. Talvez porque eu tenha ficado vidrada em sua figura. Meus olhos não conseguiram facilmente desprender-se… do seu corpo. Então eu ainda estava fascinada pelo corpo dos machos? Homens!! Eu precisava aprender que Edward era um homem! E sim… ele era muito mais lindo do que os meus… do que todos eles juntos. O conceito de beleza me deixava confusa, pois tudo que eu via sob a terra, no covil, era parecido, para mim. Talvez a luz do sol tornasse as coisas mais apreciáveis aos olhos. Eu não sabia. Só que desde que subira à superfície tudo realmente ficou mais belo. E eu estava ali, realmente fascinada pelo corpo de um homem. Sem imaginar que implicações aquilo poderia ter, eu desejava tocá-lo. Oras, tocá-lo não deveria ser tão complicado.. mas era. Primeiramente porque eu sentia um impedimento físico de fazê-lo, como se meus músculos jamais fossem esticar-se para que eu pudesse tocá-lo. Segundo porque parecia inadequado. Eu nunca tocara os … homens.

Mas eu desejava tocá-lo, e toda a forma definida de seu peito, a linha que descia até seu abdômen e se perdia ao encontrar-se com a vestimenta. Os músculos que subiam e desciam com a respiração mais lenta que eu já presenciara. Os braços com finos traços de pelos dourados que preenchiam toda a extensão do antebraço até as mãos… e os longos dedos que dedilhavam o piano de forma madura, clássica. Ele era quase… eu não conseguia descrevê-lo.

_Ah! – Ele riu, movendo-se na banqueta. – É mais confortável… não acha?
_Pode ser. – Baixei o olhar novamente. Talvez fosse confortável, mas não seria… insano?
_Sente-se ao meu lado, Bea. Aprecie a música comigo. – Sua mão tocou o couro avermelhado da banqueta. Minha vontade então não parecia muito sob meu controle. Fui conduzida por meus pés até ele, sem que o cérebro emitisse qualquer comando. Simplesmente fui levada… ele voltou a tocar, e a melodia era tão doce que eu me sentia flutuando.

Não me recordo de mais nada, até que acordei em meu quarto. Estava zonza. O dia já estava claro, e eu me lembrei subitamente da escola. Sobressaltei-me, e senti um mal estar súbito quando me coloquei de pé.
_Bom dia. – A voz ecoou por meus ouvidos, e o susto foi ainda maior. Edward estava da forma como antes, sentado por entre algumas almofadas.
_Você… o que faz aqui? – Senti mais uma vez aquele rubor quente que me assombrava. O quente não era meu.
_Você tem um sono muito agitado. – Ele riu. – Sente-se bem? Eu fiquei… preocupado. Aliás, ando preocupado. Você… costuma pegar no sono muito rapidamente, e eu acabo sempre tendo que te carregar.
_Escola? – Eu disse, constrangida.
_Sim, vou vestir-me. Não devo sair nessas condições de casa. – Mais senso de humor. – Afinal, está frio lá fora.

O vampiro saiu de meu quarto, e eu fiquei me olhando no espelho. Algo estava acontecendo comigo. Algo muito… assustador. Talvez estar no meio deles fosse… perigoso, então. Mas o perigo não estaria na minha sede, ou no meu desejo de beber o sangue fresco de algum humano. Eu provavelmente me saciaria com os animais, eu sempre me saciei. Mesmo que tivesse que bebê-los, mesmo que tivesse que caçá-los… eu não conseguia acreditar que eu fosse perigosa para eles. Mas… eles pareciam perigosos para mim. Era como se desde que subi à superfície algo naquele lugar me influenciasse barbaramente. E eu podia jurar que estava tudo relacionado a eles. E ao seu sol, àquela luz que tanto me encantava.





(Cap. 8) Capítulo 7 - Outras Compreensões

 

*tema: Chopin’s Nocturne Op. 9 N. 2*

A escola começava a fascinar-me, então. Naquele dia, tive a oportunidade de sentar-me com eles. Os humanos. Aqueles que desejavam minha companhia antes. Mais ciente do meu lugar no espaço, menos atabalhoada e sentindo mais capacidade de controlar alguns de meus instintos mais confusos, eu pude sentar-me com eles. E foi divertido, devo confessar. Foi bem humorado estar na presença deles, e ouvir todas as suas conversas e absorver todo o seu conhecimento. Sem que eles me notassem. Aprendi a mentir muito bem, e a inventar histórias que em muito se assemelhavam com as fábulas de Felicia. Tão inverossímeis quanto eu parecia ser.

Eu tive a oportunidade de conhecer alguns deles. Não me recordaria de tudo, eu tinha certeza. Sylvia, a mesma da vez passada, foi quem me fisgou para a mesa dos humanos. Ao seu lado, estava uma outra garota, cujo nome eu não sabia. E também à mesa estava um rapaz, Geoffrey. Ele tinha uma cara engraçada. Como eu estava me acostumando com os machos vampiros… homens vampiros… eu achei os homens humanos somente… engraçados. Eu precisava mesmo manter a palavra homem em minha boca, ela sempre me fugia. Uma hora ela ainda me fugiria em momentos inadequados. Sylvia era divertida, e aparentemente popular. Falava bastante, e todos pareciam apreciar sua companhia. Geoffrey era calado, e parecia tímido. Eu também era tímida, então empatávamos. Conversamos bastante, trocando olhares. Era uma forma de comunicação interessante.

Edward, o guardador de minha estada, observou-me de longe durante todo o tempo. Creio que para impedir-me de falar tolices. Tolices que eram minha marca registrada. Em poucos dias que estava entre eles, já me sentia mais bem integrada. Mas ao final do dia, quando a escola nos liberou, chegando à casa dos Cullen foi que tive notícias curiosas, e talvez até mesmo perigosas. Carlisle tinha dados dos meus exames… testes… ele tinha informações sobre mim.

Os Cullen estavam então reunidos no salão, e eu parecia o assunto principal.
_Bea. – Carlisle me sorriu. – Seria bom conversarmos… estou com alguns resultados. – Ele me apresentou papéis.
_Não seja embromador, Carlisle. – Alice parecia ansiosa. – Eu quero saber o que descobriu sobre a híbrida.
_Que ela é híbrida. – Jasper implicou.
_Bem… Bea, você é uma pessoa bastante curiosa, sabia? Bem… não é uma pessoa propriamente.. é um vampiro. Disso não duvido, até porque você se assemelha a um… mas o sangue que você me forneceu… ele é muito, muito diferente de tudo que já vi.
_Como diferente? – Esme, curiosa. Todos pareciam curiosos. Eu me sentia novamente a cobaia.
_Eu descobri células mutantes. Em você… por todo o seu corpo físico.
_Mutantes? – Emmet franziu a sobrancelha. – Como… nos filmes?
_Como vocês são infantis! – Rosalie protestou. – Deixem Carlisle falar… afinal, estamos curiosos.
_A situação é a seguinte… eu precisaria de mais testes, mas não confio exatamente em ninguém para fazê-los. Afinal, Bea é uma vampira. Não posso arriscar expô-la. Porém… já posso confirmar que ela é uma híbrida, com certeza. Ela tem a presença de células completamente mortas em todo o seu corpo. Seus órgãos internos praticamente não funcionam… somente observei atividade no coração e no pulmão. Mas seu coração bate 10, 12 vezes por minuto… ou seja, ela está tecnicamente morta. – Todos ouviam o médico falar, inclusive eu. – Mas ela não é uma vampira pura, pois se fosse não teria nenhuma manifestação viva em seu corpo. Só que não foi isso que me impressionou… apesar de eu estar bastante impressionado com essa história de híbridos não serem lendas.
_O que te impressionou, Carlisle? – Edward teve que perguntar.
_O organismo de Bea parece estar reagindo a algo… parece estar mudando, se adaptando.

As interjeições foram generalizadas. Todos disseram “ah” ao mesmo tempo, demonstrando tanto surpresa quanto nenhuma compreensão do que o médico falava. Ah, eu estava reagindo… bem, tão ignorante eu não era. Desde que coloquei meus pés sobre a terra, eu senti que reagia a alguma coisa. Eu não sabia o que eu havia, mas eu sabia que eu estava diferente. Meus instintos não estavam tão errados, então.
_E isso é bom ou ruim? – Novamente, eu tinha que perguntar.
_Isso é inusitado. – Ele sorriu. – Isso significa, Bea, que você precisa de observação.
_Observação?
_Sim. Eu fico feliz que estejamos com você… e se você quiser estar conosco por mais tempo, será muito bom… eu poderei avaliar a sua evolução e acompanhar todas as mudanças que ocorrerem com seu organismo. Ainda não sabemos o que a sua parte humana influencia, além dos batimentos cardíacos e da respiração…
_Eu… não sei o que dizer.
_Fique permanentemente conosco. – Esme sorriu. – Quero dizer… uma sobrinha pode morar com os tios, não pode? A não ser que você deseje retornar para seu covil, claro.
_Não! – Detestei a possibilidade. – Eu… não pretendo retornar.
_Então está determinado. Você fica conosco… a sobrinha se muda para a casa dos tios. Forks é um ótimo lugar, pois aqui o sol não te incomodará. E uma família pequena tem vantagens. Edward tomará conta de você.

Edward tomará conta de você.

Aquela frase soou tão bem aos meus ouvidos quanto não deveria. Retirei-me para meus aposentos tão logo a conferência Cullen terminou, deixando os integrantes da família. Eu tinha que compreender estar me tornando o novo integrante da família Cullen, o que não me era desagradável… mas eu ainda não conseguia parar de enxergar o perigo. Tentando me enquadrar, banhei-me lentamente e dolorosamente, pois eu sentia meus músculos contraírem. Segundo Rudolph, eu não sentia dor exatamente… era mais uma sensação que representava, para um morto-vivo, a dor. Ah, mortos vivos. Aquele termo era inexplicavelmente sofrido, para mim. Eu desejava ser apenas viva. Apenas um deles.

Os meus sentidos aguçados me fizeram ouvir outra conversa entre os Cullen. Daquela vez, Jasper participava. Os homens estavam na sala do piano, e eu parei no meio do enorme corredor para ouvi-los. Sim, despida de alguns valores éticos que os humanos tanto consideravam.
_Carlisle… é só uma idéia. – Edward ponderava.
_Uma idéia a qual não concordo! – Jasper protestava.
_Acalmem-se rapazes… temos que ser ponderados. Edward… não consigo entender-lhe. Por que rejeita ser o tutor de Bea, agora? Aceitou tão bem o encargo alguns dias antes.
_Eu sei, é que… – Edward parecia aborrecido em falar naquilo.
_O que está havendo, Edward? – Jasper pareceu sentir o mal estar no pseudo irmão.
_É que ela me desperta sensações estranhas. – Edward confessou. Apurei meus ouvidos. Sensações estranhas? Quais poderiam ser? Repulsa, nojo, asco? Ou alguma coisa diferente? A palavra ‘estranha’ soava como algo ruim… e foi minha vez de sentir um mal estar típico dos meus momentos sob o sol. Eu já estava achando tudo aquilo muito inconveniente.
_Ora… mas disse que não sentia nada por ela.
_Enganei-me. Ela… uma parte de mim deseja que ela seja humana. Outra parte, que seja vampira. Gosto de vê-la pulsar… ela me traz recordações.
_Recordações de um lado humano que você esconde muito bem, filho. – Carlisle compreendeu a hesitação de Edward. Eu não. Tudo aquilo ainda soava irreal aos meus ouvidos.
_Então, deve mesmo estar ao lado dela. – Jasper considerou, satisfeito. – Ora Edward… ela combina com você. Seja agradável.

Novamente precisei tomar cuidado para que Jasper não me pegasse a espionar os Cullen. Corri para meu quarto, e desejei ficar trancada ali. Trancada, de forma a ninguém conseguir incomodar-me. Mas eu nunca conseguia ficar trancada… no covil as portas eram sempre abertas. Ali, pelo visto, também. Os Cullen sempre apareciam no meu quarto.

Porém naquela noite ninguém apareceu. A noite estava alta, e a lua cheia a clarear as árvores do lado de fora. A noite era tão linda… os pontos luminosos que faiscavam no céu pareciam mudar de cor. E as nuvens cinza chumbo permitiam nuances que eu desconhecia, a colorir a ausência de cor do breu profundo. E a música novamente me preencheu os ouvidos. Os acordes do piano eram suaves… mas firmes. Edward. Senti um arrepio humano ao pensar na cena anterior, no piano tocado na noite anterior. A imagem do vampiro a contrastar com o ébano do instrumento… meus olhos então novamente se fecharam, e uma nova sensação tomou conta de mim. Uma sensação de calma… de tranqüilidade. Deitada na cama, tentando lutar com o sono que fazia meu corpo inerte e desejando saltitar pela casa, senti-me confortavelmente amparada.

Havia algo naquele lugar que me fazia entender, então, o conceito de casa.





(Cap. 9) Capítulo 9 - Garotas

*tema: O-town’s Liquid Dreams*

**** Uma conversa dos Cullen ****

_Edward? – Esme Cullen franziu a sobrancelha ao encontrar o filho em casa, sentado divagante no imenso salão. – Já voltou tão cedo?
_O que houve no seu ‘lugar especial’?? – Emmet implicou. Os Cullen acabavam de chegar de uma tarde de jogos, em uma campina ao longe. Estavam sujos e satisfeitos. O dia já findava no céu rosado.
_Deixe de ser implicante, Emmet… – Rosalie protestou. – Vai ver que a híbrida…
Rosalie interrompeu suas palavras pelo olhar cortante de Edward.
_Vocês, vão guardar as coisas. – Carlisle disse aos filhos, apontando-lhes os fundos. – Aconteceu algo, filho? – Ele se aproximou, cuidadoso.
_Poderíamos só ter querido voltar…
_Você adora sair nos dias de sol.
_Beatrice não está se sentindo bem.
_O que houve? – Esme demonstrou preocupação.
_O sol… ela insiste em ficar prostrada ao sol, mas ele não lhe faz tão bem. Ela teve um mal estar, desmaiou…
_Onde ela está agora?
_Em seu quarto, descansando. Eu… eu a trouxe de volta, e ajudei a normalizar sua temperatura.
O comentário soou cômico. Beatrice era uma morta viva, ela não tinha exatamente uma temperatura.
_Muito bem, Edward… mas você me parece.. diferente. – Carlisle observou. – Deseja falar sobre isso?
_Não é nada. Estou apenas entediado.
_Carlisle… por que não ajuda os garotos a guardarem os equipamentos? – Esme sorriu, suavemente. O Dr. Cullen entendeu a deixa de sua retirada e foi até os fundos, fingindo.
_Vocês deviam saber que não conseguem me embromar. – Edward balbuciou, não muito lívido.
_Nem tentamos. – Esme riu. – Ora, a quem tento enganar… bem, deixe-me ao menos acreditar que estou fazendo isso direito, Edward. Eu… talvez você queria conversar sobre Beatrice.
_O que teria sobre ela para se falar?
_Diga-me você.

Edward levantou-se, e caminhou até a enorme parede de vidro. Observou a noite chegar, por alguns instantes.
_Eu não sei… eu não consigo entender, - Edward preparou cuidadosamente sua fala, sem olhar para a mãe. – Esme. Beatrice… ela causa um efeito muito confuso sobre mim, sabia? Pior, eu sei tudo que ela pensa… eu leio cada linha de seus pensamentos desordenados, mas eu não a entendo. Ela é uma coisa muito complexa… eu tenho muita dificuldade em decifrá-la.
_Sabe, Edward… eu tinha medo. – Esme confabulou, com a tranqüilidade de quem vinha selecionando as palavras há muito tempo.
_Medo? – Ele se virou, ansioso.
_Sim, medo de que você perdesse totalmente o seu trejeito humano. Você sempre foi o mais.. metódico de nós. Sempre foi tão vampiro… tão frio e distante das emoções mundanas que ainda nos inundam. As emoções são parte de nós, Edward. Somos aberrações da natureza, mortos que andam e falam, e que precisam beber sangue vivo para continuarmos nossa saga. Mas, bem no fundo, sabemos que proviemos de seres humanos. Eu já fui um ser humano… você também. Muitas dessas coisas não se perdem nunca. Sentimos medo, pavor, ansiedade, desejo…
_Você acha que…
_Você sabe o que eu acho, já leu meus pensamentos há bastante tempo. – Esme prosseguiu. – Seja lá o que for que esteja dentro de você, foi desencadeado por Beatrice. Assim que ela chegou nesta casa, você perdeu o controle de si mesmo. Existe muito do humano Edward Cullen em você… que estava adormecido, escondido, perdido. Beatrice parece ter encontrado, então, o caminho.

Edward ouviu a tudo sem se manifestar. Esme devia estar certa; era ao menos uma explicação. Ele se sentia diferente desde que conhecera a híbrida na floresta. Pelo menos Esme possuía uma explicação para isso. Mesmo que ele não tivesse gostado do que ouviu.
_Ela… ela também parece confusa. – Ele finalmente confessou.
_Talvez ela esteja. Você é muito bonito, atraente… não sabemos como era a sua vida no covil, mas Beatrice parece ter sido muito solitária. Ela se desapegou facilmente do que tinha lá.
_Eu preciso me afastar dela, um pouco. Você acha que seria perigoso?
_Ah, Edward! – Esme sorriu, um largo sorriso. – Você não precisa afastar-se de Beatrice! Apesar de ela ser uma híbrida e ter um passado obscuro… ela é mais uma de nós do que um humano. Você pode tê-la, se quiser… quando quiser…
_Não. – Ele disse, voltando-se novamente para a paisagem. – Eu ainda não estou preparado, Esme…
_Poderia deixá-la passar mais tempo com os humanos, então. Disse que ela se interessou por eles…
_E eles por ela. Ela parece… popular.
_Então! Faça essa tentativa… mantenha-se alerta, mas permita que ela alce vôos mais longos. Dê a ela algum tempo, algum espaço.

Eu não estava ciente, mas muitas coisas me fugiam da compreensão. Eu não detinha super poderes como alguns membros da família Cullen, e eu definitivamente não me sentia esperta. Sempre fora facilmente ludibriada no covil; a minha ingenuidade era lendária. Felicia dizia que era excesso de bondade… que eu tinha confiança demais no meu semelhante. Talvez eu tivesse confiança demais em qualquer coisa. Mas eu não desconfiava de que Edward estivesse se afastando propositadamente. Para todos os efeitos possíveis, ele só poderia estar se afastando porque eu o repelia. Minha insolência, minha ignorância.. eu era um ser patético e ele, ao contrário de mim, tinha ciência disso.

De qualquer forma, eu passei a freqüentar a escola sempre com os Cullen, mas durante os almoços eu era largada para os humanos. Inicialmente eu não entendi direito quando Edward empurrou-me compulsivamente para o lado deles, para a cadeira em uma mesa deles. Ele praticamente me fez desabar no móvel de fórmica fria. Sorriu para mim como se quisesse me dizer algo, e voltou-se para a mesa com os irmãos. Os humanos logo me cercaram, e ali permaneci.

Logo, eu nem mais sentia compulsão por sentar-me com os Cullen. Os humanos se tornaram simpáticos, e a empatia por eles só crescia. Eu não desejei, em nenhum momento, alimentar-me deles. Até porque eu sempre caçava com os Cullen, regularmente. As caçadas eram ainda intrigantes e me causavam enorme repulsa e constrangimento. Eu nunca consegui matar um animal. A primeira foi um fracasso tão grande que quase desejei voltar sem me alimentar, e morrer de inanição. Se aquilo fosse possível. Edward notou meu desespero frente o animal estático, que simplesmente esperava pelo seu fim. Eu sentia angústia. Não foi uma cena agradável, mas ele deu fim ao animal e depois o entregou a mim. Tirar a vida do pequeno cervo lhe fora tão simples que me senti, em mais uma das milhares de vezes, patética.

Os Cullen logo entenderam que matar não era para mim uma opção, mas a falta completa delas. Mesmo sedenta, mesmo fraca, mesmo necessitando desesperadamente do sangue, eu não conseguia atacar outro ser vivo. E, apesar de todo o meu constrangimento e agonia, eles passaram a caçar para mim. Por vezes Alice, ou Carlisle, até mesmo Emmet… eles buscavam os animais e me jogavam à frente, ainda jorrando o sangue de odor inebriante e irresistível. Alguns ainda tinham o coração pulsante como o meu, já quase paralisados pela morte iminente. Assim, o controle me fugia e eu me sentia apta a alimentar-me. Só assim.

Mas os humanos.. eu não os desejei, nem uma só vez. Parecia inacreditável que eles fossem tão mais saborosos que qualquer animal nas florestas ao redor de Forks. E eles pareciam sempre satisfeitos e felizes ao meu redor… sempre brincando, divertindo-se, demonstrando bom humor… foi fácil criar laços com eles. Aos poucos, tínhamos diálogos na sala de aula, nos intervalos, nos almoços. Os momentos de solidão com Edward foram se esvaindo, até se tornarem memória apenas. Nem mesmo na casa ele parecia me perseguir. Eu não o via mais invadir meu quarto no meio da noite, buscando minha reação desesperada quando um sonho desastrado me fazia irromper na consciência aos gritos. Era como se eu não mais precisasse dele… como se aquilo fosse possível, então.

_Beatrice. – O professor de literatura me chamou o nome. Edward cerrou os dedos, mas sorriu-me timidamente. Eu já sabia tudo o que fazer, já estava integrada aos humanos. Levantei-me e caminhei até o tutor, que me forneceu um formulário em branco. – Traga assinado por seus tios, amanhã.
_O que é isso? – Perguntei, ao retornar para a minha cadeira, ao lado de Edward. Apesar da distância estabelecida entre nós, aquele sempre foi o seu lugar.
_Uma autorização. Vocês… farão uma viagem.
_Vocês? – Franzi o cenho. Não entendi por que ele não disse nós
_As garotas. – Ele disse, o sorriso tímido novamente. – A professora de literatura do último ano sempre leva as garotas para um tipo de… evento. Uma viagem, outra cidade… é divertido.
_Alice e Rosalie vão?
_Quando a cidade permite, sim. O que está escrito no papel?
_Hum… não entendo.
Edward tomou o formulário de minhas mãos delicadamente, e o leu.
_Boston. – Ele comprimiu os lábios. – Vão para longe, dessa vez. Acredito… que elas possam ir.
_Por que…
_Porque é quase tão gelado e sombrio quanto Forks. – Ele riu.

Comprimi meus lábios em um formato peculiar meu, formando um ‘bico’. Era como sempre ficava ao considerar opções. Pelo olhar de Edward, eu não tinha opções, eu iria àquela viagem. Mas eu pude sentir que ele desejava que as irmãs também fossem. Havia alívio em sua voz quando ele pronunciou o nome da cidade. Fria, sombria. Eu queria o sol.. mas já havia aceitado o fato de que ele não me era tão bom, afinal.

O formulário de autorização poderia ser assinado, mas havia algo que eu ignorava, e que me fora colocado em jogo no almoço. Sylvia falava sobre a distância, e dizia que seus pais reclamariam do custo da viagem. Eu não podia ser tão estúpida e perguntar o significado daquilo, mas foi a minha outra amiga, antes sem nome, Layla, quem explicou, involuntariamente. Dinheiro, ela dizia. E eu, mais uma vez, ignorei o que o dinheiro representava para os humanos, e que tipos de problema ele me causaria. Mas os Cullen não pareceram constrangidos com aquilo. Aliás, Alice parecia exultante com o fato de poderem ir… pois a última viagem havia sido para uma cidade ensolarada e elas haviam ficado de fora. Imaginei, então, que o dinheiro não fosse problema para os Cullen, e que a viagem devia ser mesmo muito boa.
_Bea, você vai adorar. – Alice disse, animada. – É tão bom, só garotas… e conhecemos tantas coisas novas!
_Parece até que algo lhe é novo, Alice. – Rosalie desdenhou.
_Pode até ser. Faz muito tempo que estive em Boston pela última vez.
Rosalie franziu-se, concordando. Carlisle assinou todos os formulários, sem hesitação alguma. A viagem seria em alguns dias, e as garotas ficariam fora por uma semana. Uma semana… eu ainda me perdia na contagem de tempo, mas uma semana me parecia um tempo razoável para se quantificar. Bom o suficiente para conhecer coisas novas, pensei. E bom o suficiente para me ambientar melhor a Alice e Rosalie. Elas eram divertidas, apesar da diferença óbvia entre elas. Elas eram muito diferentes, mas igualmente excitantes. E eu desejava compartilhar daquela excitação.

Ao contrário do que pensei, Edward não pareceu tão feliz com a viagem depois. Primeiro pensei que ele desejava que eu fosse. Depois, parecia que ele se contorcia com a idéia. Ou fosse só a minha vertigem de sempre, claro. Edward jamais se importaria àquele ponto. Até porque eu andava livre… meu protetor havia me deixado solta pelos campos sem qualquer amarra. Fora por sua própria vontade, então ele não poderia estar incomodado em uma simples ausência. Ainda porque eu estaria com suas irmãs. Mas eu continuei com aquela impressão esquisita até o momento de entrar no ônibus que nos guiaria a Seattle, e de onde pegaríamos o avião para Boston.
_Comporte-se. – Ele disse, sorrindo. Os Cullen todos foram nos levar até a escola, de onde sairia o ônibus. Várias famílias humanas se amontoavam lá, para despedirem-se de suas garotas. Muitas; era um grande número de mulheres que iriam à viagem. Carlisle e Esme pareciam igualmente satisfeitos. Emmett tinha os olhos de uma criança, e pude imaginar que fosse pela distância cruel que lhe seria imposta. Rosalie, sua parceira, estaria comigo. Conosco. Jasper parecia menos incomodado com aquilo, mas segurou Alice entre os braços antes do embarque.

Eu ganhei um sorriso.

O que eu poderia pretender, afinal. Aqueles pensamentos estavam irritantes, ainda mais porque o vampiro errado poderia tomar conhecimento deles. Precisei fugir do raio de ação de Edward imediatamente, ao ver todo o carinho que envolvia os Cullen naquele instante. Eu me comportaria, pensei comigo mesma. Até porque não sabia viver de outra forma; eu tinha que me comportar ou nada fazia sentido. Eu ignorava qualquer outro tipo de comportamento além do estritamente correto e esperado.

A viagem até Boston foi… longa. Primeiro, ônibus até o aeroporto. Muitas garotas falando, todas ao mesmo tempo. Até Alice e Rosalie. Nunca as vira tão… agitadas. Elas haviam me levado para caçar na noite anterior, e foi uma caçada longa. Segundo Alice, era muito mais seguro que estivéssemos plenamente alimentadas, antes de embarcar em uma longa viagem. Seria mais simples de superar qualquer contato inadequado com humanos. E elas estavam impossíveis. Tão animadas, tão cheias de… vida. A vida que Carlisle via em mim, e que eu ignorava todo o potencial. Sylvia e Layla tentaram contato comigo durante todo o tempo, mas eu estava aérea. Conversava, mas meus pensamentos não estavam ali, mesmo.

Segunda parte da viagem, o avião.

Eu travei, e as minhas novas primas tiveram um trabalho terrível para me fazer sair do lugar. Voar não me soou bem aos ouvidos, e o aeroporto me causou mais vertigem do que tudo na casa dos Cullen de uma só vez. A idéia de estar dentro daquele objeto metálico enorme, e de imaginar que ele podia cruzar os céus me causou náuseas e se eu tivesse conteúdo estomacal, ele teria sido derramado. Alice segurava minha mão ternamente para me convencer a entrar avião adentro, enquanto as meninas todas diziam que tudo daria certo, que era um transporte seguro.

Rosalie divertiu-se cruelmente com meu pavor, mas acabou por me forçar a entrada no avião. Depois, amarrou-me ao assento como se as frágeis tiras pudessem me prender ali.
_Não seja tola, Beatrice. Sei que nunca voou… mas é só um passeio, como outro qualquer. Vai adorar, no final.
Claro, eu poderia adorar. Mas eu ainda não estava convencida disso.. eu estava apavorada.
_O que pode acontecer de ruim? – Alice brincou. – Já estamos mortos mesmo…
Sim, mas não totalmente. Se aquela coisa desabasse, nos levaria ao inferno em segundos. Se existisse inferno, se não nos restasse apenas… o vazio completo. Eu nem sei o que preferiria. Seja lá como fosse, o tal avião levantou voo, ao contrário do que eu previa, e me levou para o alto, com todos dentro. Era mortificante, se eu definitivamente já não estivesse morta.

Então, Boston nunca podia ser longe o bastante. Edward havia dito, era longe. Mas não longe o bastante… foi um exagero. Eu não adorei, como Rosalie previu. Senti náuseas durante toda a viagem. Senti a vertigem. Pavor tomava conta de meus sentidos e as garotas tiveram ainda mais trabalho para manter-me sossegada. Eu estava insuportável e impossível, agindo como uma pequena mimada. Talvez eu assim o fosse, no covil. Eu tinha certeza que Felicia me mimava. Mas a viagem foi detestável, na parte do avião. Eu não relaxei e não senti prazer algum. Meus dedos estavam ainda grudados nos braços dos assentos quando o grande transporte voador finalmente aterrissou em Boston.

A diversão entre garotas era interessante, e comecei bem cedo a entender por que Alice e Rosalie ficaram facilmente empolgadas com a viagem. Mulheres falavam sem parar, e comentavam sobre tudo que viam. Depois que saímos do hotel e fomos andar pela cidade, a professora de literatura nos levou a diversos museus e galerias de arte, todas com obras datadas da antiguidade. Datas que nos eram familiares… de quando elas ainda eram humanas, de uma vida que elas lembravam com facilidade. Era, definitivamente, empolgante. Mesmo que eu me sentisse péssima por não me recordar da minha vida humana, eu conseguia sentir nelas toda a sensação. Passamos alguns dias nessa rotina, visitas a museus e galerias durante o dia, sono durante a noite. Sono meu, porque Alice e Rosalie conversavam e se agitavam durante toda a noite. Se eu não fosse definitivamente uma pessoa de perder os sentidos, eu não conseguiria dormir com elas por perto.

Era o entardecer, e o céu estava colorido de rosado. Apesar de não ter havido um dia de sol em Boston, como previsto, ele estava ali, escondido por sobre as nuvens, esperando uma abertura para se mostrar. E sua despedida deixava o céu com a cor do sangue, com o vermelho vivo da carne dilacerada. Que, em meio às nuvens cinzentas, transformava o ocaso em um tom róseo intrigante. O telefone celular de Rosalie tocou, outra vez. Ele sempre tocava, e eu nunca acompanhava a conversa. Eu estava cambaleante, pois o dia fora cansativo. E quanto menos eu me alimentava, mais sono eu sentia. Fraqueza, que me causava uma reação diferente do que nas meninas. Mas daquela vez, foi como se Rosalie fizesse questão que eu soubesse quem era.

_Edward Cullen. – Rosalie atendeu, voz grave e ríspida. – Isso não vai funcionar se você continuar ligando de vinte em vinte minutos. – Era um protesto. Edward ligava de vinte em vinte minutos? Aquele fato me era totalmente desconhecido. – Claro… vai conseguir me convencer que Emmett quer me falar. Se Emmett quisesse me falar simplesmente, teria me ligado de seu telefone. Sim, ela está… okay, pode falar com ela.
Rosalie franziu toda a sua expressão e, olhando para mim, atirou-me o aparelho eletrônico. Sorri encabulada, e achei mais conveniente dizer algo. Afinal, eu ainda não havia falado com Edward, e aquela história de ligar constantemente ainda não estava esclarecida.
_Alô? – Arrisquei.
_Como está a sua viagem? – A voz de Edward preencheu meus ouvidos, com suavidade. Era tão marcante que pude nitidamente delinear seus traços em minha frente, enquanto ele falava.
_Muito divertida, suas irmãs são ótima companhia.
_Eu sei. Elas têm cuidado de você? Evitado encrencas?
_Sim… comportamento impecável.
_Fico satisfeito. Vejo você em alguns dias, Beatrice.
Ouvi o telefone desligar. Tive vontade de pedir que ele esperasse. Senti falta de sua voz. Não tinha certeza disso até ouvi-la, então. Sua voz me trouxe memórias recentes muito satisfatórias… que me fizeram ter nostalgia de um tempo muito próximo. Emburrei levemente após devolver o telefone a Rosalie, pois eu queria ter tido um pouco mais de Edward. Tentaria não deixar que elas percebessem, se isso fosse razoável. Alice era sensível demais, e Rosalie estava sempre me observando. Elas certamente notariam meu estado de humor alterado.
_Gostaria mesmo de ter falado com Emmett. – Rosalie desabou entre almofadas, também com aspecto emburrado. – Sinto sua falta.
_Ah… e sinto falta de Jasper. – Alice assentiu. – Mas não sejamos piegas… vamos tê-los novamente em poucos dias. É bom nos separarmos vez ou outra, faz com que o reencontro seja gratificante.
Eu me senti então um alienígena. Não fazia bem idéia do que elas falavam, tão naturalmente.
_Eh… por que vocês sentem falta deles, especificamente? – A pergunta saiu sem querer, e as duas vampiras me encararam, atônitas. Era como se eu tivesse falado uma bobagem indesculpável. Parecia tão óbvio para elas… – Quero dizer… não sentem falta de seus pais? Edward?
Foi a vez das duas rirem. Aquele mesmo comportamento de Edward e Jasper. Parecia uma constante entre eles… ouvir minhas tolices e rir delas. Sem qualquer pudor.
_Bea, Bea… sinto falta de Jasper porque… como explico isso a uma híbrida que aparentemente não sabe do que estou falando? – Alice pareceu dirigir-se a Rosalie.
_Sendo direta. – Rosalie não pareceu muito interessada em me dar explicações. – Afinal, ela precisa saber isso um dia, não?
_Okay… vejamos. Bea, farei uma pergunta. Seja sincera, por favor. Em seu covil… como era seu relacionamento com os machos?

Alice pareceu escolher cuidadosamente a palavra, para que eu não me perdesse. Sempre me referia aos homens como machos, e apostaria que ela não conseguia enxergar homens me meu covil. Apesar da minha aparência natural, eu acreditava que eles ainda viam monstros em meu covil.
_Eu não me relacionava com eles, exatamente. – Fui definitivamente sincera. – Rudolph era o único macho que entrava em contato comigo. Os demais… não tinham permissão.
_E esse Rudolph era como seu pai? – Rosalie inquiriu.
_Sim, como Carlisle é para vocês. Ao menos, é como sinto.
_Então… serei mais direta, e continue sendo sincera. – Alice piscou várias vezes em minha direção, um sorriso doce nos lábios. – O que sente quando está na presença de Edward?

Ah, que pergunta cruel e perversa! Haveria descrição para o que eu sentia na presença daquele puro? Haveria forma de colocar as palavras que fossem capazes de explicar o turbilhão incerto de emoções desconhecidas que transbordavam em meu peito quando ele olhava para mim, ou sorria para mim, ou simplesmente estava presente? Talvez fosse impossível explicar tais sentimentos, porque eu jamais os tivera sentido antes. A presença de Edward me era um prazeroso mistério que eu pretendia não solucionar nunca.
_Eu… – vacilei, mas fui em frente. – eu me sinto zonza. É isso… sou tomada por um torpor maquiavélico que me tira os sentidos mais primitivos. Ajo tolamente, pareço uma completa idiota.
A sinceridade era cortante como navalha. Rosalie caiu na risada outra vez, enquanto notei Alice tentando reprimir a gargalhada.
_Então, Bea… o relacionamento entre as mulheres e os homens nem sempre são fraternos como os dos irmãos.
_Eu sei disso. – Senti um ardor interno bastante inconveniente. – Fui ensinada.
_É por isso que sinto falta de Emmett. – Os olhos de Rosalie pareceram feixes de luz quando o nome do vampiro foi pronunciado. – Somos apresentados como irmãos, mas na verdade somos… companheiros.
Novamente, a escolha cuidadosa de palavras.
_E… você é companheira de Jasper? – Questionei a Alice, que apenas assentiu com a cabeça.
_Ah. – Não havia outra frase pronta ou questão formulada. Aquilo era quase como uma revelação. A comparação do sentimento entre elas e seus companheiros com o sentimento entre mim e Edward… a facilidade excruciante com a qual respondi à pergunta de Alice… a sensação de ausência quando Edward desligou o telefone… arregalei os olhos, constrangida e ao mesmo tempo apavorada.
_Pode perguntar, Beatrice. – Rosalie ainda ria, e ela parecia perceber que eu tinha dúvidas.
_O que faz vocês se tornarem companheiros? Quero dizer…
_Não precisa explicar-se. – Alice sorriu novamente. – Há um sentimento, Beatrice.
_Sentimento… isso é totalmente humano.
_Claro. O que acha que éramos antes de sermos transformadas? Éramos humanas, assim como você. Pensei que fosse mais simples para você compreender a extensão dos sentimentos humanos… afinal eles deveriam ser bem mais fortes em você. Mas vejo que estava enganada, pois a sua ingenuidade é latente. Podemos não ter um coração pulsando, Beatrice… mas ainda sentimos.
Meus olhos baixaram, e senti algo que não conseguia identificar.
_Os humanos nomeiam de várias formas. Atração, desejo, paixão, amor… talvez tudo isso junto represente o seu companheiro. Você precisa sentir tudo isso ao lado dele… quando ele toca você… quando seus olhos se prendem aos dele…
_Rosalie, não quero saber os detalhes! – Alice atirou uma almofada na irmã.
_Não se finja de inocente só por estar na presença de Bea… vai me convencer que não desejaria Jasper aqui, agora, neste instante?
_Insolente! – Alice fez uma careta. Eu me assombrei novamente, constrangida. Elas falavam de relacionamentos entre macho e fêmea de uma forma natural, quase infantil. Meu olhar tentou se prender a qualquer coisa que não fosse a imagem de Edward em minha frente. Sua face pálida se formava em todo espaço vazio que havia naquele quarto de hotel, mesmo que eu repelisse qualquer lembrança do vampiro naquele instante.
_Assustamos Beatrice. – Rosalie fez também uma careta. – Acho melhor irmos mais devagar com esse assunto… ela parece muito confusa.
_Estou bem. – Menti, e eu pensei que mentisse muito mal. Deveria mentir mal, eu nunca mentia. Rudolph sempre sabia quando eu não falava a verdade. – Talvez eu deva descansar.
_E eu acho que devíamos sair desse quarto, por essa noite. – Rosalie levantou-se, rapidamente. – Vamos, Alice… só temos mais dois dias em Boston e ainda não visitamos nenhuma casa noturna.
_Ah, dançar um pouco seria ótimo! – Alice também se levantou, parecendo entusiasmada. – Boa noite, Bea…
_Vão sair? – Pânico embargou minha voz. Ficar sozinha com pensamentos complexos sobre a conversa recém encerrada não era bem o que eu desejava.
_Sim, vamos sair. Levaríamos você, se não tivesse que dormir.
_Não tenho que dormir. – Menti novamente. – Posso acompanhá-las… gostaria de acompanhá-las.
As duas vampiras se entreolharam e fizeram uma expressão indiferente, como se a minha companhia fosse interessante e o fato de minhas necessidades humanas estarem sendo negligenciadas pouco importasse. Talvez nem importassem, era fato. Eu parecia adulta o suficiente para tomar decisões, apesar da minha tolice vir à tona frequentemente.
_Edward não ficará satisfeito. – Alice fez um ‘bico’, já com a sentença definida. Rosalie deu de ombros, dando a impressão de que ela pouco se importava com aquele fato também.

As minhas duas novas irmãs me ajudaram a vestir e me levaram para a rua. Escondido, por certo. Se a professora de literatura sonhasse que três alunas haviam escapulido no meio da madrugada para perambular pela ruidosa Boston, ela teria uma síncope nervosa. Era melhor que permanecesse na ignorância, afinal. Pegamos um táxi até algum lugar, que aparentemente só Rosalie conhecia. Havia novamente bastante empolgação entre elas, e tudo aquilo parecia bastante divertido. Eu não entendia direito o termo diversão, porque todo o lazer no covil se resumia à leitura. O trabalho era cuidar do covil, claro. E a leitura era nosso momento de diversão. Então, casa noturna era um conceito muito vago, que nada significava em meu obtuso vocabulário.

Pois fomos a uma casa noturna, e o ambiente era cheio e de odor confuso. Eu estava já sentindo alguma sede, meu organismo não estava tão forte e todo cheiro me causava confusão. Eu não conseguia distinguir o que era o cheio adocicado que me intoxicava os pulmões; se eram os humanos presentes, ou a fumaça colorida que enevoava o lugar, ou a quantidade enorme de copos cheio de enfeites que os humanos bebiam. Definitivamente era uma dessas coisas, ou todas elas juntas. Mas era fato que o cheiro doce demais me causou enjôo tão logo eu coloquei os pés na casa noturna, que eu ainda não sabia o que era.

Rosalie parecia bem ambientada, e Alice parecia agitada. As duas vampiras foram direto para o que chamaram pista de dança e começaram a mover-se ao som da música. A música, ensurdecedoramente alta, que confundia meus pensamentos. Eu não era afeita àquele tipo de música, só ouvíamos os instrumentos clássicos no covil. Como vivíamos exilados e raramente os casais se formavam, os híbridos não se reproduziam. Nem se formavam. Não havia híbridos jovens, criados na modernidade. A maioria era da minha idade, ou mais velhos. Então, não havia jovem algum que trouxesse algum insight de como eram os humanos mais contemporâneos. A música que tocava naquele lugar era ruidosa, bastante, e não me lembrava nada conhecido.

O que as garotas faziam era dançar… mas uma dança também desconhecida para mim. Ao contrário do que eu pensava, eu adorei. Dançar foi divertido, e fez meu coração bater um pouco mais do que 10 vezes por minuto. Meu organismo reagiu ao ritmo frenético e pulsante da pista de dança com uma descarga de oxigênio e batimentos cardíacos que quase me levaram ao êxtase completo. Talvez Carlisle estivesse terrivelmente certo sobre meu comportamento naquele lugar. Eu não me reconheceria nem em um milhão de anos, porque eu nunca tivera nenhuma daquelas reações. Sangue morno, coração pulsando, oxigênio, a adrenalina… aquilo era pertencente aos humanos. Eu não podia ter nada daquilo. Talvez adrenalina não tivesse nada a ver com aquilo; era óbvio demais que não. Mas alguma coisa estava me tirando do prumo certo, me fazendo ter reações nada naturais à minha espécie.

A noite foi longa, e ao contrário do que eu imaginava, não desmaiei de exaustão. Foi muito difícil manter-me alerta no dia seguinte, para suportar uma nova sessão de visitas a lugares que mostrariam tudo que eu já conhecia, pessoalmente talvez. Museus e mais museus; visitamos três em apenas um dia. Rosalie e Alice estavam exultantemente lindas, e perfeitas, como se nunca fossem ter um fio de cabelo fora do lugar. Eu já não parecia tão bela, pois enormes olheiras arroxeadas se estendiam por toda parte baixa dos meus olhos, dando a correta impressão da minha sede. E do meu cansaço.
_Não podemos levá-la assim para casa. – Alice determinou. – Prezamos demais a vida…
_Ela se recupera, em uma noite de sono. Nos comportaremos hoje, prometemos.

A conversa era dirigida a mim, mas eu pouco a ouvia. Estava sonolenta seguindo as duas musas até o hotel novamente. Os planos de Edward, de que eu me envolvesse com os humanos naquela viagem, foram meio frustrados. As suas irmãs, para ser mais exata as minhas primas, eram muito divertidas e envolventes, e eu praticamente não me desviei delas um minuto. Sylvia Green tentou se aproximar várias vezes, e eu tentei dar-lhe atenção várias vezes, mas nada fluiu naturalmente. Eu queria perseguir minhas primas até onde pudesse, para sorver-lhes a sabedoria. Elas não eram mais velhas do que eu na idade humana, mas o eram na idade real. Viveram mais do que eu, e nunca foram exiladas para o submundo, como eu.

Boston foi uma grande experiência. Eu mal conseguia pronunciar o nome da cidade, apesar de sua simplicidade, antes. E saí dela com conhecimentos além da minha expectativa, e com revelações mais do que indesejadas. Eu não desejava ter toda aquela revelação sobre Edward. Ainda ecoavam as palavras de Alice a perguntarem o que eu sentia na presença de Edward. Eu mesma desconhecia minhas reações, mas ela as usou como exemplo para a sua explicação. Poderia ela conhecer-me melhor do que eu mesma? De qualquer jeito, a experiência foi gratificante, e surpreendente. Mas eu acabei ansiando pela volta mais do que deveria, e pelos motivos completamente errados.





(Cap. 11) Capítulo 10 - A Visão

 

*tema: Mozart’s 5th Symphony 1st mov*

 

Os Cullen nos esperavam na escola, como todos os demais pais. Eles não eram como os outros pais, eram mais lindos, mais jovens e mais interessantes. Ao lado deles, estavam os três filhos homens, e eu sabia que Emmett e Jasper ansiavam pela volta de suas companheiras. Eu estava com aquela história a transpor-me os pensamentos, imaginando sempre o relato de Alice e Rosalie a respeito de seus companheiros. Eu não sabia o que sentir a respeito de Edward, e mesmo que soubesse, imaginei que se tratava de uma via de mão dupla. Ele também teria que sentir algo por mim, o que estava fora de cogitação.

Respirei profundamente ao deixar o ônibus, sentindo-me ainda amarrotada. Eu acabei por adormecer durante a pequena viagem de Seattle a Forks, porque eu estava esgotada por passar noites e mais noites à companhia de quem não dormia. Era o pequeno preço pela companhia de minhas novas primas. Meus olhos procuraram aleatoriamente a face de Edward, serena. Eu não senti sua falta, ao menos não como as garotas sentiram. Elas desejavam seus companheiros de forma diferente. Mas eu não sabia a extensão do dano que sua ausência causara em mim até encontrá-lo ali, de pé, com as mãos para trás enquanto pacificamente aguardava a nossa descida. Eu senti um alívio imediato e ao mesmo tempo uma agonia crescente ao vê-lo. Intencionalmente, quis tocá-lo mais uma vez. Foi caótico para meus sentimentos, um turbilhão descoordenado de sensações. Eu lutei comigo mesma para controlar os impulsos elétricos que iam e vinham de um lado a outro, e que mecanicamente desejavam fazer meu corpo se mexer, ao mesmo tempo que me impediam de avançar.

_Seja bem vinda de volta. – Edward sorriu, e se aproximou de mim ao perceber minha hesitação. As garotas já haviam descido à minha frente, e já se reconciliavam com seus pares. Ele liberou uma das mãos e me entregou uma flor. Eu sabia que era uma flor, mas eu não conhecia as flores. Não identificaria nenhuma, por mais que eu tenha estudado. Eu conscientemente evitava conhecer as belezas do mundo à superfície, visando diminuir a angústia por viver trancada sob a terra. Ante a minha completa falta de reação, Edward sentiu necessidade de prosseguir. – É uma tulipa vermelha.

Segurei a flor entre os dedos, e levei-a ao nariz. Seu aroma era suave, não doce como tudo que eu presenciara em Boston. Eu não notei se os Cullen ainda nos observavam, ou se aquilo faria alguma diferença. Edward estendeu-me o braço, e entendi que eu deveria segurá-lo. A frenética compulsão de tocá-lo seria então levada em consideração. Ele me conduziu até seu carro prateado como a luz do luar, e fomos até a sua casa. Nossa casa. A casa dos Cullen. A confusão de pensamentos ainda não havia se dissolvido, porque a presença de Edward havia baixado significativamente as minhas defesas e compreensões. Era como se ele exercesse um poder estranho sobre minha razão. Se eu ainda tivesse alguma.

Mas havia algo que eu ainda não sabia, e que talvez estivesse por trás da súbita mudança de comportamento de Edward. Primeiramente, ele seria meu tutor. Então, ele se afastou gradualmente, dando-me um espaço nem tão desejado. Enturmei-me com os humanos, fiz amigos, passei a freqüentar seu ambiente e a interagir de uma forma até mesmo perigosa. Deixei de desejar seu contato permanente, e satisfiz-me forçadamente com a rápida discussão em sala de aula e com alguns momentos de descontração com os Cullen, no salão. Ele mesmo deixou de caçar para mim, apesar de nunca ter assumido essa tarefa plenamente. Então, ele se prostrava de pé a me esperar e a me oferecer flores, seja que significado aquilo tivesse. Devia significar algo, afinal. Era demasiadamente complexo para minha tão mencionada ingenuidade, e eu demoraria muito a entender se não tivesse presenciado, furtivamente, outra conversa entre os Cullen. Se aquilo pudesse ser chamado conversa.

Eu saía do banheiro, depois de um agradável momento retirando as impurezas do meu corpo, quando meus ouvidos capturaram a voz de Edward. Era um radar potente, meu corpo todo sentia a sua presença mesmo que não tão perto.
_Obrigado por isso, Alice. – Ele interpelou a irmã.
_Edward, não há que me agradecer. Mas eu ainda vejo… ainda há morte no futuro, e isso me deixa impotente. Eu achava que era por causa desse suposto envolvimento entre vocês… mas não é. A não ser que você tenha trapaceado! – Ela disse. Estiquei-me para observar pela fresta da porta. Eles estavam no quarto de Alice, e Edward de costas para mim. A pequena vampira o olhou curiosamente, esperando por algo.
_Eu não trapaceei. Desisti sinceramente dela… afastei-me de plena vontade.
_Você sabe, Edward… se você ainda tinha intenções de…
_Eu não tinha. – Ele parecia controlado demais. Talvez se controlando demais.
_Então, é algo mais. Eu continuo vendo só a mesma coisa, mas está tão confuso. Nunca é assim… isso me deixa frustrada.
_Ao menos, sei que posso parar de lutar contra isso.
_Ah, Edward meu irmão! – Alice afagou o rosto de Edward, com as costas da mão. – Lamento se te fiz sofrer por minhas visões imprecisas.
_Ainda não sei se tudo isso é boa idéia… e não saberia mesmo como abordá-la.
_Talvez deva pensar em uma forma, e rapidamente.
Alice esticou-se e olhou por cima dos ombros de Edward, com alguma dificuldade. Ela sorriu levemente quando ele acompanhou seu olhar e pegou-me no flagra, a espiá-los. Mordi o lábio superior, já sabendo que havia sido pega. Edward podia ler, podia saber que eu estava ali. Apesar de eu não estar pensando muito e de ele estar concentrado em Alice. Mas pareceu que ela sabia da minha presença, o que era ainda mais curioso. Ela também lia mentes? Família curiosa, aquela.

Edward caminhou em direção à porta. O súbito afã de fugir correndo desapareceu ao considerar a inutilidade daquela medida. Eu não tinha para onde ir, e Edward certamente me encontraria onde eu estivesse. Quase irritante.
_Ora vejam… Beatrice Caldwell ainda não abandonou velhos hábitos.
Alice deu uma gargalhada, e passou por nós dois. Deixou o quarto comprimindo os lábios. Edward balançou a cabeça negativamente, irritado.
_Lamento… foi uma compulsão mais forte do que minha vontade. Eu acabara de sair…
_Eu sei. – Ele disse, olhos confrontando os meus. Seu semblante era calmo, obviamente ele sabia que eu estava muito, muito confusa. – Eu sei, eu sei, e eu sei também. Beatrice, venha comigo.
Edward carregou-me até o meu quarto, e empurrou-me à minha cama. Eu ainda estava olhando para ele com perplexidade, porque eu sequer tinha entendido o teor de sua conversa com Alice. Havia morte no futuro, mas… futuro de quem?
_Eu… desculpe-me por…
_Beatrice, não me importa mesmo que estivesse ouvindo nossa conversa. – Ele pareceu preparar-se para um discurso. – Veja bem… Alice, nossa irmã… ela tem uma qualidade especial, assim como eu.
_Ela também lê mentes? – Disparei. Ele se franziu, claramente incomodado por minha postura de sempre interromper. Era ansiedade, eu estava sempre ansiosa desde que deixara o covil. Era muita coisa nova para se ver e aprender, e eu me sentia sem tempo. Mesmo imortal, mesmo sabendo que eu tinha a eternidade para aprender o que fosse, algo dentro de mim insistia em me privar do quesito tempo.
_Ela consegue ver. Ela vê o que vai acontecer, de uma forma significativamente clara. E precisa.
_Oh. – Escapou de minha garganta uma interjeição de surpresa. Então era isso… Alice viu o futuro. Ela viu as mortes… ou a morte… ou o que significasse o fim de uma vida. Uma vida… humana? Era possível dar fim a um imortal? O nome imortal deveria significar algo. – E… ela viu a morte de quem?
_Ela viu… morte. – Ele tentou escolher as palavras novamente, e aquilo me perturbou. – A questão é que a morte.. Alice considerava que envolvia a mim e a você. Ela pensou que nossa proximidade tivesse desencadeado tudo. Mas parece-me que fora uma observação equivocada. Alice se sente muito mal por equivocar-se… e ela raramente o faz. Parece-me que você anda confundindo a todos, afinal.

A morte envolvia a mim e a ele. Oras, então era possível matar um imortal. Quanta imprecisão terminológica, pensei.
_Edward, eu não sei o que dizer.
Ele se colocou à minha frente, e estava parado, mãos nos bolsos, me observando curiosamente. Ele podia me ler inteira, por que a sua expressão era sempre de curiosidade?
_Tecnicamente você não precisa dizer nada. – Ele sorriu, levemente. – Mas também poderia ser… menos enfática com seus pensamentos. Eles me causam algum constrangimento às vezes…
Meus olhos baixaram outra vez, e eu desejei por um instante desaparecer. Maldito fosse aquele vampiro, com tanta habilidade quanto a beleza que ele irradiava. Ele era a forma mais pura de beleza que eu poderia idealizar, e estava sempre e cada dia mais perfeito. Desde a primeira vez que o vira, ele conseguia se aperfeiçoar a cada instante.
_O fato é que Alice decidiu que você pode ser a causa do problema… mas não mais o fator eu versus você.
_Existe um fator eu versus você? – Pasma. Eu nem precisava falar, mas as palavras pulavam de minha boca com certa facilidade. Eu sempre agia como uma tola na presença de Edward.

Ele sorriu. Eu ainda o observava com olhos bastante arregalados, assustada. Eu ainda pressentia nele todo o perigo, e talvez as previsões de Alice apenas confirmassem. Havia perigo demais em estar ali. Em me envolver com os Cullen. Eu não sabia que tipo de perigo, mas ele era pulsante, latente. Eu não sabia quem estava se arriscando. E mesmo assim, eu só conseguia pensar no que Edward acabara de dizer. No fator eu versus você.
_Minha cara Beatrice. – Ele se aproximou mais, como se aquilo fosse possível. Meu coração pulou diversas batidas, foi como se ele significativamente parasse. Eu sequer sabia se teria algum problema ele parar. Talvez não. Talvez ele batesse por puro capricho, assim como era a minha respiração. Um capricho da natureza que me transformara naquela aberração. – Sim, existe um fator eu versus você. É uma matemática bastante complicada, preciso aceitar. Mas é algo que aparentemente está fugindo do meu controle. Porque você não parece colaborar nem um pouco.
_Eu… agora a culpa… é minha? – Senti desespero e indignação ao mesmo tempo. Eu não colaborava com o que afinal, se eu nem sabia da existência de uma análise matemática entre mim e ele. Eu nem era muito afeita à matemática, eu gostava mais da literatura e das artes. Edward deu uma risada alta, e passou as costas da mão por minha face, como Alice fizera com ele.
_Sim, a culpa é sua. Afinal, por mais que eu tente dizer não a mim mesmo, a toda hora você se coloca no caminho dizendo sim. Por mais que eu tente me convencer de que você é apenas uma distração momentânea, a todo momento você surge à minha frente para desmascarar toda a minha mentira. É difícil mentir a mim mesmo quando você grita a todo instante que eu estou certo.

Se eu pudesse morrer, meu coração já estava parado e não faltaria mais nada. Eu olhava para Edward com tanto desespero que senti vergonha de minha reação exagerada. Mas tudo me era exagerado quando eu estava próxima a ele, e aquela viagem a Boston não contribuiu em nada. Eu só pude sentir mais apego à sua presença, ao contrário do que eu esperava. Por minha ciência, ao contrário do que todos esperavam.
_Está tarde, Bea. – Edward continuou seu discurso. – Vá recolher-se… podemos conversar mais amanhã.
_Nossa conversa mais parece um monólogo. – Protestei, emburrada. Sem saber se por ele me dispensar ou se por ele sempre falar muito mais do que eu. – É injusto quando você sabe o que eu vou dizer antes mesmo das palavras serem ditas.
_Lamento. – Ele resignou-se. – Prometo que me controlarei.. e deixarei que fale, mesmo que eu já saiba o que vai dizer. Melhor assim?
_Quase.
_Boa noite, Beatrice.

Maldito vampiro. Eu cerrei os punhos e soquei a cama, tão logo ele se esquivou pela porta. Maldito, maldito, maldito. Eu nem sabia por que estava blasfemando daquela forma, mas eu desejava blasfemar. E socar tudo que fosse. Não socaria nada muito rígido, pois poderia quebrar-se. Estava irritada, com ele por esconder-me coisas, comigo por pensar coisas, com Alice por não ter me contado da história da morte… estava irritada demais para conseguir adormecer. E nem era tão tarde. A desculpa que ele usara como subterfúgio para livrar-se de minha companhia era infame. Eu havia passado noites em branco, sabia que aquilo não faria muita diferença… dormir pouco seria uma nova meta, para mim.

Eu decidi que obedecer a Edward era uma péssima idéia, pois ficar naquele quarto depois de sua aparição e depois da revelação de que Alice havia visto coisas ruins no futuro só me causaria mais agonia. Vesti qualquer coisa que as garotas considerariam o suficiente e desci as escadas, para encontrar os Cullen no salão, reunidos para a tradicional conversa noturna. Desde que eu chegara, eles sempre se reuniam e conversavam, como se aquilo fosse o momento familiar deles. Realmente, muito diferente da minha vida no covil. Lá a família era grande demais para momentos como aquele, e eu vivia de forma mais reclusa, por ordens de Rudolph. Não sabia por que, ele se recusava a dizer-me. Mas era fato que eu estava sempre reclusa, e toda aquela efusão familiar me causava uma alegria inusitada.

_Seja bem vinda, Beatrice. – Esme sorriu ao me ver descendo.
_Obrigada. Alice…  poderia falar-lhe? – Nem completei a caminhada.
_Sim, eu sabia que viria chamar-me. – A pequena vampira levantou-se, mas Edward interpôs-se em seu caminho.
_Deixe que cuido disso.
_Pretendo falar com Alice, Edward… se não se importa. – Fui carrancuda e nada gentil. Ele havia me irritado levemente antes, quando me fizera tão confusa com suas palavras sem sentido. Eu podia fazer sentido a ele, ele me lia! Ele sabia dos meus pensamentos mais imperfeitos, o que se mostrava plenamente injusto e desequilibrado. Era impossível uma batalha justa contra ele.

Edward rosnou, e Alice franziu a sobrancelha. O que ela tenha pensado, ele compreendeu bem. Não senti necessidade de esconder-me com a vampira, pois eu sabia que onde estivesse Edward nos ouviria. Então, que eu falasse ali mesmo. Os Cullen discretamente decidiram continuar a conversa entre eles, enquanto eu interrogaria Alice.
_Alice, conte-me tudo. Não posso ver o futuro ou ler mentes como seu irmão… mas sinto que tenho o direito de saber se serei a responsável pela morte de alguém. – Despejei sobre ela.
_Bea… eu ainda não sei tudo. É como se houvesse uma indecisão quanto a isso… eu só posso me certificar quando as decisões são certas. Quando há certeza. A visão é borrada e incompleta, como se apenas uma idéia se formando em alguém. Mas…
_Alice, não. – Edward não resistiu em interferir. – Você não precisa dizer isso a ela.
_Eu sei… mas não me parece justo deixá-la na ignorância. – Alice olhou ternamente para o irmão, que resignou-se. Não completamente, mas pelo menos não se jogou em nosso meio visando impedi-la. – Bea, eu vi morte. Alguém morrerá no futuro… e eu não estou bem certa de quem será. Mas você está envolvida.
_Eu matarei? – Senti um espasmo, coisa que não me lembrava ter sentido antes. Adaptação ao sol, eu pensava. Adaptação, como Carlisle dizia. Talvez ele devesse me testar novamente, pois havia mais de um mês dos testes iniciais. Aquele tempo poderia ser suficiente para alguma adaptação… ou não. Eu definitivamente não era boa contabilizando o tempo.
_Não. Mas…
_Alice, não! – Daquela vez Edward meteu-se entre mim e Alice, olhos felinos encarando a irmã tão pequena. Ela comprimiu os lábios, visivelmente irritada. – Por favor, Alice… poupe-a desse detalhe. – Ele sussurrou, e eu quase não pude escutá-lo. – Sei que considera uma tolice mas.. eu não suportaria a agonia dela.
_Está bem, Edward. – Alice respirou, e olhou para mim. Edward continuava em nosso caminho. – Bea, você não mata ninguém. Todo o resto ainda é incerto, então é melhor deixar isso para lá. Quando eu tiver uma idéia mais clara do que vai acontecer eu vou te contar… e Edward não vai me impedir.

Alice encarou Edward mais uma vez, e saiu de perto. Eu fiquei um tanto magoada, pois desejava saber tudo. E pensei que as garotas estavam do meu lado, algo assim. Talvez não houvesse lados naquela pequena batalha caseira. Edward baixou a cabeça, sem encarar-me.
_Lamento, Bea. – Ele respondeu aos meus pensamentos. Ele começava a ficar irritante fazendo aquilo, mas eu não sentia que podia ficar irritada com ele por um longo tempo.
_Talvez seja mais difícil ainda lidar com a agonia da minha ignorância, sabia? – Tentei jogar. Com ele não havia jogo, mas eu tentaria.
_Não seria. – Ele deixou os dedos percorrem meus longos cabelos que caíam por meu ombro. Os pseudo cachos de um castanho dourado reluziam pela luz artificial. – Vamos dormir, Bea… eu levo você a seu quarto.
_Não. – Emburrei-me novamente. – Ficarei com seus pais e irmãos, se não se importa.

Os Cullen me acolheram na reunião familiar, e aquilo foi reconfortante. Após tantas revelações fantásticas, eu precisei de um pouco de distração para retomar meu controle. Edward lia mentes, eu sabia. Alice via o futuro, e ela previu morte. A minha morte, seria? Eu ainda duvidava da capacidade de se aniquilar um imortal; talvez se eu tivesse algum conhecimento dessa possibilidade eu tivesse colocado um fim em minha própria existência. Anos de sofrimento teriam sido poupados. Morrer nem seria tão prejudicial, então. Mesmo que nada houvesse ao final, era pelo menos o final. Mas, não sendo a minha morte… a morte de quem eu causaria? Quem seria importante o suficiente para Alice a fim de que ela visse esse fato? Eu poderia suportar a morte de um dos Cullen, aqueles que me acolhiam tão generosamente? Poderia aceitar o fim da existência de alguma daquelas criaturas tão boas e gentis? Pior, eu poderia aceitar a morte de Edward? O quanto conectada a ele eu estava, para que eu agonizasse com aquele fato? Talvez ele soubesse melhor do que eu mesma.

Então, eu estava apavorada. A noite seria um martírio, e eu não desejava adormecer. Permaneci entre a família o quanto eu pude, conversando e me divertindo com as peripécias fabulosas de Emmett. Mas meu corpo meio humano meio vampiro não suportou a exaustão e sucumbiu ao sono, fazendo-me perder parcialmente a consciência, amparada pelas grandes almofadas vermelhas da sala. Eu estaria satisfeita em adormecer ali, na presença de todos, sentindo-lhes. Mas fui novamente carregada a meus aposentos, pelas mãos rígidas de meu protetor. Parecia outra noite comum, mas naquela eu sentia tensão. Meu cérebro trabalhava freneticamente, processando informações e analisando fatos. A morte, era só no que pensava. A morte que Alice vira, e que tanto assustava Edward. A morte que não mais significava o eu versus você. Meus neurônios processavam aquilo como se fosse sair alguma explicação de meu oco craniano. Eu não me sentia inteligente, e competir com os Cullen era também desonesto.

_Você está se sentindo bem? – Edward perguntou, colocando-me cuidadosamente na cama. Uma brisa suave penetrava pela janela aberta, fazendo meus cabelos esvoaçarem. – Pare de se torturar, Beatrice. Não vai ajudar em nada.
Fingi que ele nada falava. Eu queria estar irritada com ele. Precisava estar. Mas quando ele desistiu de me falar e caminhou até a porta, uma sensação horrível me dominou. Era como se eu estivesse sendo abandonada à deriva em um lugar qualquer. A agonia, que Edward tanto tentava evitar.
_Edward! – Eu chamei por seu nome, ele já no batente da porta. Minha figura desorganizada iluminada pela fraca luz artificial, e ele então olhou para mim. Seu semblante era de resignação, como se ele não desejasse lutar contra algo. Como se ele estivesse muito interessado em dizer sim a algo que devesse dizer não. O paradoxo que eu lhe causava… a dificuldade em dizer não quando eu gritava um sim.
_Tudo bem, Beatrice. – Ele retornou, fechando a porta atrás de si. – Tudo bem.

O dia seguinte começou confuso. Suficientemente confuso para uma híbrida em adaptação. Eu abri meus olhos lentamente, e a luz do sol mal podia clarear o dia. Ainda era cedo, muito cedo. Não havia muita luz para penetrar as pesadas nuvens negras que flutuavam pelo céu de Forks. Eu pisquei algumas vezes, imaginando que estava começando a melhorar no quesito dormir tarde, e tentei esticar meus músculos. Era um impulso natural, totalmente natural. Era algo que eu fazia normalmente durante os momentos de despertar, mas daquela vez meus punhos bateram fortemente em algo que não deveria estar ali. Um obstáculo não esperado na minha manhã. Assustei-me repentinamente, virando-me para o lado como um animal acuado, que eu tantas vezes presenciara.

Edward segurava o queixo, enquanto parecia suprimir uma risada. Ele me olhava com admiração, apesar de meu involuntário golpe ter-lhe rendido dores.
_Beatrice Caldwell… você não precisa matar-me durante a manhã, basta pedir que deixo seu quarto.
Olhei assustada para ele, e por um instante todas as indagações da noite anterior desapareceram. Meus olhos esbugalhados se prenderam na figura gentil do vampiro que se estendia pela minha cama, e tentava recompor o queixo golpeado. Senti novamente o espasmo inconveniente ao perceber-me praticamente saindo de seus braços, atordoada com o fato de eu não me recordar daquela pequena invasão.
_Sim. – Ele disse, ajeitando-se. – Magoa-me o fato de você não lembrar que me chamou de volta. – Ele zombou. Sim, zombar das tolices desmedidas de Beatrice era uma diversão, um passatempo para Edward. Que ele adorava, por sinal. Novamente, ele respondia meus pensamentos. – Desculpe… não farei mais isso. Pode perguntar-me.
_Você dormiu aqui. – Não era uma questão.
_Isso não é uma pergunta. – Ah, ele percebera!
_Eu…
_E eu não dormi. Tecnicamente, eu não durmo. Não sou dado a essas fraquezas humanas.. não tenho essa necessidade. Pode considerar como ‘passar a noite’.
_Por quê? – Eu estava em branco. Edward me sorriu, e levantou-se.
_Recomponha-se, Bea. Temos aula hoje… e não pretendo atrasar-me. Já mato aulas o suficiente durante os dias de sol… não quero criar confusão para Carlisle. Além do que, tenho uma reputação a zelar.

Edward deixou o quarto, e eu continuei na mesma posição por muitos minutos. Eu estava completamente atordoada, como se o golpe tivesse sido em mim mesma. Eu já estava me cansando de sentir aquilo quando Edward estava por perto… aquela fraqueza, aquela angústia, aquele desespero juvenil de quem está… a palavra não me era conhecida. Não havia um termo lógico e racional para explicar o que estava acontecendo comigo. Eu não conhecia nenhum. Vesti-me para a aula e saí descoordenada de meu quarto, procurando pelo que eu não sabia. Saber que eu causaria uma morte não parecia doer tanto quanto o despertar ao lado de Edward. Meu interior estava dilacerado, e eu nem sabia por que.

Pus-me em frente a seu quarto, levando a mão à porta e hesitando um instante. O que eu faria ali, eu ignorava. Eu precisava de uma resposta do motivo. Talvez ele soubesse, porque ele sempre sabia. Ele penetrava em minha mente mais facilmente do que eu mesma.
_Minha espiã. – Sua voz ecoou do fundo do quarto. A porta estava entreaberta, e mesmo se não estivesse eu poderia ouvi-lo. Era como se eu pudesse ouvi-lo de qualquer forma, em qualquer lugar eu estivesse. – O que deseja agora, Beatrice?
Coloquei-me na fresta da porta, Edward terminava de vestir sua camisa. Ele se virava para mim, sorrindo. Sorrindo, então. Teria acabado seu mau humor? A noite não teria sido para ele tão dolorosa quanto para mim? Ele poderia saber algo que eu ignorava, sobre meu próprio subconsciente?
_Edward… por que você… – eu caminhei em sua direção, ainda entorpecida pela proximidade espontânea de seu corpo ao meu, durante a manhã. Era como se o toque frio de sua pele me tivesse queimado.
_Por que você pediu. – Ele foi simples. – Você não se recorda? Você foi muito influenciada pelas profecias de Alice… aquela pequena petulante não deveria ter te contado nada.
_Mas eu queria saber. Isso deveria importar.
_Sim, por isso eu deixei que ela contasse. – Ele baixou o olhar. – Mas eu desejaria que você deixasse isso… que você simplesmente continuasse sua jornada. Afinal, o que for que Alice viu vai acontecer daqui a um tempo indeterminado, e ainda está incerto. Tudo pode mudar. – Ele se aproximou ainda mais, e eu podia ouvir sua respiração. Desejei secretamente saber se ele precisava respirar. Era óbvio que não, já que seu coração nem batia. Se eu não sentia precisar, por que ele precisaria?
_Mas…
_Você pergunta demais, Beatrice. – Ele sorriu novamente. – Aliás, você grita para mim. Já disse isso… seus pensamentos são tão altos e claros que eu imagino que você esteja mesmo falando. Bem, eu acho que é injusto deixar-me penetrar tanto em sua mente sem dar-lhe nem um pouco da minha, certo?
_Sim, totalmente injusto. – Balbuciei. A proximidade ainda queimava.
_O que deseja saber?
_O que está acontecendo. Quero dizer… o fator eu versus você.
_Claro. – Ele riu, mais espontaneamente. Seus dedos tocaram meus cabelos, acompanhando a sua extensão. – Beatrice, escolher as palavras certas para isso é inútil. Tentarei ser sincero, por favor não me interrompa. – Ele limpou a garganta, e meus olhos ainda não conseguiam encará-lo. – Alice viu você chegando. Ela julgou que fosse um humano, porque ela ignorava a possibilidade da existência dos híbridos. Alice me alertou… de que isso aconteceria. Mas seria inevitável, então. Os céus são testemunhas de que, desde que encontrei você vagando pela floresta, eu tentei evitar isso. Mas parecia tão inútil enquanto você estivesse em todo lugar… Carlisle não tornou nada simples a minha missão. Sim, eu pretendia evitar… mas como me afastar de você, então? Seu perfume incoerente está em todo lugar. Seus olhos ansiosos estão em todo lugar. Sua mente está em todo lugar. Mas quando eu estava pronto para sucumbir, Alice tem outra visão, aquela que ela tentou lhe descrever.
_E que você… – A interrupção. Ele franziu a sobrancelha e levou um dedo aos meus lábios. Fechei os olhos instantaneamente, sentindo meu corpo reagir violentamente àquele toque. “Shhhhhh…” foi só o que pude ouvir, então. Ele prosseguiu.
_Aquela visão me deixou com problemas. Como eu poderia me aproximar mais e arriscar você? Era muito caro o preço que eu teria que pagar para dar azo aos meus impulsos. Então, eu decidi me afastar. Eu decidi que aquela semana ao seu lado não podia significar mais do que a segurança daqueles que me cercam. Então, entreguei você a eles… aos humanos, aos meus irmãos. Novamente, os céus testemunharam a minha tentativa. Mas Alice está terrivelmente certa, o que me irrita ainda mais. Eu jurei que não, mas é inaceitável mentir quando eu não quero fazê-lo. Eu trapaceei, porque eu deveria me afastar voluntariamente. E eu, em momento algum, intencionei manter minha proposta inicial. A todo momento eu pensei em voar para Boston só para ter você comigo. Rosalie já estava impaciente com tantas ligações… e eu descobri, covardemente, que minha força de vontade não é tão grande assim. Eu me considero forte o suficiente, Bea… mas existe algo em você que me desarmou a defesa de uma forma insuportável.

Ouvi a tudo silente, olhar baixo, sentindo espasmos musculares. Meu corpo convulsionava, novamente uma sensação inesperada para mim. Eu sorvia as palavras de Edward como se me recusasse a entender o que ele dizia, ou como se o que ele me dizia fosse tão absurdo que não fosse possível entender. Fechei os olhos e recordei o covil. Quando fora que eu decidi ir embora, quando fora que eu decidi que sob o sol era o meu lugar para viver. As pessoas que me cercavam, minha tutora, Rudolph. Todos eles juntos, tudo que eu considerava ser certo e seguro, tudo que eu considerava importar. Poderia nada daquilo realmente fazer sentido? Poderia a minha existência inteira no covil ser superada por um único olhar, por um único sorriso? Eu poderia trocar definitivamente a imortalidade se fosse para ter o sorriso de Edward só uma vez? Eu poderia arriscar a tudo e a todos só para tê-lo tocando meus lábios outra vez?
_Você pergunta demais, Bea. – Ele manteve os dedos em meus lábios, apesar do meu silêncio. E não haveria voz possível de sair de minha boca. Era providencial que ele pudesse ler-me, pois eu jurava ser incapaz de falar novamente. – E posso garantir que é lisonjeiro demais… eu não mereço seus elogios.
_Eu ainda estou confusa. Eu não consigo entender o sentimento.. a agonia.
_Lamento por esconder isso de você, Bea. Eu quis gritar, deixar minha voz contar exatamente como eu me sentia desde o início. Deixar que você soubesse, para você poder escolher. Até porque você parecia já ter escolhido… mas eu me acovardei ante a possibilidade de arriscá-la. Agora vamos.. temos aula.

Edward passou por mim, mas eu não consegui me mover. A atração que ele me exercia era quase como uma fórmula física complexa. Forças estranhas que me puxavam contra a gravidade normal. Ele me fazia flutuar, de uma maneira muito pouco metafórica. Era como eu me sentia, flutuando. Eu não conseguia dar um passo à frente, porque mover-me causava também dor.
_Fica difícil deixar o quarto enquanto você está tão ansiosa, Bea. – Edward voltou-se até mim, seus olhos demonstrando alguma inquietação. – Não gosto de causar isso em você.
_Edward… – novamente balbuciei seu nome, porque eu queria algo que ele ainda não havia feito, ou dito. Meu cérebro e todas as reações químicas que ele produzia estavam agonizando por algo que eu mal sabia o que era. Mas pelo que eu me renderia completamente, então.
_Sim, Beatrice. Eu estou apaixonado por você. – Ele sorriu, e segurou meus braços. Eu continuava sem poder olhá-lo quando ele displicentemente puxou-me para si e me acolheu entre seus braços macios e receptivos. Seus lábios tocaram meus cabelos, e a sensação foi elétrica. Havia impulsos por todos os lados, como uma tempestade magnética. Foi desconfortável e ao mesmo tempo magnânimo. Não parecia possível sentir nada como aquilo, não parecia racional.

Aquele vampiro não tinha o direito de me fazer nada daquilo. Menos ainda de se expor daquela forma. Era cruel, quase insuportável. Ele me dera duas revelações com as quais eu não podia conviver, e precisava apegar-me somente a uma delas. Uma, eu causaria a morte de alguém. Talvez a minha. Duas, ele estava apaixonado por mim, se eu pudesse realmente saber o que aquilo significava. Fosse o que fosse, aquele sentimento era retribuído. Aquela era a palavra que eu procurava, aquele era o sentimento. Ele estava apaixonado por mim, e eu estava apaixonada por ele. O fator eu versus você. O que tornaria aquilo um “nós” provavelmente muito inconveniente. Eu não sabia se estava preparada para tratar de Edward no plural. Mas eram duas situações aparentemente incompatíveis, haja vista excludentes. Eu não podia conviver com o fato de que causaria a morte de algum dos Cullen. Menos ainda se a morte fosse de Edward. Eu sequer cogitava aquela possibilidade, porque o vazio que ela me causava era inaceitável. A minha existência podia terminar a qualquer tempo, pois eu sentia já ter passado todo o meu prazo naquele plano. Era como se eu detestasse ter que acordar mais um dia. Mas até isso parecia me causar incômodo, pois desde que eu me descobrira sob o sol, desde que eu descobrira Edward, a minha existência passou a ganhar um novo sentido. Uma nova cor, além do preto e do vermelho vivo. Edward era uma nova cor para meu vocabulário reduzido. Ele era um motivo bastante razoável para eu não desejar nem mesmo a minha própria morte. Então, como eu poderia conviver com essa incerteza em confronto ao fato de ele estar apaixonado por mim? E como essas duas situações poderiam coexistir sem se anularem, imediatamente? Eu parecia ser o bem e o mal, o certo e o errado, o possível e o impossível, tudo reunido em uma só capa de problemas ambulante.





(Cap. 12) Capítulo 11 - A Escolhida

 


*tema: David Bryan’s Endless Horizon*


Meus pensamentos estavam fora de ordem e bastante alterados, então. Eu passara todo o dia na escola tentando entender as coisas que me ocorriam. Tentando captar a essência das palavras de Edward naquele quarto. Tentando entender os olhares curiosos e maliciosos de Alice para mim, durante todo o tempo. E os olhares que a repreendiam, simplesmente por pensar em alguma coisa. Eu estava fora de mim, absorta em coisa alguma. Meus amigos humanos não me entenderiam nunca, porque eles não sabiam o que se passava na minha cabeça. Só uma pessoa podia saber como eu me sentia, e era de quem eu mais desejava esconder os pensamentos.

Eu senti vertigem novamente toda vez que me sentei ao lado dele nas aulas. Ele não falava nada comigo, apenas me olhava pelo canto do olho e sorria, lindamente. Era assustador, porque eu sabia que ele sabia. Era assustador porque ele me deixava constrangida demais. Pensei em fugir dele, mas para onde iria? Eu tinha certeza que ele sabia, que ele podia sentir o que eu sentia, e eu temia que fosse demais. Que fosse complicado demais. Eu morria de medo que ele soubesse o que ele já sabia, e por isso eu ficava ainda mais confusa. E balbuciando palavras ininteligíveis, como se aquilo fosse distraí-lo do óbvio.

_Alice… – Eu disse, alcançando minha ‘prima’ durante o almoço. – Eu… onde está Rosalie?
_Ela não veio hoje. Ela… ela e Emmett vão ficar o dia fora. – Alice riu, constrangida.
_Eu… gostaria de lhe falar.
_Sim, eu sei Beatrice!! – Ela sorriu. – E isso é tão divertido… ser aquela com quem você vai confabular, contar seus segredos profundos…
_Eu sinto como se não tivesse nenhum. – Desisti, porque lutar era inútil. Com Edward o leitor de mentes e Alice a vidente era impossível guardar segredos.
_Não seja tola… Edward lê segredos, eu só vejo o futuro. Diga-me, o que te aflige?
_Você já sabe. – Desisti novamente.
_Diga-me assim mesmo. Ele não vai se aproximar, ele sabe que você quer conversar comigo, e muito provavelmente ele poderia te dar todas as respostas. – Alice franziu o cenho. – Aliás, eu acho que ele gostaria de te dar todas as respostas… mas eu sei que você prefere perguntar isso a mim, certo? – Ela se abriu em um sorriso.
_Na verdade, gostaria de nem precisar perguntar. Sinto-me obtusa demais, tola demais por desconhecer o básico do relacionamento entre seres… mas eu preciso, ou vou agonizar em dúvida.
_Vamos logo, Bea! – Alice parecia urgente. – Sei que tenho todo tempo do mundo, mas estou ansiosa!
_Edward… ele… ele disse que… ele disse que ele está… ele disse que ele está apaixonado por mim.
Sim, eu falei daquele jeito. Eu simplesmente repeti cada pedaço da frase, porque se eu decidisse simplesmente completá-la, eu talvez não conseguisse. Patética, talvez fosse assim que eu me sentisse. Literalmente patética.
_Ah, mas isso é tão… tão… fofo!
_Fofo? – Eu arregalei os olhos. Aquele conceito não parecia combinar muito com minhas indagações.
_Sim!!! Meu irmão finalmente… ah, Bea… você sabe que gostamos muito de você, desde o início. Mas foi meio que premeditado; Jasper e Edward estavam caçando naquela região porque todos esperavam por você, não é? Sei que Edward já te contou isso… então, você já era esperada. Eu já a tinha visto, era verdade.. e os segredos não são muito fáceis de se manter naquela casa. Você entende. Mas eu não sabia o que aconteceria com a sua chegada, porque eu só vejo as coisas quando elas se resolvem. E até você chegar, era tudo muito confuso para mim… mas desde que você chegou eu vejo Edward mais e mais apaixonado, e isso é tão enormemente fantástico que…
_Alice. – Eu precisei sacudi-la para interromper a profusão assustadora de palavras que saía daquela boca tão delicada. Alice parecia fora de controle, e se eu também não estivesse talvez nem me importasse. Mas duas mulheres descontroladas parecia demais para um refeitório de escola. Ainda mais se as duas mulheres não fossem necessariamente humanas. – Alice, acalme-se. Sim, eu sei que você me viu mas… eu não entendi direito essa parte.
_Que parte? Eu vejo o futuro… sei que é estranho mais…
_Não! A parte final.
_Sim, é muito fantástico porque..
_ALICE! – Eu disse, a voz mais alta. Todos pareciam olhar para mim. Edward, sentado em outra mesa com Jasper, ria descontroladamente. Rangi os dentes, completamente envergonhada por tamanho exagero de minha voz, e tentei recompor-me. Edward comprimiu seus lábios e suprimiu o riso, enquanto Jasper lhe desferia um tapa na cabeça. – Desculpe.. – eu disse, constrangida demais. – é que eu não entendi a parte do apaixonado. – Aquela parte eu sussurrei, de forma bem suave, para que ele não conseguisse me ouvir. Tola.
_Ah! – A pequena vampira se surpreendeu. – Você… você não sabe o que é estar apaixonada?
_Não. – Novamente, o constrangimento da ignorância maior. Eu me sentia definitivamente um absurdo perto de tanta sabedoria dos Cullen. Apesar de que, pelo entoar da voz de Alice, aquele conhecimento não parecia muito empírico.
_Bea! Ora vejamos… como explicar isso? Bem… Bea, você entendeu nossa parte sobre relacionamentos entre homem e mulher, certo? – Assenti com a cabeça, não pretendendo interrompê-la então. – Pois bem… paixão, amor, são conceitos que justificam esse relacionamento. Eu sei que você entende amor… você ama seus amigos, sua família, várias coisas. Você pode amar… um homem. Quando isso acontece… e quando você é correspondida…
_Eu e ele nos tornamos companheiros? – Nem era uma pergunta. Mas Edward não estava ali para corrigir-me.
_Pode ser. É provável. – Ela riu baixo. – Ah, Bea… meu irmão é muito pouco humano, sabia? Ele tem todo esse trejeito frio de vampiro, ele se recusa a deixar fluir qualquer tipo de emoção humana que esteja presente nele. A não ser mau humor, claro. – Alice fez uma careta, e encarou Edward, duas mesas atrás. Ele se franziu, cerrando os punhos. – Mas eu sei que ele é um homem excelente, uma boa pessoa. Ele só precisa descobrir isso… e parece que você é uma das chaves.
_Eu sou uma chave? – Assombrei-me. Aquela conversa em metáforas me era demasiadamente complexa.
_Ah Bea! Não uma chave chave… uma chave no sentido figurado. Ele tem algo trancado em seu peito, e você é a chave que vai abrir espaço.

Eu ainda estava confusa com a explicação, e talvez não houvesse mesmo nada melhor a se fazer a não ser esperar. Edward cansou-se de ouvir à distância e aproximou-se da nossa mesa, segurando minha mão. Eu ainda não tinha me acostumado com sua pele, então eu o repeli. Puxei minha mão para baixo, assustada, como se o toque fosse contrário a algum princípio desconhecido de uma moralidade ultrapassada. Ele pacientemente levou a mão até a minha novamente, segurando meus dedos com delicadeza, mas força. Recusei-me a olhar para ele, enquanto Alice o encarava furiosamente.
_Basta com esse açúcar. – Mais metáforas, e eu certamente entraria em colapso. – Alice, você não tem nada melhor a fazer?
_Você tem horas que está irreconhecível, irmãozinho. – Ela debochou, atacando.
_Guarde seus pensamentos, irmãzinha. – Ele devolveu o ataque sem quaisquer cerimônias. E quando olhou para mim novamente, ele sorria. – Vamos, Bea? Não quer perder a aula.

Não, eu não queria. Mas então, tudo parecia completamente fora de lugar, e eu não me sentia muito equilibrada. Senti um mal estar súbito, e minha cabeça estava gritando, então. Edward pressionou seus dedos contra os meus com mais firmeza, e sorriu suavemente, quase como se não estivesse sorrindo. Claro, os meus pensamentos embaralhados lhe deviam estar muito divertidos, como sempre. Edward tomou o cuidado de não me falar mais nada durante as aulas, e até depois delas. Ele se manteve em um silêncio cruel, e eu pensei tê-lo visto agonizando, por alguns instantes. Em outros, eu pensei tê-lo visto sorrindo. Mas ele nada disse, nada perguntou, nem demonstrou estar me ouvindo. Eu sabia que ele estava… mas ele se manteve impassível.

A noite na casa dos Cullen rapidamente caia, como se lá a luz do sol desaparecesse mais cedo. Era estranho, eles não poderem sair ao sol por entre os humanos. Eu podia. Meu organismo reagia mal ao sol… mas não brilhava em esfuziantes faíscas de luz. De qualquer forma, eu nunca saía ao sol entre os humanos, porque eu estava ao lado dos Cullen o tempo todo. E como eu poderia ir às aulas se meus tios estariam acampando em família, ou algo similar? Só se eu fosse uma insana, segundo Rosalie disse que os humanos diriam. De qualquer forma, a casa deles parecia sempre mais à sombra. E as pessoas não iam até lá. O branco das paredes era sempre imaculado, e as almofadas no chão pareciam sempre desamassadas. A cozinha nunca era utilizada, porque ninguém ali se alimentava. Eu decidi que um dia tentaria comer a comida dos humanos. Edward gentilmente se ofereceu a me ajudar.. mas eu ainda estava em dúvida, até porque Alice não havia conseguido ver nada sobre isso. E durante a noite eles pareciam mais agitados, mais ativos. Era como se a luz do luar lhes causasse o mesmo efeito que a luz do sol causava em mim.

Mas algumas reações naquela casa começavam a me deixar atordoada. Edward, após a aula, me levou até a cidade vizinha, Port Angeles, para assistir a um filme. Um filme… eu assistia televisão no Covil, mas como não havia recepção, tudo que assistíamos eram filmes. Eu já estava praticamente farta de filmes, porque eles eram todos muito parecidos. Sempre a mesma donzela desprotegida em uma fuga frenética, sendo perseguida por algum tipo de vilão; e um mocinho a salvar-lhe ao final. Finais felizes invariavelmente. Nada intelectual, nada desafiante, intrigante. Eu fui conhecer a televisão de verdade, a que os humanos assistiam, na casa dos Cullen. Emmett, meu primo mais divertido, adorava assistir jogos de futebol, baseball, basketball, e outros estilos diferentes. Ele era quase um maníaco por aqueles esportes… e Edward me garantira que eles sabiam jogar bem quase todos os esportes. Que era divertido ter tanto tempo para aprender. Foi então que eu me dei ao prazer de assistir televisão, em companhia de Esme e Alice.

Mas Edward me levaria para assistir um filme, e eu esperava a mesma coisa de antes, um romance de donzelas em perigo. Porém daquela vez eu teria uma companhia mais agradável do que as senhoras híbridas que bordavam as vestes dos homens que saíam para caçar. Edward e seu sorriso colossal, seu olhar lívido e seu cheiro maravilhoso. Sim, eu havia aprendido a sentir o cheiro de Edward. Enquanto todos os aromas me deixavam confusa e desorientada, porque eram tantos e tão fortes, o cheiro de Edward me causava um torpor que funcionava como calmante. Seu aroma era uma mistura de todos os cheiros que eu já havia imaginado antes, e de sua pele pareciam emanar cristais aromatizados. Eu saberia que ele estaria para chegar mesmo que ele ainda estivesse muito distante. E então, estávamos em Port Angeles durante o dia ainda, e estaríamos na sessão das 16h. Ele não me contou que filme assistiríamos, mas eu acreditava que ele faria uma boa escolha. Talvez eu não estivesse preparada para o cinema, então. Talvez fosse o ambiente que me causaria qualquer outro mal estar, e não o filme em si.

_Muito escuro. – Ele disse, em meus ouvidos, o olhar apreensivo, quando eu não consegui entrar no cinema. Claro que ele conseguiu sentir todo pavor que inicialmente pairou sobre mim; o quanto aquela ausência de luz me lembrou o covil.
_Sim, mas está tudo bem. – Eu tentei confortá-lo, apesar de que fosse inútil. Edward sorriu levemente, deixando-se enganar.
Ao contrário do que eu imaginei, o ambiente era confortável e o filme não tratava de nenhuma donzela em perigo ou vilões maquiavélicos. Era um romance, certamente… um romance bastante agradável. As imagens eram grandes, muito diferente da tela da televisão, e o som me envolvia suavemente. Às vezes ruidoso demais, mas confortável, sim. Edward sentou-se o mais atrás possível, comigo ao seu lado. Aos poucos, durante o filme, ele deixou seu braço repousar por sobre meu ombro, bem devagar. Era como se ele tentasse não me assustar. E eu tentei, com toda a minha força, não repelir o seu contato. Ao menor sinal da minha hesitação, ele retrocedia e tinha que começar tudo de novo. Eu não sabia direito o que ele estava fazendo, mas desejei não impedir.

Só fui compreender melhor suas reações durante o filme. Depois de alguma meia hora de movimentação lenta, compreendi que os personagens se estudavam, eram inteligentes, tomavam ciência do mundo ao seu redor. Não eram tolas criações idealizadas de uma mente fértil e imaginativa, que fazia tudo parecer estático e sem graça. Eram pessoas, havia vida naquela tela. E as pessoas interagiam, de uma forma menos convencional à que eu estava acostumada. Foi então que o braço de Edward ao meu redor fez sentido. Eu não poderia repeli-lo. Nem se eu quisesse, pois algo mais forte do que a minha própria vontade me impedisse de pensar na hipótese. E ele se aproveitou da minha repentina mudança de comportamento para se instalar, então. Seus dedos me tocaram o ombro, macios, comprimindo a minha pele suavemente. A palma de sua mão tocou a minha omoplata suavemente, e eu senti a corrente elétrica percorrendo meu corpo, e enrijeci todos os músculos. Percebi que ele iria retroceder mais uma vez, e pude ouvir uma interjeição silenciosa sair de seus lábios, então relaxei. Tudo que eu menos queria era afastá-lo, naquele momento.

Eu estava envolvida no filme, a história me capturando a atenção integralmente. Ao menos os meus olhos, que não conseguiam se desprender da tela enorme. E meus ouvidos não conseguiam parar de ouvir a história, que se estendia por mais de uma hora, e parecia próxima de seu fim. Os personagens eram intrigantes, e a história era bastante inaceitável, até para uma lenda sobrenatural com eu. Mas eu me deixei divertir por todo aquele clima de romance e interação. Meu organismo, no entanto, só processava o toque de Edward em meu ombro. Era como se aquela condição fizesse parte do filme, parte da história entrelaçada das personagens. Eu deveria ser tocada, deveria sentir aquilo, para dar mais realismo à narrativa.
_Pisque algumas vezes, Beatrice. – Edward sussurrou em meus ouvidos, e seu hálito penetrou em minhas narinas como perfume. Ele estava muito cheiroso, era verdade. Como se todos os meus instintos estivessem canalizados para ele, somente. E a maioria dos meus sentidos também. Movi meus olhos intentando fazer o movimento que ele pedira, tentando compreender que os humanos faziam aquilo com naturalidade, e que eu precisava me manter ambientada.

Mas eu talvez não fosse a única com os sentidos canalizados a um único propósito. Edward não retomou sua posição inicial, e eu temi que ele tivesse ouvido algo que eu pensara sem querer. Prendi a respiração – inútil, claro – e me mantive inerte, concentrada na narrativa do filme. Senti delicadamente a ponta do nariz de Edward tocar os contornos de minha orelha, e a eletricidade estava ali, novamente. Como eu não repeli o toque, ele continuou a fazê-lo, delineando todos os contornos que estavam ao seu alcance. Seus dedos pressionaram meu ombro com mais força, como se ele me puxasse para si. Sua respiração ritmada, por instinto ou por comodidade, soprava o ar em minha pele. O contato não era desconfortável, mas eu me senti completamente acuada. Eu não sabia como reagir.
_Sua fragrância é… deliciosa. – Ele disse, como que me respondendo. Sim, eu ansiava por saber o que ele fazia, afinal. Por que ele ainda tinha as narinas posicionadas em mim, como que farejando algo muito intenso. Senti uma nova onda de eletricidade, e aquilo já estava começando a me irritar, levemente. Edward afastou a face de mim, aliviando a pressão em minha pele, permitindo-me movimentar os músculos. Sim, eu o estava repelindo novamente. Todos os meus pensamentos lhe davam pistas de como agir, e provavelmente eles não estavam muito claros naquele momento. Ou não seguiam qualquer ordem lógica plausível. Novamente, a interjeição muda desprendeu-se de seus lábios.

O filme terminou em pouco tempo, aproximadamente duas horas de sessão. Mas eu não consegui acompanhar o final. Desde que Edward decidira tocar-me e cheirar-me daquela forma, os sentidos que ainda estavam desapegados voltaram-se para ele imediatamente. Era como se o seu gosto estivesse em minha boca, seu cheiro em minhas narinas, sua voz em meus ouvidos, seu sorriso em meu olhar, sua pele sob meus dedos. Eu o tinha todo em mim, de uma forma indescritivelmente agonizante. Tive medo de meus próprios pensamentos, e tentei esquecer tudo. Talvez fosse melhor deixar que meu corpo simplesmente desfrutasse das sensações sem pensar muito nelas. Afinal, eu não desejava que Edward me lesse tão bem a ponto de sentir medo de estar ao meu lado.

A volta para casa foi silenciosa como toda a tarde. A música de fundo era suave e agradável, mas eu ainda só conseguia ouvir a voz de Edward. E ele não falava nada, apenas se limitava a reagir aos meus pensamentos de forma cadenciada e premeditada. Um sorriso, um olhar, seus dedos procurando minha mão sobre minha perna, enquanto ele dirigia sem prestar muita atenção na estrada. Eu parecia catatônica, ainda visualizando as imagens do filme e combinando algumas com a figura de Edward.

_Boa noite, irmãzinha!! – Emmett Cullen estava jogado no tapete da sala, divertindo-se com algum tipo de jogo que eu desconhecia. Esme realizava alguma tarefa manual e eu não vi nenhum dos outros Cullen quando entrei. Edward segurava minha mão, e olhou furiosamente para Emmett quando o irmão maior soltou aquela frase. Infeliz, certamente.
_Prima, Emmett. – Edward corrigiu. – Vai colocar todo o nosso disfarce a perder.
_A escolhida de meu irmão é minha irmã. – Ele protestou, praticamente ignorando qualquer perigo que aquilo pudesse representar. – Aqui em casa eu a chamo de irmãzinha. Lá fora, que seja o que vocês quiserem.
_Emmett… – Esme levantou o olhar em reprovação.
_O que foi? – Emmett encarou a mãe, e Edward segurava os meus dedos com muita força, então. Logo a tensão em seus dedos diminuiu, como se ele temesse machucar-me. – Ah, Edward anda muito sensível esses dias… pensei que uma mulher fosse fazer alguma diferença, afinal. Edward, - ele se voltou ao irmão – se quiser eu empresto a você a chave da nossa…
_Basta, Emmett. – Edward rosnou. – Comporte-se perante Beatrice… e guarde seus pensamentos para você, por favor!!
_Não tenho culpa se você é leitor. – Emmett protestou novamente, e continuou seu jogo. Esme levantou-se e caminhou até nós, sorrindo. Percebi que ela pretendia acalmar os ânimos entre os irmãos.
_Eles foram caçar. – Ela disse, sorrindo. – Todos sedentos… só Emmett decidiu ficar, e eu não tenho sede. Você está bem, Beatrice? – Ela olhou em meus olhos, e eu senti apreensão.
_Sim, estou. Não tenho sede.
_Bom… Edward, eu poderia conversar com você um instante? – Esme foi cuidadosa na escolha das palavras. – Beatrice pode fazer companhia a Emmett… ele não parece estar se entendendo muito com o jogo novo.
_Isso, mande minha nova irmãzinha para cá. – Emmett rosnou à distância, e novamente os dedos de Edward comprimiram os meus.
_Vamos, Edward? – Esme tentou cortar o fio que nos conectava, e se interpor entre a irritação crescente entre os dois irmãos. Provavelmente aquilo não era grave, somente provocação barata. Eu já presenciara os machos se desafiando no covil, e na maioria das vezes a contenda terminava em risos e alguns ferimentos rapidamente cicatrizados. Mas ela pareceu precisar mesmo conversar com Edward, e eu deveria afastar-me. Era uma conversa privada, entendi.

Coloquei-me rígida ao lado de Emmett, que parecia muito absorto em seus jogos, então. Era algo aparentemente simples, imaginei… como um quebra-cabeças. Mas ele estava concentrado. O grande vampiro era bonito, pensei. Tinha traços brutos, não tão definidos como Edward, não tão gentis. Ele parecia ter sido criado para aniquilar, exterminar. Era como um grande urso. E o humor de Emmett também parecia destinado ao mesmo propósito de seu corpo. Ele não parecia incomodar-se em criar confusões, era como eu o via.
_Não precisa ter medo, irmãzinha. – Ele virou-se para mim, sorrindo então. – Eu não vou morder…
_Não tenho medo. – Não era mentira. Emmett não podia me ler, e talvez fosse mais simples conversar com ele, então. Mas eu não sabia até onde a sensibilidade de Edward poderia captar-nos. – Estou tentando resolver a charada, como você.
_Seja minha convidada. – Ele fez um gesto, aparentemente sugerindo que eu me sentasse ali, ao seu lado, no chão. Sentar era um eufemismo para o termo. Emmett estava jogado ao chão, era verdade. Mas pareceu divertido, então juntei-me a ele em seu raciocínio, para desvendarmos o misterioso quebra-cabeças.
_Emmett… – eu decidi perguntar, alguns instantes depois. – Por que me chama irmãzinha, agora? Quero dizer… Edward não pareceu satisfeito, e Esme repreendeu…
_Você é irmã. – Ele sorriu. – Edward é meu irmão, disso não duvido. Os nossos laços são fraternos demais… entraria em uma luta e morreria por ele. – Daquilo eu não duvidaria, mesmo! – E ele escolheu você. Então, você é agora oficialmente a minha irmãzinha mais nova.
_Sou mais velha que você. – Impliquei. Era simples conversar olhando Emmett nos olhos, pois ele era puro e transparente. Como se sua existência estivesse envolvida em uma aura angelical de bondade e ingenuidade.
_Isso não conta. Mas sim.. você é mais velha, mas eu sou maior. Irmãzinha, então.
_Você disse que Edward me escolheu…
_Sim, você ainda não percebeu? – Emmett ergueu uma sobrancelha. – Esse leitor estúpido tem que lembrar que as pessoas não têm a mesma habilidade que ele! Bem, mas eu suspeitava que você soubesse, porque entraram de mãos dadas e…
_Ele me contou. – Senti o calor percorrer meu corpo e meu coração acelerar.
_Ah, então não entendi sua dúvida, ainda. – Emmett não era mesmo tão sensitivo, e eu já estava ficando acostumada a não precisar explicar-me.
_O termo escolhida, é minha dúvida. – Deixei sair. Eu não tinha me saído bem com as palavras durante todo o dia, era fato.
_Ahh! – Emmett riu, jogando-se ao chão a fim de que suas costas tocassem o felpudo carpete. – É só uma palavra, Bea… é que Edward nunca… você sabe, ele nunca esteve com ninguém.
_Nenhuma fêmea? – Duvidei. E lá estava eu utilizando-me daquela terminologia antiquada e rude, novamente.
_Nenhuma. Ele… é difícil sabia? Ele nunca gostou de ninguém, nunca se interessou por ninguém. E bem… na nossa condição, é difícil ficar trocando de parceiros, como ficam os humanos. Quando encontramos alguém, ficamos com essa pessoa.
_É assim com você e Rosalie? – Emmett sorriu em concordância. – Alice e Jasper? – Ele fez um bico, mas concordou. Talvez os relacionamentos fossem diferentes, mas tivessem a mesma natureza. – Esme e Carlisle? – Mais uma concordância muda. – Vocês todos estão juntos…
_Desde que nos conhecemos. – Ele pareceu novamente absorto, como se a conversa lhe gerasse memórias interessantes. Fez uma pausa para divertir-se com as fantasias em sua mente. – Eu e Rose estamos juntos a menos tempo do que nossos ‘pais’, claro… mas sabemos que vamos ficar juntos, é quase como que…
_Eterno?
_Você é irritante, irmãzinha! – Ele se voltou para mim, e estremeci. – Parece Edward… fica completando nossas frases! – A risada de Emmett certamente poderia ser ouvida a quilômetros. Ele me segurou pelos braços, e puxou-me para si, no que eu percebi ser um abraço. Rolamos pelo chão, com o peso descompensado. – Você nem pense em fugir de nós, agora faz parte dos Cullen!

Tudo aconteceu muito rápido, como sempre era entre os vampiros. A porta da cozinha se abriu e os Cullen retornavam, enquanto Edward descia as escadas já sacudindo a cabeça em desaprovação. Por mais incrível que aquilo parecesse, eu não me assustei com o abraço de Emmett. Senti-me estranhamente aquecida, e diverti-me com o fato de ele brincar comigo, tentando segurar meu nariz entre seus dedos. Os presentes nos encontraram rindo pela sala, o enorme vampiro praticamente por sobre mim, as gargalhadas sonoras e descontraídas.

A figura de Rosalie nos olhou interrogativamente. Ah, ciúmes! Eu esperava que ela não sentisse aquilo em relação a mim e Emmett, pois não havia maior incompatibilidade do que entre nós. Estávamos apenas em uma contenda amigável, dois irmãos como ele preferia dizer. O abraço de Emmett não me causou nenhum tremor na espinha, ou fluxo elétrico circulando por meus ossos. Não havia eletricidade entre nós, apenas calor. Foi como se o abraço dele, mesmo à temperatura ambiente, mesmo frio, fosse caloroso. Uma recepção, as boas vindas à família, pela segunda vez.
_Ahem. – Ela pigarreou, e Emmett tentou recompor-se. Ele a olhava como se tivesse feito algo terrivelmente errado, mas não se arrependesse. – Quando vai aprender a comportar-se, Emmett Cullen? – A vampira loira disse, sem mover nada em seu corpo.
_Rose.. – Ele fez uma reverência para ela. Edward posicionou-se ao meu lado, oferecendo sua mão para que eu me levantasse. Ele olhava ferozmente para Emmett, e daquela vez eu senti eletricidade. Não somente pelo toque, mas pelo fato de que eu podia jurar que Edward desejava atacar o irmão.
_Você está bem? – Edward tocou meu braço, onde Emmett havia me segurado, olhos atentos e assustados.
_Sim, estou ótima. Só estávamos… brincando.
_Você está machucada. – Ele segurou novamente meu braço em suas mãos.
_Não estou, Edward. – Protestei. – Emmett… ele é maior, mas eu dou conta. Ainda mais, se ele me causou um hematoma ou dois, em 10 segundos eles estarão curados. Talvez você nem mais consiga vê-los, agora.

Os olhares entre Emmett e Edward não melhoraram até Emmett resignar-se e baixar a guarda. Entendi aquilo como um pedido de desculpas mental, que somente Edward poderia ter ouvido. Carlisle assistia a tudo sem qualquer apreensão. Alice e Jasper riam baixo, em um tipo de comunicação muito íntima deles. Edward me puxou para o lado dele, como se me protegesse de algo.
_É a ela que deve pedir desculpas. – Ele disse, encarando Emmett.
_Não seja tolo! – Eu protestei, daquela forma mais veemente. Ora, então não era tão difícil assim contestar Edward Cullen… eu tinha aquela força, então. – Emmett, não se desculpe por nada. Você sabe que estávamos só conversando, e tudo que ele fez foi dar-me um abraço gentil.
_Gentil? – Edward era sério. – Você estava cheia de hematomas quando cheguei!
_E eles se curaram em 10 segundos, como eu disse.
_Esqueci-me que era mais frágil, Bea. – Emmett sorriu. – Desculpo-me por isso.

Alice deixou então o anonimato e entrou na conversa, sorrindo com apreciação.
_Sei que ainda não entende direito, Bea… mas seja oficialmente bem vinda à família. – Alice abraçou-me, e daquela vez com toda gentileza possível. Pude sentir novamente o calor em minha pele, e um beijo suave em minhas bochechas.
_Não foi preciso, Carlisle. – Edward respondeu aos pensamentos do pai, instintivamente. – Esme e eu já conversamos… ainda não.
_Ainda não o que? – Eu tinha que perguntar, claro. Já nem estava mais me importando em ser tão tola, porque o dia inteiro eu tinha agido de forma completamente desequilibrada. Eu estava fora do meu balanço normal, então nada mais parecia ser estúpido o suficiente para mim. Edward não me respondeu, apenas sorriu. Alice caiu na risada, levando Jasper com ela. Os dois riam, e eu tive certeza que ela sabia a que ele se referia. Alice e Edward pareciam comunicar-se sem qualquer palavra, desde que eu os conhecera. Ela e sua habilidade de previsão, ele e sua leitura de mentes. Os dois sempre sabiam de tudo, e sempre antecipavam tudo. Era quase insuportável… mas divertido.
_Vamos? – Edward disse, me fazendo desejar subir as escadas com ele. – Alice, por tudo que é mais sagrado! – Ele explodiu, enquanto a irmã ria sem parar. – Gostaria que vocês deixassem isso por minha conta… seria muito bom poder lidar com isso sozinho!

Se eu tivesse entendido o que eles conversavam, Edward teria maus momentos dentro de minha cabeça. Foi melhor que eu ficasse na ignorância, daquela vez. Eu não suportaria deixar de me constranger, e pensar naquilo pelo resto de meus dias. Que não deveriam ser poucos. De qualquer forma, Edward tinha um estranho sorriso em seus lábios, e eu podia senti-lo respirar mais aceleradamente.
_Emmett não machucou você, mesmo? – Ele perguntou, levando-me até a porta do meu quarto.
_Eu me machuco mas me curo facilmente, Edward. Eu posso ser mais frágil, mas é difícil me quebrar. – Eu sorri, tentando liberá-lo daquele pensamento ruim. – Você deveria saber, porque eu não estou me sentindo machucada.
_Poderia estar tentando me enganar. – Ele foi sério.
_Ah, como se eu soubesse fazer isso.
_No que está pensando?
_Ah, não! – Eu ri, e daquela vez fui eu a dar uma risada histérica que poderia sacudir a casa dos Cullen. – Você não está me perguntando isso!!
_Eu disse que te deixaria falar…
_Prefiro que me leia.
_Nunca vou entender você. – Ele sorriu novamente, intentando sair. – Vai se lavar?
_Sim, estou cansada…
_Depois pode se encontrar comigo em meu quarto.

Uma tentação. Aquela oferta era uma tentação. O quarto de Edward me seduzira desde a minha entrada na casa dos Cullen, mas por uma simples razão. A presença dele. Quartos eram quartos, todos lindamente decorados, brancos, claros, cheios de vidro. O bom gosto de Esme era incontestável. Ela sabia mesmo o que estava fazendo, decorando a sua casa. O banho não pareceu tão divertido quanto antes, porque a água incomodou minha pele. E porque eu temi, só por um instante, que o cheiro delicioso que Edward sentira no cinema fosse lavado com as impurezas de minha pele. Eu queria ter aquele cheiro para ele.. queria que ele apreciasse o meu aroma tanto quanto eu apreciava o seu.

Eu não sabia por que me sentia como estava me sentindo. Na verdade, eu imaginava que fosse o filme. Que a história romântica totalmente diferente daquelas que estava acostumada tivesse me causado tanta empatia com a história dos parceiros. Com a questão do relacionamento homem e mulher… o fator eu versus você. Aquilo nunca me pareceu tão óbvio, nem quando Edward me disse que estava apaixonado. Era só uma palavra, eu não sabia o que fazer com ela. Mas então eu vi… eu tive a chance de passar mais de uma hora vendo o que a paixão poderia fazer com as pessoas… de forma tão nítida, plausível, palatável. Eu tinha certeza… eu queria fazer tudo aquilo com Edward. Eu queria tocá-lo, mas não simplesmente segurar sua mão. E, enquanto eu me vestia, eu não sabia como fazer para encará-lo sem pensar naquilo. Como eu esconderia que desejava tanto… aquele contato físico. Não era para ele ficar sabendo. Não era para ele ler, era para ele simplesmente ter a chance de adivinhar… mas eu sabia que não tinha condições de esconder nada dele.

_Entre, Bea. – Ele disse, enquanto eu hesitava à porta. Maldito vampiro, maldito vampiro!! Esgueirei-me pela fresta aberta, sorrindo timidamente. Edward estava sentado em seu sofá preto de couro, olhos fixados no luar ao lado de fora. Não havia outra luz que não ser a do astro prateado.
_Er…
_Vamos, está com medo de mim? – Ele riu. – Não teve medo de Emmett esmagar você, mas tem medo de se sentar ao meu lado?
_Emmett não me assusta. – Era muito verdade. Edward levantou-se, aproximando-se de mim cuidadosamente. Ele não foi rápido como sempre, porque a leitura meticulosa de minha hesitação lhe dava uma perspectiva de como agir. Edward vestia uma camisa escura de botões e calças cáqui. Ele estava sempre de cáqui, era clássico. Seus irmãos pareciam tão tentados ao jeans, enquanto ele pouco se importava com aquela vestimenta. Eu só o vira trajando jeans no primeiro dia. Ele estava então em seu melhor estilo vampiro-de-100-anos-de-idade. As estrelas iluminaram mais ainda o céu negro da noite, quando um vento forte soprou as nuvens embora. A luz prateada fez Edward ainda mais lindo; uma beleza que raramente alguém poderia suportar.
_É isso que você quer? – Ele perguntou seriamente, mas eu senti que ele segurava os lábios com força, para não sorrir. – Só isso?

Eu nem sabia se sabia o que eu queria. Na verdade, eu não podia distinguir qual dos pensamentos horripilantes que passavam naquele momento fora escolhido por Edward. Eu queria muita coisa, era como me sentia. Eu queria coisas que nem me dava ao direito de querer. Edward parou exatamente em minha frente, depois que eu deixei a porta se fechar atrás de mim. Não que aquilo significasse privacidade na casa dos Cullen. Seus dedos se dirigiam aos botões de sua camisa, e ele abriu um por um, para minha total perplexidade. Meus olhos se abriram mais, como se eu pudesse enxergá-lo mais perfeitamente do que já enxergava. Senti a eletricidade daquela vez, sem qualquer tipo de toque. Edward avançou um ou dois passos após terminar com os botões, a camisa escura totalmente aberta, deixando à mostra seu peito nu. Ele deu um sorriso maroto e segurou minha mão, ciente de que eu não parecia apta a realizar nenhum movimento físico naquele instante. Depois colocou-a tranquilamente sobre seu peito, puxando-me para mais perto. Se aquilo fosse possível.
_Estar apaixonado… isso permite que você me toque, Beatrice. – Ele sussurrou, bem próximo aos meus ouvidos. – Você não precisa ficar tão… ansiosa.
Seus braços circundaram meu corpo e me pressionaram contra o seu. A palma da minha mão direita deslizou para as suas costas, por dentro da camisa, e encontrou a outra palma, a esquerda, que já havia encontrado o seu caminho. Fechei os olhos como se a imagem daquele toque fosse demais para conjugar com as sensações que ele me despertava. Meu corpo comprimido contra o dele, e tudo que eu sentia era… calor. Mas não fazia calor, o frio deveria estar difícil e agüentar, do lado de fora. Eu tinha certeza que sentia a alteração climática muito mais do que os Cullen, já que eles não tinham nenhuma temperatura corporal. Edward moveu-se um pouco, sem me soltar, lentamente para não me acuar, e em instantes uma música suave inundou o ambiente.

Eu havia dançado na casa noturna, com as meninas. Havíamos pulado, jogado os braços para frente e para os lados, movimentado nossos corpos com bastante liberdade. Aquilo foi chamado de dança, tanto por Alice quanto por Rosalie. Mas a música que Edward tocava era lenta, suave, uma peça clássica conhecida dos meus tempos de covil. Eu já estava em seus braços, e ele se movia lentamente como se estivesse realmente dançando comigo. Eu ainda tinha os olhos fechados… e sentia suas mãos pressionando as minhas costas bem devagar, quase como se ele temesse me causar algum mal. Sua respiração era lenta…
_Seu coração. – Ele disse, interrompendo o transe, quando a peça acabou. – Como pode… ele bate tão devagar.
_Ele bate em um corpo sem vida. – Eu tentei, com todas as forças sobrenaturais que me restavam, não olhar para ele.
_Mas ele bate. - Seu hálito novamente me fez sentir ainda mais a dimensão de seu cheiro. Eu não conseguiria me concentrar em repelir os pensamentos que eu não queria que ele lesse se ele continuasse a provocar. – Ele bate… você tem idéia de quanto você é fascinante, Beatrice?

E então ele venceu a pequena batalha que se travara dentro de mim. Meus olhos se abriram, e repletos de curiosidade, encararam os de Edward. Alguns centímetros acima de mim. Fascinante era uma característica que definitivamente não me pertencia.
_Eu sou tão comum. – Disse, já totalmente capturada pela armadilha de seus olhos caramelo. Eu não conseguia olhar para mais nada. Outra peça clássica começou, mais conhecida ainda por mim, mas era como se os sentidos estivessem novamente canalizados somente para um lugar. Edward. – Existem tantos como eu… você nem sabe.
_Mas eu só tenho você em meus braços.

Ele não sorriu. Repelir os pensamentos, era em tudo que eu pensava. Pensar em flores, frutos, cores, aromas. Nada daquilo ajudaria muito. Pensar no sol… mas isso era impossível, enquanto Edward insistia em brilhar mais do que qualquer coisa existente. Pensar em qualquer coisa me direcionava novamente a ele; era uma fuga inútil. Edward libertou uma de suas mãos e com o indicador delineou lentamente o contorno de minha face, sem que nossos olhos se perdessem nenhum instante.
_Tudo bem. – Edward sussurrou novamente, tão baixo que eu mal pude ouvi-lo daquela vez. A música ainda tocava, e eu me sentia flutuando pelo quarto. Lentamente, flutuando. – É isso que eu também quero.

Como se eu não soubesse do que ele falava, meu corpo todo estremeceu em seus braços quando ele se curvou sobre mim e direcionou seus lábios para os meus. Como se eu não tivesse pensado naquilo desde que estivera no cinema, vendo as personagens trocarem carícias por mim desconhecidas. Como se não fosse plenamente natural e esperado que, naquelas condições, ele fosse fazê-lo. Como se eu não estivesse totalmente rendida em suas amarras, pressionando a sua pele com tanta força que eu tive medo de feri-lo. Como se aquilo fosse realmente possível, e como se fosse aceitável que eu não desejasse tanto aquilo que meu truque para esconder os pensamentos tivesse falhado tão convenientemente.





(Cap. 13) Capítulo 12 - Apaixonada

 

*tema: Westlife’s To Be Loved*

With all the power of a symphony
That’s how my heart beats when you’re holding me
I can’t conceal, this is how it feels
To be loved by you
If everybody knows, it’s only ‘cause it shows
Because I take your love everywhere I go…

Por todo o poderoso Deus que os híbridos acreditavam existir, e por todas as orações que Felicia nos fez rezar noite após noite; por todos os milagres que ela contou acontecerem e por todos os nomes sagrados que eu aprendi. Nada poderia existir de forma tão plena, fantástica e entusiasmante. Eu não conseguia me conter dentro de mim mesma, e meu corpo parecia desejar expandir-se como se fosse feito de componentes moles. Havia música em todas as vozes. Havia uma cor diferente em cada estrela que tingia o céu de prata. Havia um aroma diferente em cada vez que eu respirava. E nunca, em nenhuma hipótese, poderia haver alguém que guardasse dentro de si algo tão grande e tão ansioso para se libertar.

Aquela era eu, exatamente no instante em que Edward me beijou. O contato de seus lábios nos meus, a sensação das suas mãos me puxando ainda mais para perto, do seu corpo cobrindo o meu. O sabor… o sabor de sua língua delineando os contornos da minha. Eu poderia me perder naquilo para sempre, e nunca mais me achar. Meus dedos desceram até encontrar algo em que agarrar, cravando-se com toda força possível na borda frágil da calça de Edward. Talvez aquilo causasse algum estrago… porque eu era forte, apesar de tudo… mais do que aquele tecido parecia suportar. Eu nunca havia sido beijada, ou pensado em beijar alguém. Eu sequer havia visto um beijo, que não nos filmes no covil. As donzelas em perigo eram sempre salvas, e terminavam sendo beijadas pelo mocinho errante.

Mas eu não era uma donzela em perigo, não havia qualquer monstro sobrenatural a me perseguir, e não havia mocinho a me salvar. E definitivamente eu não estava dentro de um filme de produção barata. Senti meu coração parar de bater por mais de um minuto, eu pude ter certeza. E minha respiração já tinha parado há muito tempo. Mas eu senti necessidade de engolir o ar, então. Como se toda aquela preparação no meu primeiro dia de sol não tivesse passado de mera especulação, e eu realmente precisasse do ar. Meus lábios dolorosamente buscaram um espaço fora dos de Edward para que eu pudesse puxar o ar com toda força, retomando o batimento inconsistente de meu coração.
_Bea… – ele novamente sussurrou, com os lábios tocando minhas bochechas, descendo para meu pescoço, e subindo novamente para encontrar meus ouvidos. – Respire. Vamos, respire…
Eu inspirei e expirei várias vezes, sentindo meu corpo estremecer e sacudir para cima e para baixo. Edward rosnou baixinho e levou seus olhos aos meus, esperando que eu me recuperasse. Se aquilo definitivamente fosse possível.
_Eu pensei que… – eu mal conseguia falar.
_Parece que pensou errado – Ele sorriu, e foi como se eu tivesse visto a luz pela primeira vez. – Vamos, você não está se sentindo bem. Vou levar você para seu quarto.
_Não! – Eu protestei antes que ele pudesse captar a negativa em mim. – Edward, não… eu… eu quero ficar com você.
_Tudo bem. – Ele ainda sorria, e seus lábios tocaram os meus rapidamente. O suficiente para que eu não entrasse novamente em uma ânsia sem fôlego. – Eu posso ficar com você lá.
_Passar a noite? – Eu repeti suas palavras de algumas noites atrás.
_Sim, passar a noite.

Então, aquela era a sensação de estar apaixonada. Aquela era a sensação de desejar alguém a ponto de esquecer-se de si mesmo e pensar somente naquela pessoa. Era aquilo que Edward sentia por mim, e que eu sentia por ele. Dormir aquela noite foi um martírio, porque ele estava ao meu lado. Se ele se fosse, eu não conseguiria parar de querê-lo ali. Se ele ficasse, eu não conseguiria parar de desejar tocá-lo, beijá-lo outras vezes. Edward não dormia, mas ele se deitou na cama e me puxou, fazendo-me repousar em si. Ele pensou em abotoar a sua camisa novamente, mas eu não permiti. Ele disse claramente que eu podia tocá-lo, e eu então o faria o quanto quisesse. Se fosse possível deixar de querer, algum instante. Eu queria olhar para ele sem parar. Edward deixou que seus dedos passeassem por meus cabelos, acariciando-os com bastante cuidado. Eu deixei que meus dedos desenhassem os contornos de seu peito até meu corpo não resistir e sucumbir ao sono.

Eu tentei me lembrar se me sentira daquele jeito desde que conhecera Edward. Desde aquele instante em que ele pensou em mim como uma presa, eu o desejei daquela forma? Muito provavelmente sim. Eu só não tinha percebido, ainda. Naquele instante, seu cheiro me foi intrigante, irritante. Mas eu já sabia que ele era perfeito em muitas maneiras de ser. Muito provavelmente, eu o desejei desde sempre. Mas eu ainda não tinha entendido o que havia iniciado aquilo tudo. Por que, de repente, eu havia perdido o controle. Quando foi que eu decidi que poderia sentir tudo aquilo por ele livremente, sem qualquer tipo de restrição.

Aquelas perguntas não foram respondidas por ele, porque eu as fiz durante o meu sono frágil. A consciência ainda restante no meu cérebro, a luta para manter-me acordada enquanto meu corpo sucumbia violentamente ao cansaço.

Com uma nova perspectiva de sensações, eu era a pessoa mais satisfeita que poderia existir. Pessoa não era um termo muito aplicável a mim, mas eu era, afinal, uma pessoa. O que mais eu poderia ser? A minha satisfação parecia impossível de ser superada, porque Edward instantaneamente me fornecia tudo que eu precisava. Ele se tornou o centro de tudo, e eu passei a gravitar ao seu redor.

 

 

_Eu às vezes acho que estou estragando você. – Ele reclamou, um dia, no almoço, dirigindo-se a mim.
_Eu tenho certeza. – Rosalie fez uma careta.
_Duas. – Alice concordou.
_Quietas. – Edward reclamou novamente. – Vocês dois, controlem essas duas. – Ele se dirigiu a Emmett e Jasper.
_Edward, você melhor do que ninguém deveria saber que não se argumenta facilmente com as mulheres. – Jasper riu. – Elas sempre vencem qualquer discussão.
_Muito esperto, Jazz. – Alice sorriu, beijando-o na ponta do nariz. Ela não se importou em fazer aquele carinho espontaneamente em frente a todo o refeitório, porque simplesmente o refeitório não enxergava os Cullen. Desde que eu me tornara oficialmente uma deles; não mais a prima, mas a ‘irmãzinha’ de Emmett, a companheira de Edward, eu também me tornei invisível aos humanos. Até Sylvia não parecia mais me enxergar, e eu não podia culpá-la. Edward me consumia todos os instantes do dia, não deixando sobrar muito para quem fosse.
_Por que acha isso? – Eu disse, mesmo sabendo que ele já havia lido essa pergunta. – Eu estou sendo estragada?
_Sim! – Edward segurou minha mão, e começou a brincar com meus dedos. – Você saiu do covil para conhecer o mundo… para ver os humanos… para viver uma nova vida. E logo você nos encontrou, eu te levei para casa e desde então…
_Imagine se vocês… – Emmett iniciou a frase, mas parou imediatamente sob o olhar ferino de Rosalie. E Edward. – Ok, ok… esquece.
_Eu não estou reclamando. – Falei, sorrindo. Eu gostaria ignorar a platéia e beijá-lo ali mesmo, no meio do refeitório. Mas não seria adequado. – Aliás, eu estou muito feliz, você devia saber disso.
_Mas eu ainda acho que estou tomando as experiências de você.
_Vocês deviam viajar. – Jasper disse, não imaginando que prestariam atenção. Os olhares, no entanto, se voltaram para ele. Todos ao mesmo tempo, até o meu.
_Que boa idéia, meu amor! – Alice sorriu, agitada. – Viagens são tão empolgantes… vocês poderiam ir até a Europa e…
_Estamos no meio do semestre, Alice. – Edward interrompeu o discurso da irmã, já sabendo o que ela diria. – Apesar da idéia de Jasper ser tentadora… ainda temos até as férias de primavera para podermos pensar nisso.
_São alguns meses, só. – Alice retomou a empolgação de onde ela tinha parado. – Vocês precisam mesmo programar tudo… então, não é cedo para começar a pensar. Jazz! – Ela parecia estar apreciando o companheiro, ofertando-lhe um sorriso enorme. Jasper pareceu encabulado, e se ele não fosse um vampiro ele teria corado.
_Eu não sei. – Falei, novamente por impulso. Eu falava muito por impulso, talvez porque Edward sempre me lia, e eu desejava falar antes.
_Eu disse. – Edward fez um bico. – Bea prefere terminar o semestre.
_Não há justiça se você sabe o que ela pensa. – Rosalie rebateu.
_Bem, todos vocês estão certos, afinal. – Edward desistiu. Virou-se para mim, sorrindo. Desde que eu vira a luz, o seu sorriso me cegava sempre. Invariavelmente, por mais preparada que eu estivesse. – Eu estou mesmo estragando você. Então… talvez a viagem seja uma boa idéia. O que acha, Beatrice? Gostaria de passar as férias de primavera comigo, conhecendo lugares que você nem imagina que existem?

Aquilo não poderia ter vindo como uma pergunta. Era de uma covardia extrema que ele cogitasse uma resposta diferente de um sim. Era mais fácil que ele simplesmente impusesse a idéia, porque eu não conseguia fazer nada além do que o desejo dele. Talvez ele estivesse certo, e me estragasse. Eu não conseguia mais pensar por mim mesma, eu só pensava o que eu gostaria que ele ouvisse, o que poderia agradá-lo. Eu só conseguia pensar nele, e para ele.

A idéia me assustou um pouco, era verdade. Viajar… algo como Boston, pensei. Encarar o avião novamente… apesar de que a presença de Edward já faria o avião mais admissível. E ele cogitou lugares que eu não imaginaria que existissem… irresistível. Foi como uma coerção, ele fez a pergunta e a resposta saiu de mim instantaneamente. Sem hesitação, como vinha sendo tudo que eu fazia por ele.

Na casa dos Cullen, Edward pediu para conversar com os irmãos por um instante. Eu deveria vestir-me… ele pretendia me levar ao cinema novamente. Os filmes em Port Angeles eram divertidos, ótimos momentos juntos. Eu não estava mais relegada aos romances, tínhamos experimentado outros estilos. Alguns eram tão estúpidos que me faziam rir, rir muito. Edward não ria sempre, ele era mais sério, mais comedido. E naquele dia, iríamos novamente a Port Angeles. Mas primeiro, ele pretendia conversar com os irmãos… novamente, conversa privada que me excluía. Momento de diversão com Alice, que estava sempre exultante e saltitante, como um cervo.

**** A conversa dos irmãos Cullen ****

_Vamos logo, Edward… o que é? – Emmett não era mesmo muito paciente. Edward reunira os dois irmãos para conversar, em campo neutro. Escolheram o quarto de Jasper e Alice porque Alice deveria estar distraindo Beatrice. Que não poderia ouvir a conversa, claro.
_Eu acho que preciso de ajuda. – Edward disse, não muito satisfeito em ter aquele debate.
_Diga, Edward… está relacionado à viagem? – Jasper sentiu a apreensão desde o momento da aceitação de Beatrice.
_Sim e não. Sim, porque eu imagino que essa viagem torne as coisas mais difíceis, apenas. Não, porque o problema existe desde que eu decidi assumir Beatrice…
_Enigmas, enigmas… – Emmett jogou-se sobre a cama.
_Emmett, por favor não desarrume essa cama… ou você terá que se entender com Alice sozinho. – Jasper recomendou.
_Bla bla bla. – Emmet rosnou. – Vamos ao problema de Edward.
_Beatrice é meio humana. – Ele disse, divagando, olhos na parede de vidro, observando a imensidão da floresta.
_Conte uma novidade.
_Sério, Emmett.. ela é meio humana. Eu… eu não sei o que pode acontecer se…
_Se?
_Oh. – Jasper levantou uma sobrancelha, e caminhou até Edward, colocando a mão em seu ombro, em sinal de conforto. – Então é por isso que até então vocês…
_Sim e não. – Edward riu da repetição da resposta.
_Você está com ela há quanto tempo mesmo? – Emmett questionou, divertindo-se com os enfeites de Alice. O olhar de Jasper controlava tudo, mas o irmão maior não parecia nada preocupado em manter a ordem.
_Três meses. – Edward confessou. – Desde que… bem, desde que começamos a namorar. Acho que o termo está bom.
_Edward, você é muito devagar. – Emmett riu alto. – Com três meses, eu e Rosalie…
_Não faço questão de saber, Emmett.. você não precisa me dar uma imagem tão clara. – Edward se sacudiu, tentando livrar-se da visão.
_Okay, vamos nos concentrar aqui. Edward, seu problema é… porque ela é meio humana? Qual seu medo real? Eu não consigo captar, só sei que você está muito apreensivo.
_Bem, eu sei que mulheres vampiras são naturalmente… incapazes de reprodução. Afinal, nenhuma delas enfrentou esse problema… nenhuma das que conhecemos. Mas… Beatrice não é uma vampira. Estão entendendo?
_Mais ou menos. – Emmett bufou.
_Você teme a possibilidade de ter um filho? – Jasper levantou a sobrancelha novamente.
_Sim e não. – Nova risada de Edward. – Eu temo a possibilidade de qualquer coisa inesperada acontecer. Ela é forte o suficiente, isso está bem para mim. A sua regeneração é muito rápida, mesmo que eu a machuque, ela talvez nem sinta. Mas… na primeira vez em que nos beijamos, ela não respirou. Ela às vezes se perde na divisão entre humanos e vampiros, quer lutar contra as suas necessidades corporais. Até hoje eu preciso lembrá-la de que ela tem que respirar quando nos beijamos. Eu não sei como seu corpo pode reagir ao momento.
_Use alguma das técnicas dos humanos. – Emmett considerou.
_Acha que elas funcionariam em um vampiro? – Jasper censurou. – Medicamentos definitivamente não serão eficientes. E… preservativo? Não sei… Edward é forte demais para isso, o ato seria muito intenso… seria muito possível que o invólucro não sobrevivesse.
_Acho que você está ligando demais para isso. – Emmett deu de ombros, intentando encerrar a conversa. – Você não vai machucá-la… seja lá o que for que aconteça depois, lide com o problema quando ele aparecer.
_Você está sendo muito útil. – Edward reclamou. – Como você é o mais… empenhado nisso, achei que poderia me ajudar.
_E eu estou ajudando – Emmett bateu no ombro de Edward. – Você deveria deixar essa preocupação para lá e deixar acontecer, irmãozinho.
_E pensar que ele pode antecipar tudo que ela quer… – Jasper suspirou, enquanto os três deixavam o quarto.

 

 

Naquela noite, depois do retorno de Port Angeles, Edward parecia diferente. Ele estava totalmente absorto em seus próprios pensamentos, como se estivesse planejando algo. Inicialmente, pensei que fosse a questão da viagem a perturbar-lhe. Alice passou muito tempo falando da mesma coisa, enquanto eu o esperava. Eu tinha certeza que aquilo o incomodava, mas o leitor de mentes era ele. Eu só poderia ter certeza do problema quando – e se! – ele me contasse. Durante o filme ele se limitou a segurar minha mão nas suas, completamente concentrado no filme. Eu gostaria de ter tido mais atenção… eu demandava atenção dele, mas eu não podia ser tão exigente. Ele já me dava tudo, era impossível querer mais.

Os Cullen já estavam todos recolhidos em casa, até mesmo os que saíram para caçar ao mesmo tempo que nós, em seus afazeres noturnos. Alice e Jasper estavam desaparecidos, e Edward sequer ousou perguntar sobre eles. Levando em consideração a apreciação de Alice pelo companheiro, durante o dia, eu tinha alguma idéia do que estaria acontecendo. Afinal, depois de tanto tempo entre os humanos e os Cullen, eu já tinha aprendido muito. Eu já não precisava fazer perguntas básicas e agir como uma tola, porque muitas das vezes eu conseguia entender. E Edward sempre acabava me fazendo entender, quando ele percebia a minha incompreensão.

Eu precisava de um banho, porque eu estava acostumada a banhos diários. Meu organismo era muito mais propenso a acumular impurezas, pela minha metade humana. A metade fraca, eu pensava. E eu sabia que Edward gostava do meu cheiro após o banho; ele gostava da fragrância do sabonete, que ficava em minha pele. Subi as escadas e pretendi encontrar-me com ele em seu quarto, como ele sempre fazia. Já havia se tornado rotina. Até eu não suportar mais a exaustão e desabar em um sono inconclusivo, eu ficava no quarto dele, ouvindo música, aprendendo, ouvindo-o contar-me as histórias de seus pais, seus irmãos, a sua própria. Ele demonstrava gratidão absoluta por Carlisle tê-lo salvo. Ele era tão inteligente que eu me sentia diminuída próxima a ele, mas ele sempre tentava me fazer parecer mais do que eu era. O mesmo acontecia noite após noite, com algumas exceções. Algumas das vezes ele me levava para junto da família, ou tocava piano para eu observar, maravilhada. Eu dedilhava o piano, mas ele era impressionante.

E naquela noite, eu pretendia fazer o mesmo de sempre. Banhei-me, vesti-me com uma das ‘roupas especiais’ para o sono, e caminhei para o seu quarto. Bem lentamente e suavemente, eu pretendi. O quarto de Alice e Jasper estava fechado e eu não pretendia fazer nenhum ruído que lhes perturbasse. Não parecia haver música vindo do quarto de Edward, o que era estranho. Talvez ele também não pretendesse perturbar os irmãos. Sempre muito suavemente, dirigi-me até a porta ao final do corredor, sendo surpreendida por algo inesperado.

Edward não estava vestido como sempre, mas parado em frente ao guarda roupas, sem camisa, sem as calças cáqui, como se escolhesse algo diferente.

Meus olhos mais uma vez se arregalaram, como se pretendessem uma visão mais ampla. Se fosse aceitável que eu tivesse uma visão mais ampla… porque não deveria ser permitido ver mais do que aquilo. Edward inteiro deveria ser proibido. Se eu não me julgasse imortal, talvez eu tivesse problemas naquele instante.
_Beatrice. – Ele disse, sabendo da minha chegada à porta. – Você… poderia esperar-me no seu quarto, por favor?
Ah, meu quarto! Aquilo era definitivamente novo, então. Edward raramente se dirigia a meu quarto se não fosse para me deixar na cama, já adormecida. Sabendo que ele não precisava de resposta, caminhei de volta pelo enorme corredor, o ar entrando seco pelas minhas narinas, meu coração acelerado, a eletricidade de volta.

Eram semanas passadas desde que a eletricidade fora embora.

Eu já estava me acostumando ao toque de Edward, e as sensações se aprimorando. Não havia mais uma corrente elétrica que repelia todo contato de sua pele na minha, mas uma atração magnética. Não havia mais como repeli-lo, mas como puxá-lo para mais perto. Então, aquela eletricidade toda fora um tanto quanto inesperada, também. Mas eu alcancei o meu quarto antes dele, e fiquei sem saber o que fazer. Observar o luar seria a minha melhor idéia. Como o sol não me causava um bem tão grande, decidira apreciar a lua e seus silvos prateados. Era a luz da lua que tornava Edward ainda mais insuportavelmente lindo.
Em alguns instantes, as mãos de Edward tocaram meus ombros suavemente, e seus lábios beijaram meus cabelos.
_O que estamos fazendo aqui? – Eu perguntei, porque ele então me deixava falar. Eu precisava me sentir proativa.
_Passando a noite. – Ele sorriu, mesmo que eu não estivesse olhando.
_E…
_Eu queria algo mais confortável para vestir. – Ele respondeu antes, daquela vez. Aliviada, ele me havia poupado da tortura de ter que dizer aquilo em voz alta. – Algo mais… macio.
Virei-me para ele, instintivamente. Eu sempre via Edward com o mesmo tipo de roupa, então eu precisava entender o que ele queria dizer com algo mais confortável. Ele se afastou alguns centímetros, me oferecendo a visão que eu queria. Em pé, moletom preto, meias, sem camisa. Prendi a respiração novamente, olhando incrédula para ele. Tentei banir a visão anterior de minha mente, mas foi impossível. Tentei banir a idéia de que ele estava vestindo a menor quantidade possível de roupa naquele momento, mas foi impossível. Ele estava ali, de frente para mim, lábios retorcidos, como se esperasse por minha silenciosa opinião.

Então ele estava decidido a passar a noite comigo, mais uma vez. Mas daquela vez ele estava diferente. Eu desejei lê-lo como ele me lia, mas tudo que podia esperar era Edward me mostrando o que estava havendo. Enquanto eu ainda estava em branco pela dúvida e pela curiosidade, ele me puxou para a cama, me fazendo deitar. Eu nem estava cansada, ainda. Acostumara-me a adormecer mais tarde, sempre com ele, enquanto passávamos agradáveis horas juntos. Mas ele parecia determinado, então aceitei. Deitei-me na cama, esticando os músculos. Edward deitou-se ao meu lado, acariciando meus cabelos ainda, as costas da mão delineando as linhas de minha face. Fechei os olhos e deixei que ele me beijasse, sabendo que aquilo era inevitável.

Porém Edward não me presenteou apenas com um beijo naquela noite. Eu também já estava me acostumando a ser beijada por ele, a sentir seus lábios pressionando firmemente os meus, fazendo-os entreabrir; sua língua buscando espaço até encontrar a minha, seu gosto floral na minha garganta. Aquelas sensações já estavam marcadas em mim como que impressas. Mas naquela noite ele decidiu me dar coisas que eu ainda não estava esperando sentir. Enquanto ele me beijava, seu corpo moveu-se por sobre o meu, o seu peso sustentado em seus cotovelos. Logo, parecíamos apenas um por sobre aquela cama. Sua pele toda em contato com a minha, enquanto o suave movimento de nossos corpos parecia estrategicamente levantar as bordas da minha blusa. Eu tentei desesperadamente não pensar, não olhar para ele, evitar que ele conseguisse ler o que eu estava sentindo. Mas Edward me beijava, e pressionava levemente seu corpo contra o meu; afundando nós dois no colchão macio. Suas mãos acariciavam meus cabelos, meu pescoço, meus ombros, me seguravam firme.

_O que foi isso? – Eu perguntei, sem conseguir distanciar-me dele um milímetro, uma das pernas entrelaçadas nas dele, tentando mantê-lo ali o máximo possível. Nossos lábios ainda se tocavam, mas ele estava tentando dar uma pausa para que eu respirasse. Sim, ele me tirava o fôlego de uma forma miserável. E eu desejava tirar aquela preocupação dele, mas sempre me afastava, buscando o ar desesperadamente. E então ele sempre – sempre! – se preocupava em parar, quando percebia que eu estava sem fôlego.
_Estamos passando a noite juntos. – Ele disse, ainda muito concentrado, beijando-me intermitentemente. – Até o limite do possível, até onde puder ser seguramente premeditado. – Ele completou.
_Não sabia que se podia premeditar isso. – Eu disse, capturando-o entre meus lábios novamente.
_Você sabe onde isso pode nos levar, Bea. – Ele mal conseguia respirar. Apesar de manter o ritmo para me ajudar, ele também se sentia sem condições de respirar.
_Sim, eu sei. Mas eu não sei se…
_Sim, é claro que podemos nos controlar. – Ele me encarou, então. Sobrancelha erguida, lábios afastados. Por um segundo, que pareceu eterno. – Sempre podemos… e você vai mesmo dormir, daqui a pouco.
_E se eu não quiser? – Fui infantil.
_Eu volto para meu quarto. Temos tanto tempo para passar juntos, não precisa se sacrificar por isso.

Eu estava, então, contrariada. Mas era verdade, tínhamos mesmo tempo. E eu confiava em Edward… cada passo que ele deu, cada movimento seu foi calculado e premeditado. E cada um me fez sentir a pessoa mais completa. Então, se ele pretendia premeditar aquilo também, se ele pretendia estar no controle, que fosse feita a sua vontade. Eu gostava de tê-lo no controle, porque ele era sempre muito bom no que fazia. Diante de minha resignação, Edward voltou a beijar-me, ainda por sobre mim, silenciando qualquer protesto sonoro que eu pudesse fazer.
_Vamos passar a noite assim mais vezes? – Eu tive que perguntar novamente, em outra pausa. A pergunta poderia ser irritante, mas Edward me sorriu.
_Quantas vezes você quiser, Bea. – Ele me beijou a ponta do nariz, como eu vira Alice fazer com Jasper. Uma fisgada, a eletricidade. – Mas não.
_Não o que? – Arregalei os olhos, surpresa. – Sua resposta ficou contraditória, não acha?
_O não é referente a duas coisas. A primeira, você não pode continuar a me espiar pela porta. E a segunda, você não vai me ter aqui vestido daquela forma. Ainda não.
Daquela vez o pouco controle que me restava fugiu de minhas mãos totalmente, e minhas bochechas coraram no maior rubor possível. Todo o sangue que circulava em meu organismo se direcionou para aquela parte do corpo, causando uma sensação totalmente desagradável. Como, entre tantas coisas fora de contexto que eu estava pensando, ele sempre conseguia se prender às mais ridículas e embaraçantes! Edward era um radar para captar meus momentos mais tolos. De tudo que eu estava pensando naquela hora, a imagem dele posando somente em suas roupas íntimas era irresistível. Mas não era para ele ter se apegado àquele detalhe… e menos ainda para ter tirado tantas conclusões.
_Assim você me deixa completamente envergonhada. – Eu disse, afundando-me em seu peito nu. Já havíamos mudado de posição, e eu estava então divagando em seus braços firmes, aguardando o sono abater-me. – Mas não sei por que não.
_Por que você é uma droga, Beatrice. – Ele disse, sorrindo. – Quanto mais eu tenho, mais eu quero. E seus pensamentos em nada ajudam o meu controle.
_Você pode me ter o quanto quiser. – Eu já estava mesmo imersa nele, um comentário absurdo a mais, um a menos, não faria diferença.
_Eu sei. Você também poderá me ter o quanto quiser… mas por favor, espere um pouco. Tenho algo a resolver… depois… depois eu sucumbirei à sua vontade.





(Cap. 14) Capítulo 13 - Connor

 

 

O meu conto de fadas estava prestes a se materializar de todas as formas possíveis. Eu nunca fora romântica ou sonhara com o príncipe, como muitas das híbridas que conviviam comigo. Não poderia haver príncipes híbridos, e eu duvidava que os humanos que nos exilaram apareceriam em um cavalo branco, portando uma espada, para me salvar. Eu sequer imaginava que precisasse ser salva. Aquelas histórias contada por Felícia nunca me afetaram muito, mas eu cheguei a sonhar uma ou duas vezes se eu não teria um lugar me esperando em um castelo, para viver o ‘felizes para sempre’.

Não, era tolice demais. Mas Edward parecia determinado a fazer com que aqueles sonhos se transformassem em algo concreto. Ele era meu príncipe encantado, e eu estava tão apaixonada por ele que não sabia como lidar com aquele sentimento. A sensação de flutuar ao seu redor, a sensação de desejar sair de meu próprio corpo em êxtase só aumentava a cada dia. A cada noite. Eu não imaginava nada mais que eu poderia querer além de Edward Cullen.

E a família dele era perfeita demais para ser verdadeira. Alice era, então, uma amiga. Rosalie também era simpática comigo, mas não tão próxima. Ela parecia mais ríspida, e talvez fosse um trejeito de suas características humanas. Emmett era o meu irmãozão, como eu aprendera a chamá-lo, e o meu grande protetor. As caçadas com ele eram perfeitas… ele nunca me deixava sujar as mãos com os animais, e ele sempre caçava por mim, por ele e por mais alguém. De qualquer forma, Edward insistia que eu tinha que aprender a caçar sozinha. Para não morrer de fome, o que ele tinha razão completa.

Esme e Carlisle eram os pais que me davam muito mais do que eu tinha no covil. O carinho e a atenção que eles dispensavam a mim me faziam sentir realmente amada. Era uma sensação especial, e nada poderia ser melhor do que aquilo.

_Bea, vamos caçar. – Edward disse, segurando minha mão. Estava escurecendo, e fazia muito frio. O frio estava aumentando, e Edward dizia que era o inverno. A estação gelada, que fazia cair gelo do céu. Eu queria tanto ver o gelo cair do céu que chegava a ansiar por estar do lado de fora. Mas Alice me garantiu que a neve não cairia por aqueles dias, me fazendo frustrar um pouco. – Mas dessa vez você vai pegar a presa.

Senti meus ossos estalarem.
_Eu? – Olhos arregalados, assustada.
_Sim, está na hora. Emmett anda te mimando demais… você precisa aprender a comer sozinha.
_Ei! – Emmett, o grande urso vampiro, protestou da sala. Ele estava assistindo a liga de baseball. – Eu mimo a sua namorada e você reclama? Quem deveria estar fazendo isso era você, Edward Cullen.
_Ela precisa aprender. Você sabe disso.
_Sim, mas não vou forçá-la. Ela é sua, divirta-se.
_Não quer nos fazer companhia? Pensei em irmos atrás de uns ursinhos…

Emmett deu um salto do sofá, e logo colocou-se ao nosso lado, sorridente.
_Ursinhos! Ah ah ah Edward!! Você sabe como me provocar, hem?
_Eu me esforço. – Edward sorriu, iluminando toda a sala novamente. Respirei devagar, absorvendo toda a maravilha que eu sentia quando ele sorria descontraidamente. Senti que ele abaixou o olhar e diminuiu o sorriso, olhando para mim. – Bea, você me deixa definitivamente constrangido.
Foi a minha vez de corar. Eu, pelo menos, conseguia fazer minhas bochechas corarem. E aquilo denunciava meus pensamentos mais ainda do que eles próprios. Antes que o momento se tornasse constrangedor demais, saímos para caçar. Edward me segurava a mão, e me guiou até onde supostamente encontraríamos os ursos que Emmett tanto queria e alguns animais menores para mim. Porque, como eu já sabia, eu era pequena. Ao menos era como eu sempre me sentia, principalmente ao lado de Edward e Emmett.

Nossa viagem foi para mais ao norte, e fazia definitivamente frio demais. Eu não sentia a temperatura tão violentamente, mas sabia que estava frio. Até porque a mão de Edward nunca esteve tão gelada. A sua mão segurando a minha parecia uma pedra de gelo, e eu tive que notar a diferença de temperatura entre nós dois. Chegamos a algum lugar esperado, e meus instintos logo captaram um odor muito forte, ácido, que me inflamou as narinas imediatamente.
_Eles estão por perto. – Emmett agitou-se, arreganhando as presas e farejando a presa. – Vamos à diversão, Edward?
_Não, Em. – Edward disse, também farejando algo – Vim aqui para ensinar Beatrice… não a quero lidando com ursos enlouquecidos.
_Você não sabe o que está perdendo. – O comentário foi para mim. Mas eu sabia que Edward não me deixaria enfrentar animais perigosos, principalmente porque eu ainda não sabia matá-los, era verdade. Emmett nos deixou, indo para oeste. Edward continuou farejando, principalmente porque eu estava fazendo o mesmo. Mas meus sentidos ainda captavam a presa de Emmett, não a que eu deveria pegar.
_Os ursos? – Ele disse, assombrado. – Você quer mesmo os ursos?
_Eles… o cheiro é delicioso. Forte… muito forte.
_Mas Beatrice, eles são tão… você pode se machucar. – Sim, eu sabia. Edward não me deixaria enfrentá-los. Mas o desejo de correr atrás de Emmett e atacar um urso estava irresistível dentro de mim, e eu não conseguia pensar em outra coisa. O cheiro não saía de minhas narinas. – Bem, ursos então?

Edward me olhou, vencido. Fui surpreendida por sua aceitação, pois eu tinha certeza que ele não permitiria. Claro que Edward não era meu proprietário, e que eu poderia caçar o que quisesse. Mas eu andava muito condescendente ao lado dele. Deixava que ele fizesse comigo o que queria, e raramente encontrava forças para contestá-lo, para dizer ‘não’. Ele tinha razão quanto à minha personalidade… eu dizia ‘sim’ facilmente demais. Mas daquela vez falávamos de caça… e eu não sabia caçar… mas meus instintos me levavam em direção a um animal feroz, tão feroz que excitava a máquina de matar chamada Emmett. Era como eu imaginava, o urso.

De qualquer forma, Edward resignou-se à minha vontade. Ele fez um gesto que significou a minha permissão para correr a oeste, e atacar. Se eu conseguisse atacar.
_Beatrice! – Sua voz me alcançou, quando eu ainda perseguia o cheiro. – Siga seu instinto apenas… ataque. Feche os olhos se não quiser ver… eu confio em você.

Ah, ele confiava em mim! Aquilo poderia não ser o suficiente, mas reforçou meu ímpeto de caçar o urso. Havia um animal enorme, de pelo escuro e bocarra escancarada. Emmett estava lá, provocando-o. Era como se ele não estivesse simplesmente se alimentando, mas procurando diversão. Irritar o urso lhe parecia prazeroso. Aproximei-me, sabendo que não poderíamos dividir a presa, mas desejando-a mesmo assim.
_Edward, sua garota está de olho no meu urso! – Emmett conseguiu dizer, entre as presas cerradas e as provocações.
_Deixe-a divertir-se, Em… você pode conseguir outro mais facilmente do que ela.
Certamente Emmett não ficou satisfeito. Mas ele continuou a provocar o urso sem intenções de ataque, daquela vez. Como que preparando o terreno para o meu ataque. Coloquei-me em posição e, quando já estava totalmente dominada pelo aroma da presa e pelo desejo de sangue, atirei-me por sobre o urso, atacando-o fortemente no pescoço.

Mas… o urso era mesmo mais forte. E sim, eu poderia me machucar. Edward estava sempre certo, então. O grande animal estava muito provocado, e mesmo após o meu ataque e mesmo após a dentada fatal em seu pescoço, ele ainda teve forças o suficiente para lançar suas garras sobre mim e cravá-la, então, no meu corpo. Eu já sugava o sangue fresco, saciando a minha sede, quando senti o golpe, que me fez cair ao chão. Se eu fosse uma vampira, se eu fosse tão resistente quanto Edward ou Emmett, eu nem sentiria o ataque. Mas meu corpo se feria, meu corpo não resistiria ao choque. Eu seria arremessada longe, antes de conseguir me recompor novamente.

Foi o que aconteceu. Desfaleci ao chão, deixando o urso para a morte. Emmett jogou-se por sobre ele, terminando o serviço mal feito que iniciei. Edward correu para meu lado, ansioso, pressionando o ferimento que havia dilacerado meu ombro direito.
_Beatrice… – ele sussurrou, enquanto meus olhos ardiam em agonia. – Vai ficar tudo bem… só respire.
_Como ela está? – Emmett disse, sem deixar a sua presa.
_Ela vai se regenerar… o ferimento foi grande, mais alguns minutos.
Ainda bem que ele sabia que eu me regeneraria, e logo. Mas ele também sabia que doía, e doía muito. A dor era horrível, não desejável para nada. Meus olhos se fecharam, e tentei respirar bem devagar enquanto a ferida se recompunha. Aos poucos, senti a pele cobrir os ossos, e o sangue parar de correr para fora de meu corpo.

Emmett ainda bebia o urso insolente quando eu consegui me levantar. Edward segurando minha mão, eu tinha certeza que ele estava nervoso.
_Humpf. – Reclamei, passando a mão pela blusa totalmente arruinada e encarando a presa já praticamente drenada, nas mãos de Emmett.
_Vamos aos cervos agora? – Edward me segurou entre os braços. – Animais herbívoros e sem presas… mansos. Por favor? – O seu abraço era tão apertado que senti meus ossos estalarem. Eu senti remorso por tê-lo feito sofrer… eu deveria me lembrar que o meu sofrimento era também o seu sofrimento. Mas pelo menos uma coisa me deixou feliz, realizada. Eu podia caçar. Eu tinha forças para atacar o animal e sugá-lo até o limite, era como me sentia. E, morrendo de sede, que só estava mais provocada depois da tentativa frustrada com o urso, eu atacaria qualquer coisa que se movesse… até mesmo um humano.

Edward me levou então para buscar os cervos, e tivemos sorte em achar vários. Foi bem mais fácil com os cervos, devo confessar… não foi tão divertido quanto com o urso terrivelmente irritado, mas daquela vez não houve qualquer ataque, ou garras que pudessem me abater. Eu era a predadora, a predadora que colocaria fim à vida do animal. Não foi nada divertido. Tentei encarar como se estivesse realizando uma proeza extremamente necessária para minha singular sobrevivência. Edward observou-me caçar, mas me deixou sozinha por alguns instantes, buscando algo para si. Entendi que os cervos podiam ser ideais para mim, mas para ele eram apenas brinquedos. A verdadeira presa deveria ser outra…

Terminei com minha presa e senti-me péssima. Saciada em minha sede, mas péssima por ter passado por tudo aquilo. Não gostei de matar, afinal. Não gostei de atacar ou ser atacada, nem de ser a responsável por tudo. Mas sim, sobrevivência. Aguardei Edward voltar, observando minha roupa bastante rasgada onde o urso me atacara, quando ouvi ruídos na floresta. O cheiro não era de um urso, ou de um cervo. Era um cheiro novo, bastante diferente. Não parecia um vampiro, nem um humano. Os humanos tinham outro cheiro, mais irresistível ainda. Aquele cheiro era confuso. Um novo tipo de animal, pensei. Apurei as narinas e inalei uma grande quantidade de ar, quando me dei conta de um fato inexplicável. Aquele… era o meu cheiro! Antes que pudesse reabrir os olhos, Edward já estava ao meu lado, os braços ao meu redor, olhando para determinada direção.
_O que está acontecendo? – Perguntei, assustada.
_Tem alguém na mata… – Ele disse, presas expostas, esperando. Emmett logo se juntou a nós, também em posição de ataque.
_É um humano? – Perguntei, temendo ter me enganado.
_Não. – Edward tinha certeza, então. – O cheiro é inteiramente seu… exatamente como o seu.

Minha boca se abriu, assustada. Olhei incrédula para Edward, que me apertava contra seu peito com força. Eu mal conseguia respirar então, a face voltada para seu peito, completamente imersa em sua pele doce. Meus braços o envolveram, e eu desejei esconder-me. Um híbrido! Em poucos minutos, uma figura loira e pálida cruzou nossos olhares. Um homem alto, olhos da cor dos meus, pele branca como a minha, lábios vermelhos e fartos, trajando roupas do século passado, manchado de sangue fresco. Edward rosnou, Emmett o seguiu, e ambos encararam o híbrido com voracidade. Meu olhar perplexo talvez não dissesse tanto quanto meus pensamentos. Escondi-me imediatamente atrás de Edward, o coração pulsando muito forte, a respiração ofegante. Connor.

_Olá, viajantes. – Ele levantou a mão e cumprimentou os rapazes. – Devo ter-me afastado muito de minha trilha… poderiam ajudar-me a retornar?
Edward rosnou novamente, daquela vez bastante alto. Expôs as presas novamente, e sua irritação já havia começado a me assustar.
_Não somos o que você está pensando! – Edward disse. Emmett parecia esperar apenas um alerta para atacar. – Vocês híbridos são tão estúpidos que não reconhecem um vampiro nem olhando para dois!!
Aquilo me doeu, bastante. Eu era estúpida, aos olhos de Edward? Eu era estúpida… uma tola idiota que fazia as perguntas mais ridículas possíveis. Como ele poderia estar apaixonado por uma idiota, então? O que ele teria visto em mim para atraí-lo? Ou seria apenas uma armadilha daquele vampiro, a fim de prender-me em outro tipo de amarras? Senti tanta vontade de explodir com ele naquele instante, mas a presença de Connor me causava ainda mais pavor. Preferi tentar discutir aquilo posteriormente, até porque meus pensamentos foram tão cruéis que eu sabia que Edward tinha identificado um por um.

Connor encarou Emmett e Edward por algum instante. Ele não podia me reconhecer, porque eu estava definitivamente por baixo da camisa de Edward. Já havia me colocado ali desde que percebera a imagem conhecida. Meu corpo todo tremia, e Edward tinha um péssimo momento tentando me manter sob controle. Suas mãos acariciavam minhas costas, tentando me passar algum conforto. Inutilmente.
_Vampiros? – Ele disse, em desdém. – Oras… não sabia que existiam vampiros por essa região.
_Não moramos aqui. Estamos de passagem.
_Edward, nós vamos…
_Não, Em. Ela o conhece…
_Bem, peço desculpas por meu comportamento. – Connor resignou-se. – Estava caçando alguns humanos, mas perdi a trilha. Imaginei que fossem vocês…

A perplexidade me fez ainda mais estúpida. A frase de Connor me causou tanto pavor que desprendi-me de Edward e coloquei-me à frente, encarando o antigo irmão com dúvida e descrença
_Beatrice! – Ele disse, também perplexo.
_Connor! Você… o que você está fazendo aqui? O que você.. você está caçando humanos?
Silêncio. Connor avaliou a situação. Saberia ele que eu tinha fugido? Ele teria como saber, Rudolph teria contado a alguém sobre minha fuga? Ou ele temia uma debandada dos híbridos? Connor era um dos caçadores, ele tinha permissão para sair e caçar para nos alimentar. Ele parecia tanto um humano… se não fosse seu cheiro inconfundível, ele poderia se passar por um. Mas lá estava ele, confessando que… eu não queria acreditar.
_Bea, por favor, volte aqui. – Edward aproximou-se, segurando-me. Eu não estava pensando claramente, então.
_Ele caça humanos? – Eu me virei para Edward, horrorizada. – Você viu… ele caça? Diga-me, ele me fazia alimentar com sangue… humano?
_Beatrice, o que você está fazendo com esses puros? Aliás, o que você está fazendo fora do covil… Rudolph sabe que você…
_Cale-se! – Eu gritei. – Edward… diga-me.
_Sim. – Edward abraçou-me novamente, tentando me afastar de Connor. Ele me puxou, bem lentamente, e me recolocou atrás de si, ajeitando sua envergadura. Mesmo que ele não me tivesse dado resposta alguma, eu já sabia. Connor caçava humanos. Ele levava sangue humano para o covil. Não era sangue de animal; era sangue de pessoas, seres humanos. Ele era um assassino.
_Como pode… – Eu disse, entre uma respiração e outra. – Connor, Rudolph sabe que você caça seres humanos?
_Aah! – Connor riu, e eu desejei atacá-lo ali mesmo, como fizera com o urso. – Claro que ele sabe, Beatrice… na verdade, Rudolph adora sangue humano. Mas não se preocupe, você nunca bebeu. Sangue humano é só para os chefes, os anciãos.
_Desprezível. – Meu tom de voz era baixo, o ódio lentamente se acalmando em mim. Como podia… ouvir aquilo me causou um repulsa imediata, e um pavor terrível. Era como se eu tivesse vivido uma mentira desde sempre. Eu considerava os híbridos sofisticados, bondosos. Os humanos eram cruéis e nos haviam exilado, banido para as profundezas. Os humanos eram cruéis. Eles nos perseguiram sem motivo algum, porque os híbridos não queriam fazer-lhes mal. Mentira! Vã mentira, eu então sabia. Se Connor caçava humanos e se Rudolph adorava seu sangue, é porque os híbridos sempre se alimentaram de humanos! Por que aquela mentira fora construída, por que tanta máscara ao redor de um fato como aquele, era o que eu ainda não entendia.
_Vamos embora. – Edward decidiu, em meio ao meu desespero. – Ele não está em nossa região… e caçar humanos não é contra as leis dos vampiros. É uma opção detestável, mas legal. Vamos embora.

Emmett não pareceu satisfeito em deixar a briga, mas não faria nenhum mal a outro ser, eu pensei. Emmett era uma pessoa ótima, apesar de ser sempre tão irritável. Edward colocou-me à frente e deu as costas para Connor, intentando deixar o local.
_Não posso deixar que se vá, Beatrice. – Connor disse, rosnando também. – Agora você sabe mais do que deveria…
_Eu não vou voltar para aquele maldito covil, então faça bom proveito de suas opções. – Eu disse, sem virar-me.
_Mesmo assim, pretendo levá-la ou terei que aniquilá-la.
Foi o suficiente para Edward e Emmett se voltarem novamente para ele, presas expostas, o ataque iminente. Apavorei-me, horrorizada com tudo aquilo. Eu nem conseguia respirar, porque havia um peso enorme sobre meu peito que me empurrava para baixo.
_Connor, você é louco? Vai desafiar dois vampiros muito mais fortes do que você, e ainda a mim? São três contra um, esqueça isso!
_Ele não vai esquecer, Bea. – Edward sussurrou para mim, logicamente sabendo mais do que eu. – Emmett, temos que resolver isso. Se o deixarmos ir, ele já sabe exatamente o que vai fazer. Não há outra solução.

O sinal de ataque vindo de Edward foi o suficiente para que Emmett pulasse por sobre Connor, arrancando-lhe um pedaço com os dentes. Connor tentou reagir, mas Edward logo se posicionou ao lado do irmão e também lhe retirou um pedaço. Os dois começaram a desmembrar Connor, e tão logo os pedaços estavam jogados ao chão, Emmett arrumou alguns gravetos ao redor e ateou-lhes fogo, com um isqueiro metálico.

Eu estava aterrorizada ao limite máximo. Meu coração batia tão rapidamente que eu pensei que ele entraria em falência. Minha boca estava aberta, a imagem de Connor totalmente desmembrado e queimando naquela fogueira improvisada. Edward me olhou de longe, enquanto Emmett garantia que o fogo consumiria tudo. Eu caminhei para trás, tentando me afastar daquilo, me afastar de tudo. Minha cabeça começou a rodar, a minha visão tornava-se turva, e o pavor não cessava. Senti como se o mundo estivesse em uma velocidade que eu não conhecia, enquanto Edward e Emmett e a fogueira de Connor se afastavam de mim. Até que meu corpo bateu em algo, que imediatamente me segurou pelos braços.
_Beatrice. – Carlisle me amparou, enquanto eu imaginava que fosse desabar ao chão. – Você está se sentindo bem?

Nenhuma resposta. Junto com Calisle estavam Alice e Jasper. Eu sabia que Alice provavelmente tinha visto tudo que aconteceria, e eles seguiram para nos encontrar. Minha condição catatônica não me permitiu observar muito. Alice parecia bastante abalada, e tentou se aproximar.
_Carlisle, deixe que eu cuido dela.. vá ajudar Edward e Emmett. Vá também, Jasper!
_Alice. – Eu disse, olhos apreensivos, medo. – Você me leva para casa?
_Vamos esperar os…
_Agora, Alice… por favor.
Ela sorriu, e fez um gesto para Jasper indicando o que iria fazer. Alice segurou-me pelos braços e andou comigo para casa. A nossa velocidade era impressionante, e percorríamos longas distâncias sem perceber, quando queríamos. Em pouco tempo estávamos em casa, e eu corri para trancar-me no banheiro. Não sabia se precisava de um banho, mas tinha uma sensação de enjôo como se tivesse, naquele instante, bebido o sangue contaminado das brincadeiras de Jasper.

Depois de um banho morno, tentando normalizar a minha temperatura corporal conforme Edward me ensinara, fui direto para meu quarto e fechei a porta. Alice não entrou, apenas ficou do lado de fora, como que zelando por mim. Eu me sentia ainda muito imunda, e as imagens de Connor sendo despedaçado eram abomináveis. Pior, as imagens de Edward desmembrando Connor. E o fogo escuro e de cheiro terrível que continuava em minhas narinas. Eu me sentia tão mal que o mundo ainda estava rodando. Sentei-me no sofá que estava colocado próximo à parede de vidro e me encolhi, como que em uma posição de defesa.

_Alice, deixe-me passar! – A voz de Edward pode ser ouvida. Fechei os olhos e apurei meus ouvidos, ainda sentindo tudo tremer. Ouvir a voz dele sempre me causou conforto, mas não naquele instante. Talvez alívio, por ele estar em casa, em segurança.
_Edward, ela está sofrendo… dê algum tempo a ela, Bea precisa ficar sozinha.
_Você não sabe, não está ouvindo a agonia dela! – A voz de Edward era transtornada, e eu ainda não o tinha ouvido daquela forma. – Deixe-me falar com ela, por favor…
_Eu não estou te impedindo. – Alice pareceu sucumbir. – Mas ela fechou a porta… é o suficiente para pedir privacidade.
_Edward meu filho… – Era a voz de Esme. – Seja lá o que tenha acontecido, ela vai superar.
_Eu matei um híbrido… mas vocês já sabem disso, ou não teriam mandado um destacamento atrás de nós. Era a única chance.. eu preciso explicar a ela o que ouvi, o que ele planejava.
_Talvez mais tarde, ou amanhã…

De todos os sentimentos possíveis naquele dia, o mais estranho ainda poderia ser o remorso. Ouvir Edward totalmente transtornado no corredor, implorando para passar pela irmã e pela mãe, desejando falar-me, foi dilacerante. Mais ainda do que qualquer outra sensação. A agonia imediatamente mudou de foco, e eu só conseguia imaginar Edward sofrendo por minha causa.
_Não, vou falar com ela agora. – A mão de Edward abriu a porta, e ele entrou quarto adentro. Pude ver Alice frustrada no corredor, por não impedi-lo, e Esme conduzindo-a para mais longe. Seus olhos capturaram os meus, e eu pude ver a agonia que antes imaginara. – Bea, meu amor… – ele caminhou em minha direção, enquanto eu me mantinha encolhida e assustada. – eu sinto muito, Beatrice. Mas eu não vi outra saída, ele… aquele caçador pretendia levá-la de volta… mas não viva. Eu pude ver, eu pude sentir e…
Edward colocou a face entre as mãos, interrompendo-se. Desejei secretamente ler seus pensamentos, então. Eu gostaria de saber o que ele sentia, para poder confortá-lo. Porque ele parecia precisar de conforto.
_Edward. – Eu soltei minhas pernas e tomei suas mãos entre as minhas. Ele me olhou, os olhos claramente desesperados. – Edward, diga. Diga que Connor era um monstro, diga que ele matava humanos e era um assassino. Diga que ele mereceu tudo que teve, e que essa foi a morte que Alice viu. Diga-me… se for mentira, minta.
_Não é mentira. – Ele hesitou em puxar-me para si, mas o fez. Imergi em seu peito mais uma vez, deixando que seu aroma adocicado me fizesse esquecer o cheiro que estava impregnado em mim. – Não é mentira, ele era um caçador de humanos. Ele caçava humanos e se alimentava deles, o que muitos vampiros fazem. Mas eu fiz o que fiz por você, Beatrice! Foi por você… eu vi o que ele pretendia fazer com você. Eu vi… ele era um monstro, mais pelo que ele pensou em fazer com você. Eu só pensei em te manter em segurança, desculpe-me!

De onde ele tirou que precisava pedir-me desculpas, era uma boa questão. Mas ali estava o meu Edward, sentado ao meu lado, abraçando-me com toda força possível, desculpando-se por matar aquele que pretendia agredir-me. Connor.. um dos meus. Um daqueles que eu aprendi a respeitar e venerar, um caçador. Como eu os respeitava… como eu desejei ser entregue como companheira de um caçador, quando Rudolph decidisse que chegara a hora. E então Connor, um deles, era um assassino cruel e vil. Ele mentia… todos eles mentiam para os híbridos, dizendo que somente nos alimentávamos de sangue animal. Eles criaram fábulas ainda piores do que as que contavam como lendas. E Edward estava ali, desculpando-se por ter-me salvo a vida.

Eu não queria que ele se sentisse mal pelo que fez, apesar de todo o meu pavor. Eu só precisava de um tempo para absorver a idéia, para compreender tudo. Só um tempo. Mas Edward invadiu meu espaço, sofrendo, pedindo perdão por um erro que ele não cometeu, implorando por uma frase que lhe fizesse sentir bem.
_Edward… – Eu disse, elevando o olhar e me perdendo em seus olhos. Não consegui completar a frase, porque em segundos eu já tinha me atirado em seus lábios e o estava beijando. Ele se moveu por sobre mim, empurrando meu corpo contra o couro perolado do sofá, como estava se acostumando a fazer. Talvez não fosse preciso dizer nada, então. Um simples gesto demonstraria tudo… até eu me lembrar que ele podia ler meus pensamentos.
_Eu tive tanto medo de algo te acontecer. – Ele disse, as mãos em meus cabelos, olhos nos olhos. – Eu acho que perdi um pouco o controle… eu o teria matado só por ele cogitar qualquer coisa contra você. Se ele não tivesse realmente te ameaçado, eu mesmo assim o teria matado.

Eu o fiz calar, e beijei-o novamente. Edward me levou até a cama, intentando me oferecer um melhor espaço para me acomodar. Eu só queria beijá-lo, deixar que seus lábios me fizessem esquecer qualquer coisa antes. Eu só queria ter seu gosto em minha boca mais uma vez, só queria o peso de seu corpo sobre o meu. Eu não podia imaginar muito mais que pudesse me confortar. Ele se deitou ao meu lado, sempre os lábios nos meus, vez ou outra se desprendendo para o pescoço, para meus ouvidos, para meus cabelos… sempre que ele pretendia me dar espaço para respirar. Sem me deixar um segundo, Edward desabotoou sua camisa e deixou-a cair pelo chão, me permitindo o tão desejado contato com sua pele.
_Eu daria qualquer coisa para você se sentir melhor, Bea. – Ele disse, entre os dentes, entre os lábios, entre a respiração ritmada. Ele não deveria mesmo ter dito aquilo… ele não deveria permitir que minha mente pudesse… divagar. Qualquer coisa era coisa demais, e talvez eu quisesse tantas que ele precisaria de muito tempo para satisfazer-me. Mas naquele instante, poucas imagens se formaram tão nitidamente em mim quanto aquela. Era tudo que eu precisava para esquecer qualquer barbaridade anterior, qualquer perigo. – Tem certeza? – Ele sussurrou, enquanto eu não sabia mais se tinha espaço para constrangimento. – Tem mesmo certeza? E se eu… eu já perdi o controle hoje, Bea.
_Eu não me importo. – Foi o veredito final. – Eu não me importo.

Qualquer coisa. Edward moveu-se para o lado, e soltou meus cabelos por um instante. Logo, seus dedos alcançaram o botão de suas calças e elas se abriram, lentamente sendo empurradas para baixo. Juntamente com as calças, as suas meias desapareceram. Ele então se voltou para mim, sem interromper o beijo nem um segundo. Eu gostaria muito de vê-lo… eu queria muito vê-lo, olhar para ele vestido exatamente como eu desejava. Mas resisti à tentação momentaneamente, enquanto deixava que ele me beijasse lentamente e me causasse ainda mais amnésia do que eu pretendia. Naquele instante, decidi que faria apenas o que ele me permitira algum tempo antes; eu iria tocar.





(Cap. 15) Capítulo 14 - Normalidade

 


*tema: O-town’s Craving*

As coisas estavam normais. Eu estava com aquela palavra em mim, tentando encontrar um significado razoável para ela. Normalidade. O que era normal, o que não era. Claro, tratava-se de um conceito humano. Talvez eu não fosse normal, se considerada pelo aspecto dos humanos. Deles. Eu não poderia ser considerada normal, porque eu era exatamente o conceito de aberração. Mas e a minha normalidade? O que poderia ser considerado normal para mim, uma híbrida já praticamente adaptada ao sol, vivendo com puros e totalmente apaixonada por um?

A morte de Connor causou algumas alterações na minha rotina. Eu estava certa que aquela tinha sido a morte presenciada por Alice, e não queria mais me preocupar com o futuro. Para mim, o futuro era incerto e isso era uma coisa boa. Eu não sabia o que esperar, então esperava só coisas que não se relacionassem a morte ou perda. E eu estava certa, a morte era mesmo causada por mim. Alice tentara me poupar daquele fato, e talvez Edward estivesse certo também. Eu não suportaria conviver por tanto tempo com a certeza de causar a morte de alguém próximo. Mesmo se Connor não fosse tão próximo assim.

Isso poderia ser considerado normal, então.

Edward, no entanto, não parecia compartilhar da minha certeza, e passou a proteger-me de maneira absurda. Eu não conseguia dar dois passos sem ele ao lado, o que não poderia ser considerado exatamente ruim. Eu gostava de tê-lo ao lado. Mas eu temia por sua sanidade. Ele não podia ser tão exagerado, eu não desejava que ele parasse de viver para tomar conta de mim. Eu era forte o suficiente para me cuidar, e eu tinha certeza plena de que nada mais aconteceria.

Isso não poderia ser considerado tão normal, segundo nenhuma das acepções do termo. Mas Edward não parecia importar-se. E eu estava tentada a deixá-lo se preocupar somente por um fato: ele passou a me dar tudo, tudo mesmo, que eu queria. Antes mesmo que eu pensasse em algo, ele já trazia para mim. As noites passaram a ser espetaculares, pois Edward sempre estava presente e eu podia adormecer em seus braços. ‘Passar a noite’ era uma regra nossa, o que me deixava muito satisfeita. Ao seu lado, eu tinha prazer em dormir. E, para minha gratidão eterna, ele não mais se preocupava com as roupas confortáveis. Sempre Edward dispensava calças e camisas, estando comigo somente em suas roupas íntimas. A exata pintura em minha cabeça.

Eu gostaria de saber qual era a pintura na cabeça de Edward, afinal.

Talvez os conceitos de normalidade não me interessassem mais, porque aquilo era minha nova vida e para mim ela estava perfeitamente normal. Para mim, nada seria mais normal do que conviver com os Cullen dia após dia, me divertindo com as brincadeiras de Emmett, ouvindo as conversas interessantes de Rosalie, confidenciando segredos – os que eu considerava ter – a Alice, interagindo com a sabedoria de Jasper, absorvendo a paciência e empenho de Carlisle, e aprendendo a ser tão dedicada quanto Esme. Nada poderia ser mais normal do que os dias na escola, entre os amigos humanos, as aulas e o horário de almoço, os estudos que eu precisava fazer com a ajuda de Edward. Nada poderia ser mais normal do que amar Edward da forma como eu amava. Era natural, era como se não pudesse ser esperado de mim outro comportamento. Nada poderia ser mais natural do que estar com ele, do que sair para caçar com ele, do que olhar dentro de seus olhos e ser iluminada por seu sorriso.

Aquele era meu conceito de normalidade. E nenhum outro me interessava.

Mas havia uma coisa que fugia ao conceito de normalidade, então. A mentira de Connor e o seu desaparecimento, sem que eu voltasse a ter notícias dos meus. Rudolph jamais deixaria Connor desaparecer sem qualquer investigação. Não ver mais nenhum híbrido na região era fora do normal. Eu sabia, pelo que conhecia Rudolph, que ele mandaria uma expedição atrás de Connor. Ele não queria saber de mim porque eu fugi, e ele sabia. Mas Connor não havia fugido, e ele também sabia. Connor era seu fornecedor de sangue humano. Aquele pensamento deveria ser apagado de mim definitivamente.

Viver na normalidade poderia ser considerado tedioso, por alguns. Mas eu vivi tanto tempo fazendo nada que a minha normalidade estava excitante e cheia de situações inesperadas. Por mais normal que eu me sentisse, eu sabia que diversas experiências inusitadas ainda estavam por vir, mas me completar ainda mais. Algumas delas ocasionadas pelo meu relacionamento físico com Edward, que sofria uma evolução constante e, segundo ele entendia, perigosa.

Eu sonhava com a primavera que se aproximava. Período de mais claridade e mais sol, o que significava faltas às aulas. Mas Edward tranqüilizou-me garantindo que teríamos férias, ou seja, períodos sem precisar comparecer às aulas. E ele garantiu também que naquelas férias de primavera procuraríamos um lugar para estarmos… juntos. Para mim já estávamos juntos e em qualquer lugar estar junto dele seria perfeito. O lugar era apenas o cenário, porque o personagem principal de minha peça era sempre Edward.

Acordei no meio de uma noite, agitada. Suava, e respirava com dificuldade. Reações bastante humanizadas que eu já tinha deixado de lado há muito tempo. Mas logo compreendi o motivo da minha agitação, Edward não estava ali. Era praticamente impossível imaginar que Edward não estaria ao meu lado, mas ele não estava. Talvez fosse mesmo normal que as pessoas fizessem outras coisas além de estarem juntas o dia inteiro. Eu dormia. Ele precisava de uma distração, além de me assistir dormir. Mas ele não estar ali causou aquela sensação de vazio novamente, e por isso sonhei.

Tateei no escuro até a porta do quarto, e notei que os Cullen conversavam no salão, escada abaixo. Quase todos os Cullen. Carlisle estava em seu escritório, e com ele também estava Edward. Vesti minha capa invisível de espiã, e, descumprindo minhas promessas a Edward, tentei captar a conversa deles.

_Eu já cedi a todos os caprichos de Beatrice. Quase todos. – Edward falava, tom baixo e concentrado. – O mais interessante é que eu sempre estou à beira da perda de controle, sempre esperando o momento em que eu vá jogar tudo para o alto e… só que ela parece tão satisfeita com a forma como as coisas estão… isso acaba me acalmando e fazendo repensar minhas atitudes.
_É perfeitamente normal sentir-se assim, Edward. – Carlisle já tinha um tom de voz mais lívido. – Seus irmãos parecem tê-lo instruído bem… e nada do que eles falaram eu poderia falar diferente. Sobre o pequeno problema da concepção… eu poderia examinar Beatrice, mas ela desconfiaria. E eu não detenho tantos conhecimentos a esse respeito… seria mais adequado um especialista.
_Sim, e eu não gostaria que ela tivesse as mesmas preocupações que eu. Apesar de que… meu segredo já não me pertence mais.

Provavelmente Carlisle também não entendeu a frase de Edward. Eu levei dois segundos para compreendê-lo, e ele levou um para abrir a porta e me pegar em situação comprometedora. E não era a primeira vez. O médico riu quando viu minha figura surgir na luz brilhante do corredor.
_Entre, Beatrice. – Carlisle disse, fazendo uma reverência. – Falávamos mesmo sobre você.
_Ela sabe. - O olhar de Edward era de repreensão. – Interessante é que alguém me havia prometido privacidade…
_Desculpe-me. – Meu olhar era distante, e para o chão. – Acordei e…
_Tudo bem. – Edward abraçou-me e me beijou os cabelos. – Eu devia ter imaginado que você acordaria assustada e que viria atrás de mim. Isso não muda nada, claro. Você quebrou sua promessa assim mesmo.
_Edward, eu poderia conversar com ela um instante? – Carlisle pareceu ter uma idéia.
_Sim, claro. – Ele se preparou para deixar o escritório.
_Não precisa ir. – Eu segurei sua mão. – Nada que Carlisle me disser será privado, mesmo. – Era a lógica.
_Faz sentido… ela é mais esperta do que nós. – Carlisle sorriu. – Bea, estávamos conversando… você teria problemas em consultar um especialista?
_Especialista? Em híbridos?
Carlisle riu.
_Não. Um médico humano. Que cuida de mulheres humanas.
_Carlisle… – Edward parecia não concordar com a ideia.- Isso pode nos expor.
_Se não formos cuidadosos. Pelo que sei, o corpo de Beatrice é mais próximo ao corpo humano. Ele tem batimentos cardíacos, atividade plena nos órgãos… ela pode muito bem passar-se por uma humana em um exame clínico pouco elaborado.
_Ainda acho muito arriscado.
_Sobre o que é isso tudo, afinal? – Eu estava confusa.
_Eu gostaria de saber, - Edward tomou a palavra – se você… eu gostaria de saber se você pode, como os humanos, conceber filhos.
Talvez a pergunta me chocasse, mas eu não dei muita importância naquele instante. O meu foco estava mais na resposta do que na intenção por trás das palavras de Edward.
_Eu não sei… mas não sou um exemplo de informação, nem sobre minha própria espécie. Apesar de que, segundo as lendas de Felícia, mulheres híbridas podem gerar filhos de homens comuns, humanos.
_Muito interessante. – Carlisle sorriu. – Edward, tem razão. É arriscado levá-la a um especialista humano. Até porque talvez a lenda de Felícia seja verdadeira, então… quem sabe?

Aquela conversa fugia ao meu conceito de normalidade.

Edward cumprimentou o pai e deixou o escritório, levando-me de volta para o quarto. Ele exigiu que eu adormecesse, deitando-se ao meu lado e me garantindo que não sairia mais dali a noite inteira. Mas eu sabia que ele ficaria pensando em alguma coisa implícita naquela conversa, e que aquele assunto aparentemente ainda não teria acabado. E eu não conseguiria dormir com tanta coisa que o perturbava. Eu não podia ler seus pensamentos, mas quanto mais próxima a ele eu estava, quanto mais tempo eu passava com ele, mais eu podia senti-lo.

Tentei adormecer novamente, e fazê-lo acreditar que eu estava bem. Mas não deu certo, o que era de se esperar. Eu nunca consegui esconder meus pensamentos quando estava confusa, nem para proteger Edward. Precisava de mais treinamento, eu considerava.
_Você não sabe mesmo do que eu estava falando, não é? – Edward disse, mas eu tentei ficar em silêncio. Seus dedos delinearam meu corpo, desde meu queixo até a linha da cintura. Senti um arrepio horrível, acompanhado de uma sensação muito boa, quase absurdamente boa demais para ser real. Às vezes eu considerava que Edward me fazia sentir coisas que não eram reais. Em um movimento muito rápido, ele se moveu para cima de mim, beijando-me o pescoço, o colo, afagando meus cabelos.
_Você disse que eu pareço satisfeita. – A palavra saiu quase em tom de sarcasmo, como se ela tivesse sido antes empregada por Edward em sentido pejorativo. – Isso deveria ser ruim?
_Isso não é ruim. – Ele continuava a me beijar, e eu sem entender aquele humor repentino. – É porque eu não me sinto satisfeito.
_Mas eu deveria não me sentir? – Ainda, o interrogatório. Edward deveria saber que ele não se livraria de mim tão facilmente. Eu era muito insistente quando se tratava de satisfazer a minha curiosidade; naquele quesito eu nunca ficava satisfeita. – Quero dizer… ah, você já sabe o que quero dizer. Existe ainda algo mais que eu possa esperar, que você ainda não tenha me dado, Edward Cullen?

Ele sorriu, e eu vi o seu sorriso. Estava escuro, e ele tinha a face totalmente imersa em meu pescoço, que ele beijava sem parar. Era difícil ter uma conversa com ele naquelas condições, mas eu tentaria, afinal. O ruído de sua voz suave em meus ouvidos me deixava completamente tomada por uma onda de alegria. Edward repentinamente tomou meus lábios nos seus, beijando-me com alguma urgência, buscando espaço na boca entreaberta. Eu sempre recebia de bom grado seus beijos mais intensos, apesar do aparente desconforto que eles me causavam. Seus joelhos forçaram os meus, obrigando-os a abrirem. Eu estava tão concentrada em seus beijos, minhas mãos cravadas em suas costas, que eu não notei exatamente com quanta facilidade ele conseguiu o que queria. Em poucos instantes, Edward estava na posição que ele pretendia, e minhas pernas estavam entrelaçadas nas dele, puxando-o involuntariamente para mais perto.
_Okay, isso é… – Eu tentei dizer algo, enquanto ele segurava minhas mãos e as colocava imóveis por sobre a minha cabeça.
_Você não sente que falta alguma coisa, Bea? – Ele sussurrava, e eu mal conseguia sentir meu corpo. – Você não sente que falta um encaixe?

Ah! Meu cérebro dopado pelo perfume de Edward levou algum tempo para processar como os nossos corpos poderiam encaixar melhor um no outro. Já estávamos como se fizéssemos parte de um só ser. Edward soltou minhas mãos, e elas imediatamente procuraram a estrutura da cama, segurando-a com força. Edward me beijava bem lentamente, e eu não precisaria responder quando achasse a resposta. A sensação que eu sentia, com seu corpo naquela posição, se tornou insuportável. A vontade de expandir-me era incontrolável, então.

Assustei-me com um barulho de “crack” por trás de mim, e uma dor terrível que me fez imediatamente soltar os dedos da cama. Edward olhou para mim aterrorizado. Imediatamente ele estava sentado ao meu lado, com minhas mãos entre as suas.
_Bea! – Ele me puxou o queixo e me fez olhar para ele, tirando o olhar dos dedos que começavam a inchar. – Bea, olhe para mim… Carlisle!! Carlisle!! – Edward começou a chamar pelo pai, e logo três vampiros estavam de pé ao meu lado na cama. Carlisle, Esme e Alice pareciam consternados, porque Edward estava muito assustado.
_O que houve, filho? – Carlisle disse, olhando nosso pavor.
_Ela quebrou a mão. – Edward tinha tanta agonia em seus olhos que eu mal podia suportar olhar para ele. A dor não estava tão forte, mas eu podia senti-la.
_Deixe-me ver. – Carlisle sentou-se na cama ao meu lado, e Edward entregou-lhe as minhas duas mãos, que não se moviam. – Interessante… aparentemente ela quebrou todos os dedos da mão, em várias partes. Eu acho que isso vai demorar um pouco a regenerar, Bea. Esme, por favor, traga-me um pouco de gelo.
_Você poderia dar-lhe morfina, Carlisle… ela está sentindo dor, eu sei…
_Edward. – Eu olhei para ele, com bastante tranqüilidade. Eu precisava respirar fundo e apagar da minha mente qualquer menção à dor e ao susto que me acometeu quando eu senti o estalo dos ossos. – Edward olhe para mim você, agora. Eu estou bem. Eu estou bem… a dor é pequena, logo ela vai passar.. você sabe que eu me regenero rapidamente.
_Talvez em algumas horas os ossos estejam calcificados. Mas a sua mão precisa estar na posição certa… para não haver má-formação. – Carlisle ainda observava minhas mãos, enquanto Esme chegava com o gelo em uma bolsa, e ele a depositava por sobre meus dedos.
_O que vocês estavam fazendo? – Alice ergueu uma sobrancelha, prestando atenção então em nossas… roupas. Eu tinha roupas, aquelas roupas de dormir que Rosalie me comprou e que não eram muito virtuosas, eu devo confessar. E Edward não usava roupa alguma, todo o seu corpo estava coberto apenas pelas roupas íntimas. Ele ficou tão apavorado com o que aconteceu que sequer se lembrou de vestir-se. – Você fez isso com ela, Edward?
_Não! – Eu disse, antes que ele pudesse responder. Carlisle já estava providenciando um suporte para apoiar minhas mãos, enquanto conversávamos. Ele pretendia que eu não me movesse, a fim de facilitar a cicatrização. – Ele não fez nada, Edward… mal me tocou – Era mentira, e eu pude notar o sorriso torto que ele deu, naquele instante. – Eu que… fui eu que apertei demais… – E meus olhos se voltaram para o encosto da cama, que estava tão quebrado quanto os meus dedos.
_Oh. – Esme arregalou os olhos e Alice riu. Carlisle ainda estava preocupado com as fraturas, e Edward olhava para baixo.
_Desculpe-me pelo estrago, Esme… prometo consertar quando minhas mãos estiverem recuperadas.
_Não se desculpe, Bea. – Carlisle sorriu. – Isso é muito interessante, você… é mais forte do que seu próprio corpo parece aguentar. Por isso, ao pressionar a estrutura de madeira, seus dedos se quebraram por não suportarem a força.

Ah, muito simples a explicação. Aquilo definitivamente fugia de qualquer conceito de normalidade que eu poderia esperar. Estava tudo tão bem, tão natural… Edward e eu, e mais uma noite ao seu lado, uma noite melhor do que a outra. Mas eu tinha que perder o controle e o balanço humano-vampiro… eu tinha que estragar tudo como uma aberração sabe fazer.

Aqueles pensamentos irritaram Edward. Ele puxou as cobertas por sobre nós, talvez para evitar que os demais nos observassem, e me puxou para si, recostando-me em seu peito novamente. Minhas mãos estavam sobre uma plataforma de madeira, que Carlisle improvisara. Ele me acomodou, sem dizer uma palavra.
_Obrigado. – Ele disse a Carlisle. – Está tudo bem agora…
_Você quer alguma droga, Bea? – Carlisle perguntou. – Se estiver doendo, posso providenciar…
_Não, está tudo bem. – Eu disse, sem mentir. – Eu já quase não sinto dor…

Carlisle levou Esme consigo para fora do quarto, enquanto Alice ainda precisou encarar Edward mais um pouco antes de ir. Aquela conversa silenciosa ainda me deixaria louca… porque sempre que Alice queria falar com Edward algo privado, ela simplesmente pensava. E ele a olhava com ferocidade.

A noite que seria tão mais divertida acabou de forma dolorosa. Adormeci involuntariamente nos braços de Edward, sentindo seus lábios tocarem meus cabelos, minha testa, meus ouvidos. Ele me beijava e cantarolava uma canção suave, como que desejando me fazer dormir. E o efeito foi esperado. Quando acordei no dia seguinte, eu estava totalmente acomodada por sobre Edward, e minhas mãos repousavam sobre o suporte de madeira. Estiquei meus dedos, estalando um por um, sentindo o movimento novamente. Nenhum inchaço, nada. Sorri satisfeita com minha regeneração tão funcional, mas senti remorso ao olhar para o lado e encontrar os olhos de Edward me observando, com tanta agonia em seu olhar.

_Bom dia, meu amor. – Ele disse, me beijando suavemente. – Como você está?
_Eu estou bem. – Estiquei-me, bocejando. – Edward, por favor não fique assim. – Eu o segurei com as duas mãos em sua face, beijando seus lábios bem devagar. – Veja, eu estou ótima! Não há mais nenhum rastro das fraturas em mim… por favor, não fique assim.
_Eu não imaginei que você fosse querer matar a cama por causa de uma ‘brincadeira’. – Edward implicou. Senti o humor dele melhor, e aquilo foi um alívio.
_Brincadeira? – Eu ri. – Bem, pelo menos você conseguiu me mostrar seu ponto. Encaixe… agora eu entendo. Vamos nos arrumar para a escola?
_Hoje é sábado. – Ele me beijou os lábios. – Podemos nem sair da cama, se não quiser…

Aquilo também deveria se encaixar em todos os conceitos de normalidade, afinal. Passar o sábado na cama com o homem… com o vampiro que eu amava não podia ser considerado anormal.
_Eu não quero, então. – Provoquei, beijando-o com mais intensidade, afundando minhas mãos em seus cabelos.

Mais normal do que passar o dia na cama com o namorado era aturar a família do namorado, curiosa para saber o que se estaria fazendo. Principalmente se na noite anterior você quebrou os dedos destruindo o encosto de uma cama. E como eu estava vivendo o meu período de normalidade, antes mesmo que Edward pudesse pensar em virar-se por sobre mim novamente, a porta se abriu e Emmett entrou quarto adentro, falante.

_Ew, não quero nem ver! – Ele fingiu que cobriu os olhos. Rosalie vinha logo atrás, rindo.
_Se não queria ver, por que entrou? – Eu desafiei. Edward recompôs-se, sentando-se na cama. Ainda estávamos por sob os cobertores, apesar daquilo não fazer diferença em nossas temperaturas. Era apenas divertido, a textura macia do tecido em contato com nossas peles.
_O que vocês querem, Em? Rose? – Edward perguntou.
_Carlisle disse que Bea se machucou ontem…
_Eu já estou curada, totalmente recuperada. – Mexi as mãos, estalando os dedos novamente para que eles vissem.
_Vamos jogar? – Emmett parecia animado. – Temos tanta coisa para fazer em um sábado sem sol…
_Inclusive ficar em casa. – Edward disse, sorrindo.
_Sério? – Rosalie parecia curiosa com a decisão de Edward.
_Sério… se vocês pararem de interromper será mais divertido ainda. Deu para perceber que estou me divertindo com Beatrice, aqui, mesmo trancado no quarto?
_Trancados! – Emmett soltou uma risada sonora. – Vocês talvez devessem mesmo ficar trancados… bem, vamos sair para jogar.
_Todos? – Edward confirmou.
_TODOS. – Rosalie riu, empurrando Emmett para fora do quarto. – Use seu tempo com sabedoria.

Talvez aquilo fosse menos normal do que o esperado. Eu duvidava que entre os humanos os pais saíssem de casa para que os namorados passassem tempo juntos. Edward sempre passava a noite… mas daquela vez ele parecia interessado em passar o dia, também. Não havia luz do sol, apenas uma claridade nublada de um dia frio de inverno. Edward recostou-se na cama, e me puxou consigo. Sua respiração tinha um ritmo lento, musical. Eu tentei acompanhá-lo, respirando na mesma intensidade. Eu tinha certeza que ele sempre fazia aquilo para me ajudar a respirar.

Barulhos de porta foram ouvidos, e motores ligando. Uma voz feminina bastante delicada foi ouvida, desejando bom dia para nós. Eu pude notar a ênfase sarcástica na palavra “bom”, mas não me incomodei muito. Alice ainda era a minha confidente, e depois eu poderia entender-me com ela sozinha. Os Cullen saiam para jogar, em um dia sem sol, enquanto eu e Edward ficaríamos em casa, trancados, como sugeriu Emmett. Nada mais normal e ao mesmo tempo mais esquisito. Namorados não costumavam desfrutar daquele tempo solitário na casa dos pais, eu tive certeza. Meu pouco conhecimento da vida humana me permitia saber daqueles pequenos detalhes, principalmente porque eu tinha amigas humanas e assistia muitos filmes.

Alguns segundos se passaram depois do último ruído ouvido por nós. Eu me virei, colocando-me por sobre Edward, para observar o lado de fora e confirmar que nenhum carro estava mais ali. O perigo de seus olhos repentinamente imergiu nos meus, me fazendo sentir o arrepio velho de sempre. Eu pensei que aquela eletricidade já estava ficando ultrapassada, mas não. Lá estava ela, a me fazer sentir uma fisgada inconveniente. Edward puxou-me para si com a mesma urgência da noite anterior, fazendo-me sucumbir a outro beijo intenso, profundo. Seu corpo escorregou suavemente por sobre o meu, prendendo-me entre ele e os cobertores.
_Você vai se machucar de novo? – Ele perguntou, sem soltar-se de mim. Eu não sabia se era uma metáfora ou se ele falava sério.
_Não sei… o que você pretende agora? – Entrei no jogo. Emmett queria nos convidar para jogar, e pude perceber que Edward já estava jogando. – Pretende me mostrar algo mais que demonstre sua insatisfação?
_Não. – Ele disse, colocando minhas mãos por sobre si, meus dedos procurando freneticamente seus cabelos. – Eu pretendo dar um fim a ela.

Deveria ser muito normal perder-me daquela forma. Eu já não ouvia mais nada quando Edward terminou sua frase e desceu as suas carícias para regiões ainda não exploradas. Seus lábios percorreram a extensão de meu colo, e seus dedos se posicionaram a fim de retirar-me a tão comentada roupa de dormir. Senti a eletricidade percorrendo todo o meu corpo, e a ânsia de expandir-me. Eu não podia me machucar, pensei. Não podia apertar nada com força, fazer nada perigoso. Mas eu podia usar as mãos em Edward, porque ele era macio o suficiente para evitar qualquer lesão em meus ossos. E porque eu temia machucá-lo, por mais impossível que aquilo fosse. Enquanto meu cérebro não raciocinasse que eu não podia feri-lo, eu jamais conseguiria apertá-lo como fiz com o encosto da cama.

O toque dos cobertores foi mais divertido quando eu não estava usando roupa alguma. E definitivamente a pele de Edward parecia mais perfeita nessa mesma situação. Daquela vez, deixei meus pensamentos flutuarem e me levarem a qualquer lugar. Edward poderia saber tudo que eu pensava, pois tudo era relacionado a ele e ao que ele me fazia sentir. Seu toque em minha pele, as suas digitais; o hálito fresco que saía de sua boca quando ele sussurrava algo em meus ouvidos; o peso de seu corpo sobre o meu; o movimento delicado que ele fazia quando buscava seu espaço em mim; o cheiro doce, quase nauseante, que ele exalava; o sabor de seu beijo e o toque de sua língua em meus lábios. E a eletricidade que só ele conseguia fazer correr em mim.

Quando me percebi novamente, não havia roupa em nossos corpos e eles dançavam uma música lenta por sobre os cobertores. Edward e eu estávamos entrelaçados, como se fosse impossível separar-nos. Havia música, sim, mas eu pouco a percebia. O som de sua respiração era tudo que me guiava naquele momento. Eu olhava em seus olhos, mas eles eram fortes demais para que eu os suportasse. Deixei-me perder mais uma vez na escuridão, olhos fechados, mãos que seguravam Edward pelas costas e o mantinham quase imóvel por sobre mim. Senti que meu coração batia rápido demais, e acelerava enquanto Edward também parecia seguir seu ritmo.

Então eu entendi o que Edward tentava me dizer antes. A ânsia, a satisfação, o encaixe. Era perfeito demais, e a sincronia parecia inabalável. Dançávamos embalados mais por nossos próprios instintos do que pela suave melodia que emanava do equipamento de som. Eu desejei que aquilo durasse para sempre, e enquanto eu desejasse aquilo, eu teria. Era normal, que Edward me desse tudo que eu quisesse.

Não poderia haver nenhum outro estado de normalidade mais satisfatório do que aquele. Se não fosse normal estar tão apaixonada por Edward, eu desejaria ser um show de horrores para sempre.

_Os Cullen. – Ele disse, entre os meus lábios, bastante tempo depois. Respirei fundo, depois de estar muito tempo prendendo o fôlego, e olhei para outro lugar que não seus olhos. Já havia escurecido. Não havia nenhum feixe de luz escorrendo pelas nuvens espessas, e não havia nenhum sinal de dia restando do lado de fora. Tão logo Edward falou, ouvi ruídos no andar de baixo.
_Eles chegaram? – A pergunta foi tola.
_Faz algum tempo. – Edward sorriu, maroto. – Mas eu não consegui me interromper para dizer-lhe.
_Devemos nos juntar a eles? – A segunda pergunta foi definitivamente estúpida. Mesmo que devêssemos, eu gostaria de saber se queríamos.
_Sim, devemos. – Ele respondeu, esforçando-se para retomar o controle sobre si mesmo. Eu não era tão forte. Foi difícil permitir que ele se afastasse qualquer milímetro de mim. Edward tomou meus lábios novamente, e eu senti que ele pretendia confortar-me. – Vamos, Bea… nós não devemos continuar assim com todos em casa, seria inadequado.
_Você tem razão. – Eu assenti, sem desejar concordar com ele. Não daquela vez. – Mas eu não sei se consigo…
_Consegue. – Ele me beijou outra vez. – Só prepare-se… Emmett chegou bastante agitado.
_O que ele pode fazer? – Mais perguntas tolas.
_O que ele vai fazer, é a pergunta. Bem, digamos que minha família tem tendências a ser indiscreta sobre a vida sexual dos seus.
Ouch. Indiscrição e vida sexual eram termos que não combinavam juntos. Mas o que eu podia fazer? Afinal, eu tinha sucumbido a Edward como ele sucumbira a mim, e ambos passamos o dia inteiro fazendo a mesma coisa, sem nos darmos ao trabalho de nos preocuparmos com tempo, com qualquer outra coisa. Encarar os Cullen depois de estar tão plenamente satisfeita – e então eu entendia o conceito de satisfação para Edward – não poderia ser tão ruim. Seria normal, eu tinha certeza.

_Ew!! – Emmett bradou, tão logo Edward apareceu na escada, puxando-me pela mão. Os olhos imediatamente se viraram para nós, e pude ver em suas faces bastante vivacidade. Estavam tão animados, eu pude sentir aquilo. – Ew, mil vezes ew!!
_Posso saber o que te incomoda, Emmett Cullen? – Edward reclamou.
_Vocês estão se sentindo bem? – Rosalie implicou. – Não há mais nenhum osso quebrado? Beatrice ainda está inteira?
_Calem-se, vocês. – Edward reclamou mais. – Vocês poderiam ser mais respeitosos com ela, por favor?
_Deixem Edward em paz! – Esme chamou a atenção de Emmett e Rosalie. – Até parece que vocês são delicados quanto a isso!
_Vocês costumam quebrar tudo. – Alice riu. – Eles pelo menos parecem ter mantido a casa inteira…
_E o quarto também. – E a estupidez era minha melhor companheira. Como se eles não estivessem definitivamente sendo irônicos e sarcásticos, como se eles não estivessem tripudiando sobre mim, eu ainda respondia os comentários com total ingenuidade. Os Cullen caíram na risada, e até mesmo Edward acabou rindo.
_Você me desaponta. – Jasper implicou, direcionando o comentário a Edward.
_Até parece que você é tão bruto, Jazz. – Edward franziu o cenho. – Vocês dois conseguem ser tão discretos que a casa sequer os ouve!
_Ao contrário de vocês dois, né? – Alice caiu na risada. – Chegamos aqui e pensamos que precisaríamos intervir, ou Beatrice iria ter um longo caminho para se regenerar…

O constrangimento acabou por me dominar, e eu precisei afundar-me novamente em Edward para esconder-me dos olhares risonhos. Indiscretos era um eufemismo pobre para a reação dos Cullen quanto à nossa incursão naquela tarde. Edward encarou Alice como sempre fazia, e logo a implicância deixou de ser divertida. Os Cullen estavam reunidos no salão, cada um fazendo a sua coisa preferida, e Edward decidiu tocar seu piano. Caminhou até o instrumento e sentou-se na banqueta, dedilhando rapidamente as teclas de marfim.

A melodia que saía de seus dedos era a mais linda de todas que eu já ouvira. Ele já havia me contado que compunha suas próprias músicas, e aquilo era ainda mais surpreendente. Encostei-me ao piano e o observei tocar, música após música, deixando-me levar por cada uma delas. Quanto mais eu apreciava, mais Edward parecia tentado a tocar, me propiciando uma sinfonia impressionante.





(Cap. 16) Capítulo 15 - A Visão

 

 

_Edward! – Alice entrou quarto adentro, olhos arregalados. Eu estava dormindo, desfalecida nos braços de Edward. Já estava amanhecendo, era mais uma manhã de aula que chegava. Alice tentou falar baixo, mas seu movimento me fez despertar assustada.
_Alice… – Edward sacudiu a cabeça. – Por favor, precisava acordá-la assim? – Você está bem, Bea?
_Sim, o que houve? Alice… o que houve?
_Edward… Bea… os híbridos. – Alice ainda parecia em transe.
_O que há com eles? – Tentei recompor-me, garantindo que eu estava bem escondida sob os cobertores. Já bastava os Cullen entrarem no meu quarto… no quarto de Edward… no nosso quarto! Já não bastava os Cullen entrarem toda hora no nosso quarto, só faltava que eles me vissem sem as vestes. O constrangimento seria incalculável.

Edward olhou para Alice com um aspecto sombrio. Senti um arrepio me percorrer a espinha, e afundei-me ainda mais em seus braços, que me comprimiram com força.
_Você tem certeza, Alice? – Edward perguntou, assombrado.
_Sim, mas eu ainda estou em dúvida quanto ao tempo.
_O que está havendo? – A conversa silenciosa deles era ainda mais irritante quando eles falavam deixando lacunas. – Digam-me, o que há com os híbridos? Por que esse pavor todo, Alice?
_Deixe que falo com ela. – Edward respirou, resignado.
_Não seja tolo, deixe Alice falar! A visão foi dela.
_Bea… – Alice sentou-se à beira da cama. – Eu os vi. O covil… vários homens reunidos… um deles era mais velho, tinha cabelos descoloridos pelo tempo. Ele determinou que todos saíssem em sua busca. Eles… estão tentando rastrear você.
_Rudolph. – Eu abri os olhos, muito confusa. – Mas… por que eles vêm em minha busca? Eu avisei a Rudolph que iria embora… eu deixei claro que sairia em busca do sol. Em busca da vida com os humanos. Ele não me proibiu.
_Eles sabem de Connor. – Edward disse, entre os dentes. Suas mãos me seguravam firme, mas não o suficiente. – Eles sabem que o caçador morreu, e decidiram sair atrás de você.
_Isso é ridículo! Eles ainda acham que podem me rastrear? Você tem razão, Edward, os híbridos são estúpidos! Eles não sabem em que estão se metendo…
_Bea, eles virão por você. E…
_Alice, deixe isso.
_Edward, você não pode protegê-la da verdade! – Alice insistiu.
_Eu quero saber. – Fui enfática.
_Eles vêm te buscar porque você foi prometida a alguém. Connor é só um pretexto para saírem todos do covil de uma só vez.. todos os caçadores.
_Quantos eles são? – Edward perguntou.
_Quinze. – Eu respondi, ansiosa. – O conselho é formado por quinze caçadores… incluindo Rudolph. Mas isso ainda é ridículo, eu fui prometida? Eu não vou voltar com eles, não importa o que digam ou acham. Eu estou com Edward!

Ele me beijou os cabelos, e eu pude sentir apreensão. Tanto nele quanto em Alice.
_Eles não pretendem desistir, Bea. – Alice disse, olhar baixo.
_Vamos para a Europa. – Edward disse. – Vamos fazer a viagem que estamos planejando… eu sei que o semestre ainda não acabou, mas… não vou arriscar ficando aqui. Eles demoram a rastrear, certo?
_Sim… eles precisam estar sintonizados em mim. Como eu deixei o covil há muito tempo, e meus rastros próximos já devem ter sido apagados… eles vão demorar a me achar. – Falei, tentando imaginar como Rudolph faria para me encontrar tanto tempo depois.
_Então, vamos! – Edward me olhava quase que como implorando. – Alice, dê-nos licença, sim? Precisamos nos vestir.

Eu ainda estava zonza. Ser acordada daquela forma não era um hábito. Eu desistira de batalhar contra meu sono, como fazia antes, e passei a aceitar de bom grado a exaustão que me consumia à noite. Até porque Edward vinha me mantendo cansada. Meu corpo se cansava, ao contrário do corpo dele, de puro. Eu não tinha toda a força dele. Eu era fraca como os humanos, era um fato. Apesar de que Carlisle sempre dizia que eu era cem por cento cada um. Que eu era cem por cento humana em tudo e cem por cento vampira. Que cada lado balanceava o outro, de forma inusitada.

Desde que decidimos passar efetivamente as noites juntos – para não dizer ativamente, a minha cama se mudou para o quarto de Edward. O quarto que fora destinado a mim era um quarto de sobra, como se os Cullen um dia pudessem receber uma visita que dele precisasse. Mas não fazia sentido, segundo Esme, que eu continuasse ali. Fui literalmente transferida para o quarto de Edward e seus diários, seus CDs, seus equipamentos, seus livros, suas roupas, seu cheiro; tudo ficou mais próximo de mim. Mas os Cullen continuavam a não respeitar nossa privacidade, entrando sempre que desejavam. Eu imaginei que eles podiam saber quando estávamos apenas conversando, ou quando eu dormia, porque nunca entraram em um momento realmente inoportuno. Mas eu detestava ser pega daquela forma, sem estar vestida, totalmente indefesa.

Edward estava ansioso, demais. Ele vestiu-se com velocidade muito superior à que eu poderia esperar, e desceu as escadas, deixando-me para trás. Escolher roupas para a escola não me era uma tarefa prazerosa, então deixei que Alice separasse sempre as peças que combinavam, para que eu não tivesse trabalho. Peguei alguma coisa da pilha “escola” que ela tinha organizado e desci para me encontrar com a família.

_Edward, você não precisa se apressar tanto, filho. – Carlisle falava com ele. – Vai dar tudo certo, eles não ousarão tirar Beatrice de nossa casa. É uma afronta.
_Confie em Carlisle, Edward. – Esme tentava tranquilizar o filho. – Ninguém vai levar Bea para lugar algum.
_Se precisar, arrancamos as cabeças deles como fizemos com aquele outro! – Emmett estraçalhou qualquer coisa em suas mãos, desintegrando o objeto.
_Eu sei, eu sei… mas mesmo assim, quero ir. Podemos?
_Claro que vocês podem! – Esme riu, e abraçou o filho. – Vocês não precisam mesmo da escola… e creio que perder o final das aulas não vai causar nenhum problema. Conversem com seus professores, e peçam para fazer alguns trabalhos. Assim, não perdem as provas finais.

Edward sorriu, retribuindo o abraço da mãe. Eu tinha certeza que ele não precisava pedir a permissão dos Cullen para ir onde quer que fosse, porque ele era livre. Maduro o suficiente para suas decisões. Mas eles realmente viviam como uma família. Realmente, eles eram uma família como eu nunca tinha visto antes. E aquele sentimento era uma das coisas que mais me fazia feliz, entre os Cullen.

O dia na escola foi normal. Edward praticamente não assistiu às aulas, perambulando de professor em professor, indo até a secretaria e resolvendo coisas sobre nossa viagem. Ele pretendia deixar tudo programado na escola, para que ninguém suspeitasse de nada e para que pudéssemos não perder provas importantes. Os Cullen respeitavam demais todos os rituais humanos, era outro dos pontos interessantes que eles tinham. Eu não estava habituada a muitos dos rituais humanos, mas me divertia vendo como eles os desempenhavam com tanta exatidão e perfeição.

Nem mesmo no almoço Edward ficou comigo. Fui relegada aos humanos, empurrada literalmente para a mesa deles. Vez ou outra meu namorado vampiro protetor me fazia sentar com os humanos, e interagir com eles. Apesar de serem sempre os mesmos… Sylvia, Layla, Geoffrey e outros que considerava menos. Eu gostava dos humanos; eles tinham um cheiro delicioso e a salivação ainda era incontrolável perto deles, mas eu sempre estava satisfeita e sabia que era errado atacá-los. Aquela idéia de certo e errado, de bem e mal que eu carregava desde o covil e que se repetia no comportamento dos Cullen. E os humanos eram divertidos, eles me faziam rir, eles gostavam de mim.

_Bea, você vai ao meu aniversário, certo? – Sylvia disse, entre tantas conversas que tivemos na hora da refeição. Que eu não comia.
_Aniversário? – Ergui uma sobrancelha, tentando me recordar.
_Sim!! Tome, pegue um convite – Sylvia me entregou um envelope cor de rosa. – A festa será semana que vem… ah, você tem que vir! Todos na escola vão… você pode levar… seu primo. Aliás, você vai me contar o que há entre vocês, hem?
A indiscrição não era exclusiva da casa dos Cullen, era verdade. Os humanos também o eram, pude perceber cedo demais.
_Credo Syl… eles são primos! – Geoffrey fez uma careta.
_Somos primos distantes… bem distantes. – Eu já estava ficando uma artista em mentir. Aprendi facilmente a ludibriar meus amigos humanos.
_Então!!! Geoffrey Miller, não tem nada demais namorar primos, tá? E convenhamos, Edward Cullen!!! Se ele fosse meu primo, eu já teria atacado.
Pressionei os lábios, irritada. Olhei para Edward e ele ria, descontroladamente, da situação. Senti ainda mais raiva, porque ele estava se divertindo à custa da minha indignação. Excelente comportamento para um namorado!
_Syl, se eu fosse a Bea eu te batia agora! – Layla me defendeu. – Diga, Bea… vocês estão namorando?
_Sim. – Falei, segurando a maçã entre os dedos. A fruta vermelha de aroma ácido sempre me tentara. Segundo as histórias de Felícia, os humanos foram expulsos de um paraíso por causa de uma maçã. Eu sempre tive curiosidade de saber o que aquele fruto tinha de tão proibido assim. – Estamos namorando.. mas gostamos de ser discretos.
_Aaaaaaah! – As duas amigas gritaram juntas. – Que máximo!! Edward é tão lindo… pena que nunca dá muita bola para nós, é verdade. Aliás, você é a única Cullen que conversa com a gente, mesmo.
_Não sou Cullen, sou Caldwell. – Corrigi.
_Vai ver que é por isso. – Geoffrey caiu na risada.

Se os humanos já não estivessem se divertindo demais com minha situação, ela não iria melhorar porque uma invasão de vampiros não se materializou ali, naquele instante. Edward e Jasper se levantaram de sua mesa e caminharam até a mesa dos humanos; Jasper carregando nas mãos uma lata de refrigerantes. Os dois pararam atrás de mim, que estava distraída conversando com Layla, causando certo espanto em Geoffrey, Sylvia e outra garota. Edward tinha um sorriso insuportável nos lábios, e eu sabia que ele seria perverso. Certamente ele tinha ouvido toda a conversa, e certamente ele e Jasper decidiram colocar um fim ao mito “os Cullen não falam com a gente”.

_Boa tarde. – Jasper disse, jogando-se em uma cadeira e apoiando o refrigerante na mesa. – Tem lugar para mais um nessa mesa? A nossa está muito silenciosa.
_Bea. – Edward se sentou ao meu lado, puxando minha face para si e beijando-me os lábios suavemente. As meninas – todas! – deixaram os queixos desabarem ao chão, em um misto de perplexidade e inveja. Ah, a inveja. Eu nem sabia como funcionava a inveja. Mas eu senti, senti as meninas totalmente invejosas do beijo que eu acabara de receber do meu namorado. Usar o pronome possessivo na primeira pessoa era definitivamente divertido.
_Vocês demoraram. – Impliquei. – Pensei que ficariam decidindo juntar-se a nós por muito tempo.
_Bem, já que os Cullen estão aqui… – Sylvia fez uma careta. – Vocês vão à minha festa de aniversário, certo?
Jasper e Edward se entreolharam.
_Sim, não perderíamos por nada. – Foi Jasper que respondeu.
_Sério? – Layla parecia surpresa, até demais. – Os Cullen?
_E por que não? Fomos convidados, não? – Edward olhou para Sylvia, e eu o cutuquei por baixo da mesa. Era cruel demais fazer aquilo, olhar para as pessoas daquela forma. Ele tinha que perceber que ele exercia uma atração insuportável em todos ao redor.
_Sim, claro! Bea já tem o convite… – Sylvia estava então empolgada como nunca. Jasper e Edward passaram o resto do almoço ali, interagindo com os meus amigos humanos. Eu parecia a amiga deles, dos humanos. Os Cullen eram mesmo muito mais reservados quanto à postura deles com os humanos. Eu me sentia naturalmente tendente a estar com eles, talvez por afinidade. Cor da pele, coração batendo, essas coisas.

_O que foi aquilo? – Perguntei, já em casa. A casa dos Cullen. Edward havia me abduzido para o piano novamente, e tocava seus acordes melodiosos.
_Eu não quero ser aquele que não conversa com ninguém. – Ele respondeu sem se desconcentrar da música. – E eu considerei que você precisava de uma ajuda com o convite para a festa. Jasper também queria interagir, ele precisa.
_Não sei por que confirmou a presença.
_Porque pretendo ir. – Edward me sorriu, ainda tocando.
_Mas… a viagem? A visão de Alice…
_Alice viu os híbridos vindo, mas ainda não precisou o tempo. Por suas contas, eles devem conseguir chegar aqui em não menos do que dois meses. Temos tempo sobrando para irmos à festa de Sylvia e programarmos a viagem com calma.
_Seu humor me assusta. – E não era mentira! – Como você pode mudar de idéia tão rapidamente sobre as coisas!
_Bea. – Edward parou de tocar, e me segurou em seus braços. – Eu não consigo raciocinar com lógica ao seu lado. A simples idéia de você em perigo me deixa louco. Eu não achei que um vampiro pudesse estar em perigo facilmente, mas você é diferente. Então… perdoe-me esses momentos de fraqueza, mas eu perco o controle quando imagino você correndo qualquer risco. – Ele me beijou, suavemente. – Vamos fazer nossa viagem o mais rapidamente possível, eu garanto. Mas vai ser divertida essa festa de aniversário. Agora quero ir, e eu prometi que não mais te estragaria, lembra?
_Meio tarde para isso. – Eu sorri, mergulhando em seu beijo. – Eu já estou totalmente estragada, só quero ficar ao seu lado.
_Por isso vamos com você. – Edward riu.
_Nós? – Ergui o olhar, curiosa.
_Eu, Jasper, Alice… todos vamos. Será divertido, espero.

Os conceitos de diversão dos Cullen pareciam não muito condizentes com os dos humanos. Eles se divertiam com esportes radicais mortais e com ursos violentos. Os humanos pareciam mais interessados em música, dança, cinema… coisas que representassem menos perigo a suas carcaças frágeis. Mas então iríamos à festa de aniversário de Sylvia e faríamos nossa viagem depois. A visão de Alice não podia ser tão perigosa assim, porque Edward estava mais calmo. A sua tranqüilidade me passava conforto, e eu poderia suportar qualquer coisa ao lado dele.





(Cap. 17) Capítulo 16 - Experiências

 

*tema: Westlife’s Moments*

_Adoro quando os Cullen saem para caçar. – Falei, cravada nos cabelos de Edward, puxando-o para meus lábios. Fazia bastante tempo que estávamos ali no quarto, desde que todos decidiram sair para caçar. Jasper implicava que eu e Edward precisávamos de muito mais tempo sozinhos do que eles… o que talvez fosse verdade. Mas eles precisavam compreender que eu e Edward não estávamos juntos por décadas, como eles. A necessidade de estarmos juntos o tempo todo ainda era tão insuportável que chegava a causar dor.
_Eu também. – Edward se movia lentamente por sobre mim, infringindo-me uma tortura já tão conhecida. – Mas não podemos nos perder por muito tempo… também precisamos caçar. Temos uma festa para ir amanhã, esqueceu?
_Eu não estou com sede, só me deixe ficar aqui com você. – Eu o prendi entre minhas pernas, mas logo me dei conta que eu não o queria imóvel.
_Sim, você está com sede. – Ele me beijou mais profundamente, e se sentou na cama. Bati os braços no colchão, em protesto, mas ele me ignoraria como sempre. Edward costumava ser quem conseguia encontrar forças para parar… porque eu sempre queria mais e mais. Principalmente se passássemos alguns dias sem nos tocarmos daquela forma, como tinha acontecido. – Estou vendo em seus olhos… está interessada em perseguir alguns cervos?

Eu sorri para ele, pressionando os lábios.
_Ursos, Beatrice? – Edward balançou a cabeça, negativamente. – Ursos mais uma vez? A experiência anterior já não foi frustrante o suficiente?
_Eu não me alimentei deles. – Falei, considerando. – Na verdade, eu tenho uma pequena vingança para cumprir.

Edward balançou a cabeça negativamente mais uma vez, e levantou-se. Caminhou até o guarda roupas, escolheu cuidadosamente o que vestiria para a caçada. Os Cullen eram mesmo interessantes… Edward iria se vestir para sair de casa e abater animais para beber-lhes o sangue. Eu fazia uma bagunça terrível durante as caçadas, mas eles, os Cullen, estavam sempre impecáveis. Sequer desarrumavam os cabelos. Eu precisava de prática… continuei onde estava, sentada, estática. Ele terminou de se vestir e se colocou à minha frente, impaciente.
_Beatrice… – Foi o suficiente para que eu me levantasse. Claro que ele tinha lido tudo, aquela mesma história de sempre. Mas como, era de se questionar, que ele pretendia que eu saísse daquela cama se ele insistia em ser tão perfeitamente lindo perambulando sem roupas pelo quarto? Eu ainda precisava de muito tempo com ele, tanto que nem caçar era mais interessante. Eu poderia insistir em ficar com sede só para ficar ali, com ele.

De qualquer forma, eu estava com sede. Caçar foi prazeroso, ainda mais porque Edward cedeu e me levou até os ursos. Daquela vez eu não seria pega desprevenida, e daquela vez eu não seria abatida por eles. Eu realmente precisava de uma segunda chance com os ursos, ou Emmett não me respeitaria nunca. Eu precisava ser respeitada por mim mesma, era como pensava. Abater alguns ursos não poderia ser tão difícil, eu tinha que tentar mais uma vez.

Apesar das visões de Alice, estávamos realizando tudo dentro de um tempo razoável, tentando manter os planos o máximo possível. Ela se concentrava em mim o quanto podia, para tentar ver coisas que antes talvez fossem mais difíceis. Mas ela costumava dizer que os híbridos não lhe eram muito simples. Uma pena, pois as visões de Alice me seriam extremamente úteis. Eu precisava saber tudo que ela via antes dela contar a Edward, mas isso era quase impossível. Eu queria poupá-lo da angústia em me contar, e queria poupá-lo de precisar sofrer por mim.

O dia seguinte chegou com a festa de Sylvia na agenda principal. Era sexta feira, e a festa era à noite, em sua casa. Eu nunca havia entrado na casa dos humanos, e aquela experiência era empolgante. Edward notou minha agitação com o dia, e eu pude perceber que ele estava feliz. Ver Edward feliz me causava ainda mais satisfação do que qualquer coisa, porque eu desejava a sua felicidade mais do que a minha própria. E talvez ele tenha sentido, por isso me ajudou com a idéia de ir à festa.

Depois da aula teríamos que comprar um presente para Sylvia, e Rosalie foi incumbida de me ajudar. Eu gostaria de Alice fosse, mas ela estava com Jasper… e os dois estavam em um momento de paixão que eu não ousaria interromper. Alice parecia muito mais reservada do que eu, ou Rosalie. Mas tendo à sua disposição uma sensação tão boa como aquela, por que resistir muito tempo? E como ela era a mais discreta… era fácil para ela perder-se no companheiro sem muitas explicações. Então, Rosalie. Edward decidiu não nos acompanhar, porque ele sabia que se tratava de um programa de garotas. Como a ida a Boston.

Eu não entendia a coisa dos presentes, apesar de saber algo sobre aniversários. Eu nunca vi ninguém fazer aniversário no covil… então a festa me era um mistério. Rosalie me explicou que o presente era um símbolo muito expressivo para a celebração da passagem de mais um ano, e que se eu me sentia amiga de Sylvia, deveria dar-lhe algo bastante significativo. Reviramos toda Port Angeles em busca de algo, passando por lojas de roupas, calçados, acessórios… paramos em uma loja que vendia jóias, e eu me encantei por um anel. A pedra era amarelada, e me lembrava os olhos de Edward. Claro que ele tinha olhos mais opacos e por vezes mais escuros… mas aquela pedra era o que mais me lembrava seus olhos. Eu não daria a Sylvia uma pedra com os olhos de Edward, mas era fascinante. Para minha amiga humana acabei por escolher um colar com um pingente vermelho. Vermelho, cor do sangue, uma representação minha. Rosalie me garantiu que era um rubi, mas não me fez incomodar com o preço. Eu não tinha noção de dinheiro, e os Cullen não contribuíam muito neste aspecto pedagógico. Eles simplesmente me deixavam gastar o quanto eu quisesse, apesar de eu nunca gastar nada. Eu só andava no rastro da família, o que reduzia muito as minhas opções.

Em casa, Alice estava me aguardando para a produção. Ela pretendia me ajudar a arrumar-me para o aniversário… me deixar mais bonita. Obviamente, não tanto quanto ela e Rosalie… mas seria bom ficar bonita. Seria bom estar à altura da minha companhia, o homem mais lindo que existia em toda a história da existência terrena. Entre todas as espécies já existentes. Ou não. Mesmo eu dizendo que não queria exageros, tudo para Alice era um exagero. E ela também pretendia preparar-se, pois não deixaria que invadíssemos a festa sozinha. Ela pretendia participar de tudo.

Produzida como nunca, em um vestido preto bastante sombrio, usando sapatos nos quais eu mal me equilibrava, os cabelos presos e repletos de brilho, eu estava pronta para ir à festa de Sylvia. Aos olhos de Alice, perfeita. Mas quando Edward surgiu pela porta do quarto, em um pulôver carmim e calças jeans escuras, tão contrastantes com a sua pele pálida e sem vida, eu me senti desprezível. Seus olhos estavam tão claros que ele parecia tê-los desanuviado só para mim. Como eu era petulante, imaginar que Edward orbitava ao meu redor como eu fazia com ele. Seus cabelos acobreados estavam meticulosamente organizados, o que não era muito comum.

_Você está linda. – Ele sussurrou em meus ouvidos, beijando-me exatamente naquele lugar. Senti a eletricidade e pensei ainda que ele arruinaria minha produção.
_Até parece. – Eu tinha que fazer alguma pirraça. Era um charme escondido, eu podia jurar.
_Nem ouse duvidar de mim. Você se subestima demais.
Sim, eu me subestimava. Mas perto dos Cullen e seus super poderes, eu era simplesmente uma híbrida sem graça.

Os filhos de Carlisle e Esme Cullen saíram de casa, no gigante jeep de Emmett e no Volvo prata de Edward, em direção à casa de Stewart Green. Era minha primeira festa humana; minha primeira noite oficial como namorada de Edward entre os humanos; minha primeira experiência totalmente mundana. Eu estava, sim, excitada. Até seria tolerável não passar a noite exclusivamente com Edward, porque eu estaria fazendo algo pelo qual esperei muito.

A tal festa, como um todo, se assemelhava à casa noturna de Boston. Muita gente reunida em um espaço pequeno, pouca luz, música alta, e muitos copos cheios de líquidos coloridos. A casa estava com as luzes apagadas, e alguma iluminação avermelhada deixava todos muito parecidos. Eu podia jurar que a casa de Sylvia não era daquele jeito, mas que ela havia feito modificações para o evento. O aroma que me fazia eriçar os pelos, de tão enjoativo. E o cheiro delicioso dos humanos. Todos reunidos, o calor de seus corpos… era uma sensação dolorosa, porque ao mesmo tempo que eu desejava obter o que me propiciaria saciar a vontade que o cheiro me causava, eu sabia que era errado. Edward me conduziu porta adentro segurando firmemente em minhas mãos, demonstrando claramente de quem eu era propriedade. Eu tinha certeza que Edward me considerava dele. E eu não tinha dúvidas quanto ao fato de que eu era, realmente, dele.

_Vamos nos misturar. – Jasper disse, esfregando as mãos.
_Pensei que não se misturassem. – Falei, confusa.
_Geralmente não. Mas essa experiência também é relativamente nova para nós… não costumamos freqüentar esse tipo de ambiente. – Ele disse, sorridente. Por um momento, cheguei a imaginar que a sensação ruim que eu causava em Jasper tinha acabado, ou que fora imaginação minha. Ele parecia muito mais à vontade em minha presença há algum tempo, e eu gostava de sua companhia.

Então, misturar-se. Não era difícil perder-se naquele monte de pessoas. Encontrei Sylvia e lhe entreguei o presente, em nome de todos os irmãos Cullen. Ela abriu a caixa maravilhada com o conteúdo, soltando uma interjeição de surpresa. Talvez ela não esperasse nada como aquilo… mas o que eu poderia fazer? Era minha primeira experiência com presentes. Depois de receber um longo abraço da aniversariante, que me colocou perigosamente em contato com a sua pele e com todo o calor do sangue que circulava ali, Sylvia me entregou uma taça enorme.

_Martini. – Ela disse, piscando os olhos. – Não que pudéssemos consumir álcool… mas eu estou fazendo 18 anos, por favor!

Martini? Olhei para o líquido descolorido e o cheiro era insuportavelmente doce. Estava entendido por que tudo ali cheirava daquela forma. Olhei para Edward assustada, e ele estava de pé atrás de mim, me segurando pela cintura, olhos perdidos na multidão.
_É uma bebida. – Ele respondeu, sem me olhar. – Os humanos apreciam bastante… é um entorpecente, na verdade.
_Droga? – Eu disse, mais assustada ainda.
_Sim e não. Pode ser, se você abusar.
_O que faço com isso?
_Disfarce e deixe em algum lugar. Ou… beba.

Beber? Eu era um vampiro, a única coisa que bebia era sangue. Edward deveria estar brincando.
_Não precisa ficar tão confusa. – Ele se sentou no que estava atrás de si, e eu visualizei como uma mesa de bilhar. Puxou-me para entre suas pernas, e me abraçou. Por pouco a taça não desabou de minhas mãos. – Você também é humana… você pode muito bem ingerir alimentos. Nunca experimentou, eu sei… mas você pode tentar quando quiser. Eu só nunca quis te pressionar…

Afastei-me repentinamente de Edward, sobrancelha erguida, um pouco confusa. Muito confusa, na verdade. A idéia de ingerir alimentos humanos estava fora de cogitação, sempre. Eu sequer entendia totalmente por que recusava tanto aquela experiência, mas eu suspeitava que o verdadeiro motivo fosse o medo que minhas fraquezas superassem todo o resto. A parte humana era a parte fraca em mim. Uma parte deliciosa da qual eu não pretendia abrir mão, mas ainda assim uma fraqueza. Se eu começasse a agir muito como os humanos, se eu começasse a me alimentar como eles, o que eu me tornaria? Uma aberração ainda mais esquisita.

Edward não gostou de meus pensamentos; eu pude ouvi-lo rosnar. Ele tomou a taça de minhas mãos e puxou meus lábios para si, beijando-me. Não poderia haver outro entorpecente mais forte do que aquele, o beijo de Edward. Eu só não sabia se beijá-lo ali seria saudável.
_Quer dançar? – Ele perguntou, dando-me algum espaço para respirar. – Já aviso que não sou tão bom nessas danças adolescentes como sou em outras danças… mas podemos enganá-los juntos. O que acha?
_Sim, podemos! – Sorri, beijando-o rapidamente, e puxando-o para a pista de dança. Como eu suspeitava, Rosalie já estava ali, o mesmo espetáculo que ela proporcionara em Boston.

Eu comecei a sentir um pequeno cansaço depois de muito tempo que dançávamos. Edward me conduziu para fora da pista, mesmo contra minha vontade, porque eu não parecia muito bem. Meus olhos pousaram sobre a taça que Sylvia me entregara, ainda intacta sobre a mesa de bilhar. Ninguém jogaria bilhar naquela festa, suspeitei. O líquido, de cor duvidosa e cheiro detestável, me encarou. Um líquido não poderia me encarar, mas aquele o fez.
_Beba. – Ele disse, segurando a taça em suas mãos. – Ou beberei eu.
_Você não pode! – Tomei-lhe a taça. – Você… é um vampiro – Sussurrei bem baixo em seus ouvidos.
_Eu posso… poderia ingerir alimentos esporadicamente, se quisesse. Mas eles me são inúteis… não me farão nenhum bem, talvez até mal. Mas você, ainda não sabemos. Vamos, beba.

Imediatamente lembrei-me de vários meses atrás, quando da minha chegada à casa dos Cullen. Quando Carlisle pediu que Edward fosse meu tutor, meu companheiro. Quando Edward decidiu que me faria experimentar comida humana. Ele havia temporariamente desistido de me fazer cobaia, mas aparentemente a sua curiosidade não havia adormecido. Talvez eu estivesse curiosa também, porque eu estava ali para viver momentos novos. Eu só não sabia se tinha mais curiosidade do que medo, ou mais medo do que curiosidade. Hesitei olhando a oliva que jazia no fundo da taça, como que esperando que o líquido entrasse em mim por osmose.

Edward tomou a taça de minhas mãos e levou aos lábios, sorvendo pequena parte do líquido. Olhei para ele mortificada, e tomei-lhe novamente o Martini.
_Edward!!! – Passei os dedos por seus lábios, tentando tirar o líquido que estava ali. – Você ficou louco, o que está tentando provar?
_Que eu não sou medroso como você. – Ele provocou.
_Que gosto tem? – Perguntei, a curiosidade aguçada. Ainda com raiva de Edward, mas muito curiosa.
_Não sei direito. Gosto ácido… acho que meu paladar não está apto a capturar o sabor dos alimentos humanos direito…
Sem muita explicação, Edward levou os lábios aos meus novamente, abrindo espaço em minha boca. Meu corpo todo se arqueou para trás, e eu me contorcia em seus braços. Entendi o que ele fazia no instante em que sua língua tocou a minha. Ácido, muito ácido… ele estava me fazendo sentir o gosto, ao invés de me contar como era.

Separei-me dele, empurrando seu peito com força. Como ele era abusado, aquele puro infernal! Ele sorriu, recompondo-se. Peguei a taça novamente e levei-a a boca, sorvendo uma parte considerável do líquido. O choque foi imediato. Sucumbi parcialmente nos braços de Edward, enquanto o líquido me escorria pela garganta, queimando o que encontrava em seu caminho. Em poucos segundos, Alice estava ao meu lado, ajudando-me a manter-me em pé.
_Edward, você está louco! – Alice repreendeu o irmão, repetindo-me segundos antes. – Como pode deixá-la fazer isso?
_Acalme-se, Alice. Sabe que jamais colocaria Bea em perigo. Ela é parcialmente humana, Carlisle já disse que ela tem estrutura para alimentar-se com a comida deles. E ela estava morrendo de vontade de provar esse Martini… eu só lhe dei incentivo.
_Bea, como se sente?

Eu ainda não sabia. Reergui meu corpo, recostando-me em Edward. Respirei algumas vezes, e deixei minha língua passear por minha boca. O sabor não era ácido, somente. Era também doce, e suave. Olhei para a taça, e levei-a aos lábios outra vez. Daquela vez, bebi com cuidado, bem devagar. Olhei para Edward, um sorriso querendo se abrir em meus lábios. Ele sorriu primeiro, e a luz me cegou outra vez.
delicioso. – Eu disse, para Alice. Edward já sabia. – É delicioso!!
_E problemático. – Ela disse, olhando a taça. – Por favor, não passe dessa… sim?
_Pode deixar, eu a mantenho no controle. – Edward confortou a irmã. Mas Alice não pareceu muito satisfeita nem conformada, e ficou por perto. O Martini estava em mim ainda, e o sabor era tão entusiasmante que eu fiquei muito tempo parada, só deixando minha língua passear pela boca.
_Não posso beber mais? – Eu disse, olhando para Edward com os olhos brilhando. Eu sabia que eles brilhavam, porque eu os sentia assim.
_Calma, Bea. – Ele sorriu. – Lembra-se de que eu disse que é um entorpecente?
_Sim. – Emburrei. Edward deu uma risada alta, e me abraçou com força.
_Ah, como eu gostaria de compartilhar esse sabor com você, agora… mas é fantástico te ver tão absorvida por uma experiência humana!
_Você vê graça em cada coisa! – Protestei. – Eu só ingeri um líquido doce, isso nem é grande coisa.
_Mas você está agindo como se fosse. – Ele ainda me apertava entre os braços.
_Porque é novo para mim, oras. Tem certeza que não posso beber mais?
_Bem… – Edward ponderou, segurando-me pelo queixo e levando meus olhos até os seus. – Acho que duas taças não devem ser problema. Mas só duas, Bea. Não podemos subestimar a força do álcool.

Só duas, porque o Martini era um entorpecente. Entendi, foi o que disse para mim mesma. Edward levantou-se da mesa de bilhar, caminhou até o balcão que fazia as vezes de um bar, e voltou com outro Martini nas mãos. Eu sorri, empolgada. Seria muita tolice agir tão desproporcionalmente por causa de uma experiência tão singular? Afinal, como eu mesma dissera, eu só havia ingerido uma pequena porção de líquido! Aquilo não poderia ser tão importante a ponto de me pegar tomando a taça das mãos de Edward e entornando o seu conteúdo em minha boca, avidamente.
_Beatrice! – Edward me tomou a taça. – Como você é difícil! Não disse para ir devagar? Ainda não sabemos como você vai reagir…
_Eu estou bem! – Reclamei do meu namorado super protetor. – Nem Alice veio reclamar, ainda. Ela está te policiando desde o início.
_Eu sei, mas mesmo assim… acabaram os Martinis por hoje.

Eu não queria desistir, mas dentro de mim eu sabia que Edward tinha, mais uma vez, razão. Os efeitos daquele líquido apreciado pelos humanos eram desconhecidos em mim, então eu não devia confiar nas aparências. Eu parecia estar bem, mas estaria? A resposta não demorou a vir. Voltamos à pista de dança, porque eu queria dançar. Rosalie não havia parado nem um instante, e Emmett já parecia entediado. Meus amigos humanos se juntaram a nós, e Sylvia parecia bastante diferente. Alterada, por assim dizer. Ela dançava freneticamente, e girava como se fosse um brinquedo. Geoffrey estava acompanhado de uma garota que eu mal conhecia, e os dois estavam se beijando no meio da pista. Talvez os humanos não tivessem os mesmos problemas que eu… beijar os companheiros para eles talvez fosse menos problemático do que para mim.

Edward passou a me olhar com alguma incerteza, e eu senti seus dedos mais firmes em meus braços. Seu corpo aproximou-se, e se ele se aproximasse muito mais poderia estar em perigo. Eu estava com uma sensação de liberdade extrema, como se tudo ali pertencesse a mim e nada, ou ninguém, pudesse me dizer o que fazer ou não fazer. A ausência do certo e errado. Joguei meus braços em seu pescoço, levando meus lábios até seus ouvidos, com alguma dificuldade. Eu queria dizer-lhe algo, mas eu não consegui. Alice aproximou-se daquela vez, eu pude ver. Edward amparou-me em seus braços, sustentando completamente o peso de meu corpo.
_O que está havendo? – Alice perguntou, com Jasper ao seu redor.
_Ela está borrada. – Edward disse, lábios retorcidos e sobrancelha erguida. – Eu… é como se eu não conseguisse lê-la.
_Edward, Bea está bêbada! – Alice sentenciou. Jasper riu, sem conseguir controlar-se. – Você a deixou beber muito??
_Não! Ela terminou aquela taça e bebeu outra, apenas. Os humanos aqui estão bebendo desde que chegamos… alguns já devem ter consumido uma garrafa sozinhos. E todos parecem melhores do que ela, em seus pensamentos.
_Talvez ela esteja reagindo diferente. – Jasper considerou.
_Acho que devemos levá-la para casa. – Alice disse.
_Não, preciso sair com ela daqui… mas não para casa. Vou para outro lugar. Vamos nos despedir de Sylvia.
_Vamos todos com você. – Emmett disse, ouvindo a conversa. – Já cansei dessa festa, mesmo.

Edward me levou até Sylvia, sustentando meu corpo praticamente sozinho. Eu caminhava sem qualquer noção de direção, mas ele me mantinha na rota. Chegamos até Sylvia, e Edward informou da nossa ida. Disse que eu não me sentia bem, e que precisávamos nos retirar. O cheiro de Sylvia estava impressionantemente bom. Enquanto os Cullen falavam, eu sorvia o aroma que exalava de seu corpo suado. Era um convite a um banquete. E com a idéia de certo e errado totalmente misturada em meu consciente, Sylvia era mesmo um prato a ser servido. Instintivamente, virei-me para ela e rosnei, bem baixo. Edward puxou-me para si novamente, pressionando minha face em seu peito e disfarçando. Fui arrastada para fora da festa, enquanto os Cullen faziam parecer que nada estava acontecendo.

_Vamos levá-la para casa. – Rosalie disse, enquanto Emmett ligava o jeep.
_Vocês vão para casa, preciso levá-la a outro lugar. Ela está consideravelmente fora de controle…
_E pretende ir aonde com ela, Edward? – Alice protestou. – Em casa ela ficará segura… exatamente por estar fora de controle, ela pode decidir atacar humanos…
_Alice, não tenho muitas opções. Vou com ela para a cabana na campina.
_Acha mesmo a melhor opção? – Jasper interferiu.
_Vocês têm duas escolhas. Eu levo Bea para a cabana ou vocês nos ouvem fazer amor a noite toda. O que preferem? Já disse, ela está fora de controle. Como vou conseguir fazê-la comportar-se? Por ela, já estaríamos fazendo qualquer coisa que passe em sua cabeça agora, aqui mesmo.
_Eeeeew!! – Emmett gritou, de dentro do jeep. – Deixem-no levá-la.. eu nem vou conseguir comer depois!
_Ainda assim, estou preocupada. – Alice parecia irredutível.
_Confie em mim, Alice… ela volta ao normal logo, eu a levo para casa. Avisem Carlisle e Esme… vamos estar na cabana na campina, você sempre vai poder observar-nos.

Edward me carregou até o Volvo. Ouvi o jeep arrancar, e em poucos instantes Edward também colocava o Volvo em movimento. Eu fora amarrada com o cinto de segurança, mas aquilo talvez nem me fizesse diferença. Aquilo era estranho… Alice disse que eu estava bêbada! O que seria aquilo, fiquei me perguntando. Era como se meu cérebro se tivesse dividido em dois, e desprendido do meu cérebro. A parte consciente, que me fazia pensar e lembrar de tudo, mas que estava definitivamente fora do comando das ações; a parte inconsciente, que estava aparentemente no controle, e que não tinha nenhum tipo de moral; e o meu corpo físico. O corpo físico estava descoordenado, não respondia aos estímulos da parte consciente. E a parte inconsciente parecia tentada a não comandá-lo, deixando que o corpo fizesse o que quisesse.

O Volvo parou em meio à escuridão da noite, e senti as mãos de Edward me segurando e me retirando do carro. Depois, ele me carregou até a campina, pelo meio das árvores, até a cabana. Fazia frio, mas aquela noite estava bem melhor. A primavera estava quase chegando, e o período da neve e do gelo já tinha cessado. Uma brisa não tão gelada soprava, anunciando que as temperaturas ficariam amenas. Estava muito escuro, eu não podia ver quase nada. O céu estava parcialmente encoberto, e as estrelas não reluziam seu brilho no tapete negro da noite. A lua pálida parecia sem luz, enquanto se escondia tímida na presença de Edward. Eu me livrei de suas mãos, colocando-me de pé ao chão tão logo me senti em um local conhecido. Edward parou, olhando para mim, braços cruzados.

_O que pretende, Bea? – Ele perguntou, apreensivo.
_Que noite liiiinda. – Eu disse. Minha voz estava irreconhecível. O lado inconsciente do meu cérebro não parecia muito inteligente, então. – Vamos ficar aqui fora.
_Não. – Edward se aproximou, e eu o empurrei para longe. Ele era mais forte, mas talvez estivesse apenas tentando me proteger. – Eu já cedi a tudo que você quis essa noite, e as coisas não saíram muito bem. Vamos entrar na cabana, você precisa dormir.
_Não quero dormir, quero você. – Joguei-me para seu lado, em um movimento completamente contraditório. Se Edward não fosse rápido e se ele não soubesse exatamente o que eu pensava, eu teria caído ao chão como fruto maduro. Ele me sustentou em seus braços, respirando fundo.
_Você pode me ter lá dentro, vamos…
_Não! – Foi a minha vez de protestar, e afastei-me novamente. – Quero ficar aqui fora, sob a lua. – E com alguns movimentos rápidos, retirei os sapatos e os atirei para o lado da cabana. Edward continuava a me observar, daquela vez com as mãos nos bolsos. Ele parecia pronto para me impedir de fazer uma besteira, mas tentado a ver até onde eu chegaria com aquilo. Depois, meus dedos alcançaram o zíper do vestido e o abriram, fazendo com que a vestimenta deslizasse por meu corpo abaixo. Eu não sentia frio exatamente… sentia mais frio do que os puros, mas a temperatura estava bem mais satisfatória.
_Beatrice, você perdeu o juízo. – Edward rosnou, caminhando lentamente para mim. – Vamos, deixe-me levá-la para dentro, lá podemos…
_Venha, Edward. – Eu estiquei meus braços para ele, desejando que ele me tomasse entre os seus. – Não tem problema nenhum… ninguém vai nos ouvir, estamos no meio do nada.

Edward respirou fundo novamente. Ele tinha o semblante contraído, e me observava com bastante concentração. Eu estava parada em sua frente, braços estendidos, clamando por ele, desejando que ele me alcançasse na mesma intensidade que eu desejava fugir dele.
_Que se dane. – Ele disse, volume quase inaudível, e caminhou para mim, tomando meus lábios de assalto. O lado inconsciente sucumbiu a Edward da mesma forma que o consciente, e eu perdi totalmente o controle de mim mesma. Nada respondia a estímulo racional algum, só ao toque de Edward em mim. Em poucos instantes, estávamos afundados na relva da noite. Quanto mais ele me dava o que eu queria, mais exigente eu me tornava. Eu era além de uma aberração, era um monstro. Mas Edward ignorou a confusão mental que o Martini me causara e me amou ali mesmo, da forma como eu imaginei.

Os sonhos vieram de forma confusa. Eu não sonhava havia muitas noites; tudo parecia um buraco escuro quando eu dormia. Mas naquela noite eu sonhei, e aquilo significava que eu havia adormecido. Talvez a única coisa normal que eu tivesse feito a noite toda. Sonhei com o covil, com Rudolph e Felicia, com Connor, com aquele conceito de casa. Eu não me sentia em casa, ali. Eu estava tão bem entre os Cullen… era como se eu sempre tivesse pertencido àquela família. Acordei sobressaltada, encolhendo-me no canto da cama, quando o Rudolph de meu sonho colocou as mãos em mim, frias como pedra de gelo. Meus olhos se abriram e a claridade da luz me fez fechá-los novamente. Olhei em volta, minhas mãos procuraram por Edward mas ele não estava ao meu lado. Consegui encontrá-lo na porta de entrada, quase invisível pela luz solar que iluminava sua pele. Ele estava parado observando a imensidão exterior. Sentei-me na cama, esfregando os olhos para ter certeza de que aquilo não era uma visão.

Edward era lindo, quase irreal. Meus olhos não cansavam de olhá-lo, e meu coração sempre batia mais rapidamente quando ele estava por perto. Eu já não sabia se meu coração parecia como antes; eu quase podia senti-lo bater com intensidade demais para uma pessoa morta. Nada naquele vampiro estava fora do lugar, se aquilo fosse possível. Pisquei algumas vezes, treinando meu hábito humano, e pensei em levantar-me para me aproximar dele. Mas em instantes Edward estava ao meu lado, sentado na cama, sorrindo.
_Bom dia, meu amor. – Ele me beijou a testa. – Como está se sentindo?
_Onde estamos? – Eu perguntei, deitando em seu peito nu.
_Na cabana… lembra-se dela, seu primeiro passeio ao sol?
_Acho que sim. – Eu estava então sentindo as coisas girarem. Edward recostou-se no encosto da cama e me fez aconchegar em seus braços. Minha cabeça girava, e tudo parecia sair do lugar. – Mas o que fazemos aqui?
_Viemos para cá depois da festa. Você não se lembra de nada… e eu nem posso saber direito o que você pensava, porque você estava totalmente borrada, para mim.
_Ai… – Eu reclamei, sentindo-me muito mal. – O que houve comigo, Edward?
_Vou levar você para casa. – Ele me beijou a testa novamente. – Você está com dores… Carlisle vai ajudar isso a passar.
_Primeiro me diga… o que houve.
_Você bebeu. – Ele riu.
_O Martini…
_Sim. Lembra-se, eu disse que aquilo era uma droga. Você bebeu e o Martini reagiu de uma forma meio inesperada no seu organismo… você ficou bêbada, e totalmente fora de controle. Por isso eu te trouxe para cá…
_Ouch. – Eu me escondi em Edward, como fazia sempre que embaraçada. – Nem quero imaginar o que eu fiz.
_Nada demais. – Ele me beijou novamente. – Vamos para casa… Alice já ligou querendo saber de você, ela viu que você acordaria logo.

A luz do sol estava fraca, mas presente. Edward me conduziu para fora da cabana, sempre me amparando. Eu estava me sentindo muito mal, mesmo. Meus olhos se fecharam; o sol parecia ferir minhas retinas. Edward me tomou em seus braços e me carregou até o carro, com todo cuidado. A casa dos Cullen nunca pareceu tão longe, mas eu acabei me sentindo melhor durante o trajeto. Edward segurava minhas mãos com a sua, e aquilo já era conforto o suficiente para que eu melhorasse.

_Bea! – Alice me recebeu na porta de entrada. Ela parecia mesmo aflita… eu não gostaria de tê-la feito sofrer. Os Cullen todos me esperavam, e eu me senti o show principal no circo dos horrores. – Bea, como você está? Vejam essas olheiras… parece que você não se alimenta há dias!! Mas você caçou quinta feira, então…
_Acalme-se Alice. – Eu disse, tentando sorrir. – Só estou com dor de cabeça… nunca senti isso antes.
_Efeito do álcool. – Carlisle sorriu, sentado com um jornal nas mãos. – O álcool tem essa característica, de causar dor de cabeça no dia seguinte. Chamam de ressaca.
_Ah, adorei. – Eu fui sarcástica. Pensei que estava perdendo aquela característica, mas felizmente não.
_Edward, você é um irresponsável. – Alice ainda protestava. Jasper aproximou-se dela, abraçando-a. – Como você deixou isso acontecer!!
_Menos, Alice. – Edward reclamou, mas eu pude sentir em seu olhar que ele se sentia exatamente como ela o descrevia.
_Alice está certa, você anda exagerando. – Rosalie franziu os lábios.
_Meninos, essa discussão não vai levar a nada. – Esme decidiu interferir. – Bea, você quer alguma coisa? Tomar um banho, deitar-se…
_Não, estou bem. – Tentei manter-me erguida, e abracei Edward pela cintura. Senti seu corpo estremecer, e seus dedos delicadamente tocarem os meus cabelos. – Não culpem Edward, ele não sabia que eu poderia reagir dessa forma. E no mais, eu decidi beber as duas taças sozinha.
_Você é muito fraca, irmãzinha. Não é à toa que se apaixonou pela parte fraca da família…
_Emmett!! – Esme o repreendeu imediatamente. – Vocês andam impossíveis!
_Vou levá-la para o quarto. – Edward disse, já preparado para me conduzir escadas acima.
_Deixe-a descansar, Edward! – Emmett implicou, e Jasper deu uma risada. – Por isso minha irmãzinha está mal… dá um tempo!

Eu pensei que ele fosse fazê-lo, e já me preparava para segurar Edward quando ele voltasse alguns degraus da escada e agarrasse Emmett pelo colarinho. Ele era sempre educado demais, mas eu pude sentir que Emmett tinha passado dos limites. Afinal, Edward se sentia culpado pelo que me acontecera comigo, e o irmão não estava colaborando em nada. Mas Edward cerrou os punhos e concentrou-se, desistindo de fazer qualquer coisa de que fosse arrepender-se depois. Eu coloquei as duas palmas das minhas mãos em seu peito, aproveitando que a escada me fazia ficar de sua altura, e olhei em seus olhos. Sorri levemente, e beijei seus lábios bem devagar.
_Eu estou bem; vamos ficar aqui com sua família. – Eu disse, em volume muito baixo.
_Preciso que você esteja mesmo recuperada, Bea. Não quero ser…
_Você sabe que estou bem. Pode ler… pode ver. E por favor, não se sinta culpado. Eu te amo.

Meus dedos involuntariamente se colocaram na frente da minha boca, e eu olhei para Edward bastante apavorada. Ele sorriu, iluminando a sala, as mãos bem posicionadas em minha cintura. Olhei ao redor, e os Cullen definitivamente nos observavam. Eu me senti constrangida, e achei melhor não comentar nada. Edward ainda sorria, e seu sorriso era tão sincero que me fazia constranger ainda mais. Eu tinha acabado de dizer ‘eu te amo’, e eu já estava entre eles tempo o suficiente para saber o significado daquilo. Amor era o sentimento maior, e amor entre um homem e uma mulher…
_Eu te amo. – Ele disse, beijando-me rapidamente. Rapidamente, porque senão aquilo poderia dar razão a Emmett e seus comentários fora de propósito.

Passamos o dia em família, e aquilo significou diversão. A televisão ligada e os jogos do final de semana divertiam Emmett e às vezes Carlisle. Esme preferia realizar trabalhos manuais, enquanto Alice jogava com Edward e Jasper. Ela conseguia acabar com qualquer jogo muito rapidamente, então aquilo se tornava muito extraordinário. Rosalie era mais de acompanhar o movimento, como eu fazia. Eu acompanhava o movimento, deitada por sobre Edward, brincando com as suas peças de vestuário como se elas fossem algo divertido. Na verdade, eu não me cansava facilmente. Ficar deitada, recostada, sentada; tudo era um hábito e uma conveniência. Era conveniente – e muito! – ficar por sobre Edward o dia inteiro.

O mais estranho de tudo foi que a experiência com o Martini me fez interessada na alimentação humana. Apesar da frustração absoluta na minha primeira vez, eu passei mal porque, segundo Edward, o álcool era uma droga. E se eu não experimentasse coisas perigosas, mas sim aquelas que todo humano sempre comeu? E se eu tentasse apenas o simples… teria problemas? Mas a minha aversão pela minha parte fraca logo deu lugar à indecisão, e preferi continuar ali, com os Cullen, deixando o tempo passar. Eu queria e não queria, e toda aquela dúvida me irritava profundamente. Se eu me alimentasse de comida humana, eu poderia ter problemas. Eu tinha certeza que algo aconteceria. Até que meu namorado decidiu tomar a frente.

_Carlisle… – Edward perguntou, sem tirar os olhos do quebra cabeças de Jasper. – Você lembra que disse que Bea está em adaptação?
_Sim, ela estava. – Carlisle deixou o jogo de futebol de lado e encarou o filho.
_Estava? – Perguntei, sem ter certeza de onde Edward queria chegar.
_Você já está completamente adaptada, pela minha análise. – Carlisle sorriu. – As células que estão comigo no hospital já não realizam mudanças há várias semanas.
_Então, não é possível que seu organismo sofra mais mudanças? Se ela mudar de hábitos…
_Enquanto ela estiver aqui, sob o sol, não. – Carlisle olhou para a televisão quando Emmett gritou alguma coisa, protestando por um provável erro de arbitragem. - Por que pergunta isso, Edward? O que tem em mente?
_Nada específico. – Seus dedos passearam por meus cabelos, na intenção de me confortar. – E se Bea quiser mais experiências humanas, acha que isso poderia afetá-la? Como comer comida humana?

Ah! Edward, maldito vampiro!! Ele não tinha o direito de saber de tudo; eu desejei desmembrá-lo com minhas próprias mãos, naquele instante. Apesar de eu ter só acabado de dizer que o amava, eu retiraria cada palavra só porque ele me provocava daquele jeito. Irritante, petulante!
_Não… – Carlisle riu, uma risada bastante divertida. – Seria como dizer que se humanos bebessem sangue, tornar-se-iam vampiros. – Daquela vez a risadaria foi geral. Eu estava emburrada nos braços de Edward, pronta para atacá-lo com os dentes. Ele me pressionava com força contra si, sabendo de minhas intenções maquiavélicas. – Bea é o que é. Metade vampiro, metade humana. Ela tem características das duas espécies, e nada poderá alterar isso nela. Um hábito pode substituir outro, mas nunca alterar a essência de seu ser.

Sábio Carlisle, mas eu ainda pretendia meu acerto de contas com Edward. Mais tarde, em qualquer momento. De qualquer forma, foi interessante ouvir que eu já estava adaptada, e que nada mais poderia me mudar, enquanto ali estivesse. Eu estava suficientemente adaptada ao sol, e aquilo deveria render uma celebração. Sorri timidamente para Carlisle, como que agradecendo por sua intervenção e por seu tempo dedicado a mim. Eu deveria ser uma incógnita divertida, mas ainda assim eu deveria agradecer porque ele não precisava dispor de seu tempo estudando meu organismo. Era bondade, e eu sabia que Carlisle era uma pessoa boa.
_Eu te amo, Beatrice. – Edward sussurrou em meus ouvidos, e eu entendi que ele pretendia redimir-se pela pequena invasão de privacidade que acabara de acontecer. – Eu te amo… tudo que faço é por você. Talvez você nem entenda, mas eu só quero ver você feliz.
_Eu estou feliz. – Emburrei um pouco mais. – Se você não insistir em ser o sabe-tudo, eu serei ainda mais feliz.
Edward beijou meus cabelos, e levantou o olhar para Esme, que se divertia com revistas de decoração.
_Esme… – E lá ia ele novamente. – Temos suprimentos humanos em casa?
_Sempre, Edward. – Esme sequer elevou o olhar. – Por que pergunta?
_Pretendo fazer algo.

Edward levantou-se apressado, e foi até a cozinha. Rosalie estava curiosa o suficiente para segui-lo, bem como Jasper desistiu do quebra cabeças e também foi descobrir o que acontecia. Edward começou a remexer os armários e abrir a geladeira, uma coisa completamente assustadora. Vampiros brincando na cozinha! Era algo de se esperar, vindo da família Cullen. Eles eram definitivamente atípicos. Mas eu não entendia o motivo dele fazer aquilo, visto que ele não comia. A cozinha não deveria lhe ser de nenhuma utilidade.

_Você não sabe fazer isso direito! – Rosalie tomou algo das mãos de Edward. – Se vai bancar o chef para sua namorada, então aprenda com o mestre.
_Quanta arrogância, Rosalie. – Edward riu. – Mas tudo bem… ensine-me.

Cheguei até a cozinha e encontrei os irmãos Cullen fazendo algo inusitado. Em poucos minutos, Carlisle e Esme também estavam presentes. Alice chegou logo depois. Havia um pó branco espalhado por vários lugares, inclusive pelos cabelos de Edward. De seus olhos emanava um brilho especial, e ele sorria abertamente. Rosalie parecia divertir-se também, enquanto Jasper mais observava do que ajudava.
_Panquecas? – Esme se aproximou, curiosa. – Mas isso é café da manhã!
_Eu avisei!! – Rosalie jogou algo em Edward, fazendo com que o ar ficasse turvo de pó. Eu observava a tudo atônita, olhos vidrados. – Agora vai cozinhar o jantar no café da manhã!
_Espera que eu entenda a cronologia da alimentação humana, Rose? – Ele tentou defender-se.
_Deveria ter me deixado intervir!! – Ela implicou. – Agora é tarde, vamos às panquecas.
_Esperem. – Eu decidi deixar de ser mera expectadora e entrei cozinha adentro, um tanto chocada com toda a informação que estava me sendo oferecida. – Vocês estão cozinhando?
_Edward está. – Rosalie caiu na risada, acompanhada de Jasper. Até Alice riu. – Mas ele não parece muito bom com isso…
_Por quê? Vocês não comem!!
_Você é muito devagar, irmãzinha. – Emmett bradou da sala, sem deixar a televisão. – Até eu já sei que Edward está cozinhando para você! Comida humana para satisfazer sua vontade.
Meus olhos arregalados encararam Edward, que estava na beira do fogão, com algo de cheiro estupidamente nauseante sendo cozido pelo fogo. Ele sorria, eu pude ver; um sorriso completamente delicioso. Ele estava mesmo se divertindo. Como eu poderia repreendê-lo? Eu não queria comer comida humana, ou eu resistia à tentação de querer, mas ele estava definitivamente tendo um bom momento com aquilo. A vontade de desmembrá-lo e queimá-lo passou, dando lugar à vontade de fazê-lo pagar por aquilo de uma forma menos destrutiva.

Rosalie tomou de suas mãos a frigideira, rosnando. Jasper caiu na risada, e eu querendo entender o que se passava. Edward deu de ombros, e caminhou até mim, ainda sorrindo. Segurou-me pela cintura, elevando-me o suficiente para me fazer sentar na bancada escura de pedra.
_Você não vai desistir, eh? – Eu disse, enquanto ele se posicionava por entre minhas pernas, ajeitando meu cabelo com as mãos.
_Nem um pouco. – Ele disse, observando o que Rosalie fazia por cima de meu ombro.
_E o que é isso? – Eu apontei o pó branco que estava em seus cabelos, por sua face, em suas roupas.
_Farinha. – Ele riu mais, enquanto Alice e Jasper mal se agüentavam de pé. – Ingrediente para a comida… os humanos não são simples em sua alimentação, eles precisam misturar ingredientes, selecionar nutrientes… somos muito mais simples! Basta uma boa dose de sangue fresco e…
_Mas os humanos não matam para comer, matam? – Perguntei.
_Sim, matam. – Carlisle ponderou. – Os humanos se alimentam de carne, não de sangue… eles comem carne de animais. O que eles não fazem é comer outros humanos. Mas, considerando a dieta normal de um humano adulto, ela é tão cruel para os animais quanto a nossa.
_Isso me faz sentir melhor. – Jasper riu.
_Pronto, Edward. – Rosalie se aproximou com um prato nas mãos, e vários discos flexíveis, fofos e com cheiro doce. Franzi o nariz, não muito afeita àquele aroma. – Quer geléia? Melado?
_O que temos?
_Manteiga. – Esme sugeriu. – Acredito que manteiga seja uma ótima idéia.

Alice se aproximou com algo nas mãos, e Edward pegou um instrumento metálico. Passou a tal manteiga nas panquecas e voltou para mim, retomando a posição anterior. O cheiro havia melhorado bastante… não estava mais tão doce, mas era incoerente com tudo que eu conhecia. Era como se aquele fosse realmente um novo cheiro para minha lista. Edward tinha algo em suas mãos.
_Abra a boca. – Ele disse, sem muita hesitação. Os presentes estavam todos muito ansiosos, como se algo fantástico fosse acontecer. Eu, no entanto, hesitei. Olhei para o pedaço de alimento em suas mãos, um creme amarelado escorrendo pela massa fofa e aromatizada da panqueca, e hesitei. – Vamos Bea… seja boazinha, abra a boca.
Fechei os olhos e obedeci Edward. Tentei parar de respirar, mas meu coração estava acelerado. Era mais difícil brincar de não respirar quando eu estava normal, não alterada daquela forma. Boca aberta, senti o pedaço de panqueca ser depositado em minha língua. Era quente! Muito mais quente do que qualquer experiência; só era menos quente do que o sol.
_Agora feche. – Ele riu, e ouvi todos rirem. – Você precisa mastigar, Bea…
_Maxtigar? – Falei, boca cheia da massa com manteiga.
_Sim, mova seu maxilar para cima e para baixo… movimente-o. Você viu os humanos fazendo isso, imite-os. Pressione a massa contra os dentes até dissolvê-la.

Bastante pedagógico, era meu Edward. Ele talvez não precisasse me ensinar cada movimento da alimentação, mas ele estava mesmo tendo prazer naquilo. Eu mastiguei o alimento, sem abrir os olhos, deixando a massa amolecida passear por minha língua, saboreando como fiz com o Martini. Demorei mais do que deveria para engolir, porque minha garganta não se abriu corretamente para aquilo. Foi difícil, como se impossível empurrar aquela pasta uniforme para dentro do meu corpo. Mas eu consegui, e o alimento desceu por minha garganta, queimando. Ardendo, como fogo. Respirei lentamente… esperei a sensação passar, e abri meus olhos.

Edward me olhava apreensivo, mas deliciado. Ele certamente sentiu tudo, como eu havia sentido. A conveniente máscara que o afastava de meus pensamentos quando eu desejava não estava no lugar, porque minha concentração se prendia a outros pontos importantes.

_Mais? – Ele me ofereceu o prato com o talher, e eu segurei imediatamente. Cortei mais pedaços de massa e coloquei na boca, mastigando com mais facilidade. Em poucos minutos, eu havia comido todo o prato de panquecas, com a platéia ansiosa por minha reação.
_Isso estava bom. – Eu respondi às perguntas não feitas. Percebi alívio nos Cullen, e uma expressão de êxtase em Carlisle. O show de horrores estava mais terrível ainda. Agora a híbrida se alimentava de sangue e comida humana. Talvez eles estivessem curiosos para saber de qual eu gostava mais. Se aquela escolha fosse razoável.
_Se você gostou da gororoba de Edward, precisa provar comida de verdade. – Alice riu, se aproximando. – Você está tão linda, Bea…
_Sim, está. – Foi a vez de Esme concordar. – Existe cor em sua pele, não existe?
_Sim! – Carlisle considerou. – Como se ela estivesse… oh, essa humanidade é tão imprevisível!
Eu não os entendia naquele instante, mas sabia que logo compreenderia. Eu já havia desistido de ver algum sentido no que os Cullen falavam, e aceitava de bom grado as metáforas e os comentários implícitos. Eles me confundiam, mas eu podia jurar que também os confundia.
_Vou cozinhar para você todos os dias. – Edward empolgou-se, como que ignorando os comentários dos pais. Como se ele já soubesse daquilo.
_Não preciso comer todos os dias…
_Humanos comem várias vezes ao dia!
_Não sou humana, Edward Cullen! – Protestei, descendo da bancada. Eu não queria ser humana, e pretendia que ele entendesse aquilo. Eu era parte humana, e aquela parte era suficiente. Eu estava feliz como era, mas antes me transformasse em uma vampira completa do que em uma humana. Novamente, aquele pensamento o deixou desconfortável, e ele cerrou os punhos em represália. – Eu nem sei como deveria comer comida humana… eu tenho sede, então preciso caçar com vocês. E comida humana?
_A sensação é a mesma. – Carlisle ponderou, mas eu imaginava que todos eles sabiam a sensação. Menos eu, porque eu não me lembrava de ter sido uma humana, um dia. – Você sente uma ânsia… uma queimação interior… é o que os humanos chamam de fome. É algo simples… se o que você ingere é líquido, você tem sede, como nós. Se o que você ingere é sólido, você tem fome, como os humanos.
_Então eles também têm sede? – Considerei, lembrando-me do Martini.
_Sim, mas é uma sede diferente. – Jasper considerou. – Bem, eu acredito que você precisa tentar comer a comida humana, quando sentir sede. E ver o que acontece… ver se a comida satisfaz você.

Eu não quero, pensei imediatamente. Eu não desejava trocar a minha sede pela comida humana. Por mais deliciosa que tenha sido a experiência com as panquecas de Edward, e por mais tentadora que tenha sido a proposta oferecida – eu adoraria que ele cozinhasse para mim todo dia; ainda mais que ele me alimentasse, eu não queria trocar uma experiência por outra. Eu não queria deixar de ser vampira, em sua essência. Eu nunca desejei matar humanos, nunca desejei ceifar-lhes a vida para alimentar-me. Mas os Cullen me ensinaram uma forma mais aprazível de alimentação; uma forma até divertida. Eu também não me sentia satisfeita em matar animais, mas considerei que, se os Cullen o faziam, era porque estava autorizado. Aquela conversa na cozinha ainda fora mais esclarecedora; os humanos também matavam para se alimentar. Então, eu estaria perdoada pelo derramamento de sangue alheio. Daquela forma, era inaceitável que eu trocasse as minhas necessidades vampiras pelas humanas.

Edward colocou fim à festa na cozinha dos Cullen quando decidiu tomar o prato vazio das minhas mãos e lavar a louça. Esme não deixou o filho realizar aquela tarefa, empurrando-o para o meu lado. Eu sabia que ele estava ligeiramente irritado com o meu comportamento, porque ele provavelmente não compreendia as minhas razões. Talvez eu mesma não compreendesse as minhas razões, mas mesmo assim elas eram as convicções que eu tinha. Algumas convicções eram exclusivamente minhas, e a grande maioria eu tinha adquirido com os Cullen. Com Edward. Ele deveria se sentir feliz em ter sido decisivo em tantas coisas importantes em minha existência. Uma das minhas mais importantes decisões fora ele próprio. Decidir ficar com ele, estar ao seu lado, não importasse nada. Ele era tudo que eu pedi para acontecer, e tê-lo materializado em minha frente sem qualquer restrição era quase como se eu vivesse um sonho. Mas não, eu não abriria mão de ser plenamente uma vampira, nem das caçadas com ele. Apesar de ter aceitado todas aquelas experiências humanas.





(Cap. 18) Capítulo 17 - Europa

 

*tema: Il Divo’s Everytime I Look at You*

***** Enquanto isso, no covil *****

Richard encontrou-se com Rudolph no grande salão. O ancião chefe dos híbridos saboreava o sangue morno em uma taça de metal.
_Rudolph. – Richard fez uma reverência. – Tenho notícias. Ferdinand está pronto.
_Totalmente maduro? – Rudolph elevou o olhar.
_Sim, totalmente na fase adulta.
_Finalmente. – Rudolph levantou-se, terminando de beber todo o sangue. – Pensei que esse dia nunca iria chegar… agora só precisamos encontrar Beatrice.
_Você não a deveria tê-la deixado ir. – Richard contestou. – Ela era importante demais…
_Ela é importante, meu caro Richard. E como eu poderia prendê-la aqui? De que valeria termos empenhado tanto esforço para lhe tomar as memórias, se ela depois acabaria desconfiando de tudo por causa de um desejo tolo de conhecer os humanos? Beatrice é muito inteligente, não é à toa que tem a minha linhagem.
_Mas você acha que pode encontrá-la agora? E se ela foi muito longe?
_Posso rastreá-la, você sabe. – Rudolph considerou. – Vai levar algum tempo, mas vou rastreá-la. Afinal, em Beatrice e Ferdinand está a esperança da nossa geração. Eles são os filhos mais fortes dos híbridos… precisamos de décadas para conseguir gerar Ferdinand, e a união dos dois manterá nossa linhagem no poder.

*******************************************

_Espere-me aqui. – Eu disse a Edward, em nosso quarto. Nosso quarto… o pronome possessivo sempre em primeira pessoa, mesmo que no plural. Aliás, o plural era mesmo mais divertido do que o singular. Era outra noite de inverno, mas estava bem menos frio. Afinal, a primavera já tinha chegado. Logo faríamos nossa viagem à Europa, como planejado. – Eu já volto.
_Onde pensa que vai? – Ele me segurou pelos braços e me puxou de volta para a cama.
_Edward Cullen… – Como se ele não soubesse o que eu queria. – Eu já volto. Não ouse me seguir. Tenho algo a fazer.

Depois da experiência humana da alimentação, tudo estava muito mais simples em relação àquilo mas eu e Edward vivíamos em conflito. Não desejava provar álcool novamente, mas eu passei a me alimentar de ambas as formas. Eu continuei caçando com Edward, esporadicamente. Algumas vezes, ele praticamente me proibia de ir com ele. Eu protestava, mas ele pedia com tanta ênfase que eu não conseguia dizer-lhe não. Acabava sucumbindo à sua vontade, e quando ele chegava das caçadas, plenamente satisfeito, ele invariavelmente me preparava algo para comer. O aroma dos alimentos não me incomodava mais tanto, e eu já estava começando a identificá-los. Como fazia com os animais. Eu tinha o meu preferido, a baunilha. Tinha que tomar cuidado para não pensar muito em baunilha, ou Edward só preparava pratos com aquele sabor. Ele não era mesmo o melhor cozinheiro da casa; quando Rosalie ou Esme preparavam algo era como se eu estivesse comendo um pedaço do Paraíso. Elas eram realmente talentosas.

Eu acabava me satisfazendo com a alimentação humana. Mas quando sentia novamente a sede, eu tinha que argumentar com meu namorado vampiro e pedir que fosse caçar. Estávamos em um combate permanente. Ele reclamava por um simples fator: Edward não desejava ser um vampiro, e definitivamente preferia não precisar ceifar vidas para se alimentar. Ele deixou-me saber que tudo que ele mais desejava era voltar a ser humano, poder envelhecer e morrer. Obviamente eu tive vontade novamente de desmembrá-lo, queimá-lo e realizar outras manobras cruéis e sádicas, só por ele pensar em morrer. Edward tinha que viver para sempre, ao meu lado, enquanto aquilo fosse possível. Enquanto ele me desejasse ao seu lado. Toda aquela compulsão por uma humanidade perdida o fazia apostar em mim. Ele queria que eu não desejasse ser vampira também, e que aproveitasse todo o meu potencial humano para existir plenamente. E eu o frustrava tanto que aquele sentimento me era muito doloroso.

Vesti a roupa de dormir favorita de Edward – e uma das poucas que ele conseguia manter intacta – e caminhei até o quarto de Alice e Jasper. Alice adorava invadir o meu quarto, então estava chegando a hora de pagar-lhe com a mesma moeda. Levei a mão à maçaneta e abri a porta, entrando no quarto escuro sem anunciar-me.
_Beatrice Caldwell! – Jasper rosnou, em protesto. – É educado bater à porta.
_Como se vocês soubessem disso. – Minha vez de ser sarcástica. – Alice, posso falar-lhe?
_Agora? – Era certo que a hora era inconveniente. Sim, seria divertido infringir a eles o mesmo constrangimento que infringiam a mim.
_Sim, aproveitando que Edward aceitou não me seguir.
_Tudo bem. Jazz, pare com isso! – Eu sequer vi o que Jasper fazia, mas preferi manter-me na ignorância. – O que você precisa, Bea?
_A viagem. – Eu disse, sem saber exatamente como abordar o assunto. – A viagem que faremos agora… eu queria saber se vocês vão conosco.
_Absolutamente não. – Alice riu, e daquela vez eu a vi bater de leve nas mãos de Jasper. – Jazz! Bem, Edward nos enviaria aos Volturi, se decidíssemos ir.
_Eu gostaria que fossem. – Falei, voz baixa, ignorando o que seriam os Volturi.
_Ahm? – Alice levantou uma sobrancelha.
_Você nos quer presentes na sua viagem particular com Edward? O que foi que eu perdi? – Jasper ficou curioso.
_Você não perdeu nada, é que eu… estive pensando. Eu…
_Você sempre fala assim quando está constrangida. – Alice observou.
_Eu estou. É que eu… fico imaginando como seria, passar tanto tempo sozinha com Edward em qualquer lugar. Talvez seja uma perda de tempo gastar tanto e viajar para tão longe para ficarmos o tempo todo trancados sob alguma estrutura de concreto.

Os dois Cullen riram, e bastante. Edward já deveria estar ali, nos ouvindo, eu pensei.
_Bea, você está preocupada em não conseguir deixar o Edward em paz? – Jasper quase engasgava de tanto rir. – Garanto que essa preocupação não se aplica a ele!
_Sossegue, Jazz. Bea… isso é normal, quero dizer… vocês estão juntos há pouco tempo. E você vem se comportando muito bem, aqui.
_Essa é a questão! – Eu finalmente tinha um argumento. – Aqui, com todos vocês, eu me sinto tentada a parar… eu me sinto na obrigação de agir pautada em uma determinada conduta moral. Mas… nós dois sozinhos?

Mais risos. Até eu acharia graça, imaginando a cena. Realmente, minha preocupação era tola e esdrúxula. Eu não deveria me preocupar com aquilo, porque afinal… éramos um casal, e aquela era nossa viagem particular, como bem observou Alice. Mas se Edward estava fazendo aquilo para me dar mais experiências humanas, e se ele pretendia me mostrar a Europa… não seria interessante que eu o quisesse na cama, comigo, 24 horas por dia, 7 dias por semana. E éramos capazes de só parar para nos alimentar.

_Edward ainda assim não vai gostar nada. – Alice considerou.
_Eu falo com ele. Se vocês aceitarem ir conosco.
_Hmmm. – Alice olhou para Jasper, e ele tinha um sorriso brilhante. Como eram lindos, todos os Cullen! – É tentadora a proposta, Bea. Faz tempo que eu e Jazz não temos… esse tipo de momento. Mas continuo achando que…
_Não se preocupe, Alice. Será divertido… vou gostar de ter vocês por perto.

Definitivamente, Edward detestaria aquela idéia. Ele vinha planejando a viagem à Europa com uma meticulosidade ímpar. Eu não tinha conhecimento de seus planos, apenas o lugar para onde iríamos e a data da viagem. Pegaríamos um avião no primeiro dia das férias de primavera, em dois dias, em Seattle. O resto era mantido em segredo por ele e por Esme, que também colaborava nos preparativos. Era péssimo que Edward fosse o único naquela casa capaz de manter segredos… alguns deles, pelo menos. A viagem era algo que ele vinha desejando desde a idéia no refeitório da escola, e em todas as imagens que ele pintava dos momentos que passaríamos juntos, estávamos sempre sozinhos.

Mas eu não estava preparada para aquilo tudo. Talvez eu ansiasse estar sozinha com ele antes, quando estávamos ainda nos explorando, nos conhecendo, e eu precisava de muito tempo para agir. Mas naquele momento eu só conseguia pensar na total falta de controle. Eu perdia a noção integral de todo senso e razão que controlavam meu cérebro quando na presença de Edward. Era como se eu tivesse um botão, e aquele botão se desligasse automaticamente quando ele me tomava nos braços e me beijava. Como eu seria capaz de resistir a ele e dizer “hoje vamos conhecer pontos turísticos”? Levar os Cullen comigo era a idéia mais aprazível no momento, e algo que eu vinha ruminando por dias. Sempre que Edward estava presente eu precisava esconder a idéia no fundo mágico do meu cérebro; o local inacessível para Edward. Só quando eu tomava o meu banho diário estava livre para pensar naquilo. Isso porque Edward ainda não sabia que ele podia tomar banho comigo.

Voltei para o quarto como se nada tivesse acontecido, um humor razoavelmente diferente. Edward não era tolo, e muito menos surdo. Ele estava sentado na cama, olhos concentrados na leitura de um romance de época.
_Shakespeare? – Eu disse, me aproximando. – Não é trágico demais?
_Gosto de tragédias. – Ele fechou o livro e me encarou. – Vai tentar esconder para sempre o que foi fazer ou vai preferir me contar com suas próprias palavras?
_Eu… – E lá estava eu novamente, constrangida e sem perceber que deixava Edward invadir-me novamente. O local secreto sempre falhava… e parecia mesmo conveniente. – Eu sei que você vai ficar chateado.
_Vou mesmo. – Ele disse, encarando-me. – Vou ficar chateado por você pensar que não pode confiar em mim. Acha mesmo que eu a impediria de convidar meus irmãos para a viagem?
_Sim. – Falei, cobrindo a face com as mãos. – Sou terrível, não? Desculpe Edward é que…
_Shhh. – Ele tirou minhas mãos de onde estavam e cobriu meus lábios com o dedo indicador direito. – Você é terrível. Mas eu te amo tanto que isso nem importa. – O dedo deu lugar aos lábios, e Edward me beijou por um longo tempo. Eu já ia perdendo o fôlego novamente quando ele decidiu continuar a conversa. – Eu nunca te criticaria por querer convidar meus irmãos. Posso dizer que estou um tanto frustrado… afinal, eu pretendia ter você com exclusividade total nessa viagem. Mas você está certa quanto à possibilidade de passarmos o tempo todo trancados em um lugar qualquer e não aproveitarmos a viagem. Essa viagem é para você, Bea… você deve curti-la; as experiências são para você. Já fui diversas vezes à Europa, já conheço todo o mundo. Eu quero que você tenha agora todas essas memórias, que viva todos esses momentos. Se os Cullen vão estar em bando, que seja.

Oras, então era mais fácil do que eu pensava. Edward me beijou novamente, e empurrou-me contra os cobertores. Sempre mantínhamos os cobertores, eles eram deliciosamente macios. Definitivamente, estávamos ficando melhores naquilo a cada dia. Seja como fosse a Europa, era um risco muito grande ficarmos completamente sozinhos.
_Edward… – eu disse, entre uma respiração e outra. Pretendia pedir a ele que não destruísse aquela roupa de dormir também, ou Alice logo teria que me levar para fazer compras. Ele começou a rir, involuntariamente. Seu corpo tremia sobre o meu, com suas risadas. – O que foi?
_Você é mesmo terrível. – Ele me beijou o pescoço, repetidas vezes, mas ainda ria. – Vamos, livre-se logo da sua roupa favorita, ou eu posso não respeitá-la por muito tempo.

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Eu estava apavorada em ter que enfrentar o avião mais uma vez. Mesmo com tanto tempo vivendo entre os humanos – os meses passavam por mim com certa urgência, eu ainda não tinha me acostumado com detalhes simples. Iríamos à Europa, todos os Cullen menos o casal principal, Carlisle e Esme. Os ‘pais’ ficariam em casa, porque Carlisle foi enfático em não poder deixar o seu trabalho. E, de qualquer forma, seria bom ter a casa só para eles… eu tinha certeza que eles aproveitariam. Rosalie e Emmett, Alice e Jasper, Edward e eu. Os irmãos Cullen e a intrusa híbrida em viagem para algum lugar maravilhoso, escolhido por Edward.

Mas o avião me deixou apavorada, era verdade, pela segunda vez. Eu estava agarrada a Edward, no aeroporto, meus dedos cravados em sua pele com toda força. Eu imaginei que o machucaria ou me quebraria novamente, porque cheguei a sentir dor. Eu sentia um pequeno mal estar, porque na noite anterior eles não haviam me deixado caçar. Edward não havia deixado. Ele insistiu que eu deveria deixar o sangue para outro momento, e comer comida humana. Mas a comida humana não me sustentava adequadamente, e eu precisava comer com freqüência. Aquilo significava um monte de coisas desagradáveis, que eu geralmente detestava. Até aprender a usar o banheiro para outros fins que não o banho eu precisei. Mas meu vampiro não parecia se incomodar… porque ele adorava a minha faceta humana muito mais do que qualquer um.

_Bea, você precisa de algo? – Alice disse, vendo-me totalmente absorta.
_Ela está aterrorizada. – Edward disse, me abraçando com força. – Como fizeram com ela, na viagem para Boston?
_Eu a arrastei para dentro do avião. – Rosalie soltou uma risada. Todos olharam para ela com reprovação. – O que pretendiam que eu fizesse? Deixasse a híbrida para trás porque ela é medrosa?
Edward balançou a cabeça e se sentou comigo, para aguardar nosso vôo. Ele gostava de se sentar porque naquela posição podíamos ficar mais próximos; havia mais contato corporal. Ele me fez recostar em seu peito e acariciou meus cabelos até que eu começasse a respirar bem tranquilamente. Meu coração batia mais devagar quando senti seus lábios tocarem minha testa. Fechei os olhos e deixei que meus pensamentos dissessem a ele que eu me sentia muito melhor.
_Quanto tempo? – Perguntei, sonolenta. Era noite, os Cullen definitivamente tinham preferido sair à noite para viajar.
_Muitas horas, com escala em Nova Iorque. – Edward me apertou em seus braços. – Fique tranquila, Bea… eu estou aqui.

Sim, ele estava. E aquilo era conforto suficiente para nenhum medo resistir dentro de mim. Sim, ele estava ali, ao meu lado, comigo, tão meu. Estávamos prontos para nossa viagem, a que ele idealizou tanto. E ela seria perfeita, nenhum medo tolo me tiraria a concentração. O avião podia ser assustador, mas Edward estava ali e era só aquilo que importava.

A viagem foi mesmo longa, e eu pensei que os Cullen não fossem suportar tantas horas trancados em um avião, em meio à tentação dos humanos. Eu sentia o sangue deles muito mais aromatizado do que antes, por causa da minha dieta forçada. Eu sentia sede, e Edward insistia em me alimentar com coisas coloridas e perfumadas. Era um martírio suportar a agonia que o cheiro humano trazia. Mas eles pareciam encarar a provação com bom humor. Talvez já estivessem acostumados àquilo, porque eu tinha certeza que os Cullen viajavam muito. E o avião parecia ser o meio de transporte recomendado… era rápido.

Durante o vôo, a sede piorou. Significativamente. Edward me olhou nos olhos e não ficou satisfeito com o que viu. Obviamente, eu tinha sede e meu organismo pedia nutrientes. Ele se levantou, caminhou até o meio do avião, e retornou instantes depois. Não demorou para que uma aeromoça aparecesse com comida para mim. Comida humana, claro. O cheiro de sua pele ao me servir parecia muito mais apetitoso do que qualquer alimento que estivesse ali, mas eu não poderia bebê-la, então. Edward abriu as embalagens para mim, sempre sério e sem muitas palavras.
_Eu disse que você estava se sentindo mal… – ele explicava, enquanto preparava tudo para que eu comesse. – e ela entendeu. Pedi que servisse carne bem mal passada… você pode deixá-la dissolver na boca, o sabor do sangue deve estar presente com intensidade.
Ele disse tudo aquilo muito tranquilamente, quase sussurrando em meus ouvidos. Calmamente, ele pegou o talher, cortou um pedaço da carne que fora servida e levou até minha boca. Aceitei de bom grado, obedecendo-lhe mais uma vez. Era verdade, o sabor era intenso. Havia muita coisa misturada ao sangue, mas ainda assim era sangue. Deixei a carne dissolver em minha boca, mastigando bem devagar, como Edward ensinou. Ele pareceu deliciar-se com a cena, como se ele mesmo estivesse se alimentando.
_Péssima hora para brincar de cientista. – Eu disse, aceitando outro pedaço de carne. – Se eu tiver um ataque aqui no avião…
_Você não vai. – Ele beijou meu nariz. – O alimento humano te satisfaz, Bea. Vai ficar tudo bem.
Ele tinha razão novamente. Mas não era o que eu queria, eu queria sangue. Edward me serviu a comida na boca, até que ela acabasse. Ele era tão meticuloso… Edward era perfeito de muitas maneiras. O termo perfeição não devia lhe fazer jus. Ele tinha uma aura ao seu redor que lhe permitia estar sempre além da perfeição.

Quando o avião finalmente pousou em nosso destino, eu estava adormecida em seus braços. Ele fingia dormir, para poder misturar-se mais facilmente. Mas eu sentia, na minha inconsciência consciente, que ele me acariciava o braço, os cabelos, o corpo inteiro, enquanto eu dormia. Ele era meu alento; os sonhos não me incomodavam ao seu lado. Mas era o final da viagem, e os Cullen estavam ansiosos por aquilo. Eu também. O medo havia sido superado, mas o avião não podia ser considerado meu melhor amigo. Apesar da viagem ter transcorrido de forma natural e esperada, eu ainda tinha minhas restrições quanto àquele enorme pedaço de metal com asas.

_Onde estamos? – Eu tinha que perguntar, porque eu sabia que o termo Europa era amplo demais.
_Estamos em Oslo, na Noruega. – Alice disse, sóbria. Os Cullen estavam todos sérios e comedidos, desde que descemos do avião. Era dia, e o dia na primavera podia significar sol. A exposição não lhes interessava. – Vamos pegar um transporte até Grong, agora.
_Grong? – Eu quis rir, porque o nome me soava como uma onomatopéia.
_Uma das menores cidades da Noruega, Bea. – Jasper explicou. – Um tanto exótica… reservamos um hotel, lá.
_Cidades geladas, menos exposição, mais privacidade… – Edward sussurrou. – E sim, nós reservamos o hotel todo. Mas não se preocupe, é um lugar pequeno. Não queremos hóspedes intrometidos nos bisbilhotando.

Noruega, Grong. Aquela deveria ser a primeira parada, eu imaginava. Talvez viajássemos mais, já que Edward havia me prometido lugares que eu nem imaginava. Lugares, no plural. Não tivemos a chance de conhecer Oslo, porque no aeroporto mesmo os Cullen receberam os carros que haviam alugado, para o caminho até Grong. Eu não devia me surpreender por eles terem decidido alugar carros; eu duvidava que aquela família realmente usasse transportes muito públicos, como eu via os humanos fazerem. Ônibus me parecia fora de cogitação, então. E também não devia me surpreender por serem carros impressionantemente lindos, velozes. Eles reservaram três carros, um para cada casal. Alice garantiu que seria muito melhor se pudéssemos ter cada um o seu carro, para eventuais necessidades. Aquela viagem já estava soando como o evento que os humanos tinham após casarem-se!

Casamento, aquilo então surgiu em meus pensamentos de forma subliminar. Eu tive meu primeiro contato com a idéia de casamento em um filme no covil, porque o mocinho pediu a mão da donzela em casamento. Eu tive que perguntar a Felícia por que ele desejava somente a sua mão, e não ela por completo. Foi então a explicação que eu tive sobre o relacionamento entre macho e fêmea. Eles costumeiramente se casavam antes de procriar. E então procriavam. Aquilo me parecia tão animalesco quanto era. Casar para procriar… e se eu não quisesse me casar? E se eu não quisesse procriar? Eu não sabia que casamento e procriação estavam necessariamente ligados ao sexo. Pior, que estavam necessariamente ligados ao amor. Felícia não deixou claro que o amor conectava o macho e a fêmea, por isso eles se casavam. Nos filmes dos humanos eu pude entender que sentido era dado ao casamento, e ele finalmente pareceu compreensível para mim.

Mas eu havia entendido. Humanos casam-se, e procriam. Híbridos são híbridos, e não humanos.

_De onde saiu isso? – Edward perguntou, enquanto dirigia.
_A viagem me lembra uma lua de mel. – Eu comentei, rindo.
_Sério? – Ele perguntou, cenho franzido.
_Sim… todos parecem definitivamente propensos ao acasalamento. – Sarcasmo com ironia; eu estava começando a me aprimorar. Edward não se conteve e me acompanhou no riso. Levantei o olhar e observei a estrada, maravilhada.
_Isso é um lago, Beatrice. – Ele me apontou a mancha azul no horizonte. – Vamos ficar próximos a ele, você vai gostar. Mas… acasalamento?
_Foi uma brincadeira. Estou treinando para implicar com Emmett.
_Ah, claro. Bem, eu não posso discordar… meus irmãos estão bastante afoitos, é verdade. E eu… você sabe como me sinto, ou não teria inventado a história de trazer a família Cullen na bagagem.
_Desculpe-me. – Baixei o olhar, recostando-me novamente em seu ombro.
_Não se desculpe, Bea. Não fez nada errado, não seja tola.
_O que faremos hoje? – Perguntei, já que o dia estava alto n céu. Edward nada respondeu. O seu silêncio deveria ser bastante significativo. Também o seu sorriso de canto de boca. A pressão de seus dedos nos meus. Todos os sinais de seu corpo respondiam à minha pergunta, menos seus lábios. – Você deve mesmo acreditar que posso ler sua mente…
_Não precisa de muito esforço para saber o que pretendo, Bea. Pelo menos hoje.

Senti a eletricidade me percorrer a espinha, e fiquei imóvel. Ela tinha que passar… a sensação elétrica precisava desaparecer, porque eu precisava terminar aquela viagem. Edward não me olhava, ele simplesmente dirigia e me dava aquelas pistas indecentes sobre suas idéias para quando chegássemos ao hotel. Eu imaginava o que deveria estar acontecendo nos carros dos outros Cullen. Eu podia supor que nem mesmo Alice estaria se comportando.

Grong era uma cidade fria, era fato. Estávamos na primavera, e as temperaturas só pareciam mais amenas. Se eu sentisse frio, estaria em apuros. O hotel reservado pelos Cullen ficava em um local isolado, apesar de que tudo na cidade parecia isolado. Eu vi algumas pessoas nas ruas quando chegamos, mas a cidade era praticamente vazia. Pequena, como Jasper descrevera. Havia montanhas de um lado, e o lago de outro. A imensidão azul que Edward me mostrara na estrada, transformando o horizonte em uma profunda linha sem fim. As construções eram antigas, e remontavam à minha época, eu podia ter certeza. Familiar, então.

Um humano nos recebeu, e ajudou a levar as malas para dentro do hotel. Não precisávamos de ajuda; as malas eram bastante leves em relação à nossa força. Mas sempre precisávamos fingir sermos humanos, e aquilo presumia não ter nenhum super poder. O humano tinha a sua função, então. Fomos conduzidos por corredores não muito longos, até nossos quartos. Que eram próximos demais, pensei. Cada um ficava em um andar diferente. Ainda assim, eu me via sendo indiscreta. Por que fazíamos tantos ruídos, eu nunca entenderia. Edward riu das minhas idéias, e eu quis machucá-lo. Sempre que ele fazia aquilo comigo eu tinha vontade de ser forte o suficiente para quebrar-lhe um osso. Se aquilo fosse possível, já que seus ossos não se quebravam facilmente.

O quarto era totalmente diferente do que estava acostumada. Quarto de humano, pensei. Muito mais mobiliado do que o quarto de Edward, com uma televisão, uma geladeira de tamanho reduzido, telefones e outros apetrechos um tanto inúteis para vampiros. Abri a porta que dava para uma pequena sacada, e dela se podia ver o lago. A paisagem era indescritível. Montanhas geladas – mesmo na primavera – e árvores que recobriam as partes menos frias. A água parecia convidar a um mergulho, mas aquilo não seria possível no frio. Se aquele lugar um dia fosse quente, talvez a água pudesse ser habitável para os humanos. O céu estava encoberto por nuvens finas, e a luz do sol podia-se ver deslizar por alguns espaços deixados. Estávamos no alto; eu pude ver muito solo abaixo de nós. Demorei-me admirando a imagem frente meus olhos, certa de que poucas coisas poderiam ser tão lindas.

Até voltar meus olhos para o quarto novamente e deixá-los pousar na figura serena de Edward.

_Um dólar por seus pensamentos. – Ele implicou.
_Estou chocada. A beleza é estonteante.
Edward caminhou em minha direção, e se pôs a observar a natureza, comigo.
_Amanhã podemos ir ali – ele apontou na direção das montanhas geladas – e eu te ensino a esquiar. – Eu não sabia do que se tratava, mas se fora planejado por Edward eu tinha certeza que me agradaria. – Você está com fome?
_Definitivamente. – Eu disse, já sabendo que caçadas não aconteceriam naquele dia. E eu não queria argumentar com Edward, porque eu queria que aquela viagem fosse exatamente como ele desejava; eu queria que ele estivesse plenamente satisfeito. Mesmo com a sua insistência de que a viagem era minha. – Posso comer, por aqui?
_Claro. Achou que eu a deixaria morrer de fome? – Ele pegou o telefone e discou alguns números.
_Eu vou caçar quando vocês forem. – Sussurrei aquelas palavras para ele, enquanto ele falava algo com alguém.
_Fiz um pedido. – Ele disse, praticamente me ignorando. Que ele me ignorasse, então. Pelo menos por aquele momento. – Logo trarão comida… para dois, então se prepare.
_Você definitivamente preferia ter um humano ao seu lado. – Emburrei, jogando-me na cama. Comportamento típico. Edward jogou-se ao meu lado, tirando uma mecha de cabelo da frente de meus olhos.
_Beatrice, não seja tola! – Ele franziu o cenho, e seu olhar era sério. – Eu não queria ter nada além de você ao meu lado. Você já se olhou no espelho? – E então ele surgia com conversas totalmente fora de contexto.
_Claro que não, por que me olharia no espelho?
_Seus olhos são verdes. – Ele sorriu, e me apontou a direção do espelho. Atônita, ergui-me um pouco para visualizar algo ainda mais chocante do que toda a paisagem. Meus olhos, uma mistura de caramelo com verde, um tom vibrante e cheio de vida. Olhei para Edward, e então para o espelho novamente. Meus olhos eram escurecidos, sempre. Um marrom sem cor, como tudo no covil. Desde que eu chegara à casa dos Cullen, ele clareou, tornando-se um marrom claro e transparente. Não era opaco como o dos Cullen, era quase translúcido. Sem graça, era como eu os via. Mas naquele instante, eu via olhos completamente coloridos. Como os olhos dos humanos. – Provavelmente, a dieta com pouco sangue nesses dias fez com que seus olhos adquirissem sua cor normal.
_Cor normal? – Levantei-me, aproximando-me do espelho.
_Seus olhos deviam ser verdes quando você era humana…
_Cor normal, Edward Cullen?? – Olhei para ele, um tanto apavorada. – Você me disse que eu não mudaria nada! Veja isso… eu pareço não estar mudando? Meus olhos têm cor! Eu cada dia pareço mais um humano!!

Surto – e eu estava começando a me familiarizar com as gírias e expressões do vocabulário moderno. Beatrice Caldwell entrou em colapso por causa da possibilidade remota de se tornar mais humana do que vampiro. Aquela era eu, patética como sempre, a discursar sobre o meu não desejo de me tornar humana. Como se fosse possível abdicar da minha imortalidade e me tornar um humano. Como se fosse possível me transformar em algo frágil e delicado como uma mulher. Como se fosse possível ser algo que eu era, mas que nunca poderia ser completamente. O pavor de me tornar completamente humana não se justificaria até a minha saída do covil. Eu tinha tanta curiosidade em relação a eles que eu poderia facilmente desejar tornar-me uma deles. Mas Edward me fez desejar não mudar nada, nunca. Ele me fez desejar estar como sempre, imortal, para poder permanecer ao seu lado para sempre.

_Bea, acalme-se… – Ele levantou-se e me abraçou. Meu corpo todo tremia. – Isso é só uma característica normal… se eu me alimentasse de sangue humano sabe que cor meus olhos teriam? – Eu olhei para ele, esperando a resposta. – Eles seriam vermelhos, Bea. Como eu me alimento de animais, eles são assim, amarelos. É como se o vermelho se diluísse. É uma cor, acontece com todos… você não está se tornando um humano, isso é geneticamente impossível.

A apreensão logo deu lugar ao constrangimento. Eu havia agido como uma tola mais uma vez. Edward costumava dizer que ele perdia o controle facilmente, mas a descontrolada da família acabava sempre sendo eu mesma. Antes que eu pudesse me desculpar, Edward me deixou para ir até a porta. Um humano trouxe a comida que ele havia pedido, mas daquela vez ele não parecia tão excitado com a idéia. Voltou-se para mim empurrando um carrinho com alguns vasilhames cobertos por metais, e imediatamente pegou o controle remoto da televisão. Eu o havia magoado, claro. Abri os vasilhames e observei a carne, mal passada como no avião. Realmente, um sabor agradável. Os humanos também comiam sangue, pensei imediatamente.

_Desculpe-me, Edward. – Eu disse, sem conseguir tocar nos alimentos. – Eu não quis fazer disso algo muito grande.
_Está tudo bem. Você está certa, eu exagero. De certa forma, tenho certo fascínio pela sua humanidade… e quando vi seus olhos fiquei muito empolgado. Mas se você quer caçar, vamos caçar. Aliás, se quiser deixar a comida e sair comigo agora…
Sorri, e sentei-me à frente dos vasilhames. Segurei o garfo entre os dedos e preparei-me para comer. Os alimentos não eram desagradáveis, era apenas um pavor ridículo de que eu pudesse me humanizar. Como se aquilo fosse tolerável. Não deixaria a viagem se estragar por aquilo. Depois de comer, abri a janela do quarto, deixando o máximo de luz – e vento gelado – penetrar no ambiente. Edward definitivamente não entendeu, mas ele não estava prestando muita atenção em mim.
_Edward. – Eu sentei-me ao seu lado, fazendo-o olhar para mim. – Edward Cullen… pode ser que eu perca esse charme logo… vai deixar meus olhos verdes por um programa de televisão? – Ele então me olhou, esperando para ver até onde eu iria. – Eu não pretendo agir dessa forma novamente. Mesmo que eu me tornasse uma humana, o importante seria sempre você me querer. Se você me quer humana, vampira, híbrida, seja como for, eu não me importo em mudar. Se você gosta de meus olhos verdes, não beberei sangue nunca mais, somente para que você olhe para eles. Se você gosta do meu corpo reagindo às experiências, pode me fazer de cobaia diariamente. Seja como for, só importa que você me ame.

As palavras se atropelaram para sair de minha boca, pois eu pretendia dizê-las, e não permitir que ele as lesse. Eu precisava falar em velocidade compatível com meus pensamentos, e aquela tarefa era árdua. Edward me ouviu, e levou alguns segundos para desligar a televisão, afastar o controle remoto e tomar-me nos braços em um beijo urgente.

De todas as vezes que sempre estivemos juntos, a cada dia eu me sentia mais completa. Era como se fosse impossível ter mais do que eu já tinha; como se fosse impossível sentir-me mais completa. E a cada dia Edward me fazia ver que eu estava errada. Ele tinha planos para aquele dia – manter-me ali com ele o quanto pudesse. Seus irmãos pareciam estar no mesmo humor, pois nenhum dos Cullen invadiu o recinto com comentários e brincadeiras. A cama dos humanos era muito mais frágil do que o esperado, e foi mais conveniente que nos acomodássemos em outro lugar. Edward determinou que a sacada seria um bom lugar, então. Conveniente sim era o fato de não haver humanos por perto, e de estarmos muito distantes do solo. Ninguém poderia nos observar ali, mas eu apostava que os Cullen poderiam nos ouvir.

O dia seguinte foi totalmente diferente, então. Primeiro porque Alice e Jasper apareceram logo cedo, acordando-me com o raiar do sol. Edward não gostava quando eles me acordavam, e sempre se mostrava bastante aborrecido. Mas eu não me importava, pois dormir me fazia perder bastante tempo. Era o dia de irmos até o topo da montanha, como prometera Edward. Rosalie e Emmett não saíram do quarto, e Alice decidiu que não deveríamos contar com eles nos primeiros dias. E eu que estava treinando palavras e comentários, teria que esperar. Principalmente porque o passeio até a mencionada ‘estação de esqui’ me estava empolgando o suficiente para não pensar nas intromissões do meu irmãozão.

_Seus olhos novos estão lindos, Bea. – Alice me abraçou, e eu tive a ligeira impressão de que ela já sabia daquele fato. As conversas mentais entre ela e Edward, as que me irritavam tanto. Não conseguia entender como Jasper não enlouquecia com aquela comunicação excludente. Fingi que nem prestei atenção a Alice, que se mostrou um pouco emburrada. Eu já tinha decidido deixar aquela discussão para trás, mas não queria reanimá-la com argumentos.
Fizemos o trajeto até a montanha no carro alugado por Edward, e chegamos rapidamente ao destino. Os vampiros dirigiam muito rapidamente, eu pude notar quando da comparação com carros de humanos que nos cruzaram. Edward me disse que eles tentavam disfarçar… mas havia uma discrepância significativa quando visualizávamos um humano dirigindo. E eles sempre me garantiram que não gostavam de atrair a atenção… O local escolhido era cheio de neve, e entendi imediatamente a escolha de casacos e outros apetrechos para frio. Edward estacionou ao lado de outros carros, e foi com Jasper até a construção que ficava ao lado. Fiquei com Alice aguardando, sem saber o que eles pretendiam.

_Você está zangada porque seus olhos mudaram. – Ela constatou. Era mais óbvio do que eu pensava.
_Já superei isso. O verde é bonito, afinal.
_Ele se magoa facilmente, Bea. – Alice fez um gesto que indicou o local para onde Edward havia se dirigido. – E ele está tão empolgado com essa história de você poder realizar tantas experiências humanas… eu sei que ele é difícil, mas ele realmente te ama.
_Eu sei. – Mais constrangimento. Senti-me detestável pelo simples fato de que todos percebiam o quão infantil eu estava sendo. – Eu nunca tive essa intenção. É que… eu tenho certo pavor em imaginar tornar-me um humano. Ou ser mais humano do que vampiro.

Alice riu, o suficiente para deixar curiosos os rapazes que estavam chegando. Edward riu timidamente, sorriso de canto de boca, e beijou-me os cabelos. Jasper teria que esperar Alice contar-lhe o motivo pelo qual eu era tão ridícula. Medo de me tornar humana. E eu que estava tentando esquecer-me daquilo… Antes que eu tivesse a chance de continuar pensando em tolices, fomos esquiar. Eu não sabia do que se tratava, até ver os humanos esquiando. Os Cullen pareciam agitados, o que era óbvio. Eles eram todos apaixonados por ultrapassar os limites… considerando que aqueles eram limites humanos. Para os vampiros não havia limites. Atirar-se de uma montanha gelada sobre duas plataformas não era nada, para um vampiro. Enquanto para os humanos poderia significar as suas vidas. Eu não sabia em que me encaixava; eu não sabia se aquela atividade me seria arriscada. Mas eu sabia que Edward jamais me colocaria em perigo, então se ele dizia que eu podia fazer, era porque podia.

E foi muito divertido, não pude negar. O vento gelado que batia em meu corpo, na direção oposta ao movimento físico que ele exercia; a sensação de liberdade, de estar voando. Eu caí algumas vezes dos esquis, mas logo aprendi a equilibrar-me e consegui cumprir a tarefa de descer a montanha. Uma, duas, cinco vezes. Os humanos já tinham praticamente desistido do esporte, e a luz do dia não parecia mais tão forte como antes, quando Jasper decidiu encerrar a brincadeira.
_Devemos nos alimentar. – Ele considerou. – Podemos aproveitar a floresta gelada logo abaixo…
_Sim, seria ótima idéia. Uma dieta diferente, provavelmente. – Alice bateu palmas. Edward olhou para mim, sorrindo.
_Estou mesmo com sede. – Eu disse, franzindo os lábios. A alimentação humana não me sustentava como o sangue, então eu nunca estava saciada por muito tempo. – O que teremos para o jantar?
_Linces. – Edward respirou fundo, tentando sorver todo o ar ambiente. – Um banquete.

Os rapazes devolveram os equipamentos de esqui para a estação e dirigimo-nos para uma trilha próxima à floresta, a fim de caçarmos algo. Alice disse que Emmett e Rosalie estavam bem, que caçariam quando decidissem deixar a clausura. Eu imaginava que para os dois fosse mais difícil… Emmett várias vezes disse que eles eram barulhentos. Então, como ficar em casa, com toda a família presente, e seus ouvidos supersensíveis? Por mais pervertido que meu irmão Emmett parecesse, eu tive a impressão de que ele e Rosalie eram o casal que menos praticava sexo em casa. Então, aquele isolamento só poderia significar uma coisa para eles. E que eles aproveitassem bem o tempo que tinham.

O tempo em Grong não seria longo. Edward previu nossa estada por quatro dias, aproximadamente. Ele não queria me contar todos os detalhes, mas confessou alguns fatos que ele não conseguiria me esconder totalmente. Depois da Noruega, iríamos a outro lugar supostamente secreto. Ao menos para mim. Entre os Cullen era como se nunca houvesse um segredo, todos sabiam de tudo. Menos eu. Só tivemos contato com o casal desgarrado no último dia. Eles perderam os melhores eventos. O esqui, a pescaria no lago, trilhas em meio à floresta, um jantar à luz de velas com direito a comida humana e um participante que efetivamente se alimentaria, sessão de cinema no salão principal do hotel… atividades das quais Emmett e Rosalie não participaram, mas não sei se eles se importaram.

Eu desejava que não precisássemos mais do avião, e Edward estava realmente tentado a viajar de carro comigo pela Europa inteira. Mas como estávamos decididos a cumprir alguns prazos, seria preciso que usássemos o avião. Edward pretendia retornar comigo para casa antes das férias acabarem, para que pudéssemos curtir a escola, como ele gostava de dizer. Então, tínhamos prazos a cumprir. Mas os dias em Grong foram tão dignos de apreciação que eu nem me importei muito com a idéia de voar. Era como se eu estivesse tão completa, tão satisfeita, tão insuportavelmente feliz que eu não me importaria muito.

Mas a felicidade para um monstro como eu poderia ser plena?

_Alice, eu não quero incomodá-la com essa história mais uma vez! – Edward protestou, dentro do avião. Ele estava sentado em um assento próximo ao corredor, e Alice exatamente em sua direção, do outro lado do corredor. Eu dormia, mas a conversa deles fez meu cérebro consciente mais alerta. Eu não sabia o quanto Edward podia captar da minha consciência enquanto eu dormia, mas eu esperava que fosse pouco. – Chega de visões, híbridos, mortes. Eu quero saber, mas ela não precisa se preocupar com isso.
_Você é muito teimoso, Edward! – Alice reclamou. – Quer esconder dela que aquela aberração está vindo buscá-la? Como pretende, já que estamos voltando para casa?
_Você disse que ele não sabe como encontrá-la!
_Mas ele vai acabar descobrindo, é a lógica!! Ele vai ter alguma idéia, e eu vou vê-la, e como pretende que Bea não fique sabendo que ela corre perigo?
_Ela não corre perigo. – Edward parecia no limite de perder a razão, mas sua voz ainda era de baixo tom e resignação. – Ela nunca correrá perigo, eu não permitirei.
_Edward!! – Alice protestou, novamente. – Você é irritante, como pode…
_Se algo fosse acontecer você teria visto. – Ele pretendeu encerrar a conversa. – Não pense que eu não estou péssimo com tudo isso, Alice… eu estou agonizando, mas eu preciso manter uma aparência de normalidade. Eu não a quero sofrendo por algo ainda incerto.

E sim, ele encerrou a conversa. Por durante toda a viagem até o segundo lugar secreto, eles não mais se falaram. Não que precisasse, pois entre Edward e Alice as palavras pareciam sempre desnecessárias. Mas ela pareceu aborrecida com ele, e ele com ela. Por minha sorte ele não podia me perceber quando eu estava dormindo, apenas via a parte inconsciente de meu cérebro; a parte que sonhava. Se eu não sonhava, para ele eu era um branco total. Ou preto, eu ainda não sabia que cor ele via quando nada via. Mas eu tinha certeza que seria branco ou preto, porque todas as outras cores eram coloridas demais para que significassem o vazio. Nunca vi o vazio rosa, ou roxo, ou amarelo.

O avião pousou à noite, e eu entendi que os Cullen haviam determinado que fosse daquela forma. Afinal, eu pude ver o dia bem mais ensolarado do que na Noruega… e suspeitei que estávamos nos dirigindo a locais mais quentes. Ainda seria Europa, eu tinha certeza… porque a viagem deveria se resumir à Europa. Mas mais quente, era fato. Como se o calor me importasse… mas o sol fazia os Cullen um tanto quanto indiscretos para exibições públicas. Apesar do horário, o aeroporto estava cheio e havia humanos por todos os lados. Obviamente não éramos os únicos estudantes em idade escolar de férias. Eu sequer conseguia imaginar como poderíamos viajar tão facilmente se nossas idades humanas eram jovens… mas eu não queria saber, era fato. Interessava-me somente realizar alguns atos, nem sempre compreendê-los.

_Teremos carros à nossa disposição? – Perguntei, enquanto caminhávamos pelo enorme aeroporto.
_Não, agora não. – Edward me mantinha junto a ele. – Vamos pegar outro vôo para Cagliari, agora.
_Onde? – Perguntei, como se a resposta dele fosse me fazer compreender o mapa político da Europa em segundos. – Onde estamos, afinal? Precisamos de outro vôo?
_Sim, vamos para a Sardenha. – Emmett sussurrou, como se não pudéssemos falar alto nem mesmo as coisas mais banais. – É uma ilha, precisamos de privacidade para lidar com todo esse sol.
_Reservando um hotel novamente? – Impliquei.
_Definitivamente.

O nome do lugar escolhido era tão curioso quanto o anterior. Carbonia, Sardenha. Era na Itália, uma ilha no meio do Mar Mediterrâneo. Uma ilha antiga, cheia de mistérios e histórias fantásticas. A aula me era dada por Alice, que parecia visualizar cada frase que me dizia. Eu teria a chance de conhecer coisas de muito antes da minha época, então. Apesar de que elas não me fariam tanto sentido, porque Felicia tentava sempre nos manter atualizados, raramente estudando história. Estávamos em Roma, capital da Itália, e seguiríamos para Carbonia o mais rapidamente possível. Segundo Alice, pousaríamos em Cagliari, uma cidade grande, e nos dirigiríamos para o local escolhido, Carbonia, com alguns 30 mil habitantes. Era muita gente, eu pensei comigo mesma… muito mais gente do que em Grong. Como os Cullen pretendiam andar pelas ruas, se o sol brilharia? Talvez eles não pretendessem caminhar durante o sol… e então trocaríamos noite por dia? Aquilo seria definitivamente novo, para mim.

Passei toda a viagem de Roma até Cagliari acordada, apesar de ser noite. Eu estava com o que Alice chamava de ‘relógio biológico’ completamente fora de ordem. A viagem estava me tirando da rotina, por mais que Edward se esforçasse para evitar isso. E algumas horas dentro do avião já eram o suficiente para me estressar ao limite. Muitos limites sendo testados, então. Meu organismo reagia violentamente. Suor escorria por minhas têmporas, mesmo que não estivesse tão quente. Meu corpo tremia, e meus olhos não estavam de cor nenhuma conhecida. A mistura de sangue e alimento humano os fazia oscilar entre o marrom e o verde escuro. Mas Edward gostava, então eu nem me importava com aquele ponto. Só uma coisa me fazia confortar, a presença de Edward. Quando ele me sentia tensa demais, ele levava seus lábios até os meus, fazendo-me relaxar imediatamente. Eu queria mesmo que ele me beijasse, mas eu sabia os riscos que aquilo implicaria. Eu era decididamente aquela que perdia o controle.

A Carbonia era bonita. A Sardenha era, na verdade. Desde Cagliari, todo o caminho até nosso destino era repleto de lindas imagens. Nenhuma mais linda do que aquela ao meu lado, mas todas lindas. Não tínhamos três carros daquela vez, porque foi considerado que não havia necessidade. Se Emmett e Rosalie repetissem o comportamento exagerado de Grong, teríamos menos necessidade ainda. Mas eles prometeram comportar-se; garantiram que o desejo estava sob controle. O meu não. Mas eu parecia mais apta a reprimir os instintos do que Emmett Cullen.

_Vamos ficar ali. – Edward apontou uma pequena construção, diferente da de Grong. Foi difícil vê-la, porque ao contrário da experiência na Noruega, essa construção ficava abaixo da estrada. – Tem uma praia particular… você vai adorar nadar.
_Nadar? – Considerei, olhando para o céu. O clima propiciaria… o contato com a água?
_Sim… você não deve se importar se a água estiver fria, afinal… sua temperatura corporal é bem parecida com a minha. E não se preocupe, os humanos não vão nos incomodar. Não haverá humanos nesse ‘hotel’… seremos só nós.

Ah! Só nós… seis. Estaria eu me arrependendo de ter convidado os Cullen, ou toda aquela beleza natural compensava algumas horas desprendida do corpo de Edward?
_Tudo bem, meu amor. – Edward riu, e então eu me dei conta de que estava gritando, para ele. Eu não havia escondido aqueles pensamentos no meu canto sombrio. – Podemos mandá-los para casa hoje, se quiser.
Baixei o olhar, totalmente constrangida. Ele riu mais, e aquilo me fez desejar machucá-lo mais uma vez. Mas não, eu não queria mandar os Cullen para casa, porque eu gostava da companhia deles e porque seria mesmo mais divertido se pudéssemos curtir as maravilhas da natureza.





(Cap. 19) Capítulo 18 - Vertigem

*tema: David Bryan’s Hear Our Prayers*

Edward não mentiu quando ele me prometeu lugares que eu jamais imaginaria existirem. Infelizmente, depois de Carbonia, tivemos que retornar para casa. Passamos uma semana na ilha italiana, aproveitando o clima mediterrâneo. Nadar foi extremamente excitante, principalmente porque eu pude ver toda a vida que habita sob a água. Além de a vida ser muito mais linda sob o sol, ela também o era sob a água! Quanto tempo de minha existência eu perdi sob a terra, em um covil miserável, trabalhando de costureira, lavadeira, passadeira, para os caçadores. E eles eram monstros, como eu já sabia. Connor não podia ser o único, e ele foi claro ao afirmar que Rudolph consumia sangue humano. Deprimente, detestável. Não era ilegal, como Edward me garantira diversas vezes… mas afinal, de que lei ele estaria falando?

Estar ali, com minha nova família, nos braços do vampiro que eu amava e escolhera para mim, aproveitando ao máximo o que a vida terrestre me proporcionava, era impagável. Eu podia compreender um novo estado de amnésia, daquela vez voluntária. Eu não queria lembrar de nada do meu passado, eu não queria lembrar que um dia fora Beatrice Caldwell. Gostaria de mudar de nome, de me tornar outra. Eu simplesmente queria tornar-me Cullen.

Caçar naquele lugar foi mais complexo, e todas as vezes precisamos pegar os carros e nos dirigirmos a outras regiões. Mas foi pedagógico, também. Conheci outro animal interessante, o porco selvagem. Ele não me pareceu tão saboroso quanto os ursos, ou quanto o Lince. Mas toda a diversão e a reação do meu organismo a tudo me fazia muito sedenta, sempre. Sem contar o controle absurdo para nunca desejar os humanos. A semana passada em Carbonia poderia ser considerada uma das melhores de toda a minha existência, até melhor do que as primeiras que vivi com Edward.

Durante a volta para casa, senti uma vertigem estranha, no avião. Eu não costumava sentir aquilo, foi novo, inesperado e um tanto assustador. Era como se o chão e o teto se invertessem, e eu estivesse flutuando no meio vazio. A sensação foi tão anormal que nem Edward conseguiu compreendê-la. Ele sabia que tinha algo errado, mas não sabia o que. A viagem era longa, eu estava cansada; o avião me estressava, e eu provavelmente estava reagindo ao sangue do porco selvagem. Era uma vertigem, e eu tinha tantas desde que saíra do covil que aquela sequer deveria me causar estranheza. Na verdade, o que me causou estranheza foi a impaciência de Alice, que parecia muito incomodada com alguma coisa. Alguma coisa que nem ela sabia, pois Edward não conseguiu captá-la. A vertigem passou, e Alice pareceu mais confortada. Imaginar que haveria alguma conexão entre meu mal estar e o humor de Alice era ridículo, mas foi como me senti.

A escola ainda demoraria alguns dias para recomeçar, então teríamos tempo para nos recuperarmos da viagem. Só eu precisava de recuperação, era verdade. Os Cullen não sofriam com as adaptações como eu. Talvez eles simplesmente não sentissem muita coisa humana, e eu sempre tinha a impressão errada. Carlisle e Esme nos receberam com bastante euforia, como se o tempo sozinho lhes tivesse sido também penoso. Eles estavam acostumados com a casa cheia, foi o que considerei. E era bom voltar para casa, apesar dos momentos fantásticos vividos na Europa. Eu me sentia tão segura e protegida na casa dos Cullen que retornar para aquele lugar familiar me fez sentir paz. Subi até meu quarto para colocar todas as minhas coisas de volta ao armário, tentando ao máximo manter as pilhas organizadas, porque eu jamais saberia combinar as roupas tão bem quanto Alice, e deixei Edward na sala, confraternizando com os pais.

_Ooops. – Foi o som de minha voz, ao sentir-me desequilibrada descendo as escadas. Eu pretendia juntar-me aos demais, mas a experiência foi quase frustrante. Em instantes, Edward me amparava nos braços, confuso. – Está tudo bem… foi uma vertigem.
_Igual a que sentiu no avião?
_Sim… parecida.
_Você não está bem. – Edward disse, ajudando-me a descer as escadas como se eu realmente estivesse debilitada. – Carlisle… Beatrice não está bem.
_O que houve? – O médico se aproximou. Eu me sentia melhor, a vertigem tinha acabado.
_Ela não está bem… eu sei. Ela passou mal no avião, e agora também… e Alice anda inquieta com ela por perto. – Edward falou, procurando a irmã pela sala. Mas Alice estava fora de seu alcance de visão.
_Não tenho nada. – Disse, soltando-me dos braços de Edward. – Veja, nada demais…

E foi só me soltar de Edward para meu corpo desequilibrar-se e eu quase desfalecer no assoalho límpido de Esme.

Edward me impediu, fazendo-me sentar imediatamente. Seu semblante assustado me causou agonia, e minha agonia o assustava ainda mais. Carlisle ajoelhou-se à minha frente, observando-me. Senti-me a cobaia novamente.
_O que você sente, Bea?
_Eu não sei direito… chão e teto se invertem, é isso. Eu perco o equilíbrio…
_Hmmmmm… sente algum enjôo?
_Enjôo? – Palavras novas.
_Quando comeu comida humana… sentiu algo logo após?
_Não, faz dias que só me alimento de sangue. Se bem que…
_Os muffins? – Edward se lembrou da minha incursão a uma cafeteria, na cidade de Cagliari, quando eu decidi que estava apaixonada por um bolinho com pedaços de algo estranho. Chocolate, era o nome do meu novo veneno. Baunilha e chocolate, a tentação maior que a comida humana poderia me oferecer. Eu devorei três, como se fosse um animal faminto. Logicamente, depois dos muffins eu me senti mal, como se minha barriga pesasse. Mas deveria ser uma reação normal ao meu exagero, como fora a reação ao Martini.
_Hmmmm… – Carlisle continua a me observar, confuso. – Tem algo aqui que não estou captando…
_Nem eu estou. – Edward estava aflito. – Onde está Alice, pelos céus?
_Foi até seu quarto. – Esme respondeu. – Acha que ela pode ter visto algo?
_Ela deve ter… mas está escondendo de mim!
_Façamos assim, vocês vão para seu quarto. – Carlisle ponderou. – Amanhã Bea vai até o hospital e eu realizo alguns testes, para saber o que está havendo.
Edward concordou, e me levantou intentando retornar-me para o quarto. Sempre zeloso em exagero comigo; uma preocupação que eu não merecia.
_Seja gentil, Edward. – Emmett bradou, da sala. Se eu estivesse completamente saudável, eu mesma o teria aniquilado. Edward era mesmo gentil, apenas ignorou o irmão. A sua preocupação comigo era infinitamente superior a qualquer perturbação vinda de Emmett.

Como meu vampiro era o mais exagerado da família, ele não me permitiu caminhar até o quarto. Carregou-me em seus braços, e fez-me deitar imediatamente. Ele não me deixaria tocá-lo aquela noite, eu já suspeitava. As boas vindas à nossa cama teriam que ficar para data futura, quando minha vertigem passasse. Com bastante suavidade, ele retirou meus sapatos, cobriu-me com os cobertores e deitou-se comigo, mantendo-me bem próxima. Tentei manter meus pensamentos longe de qualquer coisa que pudesse irritar ou aborrecer Edward, porque ele já parecia ansioso demais com o fato de eu estar reagindo daquela forma. O dia seguinte nos daria uma perspectiva do que estava acontecendo, era o que eu pensava.

Mas a perspectiva parecia tão borrada quanto a minha vertigem.

Eu praticamente não consegui me levantar da cama durante a manhã, e meus olhos estavam de uma cor púrpura inaceitável. Eu nunca sequer vira aquela cor na natureza, e minha paleta de cores já parecia bastante preenchida. Edward teve que ajudar-me a levantar-me, e mesmo assim foi difícil manter-me de pé. Peguei a primeira peça de roupas que estava na primeira pilha ao alcance, e iniciei meu ritual para troca de roupas.
_Edward. – Eu o chamei. Ele estava observando a paisagem, já completamente vestido, algo em suas mãos, proporcionando-me uma privacidade desnecessária. Mas eu adorava como ele podia ser tão respeitador, ao não deliberadamente se aproveitar do momento para observar-me. – Edward… você não notou nada estranho em mim durante o passeio na Europa?
_Deveria? – Ele se aproximou, olhando para mim curioso. Os pensamentos começaram a fluir, e eu não consegui segurá-los. – Seu corpo parecia modificado sim… mas deveria ser uma reação natural aos alimentos humanos.
_Mas Edward… eu senti algo.
_A vertigem? – Ele se aproximou, mesmo eu estando ainda nua.
_Não. Eu estou bem.. eu senti algo aqui. – E levei minha mão esquerda até minha região do ventre, apontando para a área que estava, definitivamente, maior do que sempre fora. Reação aos alimentos humanos, era a explicação…

A reação de Edward àquele fato foi muito pior do que a minha, aos olhos verdes. Ele deixou cair das mãos o livro que segurava, e me olhou totalmente atônito. Eu vi Edward sem nenhuma reação pela primeira vez, e devo confessar que ele me apavorou. Ele me apavorou por estar sem reação e pelo que aquilo podia representar. Coloquei a mão totalmente sobre meu ventre, tentando entender o que poderia causar aquele inchaço. De todas as reações absurdas que meu corpo já sofrera, aquela era definitivamente a mais estranha. Algo se mexendo era praticamente ridículo. Tomei a mão de Edward e coloquei-a no lugar da minha, tentando fazê-lo compreender o que eu queria dizer. E ele continuava a me olhar daquela forma apavorante.
_Edward, assim eu vou ficar com medo. – Eu nem conseguia me vestir.
_Precisamos mesmo ver Carlisle. – Ele disse, finalmente. Respirei aliviada, e iniciei minha tarefa de vestir-me.
_Espero que ele tenha uma boa idéia do que seja isso, não estou gostando nada. Imagine, eu agora sinto coisas.
_Bea… – Edward voltou-se para mim, depois de recolher o livro no chão, e me segurou as duas mãos. – Bea, você não tem mesmo idéia? – Balancei a cabeça negativamente, olhando em seus olhos. – Você sabe qual era meu maior medo em relação a você? O que eu não podia prever… o que nenhum de nós podia prever? Você sabe o risco que corremos quando decidi… sucumbir a você?
_Risco? Do que você está falando, Edward?
_Eu acho que você está grávida, Beatrice.

Oh. E a reação dos olhos verdes ficaria realmente em terceiro lugar. Eu sempre conseguia me superar em esquisitices, e aquela era a esquisitice maior entre todas elas reunidas. O show estava completo, e não haveria lugar para tantas anormalidades em minha vida. Onde estaria o meu conceito de normalidade frente uma situação daquelas? Eu puxei as minhas mãos de volta, e comecei a andar em círculos. Nada daquilo era possível, nada daquilo era razoável. E tudo veio à minha cabeça de uma só vez. Híbridos não geram filhos de vampiros. Híbridos não se casam, não procriam. Híbridos não vivem sob o sol. Híbridos são monstros, e você nada mais é do que uma aberração, um erro da natureza. Híbridos não amam, eles não se apaixonam e não se submetem aos desejos humanos. Híbridos não se alimentam de comida. Híbridos não se envolvem com vampiros, de forma alguma.

Onde estava o meu conceito de normalidade, então?

Uma mulher podia gerar filhos. Um ser humano. Eu era um corpo morto ambulante. Não podia gerar vida dentro de mim. Edward era um morto, também. Nunca, de nenhuma forma aceitável, nós dois poderíamos conceber uma vida.
_O que diabos é isso? – A familiaridade com a linguagem mundana.
_Bea, venha aqui. – Edward segurou-me entre os braços, mas eu ainda sentia meu corpo se mover. Eu tremia… e o movimento dentro de mim retornou. – Acalme-se, você pode ter um colapso. Vamos ver Carlisle… eu estou só supondo.
_Edward, eu não posso ter filhos. – Olhei para ele, mais irritada do que assustada. Eu estava definitivamente irritada. – Eu sou um monstro, você sabe disso?
_Você não é. – Ele me beijou os cabelos. – Você é aquela que eu amo… tudo que fizemos até agora foi arriscado… havia a possibilidade, porque ninguém conseguiu descartá-la. Você provavelmente pode gerar filhos, e você provavelmente está grávida, agora.

Antes que eu pudesse livrar-me de seus braços para protestar mais uma vez, o quarto foi invadido por Alice. Secretamente, agradeci por ter conseguido forças para vestir-me.
_Eu estou chocada. – Alice disse, voz visivelmente perturbada. – Edward, diga-me que você não chegou à mesma conclusão que eu?
_Sim, eu cheguei. – Ele me mantinha presa a ele. – Parece meio lógica… desde quando?
_Eu vi ontem à noite. Mas eu me recusei a acreditar… porém agora a visão veio mais precisa.
_Desde quando?
_Não sei… mas a gestação não será longa.
_Isso é mesmo verdade? – Eu me desprendi dos braços de Edward e voltei-me para Alice, que não sabia se sorria ou gritava de medo. Eu estava apavorada, imaginava como se sentiam os vampiros. – Eu estou mesmo gerando um filho?
_Sim. – Alice confirmou, balbuciando.
_Eu preciso sair. – Caminhei para a porta. – Edward, eu preciso sair… sozinha. – Eu já o sentia próximo a mim, mas eu precisava de um tempo. – Nada vai me acontecer, não vou me afastar muito. Por favor, deixe-me.

Eu vi quando Alice entrou na frente do irmão, assentindo com a cabeça. Edward resignou-se, e me deixou sair pela porta dos fundos, rumo à trilha na floresta. Alice devia saber que nada me aconteceria, ela só precisava que Edward aceitasse aquilo. Eu tinha que ficar sozinha, mesmo que a vertigem me acometesse novamente. Eu precisava raciocinar sobre tudo aquilo. Um fato tão simples se tornou tão enormemente grande que eu não sabia como lidar com ele. Antes, uma vertigem. Depois, uma gestação. Pus-me a caminhar por entre as árvores, mãos na cabeça, sem muita noção de para onde ir. Eu não podia afastar-me, prometera a Edward. Mas como me controlar?

Eu carregava ali, dentro de mim, uma vida. Aquilo não fazia sentido algum. Eu estava morta. Era como eu considerava, era o que eu sabia. Eu fora transformada em um ser imortal quando tinha 20 anos, e desde então a minha vida se resumiu à clausura total. Eu estava morta. Edward também. Mas ambos geramos um filho. Não, nada fazia sentido. Dois organismos mortos não podiam dar vida a outro, podiam? O quanto aquilo desafiava as leis da ciência? O quanto aquela concepção poderia desafiar o lógico, o racional, o óbvio?

E então eu me dei conta de que tudo na minha existência era contrário às leis da ciência.

Mortos não andam, comem ou falam. Seres míticos são lendas que os humanos contam aos seus filhos, para amedrontá-los. Eu era uma fábula, um conto de terror. Se eu mesma não devia existir, que diferença faria a existência de meu filho? Se eu era uma aberração, conceber uma criança não poderia ser nada tão mais errado… era só outro item anormal na minha existência surreal. Além de me alimentar de sangue e ser imortal. O quanto um filho poderia causar de estranheza? Eu mesma era contra as leis da ciência. Eu era contra qualquer tipo de lei existente. E assim o era Edward. Até que ponto nós dois concebermos uma criança poderia ser considerado mais estranho do que toda a nossa existência já era?

E foi quando meu ventre mexeu-se mais uma vez que eu raciocinei a única coisa que realmente importava. Se eu estava grávida – e daquilo eu não poderia duvidar uma vez que a confirmação viera de Alice, eu carregava em meu ventre um pedaço de Edward. Seus genes. Eu tinha dentro de mim um pedaço do vampiro que eu amava; o vampiro que me havia dado sentido à ‘vida’. Ali, dentro de mim. Edward. Era só isso que importava.

Voltei para a casa para encontrar Edward no jardim, ansioso, visivelmente nervoso. Eu nunca o vira daquela forma.
_Beatrice. – Ele me abraçou, de uma forma também desconhecida. Não havia desejo, apenas preocupação. Ele me abraçou exatamente como se aquela fosse a última vez que ele fosse me abraçar, como se toda a certeza que residia dentro dele se tivesse esvaído. – Você demorou…
_Não tanto assim, Edward. – Meus braços envolveram sua cintura bem devagar. – Eu precisava de espaço para pensar.
_Carlisle quer te examinar. – Ele disse. – Ligamos para ele; ele considera que precisa fazer vários testes em você. Ele quer ter certeza… quer garantir que está tudo bem. Se você quiser, nós podemos…
_Você não pode nem pensar no que eu acho que você está pensando. – Falei, respirando fundo. Eu tinha certeza que sabia exatamente o que se passava na cabeça de Edward, porque a mesma coisa já tinha se passado na minha, durante a caminhada na floresta. Todas as coisas, possíveis e impossíveis, passaram por minha cabeça, era fato. Eu pensei em todas as possibilidades, existentes ou não, para o que estava acontecendo comigo. Uma forma de eliminar aquilo, uma forma de me livrar, uma forma de fazer dar certo…
_Agora você é quem lê as mentes? – Ele riu, tentando me distrair.
_Edward, eu não estou brincando. – Falei seriamente, e ele me olhou. Tentativa frustrada, então. Pobre Edward, lidando com uma híbrida alucinada. – Não pense em nada que não seja alegre e feliz. Eu estou me sentindo em um mundo mágico e irreal, e só estou esperando para acordar. Nada faz menos sentido do que eu carregando uma criança no ventre, mas eis que isso aconteceu. Eu não podia estar me sentindo mais completa e assustada do que estou agora.
_Você… você está bem quanto a isso? Quanto a… ter um filho meu?
_Claro que sim! – E eu estava aborrecida novamente. – Edward Cullen, eu te amo! Como poderia não estar bem em relação a isso? Sim, eu estou aterrorizada. Eu estou apavorada, e uma fragilidade que eu desconhecia se abateu sobre mim. Mas ao mesmo tempo é como se eu fosse o ser mais abençoado que existe na Terra.

Edward manteve-me pressionada contra seu corpo por algum tempo, mais do que eu poderia suportar sem respirar. Mas ele não pretendia me prejudicar, ele só estava tentando restabelecer a certeza. Ele estava tentando restabelecer o sentimento correto dentro de si, e não o pavor inicial da descoberta. Com um cuidado exagerado, ele me levou até o hospital de Carlisle, dirigindo o seu Volvo em uma velocidade inimaginável. Tão devagar que carros humanos passaram por ele. Mas eu não reclamaria, nem tinha do que reclamar. Ele estava simplesmente sendo cuidadoso comigo, e eu não sabia nada sobre aquela condição em que me encontrava.

No hospital, Carlisle parecia tão perdido quanto todos. Ele não sabia por onde começar os testes, e nem que tipo de testes meu organismo poderia permitir. Ele sabia que eu rejeitava agulhas, e que a simples entrada de um objeto externo potencialmente nocivo faria com que meu corpo o expelisse, sem sobreavisos. O primeiro exame, então, foi físico. Carlisle pediu que eu me deitasse em sua mesa e que elevasse minha blusa, a fim de que ele pudesse observar o meu ventre. Eu tinha certeza que aquela manifestação – o inchaço em minha barriga – não estava ali dois ou três dias atrás. O médico, delicadamente, pressionou os dedos contra minha pele, fazendo o inchaço aumentar e diminuir. Senti algo mexer novamente, e aquilo me incomodou.

_Ora vejam. – Carlisle sorriu, aquele sorriso que não identificava se ele estava triste ou feliz. – Realmente, tem algo aqui.
_Eu… – Edward aproximou-se, sempre ansioso demais. Eu tentava de todas as formas agir como Jasper, acalmando a situação, mas nunca conseguia. Por mais tranquila que eu tentasse aparentar, mais ansioso ele se mostrava. – Posso?

Carlisle deu espaço para que Edward se aproximasse mais, e passou os dedos suavemente por sobre meu ventre.
_Ele se mexe bastante. – O médico então riu, e eu senti um alívio redundante. Carlisle segurou uma das mãos de Edward e a colocou exatamente por sobre o local que estava se mexendo há segundos atrás. O toque frio de Edward demonstrava apreensão, mas aos poucos ele relaxou e deixou seus dedos acariciarem minha pele, enquanto sua outra mão livre segurava a minha. Novamente, eu senti algo mexer dentro de mim. Daquela vez, um desconforto aparente que logo passou.
_Oh. – Edward puxou a mão, instintivamente. Seus olhos não me faziam compreender suas emoções, e novamente eu estava apreensiva. – Isso é… uma confirmação, certo?
_Sim, não preciso de muitos exames para constatar uma gravidez quando o bebê se mexe.

Bebê. Meu cérebro não absorveria aquela palavra muito facilmente. Bebê. Senti uma onda de calor me invadir, calor que eu não sentia, calor que era humano demais, e imediatamente minha consciência pretendeu deixar-me. Tudo ficou escuro, a imagem de Edward desapareceu e meus dedos afrouxaram os seus. O mundo girava freneticamente, e eu não imaginava como fazê-lo parar. A vertigem. Retomei os sentidos alguns instantes depois, e me peguei nos braços de Edward, os dois vampiros me olhando com total apreensão.
_Você vai fazer muito isso? – Edward respirava lentamente. – Avise-me, Bea… para que eu me prepare.
_Acalme-se Edward… mulheres grávidas, nesse estágio, geralmente sofrem desmaios e enjôos freqüentes.
_Que estágio? – Eu perguntei, ainda tentando absorver tudo.
_Bem, o que Alice falou sobre a gravidez? – A pergunta era para Edward.
_Que a gestação não seria longa.
_Então… eu considero que não será mesmo longa. Beatrice está grávida demais… e como não observamos essas mudanças em seu corpo antes, é provável que ela tenha acumulado vários meses de gravidez em apenas semanas. Se eu estiver correto, ela está demonstrando uma gravidez de umas 16 semanas…
_Tudo isso?
_Pode ser uma semana por mês, da gestação humana. É uma possibilidade, mas não existem muitos casos como o seu para podermos pesquisar, Bea. Eu teria que fazer diversos testes, infelizmente alguns que seu organismo não permite.

Carlisle era mesmo muito sábio. Desde que Edward o avisara sobre a gravidez, durante o meu afastamento repentino pela manhã, ele havia feito pesquisas. Ele precisava saber tudo sobre meu caso, mas aparentemente os humanos – e os vampiros – não tinham muitas situações semelhantes para retratar. E não era por menos, os híbridos foram banidos do território humano por séculos. E ainda o eram. Como poderia haver relatos de híbridos engravidando, seja de vampiros ou humanos? Sequer os vampiros eram autorizados a vagar sob o sol, então realmente, os relatos não seriam muitos.

_Carlisle… – Edward ajudou-me a levantar, e se aproximou do pai. – Como poderemos contabilizar os riscos?
_Eu também não sei. – O médico considerou, franzindo as sobrancelhas. – Como não sei nada sobre essa gravidez, não posso considerar os riscos. Existem diversos relatos demoníacos que tratam da morte, da geração de monstros. Até mesmo do anticristo. Mas todos esses relatos dão conta de humanos… e Bea é muito mais forte do que qualquer humano. A sua capacidade extraordinária de regeneração também torna a coisa muito mais intrigante.
_Eu não me preocupo com isso. – Falei, segurando firme a mão de Edward. – Creio que o único risco que corremos agora é o fato de aumentarmos a família Cullen em um indivíduo.
Minha brincadeira, sarcástica o suficiente para o momento, fez com que Carlisle desse uma gargalhada. Edward não sorriu, apenas olhou para mim daquela forma que só ele sabia.

E meu vampiro não falou mais comigo, nem depois que chegamos em casa. Nem depois que a vertigem me acometeu mais uma vez, e eu precisei sentar no sofá branco enorme da sala. Ele ficou apenas ao meu lado, como se me velasse.
_Isso não pode ser verdade! – A voz de Rosalie foi ouvida pela porta.
_Calma, Rose… digamos que Alice viu, Carlisle confirmou, e agora eu estou doido para checar. – Emmett vinha logo atrás.
_Cale a boca, Em! – Rosalie parecia irritada. – Eu não acredito que essa híbrida está… grávida!!!
Sempre que Rosalie desejava despejar sua animosidade sobre mim, ela recordava a minha origem. Híbrida era uma palavra de baixo calão, para ela. Eu não sabia os motivos da irritação de Rosalie, mas ela simplesmente passou por mim bastante insatisfeita, e me olhou com ferocidade. Edward cerrou os punhos e encarou a irmã de volta, em uma daquelas conversas silenciosas que eu só o via ter com Alice. Emmett deu de ombros, como que pedindo desculpas pelo comportamento exagerado da companheira. Em poucos segundos, Alice e Jasper chegaram, com um humor completamente diferente.

_Beaaaa! – Alice jogou-se para o meu lado, abraçando-me com força. Edward novamente cerrou os punhos, mas Alice só mostrou-lhe a língua. – Como você está se sentindo? E o bebê? O que Carlisle disse? Vamos, eu não leio mentes…
_Eu estou bem. – Disse, desvencilhando-me do abraço. – E o… bebê…
_Difícil aceitar, hem? – Ela compreendeu. Jasper deu uma risadinha, e Edward manteve-se impassível. – Não se preocupe… vai ficar tudo bem, eu sei.
Alice era um grande alívio. Quando ela afirmava que tudo ia ficar bem eu me sentia como se ela fosse a profeta do apocalipse, sem prever o apocalipse, claro.
_Jasper, podemos nos falar? – Edward finalmente disse alguma coisa, e saiu com o irmão para a cozinha. A principal função da cozinha podia ser aquela. O refúgio de Edward para falar algo privado, escondido de mim. Alice percebeu que eu me senti aborrecida com algo, e sentou-se ao meu lado tão logo os rapazes deixaram a sala.
_Não se incomode, Bea. Ele… vai superar. Assim como você.
_Alice… Rosalie também não parece satisfeita com o que aconteceu. – Sim, eu estava aborrecida.
_Rosalie… era de se esperar.
_Por quê?
_Porque Rosalie sempre sonhou em ter filhos, quando humana. Agora ela é vampira, e não pode mais. Vampiros não geram filhos… pelo menos, não as fêmeas. Agora, você… você não é um vampiro. Por mais que você seja parecida com um, você tem uma grande parte humana. Se corpo é muito humano. Você nem reluz ao sol. Então, você pode abrigar um bebê durante uma gestação.
_E ela então me culpa porque eu estou grávida.
_Ela também vai superar, Bea. Todos vão… o que está acontecendo aqui é chocante. É algo totalmente inesperado… mas é bom.
_Você acha que… eu corro algum risco? – Eu tinha que perguntar, até mesmo para forçar Alice a pensar naquilo e Edward acalmar-se.
_Se corresse, eu teria visto.
_E… você já sabe como isso vai acabar?
_Sim!
_Sabe se meu bebê será…
_Menino ou menina? – As palavras que me faltavam sempre sobravam em Alice. Ela era vivaz demais, ela era fenomenal. Se eu não soubesse que ela era uma vampira, eu juraria que Alice era uma humana. – Sim, eu sei! – Ela se levantou, e riu. – Mas nem pense que eu vou te contar, Beatrice Caldwell! Nem você nem Edward ficarão sabendo… será uma surpresa!!

Alice saiu cantarolando pela casa, a fim de resgatar Jasper das garras cruéis de Edward. Eu me recostei no sofá, respirando lentamente. Meu ventre estava agitado, eu sentia o… bebê se mexer constantemente. Talvez o meu estado de espírito o afetasse. Era um talvez, porque eu nada entendia de proles. Mas eu estava tão agitada e tudo estava acontecendo tão caoticamente que era de se esperar que o… bebê… estivesse sentindo o ambiente. Edward deixou a cozinha, subiu as escadas, demorou-se por alguns minutos e depois retornou para o meu lado. Eu estava definitivamente aborrecida, mas tentando me manter calma. Minha mão direita repousava sobre meu ventre, como que embalando o que estivesse ali dentro. Ele me observou, por alguns instantes, e se ajoelhou à minha frente.
_Bea… – ele deitou a cabeça em minhas pernas, visivelmente chateado. – Desculpe-me por deixar-te assim. – Suas mãos enlaçaram minha cintura, e eu senti novamente o alívio bom que ele me causava. Não era o mesmo alívio de Alice, o alívio ‘tudo-vai-ficar-bem’. Era o alívio ‘mesmo-que-nada-fique-bem-estarei-com-você’. Eu nem sabia qual deles preferia. – Eu só… desculpe-me, eu só precisava do meu tempo para colocar algumas coisas no lugar.
_Tudo bem. – Eu acariciei seus cabelos de fogo. – Muita coisa de uma só vez, certo?
_Sim, muita coisa. – Ele elevou seu olhar, e concentrou-se em meus olhos púrpura por um instante. – Eu nem tive tempo de dizer… bem, eu acho que não tive tempo de processar o quanto tudo isso é… importante para mim. Eu te amo e pretendo amar por toda a minha existência. Agora, você está me proporcionando algo que eu nunca imaginei ser possível… eu não tive tempo de processar como eu sou feliz.

Os lábios de Edward alcançaram os meus no mesmo instante em que eu me curvei para ele. Aquela era a sensação que eu desejava sentir por toda a eternidade, os lábios de Edward nos meus.





(Cap. 20) Capítulo 19 - Maternal

 

*tema: Bryan Adam’s When You Love Someone*

Estar grávida não era divertido. Eu jamais considerei que fosse, principalmente porque eu jamais considerei a possibilidade. Eu ignorava que as híbridas pudessem gerar filhos indistintamente, ainda mais considerando um vampiro como pai. Todas as décadas de ignorância caíram por terra com o meu pouco tempo entre os Cullen. Eu estava com eles há quase um ano, então. Minha chegada, a escola, o inverno, as férias de primavera, e mais acontecimentos… e eu estava ali, há meses. Nada significativo se comparado à minha experiência secular. Eu tinha tantos anos de vida quanto podia recordar-me, e praticamente não tinha visto ou vivido nada. Aqueles poucos meses entre os humanos, sob a luz do sol fraco e pálido de Forks, me fizeram outro ser. Eu gostaria de dizer, e por que não, outra pessoa. Mas eu considerava estar no meu melhor momento ao lado do vampiro que eu amava quando descobri-me gerando um filho. Mais aberrações, mas eu estava decidida a não me importar com detalhes insignificantes quando tudo que eu mais queria estava exatamente ao meu lado.

Eu estava inchando, a cada dia. Carlisle estava assombrado com a rapidez com o que o meu filho se desenvolvia. Ele fez alguns cálculos e considerou que a minha gravidez era equacionada de forma simples, ou seja, cada mês de gestação para os humanos representava uma semana para mim. E em pouquíssimo tempo e já estava inchada o suficiente para não caber em roupa nenhuma, dando a Alice a sua tão esperada chance de sair comigo para comprar-me roupas. Eu não podia passar os dias vestindo as camisas de Edward, segundo ela. Não que eu me importasse, pois Edward tinha um aroma delicioso. Eu sinceramente me sentia extasiada em poder passar o dia inteiro vestindo algo dele, sentindo o cheiro dele como se ele estivesse comigo o tempo todo. Mas Alice insistia que eu precisava de roupas. Algumas poucas, só para as próximas semanas, era a sua idéia.

Eu não podia mais ir à escola, pois os humanos não concebiam a idéia de que uma gravidez pudesse durar nove semanas, e não nove meses. Não seria possível manter o disfarce dos Cullen se eu aparecesse tão grávida na escola, e menos ainda se tivesse meu bebê em pouco tempo. Carlisle achou mais prudente que Edward contasse a todos que eu adoecera nas férias, e quando o bebê nascesse outras providências poderiam ser tomadas. Ao menos, em pouco tempo eu estaria com meu corpo completamente recuperado e aquilo significava retorno às atividades normais. Edward insistiu em ficar comigo, durante aquelas semanas, mas eu recusei veementemente. Ele não podia deixar de cumprir as suas atividades porque eu estava impossibilitada de fazer as minhas. Era novo para mim, mas passávamos grande parte do dia separados. E não podíamos fazer programas em Port Angeles como sempre, pois meus amigos humanos podiam encontrar-me ocasionalmente. E eu definitivamente não estava apta a esconder minha gravidez quando ela chegou à sexta semana, ou sexto mês, para os humanos.

A minha companhia diária era Esme. A mãe da família Cullen, quem poderia me ensinar um pouco a me tornar uma. Eu idealizava ser uma mãe como Esme. Ela não teve a experiência de cuidar de um bebê, mas ela era mãe de Edward e dos demais. E esposa de Carlisle. Uma mulher ideal, eu pensava. Um exemplo que eu gostaria de seguir, então.
_Não se preocupe, Bea. – Esme disse, enquanto organizávamos algumas roupas para a lavanderia. Era outra tarde normal, sem qualquer interferente que me fizesse ansiosa demais. – Ser mãe é instintivo. Você vai se sair bem, todas nós vamos.
_Todas serão mães do meu… bebê, certo? – Não havia muito como fugir daquela realidade.
_Acredito que sim. Você está realizando um sonho particular de Rosalie, e apesar de todo o rancor que ela tem demonstrado, eu imagino que quando ela vir o bebê vai se tornar a mais zelosa tia que já se teve idéia. Alice é menos empolgada com crianças, mas ela também é mulher. E eu… eu me tornei vampira exatamente porque não suportei perder meu filho. O quanto você acha que anseio por um bebê em meus braços?

Muito, eu realizei. Quase de forma assustadora, pensei. Tantas mães para uma só criança. Talvez aquilo tornasse mais simples o meu fardo, o fardo de assumir toda a responsabilidade pelo ocorrido. Edward se culpava pela gravidez, constantemente. Se eu não estivesse reagindo tão bem, ele certamente teria um colapso nervoso. Se a vertigem não tivesse parado dias depois, e se meu organismo não estivesse respondendo satisfatoriamente a todas as mudanças da gravidez, Edward seria um problema para se considerar. Ele se culpava, acreditando que deveria ter feito algo para impedir. Aquele pensamento dele me aborrecia consideravelmente, porque eu estava feliz com a gravidez. Não era divertido, mas eu me sentia plena, sabendo que gerava em meu ventre um filho de Edward. E a responsabilidade de fazer tudo aquilo dar certo, principalmente para manter Edward calmo e satisfeito, era imensa. Saber que podia dividi-la com Esme, Rosalie e Alice era reconfortante.

_Edward, você não vai monopolizar a Bea hoje! – Alice protestou com o irmão, em uma outra tarde chuvosa. O tempo mais quente trazia chuva, e a chuva era sempre gloriosa. Água do céu para amainar o calor intenso do sol. Água para alimentar a sede da terra, para nutrir as plantas e os animais. Água da qual eu não precisava, mas que mantinha toda aquela beleza ainda mais linda.
_Alice, eu passo metade do dia sem ela. Agora você pretende roubar-me Beatrice nos fins de tarde?
_Só hoje, Edward. – Alice sorriu, já se sentindo vitoriosa. – Vamos comprar roupas para ela.
_Alice… – Eu cogitei protestar. Alice fez um gesto com as mãos significando que aquele argumento já estava antigo. Definitivamente, argumentar com a pequena Cullen era quase inútil.
_Pode deixar, Edward… vamos a Seattle, já que Port Angeles é complicado.

Alice me segurou pela mão e me puxou pela porta. Olhei para Edward enquanto era levada pela varanda, em direção ao carro de Alice – que não era mais discreto do que o carro de Edward. Senti algum pavor, então… uma sensação de pânico que pensei não pertencer a mim. Eu não queria sair de casa, eu não queria deixar aquele lugar confortável. Talvez aquela fosse outra característica da gravidez, o apego exagerado a detalhes que antes não me prendiam.
_Alice. – Edward falou, vindo atrás de nós. – Deixe-me ao menos ir com vocês… – Meus braços procuraram a cintura de Edward no mesmo instante em que ele se aproximou, e eu afundei minha face em seu peito, como fazia quando tinha medo, ansiedade, agonia. Ele me afagou os cabelos e beijou a testa, encarando a irmã. – Ela quer.

Alice deu de ombros, e jogou as chaves para Edward. Ele as devolveu para a irmã, sorrindo. Ela entendeu que ele iria comigo daquela vez. Ele iria ao meu lado, me amparando durante a viagem. Aquela talvez fosse a reação mais irritante da gravidez, a total ausência de racionalidade em tudo que eu fazia. Era como se meu cérebro estivesse nublado, e eu não conseguisse ver nada com objetividade. Edward inclusive chegou a implicar, afirmando que eu estava mais confusa do que de costume. Era deveras irritante, eu precisava admitir. Eu sentia a falta de Edward como se ele fosse o responsável por saciar a minha sede. Minha dependência estava tão absurda que eu sofria todos os instantes em que ele estava na escola, e quando ele retornava eu só desejava manter-me presa a ele.

Talvez por isso ele tenha estado comigo durante todos os instantes em que eu ansiava por ele. Talvez por isso seu simples olhar fizesse com que Alice compreendesse que não era ele quem precisava de mim desesperadamente, mas o inverso.

Seattle ficava bem mais longe do que Port Angeles, mas com Alice ao volante chegamos em muito pouco tempo. Ela dirigia ainda mais enlouquecidamente do que Edward… era quase como se ela voasse. E a estrada estava vazia, o que a permitiu explorar todas as suas habilidades. Como a cidade era grande o suficiente para que eu não fosse notada, seria seguro transitar pelas ruas ao lado de dois vampiros. Mãos segurando as de Edward, Alice falando como se estivesse ligada em uma bateria, a tarde seria muito prazerosa.
_Você quer comer alguma coisa? – Edward sussurrou em meus ouvidos, enquanto carregava diversas sacolas. As pequenas compras de Alice renderam uma visita a cinco lojas diferentes, e despenderam o absurdo de mais de mil dólares americanos. Somente com algumas roupas para eu usar por menos de três semanas! Se eu tivesse sucesso em completar a gravidez, porque Carlisle não conseguiu esconder a possibilidade de que o parto pudesse se antecipar.
_Comida humana? – Fiz uma careta. – Não… faz algum tempo que não tenho a menor vontade de comer alimentos humanos.
_Deve ser o bebê. – Alice intrometeu-se. – Mulheres grávidas sempre têm desejos esquisitos.
_Ah, beber sangue é esquisito para mim… – O sarcasmo nunca tinha me abandonado.
_Preferia que você não precisasse sair para caçar nessas condições. – Edward mostrou-se aborrecido com o fato de eu preferir sangue durante a gravidez. Na verdade, eu tinha verdadeira aversão à comida humana desde os momentos de vertigem. Eu sequer arriscava comer algo, pois meu organismo rejeitava a simples idéia de alimentar-me com todos aqueles aromas e cores. Eu queria sangue, e mataria um humano se fosse preciso.
_Sinto muito, Edward, mas eu não consigo. Eu deixo você pegar as presas para mim, se acha mais conveniente.

Ele me beijou a testa, mas nada aliviado. Sua preocupação era sustentável, mas eu não podia impedir meu corpo de querer o sangue, apenas. Voltamos para casa depois que a luz do dia já se havia findado, e eu estava definitivamente cansada. O bebê me esgotava, mesmo quando eu não fazia nada espetacular. Ele era grande, pesado, desenvolvia-se rapidamente e sugava toda energia que eu podia ter. Ainda, ele era muito forte. Mais forte do que eu, e aquela era a preocupação de Carlisle. Eu não me preocupava muito a esse respeito, porque ele não me machucaria. Ele era meu filho! Quando ele exagerava e me causava alguma dor, mesmo que houvesse uma ruptura de membrana ou algum edema, a lesão superficial imediatamente se curava. Mas a regeneração cobrava o alto preço da sede eterna. Eu tinha duas vezes mais sede do que antes, e parecia insaciável. Além do cansaço inevitável.

 

***** Enquanto isso, no covil dos Caldwell *****

_Jasmine! – Felicia chamou a híbrida jovem, aos gritos. – Jasmine!!
_Sim, senhora. – A moça, vestindo longas saias brancas, se apresentou. Seus cabelos eram infinitamente loiros, e seus olhos ainda brilhavam como a noite.
_Jasmine, eu vou me ausentar por alguns dias. Se Rudolph perguntar, você terá que mentir.
_Mentir, senhora?
_Sim. A quem deve mais lealdade, Jasmine?
_À senhora. – A híbrida baixou o olhar, resignada.
_Então, minta. Você dirá a Rudolph que eu estou doente, e fui levada à quarentena. Diga que o sangue me fez mal… que fui contaminada.
_Aonde a senhora vai? – Jasmine perguntou, curiosa.
_Vou avisar minha filha sobre o destino que a aguarda.

Felicia Caldwell deixou o covil às pressas, durante o dia, ciente de que Rudolph não estaria caçando. Era providencial que os machos não se misturassem com as fêmeas, assim ela teria tempo. Tempo era o seu maior inimigo naquele instante, e Felícia precisava ser veloz. Segurando entre as mãos o tecido florido de seu vestido do século retrasado, a híbrida embrenhou-se na floresta em busca de seu aliado. Ela poucas vezes havia deixado o covil, mas ela tinha um aliado que lhe devia favores. Estava na hora de cobrá-los.

A híbrida não se demorou em encontrar a cabana aparentemente abandonada, que se escondia por entre samambaias e cipós, já aos pés da grande colina. Respirou fundo, adquiriu coragem, e bateu à porta. Uma vez, duas vezes, três vezes. A figura sombria e morena, duas vezes maior do que ela, abriu a porta empenada de madeira. O cheiro de mofo era angustiante.
_O que você quer, híbrida? – O homem alto perguntou, voz rouca como trovão.
_Preciso de um favor. – Felicia entregou um pedaço de tecido ao homem. – Preciso que encontre essa pessoa.
_Não faço mais alianças com os híbridos, Felicia.
_Você me deve, lobo. – A híbrida cerrou os dentes, adquirindo coragem. – Você me deve e sabe disso. Não quero aliança, quero que encontre essa pessoa. Depois não precisaremos nunca mais nos falar.

O homem franziu o cenho e saiu da frente da porta, para que Felicia entrasse. A híbrida não se sentou, ficou apenas observando o homem que cheirava o pedaço de tecido, comprimido entre seus dedos. Seus olhos já estavam fechados, e ele parecia concentrado.
_O rastro dela já se foi. – O homem constatou. – Faz muito tempo, certo?
_Sim… quase ano. – Felicia desanimou-se.
_Como você é tola, híbrida! Acha que posso rastrear alguém depois que as chuvas lavaram toda a floresta? O que pensa que somos?
_Cães farejadores! Animais, estou errada?
_E a aberração da natureza considera que tem moral para me adjetivar-me com palavras cruéis? – O homem riu, a voz novamente grave e poderosa. – Você é uma morta viva, híbrida. Vamos, não tenho mais tempo a perder. Volte para seu covil. Não posso encontrar a pessoa.
_Mas eu preciso. – Felicia insistiu, um tanto insatisfeita em ter que implorar a ajuda do lobo. – William, eu preciso encontrar Beatrice. Ajude-me.
_Ela é assim tão importante? – O homem franziu-se novamente. – Importante a ponto de você precisar… se sujeitar a me pedir?
_Sim, ela é. – Felicia respirou fundo. – Preciso encontrá-la, diga-me o que fazer.
_Bem, podemos ser lógicos. – Ele ponderou. – Se ela deixou o covil e você não sabe para onde foi, é provável que não esteja na região. Ou seus caçadores já a teriam encontrado. Podemos visitar os Cullen, a dois dias de viagem.
_Quem são os Cullen?
_São vampiros. – O homem fez uma careta, enojado pela lembrança que lhe veio à mente. – Eles dominam uma região próxima, e são muito sociáveis. Talvez tenham ao menos ouvido falar de Beatrice.

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Depois de um cochilo, condição outra que a gravidez passara a me proporcionar, decidi que precisava de um banho. Eu era aquela que costumava me banhar, e por isso o banheiro do andar de cima era praticamente exclusividade minha. Era interessante como os vampiros acumulavam poucas impurezas em seus corpos. Aquela minha faceta humana poderia ser irritante, mas eu costumava gostar do banho. Ele era relaxante, e naquelas condições eu precisava mesmo relaxar, manter o organismo trabalhando em velocidade normal. Regulei o chuveiro para uma temperatura morna – como se aquilo fizesse diferença em minha pele gélida – e entrei sob a água, deixando-a lavar meus cabelos e remover as marcas do dia. Concentrei-me a observar meu corpo, naquele instante. Eu sempre tive o mesmo corpo, desde sempre. Desde que me recordava. Como eu poderia estar tão inchada, tão crescida. Como meu ventre podia ser tão elástico a ponto de expandir daquela forma tão irreal?

Eu estava imersa na água e nos pensamentos quando ouvi um ruído por trás de mim, e virei-me instintivamente, ansiosa. O acontecido remeteu-me há tempos atrás, quando eu tentava sorver o sol no jardim dos Cullen. Meu nariz imediatamente se chocou com algo que estava logo atrás de mim, e mãos muito firmes me ampararam pelos braços, para que eu não caísse. Elevei o olhar e me deparei com o sorriso suave de Edward, e seus olhos amarelados como se estivessem mais uma vez diluídos só para mim.
_Calma, meu amor. – Ele disse, me abraçando. – Eu não queria te assustar, mas você estava tão concentrada…
_Edward o que você…
_Eu queria ficar com você. – Ele disse, acariciando meus cabelos molhados. – Achei que fosse uma boa idéia te ajudar a lavar os cabelos… você não precisa de ajuda? Eles são tão longos… – Respirei fundo, enquanto ele passava os dedos cheios de shampoo por meus cabelos e deixava a água enxaguá-los. Senti eletricidade percorrendo meu corpo, e uma vontade insuportável de sucumbir nos braços de Edward. – Faz algum tempo…

Ele não precisaria completar a frase, e eu não precisaria ler mentes para saber o que ele pensava. Fazia mesmo algum tempo que não nos tocávamos de nenhuma forma íntima. Eu estava frágil, e extremamente mal humorada. Meu organismo estava em pane e eu mal podia suportar a mim mesma. Minha carência era difícil de lidar, até mesmo para mim. E meu corpo parecia detestavelmente inadequado. Tudo parecia inadequado, era verdade. Eu era a própria inadequação.
_Eu pensei que você não tomasse banho todo dia. – Sarcasmo, como de costume. Não podia perder meu eloquente charme.
_E eu não tomo. – Ele terminou de lavar-me os cabelos, e seus dedos tatearam pelo box em busca de algo. O sabonete líquido tocou minha pele causando ansiedade, e minha respiração se acelerou. Em contrapartida, meu coração praticamente parou de bater. Edward interrompeu seu ato e se afastou alguns centímetros, mordendo o lábio inferior. – Talvez isso não tenha sido uma boa idéia.
_Não. – Eu meneei a cabeça para os lados, ainda tentando recuperar os batimentos cardíacos. – Não… foi uma boa idéia.
_Você me parece muito contraditória. – Ele sorriu, e eu não me importei com mais nada. Aproximei-me o máximo permitido de Edward e o beijei, sob a água delicada que caía do chuveiro. Ele me abraçou pela cintura, com todo cuidado possível, acariciando suavemente minhas costas. Era uma sensação boa demais para que eu ficasse tanto tempo sem. Mas eu não estava sendo lógica, e por isso afastei-me repentinamente de Edward, colocando-me de costas para ele. Respirei algumas vezes, esperando que ele fizesse algo ou me deixasse falar.
_Edward, você não deveria estar me vendo assim. – Levei as duas mãos à face, como que escondendo-me do óbvio, embaraçada.
_Eu acho que já te vi assim o suficiente para você se importar, agora. – Ele parecia genuinamente confuso.
_Mas eu estou… eu estou anormal. – Eu não pretendia encará-lo novamente. – Eu sei que nunca fui afeita às vaidades mundanas; e que isso é coisa da Alice, mas… eu me sinto horrível. Não sou a Beatrice que você teve em seus braços pela primeira vez.

Edward se aproximou, e me envolveu com seu corpo, sem forçar-me para si. Ele embalou meu ventre por entre seus braços longos, posicionando suas mãos exatamente onde eu sentia o desconforto do peso do bebê. Era como se ele soubesse que ele estava ali… seus lábios tocaram meus cabelos, e eu senti o ventre mexer, rapidamente.
_Bea, você está diferente. Era de se esperar que estivesse; você está se transformando para poder abrigar nosso filho até o seu nascimento. Mas isso não te faz horrível. Eu te amo como sempre te amei, eu quero você como sempre quis, e eu só não perco o controle mais facilmente porque eu sei que ele não gosta muito dessa intimidade.
Ou Edward era inacreditavelmente bom com as palavras ou eu era inacreditavelmente fácil de convencer. Ou ambos. Ele nunca precisava de muito esforço para me fazer mudar de idéia, para me dominar totalmente. Eu sentia, uma impressão muito firme, que ele exercia uma atração insuportável sobre mim. Como um tipo de magia, de intervenção. Como se ele me dopasse, sempre. Quando me dei conta de mim, eu já estava plenamente rendida em seus beijos. Felicia poderia considerar aquilo como um feitiço, porque nem nas fábulas eu me lembrava de existir mocinha indefesa tão… verdadeiramente indefesa. Sem muito esforço, e sem deixar meus lábios, Edward desligou a água e nos envolveu nas toalhas brancas, macias, que Esme havia deixado ali mais cedo. Ele pareceu muito maior, naquele instante.

_Onde estão os Cullen? – Perguntei, percebendo o que ele pretendia.
_Eles não vão aparecer aqui agora. – Edward me segurou nos braços, enrolada na toalha, e me conduziu porta afora, carregando-me para o quarto. Por mais pesada que eu pudesse me sentir, eu ainda devia ser leve como pluma para os braços fortes de Edward. Ele era um vampiro, sua força não podia ser medida facilmente. Os Cullen não iriam aparecer, e eu imaginei o que aquele vampiro teria dito a eles. Edward definitivamente me deixava desarmada, pois caso contrário eu já o teria eliminado da face da Terra, tamanha era a sua petulância. Com todo cuidado que lhe era peculiar, Edward me deitou na cama, as luzes totalmente apagadas, jogando as toalhas no chão. As duas, minha e dele. Eu já não tinha muita consciência de mim mesma nem noção do espaço que ocupava quando ele me beijou, e me tocou da mesma forma de sempre, independentemente de eu me sentir diferente, horrível, fora de proporções.

A gravidez causou outro efeito complexo em mim; ela maximizou meus sentidos. Carlisle sempre disse que os vampiros tinham sentidos muito, mas muito mais aguçados que os humanos. Que nosso olfato era privilegiado, que nosso tato era muito mais preciso; que o paladar era elaborado, apesar de somente desejarmos nos alimentar de sangue; que nossa visão era infinitamente superior. Eu não tinha memórias dos sentidos humanos e eu não era uma pesquisadora, como Carlisle. Mas a gravidez me deu uma pequena perspectiva do que ele considerava. Tudo em mim parecia maximizado, aumentado. Literalmente. Foi quase impossível perceber a mim mesma naquela noite, enquanto Edward estava ali comigo. Com as sensações muito mais perceptíveis, estar com ele foi fantástico. E me controlar para parar era impossível.

_Tudo bem. – Edward disse, rosnando, jogando-se de costas sobre os cobertores. Voltei-me para ele, tentando entender o que eu havia pensado que causara aquela reação. Meus olhos se fixaram no seu perfil por alguns instantes; seus punhos cerrados cravados no colchão.
_O que houve, Edward? – Não, eu não consegui encontrar um pensamento que o tivesse aborrecido. Eu estava tão bem que era difícil pensar em coisas desagradáveis.
_Receio que teremos que manter nossos… limites… até o final da gravidez. – Ele disse, escolhendo palavras. Eu sabia que Edward conversava comigo com o mesmo cuidado com o que ele me tratava. As palavras eram escolhidas sempre com sabedoria, delicadeza. Ele nunca me dirigira uma palavra que não fosse polida, gentil, elegante. Seu tom era quase reverencial.
_Não entendi.
_Ele… o bebê… não gosta muito do que acabamos de fazer. – Edward disse, entre os dentes. Eu podia acreditar que ele estava irritado, mas ao mesmo tempo parecia que ele segurava um sorriso, tentando parecer sério.
_Como você pode saber? Ele ficou quieto o tempo todo…
Interrompi-me, olhando incrédula para Edward. Ele então deixou o sorriso lhe iluminar os lábios, virando-se para mim com os olhos amarelados que eu tanto apreciava. Suas mãos procuraram meu ventre e acariciaram minha pele, bem devagar.
_Nem sempre é fácil lê-lo. – Edward disse, confirmando minhas suspeitas. – Só há poucos dias consegui visualizar com alguma clareza o que ele pensa. Na maioria das vezes, não faz sentido nenhum.
_Mas ele deixou claro que… – Eu não sabia se minha maior surpresa era por Edward ler o bebê ou pelo fato do bebê ter convicções tão específicas quanto à nossa atividade recente. Eu não poderia me chocar, Edward sempre lia tudo ao seu redor. Por que não nosso filho? Afinal, era um ser vivo que estava dentro de mim. Um ser vivo… morto vivo… eu nem sabia o que viria, era uma verdade. – Ele não quer que façamos isso de novo?
_Ele não tem vontade muito bem definida, eu acho. – Edward continuava acariciando meu ventre, e eu pude sentir que o bebê parecia se acalmar. Mesmo ele estando quieto, eu podia senti-lo agitado, calmo, nervoso, tranquilo. Naquele momento, ele parecia somente apreciar o carinho que lhe era destinado. – Ele me deixa perceber o que gosta… e o que não gosta. Por exemplo, ele gosta disso. – Edward considerou as carícias suaves que a palma de sua mão desenvolvia em meu ventre. – Ele também gosta de ouvir… ele gosta de nos ouvir conversar.
_Ele pode nos ouvir? – Então eu estava surpresa verdadeiramente. Minha experiência com bebês era inexistente, e eu sequer tinha ouvido falar de algo parecido. Edward insistiu para que eu lesse livros de bebês, mas eles todos se referiam a bebês humanos. Como eu poderia considerar que o meu bebê fosse como um bebê humano?
_Sim, mas ele não entende tudo que falamos. Quase nada, para ser exato. Ou sou eu que o entendo menos do que imagino. – Edward riu daquela vez. Seus lábios capturaram os meus, porque meus olhos estavam cheios de questionamentos, dúvidas e êxtase. – Ele gosta do que você sente quando eu te beijo. Mas o resto… acho que o deixa desconfortável.

Enrubesci, imediatamente. Por mais satisfeita que eu estivesse me sentindo, era sem dúvida que Edward tinha razão. Obviamente o bebê se sentiria desconfortável, porque tudo parecia apelar para o desconforto, dentro de um ventre e imerso em líquidos desconhecidos. Respirei fundo, e puxei os cobertores para cima de mim e de Edward, ajeitando-me entre seus braços, recostada em seu peito. Sua pele estava na temperatura da brisa morna, deliciosa.
_Então, teremos que fazer a vontade dele por mais um pouco. – Disse, pretendendo adormecer.
_Boa noite, meu amor. – Ele beijou minha testa, e acariciou meus cabelos até que meus olhos cerrassem por completo, iniciando o sono que tanto me incomodava.

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_O que você quer, lobo? – A voz ecoava do andar de baixo, mas eu supus que fosse um sonho. Meu sono estava muito inconsistente depois da gravidez.
_Saudações, Emmett. Preciso falar com seu pai, ele está?
_Estou aqui, William. – Era a voz de Carlisle. Sonho estranho, considerei. Senti a temperatura do meu lado direito do corpo se alterar, mas tudo devia fazer parte do sonho. – Seja bem vindo, o que deseja?
_Saudações, Carlisle. Eu gostaria de lhe falar rapidamente. É uma informação importante…
_Então é por isso que não consegui visualizar nada. – A voz de Alice interrompeu o diálogo masculino. – Mas consigo farejar esse lobo de longe.
_Alice… – Jasper, então. O que os Cullen todos faziam em meu sonho? E por que havia um lobo falante no meu sonho? Eu não me recordava de conhecer nenhum lobo, menos ainda aqueles que falavam.
_Deseja entrar, William?
_Só gostaria de saber se vocês não tiveram notícias de uma híbrida vagante.
Eu! Eu era uma híbrida vagante, e os Cullen certamente tiveram notícias de mim. Eu ainda não entendia os motivos pelos quais um lobo – e falante! – queria notícias minhas. Aos poucos, meu estado de inconsciência começou a perder-se, e eu lentamente comecei a acordar. Eu ainda não havia percebido que estava acordando, porque as vozes não paravam, e eu não tinha certeza de estar sonhando ou não.
_Por que quer saber isso, William? – Carlisle interrogou. – O que os lobos querem com os híbridos?
_Nada, por certo. Na verdade, é uma… eu tenho uma dívida com uma… híbrida. Ela me pediu para rastrear alguém, mas o rastro se perdeu… e eu decidi perguntar a vocês, já que são os únicos vampiros da região.
Meus olhos repentinamente se abriram. Apoiei-me nos cotovelos, e ergui a cabeça. Edward não estava ao meu lado, e por isso a temperatura havia mudado. O seu corpo se distanciara do meu, fazendo-me sentir as alterações. Meu ventre deu um salto, causando-me enorme desconforto. Senti uma fisgada nas costas, e sentei-me lentamente. Respirando com dificuldades, pisquei várias vezes. Sonho estranho, pensei. Mas as vozes continuaram, no andar de baixo. Coloquei-me de pé, e me arrastei até o armário. Aquela era a penúltima semana de gravidez, pensei. A penúltima… logo, tudo voltaria ao normal comigo. Vesti uma das roupas para dormir escolhidas por Alice, tentando não parecer muito ridícula, e enrolei-me em um roupão flanelado. Eu precisava saber o que acontecia no andar de baixo, e para isso teria que descer. Não que fosse fácil subir ou descer escadas na minha condição, mas eu estava curiosa demais.

Surgi à porta e atravessei o corredor, escorando-me no corrimão. A figura séria de Edward estava me observando na parte mais baixa. Ele estava com as calças de pijama que eu adorava, e o seu roupão. Alice nos comprara os roupões flanelados porque ela dizia que não aguentava mais Edward perambulando sem camisas pela casa. E que ele usasse, foi a ameaça da irmã menor. O semblante de Edward era tenso.
_Bea… o que faz de pé? – Ele caminhou em minha direção.
_Tem alguém aqui, não tem?
_Sim, mas você já sabe… ou não teria levantado. Vamos, volte para a cama…
_Quem é? – Perguntei, desejando descer. Edward me segurou, impedindo minha progressão. – Vamos, Edward…
_Um lobo. William. Antigo conhecido da família.
_Um lobo? – Repeti Edward. – Mas lobos não falam.
_Falam quando estão na forma humana.
_Ahm? – Parei de tentar descer e olhei incrédula para Edward. Lobos na forma humana? O que eu tinha perdido, então? Novas fábulas se tornando reais? Eu já começava a acreditar que o mundo real era a fábula, de tão fantástico que era o meu universo de aberrações reunidas.
_William é um lobisomem. Bem, quase isso. Ele pode se transformar em lobo. Mas ele veio… ele está procurando por você.
_Eu não conheço nenhum lobo.
_Eu sei, ele… bem, eu não posso esconder-te muito. Alice garantiu que ela não é perigosa, pois não faz parte da visão que teve. E ela veio sozinha…
_Ela? – Eu ainda tentava imaginar que outra híbrida seria louca o suficiente para deixar o covil. Desafiar Rudolph não era para qualquer um. Edward saiu da minha frente, ajudando-me a descer as escadas. Minha curiosidade estava em grau máximo. Minha aparição no hall de entrada dos Cullen causou algum choque em todos, pois eles não esperavam que Edward me permitisse descer. Meus olhos atentos buscaram os desconhecidos entre minha família, e o choque da descoberta foi mortificante. Os desconhecidos não eram, então, desconhecidos.

Eu conhecia outras híbridas, mas nenhuma delas ousaria sair do covil. Aquilo era como assinar a própria sentença. A condenação absoluta. Se não já estivéssemos condenados… se já não fôssemos mortos vivos que não tinham nenhuma perspectiva. Éramos a real concepção da danação eterna. Os perigos que o mundo sob o sol representava eram inaceitáveis, para as híbridas. Os caçadores, aqueles considerados os bravos, eram os únicos que se aventuravam a sair. Que híbrido do sexo feminino teria a audácia de encarar o mesmo que eu tive? Eu já sabia que o destino sob o sol era muito melhor do que enterrada no covil, mas elas, minhas irmãs de covil, não. Só algo muito importante faria qualquer uma delas deixar o covil, e eu poderia ser considerada algo significante demais para ser deixada para trás. Eu só não sabia disso, ainda.

_Felicia? – Eu balbuciei, depois de encará-la por algum tempo. Edward me mantinha amparada pelos braços, mas aquilo não me segurou. Ao mesmo tempo em que eu lhe chamei o nome, atirei-me em sua direção, abraçando-a. Não tive tempo de notar a sua reação a mim, mas a minha reação foi exagerada, como tudo vinha sendo.
_Bea, minha filha… – Ela acariciou meus cabelos, abraçando-me com força. Imediatamente recordei-me da minha condição e me afastei, olhando para Felicia mais uma vez. Ela parecia genuinamente satisfeita em ver-me, como eu o estava em vê-la. Todos nos observavam, como que desejando intervir e sem saber como. – Eu precisava tanto achar-te!
_Creio ter cumprido minha missão, aqui. – O lobo disse, pretendendo ir embora. – Obrigado por receber-me, Carlisle… espero não precisar retornar aqui tão cedo.
_Igualmente, William. Vá em paz.
_William! – Felicia o chamou, antes que ele saísse completamente. – Agora estamos quites.
O lobo deixou a casa dos Cullen, mas eu só me interessava na figura de Felicia. Ela se voltou para mim novamente, e me encarou. Finalmente, ela percebeu que alguma coisa estava mudada em mim. Felicia afastou-se, sob os olhares atentos dos Cullen, e me olhou por longos instantes. Eu respirei fundo, e nem precisava ler as mentes para compreender o que a estava causando admiração.
_Beatrice, o que houve com você?
_Pensei que fosse óbvio o suficiente. – Foi a minha resposta.
_Felicia, agora que Beatrice desceu e que todos nós precisamos conversar, que tal entrarmos e nos sentarmos? – Edward se aproximou, me sustentando pelos cotovelos. – Ela não deve ficar muito tempo de pé.

Os Cullen se transferiram para a sala enorme de Esme. Eu e Felicia os acompanhamos, Edward vindo logo atrás. Ele não me deixava sozinha durante aqueles períodos, porque Carlisle havia deixado bem claro que o final da gravidez poderia ser muito perturbado. Eu sentia mesmo muitas dores, e dificuldade para respirar e dormir. Ele pretendia interromper a gravidez e retirar o bebê, mas a minha regeneração não permitia. A regeneração estava ainda mais precisa porque, segundo os estudos de Carlisle, o bebê também se regenerava. Edward me fez sentar, e todos acabaram se sentando. Era mais cômodo para conversarmos.

_Bem, agora podemos conversar mais calmamente. – Esme sorriu, tentando iniciar o diálogo.
_Eu estou confusa, Beatrice. – Felicia insistia em me olhar, um tanto incrédula. – O que aconteceu??
_Eu estou grávida. – Falei, diretamente. Esconder o óbvio? Qualquer tolo podia ver-me grávida. Eu estava definitivamente enorme. Mas a expressão de Felícia foi de choque imediato. Ela deixou o queixo cair superficialmente, enquanto me olhava mais apavorada ainda. Exatamente uma aberração. Edward me puxou para perto de si, abraçando-me e acariciando meu ventre. Eu percebi que o bebê estava agitado, e provavelmente insatisfeito com o ambiente externo. – Como você pode ver… e bem, este é Edward Cullen. – Eu recostei minha cabeça no ombro de Edward. – Ele é meu… meu namorado. E o pai do bebê.
_Como você pode estar grávida, Bea? – A pergunta de Felícia causou risos instantâneos entre os presentes. Eu mesma ri, o suficiente para parecer uma gargalhada. Todos ríamos, porque a pergunta era simplesmente tola demais. Poderia ter sido minha pergunta, meses atrás. Eu era assim tola. Mas eu pensava que Felicia fosse mais esperta do que eu. Ela era minha tutora. Ela deveria ser mais esperta do que eu.
_Eu amo Edward. – Eu disse, bastante imersa em seus braços.
_Você deve contar a ela. – Edward disse, encarando Felicia com seriedade.
_Contar o que? Como você…
_Edward tem um talento especial. – Esme sorriu, apesar de saber que o momento era tenso. Esme sempre interferia quando pressentia tensão, principalmente se um de seus filhos estivesse envolvido. – Ele consegue saber o que todos pensam e sentem. Ele… lê.
_O que eu preciso saber? – Perguntei a Felicia, pois Edward foi claro. Ela precisava contar-me.
_Beatrice, você não podia… isso não podia ter acontecido!!
_Você está me deixando agoniada. – Protestei, e meu ventre se mexeu. Levei a mão ao mesmo lugar que as de Edward estavam. Ele continuava tenso, sério. – Conte-me logo, não acha que é meio tarde demais para mentir-me?
_Bea, Rudolph está vindo te buscar. Ele está usando o rastreador… ele pretende buscar você, e não virá sozinho. Você… isso não está certo. Ele quer você de volta ao covil, porque você deve estar lá e unir-se a Ferdinand.
_Ferdinand?? – Falei, assustada. – Ferdinand, o garotinho que eu cuidava?
Felicia não disse nenhuma palavra. Seus olhos baixaram, e Edward cerrou os punhos, com ira. Aquilo tudo me deixava extremamente agoniada, e aquele sentimento era péssimo. Tanto para mim quanto para o bebê.
_Bea, Ferdinand não é mais um garotinho. – Foi Edward quem respondeu a meus questionamentos. – Ele… cresceu. Ferdinand é filho de híbridos com… vampiros. Assim como… você.

Choque. Olhei assombrada para Edward, olhos arregalados, boca entreaberta, queixo caído.
_Ele cresceu?
_Sim, ele nasceu no covil, e hoje ele é um híbrido adulto. – Edward continuou a contar-me. – Ele foi tirado de você para que você não percebesse que ele crescia. Não era para você saber.
_Felicia. – Eu me virei a ela. – Você sempre soube isso? Então Ferdinand era meu prometido?
_Você era a prometida dele. – Felicia não tinha como esconder-me mais nada, afinal. Edward se contraía plenamente ao meu lado; eu podia sentir toda a angústia de seu corpo. – Na verdade, Ferdinand foi um milagre. As híbridas não conseguiam gerar um macho… todas as gestações resultavam em fêmeas. Mesmo você estando por anos madura e preparada para a concepção, não conseguíamos gerar um macho.
_Por quê? – Eu não lia mentes, e precisava saber. Aquela conversa parecia desagradável, mas eu precisava saber!
_Porque Rudolph pretende que vocês dêem continuidade à sua hegemonia.

Outro choque. Aquele ainda mais apavorante. Respirei fundo, fechei os olhos. Edward me abraçou, acariciando minha face com a ponta dos dedos.
_Calma, Bea… você não deve se irritar. Respire bem devagar, meu amor…
_Edward, diga-me. – Perguntei, olhos ainda fechados, os punhos cerrados, a irritação me subindo pelas entranhas como um veneno. Eu já sabia a resposta, mas eu precisava da confirmação. Eu precisava confirmar que tudo aquilo era ainda mais repugnante do que eu imaginava.
_Sim, Bea. – Edward assentiu em meus ouvidos. Então, era aquilo. Eu poderia me recusar a crer na verdade, mas ela estava insistentemente batendo à porta da minha consciência. Negá-la podia ser possível, não enxergá-la, não.
_Eu…
_Você não vai sair agora, Beatrice. – Edward travou seus braços ao meu redor, não intencionando soltar-me enquanto meus pensamentos não se acalmassem. – Você não deve nem ficar andando pela casa, quanto mais passeando pela floresta.
_Vocês poderiam nos deixar a par do que está havendo? – Rosalie encerrou o silêncio dos Cullen. Mãos nos quadris, ela parecia bastante irritada com as conversas mentais.
_Eu sou filha de Rudolph e Felicia. – Falei, assumindo a realidade que me foi colocada naquele momento. – Filha biologicamente concebida, como o meu filho com Edward.
_Não exatamente. – Felicia esfregava as mãos. – Você era filha de um híbrido com um vampiro. Sua genética é bastante depurada, se comparada com a genética de um híbrido, Bea. Se você analisar, que híbrido têm a regeneração como a sua?
_Todos! – Disse, querendo levantar-me. Edward manteve-me firme.
_Bea, se eu for golpeada no coração, posso morrer. – Felicia disse, tom baixo de voz, olhando diretamente em meus olhos. – Eu levo horas me regenerando, e essas horas, dependendo da lesão, podem me matar. Você… a sua regeneração é impressionante. Você é um ser muito mais aperfeiçoado do que todos os outros híbridos. Rudolph chama você de geração dois.
_Isso é ridículo! – Reclamei, voltando-me para o peito de Edward. O cheiro suave de sua pele me acalmava, invariavelmente. Afundei-me em seu roupão, desejando permanecer ali durante aquele momento de instabilidade.

_Então eu devo considerar que… o bebê de Beatrice e Edward é ainda mais depurado do que ela. – Carlisle, o pesquisador. Aquela conclusão não me havia recorrido ainda. Mas ele, cientista, visualizou tudo imediatamente. O meu bebê era de um padrão genético muito superior a qualquer outro híbrido.
_Sim, Sr. Cullen. – Felicia baixou o olhar. – Diga-me, Bea… ele machuca você? Porque ele deve ser muito forte, muito mais do que você foi. E você machucava o suficiente.
_Sim. – Edward foi quem respondeu. – Ela tenta me esconder, como se conseguisse. Mas ela se regenera muito rapidamente, então nunca é nada com o que se preocupar.
_Não seja intrometido, Edward Cullen. – Eu ainda estava afundada em seu peito. – Meu filho não me machuca.
_Nosso filho.
_Que seja.
_Ai, que fofo, vocês dois discutindo! – Alice bateu palminhas. Ela era sempre empolgada demais. Mesmo em um momento daqueles, ela conseguia encontrar motivos para… celebrar.
_Ew, Alice. Menos… – Emmett reclamou. E os Cullen voltavam ao normal, depois do choque de receber minha mãe – e eu então sabia que Felicia era minha mãe e não minha tutora – na casa. E depois do choque de tantas novidades, não tão novas assim, a meu respeito. Se eles me expulsassem de suas vidas naquele instante, eu não ficaria surpresa. Eu carregava comigo muita esquisitice.
_Bem, Felicia… você ficará conosco? – Esme levantou-se, e Carlisle a seguiu.
_Preciso retornar ao covil antes que dêem pela minha falta.
_Não seja tola. – Reclamei. – Se já não deram por sua falta, seu retorno vai fazer com que saibam que saiu. E Rudolph vem me buscar de qualquer jeito, eu já havia sido alertada por Alice. Estaremos preparados. Você pode passar a noite.
_Bea, ele não pretende mudar de idéia. – Felicia parecia apreensiva. – Eu vim te avisar porque ele não quis ser razoável comigo… e você é minha filha, eu precisava.
_Estaremos preparados. – Edward confirmou minha frase.
_Eu queria saber… por que você o desafiou para vir atrás de mim. – Eu perguntei, no pé da escada, antes de ser abduzida por meu namorado vampiro que não descuidava de mim um instante sequer.
_Porque você é minha filha, Bea. – Felicia me olhou com suavidade. – Eu faria qualquer coisa para ver-te a salvo.
_Eu entendo. Não precisa se preocupar. Eu também farei qualquer coisa para colocar aqueles que amo a salvo.





(Cap. 21) Capítulo 20 - Realidade

*tema: Shin Hyesung’s Even if I erase, throw away, forget*

_Beatrice, acalme-se! – Edward estava sentado na cama, tentando fazer-me sentar também. Eu estava de pé, a girar pelo quarto em uma velocidade incompatível com minha condição física. Eu não conseguia adormecer, o cansaço havia desaparecido, e os acontecimentos da noite eram demais para mim. Tudo de uma só vez, uma realidade cruel e desagradável. – Amanhã… quero dizer, mais cedo você conversará mais com sua mãe. Por favor, venha para a cama.
_Edward! – Disse seu nome, voz mais elevada do que de costume. – Não seja irritante. Você não percebe como me sinto?
Edward respirou fundo, aquele cacoete demonstrando que ele já havia ultrapassado os limites da irritação. Mas ele precisava controlar-se, sempre… por mais irritante que eu fosse; por mais insuportavelmente irritante que eu fosse, Edward era sempre um cavalheiro. Gentil, educado, polido como nunca nenhum dos híbridos fora. Ele me olhou, com total desalento, como se meu questionamento fosse um grande absurdo.
_Claro que eu percebo, Beatrice! – Ele passava os dedos pelos cabelos, desarrumando-os. – Bea, eu percebo tudo. Como você se sente, como ele se sente; eu sofro com tudo isso em dose tripla, agora. Por favor, acalme-se e deite-se aqui comigo…
_Eu acabo de descobrir que sou filha de um vampiro.
_Você ama um vampiro. – Ele sorriu, apesar da minha atitude. – E está grávida dele.
_Eu sou filha de alguém, Edward! Fui gerada! Concebida! Como não me lembro de nada disso?
_Você terá tempo de perguntar a Felicia…
_Eu fui prometida ao garoto que ajudei a criar!
_Ele agora é um homem; ele iria crescer uma hora ou outra.
_Você quer fazer o favor de não rebater minhas considerações? – Parei-me em frente a Edward, mãos nos quadris, sentindo dores horríveis na região do ventre. O bebê se mexia demais, e cada chute significava uma pequena hemorragia interna. Que rapidamente se curava, mas que causava dor o suficiente para me incomodar. – Eu estou muito inquieta, eu não consigo pensar com clareza.
_Bea, meu amor… – Edward levantou-se, quase a ponto de desistir de mim. Eu já teria desistido de mim, se estivesse razoável o suficiente para ponderar qualquer coisa. Abraçou-me com bastante delicadeza, puxou minha face para si. Seu roupão estava aberto, o que me permitiu contato o suficiente com sua pele, para que eu me sentisse mais tranquila. Ele invariavelmente fazia comigo tudo que queria. Repentinamente, sentindo-me vulnerável, Edward me tomou em seus braços, suspendendo-me do chão. Sentou-se comigo em seu colo, arrastando-nos para o meio da cama. Eu não desejei lutar contra aquilo. – Olhe para mim… – seus dedos elevaram meu queixo e meus olhos foram capturados pelos dele. – eu estou aqui. Não importa o que houve, depois você poderá perguntar a alguém. Não importa quem prometeu você a quem. Você é minha… vocês dois. A única realidade que me importa é essa. Desde que você chegou à minha vida, você ocupou todos os espaços vazios. Até então eu nem sabia qual era minha função nesse mundo, por que eu não tinha morrido junto de minha mãe. Hoje eu sei, eu deveria estar aqui por você. Por vocês dois.

Eu tinha os olhos fechados, então. Minha respiração estava lenta, e meu corpo parecia feito de alguma substância solúvel. Deixei-me amolecer nos braços de Edward, enquanto ele me embalava como se estivesse fazendo aquilo ao bebê. Talvez estivesse. Eu estava sendo tola, mais uma vez. Mas era mais forte do que minha vontade, aquele comportamento. Muita informação nova para processar de uma vez. Eu era só uma híbrida tola, que mal sabia da própria existência. Desde que eu me descobrira grávida, tudo acontecia rápido demais. E era assustador. Eu me sentia acuada como um animal na caça esperando por um predador tão cruel quanto Emmett. Emmett não era cruel, mas um caçador eficiente demais. E o caçador chegava mais perto a cada dia, e eu tendo que lidar com tantas adversidades e tantas novidades.
_Desculpe-me, Edward. – Minha voz estava lenta e baixa.
_Você deveria dormir.
_Não quero.
_Anda muito teimosa, sabia? – Ele riu. – Alice… Alice, poderia parar de ouvir e vir aqui, por favor?
Abri os olhos e ergui uma sobrancelha, confusa. Alice? Obviamente Edward a tinha ouvido, mas era curioso que ele a tivesse mandado entrar, e não desaparecer. Os Cullen normalmente eram suficientemente curiosos a nosso respeito, mas Edward usualmente lhes proferia alguma blasfêmia. Pedir-lhes para entrar era novidade, mais uma. A porta do quarto se abriu e a pequena Cullen entrou, sorrindo, entusiasmada. Aquele humor de Alice era contagiante, apesar de tudo. Edward ainda nos embalava, mas eu estava mais calma.
_Pensei que me deixaria de fora!! – Alice batia palminhas novamente. – Posso pegar?
_Sim, por favor.
_Pegar o que? – A confusão se transformou em pânico, momentaneamente. Edward ajeitou-se na cama, e colocou-me devidamente sentada, por entre suas pernas. Retirou uma mecha de cabelo de minha face, delineou meus lábios com o polegar, beijou-me suavemente. Aquilo era quase um feitiço; todo aquele ritual.
_Bea, eu tive uma idéia tola… há alguns dias… semanas… desde que soube de sua gravidez. Por algum motivo, sua condição me remeteu a uma conversa que tivemos na Europa. – Edward me olhou, sorrindo. Alice já havia pegado algo dentro do armário, a parte de Edward. Eu olhava apreensiva; um olho em cada Cullen. Aqueles dois reunidos nunca preparavam nada saudável. Ao menos para mim. – Lembra-se? De quando você pensou que a viagem parecia… uma lua de mel?

Minhas bochechas arderam. Eu deveria estar vermelha como fogo. Senti calor, repentino. Olhei assustada para Edward, e novamente para Alice, que parecia extasiada.
_Sim… – Resposta errada?
_Pois bem. Eu esperaria o bebê nascer… não queria abusar da sua inconsistência hormonal para forçar-lhe uma resposta.
_Inconsistência hormonal? – Protestos.
_Bea… – ele selou meus lábios com os dedos. – Eu decidi tomar essa atitude agora, porque vi como você teve dificuldade em me categorizar, quando foi me apresentar a Felícia.
_Eu… eu disse direito, não? Meu… namorado? – Resposta errada, mais uma vez.
_Você hesitou bastante. – Alice riu. Edward a encarou. – Ok, sem interferências…
_É que… às vezes eu me sinto confusa. Eu nem sempre sei se você é meu namorado, meu primo, meu companheiro… são tantos disfarces, tantas categorias… eu gostaria de dizer apenas que você é meu Edward. Só isso.
Edward sorriu. Eu ainda estava apreensiva, mas ele sentia prazer naquela tortura.
_Eu não sei quais as suas convicções quanto a isso porque você nunca pensou nisso. Mas eu gostaria de colocá-las à prova.

Edward estendeu o braço longo para Alice, que lhe entregou uma pequena caixa. Ele segurou entre os dedos o objeto, e o abriu. Virou a caixa para mim, e meus olhos se perderam no brilho amarelo da pedra mais linda que eu já vira. A mesma que estava em Port Angeles, quando eu fora comprar o presente de Sylvia, e que representava seus olhos. Os olhos de Edward. Olhei para Alice primeiro, daquela vez, ainda em branco.
_Pela tradição, isso deveria ser um diamante. Mas Rosalie disse que você ficou fascinada nessa pedra, então…
_Pare de enrolar, Edward! – Alice deixou escapar, e foi novamente repreendida, sem palavras.
_Eu estou tentando fazer isso, Alice… dê-me algum crédito.
_Eu estou começando a ficar ansiosa. – Foi a minha interferência.
_Desculpem-me, vocês duas. – Edward fez uma reverência, muito provavelmente desistindo de argumentar com duas mulheres. – Beatrice… você gostaria de se tornar a minha esposa?

Se aquela já não estivesse sendo a noite mais surreal de todas as noites surreais possíveis em minha pacata existência, eu talvez estivesse chocada ao extremo com as palavras de Edward. Elas talvez me fizessem cair o queixo, ou ter uma crise de ansiedade. Mas eu simplesmente me peguei olhando para Edward sem conseguir exprimir nenhuma emoção. As palavras não me vinham à boca, e eu não emitia ruído algum. Ele estava ali, sentado, a caixa em suas mãos, o anel na caixa, olhando para mim, esperando uma definição. E eu não conseguia nem ao menos me mover. Fui congelada. A noite mais absurda de todas as noites absurdas. Edward estava me pedindo em casamento. Como se aquilo fosse possível!

Humanos casam e procriam. Humanos! Eu era uma híbrida… e tudo fazia menos sentido, a cada dia.

_Tudo bem, foi uma idéia tola, mesmo. – Edward entendeu a minha total ausência de tudo como um não. Seus dedos cerraram a caixa preta aveludada, enquanto Alice ainda esperava algo acontecer. Ela já sabia. – Por que você iria pretender aceitar isso, afinal eu sou um vampiro e…
_Eu aceito. – As palavras atropelaram o pensamento, e saíram de meus lábios de forma descoordenada. Alice abriu um largo sorriso, e Edward olhou-me com alegria, sem rastro da decepção momentânea que o abatera. – Eu aceito me tornar a sua esposa, Edward Cullen… seja lá o que isso signifique.
Edward então sorriu verdadeiramente, aquele sorriso que costumava iluminar todo o ambiente, em alívio. Abriu novamente a caixa e retirou o anel, colocando-o em meu dedo. Coube… caberia melhor depois que desaparecesse o inchaço da gravidez. A medida era perfeita.
_Posso contar para todos os Cullens? – Alice já estava agitada, novamente. Eu ainda olhava para o anel, não muito certa se em transe pela beleza irreal da pedra, se pela semelhança com os olhos de Edward, se pela situação em que me colocara. A situação de noiva.
_Depois, Alice… preciso que Beatrice durma. – Edward me beijou a testa.
_Estraga prazeres! – E a pequena Cullen jogou-se para meu lado, abraçando-me com muita força. Quase força demais. Edward suspirou, provavelmente repreendendo Alice mentalmente, mais uma vez. – Bea, eu estou muito feliz. Eu sei que você já era parte da família desde quando chegou, mas… essas tradições humanas que nós, vampiros, abandonamos… são perfeitas! Será o primeiro casamento entre os Cullen… ah, melhor eu ir para meu quarto antes que Jazz possa ter as mesmas idéias de Edward… não que eu esteja repreendendo você, Edward, mas é que um casamento por século é o ideal, não?

Alice saiu do quarto, saltitando. Apesar dos recentes acontecimentos não parecerem muito felizes ou despreocupados, Alice estava radiante. Provavelmente ela sabia de algo que eu não sabia, e que ninguém me contaria. Edward deveria saber, e ele definitivamente não me contaria. Talvez fosse uma boa surpresa, era sempre como pensava.
_Este foi provavelmente o pior pedido de casamento de toda a história. – Edward considerou, deitando-se na cama e puxando-me para com ele. – Mas eu precisava fazer algo para distrair seu foco…
_Trapaceiro, é o que você é. – Balbuciei, sentindo finalmente o cansaço me abater. O céu já estava cinzento, lentamente preenchendo-se com tonalidades rosadas.

O dia seguinte me reservava respostas, era o que eu esperava. Felicia não me negaria as respostas que eu pretendia obter, e eu não lhe deixaria opções. A noite fora tensa; mesmo depois de adormecer meu corpo continuou cansado. Eu despertei muito mais cedo do que seria esperado, em razão do meu sono tardio. Mas eu simplesmente tinha perturbações demais, e o lado consciente do cérebro esteve no comando por quase todo o tempo. Meu Edward não ficou muito satisfeito, eu o ouvia rosnar e sentia seu corpo rígido ao meu lado, sabendo que seus movimentos poderiam me acordar, e sua ausência também. Ele também decidiu protestar porque eu me levantei e me preparei pra vestir-me, na intenção de descer. Aquele cuidado todo comigo já estava quase beirando ao descontrole. Precisei convencê-lo de que eu estava perfeitamente bem antes de convencê-lo a soltar-me, e permitir que eu saísse do quarto em busca da satisfação da minha curiosidade.

Desci as escadas com Edward me seguindo, ainda terminando de vestir-se, tentando segurar-me para manter-me apoiada. Ele dizia que eu o deixava louco. Ele também, então era recíproco. Morreria louca, se fosse para estar ao lado de Edward. Se a hipótese de morrer fosse razoável, morreria por ele. Sim, beirava à loucura, qualquer daqueles pensamentos. Encontrei Felicia, minha recém descoberta mãe, com Esme, minha então escolhida mãe. Eu antes não tinha nenhum pai, nenhuma mãe; apenas uma família de aluguel em um covil malcheiroso. E então eu me encontrava com duas mães, um pai cruel e um filho por vir. Meu conceito de família estava quase tão confuso quanto o dos humanos.

Aproximei-me das duas, na sala, com meu protetor sempre ao meu lado, e sentei-me. Ele tinha razão quando afirmava que eu não tinha condições de me esforçar… meu corpo estava muito mais fraco do que de costume. Eu respirava com dificuldade, porque o bebê me pressionava todos os órgãos internos. Eu nem sabia que eles funcionavam direito… os meus não deveriam funcionar, mas imaginava que funcionassem bem melhor do que os de Edward. Provavelmente eu era tão imortal quanto ele por causa da regeneração, mas depois de tudo que me aconteceu, eu já suspeitava que meu organismo era mais vivo do que eu poderia supor.
_Bea, você quer que faça algo para você comer? – Edward acariciou meus cabelos. – Você está fraca, e não vai querer sair para caçar agora, vai?
_Comer? – Felicia olhou-nos com surpresa.
_Sim… tudo bem, Edward. Eu estou mesmo me sentindo mal, talvez seja melhor comer alguma coisa..
_Panquecas? – Ele sorriu, e eu daria uma eternidade por aquele sorriso todos os dias.
_Com tudo que tiver direito. – Eu beijei seus lábios, e voltei-me para Felicia, que parecia curiosa. Ela não estava tão curiosa quanto eu, podia apostar. Mas eu seria uma boa pessoa e satisfaria seus questionamentos, a fim de obter algo em troca. – Eu me alimento de comida humana, também. Fizemos uma… experiência. E foi produtiva.
_Isso é muito interessante, Rudolph adoraria…
_Rudolph. – Eu a interrompi. – Felicia, precisamos conversar. E você vai me responder tudo que eu perguntar.
_Vou ajudar Edward com a comida… – Esme levantou-se.
_Pode ficar, Esme. Eu não tenho segredos para os Cullen, mesmo. E Edward já está bem expert em cozinhar-me panquecas… pelo menos isso ele aprendeu bem.
Minha mãe adotiva sorriu, e sentou-se novamente. Eu sabia que Esme não interromperia nossa conversa até o momento em que ela fosse solicitada. E eu precisava mesmo de apoio moral para prosseguir com minha investida.
_O que você deseja saber, Bea? – Felicia estaria rendida, então.
_Rudolph. Ele é meu pai… o que exatamente eu sou? Por que eu existo?
_Você é apenas uma das filhas de Rudolph. Ele emprenhou diversas fêmeas, todas em busca da genética perfeita. Você é a escolhida dele… a menina de seus olhos. Desde sempre Rudolph quis você; ele preteriu todas as outras. Você foi gerada para dar continuidade à sua hegemonia, na liderança do covil. Você, o híbrido a quem você seria entregue como esposa, e sua prole.
_Eu? – Aquela conversa definitivamente me causaria mal estar, mas eu precisava. – E Ferdinand? Ele é filho de quem?
_Também de Rudolph. Foi muito difícil gerar um macho, como eu te disse antes. Várias híbridas ficaram prenhes, e nenhuma delas conseguiu gerar um macho. Quantos machos você tinha sob seus cuidados?
_Somente Ferdinand… – tentei recordar-me. – Então quer dizer que Rudolph brincou de Deus para criar uma genética perfeita a fim de dar continuidade a si mesmo? Isso não faz sentido, se Rudolph é imortal…
_Ele também se cansa, Bea. Ele está cansado de governar… ele pretende deixar o covil tão logo você e Ferdinand tenham se unido e Ferdinand possa assumir o conselho.
_Ferdinand é uma criança. – Eu disse, mais para mim mesma. – E eu não vou me unir a ele, eu já estou definitivamente unida a alguém.

Com um sorriso nos lábios, nada condizente com minha atual condição psicológica, elevei a mão direita e exibi a bela pedra amarela que estava em meu dedo anular. Esme aproximou-se para vê-la, também sorridente. Era de se supor que ela soubesse das intenções de Edward, mas ela provavelmente não havia visto a pedra, ainda. Se eu conhecia Edward como eu considerava conhecer, somente Rosalie havia visto aquela pedra.
_Edward! – Esme chamou o filho, que já adentrava a sala com o prato de panquecas. O cheiro doce imediatamente me fez sentir um arrepio e um mal estar abdominal. – Isso não é um diamante…
_Eu sei, Esme. – Ele parou à minha frente, examinando à luz do sol como havia ficado o anel em meu dedo. O contraste do amarelo com a minha pele tão branca quanto a dele. – Mas Rosalie me garantiu que Beatrice se encantou por esta pedra, muito mais do que por qualquer diamante. E o anel é para ela; sua vontade vale mais do que qualquer convenção humana.
_O que é isso? – Felicia definitivamente não parecia muito esperta. Não tanto quanto ela parecia no covil. Os híbridos deviam mesmo ser estúpidos, como Edward garantira.
_Edward me pediu em casamento. – Ele sorriu, eu senti sem nem olhá-lo. – E eu aceitei. Estamos noivos… e vamos nos unir em casamento, como fazem os humanos. Sob a benção do Deus no qual você me ensinou a crer, Felicia.

Edward sentou-se ao meu lado, e cortou as panquecas em pedaços para mim. Se eu o permitisse, ele me alimentaria, como gostava de fazer. Mas eu estava concentrada demais no que fazer e desconcentrada demais em todo o resto. Peguei o prato de suas mãos e coloquei um pedaço de alimento na boca. O sabor também era nauseante, mas logo me acostumei. Mastiguei bem devagar e engoli, sentindo o alimento me arranhar a garganta. Edward riu, tentando evitar aquela reação. Olhei para ele, curiosa.
_O bebê. – Ele disse, sem conseguir segurar o riso. – Ele não está muito satisfeito com as minhas panquecas.
_Ah! – Eu também ri. – Explique a ele que, por causa dele, eu não posso sair para caçar. O que ele pretende, que morramos ambos de fome?
Edward colocou suas mãos sobre meu ventre, acariciando-o lentamente. Depois, em um movimento rápido e inesperado, ajeitou-se no sofá e deitou-se sobre minhas pernas, a face comprimida em meu ventre, as mãos circundando minha cintura. Apoiei o prato sobre minha barriga completamente dilatada – e aquilo era perfeitamente possível – e liberei uma das mãos para poder acariciar seus cabelos. O conforto que eu precisava, então.

_Tudo isso é muito estranho para mim. – Felicia baixou o olhar, e eu sabia que ela estava confusa e constrangida.
_Imagine para mim. – Eu precisava sempre me manter no ataque. – Imagine como é para mim descobrir que eu sou filha de um vampiro, especialmente designada para gerar um exército de aberrações. Preferia que eu fose qualquer outra coisa, e que Rudolph tivesse escolhido qualquer outra.
_Ele ama você, Beatrice. – Felicia olhou-me novamente. – Apesar de tudo, você foi a única que ele amou. Você acredita mesmo que ele permitiria a qualquer outra deixar o covil?
_Mas agora ele virá clamar-me de volta. Era melhor que me tivesse mantido prisioneira; eu não quero voltar para o covil. Eu tenho uma razão para existir aqui, Felicia… muito melhor do que a razão que eu teria para estar lá. Se Rudolph quer o comando do covil, que ele passe a eternidade lá. Mas… há algo que eu preciso saber, ainda. – O silêncio era absoluto, eu só conseguia ouvir o ruído de dois corações que pulsavam o mais lentamente possível. – Por que eu não me lembro de nada. Por que eu não tenho memórias de ter sido… jovem.
_Eu não deveria lhe contar isso.
_Você não parece ter muita opção. – Meus olhos pousaram sobre o perfil delicado de Edward, que mantinha os olhos completamente fechados enquanto absorvia nossa conversa. Seus lábios se esticaram em um sorriso de canto de boca, delicioso. Aquele era o sinal que eu esperava, para ter certeza que Edward sabia a resposta que eu queria. – Você conta, ou ele conta. – Felicia franziu o cenho. – É irritante, não? Estar com alguém que sabe tudo a seu respeito, sem você ter como esconder nada dele…
_Ouch. – Edward resmungou, em protesto. Ele não tinha o direito de me repreender, depois da quantidade de adjetivos com os quais eu estava acostumada. Cobaia, ingênua, estúpida…
_Eu te amo. – Falei bem baixo, sussurrando só para ele.
_Que conversa mais enjoada! – Emmett entrou sala adentro em um repente, chegando do jardim. – Dá para ouvir essa melação de vocês lá de fora, pelos céus!! Vamos, eu também quero saber a resposta! Por que minha irmãzinha acha que foi transformada…
_Rudolph apagou sua memória. – Felicia baixou o olhar novamente. – Ele… tem vários conhecimentos e vários conhecidos. Ele o fez, eu não sei como… mas ele apagou sua memória da infância. Por isso você não se lembra de nada, nem de ter sido transformada, nem de ter sido jovem.
_Isso foi cruel. – Emmett não era tão polido quanto a mãe e o irmão. Intrometer-se era da sua natureza. Mas eu não me importava mais; como havia dito eu não tinha segredos para os Cullen.
_Bem, pelo menos agora eu tenho as respostas. – Terminei de comer as panquecas, e descartei o prato para o meu lado. Antes que eu pudesse pensar no que fazer, Esme recolheu a louça e levou para a cozinha. Por vezes eu me sentia constrangida quando eles cuidavam tão bem de mim. – Mesmo que eu não goste, saber a verdade é melhor do que viver na ignorância.

Levantei-me, sentindo algumas dores. Eu não queria que ninguém soubesse das minhas dores, mas era impossível escondê-las. O bebê se mexia demais, eu estava muito inchada, e meu corpo parecia incrivelmente frágil. Eu tentava me alimentar de sangue, pois era só o que eu queria, mas eu precisava de muito mais sangue do que eu conseguia ter. Ou os Cullen iriam à loucura caçando para mim ou eu teria que lidar com o enfraquecimento de meu organismo. A cada chute e a cada hemorragia, eu consumia uma quantidade impressionante de reservas para me regenerar. Edward não me deixava sozinha exatamente por aquela razão; porque ele sabia que eu estava fraca e debilitada. Demais, para um imortal. Mais do que eu desejava.

Apesar da minha irritação com os híbridos, com Rudolph e com qualquer outra memória do covil, Felicia era a minha mãe biológica e eu não podia manter um sentimento negativo quanto a ela. Principalmente porque ela não era culpada pelo que acontecera. Talvez nem Rudolph fosse culpado, ele fosse simplesmente egoísta demais para pensar em alguém que não ele mesmo. Os híbridos pareciam nutrir uma noção de comunidade e fraternidade que não era condizente com aquele perfil de Rudolph. Logicamente, ele era um vampiro. E um vampiro que se alimentava de sangue humano. Porém eu também não conseguiria manter sentimentos ruins quanto a Rudolph. Felicia foi categórica ao afirmar que ele me amava. Que eu fora a única que ele amou. Ele sempre me tratou de forma especial. Poderia Rudolph nutrir um sentimento paterno para comigo? Como Edward e o nosso filho?

Não, nada em Rudolph poderia se comparar a Edward. Nada naquela minha família biológica real poderia se comparar à minha família por afinidade, os Cullen. Aquela era a minha realidade, a que eu havia escolhido para mim. Não importava o que fora ou o que seria, eu sabia que a minha família, a que eu chamaria de família, seria sempre a família dos Cullen. E eu não estava preparada para abrir mão da vida que eu havia escolhido para mim.

Mas eu precisava encarar alguns fantasmas do passado antes de me conciliar com o futuro. Duas noites após a chegada de Felicia, Alice teve a visão que todos aguardavam. Os híbridos estavam deixando o covil, e eles sabiam onde procurar. A notícia foi dada durante uma das convenções dos Cullen, no salão principal.
_Vamos ter que brigar? – Emmett, punhos cerrados, socando a própria mão.
_Ninguém vai brigar, Em… – Carlisle sacudiu a cabeça, reprovando a atitude do filho. – Alice, quantos virão?
_Quatro. – A pequena vampira parecia em transe, os olhos arregalados e olhar distante. – São quatro… Um deles é jovem.
_Deve ser Ferdinand. – Eu disse, sentindo fisgadas por todo o corpo. – Rudolph provavelmente o traria para buscar sua prometida.
_Ele é muito inconsequente. – Felicia reprovou. – Ferdinand é um híbrido muito jovem para sair em uma missão dessas.
_Os outros são híbridos?
_Vampiros como Rudolph. Só o jovem é híbrido.
_Richard e Brandon. – Felicia considerou. – São os que Rudolph confia mais…
_Eles trazem o rastreador? – Eu tinha que perguntar.
_O animal? – Alice perguntou, ainda em transe.
_Sim…
_Eles trazem um animal, como um lobo… mas não é um lobisomem…
_O rastreador é um mutante. – Eu sabia aquelas respostas. – Ele é um animal, um lobo… mas vampírico. Ele tem presas afiadas e se alimenta de sangue. É só mais um integrante do show de horrores do covil.
_O que faremos? – Esme perguntou, olhos pousados na imagem pensante de Carlisle. O patriarca da família Cullen estava concentrado nas respostas de Alice.
_Não faremos nada. – Eu me manifestei. Os olhos de Edward imediatamente assumiram uma coloração escurecida, e ele me encarou com perplexidade extrema. Eu pude sentir sua agonia, todos puderam. – Eles vêm por minha causa, quem precisa resolver isso sou eu.
_Não. – Edward cerrou os punhos e se colocou ao meu lado, olhando-me de cima. Eu tinha o semblante decidido, e a reação de Edward fez com que os Cullen compreendessem algumas de minhas intenções. – De jeito algum, nem pense…
_Edward… – Eu sorri para ele, e levei meus dedos até sua face, acariciando-a. – Meus problemas, minha solução.
_Bea, você é parte da família. Não vamos deixá-la enfrentar isso sozinha. – Jasper manifestou-se.
_Eu não pretendo enfrentar sozinha. Eu preciso do apoio de vocês, ou não conseguirei fazer isso.
_Não! – Edward me segurou firme pelos dois braços, os dedos comprimindo minha pele com muita força. Baixei o olhar novamente, não conseguindo olhar diretamente em seus olhos. Os Cullen estavam todos apreensivos, ninguém exatamente entendendo o que havia; o que eu decidira. De fato, eu também podia desenvolver conversas mentais… talvez fosse
_Eu já me decidi, Edward. Em quanto tempo eles chegam, Alice?
_Amanhã. – A vampira disse, dispersando-se de seu transe.

Eu me afastei do grupo, caminhando e direção ao jardim dos Cullen. Aquele jardim me trazia boas memórias. Eu não me esqueceria das vezes em que me entendi com o sol… a relva macia e as flores que exalavam um perfume tão familiar. Mas eu não podia ter aqueles pensamentos nostálgicos. A minha decisão estava tomada, mas ela significava exatamente ficar ali, entre os Cullen, por toda a eternidade. Eu não pretendia deixá-los, deixar Edward. Eu precisava resolver uma pendência, um problema que eu sequer sabia existir. Tão logo ele se resolvesse, eu retornaria para eles. Para ele, para o meu noivo. Edward precisava entender aquilo, ele precisava compreender que aquela situação fora causada por mim, e somente eu poderia resolvê-la. Não cabia a qualquer dos Cullen. E eu não pretendia imputar-lhes a responsabilidade por isso.

Eu precisava enfrentar a realidade. Felicia era minha mãe, Rudolph era meu pai, e ele pretendia ter-me de volta no covil. Ele pretendia unir-me com Ferdinand e dar continuidade a seus planos completamente descabidos. Cabia a mim fazê-lo compreender o quanto tudo aquilo era insano. O quanto ele feria os sentimentos alheios. Cabia a mim fazê-lo enxergar. Ele era meu pai, e ele me amava. Ele teria que me ouvir. Ele também precisava enfrentar a realidade. Para Rudolph, a realidade era simples. Eu amava Edward, e ficaria com ele. Eu amava os Cullen, e ficaria com eles. Não importava saber que eu tinha uma família biológica; aqueles laços nunca me fizeram sentido algum. Eram duas realidades conflitantes que precisavam se encaixar. Como eu e Edward. Era somente uma questão de enquadramento.

Não era da minha natureza ser prática, menos ainda lógica. Eu era um ser muito pouco racional. E grávida eu poderia me considerar completamente irracional. Toda aquela ponderação ia de encontro a todas as expectativas. Rosalie foi quem decidiu buscar-me no jardim, alguns minutos depois. Estavam todos preocupados comigo, e eu preocupada com todos. Eu era forte o suficiente, eles não precisavam se preocupar. Tudo sempre se ajeitaria, comigo.
_Bea, venha para dentro… logo vai escurecer e Edward…
_Seu irmão agora manda recados? – Eu a interrompi e impliquei, um tanto quanto amarga. Talvez fosse uma defesa natural, repelir as pessoas amadas para não fazê-las sofrer.
_Ele ia dizer que está lá dentro, parado, da mesma forma que você o deixou. – Rosalie confessou. Virei-me para ela, um tanto surpresa com a constatação. – Pensei que talvez você conseguisse fazê-lo mover-se…
_Ele não deve estar muito satisfeito comigo, no momento.
_Você decidiu ir embora? – Então ele não havia contado a minha decisão. Nem Alice. Talvez esperassem que eu mudasse de idéia.
_Eu decidi resolver a questão sem envolver vocês mais do que já se envolveram. – Falei, tentando ser mais educada.
_É um pouco tarde agora, Bea. – Rosalie moveu os ombros, intentando deixar-me. – Todos já estão envolvidos, e o sofrimento é inevitável.

Eu não estava mesmo muito feliz com aquilo tudo. O mundo particular que construí para mim, sob o sol, parecia prestes a ruir. Como um castelo de areia, frágil e inconsistente. Eu não sabia que as coisas da vida pudessem desaparecer como areia no mar, e eu não pretendia permitir aquilo. Mas era inevitável que a infelicidade me abatesse naquele instante. Eu simplesmente não queria fazer o que eu estava decidida a fazer. Mas era inevitável, também, que eu o fizesse. Acompanhei Rosalie para dentro da casa, para encontrar a cena que ela descrevera. Apesar dos muitos minutos que eu ficara no jardim, pensando, Edward não havia se movido. Esme estava ao seu lado, mão em seu ombro, enquanto Edward se mantinha inerte, como uma estátua. Aproximei-me dele, envolvendo-o com meus braços e afundando-me em seu peito, como de costume. Senti seus dedos relaxarem e se dirigirem para meus cabelos, enquanto eu respirava lentamente. Talvez eu também soubesse como acalmá-lo.
_Espere que o amanhã chegue, Edward. – Sussurrei, só para ele. – Ainda não sabemos o que virá.
_Mas você já tomou a sua decisão. – Ele me apertou com muita força para si.





(Cap. 22) Capítulo 21 - Redenção

 

*tema: Tchaikovsky’s Piano Concerto 1 – B flat minor*
Um capítulo sob o ponto de vista de Edward Cullen.


Nunca imaginei que a noite pudesse ser mais torturante do que já vinha sendo. Noites sem tocar Edward, sem ser tocada por ele. Um acordo entre nós, satisfazendo o gosto de nosso ainda não nascido filho. Noites inquietas, de sono perturbado… noites as quais estava acostumada, no covil. Noites que eu havia esquecido, sob o sol. Noites que a vida sob o sol havia varrido de minha existência. E que retornavam impiedosamente com o estado da gravidez. O estado de consciência litigando com o estado de inconsciência; a batalha incansável do corpo com a mente. O desejo de manter-me acordada enquanto o organismo apagava e deixava de responder aos estímulos de meu cérebro.

Nenhuma noite poderia ser pior do que uma noite sem Edward.

Ele não estava ali, e ele não chegaria. Ele não estava ali, e eu não sabia o que fazer. Meus olhos se encheram de líquido, e a visão ficou turva. Passei os dedos pelos olhos úmidos, assustada com a reação de meu corpo. Eu estava chorando. Lágrimas vertiam violentamente de meus olhos, e eu não conseguia fazê-las parar.


***** No dia anterior… Edward POV *****

Beatrice estava fora de seu juízo normal. Sim, ela estava grávida e aquilo já era suficiente para deixá-la desajuizada. Mas decidir ir com os híbridos era descabido e irresponsável. Na última semana de gravidez, tão frágil e desamparada. Ela não podia submeter-se àquilo. Ela não podia submeter-me àquilo. Mas eu desisti de colocar-lhe algum juízo na cabeça quando Alice a viu no covil. As visões de Alice não mentiam, a não ser que Bea mudasse de idéia completamente. Ela não me parecia disposta a reconsiderar sua decisão.

Eu não tinha muito tempo com ela até que os híbridos chegassem. Um turbilhão de pensamentos passou ao mesmo tempo por minha cabeça, misturando-se com as vozes da minha família, da mãe de Bea, dela mesma. Do meu filho. Todos tão perturbados, e eu querendo colocar as duas mãos nos ouvidos e ficar completamente surdo. Gritar pela floresta, correr em disparada sem rumo algum. Mas eu precisava ser estável, ou ninguém mais o seria. Eu precisava fazer algo para impedir Beatrice, mas não havia mesmo nada que pudesse ser feito.

Pensei em tomá-la nos braços e fugir. Ela estava tão suscetível que não seria tão difícil arrastá-la até a garagem e desaparecer com ela. Pensei em ir para bem longe, um lugar no qual os híbridos jamais nos encontrariam. Mas… ela estava para ter um bebê. Eu ignorava qualquer procedimento que fosse referente ao parto, porque aquele parto nunca fora realizado por nenhum de nós. Em verdade, somente a sua mãe, Felicia, poderia ajudá-la naquele momento. Eu sabia que Felicia sabia o que fazer. Ela já passara por aquilo; e tantas híbridas sob seus cuidados. Eu não podia arriscar a vida de Bea, ou do meu filho, em uma fuga ensandecida. Se ao menos Felicia visualizasse o que deveria ser feito; se eu pudesse roubar-lhe a informação nos pensamentos. Mas ela inconscientemente mantinha seu segredo escondido o suficiente de mim.

Pensei em lutar. Tão logo Rudolph aparecesse, eu o impediria de chegar perto dela. Eu o mataria, se fosse preciso. Eu duvidava que aquele vampiro falsificado fosse mais forte do que eu; que ele pudesse desafiar-me à altura. E meus irmãos estariam ao meu lado. Emmett, a máquina de ataque mais potente que eu conhecia. Jasper, o melhor estrategista. O que era Rudolph além de um vampiro solitário que passava a existência controlando híbridos? Mas Beatrice jamais me perdoaria se eu ferisse seu pai. Ou qualquer outro híbrido. Eu vi em seu olhar o pavor quando eu eliminei Connor, o caçador. E ele era apenas um conhecido, mas Bea mal suportou o que houve. Ela jamais me perdoaria se eu sujasse as mãos com o sangue de seu pai.

E eu não conseguia ver alternativa, além de implorar para que ela não me deixasse. Jogar para os cães qualquer orgulho que eu pudesse ter, e ajoelhar-me a seus pés para implorar que ela não fosse. Eu o faria, se aquilo fosse de alguma utilidade. Eu faria qualquer coisa, se houvesse algo que pudesse demover aquela híbrida teimosa de sua decisão tola. Tola, irresponsável, estúpida. A decisão mais ridícula de todas as decisões possíveis. Mas ainda assim era a decisão dela, e eu deveria respeitar. Por mais que aquilo fosse me matar. E eu já estava morto, mesmo.

Enquanto ela adormecia em meus braços, aquele sono inconsistente que eu aprendi a observar dia após dia, a vontade de fugir era nítida demais à minha frente. Meus dedos delineavam a sua face serena, e acariciavam seus cabelos, enquanto ela sussurrava palavras ininteligíveis. O que eu faria sem ela? Eu não sabia. Pela primeira vez em toda a minha existência eu encarava um fato novo com o qual eu não podia lidar.

Quando o céu clareou por completo e o sol começou a escavar lentamente um espaço entre as nuvens claras, levantei-me e fui para a cozinha. Ao menos o prazer de preparar-lhe o café da manhã eu teria. Esme encarou-me em desalento. Eu provavelmente estava horrível, e sem vontade alguma de me sentir melhor. Arrastando-me pela casa como eu nunca estive, organizei os ingredientes para preparar-lhe as panquecas, uma receita nova que Rosalie me ensinara. Meus movimentos eram lentos e não tão coordenados como antes. Talvez eu também estivesse na oportunidade de vivenciar experiências humanas demais, então. O desespero da perda de Beatrice extrapolava os limites psicológicos e refletia no corpo físico. O meu imutável corpo de vampiro.

_Deixe-me ajudar, Edward. – Alice se aproximou, enquanto eu parecia incapaz de finalizar a tarefa.
_Eu preciso fazer isso, Alice. – Disse, olhos fixos no nada.
_Ela jamais saberá que ajudei – Minha irmã piscou um olho para mim, aquele gesto humano de companheirismo. – Quem lê mentes é você.
_Sou o único em agonia, nessa casa? – Protestei, deixando a frigideira bater no fogão. Alice tomou o utensílio de minhas mãos e franziu o cenho, irritada.
_Você não me parece muito objetivo, Edward. Afinal, ninguém melhor para saber como estamos sofrendo. Porém… – Alice terminou a tarefa de cozinhar as panquecas em instantes. – você sabe que nada mudará. Eu vi, você sabe. Deveria dar algum crédito a Beatrice, ela está tentando.
_Ele pretende martirizar-se… eu não pedi nada a ela.
_Talvez isso não seja por você, vampiro egoísta. – Alice entregou-me o prato com as panquecas e me olhou furiosamente. Aquela era minha irmã, sempre tão instável. Uma hora feliz e saltitante, outra hora infernalmente irritada. Respirei fundo, organizei os alimentos em uma bandeja e deixei a cozinha, pretendo acordar Bea… que já estava descendo as escadas. Talvez não fosse por mim. Eu era egoísta, tão egoísta que eu sequer poderia ser considerado uma boa pessoa. Vampiros maximizavam suas características humanas, e os humanos são essencialmente egoístas. Bea também o era. Se ela não fazia aquilo por mim, fazia por egoísmo. E desejar que ela não fizesse aquilo por mim era egoísmo meu.

Ela era adoravelmente teimosa demais para eu suportar. Mordi o lábio inferior em uma demonstração de irritação, desejando que ela entendesse o que fazia comigo. Mas ela me sorriu, e tão logo nada mais era importante. Eu desejava tanto tomá-la em meus braços… eu desejava tanto algo que estava tão instável em mim mesmo. Algo tão impossível naquele momento.
_Panquecas! – Ela disse, se aproximando lentamente. – Senti o cheiro lá de cima.
_Olfato apurado. – Beijei seu nariz, um gesto despretensioso de carinho. – Está com fome?
_Sede, fome, qualquer coisa. Preciso me alimentar. – Ela caminhou comigo até o salão, e se sentou novamente. Apoiei a bandeja sobre o sofá e liguei a televisão; um hábito tão pertencente a Emmett. Beatrice imediatamente começou a comer, e pude notar como ela estava enfraquecida. Ela precisava de sangue… eu temia que ela pudesse ter complicações no parto em razão da dieta forçada somente com alimentos humanos. Nos últimos dias ela não conseguia sair para caçar, estava muito debilitada. Seu corpo era fraco demais e ela mesma temia pela saúde do bebê. Seus olhos estavam púrpura, como eu só vira uma vez durante a gravidez. E as olheiras fundas denunciavam que ela tinha, mesmo, sede.

Deixei-a se alimentando para encontrar meu irmão em seu quarto. Meu corpo resistia em mover-se sempre que eu pretendia deixá-la em algum lugar, mas a mente precisava dominar a matéria. Eu precisava estar no controle de mim mesmo, ou nada do que eu construí por tantos anos teria valido à pena. O tão barulhento Emmett estava acalentando sua Rosalie de forma suave e gentil. Nem parecia a mesma pessoa. Vampiros apaixonados eram mesmo estúpidos.
_Em, você poderia me fazer um favor? Na verdade, um favor para Bea? – Disse, entrando porta adentro como eles invariavelmente faziam comigo.
_O que houve? – Ele pulou da cama, ansioso. Sempre.
_Ela tem sede, mas não deve sair para caçar. Ela está muito frágil, não a quero se arriscando com nenhuma presa… nem mesmo com coelhos. Você… poderia sair e pegar alguma coisa? Para ela?
_E por que não vai você mesmo, Edward Cullen? – Rosalie resmungou.
_Eu não quero deixá-la. – Era verdade, então. – Por favor, Emmett.
_Está brincando? – Meu irmão colocou a mão sobre eu ombro, sorrindo. – Você sabe que adoro sair e arrumar confusão. O que eu devo trazer? Ursos?
_Não… – eu tive então vontade de rir, mas minha face não se moveu. – Em, deve ser algo rápido. Cervos, coelhos, esquilos… o que estiver mais perto.
Emmett sorriu novamente, e se preparou para deixar a casa, pela janela de seu quarto. Antes, porém, virou-se para mim com uma sobrancelha franzida, os pensamentos tão nítidos que eu poderia desenhá-los. Emmett era sempre nítido como uma imagem de televisão. Eu nunca me enganava quanto a ele.
_Ed… – Ele iniciou meu nome, já sabendo que eu sabia.
_Eu só penso nisso, Em. Mas não seria certo.

Não seria certo. Nada do que eu pensava seria certo, e eu não podia tomar atitudes que desagradassem Beatrice. Ao lado de todo egoísmo, do desejo de mantê-la ao meu lado, estava a vontade de fazê-la feliz. De fazê-la sorrir todo dia, de vê-la radiante como o sol no verão. Só ela sabia ser assim. Só Bea podia dar-me a sensação de estar com um ser humano, vibrante, ao mesmo tempo de estar com um vampiro, durável e inquebrável. Eu não podia magoar Beatrice; de todas as feridas que ela pudesse ter, nenhuma delas poderia ser proporcionada por mim. Eu a amava demais para aceitar a hipótese de feri-la.

Mas o que fazer quando tudo que você ama está prestes a desaparecer? O que fazer quando, depois de um século de existência, depois de ter vivido acima do bem e do mal, e depois de finalmente ter-se encontrado, tudo que mais importa, e tudo que importará por uma eternidade, está prestes a ir embora, deixando nada no lugar?

O sol de meio dia raiava cintilante no céu quando Alice chegou à sala, olhar distante e fixo. Eu poderia ouvi-la à distância, mas ela tinha razão ao afirmar que eu perdera minha objetividade. Minha concentração estava fixada no semblante de Bea, que se recostava por sobre mim enquanto assistíamos à televisão. Não havia agonia maior do que aquela espera. Por um lado, foi bom que tivesse acabado.
_Edward. – Alice disse, olhar divagando. – Eles chegaram.
Em poucos instantes, todos os Cullen estavam reunidos novamente. Bea não moveu um músculo; manteve sua serenidade como se não tivesse realmente ouvido Alice. Se eu não soubesse que sim, eu podia crer que ela estava muito distraída com a programação diurna. O tormento parecia ter chegado ao fim, mas eu nem imaginava que aquele seria o começo. Não haveria fim no buraco ao qual eu me atiraria, no instante em que Beatrice decidisse levar adiante a sua decisão.
_Deixe que os recebo. – Jasper movimentou-se, pressentindo toda a apreensão. Era muito cansativo para ele manter um clima ameno na casa desde a chegada de Felicia. Eu podia ver meu irmão esgotado, mas era quase impossível evitar meu desespero. O desespero de todos. A agonia, principalmente do dia anterior. – Fiquem todos na casa.
Jasper olhou para Alice, esperando uma confirmação sua. Alice continuava em transe, como acontecia sempre com suas visões. Ela assentiu, fechando os olhos calmamente, e ele caminhou até a porta, intencionando receber nossos não convidados na varanda. Havia em Jasper a esperança de que ele conseguisse ludibriar os híbridos, enganando-os para que pensassem que Bea não estivesse ali. Eu não queria admitir, mas eu apostava todas as minhas fichas em Jasper.

Eu não podia levantar-me do lado de Bea. Não podia e não queria. Ela continuava recostada em meu peito, respirando calmamente, cantarolando uma canção. Mentalmente. De novo, se eu não soubesse, eu poderia dizer que ela estava alheia aos acontecimentos recentes. Aprisionada em seu próprio mundo. Concentrei-me então no diálogo que acontecia, enquanto a porta da casa estava apenas entreaberta.

_Saudações. – A voz grave cumprimentou meu irmão. – Sou Rudolph Caldwell, estou em busca de duas mulheres. O rastro de uma delas termina aqui, nesta casa.
_Saudações, Jasper Cullen. – Eu podia visualizar Jasper oferecendo a mão para Rudolph, em cumprimento, enquanto mantinha o ambiente calmo e pacífico. – Lamento, mas não compreendo suas intenções.
_Felicia Caldwell. Ela está aqui, com vocês?
Felicia contorceu-se, levantando-se imediatamente. Ela se culpava pelo fato de Rudolph tê-las encontrado, e a culpa era mesmo dela. Se Felicia não tivesse vindo por Bea, o patriarca dos Caldwell não a teria encontrado. Mas encontrar culpados não ajudaria em nada naquele momento.
_Devo ir falar com ele… talvez ele me leve de volta e esqueça Beatrice.
_Esperemos. – Esme confortou Felicia. Eu tinha os braços ao redor de Bea, como a minha prisão privativa para ela.
_O que deseja com a Sra. Caldwell? – Jasper finalmente respondeu Rudolph, depois de ter pensando em diversas formas diferentes de abordar o vampiro. Jasper pensou até mesmo em eliminá-lo, e se aquela possibilidade passou por sua cabeça era porque não havia grande risco a se considerar. Poderíamos eliminá-los, então. Mas novamente a razão dominou a tentação, e o controle prevaleceu à insanidade.
_Vim buscá-la. Ela me pertence, assim como a híbrida por quem ela veio.
_Vou até ele. – Felicia foi até a porta, e ninguém a interrompeu. Era mentir ou deixar que ela fosse. Mentir – e lutar – ou permitir. A híbrida saiu porta afora, deixando-a aberta, e saiu do meu campo de visão. – Rudolph… não esperava que desse pela minha falta tão rapidamente.
_Felicia, você me desaponta inacreditavelmente. Onde está Beatrice? Ela não virá falar comigo?
_Bea não quer falar com você. – Felicia o desafiava, mas com total subserviência. Era impressionante como seu tom de voz era contraditório à sua atitude. – Vamos embora, o covil não pode ficar sem três caçadores desnecessariamente.
_Assim que Beatrice juntar-se a nós, iremos.

Bea então decidiu reagir aos estímulos externos. Seu corpo contraiu-se todo, e ela levou uma das mãos ao ventre, fechando os olhos. Cerrei os punhos… mas eu precisava estar calmo. Eu gostaria de poder conversar com meu filho e fazê-lo compreender que ele precisava respeitar os limites de sua mãe. Eu sabia que ele estava desconfortável, crescendo de forma acelerada e ficando gradualmente sem espaço dentro do ventre de Bea. Eu sabia que ele desejava deixar aquele lugar. Mas ele ainda não sabia como fazê-lo… e eu não podia ajudá-lo. Eu queria poder falar com meu filho, e dizer a ele que convencesse sua mãe a ficar. Para que ele pudesse ficar comigo. Eu não conseguia resistir à sensação de perda que a decisão de Bea me causava.

_Rudolph, deixe Beatrice em paz… – Felicia tentava dissuadir o vampiro de suas intenções. – Ela está feliz, ela está bem… você a permitiu sair, por que isso agora? Você pode usar outra… você tem tantas como ela…
_Nenhuma como ela. – Rudolph corrigiu, interrompendo Felicia. – Bea é única, você sabe. Ferdinand… gostaria de conhecer sua prometida?
_Saudações. – Carlisle, que já estava fora do meu campo de visão, surgiu na varanda. Bea continuava a contorcer-se em dor, porque o bebê estava muito agitado. Ansioso, como a mãe. Como eu. – Sou Carlisle Cullen, patriarca da família.
_Carlisle! – Uma outra voz, com bastante surpresa.
_Richard!! Richard McKellen… – Eu não pude ver, mas imaginei que Carlisle estava realmente satisfeito em ver um antigo companheiro. – Quantas décadas…
_Desde os Volturi! Mas diga… você é o patriarca do covil…
_Pai. – Carlisle e seu vocabulário humano. – Sou o pai, Jasper é meu filho… bem como os outros aqui. Essa é nossa casa. Vocês são bem vindos… entremos. Mas por favor, o… cachorro poderia ficar do lado de fora?
_Certamente.
_Jasper… você poderia levar Ferdinand à garagem e mostrar o presente de aniversário de Alice? – Carlisle disse, antes que os vampiros entrassem.
_Mas o que…
_Richard, confie em mim. Eu gostaria que Ferdinand fosse com Jasper. Será melhor assim.
_Venha comigo, Ferdinand… – Jasper moveu-se, porque sua voz começou a desaparecer. – Você conhece algum carro?
Minha atenção foi imediatamente distraída pelos visitantes que entraram porta adentro, seguindo Carlisle. Além de meu pai, três outros vampiros trajando roupas antigas e botas, e Felicia. Beatrice respirou fundo, afundou o nariz em meu peito, pressionou suas mãos em minha cintura e ajeitou-se no sofá. Ela parecia buscando a força que precisava para tomar as atitudes que teria que tomar. Esme colocou-se ao lado de Carlisle, e ele começou a apresentar a família. Em poucos segundos, o olhar atento de Rudolph capturou a imagem de Beatrice, sentada quase em meu colo. Ele caminhou lentamente em nossa direção, independentemente da tentativa de Carlisle em chamar a sua atenção, comentando sobre a família.

Naquele momento, controlar-me foi muito difícil. Ter acesso aos pensamentos de Rudolph e ter acesso à sua figura, saber o que ele pensava e pretendia, era cruel demais. A cada passo que ele dava, eu sentia um monstro crescer dentro de mim. Um monstro que se alimentava de ira, que se alimentava do meu desespero. Meu peito se inflou; um rosnado feroz se soltou de minha garganta. Baixo, mas feroz. Meus músculos se contraíram todos, eu sentia o corpo tremer. Eu estava à beira de um ataque, fosse de nervos, fosse de fúria. O ódio crescia dentro de mim como se a simples imagem de Rudolph pudesse desencadear o armagedom.
_Beatrice! – Sua voz chamou a atenção de minha noiva, que finalmente abriu os olhos e encarou a luz do dia.
_Olá, Rudolph. – Ela sorriu, e ela realmente queria sorrir. Como se ela estivesse feliz em poder vê-lo outra vez. – Como vai você?
_Levante-se, vamos para casa. – O vampiro derramou as palavras, sem mal olhá-la.
_Já estou em casa. – Ela sorriu mais, tentando desprender-se de meus braços. Eu os mantive na mesma posição, sem conseguir mover-me. – E muito feliz.
_Rudolph, por que não se senta para conversarmos? – Carlisle se aproximou do vampiro, seguido pelos demais, pretendendo por algum senso naquela confusão toda. Mas eu sabia que aquilo não aconteceria. O meu rosnado se tornou mais alto, e Beatrice me encarou com irritação.
_Não tenho tempo para cordialidades, infelizmente. Vamos, Beatrice.
_Edward, solte-me. – Ela disse para mim, olhos nos olhos. Como ela poderia me pedir para soltá-la, se eu sabia que ela não retornaria para meus braços depois? Alice se aproximou, talvez intencionando prestar algum apoio moral a quem fosse preciso, mas eu tentaria a todo custo controlar-me. Com alguma dificuldade, relaxei meus braços e Beatrice pode levantar-se, para encarar seu pai. – Você se atreve a vir à casa dos que me acolheram e me dar ordens? Acha mesmo que pode chegar aqui e me arrastar com você como se tudo estivesse como antes? Acha mesmo que eu não sei de todas as suas mentiras? Seja ao menos educado com os Cullen, eles são a minha família, agora.
_O que contou a ela? – Rudolph olhou para Felícia, com alguma fúria nos olhos. Eu não conseguia mais controlar o rosnado que saia de minha garganta, eu estava a um fio de perder completamente o controle. Alice colocou as duas mãos em meus ombros, e Emmett aproximou-se. Todos percebiam a minha irritação crescente, e o que aquilo poderia significar. – E… o que aconteceu aqui???
_Você vai me dizer agora que nunca viu uma fêmea prenhe? – E Bea conversava com ele em seu próprio vocabulário. Bastante rude, mas palavras que ele poderia compreender, então. – Eu não estou nada satisfeita com você, Rudolph. Eu sei de todas as suas mentiras, e não estou nada satisfeita. Não gostei de você ter vindo buscar-me agora, também. Eu não quero voltar, você me permitiu sair. Eu não quero voltar.
_Por isso você não quis que Ferdinand entrasse… – Aquele que tinha a voz do nome Richard falou com Carlisle, que apenas assentiu com a cabeça, um tímido sorriso. – Ela foi violada por outro.
_Violada? Que grosseiro… eu estou grávida, Richard. Eu não fui violada, tudo aconteceu por minha vontade e de acordo com ela. – Bea dirigiu-se a Richard com a mesma ferocidade que a Rudolph. – Aliás, como sou mal educada. Deixe-me apresentar vocês a meu noivo.

Beatrice moveu-se para o lado, e me puxou pela mão, colocando-me à sua frente. Contive os impulsos animalescos e ergui a mão para cumprimentar os vampiros.
_Saudações. – A voz saiu de dentro de mim sem qualquer motivação. Era como o eco dentro de um corpo vazio. – Edward Cullen.
_Essa brincadeira é de péssimo gosto, Beatrice. – Rudolph sequer teve a decência de cumprimentar-me. Minha mão ficou estendida no ar, e eu a recolhi assim que percebi a animosidade presente. – Você é a prometida de Ferdinand, e ele está lá fora. Como pretende mostrar-se a ele dessa forma, prenhe de outro? É uma desgraça, uma desonra… tudo pelo que trabalhei todo esse tempo… é mesmo uma ingrata.
_Eu sou ingrata? – Bea parecia finalmente irritada com seu pai vampiro. Talvez aquela irritação fosse a meu favor, então. – E se eu me recusar? – Ela jogou, mas eu sabia que era apenas um jogo. Ela não pretendia recusar definitivamente. Segurei-a por um dos pulsos, como que aquela amarra pudesse mantê-la comigo para sempre. – E se eu não quiser ir, e se não pretender unir-me a Ferdinand nunca?
_Você pretende arrumar problemas?
_Não, eu só pretendia saber se teria que lidar com problemas. Rudolph, eu não pertenço mais àquele lugar, não pretendo viver lá. Agora tenho minha família, meu noivo e meu filho.
_Você volta comigo, não há argumentação cabível. Vamos.
Em um movimento rápido, Rudolph segurou Beatrice pelo outro pulso e a puxou consigo. Foi tudo muito rápido. Ele a puxou, e eu perdi definitivamente o pouco controle que me restava. Ele a tocou, e eu deixei a razão perder-se completamente por um instante. Coloquei-me entre Beatrice e Rudolph, rosnando da forma mais feroz que eu podia. Emmett movimentou-se para impedir-me de cometer uma besteira, mas era tarde. Foi realmente rápido. Em segundos, Rudolph estava com uma das mãos em meu pescoço, segurando-o com uma força praticamente incompatível com qualquer força; eu suspenso alguns centímetros do chão, Carlisle em posição de ataque, Emmett em posição de ataque, Richard e Brandon em posição de ataque. Talvez sim, aquele fosse o armagedom. Meu armagedom particular, o fim dos tempos criado por Edward Cullen.

_Parem com isso agora!!! – Beatrice disse. Não, Beatrice exigiu. Seu tom era ameaçador; ela acabara de emitir uma ordem. Para mim, era uma ordem. – Rudolph, solte Edward imediatamente. Em, Carlisle, por favor… e vocês dois, saiam daqui! Vão lá para fora com Ferdinand. Eu não vou pedir novamente. – Eu poderia soltar-me e matar Rudolph. Rudolph poderia matar-me. Tudo poderia acabar tão rapidamente como começou. Mas todos nós obedecemos Beatrice, de uma forma inexplicável. Ela havia definitivamente emitido uma ordem. Seu olhar era mais feroz ainda do que o meu, e seus olhos púrpura eram assombrosos. Rudolph soltou-me, e Beatrice colocou-se entre nós dois. Meu pai e meu irmão acalmaram-se, enquanto Brandon e Richard simplesmente deixaram a casa, indo para a varanda. Provavelmente estariam à procura de Ferdinand, como ela exigira. – Vocês me irritam! – Ela retomou o discurso. – Eu não posso me submeter a esse desgaste, sabiam? Eu… tudo bem, Rudolph. Façamos um trato.
_Não temos trato nenhum a fazer, Beatrice.
_Eu não estou pedindo, eu estou determinando. – Beatrice então estava assustadora, de verdade. Todos a olhavam com real assombro, até mesmo admiração. Eu ouvia seu coração bater tão rapidamente que nem parecia o mesmo coração. – Eu retornarei ao covil com vocês, temporariamente. Falarei ao conselho, e depois irei embora. Eu não pertenço mais àquele lugar.
_Beatrice… – Eu precisava insistir, mais um pouco.
_Edward, não torne isso mais difícil do que já é para mim. – Ela não me encarou. Seu olhar era dirigido a Rudolph, como se ela não o pudesse perder de vista.
_Vamos então. – Rudolph deu-nos as costas. Eu olhava para baixo, mas não via nada. O vazio, apenas.
_Em alguns minutos. – Ela finalizou. – Vocês… preciso conversar com Edward. A sós.

Todos obedeceram, mais uma vez. Eu não sabia o que sentir ao ver Beatrice reagir daquela forma ao pequeno caos que se formara na sala, naquele instante. A híbrida tola e assustada que chegou meses atrás à minha casa deu lugar a uma mulher de fibra impressionante. Em um instante, em apenas uma fração de segundo, Beatrice transformou-se. Eu sabia que aquela era uma reação ao ocorrido. Por um minuto Beatrice ficou em branco. Eu não pude lê-la, era como se nada passasse por sua cabeça. E então era retornou com todo aquele potencial destrutivo. Dando ordens, falando com segurança, controlando a situação. Os Cullen, Rudolph e Felicia deixaram a sala, indo para outros lugares. Eles realmente nos deixaram a sós, como ela tão decididamente exigiu.

_Beatrice, você precisa tirar da cabeça essa idéia absurda! – Eu disse, tão logo me peguei sozinho com ela. – Você não vai a esse covil, você está prestes a ter um bebê!
_Eu sei. – Sua fisionomia era frágil e suave, novamente. – Edward, meu amor… você tem idéia do que eu sofri, nesses segundos em que Rudolph o tinha em suas mãos? – Eu franzi o lábio, negando. Eu não tinha, pois ela estava em branco. A primeira – e eu esperava a única! – vez em que eu não conseguira lê-la. – Então você não vai entender o porquê da minha partida. Eu não posso colocar ninguém que eu amo em risco.
_Não estamos correndo risco algum. – Protestei, mais parecendo uma criança contrariada. O garoto de dezessete anos em mim estava de volta.
_Se você estivesse pensando com objetividade, saberia quais as minhas intenções. Eu vou voltar, Edward. Mas eu preciso colocar um fim nessa história. Eu já deveria ter retornado ao covil e enfrentado o problema, mas eu fui covarde. Você vai esperar-me?

Como Beatrice era tola! Estava de volta a minha Beatrice, tão ingênua e tola. Aquela pergunta não podia ser mais ridícula do que toda a situação já o era.
_Essa pergunta é ridícula. – Eu repeti meus pensamentos. Afinal, ela não podia lê-los. – Você tem idéia do que eu sofri, nos segundos em que Rudolph a segurou e pretendeu arrastá-la consigo?
_Estamos empatados, então. – Ela curvou seu corpo frágil para mim e me beijou. Seus lábios tocaram os meus com tanta suavidade que ela parecia temer machucar-me. E ela efetivamente estava temendo por minha segurança. Por minha incolumidade física. Eu desistiria de argumentar. Beatrice não estava sendo lógica há semanas, e nada do que eu falasse para tentar dissuadi-la daqueles pensamentos seria útil. Eu apenas a deixaria irritada. Deixei que seus lábios fizessem com os meus o que ela queria, tentei correspondê-la da forma como ela esperava. – Eu te amo. Prometa-me que ficará bem.
_Não posso prometer-lhe algo que sei que não cumprirei.
_Tente, ao menos. Eu retornarei logo… talvez com nosso filho nos braços, mas retornarei.
_Vai privar-me até disso…
_Edward! – Beatrice assustadora, novamente. – Entenda, é a primeira vez que tenho a chance de fazer a coisa certa e a coisa certa não é o que eu quero. Deixe-me ter a minha redenção, Edward… deixe-me fazer a coisa certa. Deixe-me mostrar a Rudolph que ele está errado, deixe-me mostrar a Ferdinand que não sou adequada para ele, deixe-me mostrar a Felicia que minha vida é aqui agora, deixe-me sair da minha vida anterior com dignidade. Eu preciso fazer isso, por todos vocês. Pela felicidade de todos, não pela minha. É a primeira vez em que não desejo ser egoísta e colocar-me em primeiro lugar.

Eu não podia mesmo argumentar com ela. Talvez ninguém ali pudesse. Beatrice caminhou até a porta, abrindo-a e demonstrando sua intenção de acompanhar os vampiros. Alice desceu as escadas com duas malas, uma bem pequena. Eu pude sentir a tristeza. Minha irmã estava experimentando uma dor a qual não estava acostumada. Jasper juntou-se à nós, pois de nada adiantava esconder o menino, então. Menino… por mais maduro que o híbrido pudesse ser considerado, ele aparentava ser um menino.
_Bea… você prometa não abrir antes do bebê nascer! – Alice entregou as malas aos vampiros. – A mala com roupas para o bebê… com coisas que ele pode precisar. Não abra! São surpresas… minhas, de Rosalie, de Esme.

Eu não queria ver aquela cena. Saí pela porta, caminhei apressadamente para o meio do pátio. Eu me recusava a ver Beatrice despedir-se de minha família. Eu não queria ouvir, não queria ver, não queria estar presente. Não importava, ela dizer que voltaria logo. Não importava, ela dizer que voltaria, apenas. Coloquei as duas mãos nos ouvidos, e tentei abstrair qualquer coisa que pudesse ser um pensamento. Até dos animais próximos; eu não queria ouvir nada. Lutei contra mim mesmo por alguns minutos, até que tudo ficou em silêncio. As mãos mornas de Beatrice me tocaram a cintura, e eu desejei repeli-la. Poderia ser uma boa defesa, afinal. Senti o abraço, o beijo em minhas costas, o carinho das suas mãos espalmadas em meu estômago. Ela compreendia meus sentimentos; ela tinha que compreender. Ela estava me deixando, como queria que eu me sentisse? Então eles passaram por mim, e eu vi Beatrice fazer um gesto para Emmett, sorrindo. Meu irmão se aproximou e segurou minhas mãos atadas em minhas costas. Posição padrão de defesa de um vampiro. Era completamente desnecessário pedir que Emmett me mantivesse sobre controle. Eu não tinha forças nem mesmo para sair do lugar.

_Esperem. – Carlisle disse, alcançando os vampiros. – Por favor, deixem-nos levarem vocês de carro. Beatrice está muito debilitada para caminhar até o covil.
_É uma boa idéia, Rudolph… – Felicia interveio sem ter muita certeza.
_Meus filhos Alice e Jasper conduzem vocês… aceitem como um gesto de boa vontade.

Eu não vi mais nada. Eu estava em total silêncio, e a paz finalmente se abateu sobre mim. Como um meteoro caindo do céu, a paz desabou sobre minha cabeça e me fez sentir dormente. Anestesiado, talvez. Meu pai disse qualquer coisa sobre Alice e Jasper conduzirem os híbridos até o covil, e eu ouvi o barulho dos motores ligando, mas nenhum pensamento. Nenhum pensamento… nada além do barulho dos motores. Quando tudo ficou escuro demais para que os olhos enxergassem e frio demais para que o corpo suportasse, eu me senti desmoronar no chão. Meus braços puxaram meus joelhos para meu peito, e eu me fechei como se aquilo fosse proteger-me da solidão.

Não importaria se eu conseguiria viver aqueles dias sem Beatrice. Eu não queria nem tentar.





(Cap. 23) Capítulo 22 - Redenção

 


*tema: Westlife’s Butterfly Kisses*

Era a terceira noite que eu passava no covil, desde o meu retorno ao ‘lar’. As coisas não estavam saindo como eu esperava, e talvez a dignidade que eu pretendia não me fosse garantida. Blasfemei contra Rudolph por me tirar o direito a uma das poucas coisas que eu parecia ter condições de fazer. Agir corretamente. Entrar no covil me deu uma sensação de claustrofobia. Eu já havia me adaptado plenamente ao sol, e meus olhos quase não conseguiram enxergar nada até chegar à iluminação artificial. A temperatura úmida me causou asco, e tudo ali me causava irritação. Eu estava sensível além das possibilidades, e ninguém percebia aquilo. Estar na presença de pessoas que não me compreendiam, que não podiam simplesmente ler-me…

Eu estava plenamente adaptada a Edward e aos Cullen. Qualquer mudança me consumiria muito esforço e tempo.

A primeira noite foi de agonia. A segunda também. A terceira seria inútil, pois eu parecia não ter a menor intenção de adormecer. O bebê chutava, e com toda força que ele tinha. Ele se mexia sem parar, e deixava claro que ele também estava insatisfeito. Eu sentia tantas dores a cada vez que ele me acertava um órgão; mais de uma vez eu expeli sangue por minha boca. Ele estava me causando mal, então. Por um lado era vantajoso que Edward não me pudesse ver naquele estado… ele ficaria aborrecido. Eu não contava a ninguém sobre as dores, eu simplesmente não falava com ninguém desde a minha chegada. Rudolph me isolou em alguma área privada, que eu supus ser a quarentena, e somente Felicia tinha acesso a mim. Além dela, dois outros híbridos… Jasmine e Ferdinand. Ora, ele seria meu futuro companheiro. Rudolph ainda idealizava que aquilo pudesse acontecer.

Sentada na cama que me era destinada, eu tentava me concentrar na leitura mórbida de Shakespeare. Todos sempre morriam… principalmente os amantes. Por que Shakespeare tinha tanta predileção em matar os amantes de forma tão trágica! Virava as páginas de Otelo com desalento e sem o menor interesse na leitura da mesma coisa que já lera tantas vezes atrás. Eu sabia que a noite passava e eu não conseguia adormecer. Os híbridos não contabilizavam noites e dias; era tudo sempre escuro demais.
_Bea… – Felicia entrou nos meus aposentos e eu acuei-me no canto da cama. Eu estava irritadiça e não me sentia segura na presença de ninguém. – Ainda acordada? Precisa de alguma coisa?
_Tenho fome. – Eu disse, pretendendo relaxar. Felicia se aproximou querendo examinar-me. Ela me examinava constantemente para saber a hora certa do nascimento do bebê, pois segundo ela seria em breve. Felicia cuidava das híbridas prenhes, praticamente de todas elas. Ela sabia o que estava fazendo, eu devia confiar.
_Quer que eu busque um copo de sangue? Você…
_Estou com fome, Felicia. – Emburrei. Teimosia era uma qualidade tão interessante… Edward sempre me dizia que eu era teimosa. Eu não sabia direito, não entendia a característica. Precisei aprender o que era ser teimosa. E ele tinha razão, eu o era. – Quero comida, alimento humano. Aprendi a me satisfazer com isso… e o bebê me consome muitas energias. O sangue daqui é desagradável demais para me abrir o apetite.
_Seu vocabulário está incompreensível. – Felicia ponderou, tocando meu ventre. Qualquer toque que não fosse o de Edward me deixava ainda mais aborrecida. – E não temos comida aqui.
_Eu sei. E meu vocabulário não está incompreensível, é que vocês são obtusos demais. – Puxei a vestimenta a fim de cobrir meu corpo, deixando claro que não queria mais ser tocada. – Então não preciso de nada, obrigada.
_Seu bebê é para logo. – Ela sorriu, mas eu não parecia feliz. Ela nem tinha entendido que eu a estava ofendendo. Tentando, ao menos. – Talvez amanhã…
_Quanto antes ele nascer, antes eu desapareço.
_Vai mesmo desafiar Rudolph? – Felicia se sentou, e eu pude notar que ela não estava zangada pela minha insolência. Ela estava curiosa, talvez muito curiosa sobre como eu teria conseguido encontrar tanta coragem dentro de mim. Eu detestava desapontá-la, mas nem mesmo eu sabia como.
_Não vou desafiá-lo. Felicia, você sabe o que é estar apaixonada? Você já sentiu isso? Você sabe como o organismo responde a esse sentimento? – Ela nada respondeu. Eu imaginei que a resposta fosse positiva, porque ela pareceu demonstrar empatia ao meu discurso. – Eu estou cansada de afirmar a mesma coisa uma vez atrás da outra, sem parar. Sinceramente? Estou cansada. – Fechei o livro, fazendo um ruído abafado. – Eu não quero mais conversar.

Felicia não pareceu tentada a deixar-me, mas ela percebeu que eu não me demoveria da minha decisão quando deitei de lado e virei-me de costas para ela. Respirando com muita dificuldade, permaneci naquela posição até que ela levantou-se e caminhou até a porta. Mas a sorte não estava exatamente do meu lado, e uma música sonora e bastante estridente preencheu o quarto antes que Felicia saísse. E então ela não mais sairia, até saber de onde vinha a música. Sentei-me na cama, contrariada, lábios retorcidos, blasfemando entre os dentes. Remexi a bolsa que estava ao chão, próxima da cama, e retirei um pequeno artefato eletrônico. A música ficou mais alta até que eu a fiz cessar.
_Alice. – Eu suspirei entre os dentes, imaginando o que levaria a minha irmã vampira a ligar-me.
_Bea, como você está? Diga que está bem, eu estou vendo tudo tão confuso…
_Eu estou bem, Alice… por que ligou-me? O combinado não era que eu ligaria todo dia?
_Mas Bea, eu vi… o bebê, ele nasce amanhã. Cedo.
_Felicia examinou-me e disse a mesma coisa – E quando Alice falava, tudo se tornava verdade. Real, palpável. E eu estava então mais ansiosa do que era permitido estar. – Mas ligou-me só para dizer-me que meu filho está para nascer?
_Sim… quero dizer, não. Estão todos irritados comigo, mas eu preciso falar! Edward… ele deixou a casa.
_O que? – Meus dedos comprimiram o pequeno aparelho quase a ponto de quebrá-lo. Se eu não ouvisse um estalo em minha mão, o equipamento teria se tornado pó. – O que quer dizer com ele deixou a casa?
_Ele saiu… na verdade, ele nos reuniu hoje à tarde para compartilhar sua idéia. Afinal…
_Não existem segredos entre os Cullen. – Eu completei a frase.
_Isso! – Alice parecia vivaz, e eu podia vê-la batendo palmas em euforia com nossa conversa. Como sempre, ela deveria estar radiante. – Então, ele nos contou… que pretendia encontrar-se com você. No covil.
_Edward está vindo para o covil? – Falei aquilo alto demais, e Felicia arregalou os olhos em surpresa. Ela fechou imediatamente a porta atrás de si, e se aproximou de mim para ouvir melhor a conversa. – Ele só pode ter perdido o juízo.
_Também acho, porque eu disse a ele tudo que vai acontecer… mas ele passou um dia deitado do lado de fora… depois decidiu levantar-se e trancou-se em seu quarto… hoje, que pensamos que ele sairia para caçar, trouxe essa idéia absurda. Ele nem saiu para caçar, espero que encontre algum animal pelo caminho. Bea, você precisa recebê-lo aí… você sabe como Edward é rápido… e ele está de carro.
_Agora, Alice? – Desespero fez meus dedos pressionarem ainda mais fortemente o aparelho.
_Não, com o amanhecer. Bea, você vai ficar bem, viu? Felicia sabe o que fazer… confie nela. Vou desligar agora, tente dormir.

Alice desligou o telefone, e eu encarei Felicia com alguma culpa nos olhos. Claro que eu me sentia ligeiramente culpada, afinal eu também estava trapaceando. Quando Alice nos trouxe para o covil, ela sorrateiramente entregou-me um telefone. “Fique com ele. Nossos números estão na agenda. Ligue, ligue todo dia. Por favor, mantenha contato.” foram as palavras da pequena Cullen, antes de desaparecer com o Volvo prateado de Edward. Eu guardei o artefato metálico eletrônico comigo, e fiz uso dele por duas vezes. Meus dedos quiseram ligar para Edward, mas eu acabei por ligar para Alice. Eu não tinha coragem de falar com Edward, porque ouvir a sua voz poderia colocar em risco todos os meus planos. Eu não queria arriscar-me a me deixar seduzir por sua voz, e pedir que ele me viesse buscar. E aquilo fatalmente ocorreria, então decidi ser mais preservativa.

_O que houve? – Felicia me encarou, a porta aberta. – Edward… ele está vindo buscar-te?
_Não. – Era verdade. Eu achava que sim, eu esperava que ele estivesse apenas fora de si, não louco por completo. – Ele vem me ver.
_Beatrice…
_Felicia, por favor. Você não vai contar isso a ninguém…
_Não pretendo. Só causaria mais confusão, e o bebê está para nascer. Tenho outras prioridades. – Ela virou-se novamente para a porta, e saiu do quarto apagando a luz. Escuridão total, então. – Durma, Bea.

Meus olhos não estavam mais acostumados à escuridão total. Eu nunca apagava as luzes, mas eu não queria levantar-me para acendê-las novamente. Edward… eu só pensava no que Alice dizia. Ele viria para o covil, ele estava mais perto a cada instante. Eu me senti agoniada, como se o ar me faltasse. Como eu faria para sair dali e encontrá-lo? O que ele faria ao chegar ao covil? Poderia ele ser insano o suficiente para desafiar Rudolph contra a minha vontade? Eram tantas perguntas sem resposta… pensar em Edward me fez relaxar, e meu organismo lentamente foi sucumbindo ao cansaço de duas noites sem dormir. Fechei os olhos – apesar de aquilo ser completamente inútil – e deixei que o lado inconsciente dominasse o restante.

Os sonhos eram violentos. Eu sonhava com sangue, e o cheiro me nauseava. Sonhava com Rudolph suspendendo Edward do solo, sonhava com o sorriso angelical de Ferdinand, com Emmett desmembrando Connor, com os Cullen, com Felicia. Eu sonhava com tudo de bom e ruim na minha existência, ao mesmo tempo. E todos os acontecimentos tinham menos de um ano de vida. Era como se eu não tivesse existido por tantas décadas; como se tudo que eu fora se tivesse apagado pela luz do que eu era naquele momento. A nova Beatrice era alguém; a antiga Beatrice era uma sombra. Uma sombra fria e escura em um passado que eu queria apagar. Tornar sem efeito, nulificar. A minha existência não significava nada antes da minha chegada à superfície, e a minha vida só fazia sentido desde que eu conhecera o sol.

E então tudo ficou colorido novamente. O breu do covil desapareceu, instantaneamente, sob o toque das mãos firmes de Edward. Seus longos dedos acariciaram minha face lentamente, e tudo voltou a florir. O sol brilhava forte no céu, mesmo encoberto por nuvens, mesmo pálido, de um amarelo fosco. Havia cores e aromas, e eu me sentia viva. Pela primeira vez, o lado inconsciente do cérebro parecia me trazer sensações melhores do que as do lado consciente. Eu sorri… e deixei-me deleitar naquele toque aveludado da palma de sua mão, até sentir seus braços me acolherem. A cabeça recostada em seu peito, o seu cheiro suave e floral. Meus lábios procuraram contato com a sua pele, um beijo de reconhecimento.
_Durma bem, meu amor. – A sua voz ainda era a mesma, como se ele estivesse sussurrando em meus ouvidos. Como se não fizesse três dias que eu não o via. Como se três dias significassem uma eternidade suficiente para me matar de desespero, mas nem um instante para me apagar a sua memória. Eu estava sonhando, e daquele sonho eu não queria acordar nunca. Se precisasse morrer para estar em seus braços, eu morreria feliz. Se aquilo fosse possível.

Senti uma forte pontada no ventre, e a dor agoniante me fez contorcer. Levei a mão instintivamente até onde meu filho chutava, ansioso para livrar-se daquele espaço pequeno e desconfortável, e senti algo que já estava lá. Uma sensação de assombro me dominou, e recolhi-me ao canto superior da cama, fugindo do que estivesse ali me tocando. Abri os olhos assustada, e minha visão me pregou uma peça cruel.
_Bea, sou eu… – Meus olhos me enganavam, mais ainda meus ouvidos. A figura de Edward, camisa aberta, calças jeans, meias, cabelos pouco arrumados, ficava cada vez mais nítida. E sua voz… era a mesma do sonho. – Sou eu, meu amor… desculpe, não queria assustar-te.
_Eu ainda estou sonhando? – A pergunta era tola o suficiente para ter sido feita por mim.
_Não… – Ele sorriu, e eu tive certeza que era ele. – Eu estou aqui… cheguei ontem à noite, você estava adormecida. Desculpe, não pretendia causar essa reação em você.
_Edward… – Estendi a mão para tocá-lo na face. – Como você… o que você…
_Eu sei que Alice ligou… mas eu cheguei antes do previsto por ela. Eu peguei um atalho que ela não esperava…
_Como entrou aqui? – Eu me arrastei lentamente para ele, deixando-me repousar em seu peito mais uma vez, abraçando-o com toda força que ainda me restava, meus braços envolvendo sua cintura sem a menor pretensão de soltá-la. – São tantas dificuldades que…
_Eu tive ajuda. – Ele sorriu, eu podia sentir. Seus lábios me beijaram os cabelos, e eu senti tanto conforto que poderia adormecer novamente. – Tem uma pessoa aqui dentro que tem algum senso… por incrível que isso possa parecer.
_Quem? – Eu levantei uma sobrancelha, curiosa. Ansiosa, talvez, porque a hora que Alice e Felicia previam se aproximava… e Edward estava ali, tão proibido.
_Ferdinand. Ele… nós tivemos uma conversa, e ele compreendeu. Ele me ajudou a entrar, me trouxe até seu quarto… e está montando guarda na porta. Ele é puro, Bea… você lhe fez um bom trabalho.
_Cuidei dele por dois anos, apenas. – Eu ainda digeria o que Edward me dizia. – Sempre soube que era bom… e bem… ele é meu irmão, certo? Biologicamente…
_Sim, ele é. Ele compreende isso, e deseja o seu bem. Isso me colocou em vantagem. Aparentemente, ele compreende que o seu bem se resume a mim.
_Ele é perceptivo, então. – Escalei Edward, alcançando seus lábios. – Eu senti tanto a sua falta…
_Não tanto quanto eu senti a sua.

E então o que eu esperava por semanas estava por acontecer. O beijo pelo qual eu ansiei por alguns dias foi interrompido por uma onda insuportável de dor, e a constatação de que algo estava muito errado. Convulsionei nos braços de Edward, e ele assustou-se. Seus olhos assombrados me seguravam enquanto eu tentava me ajeitar na cama, sentindo uma dor não antes experimentada. Meu ventre se tingia de manchas roxas, e o sangue vertia em meus lábios. Tentei respirar, mas o sangue me fazia engasgar. Os ruídos fizeram a porta do quarto se abrir, e Ferdinand entrou, assustado como Edward. A cena que ocorria não era para ser vista. Eu me retorcia na cama, os lençóis já bastante encharcados em sangue; meu sangue, o sangue que circulava em mim; e meu ventre se movia de um lado para o outro. A dor era tanta que eu sentia que a qualquer momento perderia os sentidos. Por mais que meu organismo tentasse, ele não conseguia se regenerar imediatamente de tantas agressões.

Edward disse qualquer coisa, e Ferdinand deixou o quarto, retornando em segundos com Felicia. Ela olhou para Edward com total reprovação, e chamou outra híbrida, pelo nome. Eu não estava ouvindo tudo, nem meus olhos conseguiam se concentrar em imagem alguma. O olhar aterrorizado de Edward foi a última coisa que tive consciência plena.
_Ferdinand, leve Edward daqui. Vão! – Felicia dizia, enquanto colocava compressas em minha testa e começava a despir-me.
_Eu não vou deixá-la! – Edward protestava, o tom de voz completamente alterado.
_Edward, o que vai acontecer aqui, agora, não é para ser visto. Se você é tão perceptivo quanto ela diz, você sabe que não pode ficar aqui. Vá com Ferdinand, vocês não devem ficar aqui. Os machos não acompanham os nascimentos, vocês só atrapalham. Vá, eu preciso concentrar-me somente em Beatrice.

Tolos, brigando por uma imbecilidade enquanto eu me esvaía em sangue e meu bebê agonizava querendo sair de mim. Bati os punhos no colchão, irritada, e Edward finalmente se deixou arrastar por Ferdinand. A porta se fechou, e eu já não estava muito consciente do mundo exterior. A dor me dominou por completo quando mais sangue jorrou por minha boca, e tudo ficou completamente escuro. Mais do que a noite, mais do que a ausência de luz do covil.

 

***** Edward POV *****

Ferdinand, meu novo aliado, me arrastou para fora do quarto de Beatrice e me carregou para fora do covil. Em poucos instantes, estávamos na área externa do covil, o sol brilhando timidamente por sobre as árvores espessas da floresta. Eu não desejava ter saído, mas a confiança que depositava em Ferdinand me fez segui-lo. Sim, eu confiava nele, então. A minha excursão até o covil foi uma idéia súbita, mas da qual eu não desistiria. Depois de passar outro dia lamentando e me sentir um ser desprezível, eu cheguei à conclusão que era o momento de ir buscar minha noiva e meu filho. Ou o momento de ficar com eles por lá, o que fosse mais simples.

Reuni os Cullen porque não era possível tomar nenhuma decisão sem que Alice estragasse a surpresa. Eu não podia sair sem que ela soubesse, e fazê-lo com ela sabendo era inútil. Eu não os queria me seguindo, então a melhor política era a honestidade. Informei a todos da minha decisão, deixando claro que haveria duas alternativas. Ou eu traria Beatrice comigo ou eu ficaria com ela. Eu não a deixaria, e se ficar com ela significava ficar recluso no covil, então eu o faria. Logicamente Esme achou a idéia ridícula, e tentou convencer-me a não ir. Mas ela sabia que eu era particularmente teimoso demais para mudar de idéia. Ela sabia que eu raramente me demovia de minhas decisões. De qualquer forma, havia sempre duas possibilidades. Alice lhes informaria quando a decisão fosse tomada, no covil.

Mesmo de carro, com uma pequena mala no bagageiro, eu não sabia para onde ir. Eu consegui as coordenadas de Jasper, enquanto ele tentava não pensar nisso. Meu irmão não era muito bom em esconder seus pensamentos, e acabou entregando-me tudo que eu queria. Achar o covil não era fácil, mesmo com as indicações de Jasper. E, após a minha chegada, entrar nele seria definitivamente mais difícil. Por minha sorte – se eu acreditasse em sorte – Ferdinand estava com alguns vampiros na porta do covil, a mesma imagem que eu vi em Jasper. E porque todos os deuses estavam a meu lado, Em poucos minutos os vampiros se foram floresta adentro e deixaram o jovem híbrido sozinho.

Excelente momento para o bote. Como se faz com uma presa, tive diversas idéias de como raptar Ferdinand e trocá-lo por Beatrice. Ele parecia frágil e inexperiente, uma presa bastante fácil. Nenhum desafio para mim, mesmo estando sozinho. Um contra um era justo somente se as habilidades fossem equivalentes. E Ferdinand era definitivamente um híbrido jovem e sem qualquer experiência em combate. Fácil demais, eu pensei comigo mesmo por diversas vezes. Até que a consciência novamente dominou o instinto e eu me apresentei a ele, como um cavalheiro faz. Nada de presas ou predadores, nada de rapto ou resgate. Eu me apresentaria a Ferdinand e pediria a sua compreensão.

Apesar da minha eloquência, eu jamais imaginei que Ferdinand me compreendesse tão rapidamente. Eu não precisei gastar argumentos demais, ou descrever meus sentimentos por Beatrice com muitos detalhes. Ele pareceu bastante simpático aos meus sentimentos, era verdade. Como se ele os pudesse entender facilmente. Poderia Ferdinand estar apaixonado? Ou ele era apenas um bom homem? Seus pensamentos confusos de jovem me deixaram em dúvida algumas vezes, mas eu vi que podia confiar nele, e conseguir meu passe livre para o covil.

_Você pode confiar em Felicia. – Ferdinand disse, sem me olhar, enquanto caminhávamos pela floresta. Distrai-me de meus pensamentos por um instante, visualizando o jovem híbrido de cabelos loiros e olhos marrons. – Ela sabe o que está fazendo.
_Sim, eu sei. – Mas eu não queria tê-la deixado, mesmo assim. – É que… não consigo ver Beatrice sofrendo.
_Você pretende levá-la para sua… casa? – Ferdinand parou, e encarou-me. E eu não resisti, um sorriso enorme brotou em meus lábios quando olhei dentro de seus olhos brilhantes. Todo o peso que estava sobre meus ombros imediatamente me deixou livre. Liberto.
_Sim, eu pretendo. – O sorriso não se desfazia, e eu me senti constrangido.
_Você já sabe o que eu estou pensando, certo? Bea me contou que você lê mentes… isso é incrível.
_Um pouco perturbador, também. – Confessei. – E sim, eu sei. Mas eu ainda não consegui compreender ou acreditar. Você faria mesmo isso?
_Sim, não vejo grandes dificuldades. Eu não me sinto no direito de ficar com Beatrice… ela não me pertence. Ela teve sua escolha, e a fez. Preciso fazer a minha, agora. Eu não posso ficar com ela, não é a coisa certa a se fazer.
_Custa-me acreditar que você possa ser tão altruísta, depois da demonstração de posse de seu pai…
_Somos diferentes. – Ferdinand olhou as árvores, seu semblante de menino um pouco tenso. – Eu sou um híbrido, apesar de tudo. Talvez seja uma dessas fraquezas humanas.

O mesmo discurso de Beatrice, ele tinha. Eram mesmo, irmãos… de uma genética bem próxima. Os cabelos claros, os olhos da mesma cor… provavelmente ele também teria olhos verdes, se parasse de alimentar-se de sangue. A sua mãe não era Felicia, mas Beatrice se parecia muito com Rudolph. Era curioso como ela jamais se enxergou nele… como ela jamais sentiu que seu coração não batia, no peito. Rudolph estava em um pedestal tão elevado que sua prole não o reconhecia. E Beatrice, mesmo tão curiosa, não conseguiu descobrir que seu pai era um vampiro. Mas eles tinham o mesmo discurso sobre as fraquezas humanas, as mesmas que me encantavam. E Ferdinand estava disposto a enfrentar a rigorosa lei de Rudolph para desistir de Beatrice, e dar a ela uma chance de estar comigo. Por aquilo eu não esperava.

_Acha que eu devo levar sangue para o covil? – Uma súbita idéia me ocorreu.
_Temos sangue lá… e os caçadores saíram, logo voltam com mais.
_Sim, mas sangue fresco… para Beatrice. Ela estava… havia tanto sangue saindo dela, provavelmente ela precisará repor suas reservas…
_Talvez seja uma boa idéia. Pretende caçar?
_Venha comigo. Depois… você me leva de volta até ela?
Ferdinand riu, e me seguiu pela floresta. Ele estava acostumado com aqueles caçadores híbridos sem nenhuma classe. Ele precisava ver como um vampiro caçava, de verdade.

**********

 

Em alguns instantes, a luz parecia voltar aos meus olhos lentamente. Após a dor dilacerante da carne se rasgando, eu perdi os sentidos. Não foi como o sono, eu não deixei-me dominar por um lado do cérebro para perder-me em outro. Eu simplesmente não tinha nenhum lado consciente capaz de me retirar daquele transe, então. A dor ainda me consumia, mas eu podia respirar. Havia um gosto ácido de sangue em meus lábios. Meu corpo não se movia. Eu tentei mover-me, mexer a mão, levantar-me. Mas nada se moveu. Senti agonia novamente, e pisquei os olhos desejando que aquele cacoete humano me clareasse a visão.

_Deixe-me vê-la, Felicia… – A voz de Edward pode ser percebida por meus ouvidos dormentes. Eu não ouvia nada desde que o bebê decidiu nascer, e ouvi-lo foi reconfortante. Ele ainda estava ali, apesar de tudo.
_Ela está se regenerando… não foi um parto fácil. – Felicia parecia apreensiva. O que ela pretendia dizer com ‘não foi fácil’? – Precisamos ajudar… o bebê teve dificuldades de sair porque a regeneração dela é muito rápida. Só quando ela se enfraqueceu totalmente conseguimos tirá-lo… eu temi que ele se afogasse dentro dela.
Ouch, aquele comentário me incomodou. Regeneração estúpida, pensei. Eu não podia ser uma híbrida comum, então? Precisava ser aquela aberração mais vampírica do que humana, que colocava a vida do meu filho em risco? Vida… eu sequer sabia se o que tinha nascido de mim tinha vida.
_Já escolheram um nome para ele? – Ferdinand… eu esperava que ele estivesse se comportando.
_Não… na verdade, ele é uma surpresa. Somente Alice sabia, e ela foi brilhante em esconder de mim. Felicia…
_Alimente-o primeiro, Edward. Depois você pode vê-la.

Eles conversavam longe de mim, e imaginei que não estivessem no quarto. Era bom, que Edward não me visse em pedaços sobre a cama. Eu sabia que estava em pedaços, eu podia sentir-me dilacerada. Eu não queria que ele me visse daquela forma, era verdade. Por mais que eu quisesse vê-lo, era melhor que ele tomasse conta de nosso filho. E… Ferdinand claramente disse ‘ele’. Cogitou se havíamos escolhido um nome para ‘ele’… meu filho então era um… menino? Resisti à palavra macho com todas as minhas forças, porque eu não era mais uma híbrida pertencente àquele covil. Eu pertencia à superfície, e meu vocabulário também. Comecei a ficar ansiosa, e senti mais dor. A luz retornou à minha visão com mais intensidade, e eu ouvi a porta bater. Sensível, eu estava sensível.

Felicia sentou-se ao meu lado, eu sabia que era ela, e segurou-me pela nuca. Suas mãos me fizeram erguer o corpo alguns centímetros, e ela despejou sangue em meus lábios. Imediatamente pretendi repelir o que fosse, mas aquele sangue tinha um sabor diferente. Apurei meu olfato, e o sangue era… fresco. O covil não tinha sangue fresco, então entendi que os caçadores tinham voltado. Mais agonia, porque Edward estava ali… e eu não queria que Rudolph o visse. Eu não queria Rudolph a menos de uma milha de distância de meu Edward. Minha inquietação finalmente projetou-se no corpo, e meus braços moveram-se, derrubando um pouco do sangue que Felicia tentava inutilmente me dar.
_Bea, você está sendo muito difícil. – Ela reclamou. – Edward ficará magoado ao saber que você está recusando o sangue que ele trouxe.
_Edward… – eu disse, segurando firmemente a taça com os dedos trêmulos. Meus olhos abertos focalizaram Felicia, e sua fisionomia era tensa e inconclusiva.
_Não pense que aprovo tudo isso… mas ele demonstra real preocupação com você. Ele e Ferdinand trouxeram um cervo inteiro para você… vamos, beba. Quanto mais sangue beber, mais facilmente vai se regenerar.
Deixei que o sangue escorresse por minha garganta, engolindo toda gota que pudesse estar naquela taça. Não eram os caçadores, era meu Edward. A dor ainda era nauseante, e minha visão ainda não era clara. Mas eu podia sentir que melhorava, aos poucos. Mais devagar do que eu estava acostumada, talvez.
_Felicia… como estou?
_Horrível. – Ela limpou-me o sangue da face e do pescoço. – Como toda híbrida que acabou de parir.
_Cubra-me. – Pedi, exigente. – Não me deixe… não quero que ninguém veja…
_Cobrir-te para que, Bea? Seu ventre ainda está em pedaços… ainda verte sangue de suas entranhas… de que adianta cobrir-te com um lençol que em segundos estará embebido em sangue?
_Como vocês resistem ao nosso sangue? Não é… humano demais?
_O cheiro é diferente. – Felicia levantou-se, e pude vê-la pegar algo. – Bem diferente… os humanos tem um aroma completamente diferente. E fomos bem treinados… não sei quanto ao seu vampiro lá fora. – Gentilmente, Felicia depositou sobre mim um lençol. Aquela era a mesma Felicia de sempre… repreendia-me mas sempre fazia tudo que eu desejava. Repreendia-me mas me permitia tudo que eu quisesse. – Vou chamá-lo… tente não ficar muito ansiosa.

Era impossível atendê-la, então. Eu estava ansiosa, mas não era por Edward. Eu sabia como era Edward, quem era Edward, o que esperar de Edward. Ele estava lá, e eu o amava tanto quanto ele me amava. Ele não era um enigma para mim, era o vampiro que eu amava. Mas ele tinha consigo algo que me era totalmente desconhecido, e o desconhecido assustava. O desconhecido me causava a ansiedade que Felicia desejava que eu repelisse. Edward tinha consigo, em seus braços, o meu filho. Por mais que eu amasse meu filho – e eu amava, considerando todas as formas de amor que aprendi – eu não podia deixar de imaginar o que ele era, afinal. Um menino, sim. Um macho. Mas… ele era um híbrido? Era um vampiro? Havia calor em sua pele? Seu coração batia? Ele precisava respirar? Depois de tanta mutação genética, o que era o meu filho? Eu não sabia o que esperar, até porque eu nunca havia visto um bebê, então. Livros e filmes não contavam; eu nunca tivera um bebê em meus braços.

Meu corpo tremia, nervoso, quando Edward caminhou para dentro do quarto. Eu não conseguia mover-me para ajeitar-me, e só pensava que ele me veria horrível daquela forma. Seus olhos caramelo me encararam, e eu pude ver que ele também havia se alimentado. Os olhos da manhã eram turvos e as olheiras muito perceptíveis. Aqueles olhos eram olhos serenos… talvez ele também temesse que meu sangue derramado daquela forma lhe despertasse desejos não conhecidos. Edward se aproximou, o semblante rígido como se ele fosse feito de matéria inanimada. Havia algo consigo, enrolado em tecido flanelado. Meus olhos estavam agitados, urgentes. Eu queria ver tudo, eu queria ver o que ele trazia para mim. Mas Edward livrou uma das mãos e passou por minha face, causando um choque estranho. Minha temperatura estava alta, então. Ele sorriu, um sorriso de canto de boca, e pegou a compressa de Felicia, colocando sobre minha testa. Retirou cabelo de minha face, delineou os contornos de meu queixo, acariciou meu pescoço… eu estava muito quente.
_Você tem febre. – Ele disse, quase incrédulo. – Humana demais, não? – Eu apenas pisquei, assentindo. Meus olhos novamente pousaram no que ele carregava. – Você quer vê-lo? – Edward sentou-se, ainda ao meu lado. Com a mão livre, ele elevou meu corpo, colocando-o por cima de si, apoiado em sua perna. Eu estava então recostada em seu corpo, e a dor já não era mais tão angustiante.
_O que faz? – Perguntei.
_Tento te deixar confortável. – Ele sorriu, descobrindo-me um pouco. O lençol estava realmente embebido em sangue, como Felicia previa. – Pode mover os braços, meu amor?
Assenti novamente, retirando os braços de baixo dos lençóis e posicionando-os por sobre mim. Eu podia mover-me, mas estava insuportavelmente fraca. Mal sustentava o peso de meu próprio corpo. A regeneração trabalhando em velocidade máxima, e consumindo todas as minhas poucas reservas de energia. Talvez eu precisasse de mais sangue… mas escondi aquele desejo para que Edward não fizesse nada antes de me mostrar o meu filho. E ele não me faria esperar mais. Com uma gentileza que lhe era peculiar, Edward entregou-me o pequeno ser que estava com ele, descobrindo sua pequena face para que eu pudesse enxergá-lo. Colocou-o em meus braços trêmulos, ajudando-me a sustentar o peso insignificante do que eu segurava. Meus olhos se perderam na imagem mais linda que eu já vira em toda a minha existência – tanto no covil quanto fora dele. Nenhuma cor poderia se comparar à cor de sua pele… nenhum aroma poderia se comparar ao aroma que ele exalava… nada poderia comparar-se à sua beleza.
_Ele é exatamente como você. – Edward sorriu novamente, beijando-me os cabelos. – Seu coração bate tão forte…
_Então ele… é um híbrido? – Perguntei, ainda vidrada na pequena criatura que eu segurava, recusando-me a acreditar que aquele ser havia simplesmente cavado seu caminho para fora de mim, e que havia sido gerado por semanas dentro de meu ventre inóspito.
_Sim, Bea. – A voz de Edward continha humor; ele parecia desejar rir do meu comentário. – Claro que ele é um híbrido… afinal, ele é seu filho. Como eu disse, ele é exatamente como você.
Fechei meus olhos instintivamente, sentindo que eles se tornavam úmidos e turvos. Lágrimas… eu não podia chorar!! Que humanidade era aquela, que me dominou totalmente durante aquela gravidez! Que humanidade era aquela que o pequeno ser dentro de mim despertava! Mas as lágrimas rolaram por minha face, todas morrendo nos dedos frios de Edward.
_Você está chorando… – Ele parecia surpreso e ao mesmo tempo preocupado.
_Não é nada… – Tentei pensar em alguma coisa que o distraísse, algo que o fizesse concentrar em outro fato que não minhas lágrimas. A sede… o desejo por sangue, por minha reconstrução total. O desejo por estar inteira novamente e poder sair daquele estado catatônico pós parto. O meu pensamento ficou vermelho, tanto quanto o lençol que me cobria. Edward me beijou os cabelos novamente, e, sustentando-me com extrema facilidade, apoiou meu corpo em travesseiros para poder levantar-se.
_Vou buscar sangue para você. – Ele disse, com toda suavidade possível. – Acha que pode ficar sozinha com ele?
Assenti sem palavras mais uma vez, enquanto meu vampiro deixava o quarto. Eu não tive tempo de sentir a sua falta, nem de ficar um momento sozinha. Edward retornou em alguns segundos, agitado, apressado. Eu devia parecer péssima, para ele estar tão cuidadoso comigo. Ele era cuidadoso, mas eu era geralmente bastante durável. Ele não precisava preocupar-se tanto… talvez a reação fosse normal à minha sombria imagem. Eu ainda observava o pequeno híbrido em meus braços, enquanto ele parecia observar-me. Não, eu não entendia nada de bebês. Eu nunca tivera um em meus braços. E nunca, nada pareceu tão natural quanto segurá-lo comigo, naquele momento. Ele tinha poucas horas de vida. E esticou uma de suas mãozinhas em minha direção. Mãozinha tão pequena que não parecia pertencer a um… imortal.

Edward aproximou-se, com o sangue em uma taça. Ele retorcia o nariz, claramente nauseado pela aparência desagradável do alimento… sim, era terrivelmente desagradável, mas eu me alimentei daquilo por um século. Eu me alimentava exclusivamente de sangue morto, guardado em garrafas de metal, com um sabor completamente diferente do sangue fresco. E aquilo me faria forte de qualquer jeito, então fosse o sangue que fosse, eu desejava bebê-lo. Cuidadosamente mais uma vez, ele pegou o bebê de meus braços e me entregou a taça. Apesar do protesto por ele ter-me tomado o bebê, eu desejava demais o sangue para argumentar qualquer coisa. Sentia sede como nunca, e bebi tudo que me foi ofertado sem muito raciocinar.
_Mais? – Ele pareceu surpreso, uma vez que minha sede ainda não estava saciada.
_Gostaria do cervo inteiro, se possível.
_Ferdinand? – Edward chamou, tom de voz tão baixo que eu duvidei que o híbrido lhe tivesse ouvido. Mas Ferdinand estava espreitando na porta tão logo meu vampiro o chamou.
_Sim, Edward?
_Você poderia pegar mais sangue para Beatrice? – Edward estendeu-lhe a taça, gentilmente, com um sorriso. – Ela está sedenta… – O híbrido deixou o quarto com urgência, sem esperar por Edward terminar a frase, aparentando uma animação nada condizente com a situação real. Fechou a porta e desapareceu. Edward sorriu, e sentou-se novamente ao meu lado. Depois, depositou meu filho novamente em meus braços, olhando para ele com as sobrancelhas franzidas. Depois olhou para mim, também os olhos confusos. – Muitas perguntas ao mesmo tempo. – Ele riu. – Ferdinand desenvolveu uma admiração não muito natural por mim. Devo confessar que estou me aproveitando da situação. – Edward baixou o olhar, encarando o pequeno híbrido nos meus braços. – E ele parece bastante ansioso por estar com você… então, melhor deixá-lo em seus braços.
_Ele pensou isso? – Eu estava maravilhada, olhando para Edward, e para o bebê, e para Edward novamente.
_Ele ainda é inconclusivo. Mas sim, ele queria voltar para perto de você. Ele… ele é seu filho, é normal que ele deseje estar com a mãe. Aliás… você precisa escolher um nome para ele.

Edward tinha o cenho franzido, e olhava para mim e para o bebê com total adoração. Eu podia sentir adoração em seu semblante rígido, mas suave. Ele respirou algumas vezes, e levou as mãos até o lençol embebido em sangue. O sangue coagulado já exalava um aroma ultrajante, mas eu não queria que ele me visse. Mesmo assim, ele se moveu para descobrir-me; um movimento muito rápido. Eu não poderia impedi-lo, porque o bebê em meus braços não me permitia fazê-lo. Edward puxou os lençóis no mesmo instante em que a música estridente do aparelho celular se fez ouvir. Ele torceu os lábios, mas terminou a sua tarefa. Seus dedos tocaram toda a minha região do ventre; eu pude senti-lo, mas não via nada. A minha posição não era privilegiada. O telefone continuava tocando, mas Edward não parecia preocupado em atendê-lo.
_Não se incomode, é Alice. – Ele disse, respondendo-me. – E ela não vai desistir. Isso está… está muito bom. – Seus dedos pressionavam minha pele, e eu sentia um pequeno incômodo. Sem dor, só um pequeno desconforto. – Você já pode pensar em vestir alguma coisa… posso?
_Atenda sua irmã primeiro. – Eu disse, já irritada com a música vibrante do telefone. Tentei retomar o controle de meu corpo, sem temor de ferir-me mais do que já estava, sentindo que meus órgãos internos já estavam recompostos o suficiente. Ajeitei-me na cama, recostando-me mais comodamente na cabeceira da cama, tomando maior consciência do espaço necessário para acomodar o bebê em meus braços. Edward pegou o telefone para atender Alice, enquanto eu considerava sua última frase. Nosso filho precisava de um nome.

_Charles. – Eu disse, não prestando a menor atenção na conversa entre Edward e Alice. Meus olhos vidrados na pequena figura perfeita do meu filho, que continuava com as mãozinhas estendidas em minha direção. Encolhi as pernas e apoiei-o em meus joelhos, fazendo-o ficar de frente para mim. Ele tinha cabelos fartos, e eram loiros… Edward tinha cabelos de fogo, como que fossem ruivos; eu tinha cabelos claros, mas não conseguia vê-los de cor definida. Mas nosso bebê tinha cabelos loiros pálidos, como os de tantos outros híbridos que eu conhecia. Talvez ser loiro fosse uma característica dos híbridos… principalmente dos geneticamente modificados. – Charles Henry. – Falei, passando os dedos pela pele lisa e quase transparente do bebê.
_Alice, estamos todos bem… eu sei, eu lidarei com isso no momento certo. Avise a Esme que ela é… avó? Avó de um menino. Isso tudo é tão estranho… totalmente anormal. – Edward conversava com a irmã, e apesar das palavras duras seu tom de voz era suave e zombeteiro. Como se os comentários sobre a surrealidade da situação fossem um divertimento. – Vou dar atenção à minha nova família agora, se me permite. Voltaremos logo. – Edward desligou o telefone e me encarou, o semblante concentrado, cenho franzido, lábios levemente contraídos. – Charles Henry Cullen?
_Sim… – Eu sorri. Ele estava prestando atenção, então. – Mas você não parece ter gostado… – minha empolgação durou frações de segundos.
_Eu gostei. Considero apenas que você precisa conhecer a família real britânica…
_Família real? – Como uma híbrida tola que eu era, as perguntas estúpidas nunca acabavam.
_Sim. – Edward sentou-se ao nosso lado, abraçando-me e puxando-me para mais perto. Seus dedos acariciaram os cabelos descoloridos de nosso filho, enquanto ele concluía seus pensamentos. – Charles é o nome de um príncipe…
_Oh. – Eu me surpreendi com a coincidência. – Mas que seja… meu filho é um príncipe. O príncipe do meu conto de fadas fora do normal.
_Nosso filho, Bea. – Edward beijou meus cabelos.





(Cap. 24) Capítulo 23 - Decisão

 

*tema: Roxette’s Almost Unreal*

_Onde está Beatrice? – A voz de Rudolph ecoou pelo salão dos híbridos. Se eu não pudesse ouvi-lo perfeitamente, eu saberia que ele havia retornado pela simples reação de Edward ao meu lado. O dia havia transcorrido sem maiores alterações, e os caçadores se demoraram a voltar. Edward ajudou-me a vestir algo, e eu finalmente pude abrir a mala surpresa de Alice, Rosalie e Esme. Dentro da pequena bolsa colorida havia roupas de bebê e utensílios que provavelmente seriam bastante úteis para alimentá-lo. Sorri ao ver o quão cuidadosas elas foram com meu filho… o quanto ele seria amado por sua família. Foi difícil escolher algo para vestir em Charles; eu não conseguia vestir nem a mim mesma sem ajuda. Mas Felicia divertiu-se ajudando-me a escolher algo para apresentá-lo aos híbridos. Nós sabíamos que logo os caçadores chegariam, e que a tão esperada decisão estava prestes a ser tomada.

Edward esteve ao meu lado, como um soldado. E Ferdinand era nosso homem de guarda. Realmente, Edward estava usando o pobre híbrido, manipulando-o cruelmente. Mas era visível a admiração que Ferdinand dirigia a ele, e a mim também. Como se ele nos adorasse, da mesma forma que eu via Edward adorando Charles. Mas o que deveria ser não poderia adiar-se por muito tempo, e quando o sol começou a desaparecer no horizonte, os caçadores estavam de volta. Eu senti a presença de Rudolph pela contração dos músculos de Edward; seus punhos cerrados ao redor de minha cintura. Sua pele ainda mais fria do que o esperado.

_Rudolph, nem pense em entrar no quarto dela. – Felicia bradou, desafiadora. – Ela é uma fêmea que acabou de parir, não existe ofensa maior.
_Mas ela está com um macho lá dentro. Posso sentir o cheiro daquele vampiro insolente desde a entrada do covil.
_Edward está com ela. – A voz de Ferdinand se fez ouvir. – Mas ele tem o direito, afinal é o pai do menino. Como foi a caçada, Rudolph?
_Como disse? – O tom de voz de Rudolph mudou da fúria iminente para a curiosidade. – Pai do menino?
_Sim… Beatrice pariu um macho, Rudolph. – Felicia decidiu explicar. – E ela ainda está fraca, apesar de completamente regenerada. Vocês precisam conversar, mas este não é o momento.
_Chame o vampiro. – Rudolph mantinha o tom de voz curioso. – Quero conversar com ele… Edward Cullen.
_Convocará o conselho, Rudolph? – Ferdinand parecia suficientemente insolente, também. – Quero dizer… para decidir se Beatrice deve ter o direito de deixar o covil?
_Beatrice não deixará o covil. Menos ainda com um macho tão… apurado como o que ela pariu.
_O menino não te pertence, Rudolph. – Felicia protestou. – Mesmo que ela fique, o pai terá direitos sobre ele.
_Vou até lá. – Edward levantou-se, ainda bastante contraído, respiração ritmada, olhar concentrado. – Você me permite pegá-lo, Bea?
_Charles? – Pressionei o bebê contra meu peito. – Pretende levá-lo a Rudolph?
_Eu jamais o colocaria em perigo. – Edward sorriu, para me incentivar. – Eu o amo como amo você… só precisamos resolver isso, Bea. Você disse, dar um fim a essa história. Foi por que vim até o covil.

Cedi, e permiti que Edward tomasse Charles em seus braços. O bebê estava sereno, sem emitir muitos ruídos. Os bebês que vi em filmes eram barulhentos, mas o meu por vezes parecia um brinquedo. Se eu não o tivesse visto mover-se, poderia jurar que ele não era real. Edward endireitou-se e saiu do quarto, deixando a porta entreaberta para me permitir participar.
_Fique aqui, Bea… por favor. – E ele saiu do meu campo de visão, imergindo na discussão que se travava no salão. – Saudações.
Houve um silêncio. Pude ouvir a respiração dos híbridos, os seus corações. Fechei os olhos, tentando me convencer de que tudo ficaria bem independentemente da minha intervenção, naquele momento.
_Este é o macho? – Rudolph não tinha ira em sua voz. Aquilo era bom, afinal.
_Sim, Rudolph. Primeiramente, gostaria de desculpar-me por entrar no covil sem a sua presença, mas Ferdinand me concedeu a sua permissão. Então, considerei que não seria uma afronta. E trouxe a você meu filho, Charles Henry Cullen. Gostaria que você o conhecesse.
Mais silêncio, e eu já estava preparando-me para levantar. Estava ansiosa e apreensiva demais; aqueles machos tolos brincavam com meu filho como se ele fosse a bandeira branca da paz. Um pequeno e indefeso ser recém nascido; onde eles estavam com a cabeça! Mas o diálogo recomeçou e refreei meus instintos.
_Ele se parece com Beatrice. – Foi o veredito de Rudolph.
_Mas ele tem muito de Edward. – Felicia implicou. Ela estava se saindo bastante desafiadora, para quem temia tanto o patriarca dos Caldwell. – Veja o formato dos olhos, o nariz…
_Ainda é pequeno demais para parecer-se com alguém. – Rudolph retomou sua postura rude, contradizendo-se. – Ferdinand, é verdade que deu sua permissão para este vampiro adentrar em nosso covil?
_Sim, Rudolph. Permiti sua entrada no covil, sua permanência com Beatrice, sua estada conosco.
_E você poderia explicar-me esta atitude?
_Sim, claro. – Ferdinand fez uma pausa, e eu pude imaginá-lo serenamente enfrentando Rudolph. – Eu permiti que Edward viesse buscar sua noiva. Eu pretendo desistir de Beatrice, e diante do conselho, se for preciso.

Eu prendi a respiração quando ouvi aquela frase de Ferdinand. Então era por aquele motivo que Edward disse que estava abusando dele. E por aquele motivo que eles andavam tão próximos. Ferdinand havia decidido desistir de mim! Talvez Edward não entendesse as implicações daquela decisão, mas eu entendia. Não haveria nada que Rudolph pudesse fazer, se aquela era a sua decisão. Senti uma angústia tão grande que não resisti, levantei-me cambaleante, ajeitando o roupão com o que estava vestida, vacilante em direção à luz que vinha do salão. Surgi na conversa antes mesmo que alguma reação à decisão de Ferdinand pudesse ser proferida. Minha aparição causou certo frenesi nos presentes. Edward caminhou para meu lado, em uma clara atitude de proteção, enquanto Rudolph encarou-me com alguma ferocidade. Ferdinand colocou-se entre ele e Edward, sem mover um músculo em sua face serena.

_O que foi que você disse? – Eu perguntei, ofegante, a Ferdinand. – Você…
_Bea… – Edward parou em minha frente, cobrindo-me com seu corpo. Estendi meus braços para receber Charles de volta, segurando meu filho com força.
_Está tudo bem, Edward. – Eu sorri. – Ferdinand… você vai mesmo fazer isso?
_Sim, Bea. – Ele me sorriu. Seus olhos castanhos nunca estiveram tão límpidos e tão sinceros. Eu conhecia aquele menino, eu sabia. Aquele jovem híbrido era meu irmão. Ele não poderia me decepcionar. – Eu vou desistir de você. Eu… não posso fazer nada além disso, não é?
Não, ele não podia. Mas eu não tinha certeza se ele sabia disso. Eu não tinha certeza se Ferdinand seria maduro o suficiente para tomar a decisão certa sozinho. Eu não tinha certeza do quanto Rudolph o havia influenciado. Eu não lia mentes, como Edward.
_Você não está falando sério. – Rudolph finalmente saiu de seu silêncio. Ferdinand tinha o semblante mais sereno possível, e encarou o vampiro enquanto ajeitava os cabelos loiros como os de Charles. Realmente, aquela deveria ser uma característica dos híbridos geneticamente modificados… só eu que deveria ser considerada uma aberração, porque meus cabelos, apesar de claros, não eram loiros.
_Estou sim, Rudolph. Pode convocar o Conselho, se desejar.
_Rudolph… – decidi apelar para o bom senso, se meu pai vampiro fosse capaz de ter algum. – você não precisa convocar nada. Basta desistir… você não percebe? Eu desejo outra vida, eu tenho outra vida. Ferdinand deseja outra vida… ele tem o direito de conhecer alguém e apaixonar-se, como eu o fiz. Felicia deseja o mesmo que nós… ela também não está satisfeita com o rumo das negociações. Edward… ele deseja nossa saída daqui mais do que qualquer outro. Só você parece não enxergar que não há esperanças para mim e Ferdinand. Somos irmãos, temos ciência disso. Não podemos simplesmente ignorar esse sentimento e dar a você o que deseja. É aviltante!
Rudolph franziu o cenho e encarou todos os presentes. Eu e Charles em meus braços; o bebê tão alerta que parecia já ter bem mais tempo de vida; Edward me abraçando com força, em uma atitude completamente protetiva; Ferdinand e seu sorriso angelical nos lábios, Felicia ansiosa e esfregando as mãos.
_Você tem idéia de que está me pedindo para desistir de séculos de planos? – Ele disse, expressão imutável. Estávamos todos tensos. – Eu tenho mais de quinhentos anos, Beatrice. Por séculos eu realizei experiências até conseguir realizar você. Você… a híbrida que me sucederia no comando do covil. E Ferdinand foi ainda mais difícil de produzir. Por algum motivo, eu não conseguia produzir um macho… e agora você pretende que eu simplesmente desista de tudo porque você se emprenhou de um vampiro?
_Porque eu me apaixonei por um vampiro, Rudolph! – Caminhei até ele, pés vacilantes, as mãos de Edward me segurando, eu me esforçando para afastar-me. – Olhe para mim… olhe para meu filho… eu amo Edward! Não se trata de machos, fêmeas, genética… estou falando de sentimentos, e eu sei que você os tem guardados. – Virei-me para Edward, respirando fundo, com alguma confiança em minhas palavras. Era o momento, e se eu não tomasse aquela decisão, ninguém mais a tomaria por mim. – Meu amor, pegue as coisas de Charles. Tudo que sua família preparou… vamos partir.

Eu não precisava falar, para Edward saber o que ele deveria fazer. Mas eu quis falar; eu queria que todos estivessem prestando atenção em minhas palavras. Ferdinand moveu-se para o lado de Edward, e desapareceu no quarto escuro com ele. Definitivamente, Ferdinand estava possuído por algum tipo bizarro de entidade que o fazia admirar Edward como a um deus. Ficamos nós quatro, uma família nada convencional, e uma decisão sobre outra, para tomar.
_Adeus, Rudolph. – Eu disse, ainda sentindo aquele arrobo instantâneo de coragem.
_Beatrice… – Ele comprimiu os lábios, olhando para mim e para o bebê em meus braços. – Você sabe que só você considerei como minha filha. Você sabe que… sempre foi somente você, não sabe?
_Sim, por isso eu sei que você vai me deixar partir. Eu sempre soube, por isso retornei ao covil. Só pretendia que você compreendesse isso, e não que eu precisasse impor a minha decisão.
Meus olhos se perderam por um segundo no semblante de Charles, e tão logo dedos gélidos me tocaram o ombro. Edward já tinha tudo preparado, e segurava as duas malas que Alice me havia preparado. Ferdinand estava logo ao lado, os olhos faiscando.
_Vamos vê-la novamente? – Felicia perguntou, ainda ansiosa.
_Vocês sabem onde vou ficar. – Eu sorri, sinceramente, pela primeira vez. Parecia fácil demais, e talvez o fosse. O amor, aquele sentimento humano tão descabido, poderia ser a chave para tudo, afinal. – Podem ver-me quando quiserem.
_Será sempre bem vindo, Ferdinand. – Edward dirigiu a frase ao jovem híbrido que lhe observava ansioso. Provavelmente, em resposta a seus pensamentos. – Todos vocês. Nosso lar sempre estará aberto à família de Bea. – Edward beijou meus cabelos, e dirigiu-se para a saída do covil. Ferdinand pegou uma mala de suas mãos, e ele passou o braço por meu ombro, envolvendo-me em um abraço de alívio. – Vamos levar nosso filho para casa, meu amor.

A saída do covil não me trouxe o alívio imediato esperado. A imagem do Volvo prateado, que reluzia ao luar, não me trouxe o alívio esperado. A porta do veículo se abrindo, a despedida de Ferdinand, o ruído silencioso do motor, a arrancada. Nada daquilo parecia me trazer alívio algum, porque eu ainda parecia não acreditar que aquilo havia acabado. Ou pelo menos, que a minha decisão não causaria mais problemas. Edward a salvo, os Cullen a salvo, Charles a salvo, os híbridos a salvo. Nenhum caos formado por uma decisão repentina de uma híbrida em deixar seu covil. Nenhuma perda, nenhuma baixa numérica. Minha alma estaria em paz, e aquela paz não me pertencia. Não me parecia pertencer, porque por minha causa houve sofrimento. E eu não desejava sofrimento para nenhum ser existente.

Meu organismo ainda estava fraco, porque aquele sangue do covil era desagradável e não suficiente. Eu tinha marcas brilhantes sob meus olhos, que ficavam mais evidentes porque inchadas. Meu corpo estava regenerado o bastante, ao menos. Edward tinha o olhar disperso na estrada, uma das mãos sobre minha perna; eu podia sentir tensão nele também. Talvez porque eu não conseguia relaxar. Olhei para Charles, e ele tinha os olhos fechados e o corpo mole em meus braços. Sorri involuntariamente. Meu filho dormia.
_Exatamente, você. – Edward respondeu a nenhuma pergunta. Pude ver um sorriso em seus lábios, também. Deixei que meu corpo pendesse para o seu lado, e recostei-me em seu ombro. Ele ajeitou o braço ao meu redor, abraçando-me. Edward dirigia bem demais, eu não precisava preocupar-me em ocupar uma de suas mãos. Meu corpo fatigado acabou por também adormecer, apesar do lado consciente manter-se alerta ao pequeno ser que estava comigo.

Eu não vi chegarmos aos Cullen, mas sei que a viagem não foi tão longa quanto eu esperava. Edward dirigiu mais depressa do que usualmente, ele também desejava chegar em casa tanto quanto eu. Ou mais. Eu tinha certeza que tolerava o covil um tanto mais do que ele. Talvez ele me amasse de uma forma doentia, pois ele havia aceitado abrir mão de sua liberdade, de sua vida sob o sol, para acompanhar-me naquele covil insalubre. Talvez ele amasse Charles de uma forma doentia, e não a mim. Ou talvez ele nos amasse, ambos da mesma forma. Eu não sabia, e não importava. Edward me amar, era o fator relevante. Talvez ele nunca me amasse como eu o amava. Mas qualquer coisa seria suficiente.

A imagem da residência dos Cullen fez com que meus olhos sorrissem. Meu organismo estava relaxado, eu havia dormido por todo o trajeto. Meus olhos se abriram tão logo o carro parou, suavemente, no pátio de entrada dos Cullen. Edward beijou minha testa, e eu me sentei para permitir que ele saísse do carro. Minha respiração estava ritmada, mas ainda ansiosa demais. Olhei pelo para brisa e pude visualizar as faces da família de Edward; minha nova família, todos esperando no patamar da casa. A porta do carro abriu-se, e Edward estendeu as mãos para me ajudar a sair do carro. Eu me sentia bem melhor, apesar de sedenta. Meus olhos deviam estar muito escuros, e minha aparência não muito agradável. Eu precisava me alimentar de sangue fresco, ao qual já havia me acostumado.

_Bem vindos de volta. – Esme foi a primeira a descer os quatro degraus para nos receber. Ela parecia bem mais ansiosa do que eu, e sua reação foi um tanto inesperada para mim. Ela se lançou a Edward, abraçando-o como uma mãe humana abraça a um filho. Talvez eu fosse a única aberração mítica a recusar as emoções humanas. Os Cullen pareciam tão bem acostumados a elas… como se elas nunca lhes tivessem sido negadas. Eu desejava repelir aquelas emoções, mas elas me tornavam mais… satisfeita. Talvez repelir as emoções ruins, e manter as boas. Mas era impossível ficar somente com a parte boa da vida. Da existência. O que fosse.

A claridade do dia reluziu em Edward, e ele parecia tão brilhante quanto deveria. Ah, como ele ousaria esconder-se no covil e privar o mundo daquela beleza toda! O sol não seria tão contente sem a pele transparente de Edward para refletir seus raios, dia após dia. Eu não seria tão contente se não mais pudesse ver aquilo. Em poucos instantes, todos os Cullen nos cercavam, enquanto Esme encarava com total ansiedade o pequeno híbrido em meus braços. Charles estava coberto pelo tecido flanelado ainda, e todos pareciam curiosos para vê-lo. Edward sorriu, e estendeu-me os braços. Franzi os lábios e entreguei a ele nosso filho. O bebê moveu-se subitamente ao trocar de braços, retomando seu sono logo em seguida.
_Ele está… dormindo. – Edward disse, um tom de voz maravilhado. – Gostaria que vocês conhecessem nosso filho, Charles Henry Cullen.
_Edward, ele é lindo! – Alice sorriu, dando saltinhos. Rosalie tinha o olhar fixo no bebê, os olhos contraídos. Edward lhe lançou um olhar de solidariedade, muito mais terno do que eu estava acostumada a vê-lo. Talvez ele estivesse apto a compreender os sentimentos conflitantes da irmã, então.
_Ele é um híbrido… dorme, o coração bate…
_Esses cabelos completamente loiros! – Esme passou os dedos pelos fios finos dos cabelos de Charles. – Ele nem parece real… é realmente um milagre.
_Os híbridos modificados costumam ser loiros. – Aquela frase me saiu com alguma indignação. Eu não era loira.
_Você é especial, meu amor. – Edward dobrou-se para beijar-me a testa, em resposta aos meus lamentos. – Podemos entrar? Eu e Bea precisamos sair para caçar… logo.

Os Cullen ainda tinham mais surpresas reservadas para nós. Entramos na casa e ela nunca pareceu tão linda para mim. As paredes claras, os móveis sóbrios e os adornos coloridos iluminados pelo sol que já brilhava no céu. Esme nos fez subir as escadas e nos apresentou o quarto de Charles. O quarto de hóspedes, o que tinha me servido tão convenientemente por algum tempo, estava completamente modificado. Prateleiras brancas, paredes em tons de azul, enfeites com temas infantis, e um pequeno leito no meio do quarto. As cortinas brancas de tule cobriam as enormes paredes de vidro que davam para o sul. Meus olhos pareciam não acreditar no que eles prepararam, em tão pouco tempo.
_Rosalie decorou. – Esme confessou, enquanto a irmã loira e linda de Edward parecia constrangida com o fato. – Ela também escolheu os móveis… espero que esteja a seu gosto, Bea.
_Eu nem sei o que dizer. – Era verdade. Edward caminhou com Charles até o leito, o berço, e o deitou entre as almofadas macias que ali estavam. O bebê moveu-se um pouco, mas continuou dormindo. Edward o observou por alguns instantes, sob os olhos atentos dos Cullen, novamente com aquele semblante de adoração. Seus dedos correram levemente pela pele lisa de Charles, e ele sorriu.
_Acho que podemos deixá-lo aqui… certo? – Edward voltou para meu lado.
_Tomaremos conta dele. – Rosalie aproximou-se, finalmente, do berço. – Vocês podem ir caçar, sem preocupação.
_Não teremos nenhuma… de fato, precisamos trazer… suprimentos? – Edward riu do emprego da palavra.
_Suprimentos? – Carlisle não entendeu.
_O bebê se alimenta de sangue. – Eu entendi. – E ele ainda não caça, então…
_Vocês devem ir. – Esme abraçou Edward novamente, e depois a mim. – Vejam essas olheiras… que alimento vocês tinham naquele covil!

Na verdade, eu ansiava por mais do que sangue. Eu tinha sede, e muita. Eu precisava de sangue fresco, porque eu estava consideravelmente enfraquecida. E aquele sangue engarrafado do covil não parecia conter todos os nutrientes necessários para nossa sobrevivência. Então, sangue era uma necessidade naquele momento. Eu sentia a garganta arder, o desejo pelo sangue era implacável. Novamente, até um humano seria alimento. Mesmo sabendo que Edward me impediria de uma besteira. Porém eu queria mais além de me alimentar. Eu queria Edward. Um exagero de sentimentos me havia incendiado desde que eu deixara aquele covil, voltando para o lugar onde pertencia. Eu sentia tudo ao mesmo tempo, e era extremamente difícil conciliar a razão com a emoção. Era extremamente difícil raciocinar o suficiente para compreender que eu precisava cuidar de algumas necessidades básicas antes de assaltar Edward onde ele estivesse. E que aquilo não poderia ser feito em qualquer lugar.

Fazia tempo que eu não me preocupava em esconder pensamentos do meu vampiro, e daquela vez todos eles saíram de mim como se estivessem gritando. Eu também pensava tudo ao mesmo tempo, e minha mente parecia um ambiente inóspito. Edward riu, canto de boca, enquanto procurava comigo uma presa que me satisfizesse a sede. Foi quando percebi-me pensando em tudo aquilo, de forma nada polida. Em minha mente, as coisas que eu pretendia não eram gentis ou delicadas. Talvez eu desse a Emmett motivos para falar, então. Derrubar uma casa poderia fazer sentido naquele momento. Acostumara-me a ter Edward noite após noite, e aquele hiato que a gravidez me obrigou não foi suficientemente absorvido.
_Podemos caçar qualquer coisa, se você preferir… – Edward parou, olhando para mim, olhos nos olhos. Ele não deveria ser tão insuportavelmente desejável quando meu humor estava daquele jeito. – Podemos voltar logo para casa…
_Estamos longe da cabana? – A pergunta atropelou o raciocínio. Eu não estava apta a retornar para casa. Apesar de tudo, eu não queria dar a Emmett motivos para falar.
_Não. – Edward continuava a me olhar nos olhos. Ele piscou uma vez, passou os dedos em minha face e sorriu. – Mas precisamos nos alimentar e voltar, Bea… não sabemos quando Charles vai acordar, e ele terá sede logo.

Ah sim, claro. Havia algo a se fazer, mais importante do que sucumbir aos desejos mundanos. Sacudi a cabeça tentando livrar-me do que não estava ali, tentando afastar-me daquela onda de calor que havia dominado meu corpo frio. Minhas narinas imediatamente sentiram a aproximação de animais, e eram animais grandes o suficiente para mim. Lançar-me à caçada era uma boa forma de suplantar um desejo por outro. Deixei Edward buscar o seu alimento e fui atrás do meu, tentando balancear minhas necessidades.

Em menos tempo do que esperado, estávamos de volta à casa. Charles ainda dormia, mas as mulheres da família Cullen pareciam bastante desapontadas com o fato. Foi divertido vê-las cercando o berço onde estava Charles, enquanto os homens não pareciam compreender tanta adoração por um ser tão pequeno. O instinto maternal do qual Esme me havia falado, e o qual eu havia experimentado desde que descobrira estar grávida. Talvez porque as coisas deveriam ser como estavam, eu não senti nada estranho em ver toda aquela atenção exagerada sobre meu filho. Todas seriam mães de Charles, era como deveria ser. Eu era a mãe biológica. Aquela que o suportou no ventre e que o permitiu… existir. Elas seriam simplesmente mães, como Esme era de Edward.
_Irmãzinha, você parece que foi a uma guerra. – Emmett mencionou as marcas de sangue espirradas em minhas vestes.
_Eu tive que trazer alimento para meu filho… – Protestei. – Houve um pequeno incidente. – Sim, uma híbrida desastrada e um cervo em fuga. Um ataque que não significaria o mesmo dos anteriores… eu não iria sugar aquele cervo, e sim drená-lo para levar o sangue a Charles. Somatório que nos levava ao meu estado físico deplorável.
_Armazenamos o sangue em temperatura adequada, Bea. – Carlisle chegou, noticiando que havia terminado a tarefa que lhe fora incumbida. Estávamos então no salão… apenas os homens e eu, porque as mulheres definitivamente esperariam Charles acordar. – Não conhecemos a sua sede, mas creio que ele tenha alimento suficiente para algum tempo… ele é muito pequeno.
_Você quer ir, agora? – Edward colou os lábios em meus ouvidos e proferiu aquela frase desconexa, como se falasse sobre algo que havia sido dito muito tempo atrás. Ou sobre algo que ainda não havia sido dito. Só depois percebi que ele falava sobre meus pensamentos. Sobre o que eu queria, naquele momento. Olhei para ele, olhos arregalados, e balancei a cabeça assentindo. – Carlisle… você poderia pedir a Esme… Rose e Alice que cuidem de Charles por algumas horas? Caso ele acorde…
_Claro que sim, filho. Decerto elas terão o maior prazer em fazê-lo, considerando o fato que ainda não saíram do quarto do bebê. Aconteceu algo?
_Preciso sair com Bea um instante.
_Arght! – Emmett atirou uma das almofadas de Esme sobre nós. – Você ainda diz algumas horas? Não pretende afastar-se por dias? Semanas?
_Cale-se, Em… – Edward repreendeu o irmão, olhar ferino. – Temos um filho para cuidar, agora. Responsabilidades…

Brincando, Edward segurou em minhas mãos e me conduziu até o Volvo prata, que ainda estava parado no pátio. Emmett ficou na casa, rindo como uma criança humana, enquanto meu vampiro me colocava no carro, um tanto apressado. Talvez ele tivesse finalmente se encontrado no mesmo humor que eu, ou talvez antes ele estivesse apenas sendo responsável antes. Eu ainda era muito inexperiente para ser responsável. Era mais velha do que Edward, em vários aspectos, mas muito menos experiente do que ele.
_Eu estou novamente coberta de sangue. – Protestei, olhando para minhas roupas. – Aonde vamos?
_Você está linda. – Edward disse, sem olhar-me. – Nunca esteve tão linda, Bea. Acredite e mim. – Sua mão direita segurou a minha, enquanto ele apenas se concentrava em chegar logo. Em instantes, reconheci o caminho que já havíamos feito tantas vezes. Ele não precisou responder a segunda pergunta.
A urgência em que nos encontrávamos era quase patética. Não era razoável aceitar que Edward me fizesse tanta falta, e que aquela necessidade física fosse tão importante para se suprir. Tão logo Charles estava seguro em casa e com alimento o suficiente, tudo que nos tornava conscientes se apagou e deu lugar a um monstro. Aqueles monstros que nos assombravam, e que têm nome. Luxúria, desejo, fome. Os humanos chamavam aquilo de várias formas, mas o fato era que chegava a ser patético. Não tivemos tempo exatamente de entrarmos na cabana até que fôssemos consumidos. Edward tomou meus lábios tão logo seus braços me alcançaram fora do carro, e beijou-me com tanta violência que eu poderia machucar-me. Mas não. Eu estava forte o suficiente. Eu também estava violenta, não podia questionar. Foi difícil resistir à tentação de eliminar cada peça de roupa que ele vestia antes mesmo de sairmos do meio da clareira. Foi quase impossível permitir que ele me arrastasse – literalmente – até a cabana, e me atirasse por sobre a cama. Até que o lugar vinha se mantendo organizado o suficiente. Eu cheguei a considerar se Edward não estava mantendo aquela cabana limpa e organizada exatamente para situações como aquela.

Em pouco tempo eu já havia completado a tarefa de livrá-lo das vestimentas, a parte que eu consideraria divertida. As mãos cravadas em suas costas não demonstravam qualquer delicadeza; havia eu superado o medo de machucá-lo? A parte do meu cérebro que me comandava não poderia ser chamada de consciente, então. Talvez a parte consciente completamente entorpecida pelo desejo que eu sentia de ter Edward em mim? Ele me causava um efeito ainda mais assustador do que o Martini. Algumas horas, ele prometeu. Algumas semanas, Emmett cogitou. Eu só o queria por um instante, mas que fosse por completo.

_Podemos ficar até a noite? – Eu disse, percebendo o sol alto no céu e considerando que horas seriam.
_Podemos fazer o que você quiser… – Ele me beijou, os lábios percorrendo toda a linha de minha face até o pescoço, e subindo novamente. – Mas podemos continuar isso em casa, agora. Creio que já estamos aptos a retornar…
_Eu não sei se estou. – Impliquei, levando os meus lábios aos dele. – Mas sim… Charles deve estar acordado, eu suponho.
_Estou longe demais para saber. – Edward olhou pela janela que ficava pouco acima de nossas cabeças, o corpo esticado para olhar o lado de fora. – Mas é provável. Quer que eu ligue, para perguntar?
_Tudo bem. – Segurei suas mãos, que já se moviam para buscar o aparelho telefônico. – Ele está em boas mãos.
_Bea… – Edward beijou meu nariz, e quando ele fazia aquilo eu sabia que ele pretendia contar-me algo. Algo que eu deveria saber, e que ainda não sabia. – Há uma coisa… eu sei que você se preocupa com isso, então eu… procurei saber… na verdade eu ouvi, de suas irmãs híbridas.
_O que foi, Edward? – Meu humor subitamente se voltou para a curiosidade. – Esses enigmas me deixam profundamente aborrecida! – Ele riu, olhando-me nos olhos.
_Nenhuma híbrida teve mais de um filho, até hoje. – Foi a notícia. Abri os olhos com alguma surpresa, porque… ele não deveria saber que eu tinha essa preocupação. Até porque eu não pensei exatamente nessa possibilidade… eu temi, sinceramente, que tudo aquilo se repetisse com frequência, e que em pouco tempo houvesse uma superpopulação de Cullens. Afinal…
_E isso significa que… – Eu queria que ele dissesse, que ele colocasse com todas as sílabas de todas as palavras. Eu queria que Edward me confirmasse… ainda mais porque eu posteriormente confirmaria com Alice.
_Significa que nossa família será sempre eu, você e Charles. E os Cullen, claro. – Edward me beijou os lábios; eu ansiando por aquilo cada vez mais e mais. – Você não precisa preocupar-se.

Eu estava feliz que Charles tinha tantas mães à sua disposição, e que ele era apenas uma pequena criatura que provavelmente não causaria nenhum problema aos Cullen. Porque bastou Edward terminar a sua frase para que eu me rendesse a ele novamente, fazendo-me crer que não chegaríamos à casa dos Cullen antes do por do sol.

 

 

_Por sorte não lemos mentes. – Jasper estava no alpendre, quando chegamos. – Ou eu teria que desaparecer até que vocês retomassem o controle. – Ele franziu a sobrancelha.
_Estamos bem, Jazz. – Edward resmungou.
_Charles? – Eu perguntei, olhando para o céu já praticamente escurecido, algumas estrelas cuidadosamente colocadas no vazio horizonte rosado.
_Rosalie acabou de alimentá-lo. – Jasper entrou conosco na casa, meus olhos buscando meu filho. Após finalmente sentir-me satisfeita de Edward – se aquilo fosse consideravelmente possível, eu queria meu filho. Desde que entrara no Volvo, rumo aos Cullen, meu instinto maternal decidiu sobrepor-se ao desejo.
_Ah, aí estão vocês! – Esme nos recebeu com mais abraços. Aquele comportamento era natural? Eu não me recordava de ver Esme tão… humana. – Vejo que caçaram e estão…
_Satisfeitos. – Edward franziu a sobrancelha, olhando para os presentes com alguma inquietação. – Bea quer ver o bebê… ela está um pouco ansiosa. Onde está Rosalie?
A pergunta não precisou ser respondida, pois a vampira loira apareceu na sala, sorrindo, seguida por Emmett. Charles estava em seu colo, e eu pude ver suas mãozinhas pelo invólucro flanelado.
_Sua mãe finalmente chegou. – Rosalie disse, para meu filho, de uma forma quase imperceptível, como se ele fosse o único capaz de compreender suas palavras. – Pensei que ficariam mais tempo fora… Emmett disse. – Ela implicou. Edward cerrou os punhos, e estendeu os braços, tomando o bebê para si. Lábios franzidos, ele observou Charles por alguns instantes e sua face subitamente se transformou em um sorriso expressivo. Eu não havia visto Edward sorrir espontaneamente daquele jeito, ainda. Ele parecia… admirado. Ansiosa, eu estava. E ele me entregou Charles quando sentiu que eu estava prestes a pegá-lo de qualquer jeito.
_Alice? – Edward olhou para Jasper, que apontou o andar de cima. Edward me olhou, sorrindo ainda, e caminhou para a escada. – Ele sentiu saudades. – Os dedos longos apontaram para Charles, o bebê com a mãozinha estendida para mim. Meus olhos se encheram de júbilo, enquanto eu entendia o olhar de admiração de Edward. Ele era simplesmente perfeito demais para ser descrito por palavras.

***** Alice e Edward: a festa *****

_Entre Edward! – A pequena Cullen disse, antes mesmo de o irmão bater à porta. A conversa mental que sempre tinham e tanto irritava Beatrice.
_Alice, precisamos conversar. – Ele disse, coçando o queixo, semblante concentrado. – Sobre meu casamento…
_Claro! – A vampira caminhou até o irmão, dando saltinhos em celebração. – Definitivamente, está na hora do casamento…
_Eu pedi Beatrice em casamento da pior forma possível… eu a presenteei com um topázio ao invés de um diamante… eu preciso fazer alguma coisa direito, nesse casamento. Algo que se assemelhe a um casamento entre humanos… tudo, de preferência.
_Sabe que é só deixar comigo, certo? – Alice sorriu, empolgada.
_Sim, por isso queria lhe falar. Veja bem, não se trata de um segredo… Beatrice tem direito de participar de tudo. Ela é o personagem principal do evento. Ela precisa estar feliz… é tudo por ela.
_Eu sei, Edward! – Alice lhe deu um tapinha gentil no ombro. – Você sabe que eu sou a Cullen que organiza eventos. Prepararei tudo… para quando?
_Breve. O mais rapidamente possível… para podermos convidar os amigos humanos, dela.
_Os humanos! Claro… mas precisa ser rápido?
_Alice, pensei que você fosse mais esperta. – Ele zombou, e Alice emburrou. – Vamos… não seja infantil. Os humanos não viram Beatrice grávida. Eles podem até aceitar a desculpa de um nascimento prematuro… significativamente forçado. Mas o que diriam se Charles aparentar… meses de idade? Da forma que ele cresceu no útero ele crescerá externamente… eu sei. O híbrido Ferdinand levou aproximadamente dez anos para chegar à maturidade física. Em semanas, Charles parecerá ter meses. Não pretendo fazer uma festa sem convidados, não pretendo arriscar expor a família, e não pretendo esconder Charles de todos. Não agora… Bea ficaria muito insatisfeita. Precisamos de um casamento… para ontem.

Alice franziu o cenho e encarou o irmão. Abriu bem os olhos, Edward parecia apreensivo. Porque ela estava apreensivo, e ele podia saber seu humor sem nenhuma dificuldade. Alice então sorriu, imaginando todas as formas possíveis de conseguir um casamento em poucos dias. Um casamento que pudesse representar tudo que Edward desejava… agradar Beatrice… satisfazer seus desejos consumistas e ainda apresentar Charles aos humanos. Edward baixou a cabeça, assentindo, e deixou o quarto.





(Cap. 25) Capítulo 24 - Humanidade


*tema: O-town’s Baby I Would*


Eu não fazia idéia do que meu vampiro estava tramando. Aquela noite ele estava muito esquisito, com um sorriso diferente nos lábios. A cada vez que ele me olhava eu podia notar algo que não estava ali, antes. A cada toque de seus dedos em minha pele dura e fria, como coisa morta deveria ser, eu sabia que ele estava diferente. E não era por Charles. Não era por estarmos em casa, de volta, sãos e salvos. Não era porque não houve derramamento de sangue, até porque jamais haveria sangue sendo derramado em um extermínio entre vampiros. Edward estava diferente porque ele estava me escondendo algo, e era algo que ele tinha certeza que eu iria gostar.


Os Cullen não deixaram Charles sozinho por nenhum minuto. Eu sabia que aquele pequeno híbrido seria o ser mais mimado que já pudera existir. E ele já estava reconhecendo a família, os olhares dispersos entre os tios e tias, entre os avós. Edward não sabia exatamente como ele se desenvolveria fora de meu ventre, nem mesmo Carlisle. O vampiro médico passou várias horas no seu escritório tentando achar alguma informação sobre o tema, mas Charles era único, diferente. Talvez somente minha família do covil pudesse ter alguma coisa mais precisa a respeito da evolução de Charles. Não sabíamos como ele se desenvolveria, e o quão rapidamente.


De certa forma, foi divertido ver a frustração de Rosalie quando Charles Henry adormeceu em seus braços. Estávamos no salão, Emmett assistindo jogos como sempre, eu nos braços de Edward como sempre, Esme realizando trabalhos manuais como sempre. Tudo como de costume desde antes da minha partida da casa. Mas meu filho era como eu e ele teve sono e adormeceu nos braços da tia, que pretendia passar mais tempo mimando o sobrinho.


_Quer que eu o leve para o quarto? – Edward perguntou, já aos risos, sabendo exatamente o que se passava com Rosalie.


_Não. – Ela disse, caminhando até a enorme janela de vidro. – Deixe-o comigo…  você se importa, Bea? – O olhar suplicante me foi dirigido, e Edward pressionou minha pele com força. Ele ria, achava graça do ocorrido, e com aquele sorriso estranho, que me deixava confusa. Eu queria ler sua mente; eu queria muito.


_Claro que você pode ficar com ele, Rosalie… eu vou adormecer mesmo. Fico feliz que Charles seja tão querido por vocês.


_Imagine se seria diferente! – Esme interrompeu suas atividades para repreender-me os pensamentos. – Ele é filho de Edward! Beatrice, ele é um Cullen, ele é parte de nossa família.


Aquilo era uma família, eu considerava. Uma família nos moldes das famílias humanas… completamente diferente do que eu vivia no covil. A família pela qual eu lutei, pela qual eu desafiei, pela qual eu arrisquei tudo que eu considerava de valor. Minha família. Eu considerava que nunca mais precisaria de nada, e que toda felicidade do mundo já estava em minhas mãos. Mas eu sabia que meu vampiro estava aprontando algo. Principalmente após ele ter se levantado, segurado minha mão e me puxado com ele para o andar de cima, ignorando os comentários maldosos de Emmett a respeito de termos acabado de passar muito tempo sozinhos.


_Você está feliz. – Aquela não foi uma pergunta, até porque Edward não tinha o direito de fazer uma pergunta como aquela se ele podia ler minha mente. Seus dedos seguravam minha mão e brincavam com o anel brilhante que estava em meu dedo anular direito. O topázio, a pedra da cor de seus olhos. Era a cor dos olhos de todos os Cullen, mas eu só enxergava Edward naquela pedra.


_Claro que eu estou feliz… – franzi a sobrancelha e olhei para ele, que ainda tinha aquele sorriso insuportável no canto dos lábios e fazia um bico irresistível. Edward era lindo demais, resistir a ele por si só era uma tortura inadmissível. – Você faz cada comentário… como eu poderia não estar feliz?


_Acho que me preocupo demais com você, e acabo por me frustrar nas expectativas. – Ele fechou a porta de nosso quarto e começou a abrir os botões do punho da camisa, passando rapidamente para o colarinho.


_Edward, falar por enigmas não é uma boa idéia agora. – Eu parei exatamente em sua frente, assumindo a tarefa de abrir-lhe a camisa. – Eu não consigo ler você. E não estou muito objetiva, ainda.


_Eu sempre julgo que você quer mais do que você aparenta querer. – Ele disse quase no mesmo instante em que tomou meus lábios para si. Se ele fosse começar aquilo, não poderia me mandar parar, depois. Edward sempre me provocava ao limite máximo e depois me mandava parar, alegando que precisávamos de equilíbrio. Mas eu definitivamente ainda não estava apta a tanto autocontrole.


_Isso não faz sentido algum. – Meu corpo já estava por sobre o colchão de nossa cama, e eu falava o mais baixo que conseguia. Não desejava mais derrubar uma casa, como algumas horas atrás, mas isso não me tornava menos assustadora. – Você continua falando através de enigmas!


_Bea, eu pedi você em casamento. – Ele se ajeitou ao meu lado, seus olhos atentos capturando os movimentos da minha face, seus dedos acariciando meus cabelos. – Você aceitou, e logo depois tudo se tornou um caos. Os vampiros apareceram; você foi para o covil, eu fui atrás de você, Charles nasceu, seu irmão enfrentou Rudolph… tudo isso deveria ter feito você perder o juízo. Eu perdi o meu, por alguns instantes. Foi difícil me encontrar, eu garanto. Mas você… onde foi que você escondeu a Beatrice assustada e submissa que chegou a esta casa? – Ele sorria, apesar do tom sério de sua voz. – Você está linda… está tão feliz… sequer parece incomodar-se com o fato de que ainda nem pensamos em marcar a data do nosso casamento.


Franzi os lábios e encarei Edward. Seu semblante sereno estava imutável, aquela aparência estática que ele assumia quando estava concentrado. Sentei-me na cama, ajeitei meus cabelos, encarei-o novamente. Aquele assunto altamente técnico definitivamente não era um bom companheiro dos meus desejos mundanos. Em poucos instantes tudo que eu pensava em fazer estava guardado em um canto do cérebro enquanto eu tentava absorver as preocupações do meu vampiro. Então era aquilo que ele estava me escondendo desde que tivera uma conversa com Alice. Então era aquilo que ele tentava manter oculto, e que eu aparentemente estava frustrando. Ele pretendia marcar a data do casamento! Mas… eu nem sabia o que era exatamente um casamento. Eu só conhecia casamentos dos filmes. E eles eram para os humanos. Como poderia ser o casamento entre dois seres míticos?


Talvez eu devesse estar infeliz, incomodada pelo fato de usar um anel de noivado e não ter ainda um esposo. Pelo fato de Edward ainda ser meu noivo, mesmo depois de termos um filho. Talvez eu devesse ter mais humanidade dentro de mim, pois eu era, definitivamente, parte humana. Mas eu não sabia ser humana. Eu desejei, com todas as minhas forças, conhecer os humanos. E desejei sê-los, por anos da minha vida. Poder crescer, envelhecer, morrer. Eu estava cansada daquela vida no covil, cansada daquela existência medíocre e cruel. Mas então eu vi a luz… meus olhos foram cegados pela luz, pela luz de Edward. Não era o sol que me fazia enxergar a luz, era Edward. Não foi o sol que me guiou por todos os dias na superfície, não foi o sol que me manteve alerta e corada. Foi Edward. Ele era meu sol, ele era meu astro rei. E então eu não queria mais ser humana, eu queria estar com ele para sempre, para tudo que o sempre significasse. Edward, o ser mais importante de toda a minha existência. Por ele eu quis ser um vampiro, ser eterna. Imortal. Por ele eu quis ser plena. E ele me fez plena.


Mas ainda faltava em mim a humanidade que havia nele. Edward, e todos os Cullen, já haviam sido humanos. Eles já haviam existido como seres humanos, naturais, mortais. Eles haviam nascido e se desenvolvido no tempo normal de duração de um humano. Eles conviveram com eles como se eles fossem; eles aprenderam com eles. Com os humanos. Eu não. Eu era uma criação de laboratório, um protótipo. Mesmo que eu tivesse parte de mim de carne e osso, mesmo que metade de mim fosse humana e essa metade me fizesse fantástica, aos olhos do vampiro que eu amava, eu não sabia ser humana. Eu não entendia os sentimentos, as angústias, as realizações. Ser humana para mim era um objetivo inatingível que nem a maternidade conseguiu tornar próximo.


Então, eu deveria estar insatisfeita. Mas eu não sabia se conseguiria agradar Edward sendo natural.


_Eu quero me casar com você. – Eu disse, puxando Edward para mim. – Eu quero você para sempre, e você sabe que o nosso sempre é significativo. Mas você me faz sentir tão completa que eu não consigo me sentir insatisfeita por ainda não ter isso.


_Saiu-se muito bem. – Ele sorriu, e eu tive certeza que nenhum dos meus pensamentos conseguiu sair ileso. Edward certamente tinha lido tudo, e minha tentativa de mantê-lo na ignorância foi, mais uma vez, frustrada. – Mas você não precisa fazer isso para me agradar.


_Não faço. – Beijei-o novamente. – Faço porque quero. Você sabe que eu quero; você disse que aquela Beatrice desapareceu…


_Sim, e eu não sei ainda o quanto isso me assusta. – Ele rolou por sobre mim, pressionando meu corpo contra os cobertores. Aquilo era natural demais, e era difícil imaginar que nossa força poderia facilmente quebrar a mobília. Não havia parâmetros de comparação, ambos éramos fortes e por isso não machucávamos um ao outro. Apesar de que minha pele era significativamente mais sensível do que a de Edward, pois a minha podia se ferir. – A Bea de antes… precisava de mim.


_A Bea sempre vai precisar de você. – Foi muito fácil livrar-me das considerações sérias de Edward e mergulhar no desejo novamente. – Agora que tal deixar esse assunto para a próxima década?


_Não vai dar. – Edward interrompeu o beijo, e aquilo me aborreceu. – Alice já foi acionada para tomar todas as providências…


_Alice? – Franzi a sobrancelha, pensando no quanto minha irmã vampira já estaria envolvida na história.


_Prepare-se… ela vem com tudo, quer arrasar o quarteirão.


Havia poucas coisas mais ‘sexy’ do que Edward, e uma delas era Edward falando gírias. Quando ele deixava de lado seu vocabulário mais erudito para proferir palavras profanas ou de pouca cultura, definitivamente não havia nada mais sexy. E como eu já estava muito no seu ritmo, foi fácil deixar-me seduzir por mais uma noite inteira. Principalmente sabendo que Charles estava em tão boas mãos; foi muito fácil esquecer-me de tudo por algum tempo. Por mais algum tempo. Felizmente, nada que justificasse ruídos insuportáveis e móveis destruídos.


Mas meu vampiro estava correto, como lhe era de costume. Alice estava totalmente engajada no projeto casamento, e considerando que ele havia pedido pressa… ela começou o dia bastante agitada. Eu duvidava que os humanos estivessem disponíveis para qualquer coisa naquele horário, mas Alice entrou por nosso quarto adentro dando saltinhos e rodopiando, como lhe era de costume. Durante as três noites que passei no covil eu acabei por sentir falta da ausência absoluta de privacidade na casa dos Cullen… era muito melhor ser surpreendida sem as vestes, em momentos íntimos, o que fosse possível de se surpreender, mas que eu estivesse com Edward. Por sorte, Edward já sabia que Alice chegaria antes mesmo de ela pensar em abrir a porta do quarto, o que foi providencial para que ela não presenciasse nada inadequado.


_Vou ver Charles. – Edward beijou meus cabelos e levantou-se. Ele estava vestido, e para minha surpresa completa eu também! Apenas eu dormia naquela casa; eu e meu filho. Éramos as aberrações dos Cullen. – Vocês duas, comportem-se.


Sentei-me na cama, recém acordada, completamente desconcertada, enquanto Alice me encarava com olhos brilhantes e translúcidos. Ela certamente também tinha caçado, pois a cor caramelo estava completamente diluída em sua íris. A face da minha irmã vampira era assustadora, e eu podia ler seus pensamentos sem ser capaz daquela façanha. Ela estava pensando alto demais, foi o que constatei.


_Bea. – Alice sentou-se à beira da cama com os lábios franzidos e o olhar concentrado. – Vou pular a parte das apresentações, porque Edward é um linguarudo e já te contou tudo. Certo? – Balancei a cabeça assentindo, mas Alice não estava esperando por uma confirmação. – Pois bem… você precisa me ajudar com a lista de convidados. Seus amigos humanos… todos eles.


_Os humanos? – Arregalei os olhos. – Mas… como vamos fazer isso dar certo?


_Você não tem que se preocupar com a parte do “dar certo”, isso é função minha. Preocupe-se apenas em me dizer quem você quer convidar… e em me dar carta branca para a decoração!! Deixe por minha conta e eu organizo tudo. Tudinho!


Meu olhar era de susto e confusão mental. Eu não era muito funcional quando acordava, e aquela história de casamento me era certo mistério. Eu não sabia mesmo o que fazer.


_Alice Cullen. – A voz de Edward ecoou pelos corredores, e em poucos instantes ele abriu a porta do quarto e entrou, sobrancelhas franzidas, Charles em seu colo. Por alguns instantes meus olhos se perderam na imagem mais linda que eu já havia visto, e eu tinha certeza que aquela era a imagem mais linda que existia. Charles não estava mais enrolado naquele pano flanelado, e eu podia vê-lo inteiramente. Seu pequeno corpo de bebê, coberto apenas por uma fralda, era ainda mais pálido do que o meu e estava totalmente em contato com o peito nu de Edward, que trajava apenas calças de malha e meias. Edward franziu também os lábios e me olhou, aquela aparência de reprovação por meus pensamentos. Mas não havia nada que eu pudesse fazer, a imagem do vampiro que eu amava segurando nosso filho em seus braços era tão linda que poderia ser considerada um pesadelo.  – Bea, fique com ele… Rosalie está preparando a mamadeira. – Edward me entregou o bebê, que imediatamente olhou para mim. – Alice, o que foi que combinamos?


_Edward… – Alice fez um bico. – Se eu tiver carta branca de Bea, será a vontade dela que eu faça tudo. Exatamente como você quer.


_Não. – Edward ainda tinha a expressão rígida. – O casamento é dela, ela participa de todas as decisões. Isso não é negociável.


_Você é bem estraga prazeres, sabia? – Alice fez uma careta. Rosalie apareceu na porta do quarto com a mamadeira de Charles, que tinha olhos escuros e olheiras profundas. A mesma reação de nossos organismos quando tínhamos sede. Ele me olhava, ansioso. Edward caminhou até Rosalie e pegou a mamadeira com ela, tentando ser gentil. Imaginei que ele estava mais cuidadoso com Rosalie do que de costume, e eu gostaria mesmo de compreender os motivos que o levavam àquilo. Eu duvidava que ele me contasse, mas mesmo assim eu desejava saber.


_Ela deve fazer isso… você sabe, Rose. – Edward disse, antes de trazer o alimento de nosso filho até mim. – Ele é muito ansioso por você, Bea. – Edward sorriu. – Fique com ele o máximo de tempo que puder…


_Não é sacrifício algum. – Sorri para Edward, em um daqueles momentos típicos dos filmes do covil. Os momentos felizes, nos quais tudo dava certo e todos os desejos se realizavam. Os momentos de conto de fadas.


_Como pretende que ela saia comigo para organizar o evento se ela precisa ficar com Charles? – Alice resmungou, ainda com um enorme bico nos lábios.


Edward encarou Alice e ele estava bufando. Ele perdia a paciência com certa facilidade, mas nunca o controle. Eu imaginava que só vira Edward sem controle duas vezes. Todas as duas vezes quando eu fui ameaçada por minha família do covil. De qualquer forma, eu suspeitava que se Alice continuasse a provocá-lo com aquela idéia de tomar todas as decisões do casamento ele iria destituí-la do posto de organizadora. Se ele pudesse fazer aquilo, levando em consideração a minha total incapacidade de organizar o casamento, sozinha.


_Alice Cullen, você é mesmo uma pequena insuportável. Ainda preciso descobrir como Jasper te aguenta. Eu sei que você pretende ir às compras em Seattle, então Bea pode ir com você. E levar Charles Henry, claro. Afinal, será bom para ele sair… eu acho. Ele ainda não é claro o suficiente para mim, mas vocês podem muito bem ir até Seattle, onde as pessoas não notarão vocês, com meu filho. Não há escusas que lhe permitam convencer-me que você deva organizar tudo sozinha.


Alice emburrou, mas percebi que daquela vez era definitivo. Ela não tentaria novamente persuadir Edward a deixar por sua conta toda a festa, e teria que aceitar as regras dele. Isso significava, definitivamente, incluir-me. Eu não estava tão ansiosa assim para fazer aquilo, mas eu não pretendia desapontar Edward. E eu queria sim, casar-me. Aquilo parecia tão correto e tão natural entre duas pessoas que se amavam… mesmo que eu e Edward não fôssemos pessoas, exatamente. Existíamos como pessoas, então aquele fato nos daria o direito de agirmos como tal.


_Não pense em facilitar as coisas para ela, Bea. – Edward beijou-me os lábios, rapidamente. Seus dedos brincaram com os cabelos quase brancos de Charles, passando por toda a extensão de seu corpinho ainda não desenvolvido. Um sorriso nasceu em seus lábios, mas ele logo o reprimiu, ciente de que as três mulheres presentes – eu, Alice e Rosalie – o observávamos curiosas. – Vou arrumar-me para a escola, vocês duas desapareçam daqui.


Eu ainda não tinha percebido, mas o sentimento estranho que estava comigo desde a saída do covil tinha nome. Eu estava me sentindo como nunca, eu estava me sentindo humana. Terminei de alimentar Charles enquanto o pai dele vestia-se para mais um dia de escola e me proporcionava uma vista mais do que maravilhosa. Eu sabia que ele costumava envergonhar-se dos meus pensamentos impuros a seu respeito, mas imaginei que ele estivesse se acostumando. Daquela vez ele nem interrompeu o que fazia, simplesmente terminou a tarefa e me sorriu. Eu estava naquele momento de não falar, e esses momentos eram raros em mim. Mas tantas coisas aconteceram em apenas um início de manhã que me senti acuada.


_Às vezes você torna as coisas tão mais difíceis! – Ele me beijou os cabelos, e havia humor em sua voz. – Vejo você à tarde… não deixe Alice escapar de seus compromissos.


_Edward… – Eu o chamei, enquanto ele deixava o quarto. – Não quero ir a Seattle.


_Vai deixar Alice vencer essa? – Ele suspirou, sem olhar para mim.


_Não… é que… eu não quero ir sozinha, com Charles.


Edward virou-se para mim, e novamente as palavras me haviam atropelado os pensamentos. Ele não havia captado nada daquilo em mim, sua surpresa era genuína.


_Pensei que esse apego tinha sido por causa da gravidez… que você voltaria ao normal após o nascimento dele.  – Edward apontou para Charles.


_Normal para mim é estar com você. – Fiz drama, como me era de costume. Eu sempre era tão dramática, Felicia dizia. – Precisa mesmo… ir à escola?


_Preciso sim. – Ele acariciou minha face. – Mas matarei algumas aulas, e voltarei a tempo de ir com vocês, tudo bem? Alice também vai à escola… voltaremos juntos para casa.


Assenti com a cabeça, e ele deixou o quarto. Pude notar a hesitação em seus gestos, e o meneio de cabeça informando que aquela era uma atitude difícil. Retomar uma vida considerada normal depois de tudo que ocorreu, depois de tudo pelo que passamos. Eu não gostei de ficar nem uma hora longe de Edward, e passar três dias sem saber quando o veria novamente foi uma tortura inadmissível. Era contraditório demais, para quem tem mais de cem anos de idade, sentir-se tão infeliz em um lapso temporal tão insignificante. Mas eu me senti; havia um pedaço de mim com Edward e eu só pude sentir-me perfeita novamente quando eu o tive em meus braços outra vez.


Mas o perigo havia acabado; as coisas ruins não existiam mais. Rudolph não nos seria um problema, nem nenhum dos híbridos. Não havia nada mais que pudesse colocar em risco a nossa aparente felicidade. Não havia por que temer. Mesmo assim, eu não conseguia me sentir bem. A inquietude da ausência de Edward me deixou novamente faltando um pedaço. Pensei se aquele sentimento ruim poderia ser sentido por Charles; se ele também tinha super poderes como Edward. Se ele poderia pressentir minha agonia e se aquilo faria mal a ele. Inicialmente, ele não parecia afetado por meus pensamentos contraditórios e desconexos. Permanecia sereno, em meus braços a me olhar, uma face linda e tranquila. Meu filho, e eu com aquelas angústias tão humanas.


Concentrada em minhas tarefas do dia, levantei-me e decidi vestir-me. Alice mantinha meu guarda roupas impecável, com todas as peças que combinavam formando pares para me facilitar a escolha. Eu precisava tomar o controle das roupas que vestia, apesar da conveniência que era seguir as tendências de Alice. Ela era sempre tão positiva, sempre tão cheia de estilo… mas eu precisava começar a assumir algumas responsabilidades, entre elas escolher minha própria roupa. Respirei fundo e peguei peças descoordenadas, que não formavam os pares deixados por minha irmã vampira. Deixei Charles por sobre a cama enquanto me vestia, e pensei que deveria conversar com ele. Eu não sabia se ele me entendia, mas se Edward conseguia captar seus pensamentos, ele podia me compreender. Se ele ansiava pela minha presença, talvez ele gostasse de conversar comigo. Parecia bastante tolo conversar com um bebê, mas ele era um ser vivo. E não podia ser tão estúpido conversar com seres vivos, afinal.


_Bom dia. – Esme nos recebeu. Desci para o salão, já bastante revigorada, e apenas Esme estava em casa. Os outros já haviam ido para a escola e Carlisle para o trabalho. – Como vão vocês dois? Ele já está alimentado?


_Sim, Rosalie levou a mamadeira até meu quarto.


Esme aproximou-se de mim e, ainda sorrindo, beijou Charles na testa. Talvez Esme fosse o membro da família Cullen que mais tivesse reações humanas. Seria porque ela era a mãe? Em algum tempo vestindo o manto da maternidade eu me tornaria como Esme?


_Alice está no escritório de Carlisle, se quiser falar com ela.


_Ela não foi à escola? – Surpreendi-me.


_Não, disse que tinha muito a resolver sobre o casamento. Ela parecia aborrecida, aconteceu algo?


_Alguns contratempos com Edward. – Eu quis rir. – Esme, onde Edward guardou os livros sobre bebês? Eles não estão em nosso quarto…


_Estão no escritório de Carlisle. Ele estava realizando algumas consultas… os dois estão estudando Charles.


Sim, estudando Charles. Aquilo soou tão esquisito quanto deveria, afinal meu filho não era um objeto de estudos. Mas quem não estaria curioso com a sua existência. Apesar de eu ter vivido em um covil cheio de seres exatamente iguais a Charles, ele ainda era o de genética mais confusa. De qualquer forma, eu estava com algumas idéias e precisava consultar os livros para saber como colocá-las em prática. Agradeci Esme e caminhei até o escritório de Carlisle, onde sabia que encontraria Alice, muito provavelmente emburrada em razão da discussão com o irmão. Mas a pequena Cullen não estava como eu esperava, estava apenas sentada à frente do computador de Carlisle fazendo pesquisas. Tentei não interrompê-la e por isso apenas peguei os livros e saí. Como Charles era muito silencioso eu nem teria problemas para realizar minha leitura com ele no colo, na sala.


Depois de ler tudo que eu precisava e achar algumas respostas, eu me convenci de que devia fazer o que pretendia. Meu filho estava sereno em meus braços e eu o encarei, pensativa. Nada daquilo havia feito mal a mim, nada daquilo havia me causado qualquer problema. Eu insistia em ser uma vampira,  mas os meus vampiros insistiam que eu deveria deixar minha humanidade fluir… talvez eu estivesse determinada a ceder, ou a pelo menos aceitar os dois lados. A experiência de quase perda de tudo que eu amava me deixou vulnerável e ao mesmo tempo mais forte, mais capaz de compreender a reação dos Cullen às emoções humanas. Eu não queria, na verdade, privar Charles daquela experiência. Da experiência de ser humano e vampiro, ao mesmo tempo.


Quando Edward chegou em casa, cedo, horário que seria almoço na escola, eu estava na cozinha. Obviamente ele tinha faltado as últimas aulas como me prometera, e eu acabei me surpreendendo. Eu não achava que Edward fosse realmente cabular aulas para ir comigo e com a irmã a Seattle, em busca de coisas para o casamento. Eu sempre achei que os homens não se importavam com aqueles eventos, era como os filmes retratavam. Era como os livros retratavam. Homens não se importavam exatamente com casamentos, eles até os evitavam. Mas Edward era mesmo diferente de qualquer coisa existente, e pontualmente no horário de almoço ele estava em casa. Também surpreso ao entrar e encontrar-me na cozinha.


Ele se aproximou olhando para o que eu fazia no fogão. Minha concentração estava totalmente voltada para evitar os pensamentos e impedir que Edward descobrisse minhas intenções antes de eu revelá-las. Ele percebeu minha tentativa de distraí-lo e desistiu, beijando-me os cabelos com um rosnado leve.


_Charles? – Ele quis saber de nosso filho.


_Com Esme… – Eu ainda respirava bem lentamente tentando não pensar em nada que me denunciasse.


_E você está na cozinha porque… está com fome? – Edward tentou entender minha atividade recente. Eu estava realmente cozinhando, e algo fervia lentamente em uma panela esmaltada. O cheiro era doce demais, e até nauseante. Não o mesmo doce de Edward… o cheiro de Edward era especial demais. Aquele era só um cheiro adocicado de alimento humano.


_Eu não. – Sorri para Edward, capturando seus lábios entre os meus bem rapidamente. Eu nunca podia demorar-me com Edward, eu sempre perdia a noção e o controle. – Mas sei de alguém que vai ficar com fome logo… principalmente se for encarar uma pequena viagem até Seattle.


Edward me olhou com curiosidade, e decidi deixar de torturá-lo. A curiosidade se tornou surpresa, e sua expressão era impagável. Sim, eu duvidava que ele pudesse imaginar que eu considerasse alimentar Charles com… leite. Era exatamente o que havia na panela esmaltada e decorada de Esme, leite com amido de milho, uma fórmula caseira muito antiga para alimentar bebês humanos. Nosso bebê era um híbrido que tinha um corpo semihumano, ele podia muito bem adaptar-se ao alimento como eu havia me adaptado. Eu já tinha um paladar muito definido, e o alimento humano não era muito agradável. Preferia sangue fresco, era verdade. Além do pavor imensurável, porém já sob controle, de tornar-me humana com as experiências. Charles Henry ainda não tinha paladar, ele estava apto a ser trabalhado. Era um bebê, um ser em crescimento. Ele tinha o direito, ao menos, de provar alimento humano.


Realmente, fora a viagem a Seattle que me fizera considerar preparar um novo alimento para Charles. Ele sentiria sede durante o passeio, e não seria viável alimentá-lo com sangue no meio dos humanos. Menos viável ainda seria deixá-lo com sede. Eu nunca deixaria meu filho sofrer de sede em meio ao aroma irresistível dos humanos. A agonia de estar entre os humanos, o ardor na garganta por sentir o cheiro do sangue deles e não poder saciar a necessidade natural de alimentar-se dele; eu não queria que Charles passasse por aquilo. Ele poderia suportar a dor se estivesse saciado. Então, eu decidi testá-lo, impiedosamente. Já me haviam testado de tantas maneiras diferentes que eu sabia que aquela experiência não seria prejudicial a Charles. Seria apenas uma tentativa, saber se ele se interessaria por alimentos humanos.


_Precisamos… nos arrumar para sair? – Eu disse, terminando de colocar o alimento na mamadeira. – Logo vai ficar tarde, e não é bom ficar com bebês recém nascidos fora de casa por muito tempo.


_Você andou lendo? – Edward remexeu os livros por sobre a bancada da cozinha. – Realmente, eu preciso saber onde foi que você escondeu a Beatrice.


_Ela cresceu. – Eu sorri, e o beijei novamente. – Vamos… Alice está chateada, você deveria desculpar-se com ela. Temos trabalho a fazer, não?


_Sim, temos. Um casamento a organizar… mas eu serei apenas um expectador.


Esme nos encontrou no salão, carregando Charles em um artefato bastante curioso. Edward riu para a mãe, e eu fiquei bastante confusa. Não conhecia exatamente aquele objeto, ele ainda não me havia sido apresentado.


_Achei que, para vocês saírem com o bebê, seria mais conveniente usar um desses. – Esme empurrou o que parecia ser um carrinho para meu lado. Charles estava deitado nele, enrolado mais uma vez no manto flanelado, totalmente vestido para sair. – Os humanos usam sempre. Agora vocês parecem realmente uma tradicional família humana… não é perfeito?


E totalmente assustador, claro. Sorri para Esme, enquanto Edward caminhava até as escadas para chamar Alice. Se ele precisasse mesmo ir até ela para que ela soubesse que ele a aguardava. Mais uma vez iríamos até a cidade no carro de Edward, o Volvo prateado que tanto me encantava. Daquela vez Edward iria dirigindo, no entanto. Eu não estava mais tão frágil quanto durante a gravidez, ele não precisava se sacrificar tanto – ter que suportar Alice dirigindo – por mim. A pequena Cullen desceu as escadas demonstrando indiferença à presença de Edward com um bico em seus lábios, segurando uma pasta com diversos papéis dentro, e me encarou.


_Check list. – Ela sacudiu a pasta, mostrando-me o que havia em seu interior. Iríamos para Seattle então, e chegaríamos rápido. Com Edward ao volante, chegaríamos muito rápido. A típica família de humanos, como disse Esme: um pai, uma mãe, uma tia e um bebê. Não havia sol algum no dia claro de Forks, e certamente não havia sol algum em Seattle. Minha família vampírica não precisaria preocupar-se com a exposição, e eu não precisaria me preocupar com o fato de o sol exercer algum efeito sobre Charles.


Alice passou a viagem enumerando os afazeres daquela tarde. A decoração ela pretendia encomendar pela internet, porém o Buffet e meu vestido deveriam ser comprados pessoalmente. Eu concordava com tudo que ela falava porque eu não entendia nada daquilo. Eu dissera a Edward, não era uma boa opção deixar-me por conta da organização de nada. Mas Alice cumpria meticulosamente sua função, comentando sobre tipos de flores, cores, aromas, e sobre o Buffet. Alimentos humanos, muita comida mesmo. Afinal, os vampiros seriam minoria no evento, a grande maioria dos convidados seria os meus amigos humanos. Nossos amigos.


Em Seattle, o primeiro lugar que fomos foi uma casa de eventos. Alice disse que seria mais simples encomendar todo o Buffet de um só lugar, pois assim teríamos menos chance de errar. Fomos atendidos por uma moça sorridente, que deixou seus olhos repousarem em Charles desde a primeira vez em que ele apareceu, no colo de Edward. Apesar de Esme nos ter arrumado aquele carrinho de bebê, Edward parecia sempre tentado a carregar Charles nos braços. E eu sabia que meu filho deveria preferir estar conosco. Meu vampirou riu, aquele sorriso canto de boca, quando a atendente comentou sobre o bebê. Minha curiosidade sobre o que ele sabia que ela estava pensando se atiçou, mas depois eu poderia perguntar-lhe do que se tratava. Alice determinou as guloseimas que seriam servidas, e eu me mantive por perto concordando ou discordando. Eu não tinha base para discordar, acabei apenas escolhendo entre um sabor ou outro, uma forma ou outra. Eu sequer entendia sobre sabores… minha experiência com alimento humano não era tão vasta.


_Não é muita comida? – Eu considerei, enquanto observava o cardápio.


_Você já decidiu quantos convidados serão? – Alice me encarou.


_Não fiz uma lista ainda… – Envergonhei-me.


_Então, deixaremos a quantidade em aberto. Mas os humanos adoram variedade… deixemos que se divirtam. É seu casamento, Bea. Não faremos economia.


_Os Cullen nunca fazem economia com nada. – Eu franzi os lábios e Edward deu uma risada. Ele estava na porta do estabelecimento, ainda com Charles, observando o movimento dos humanos.


_Não precisamos. – Alice riu, e fiquei feliz em vê-la sorrir. Eu não gostava da pequena vampira com aquela aparência séria que pertencia somente a Edward. – Então, podemos fechar? Pelo que pesquisei, essa casa tem o melhor conceito.


Assenti com a cabeça, entregando a Alice a seleção dos alimentos que seriam servidos no casamento. No dia seguinte Alice entregaria a quantidade de pessoas convidadas, para que a quantidade de comida também fosse definida. Tudo tinha que ser muito rápido. Edward queria tudo muito rápido.


O segundo lugar para o qual iríamos seria um estúdio. Alice disse um estúdio, e eu imediatamente pensei em música. Talvez ela estivesse pretendendo contratar músicos para tocar no casamento. Eu nem sabia por que, afinal os Cullen eram músicos. Eu sabia que Rosalie e Edward tocavam muito bem, e ouvira dizer que Jasper e Esme também mereciam justiça com seus talentos. Mas claro, os Cullen não tocariam na festa… eles seriam parte da festa, e não teriam que trabalhar nela. Obviamente Edward não tocaria na festa, ele seria o noivo… o noivo fica de pé esperando a noiva chegar. Mas a imagem de Edward vestindo preto e sentado ao piano, tocando qualquer coisa de Beethoven que eu tanto adorava, me encheu os olhos e foi quase como uma visão. Eu não pude evitar, apesar de saber que toda aquela imaginação já tinha chegado ao conhecimento de quem não deveria.


Mas o estúdio que visitaríamos era de costura. Alta costura, Alice me corrigiu três vezes. Visitaríamos um estilista, responsável pelo meu vestido de noiva. Aqueles vestidos brancos, cheio de renda, maravilhosos, que as mocinhas sempre vestiam durante o casamento. Eu nunca cogitei vestir nada daquilo. Segui os dois Cullen, que caminhavam a pé pelo passeio público, olhando para eles com uma perplexidade natural. Dois vampiros, carregando um híbrido, andando pelas ruas claras e geladas de Seattle. Eu nunca imaginei que viveria nada daquilo, era uma verdade absoluta. Eu nunca imaginei que viveria nada nem parecido com aquilo, com momentos como aqueles. Minha hesitação fez com que Edward diminuísse o passo até que eu o encontrasse. Com sua habilidade peculiar, ele entregou Charles para mim e me passou o braço pelo ombro, passando a empurrar o carrinho. Alice falava sem parar sobre tudo, e Edward me confortava em seus braços como sempre. Minha família, e nada poderia ser mais humano do que aquilo.


O estúdio parecia saído de uma cena de cinema. Alice mencionou que parecia um hotel cinco estrelas, mas eu só tinha como referência os hotéis da nossa viagem à Europa. Eu nem sabia que se contavam os hotéis pelas estrelas, era verdade. Hotéis não deviam ter estrelas, só o céu. Fomos atendidas, daquela vez, por um homem de aparência esquisita, muito diferente dos homens que eu estava acostumada, que falava muito alto. Meu filho não pareceu gostar de sua presença, e mais uma vez ele trocou de colo. O pai o levou para a porta, enquanto eu e Alice conversávamos sobre rendas e babados.


_Eu não acho branco uma boa idéia, Bea. – Alice considerou. – Não combina com sua pele.


_Se não precisa ser branco… – eu não sabia. – Eu gosto de muitas outras cores.


_Ela combina com tons pastéis. – O estilista falou, pegando um álbum cheio de amostras. – Vocês podem ficar entre essas opções aqui.


_Veja bem… – Alice começou a folhear o álbum. – Tem que ser um vestido moderno, sem cauda, eu pensei em algo que não tivesse ombros também, para que ela pudesse usar um colar que destacasse o colo… e também…


_Alice Cullen. – A voz repreensiva de Edward mais uma vez. – Esse vestido é seu, por acaso?


_Edward, você me pediu para organizar! – Ela protestou, olhando para o irmão. – O que eu vou organizar, afinal?


_Organizar, e não escolher por ela.


_Céus, Edward Cullen! – Alice rosnou. – Sabe o problema? Você não podia estar aqui! – Ela levantou-se. – Você é o noivo! O noivo não pode ver o vestido… o noivo não pode saber nada do vestido! Você devia estar em casa! Sim, em casa… e deixar que eu e Bea resolvêssemos isso!


_Você e Bea? Se eu não estivesse aqui você teria decidido tudo e ela seria expectadora. – Edward aproximou-se. Charles inquietou-se em seus braços, e ele modificou o tom de voz. – Não vou explicar de novo, o casamento é dela, ela escolhe tudo.


_Já sei! – Alice pegou o celular. – Vou chamar reforços!


_Reforços? – Arregalei os olhos, tentando interferir na discussão.


_Jasper! – Alice começou a discar os números, em velocidade maior do que eu considerei ser tolerada, na presença de humanos. – Vou chamar Jasper para tirar Edward daqui… assim podemos trabalhar.


_Jasper está em Forks, Alice. – Edward tentou contemporizar.


_E ele chega aqui em alguns minutos. Vamos tomar um café! Isso, saímos para tomar um café, e quando Jazz chegar ele arrasta você para algum lugar! Não posso lidar com isso agora, tenho muita coisa a fazer!


_Alice. – Eu decidi, então, interferir. Aquela briga tola entre os dois precisava acabar. Segurei o aparelho de telefone e o desliguei, antes que Jasper atendesse. – Você não precisa fazer isso. Quer saber? Escolha o vestido. Por favor, escolha algo que você sabe que eu vou adorar. Pode ser lilás… eu vou adorar se ele tiver cor de lavanda. Ou então cor de baunilha. Eu adoro baunilha, certo? Então… escolha. Não importa muito a renda ou o modelo, eu confio no seu senso de equilíbrio. Aliás, escolha tudo que for preciso, sim? Quando chegarmos em casa, você me mostra as opções de decoração. – E virei-me para Edward sem dar chance de que nenhum dos dois esboçasse qualquer reação. – E você, meu amor… vamos dar uma volta. Vamos andar por Seattle até que Alice tenha terminado suas tarefas. Leve-me a algum lugar divertido, sim?


Disse tudo em um fôlego só, tentando sorrir. Imaginei que meu impulso assustou Edward, porque ele me olhava novamente com aquela expressão de surpresa e admiração que por vezes me confundia. Alice abriu um largo sorriso e pulou em meu pescoço, abraçando-me daquela forma natural que eu vira Esme fazer tantas vezes.


_Obrigada Beaaaa! – Ela beijou minha bochecha. – Você não vai se arrepender.


_Quando você terminar tudo, ligue para o telefone de Edward e viremos te buscar.


Virei-me para Edward e o empurrei para fora do estúdio, com o carrinho de bebê. Peguei Charles no colo e o coloquei no carrinho, cobrindo-o com o manto de flanela. Ventava muito, e pensei que fosse mais natural para um bebê humano estar coberto. Depois continuei empurrando Edward e o carrinho pelo passeio, afastando-me do estabelecimento.


_Eu sabia que você a deixaria vencer. – Edward protestou, em tom de voz muito baixo.


_Não se tratava de uma competição. – Foi minha vez de protestar. – Edward, você disse que o casamento é meu e a escolha é minha. Pois escolhi, quero que Alice decida tudo. Não entendo nada disso mesmo… estou confusa e vocês dois só discutem. Quero estar com você, com Charles, quero aproveitar vocês dois e não passar horas escolhendo rendas e flores. Foi antes de ontem que meu filho nasceu, antes de ontem que saí do covil, antes de ontem que retomei minha vida. Vida, existência, seja o que for que chamemos isso.


_Realmente, o trauma lhe fez uma mulher diferente. – Ele beijou meus cabelos. – Diga-me, para onde vai me levar?


_Quero ir aonde vão os humanos quando saem em família.


_Eles vão ao parque. Mas está frio.


_Há crianças humanas brincando?


_Sim, sempre.


_Então leve-me ao parque. Charles precisa alimentar-se, será o momento certo.


Humanidade, era o que eu teria. Edward nos colocou dentro do Volvo prata e dirigiu até o parque. Ao longe eu pude ver, realmente, crianças brincando. Muitas delas, e seus pais ao redor, observando ou simplesmente conversando. Seríamos nós, naquele momento. Pais que observavam. Nosso filho, no entanto, não poderia brincar com outras crianças. Eu esperava que, em algum momento, ele pudesse. Eu esperava que Charles fosse exatamente como todo híbrido, inofensivo para os humanos. Que o sangue humano não lhe causasse transtornos; que ele fosse capaz de superar. Como eu superei; como outros híbridos sempre superaram. Mas naquele momento não, ele era um bebê e estaríamos ali apenas para diversão.


Sentamo-nos em um local mais reservado, próximo a um jardim. Eu podia ver as crianças correndo e divertindo-se em um espaço só delas. Fazia bastante frio, mas as pessoas ainda assim pareciam não se importar.


_Você acha que ele vai gostar disso? – Apontei para a mamadeira, que estava dentro da bolsa azul que Esme havia arrumado para Charles.


_Você gostou, logo da primeira refeição. – Edward recordou-se da minha primeira experiência com alimentos humanos. – É provável que ele ainda não tenha consciência suficiente da importância que é alimentar-se com comida humana.


_Você poderia pedir a ele que tentasse.


_Como se ele me entendesse. – Edward riu.


_Ele sempre entendeu você. – Considerei. – Desde quando ainda não havia nascido.


Edward franziu a sobrancelha e olhou para Charles. Os olhos dos dois se mantiveram ligados por alguns segundos, como se eles estivessem se conectando à mesma frequência.


_Sua mãe afirma que você me entende, então espero que ela não se decepcione. Você entende, Charles Henry, que você é um ser diferente de outros seres. Sua existência é diferente… e você precisará aprender a lidar com isso. Sua mãe quer lhe oferecer algo que poderá ajudar bastante em sua adaptação ao mundo. Seria bom se você provasse… não é tão ruim assim, ela gosta.


Eu ri, de uma forma bastante espontânea, enquanto Edward conversava com Charles. Ele era formal, quase como se estivesse dirigindo-se a uma autoridade importante. Talvez Charles fosse, para ele, uma autoridade. Aquilo explicaria os olhares reverenciais e a admiração dele para com o filho. Mas apesar de tudo Charles era um bebê, e por mais fantástico que ele fosse, seria mais simples se Edward usasse um vocabulário mais simples. De qualquer forma, eu decidi arriscar e tomei nas mãos a mamadeira, oferecendo-a a Charles.


A reação de um híbrido ao alimento humano não era das melhores. A minha foi chocante. Eu recusei alimentar-me por várias semanas, meses. E o aroma sempre me causou irritação. Certamente, imaginei que Charles fosse sentir a mesma repugnância ao alimento viscoso e adocicado. Mas acabei por surpreender-me, e aquela surpresa me fez rir ainda mais. Ao primeiro contato do alimento com a pequenina boca de Charles, seus lábios se prenderam ao bico plástico da mamadeira e ele começou a sugar o leite. Franzi os lábios e o observei por alguns instantes. Seus olhinhos estavam circundados por marcas arroxeadas, mas ele os tinha fechados. Lentamente, Charles sugou todo o conteúdo da mamadeira, sem recusá-lo em nenhum momento.


_Eu disse que ele te entendia. – Falei para Edward, em êxtase.


_Por incrível que possa parecer, ele gostou. – Edward também sorria. – Ele realmente gostou… seus pensamentos estão tão claros… apesar de serem tão inconclusivos e relacionados a cores.


_Você sabe que me sinto vivendo em uma dimensão paralela, não sabe Edward? Você sabe que eu ainda não estou concebendo tudo isso… que as coisas parecem finalmente estão dando certo, que eu não corro nenhum risco, que nenhum de nós corre nenhum risco; que estamos juntos e dessa vez nada vai nos atrapalhar. Eu ainda não aceitei o fato de que eu estou vivendo a vida que eu sempre imaginei, mas que nunca poderia ser destinada a mim porque eu sempre fui, e sempre serei, um monstro.


_Sim, eu sei. – Edward me abraçou forte, talvez até mais forte do que deveria. – Eu sei e eu não acho que deva sentir-se assim. As coisas dão certo, mesmo para monstros. E você não é um monstro. Foi você que me fez ver que eu também posso não ser um monstro. Que talvez eu possa viver, existir, plenamente sem ser um monstro.


_Nunca seremos humanos. – Olhei em seus olhos, com angústia.


_Isso nunca importará. – Edward delineou os contornos da face de Charles, que parecia ansioso. Conscientemente, mesmo em meio a tantas pessoas, mesmo em público, ele tomou meus lábios para si em um beijo úmido, demorado, inesperado. – O sentimento é o mesmo.





(Cap. 26) Capítulo 25 - O casamento - parte 01

Notas do capítulo
Esse capítulo terá 3 partes distintas, todas relacionadas ao casamento. Estamos na parte 01 ;)


PARTE 01 – PREPARAÇÕES NECESSÁRIAS: UM CONVITE


*tema: Secondhand Serenade’s Fall For You*


Não foi uma missão difícil fazer os dois irmãos pararem de discutir por minha causa. Por causa do casamento. Afastar Edward de Alice e deixá-la trabalhar sozinha foi a melhor idéia dentre todas as idéias que eu poderia ter. Eu até poderia sentir-me um pouco inteligente, apesar de tudo. Quando a cidade de Seattle começou a anoitecer e os humanos começaram a recolher-se em casa, fugindo da friagem que assolava aquele dia, retornamos para nossa casa em Forks. Durante o trajeto tentei idealizar mentalmente a lista dos convidados, pois essa era a única escolha real que eu faria. Eu não queria mais discussão entre Edward e Alice, então eu não queria mais saber de decidir sobre o casamento. Que Alice tomasse as rédeas de tudo.


A lista de convidados me remeteu ao fato de que os humanos não sabiam de Charles. Eles não sabiam de nada, era verdade. Mas como ludibriá-los com uma história fantástica a respeito da concepção de uma criança vampira? A questão tempo seria difícil de lidar. Era como eu considerava. Deixei de sentir-me inteligente ao não conseguir bolar uma desculpa razoável para minha gravidez ter iniciado e terminado em tão pouco tempo.


_Não se incomode com isso, Bea. – E lá estava meu vampiro respondendo aos meus pensamentos novamente. Tola, que não conseguia ficar quieta. – Eu vou explicar a eles que você escondeu a gravidez.


_Por que eu esconderia? – Era uma pergunta legítima.


_Algumas humanas jovens sentem-se envergonhadas por estarem grávidas sem estarem casadas. Principalmente se o pai é um parente.


_Oh. – Arregalei os olhos, em surpresa. – Então foi isso? Engravidei, não tive coragem de contar-lhe… e quando você descobriu tudo ficou bem?


_Sim. Os humanos adoram problemas com finais felizes, nem vão se prender a detalhes. – Edward riu.


Fácil demais, era como parecia. Seria mais prudente deixar por conta de Edward a elaboração da desculpa. Ainda havia muito a ser feito, só que não seria feito por mim. Não tudo, na verdade quase nada. Continuei a tarefa de mentalizar a lista de convidados, precisando lidar com os risos de Edward toda vez que considerava um humano. E também lidar com a reação dele pelo fato de todos na lista serem humanos.


Era uma segunda feira, e o casamento seria no final de semana. Coloquei Charles adormecido em seu leito, e o observei mais um pouco. Ele tinha cor em suas bochechas; ele tinha mais cor do que eu. Seus cabelos muito loiros estavam maiores, e com fartos cachos. Ele tinha a boquinha entreaberta e respirava cadenciadamente. Eu nunca havia lidado com um bebê, a sensação era fantástica. Meu filho era mesmo muito perfeito, e nada poderia dizer que ele não era para existir. A sua existência não podia contrariar nenhuma lei natural, ele não podia ser contra a natureza. Charles era tão natural quanto qualquer outro ser vivo. Com algumas pequenas diferenças. Os humanos se encantariam por ele, eu tive certeza. Retornei para meu quarto, enquanto Rosalie já estava pronta para tomar meu lugar nos cuidados com Charles. Obviamente o fato de ele estar sempre dormindo a noite era decepcionante para as mulheres Cullen, mas elas conseguiam superar a frustração observando-o dormir.


No quarto, Edward me esperava como sempre. Apesar de que eu sabia que seu olhar divagante ainda denotava preocupações que ele não deveria ter; preocupações que seriam tolas demais para ter, e que provavelmente só combinariam comigo.


_Eu estou mais nervosa do que você. – Disse, sentando-me delicadamente na cama.  Edward observava a natureza do lado de fora.


_Não está não. – Ele riu. – E você não lê mentes para saber, futura senhora Cullen.


_Vou ter que me acostumar, certo? Beatrice Cullen?


_Sim. – Edward aproximou-se de mim, naquela velocidade peculiar sua, e me tomou nos braços. – Não poderia ser de outra forma. Como está nosso filho?


_Dormindo. Rosalie, nossa mais eficiente babá, está a observá-lo.


_Adoro a família. – Meu vampiro moveu-se rapidamente por sobre mim, mas eu não estava preparada para aquilo, naquele instante. Eu ainda tinha muitas coisas na cabeça, que não deixaram Edward prosseguir com seus objetivos. – Okay, Beatrice. Diga-me, por que você está tão ansiosa com o casamento? Não parecia assim antes.


_Talvez antes eu ainda não tivesse absorvido tudo. – Olhei-o nos olhos. – Desculpe-me Edward… eu não quero ser inconveniente, afinal hoje o dia foi maravilhoso.


_Todos os meus dias são maravilhosos ao seu lado. Diga-me, pode falar sobre suas preocupações.


_Eu entreguei a Alice a lista dos humanos. Mas eu considerei… como será a cerimônia? Os humanos têm cerimônias em templos, com pregadores… não somos amaldiçoados demais para termos a bênção divina?


_Eu havia pensado apenas em um juiz de paz. – Edward ajeitou-se na cama, cobrindo-nos com os cobertores. Ele já havia entendido que aquela noite apenas conversaríamos. – Nunca me considerei digno da bênção divina.


_E… teremos a mesma celebração? Quem vai me conduzir até o altar? Teremos um altar?


Edward riu. Sua risada sonora era uma música deliciosa aos meus ouvidos. Eu poderia passar horas vendo-o sorrir para mim. Mas naquele momento eu não entendi as razões de seu divertimento.


_Bea, essas não deveriam ser preocupações de Alice? Pensei que teria deixado tudo por conta dela…


_É que eu quero fazer tudo certo, Edward. Não quero parecer mais esquisita do que já sou.


_Você não é esquisita e fará tudo certo. Mas eu também já pensei nessa questão… sobre o altar. Precisamos de um altar, ou não será um casamento tradicional. Precisamos de algo assim… sei que Alice fará isso acontecer, ela é muito boa nisso.


Sorri para ele, tentando fazer dissipar aqueles pensamentos inconvenientes. Edward não respondeu uma das minhas perguntas, mas eu considerava que não tinha o direito de fazê-la.  Ele já estava se desgastando demais para me satisfazer com aquele casamento, porque ele sabia que era um desejo meu. Eu nem sabia, realmente, por que eu desejava casar-me. Mas eu desejava, sim. Intimamente, bem no âmago do meu ser, eu queria me tornar Beatrice Ann Cullen, e ter Edward como meu esposo. Era como se o fato de sermos imortais e jurarmos amor eterno não fosse suficiente para uma tola como eu; eu também queria uma união tradicional e humana, como se aquele ato significasse tanto quanto as declarações de amor que ele já me fizera.


*****  Edward’s POV  *****


Eu tinha uma idéia muito clara em mente, mas eu não sabia como realizá-la. Eu precisava, inicialmente, distrair Beatrice para que ela não desconfiasse de nada. Se ela suspeitasse de minhas intenções ela jamais me deixaria concretizar meu plano, então ela precisava ser distraída. Novamente, eu precisaria contar com minhas irmãs e seus métodos nada ortodoxos. Como Beatrice não estava indo à escola, não seria tão difícil assim sair da casa e mentir a ela para onde eu iria. Mas eu sinceramente não estava feliz com a idéia de mentir. Eu sabia que não havia outra opção, mas aquilo não me deixava satisfeito. Depois, eu precisava assumir que eu ainda exercia a mesma atração sobre Ferdinand, o irmão híbrido de Beatrice. Eu precisava crer que ele ainda me adorava, como antes. Pois só assim eu teria sucesso em minhas pretensões.


Para conseguir dar início ao meu plano, apelei imediatamente para minha mãe. Encontrei-me com Esme no salão, pouco antes do horário de partir para a escola. Beatrice estava dormindo ainda; ela já tinha se acostumado com meus horários. Charles também dormia, e Rosalie o observava como fazia toda noite. Esme sabia que eu estava para pedir algo diferente desde o primeiro momento em que a abordei. Mães são assim, elas não precisam ler mentes para saber o que acontece com você. E Esme era a pessoa mais maternal que eu já conhecera, em todos os meus mais de 100 anos. Ela era indescritível, como se fôssemos realmente seus filhos biológicos.


E então eu expliquei a ela meu plano. Que não era nada simples, devo confessar. Eu pretendia, sim, resolver o problema de quem levaria Beatrice ao altar. Ela queria casar-se, eu queria dar o casamento a ela, e tinha que sair tudo como ela queria. Exatamente como ela sonhava. E eu sabia o que ela queria; aquele dom de ler mentes era conveniente e insuportável, às vezes. Saber o que ela queria significava obrigar-me a aventurar-me em uma viagem louca. Que Esme refutou, imediatamente.


_Isso é uma completa falta de senso, Edward. – Minha mãe me repreendeu. – Você não pode considerar retornar àquele lugar horrível. O que Beatrice diz disso?


_Ela não sabe. Por isso preciso da ajuda de todos vocês.


_Pretende ir escondido? Ela ficará louca quando souber… é muita preocupação para nós, Edward.


_Eu sei. – Senti constrangimento. Não queria que ninguém se incomodasse ou se preocupasse comigo, eu sabia que não correria nenhum risco. Eles não me queriam, as decisões já haviam sido tomadas. – Mas Esme, eu quero muito dar a Beatrice esse casamento perfeito. Não sei se o pai dela pode vir até aqui, creio que seja uma temeridade trazer um vampiro bebedor de sangue humano para o meio de humanos. Mas o irmão, Ferdinand… ele é bem controlado. Posso tentar.


_Seu pai pode entrar com Beatrice e conduzi-la até o altar.  – Esme insistiu.


_Não seria a mesma coisa, apesar de que eu sei que ela se sentiria honrada.


_O que deseja que façamos, além de mentir para sua noiva?


_Apenas distraiam Beatrice. – Fui enfático. – Fiquem com ela o máximo de tempo possível, não a deixem pensar em mim. Vocês mulheres são muito sensitivas, e eu não quero que ela pense em mim. Não quero conexão nenhuma entre nós, para que ela não suspeite de nada.


_Despeça-se de seu filho, antes de ir. – Esme tinha o semblante rígido, e eu sabia que ela reprovava minha atitude e minha idéia. Mas Esme nunca ia contra nossa vontade, apesar de tudo.


Sorri para minha mãe, e fui até o quarto de Charles. Ele ainda dormia, e ele definitivamente parecia irreal. De todas as coisas surreais com as quais lidei; de todas as coisas absurdas que eu já vivi, Charles parecia a mais irreal delas. Eu não acreditaria, nem em mil anos, que aquela criança perfeita, loira, imaculada, era minha. Que ela tinha meus genes, que ela havia sido concebida por mim. Quando Beatrice ficou grávida eu estava apenas apavorado. Eu temi que ela engravidasse desde a primeira vez, mas depois o tempo passou e nada aconteceu. Parecia que ela fosse incapaz de conceber, então não havia risco algum. Mas depois daquela viagem maravilhosa à Europa ela retornou carregando uma incógnita em seu ventre, e aquilo me aterrorizou por vários dias. Eu não sabia o que esperar, eu não sabia o que ela poderia gerar. Seja o que fosse, tinha que ser um monstro. Afinal, o que um vampiro poderia conceber? Por mais que eu acreditasse que Beatrice fosse uma coisa diferente, que ela tivesse humanidade o suficiente dentro de si, eu era uma monstruosidade.


A aceitação dela me fez compreender que tudo ia dar certo. Ela disse, era meu filho. Ela chamou o pequeno ser de filho, ela quis gerá-lo e pari-lo. Para ela, estava tudo bem. Mesmo quando ele lhe chutava os órgãos internos e lhe quebrava vários ossos, para ela estava tudo bem. Beatrice enfrentou aquilo como toda mãe enfrenta uma gravidez: assustada, apavorada, e completamente apaixonada por seu filho. E então eu sabia que tudo ficaria bem, porque ela tinha essa certeza dentro de si. Mas eu ainda não sabia o que esperar. Meu filho foi um mistério até a mãe de Beatrice, Felicia, aparecer e confirmar que Beatrice havia sido gerada da mesma forma que ele. Se ela era a coisa mais perfeita que eu conhecera em toda a minha existência, o pequeno ser que ela gerava também seria.


Tomei Charles em meus braços com bastante cuidado para que ele não despertasse, e beijei sua testa. O bebê moveu-se em minhas mãos, mas continuou seu sono. Passei os dedos pelos cabelos muito loiros e admirei sua pele corada por vários instantes. Eu não podia medir o quanto eu o amava. Estava além da capacidade de qualquer unidade de medida. Era impossível mensurar o meu amor por Charles Henry. Bem como era impossível mensurar o que eu sentia por Beatrice.


_Onde você vai, Edward? – Rosalie sabia que eu não iria à escola. Mulheres, sempre tão conscientes de tudo!


_Esme explicará a você, Rose. Não me faça contar essa história novamente.


Quando eu liguei meu carro, Alice colocou-se ao meu lado. Eu consegui sair da casa sem chamar sua atenção, mas não consegui partir. Até porque eles não poderiam ir à escola comigo, teriam que usar o carro de Rosalie.


_Você precisa mesmo fazer isso? – Alice tinha os lábios franzidos.


_Você sabe que sim. Está… tudo bem? – Era uma pergunta legítima, mesmo eu já sabendo a resposta.


_Mesmo assim, é estúpido e você sabe. Sua noiva ficará arrasada.


_Não conte a ela, Alice. Por favor.


_Ela vai descobrir.


_Distrai-a e mantenha-a feliz até meu retorno. Leve-a para fazer alguma coisa, faça-a esquecer de mim por algumas horas, apenas.


_Ela vai querer saber onde você está, quando chegarmos da escola sem você. – Alice ainda estava sendo difícil.


_Você sabe ser criativa, irmãzinha.


E então eu parti em direção ao covil dos Caldwell. Eu me perguntei diversas vezes por que eu iria àquele lugar horrível apenas dois dias depois de sair dele. Eu me perguntei todas as vezes por que eu iria convidá-los para comparecer ao casamento. A resposta era sempre a mesma, mas eu continuava me perguntando assim mesmo. Eu queria uma resposta negativa, algo que me fizesse desistir e retornar para casa, para meu filho e minha noiva. Mas não, todas as respostas eram positivas e encorajadoras. E eu dirigi avidamente até o covil dos Caldwell, daquela vez sem desvios e sem dúvidas. Nada me impediria de encontrar o lugar que eu já sabia onde era.


Eu precisei de imensa coragem para caminhar lentamente para dentro do covil sem saber exatamente o que me esperava. Eu não sabia exatamente como fazer para me encontrar com Ferdinand; da vez passada eu espreitei os caçadores e acabei por me encontrar com ele. Mas o que fazer naquele momento? Eu não sabia nem o que acontecia na entrada do covil; se eu conseguiria entrar. Estacionei o carro em uma trilha que estava próxima ao covil e caminhei até lá. Não havia ninguém por perto, nem animais. Eu não conseguia ouvir nenhum pensamento, então imaginava que todos estivessem dentro do covil. Respirei fundo, aquele cacoete humano que nunca me deixaria, e caminhei para dentro da fenda que me levaria ao antigo lar de Beatrice. Antes mesmo que eu pudesse captar algo, olhos avermelhados me cercaram e se aproximaram perigosamente. Eu poderia atacar, reagir àquela aproximação. Mas eu não pressenti nenhum risco então deixei que os olhos se transformassem na figura de um híbrido, tão loiro quanto Ferdinand ou Charles. Ele não falou comigo, apenas intencionou me imobilizar para poder me levar para dentro. Ele sabia que eu não era humano, mas ele não tinha idéia de que eu fosse um vampiro, muito mais forte e ágil do que ele. Deixei-me capturar, pois assim eu conseguiria entrar no covil.


Para minha surpresa – e sorte absoluta, quem respondeu ao chamado do híbrido para lidar com o recém capturado foi ninguém mais do que Ferdinand Caldwell, meu aliado. Eu esperava que ainda fosse, então.


_Edward? – Ele se aproximou incrédulo, ao ver-me rendido pelo híbrido que fazia a guarda do covil. – Edward, é você?


_Saudações, Ferdinand. Parece que eu deveria ter-me anunciado, certo?


_Solte-o! – Ferdinand ordenou, e o guarda obedeceu. – Ele é um vampiro, seu tolo. Edward… o que faz aqui no covil? O que houve, é Beatrice? Diga, aconteceu algo?


_Acalme-se, Ferdinand. – Eu pude sentir a ansiedade no pobre híbrido. Aproximei-me dele tão logo fui solto pelo guarda, e fiz um gesto de conforto. – Nada aconteceu… eu vim aqui porque gostaria de lhe falar.


_Venha comigo.


Ferdinand guiou-me por alguns corredores escuros e de odor desagradável até um salão iluminado por uma clarabóia, circundado por estantes com livros empoeirados. O cheio de poeira podia ser sentido a distância, principalmente por quem estava acostumado com ar fresco.


_Belo lugar. – Tentei ser simpático.


_É o salão de convenções. Os anciãos quase não vêm aqui, portanto poderemos conversar sem interrupções. Diga-me, o que precisa falar-me?


_Ferdinand, você sabe que vou casar-me com Beatrice. E pretendo dar a ela um casamento perfeito, exatamente como ela deseja. Ela tem essa imagem de um casamento humano, com vestido, ornamentação, celebração. E ela terá tudo isso, eu garantirei. Mas falta algo para que tudo saia como Beatrice idealiza, e por isso eu precisei vir até aqui.


_Por que ela também não veio?


_Ela não sabe que estou aqui. – Confessei. Ferdinand me olhou como se meu comentário não lhe causasse nenhuma emoção diferenciada. No covil os homens não costumavam necessitar fazer coisas escondidas das mulheres, pois elas não tinham mesmo muita voz. E depois da reação de Beatrice à autonomia que Rudolph lhe concedera, eu duvidava que outras mulheres fossem ter regalias por lá. – Eu preferi fazer-lhe uma surpresa.


_Compreendo. Bem, você está nos fazendo um convite, então? Um convite… para o seu casamento?


_Sim, é isso. Eu gostaria muito que você e Felicia comparecessem. Na verdade, eu gostaria que os dois pais de Beatrice pudessem estar presentes. Eu era humano, meus pais morreram. Eu tenho pais adotivos maravilhosos, porém Beatrice tem os dela vivos. Ou o mais próximo disso… porém eu creio ser muito temeroso que Rudolph compareça ao casamento.


_Você teme que ele queira clamar Beatrice novamente? – Era uma dúvida legítima, considerando que eu dera poucos detalhes ao garoto.


_Não, o problema é que teremos humanos dentre os convidados.


A interjeição na face do híbrido foi suficiente para que eu percebesse que o problema não se limitava a Rudolph. Nem Ferdinand nem Felicia nunca haviam sido submetidos à provação da presença de um humano, e mesmo que eles nunca tivessem se alimentado de sangue humano, a reação deles ao aroma irresistível do sangue era imprevisível. Eu não teria nenhuma garantia que eles resistiriam ao sangue. Não foi somente porque Beatrice conseguiu bravamente resistir que eles também teriam a mesma reação. Ela queria resistir; Beatrice sonhou com o encontro com os humanos e ela sabia como deveria portar-se. Por mais irresistível e insuportável que fosse estar na presença deles, ela conseguiu balancear a sede com o controle emocional. Mas nenhum daqueles híbridos estava nas mesmas condições que ela. E eu acreditei, naquele instante, que minha empreitada seria inútil. Que minha ida ao covil fora para nada.


Mas eu precisava continuar tentando. Eu não era de desistir.


_Ferdinand, seria possível conversar com Felicia e Rudolph? – Foi a pergunta. Beatrice diria que era uma pergunta tola, e ela tinha toda razão.


_Tem certeza? – Ferdinand coçou o queixo, confuso.


_Sim, eu gostaria muito.


Obviamente falar com o líder dos Caldwell não era uma missão simples. Eu precisava testar como estava a minha popularidade com meu ‘cunhado’ híbrido, porque só se ele continuasse meu fã número um eu conseguiria uma audiência com Rudolph. Por sorte, Ferdinand ainda parecia tentado a agradar-me e conduziu-me por mais corredores, até outro salão. Daquela vez, as coisas não foram tão simples. Inicialmente, vacilei em adentrar o cômodo. Rudolph sentiu meu cheiro, e recebeu Ferdinand com agressividade. “Aquele vampiro maldito”, era meu nome. Eu não temia lutar com Rudolph nem me importaria em matá-lo naquele covil imundo. Ele era um vampiro experiente e um cientista, mas eu duvidava que ele pudesse lutar melhor do que eu. Eu era um estrategista e muito habilidoso. Jasper me havia ensinado táticas de batalha que só eram vistas nos campos, nas guerras. Rudolph não teria grandes chances contra mim, a não ser que ele conseguisse destacar seu exército de caçadores antes que eu fugisse. Contra dez vampiros, eu não seria número suficiente. Mesmo assim, ele não me assustava em nada.


Porém matá-lo significaria ter que lidar com Beatrice. Ela poderia me perdoar por matar seu pai? Por mais abominável que Rudolph estivesse sendo para ela, ele ainda era seu pai biológico e quem ela aprendeu a admirar e respeitar por toda a existência. Eram mais de 100 anos amando Rudolph, um simples erro que ele cometesse, por mais terrível que fosse, não faria desaparecer aquele sentimento. Eu sabia o que ela sentia por ele, ou eu não teria ido até ali para fazer o que ela queria. Ela nem sabia que queria. Então, era melhor que eu conseguisse me entender com aquele vampiro mal humorado, ou eu ficaria muito irritado por não conseguir o que eu queria.


Respirei fundo novamente e entrei no salão, encarando Rudolph com seriedade, porém subserviência. Eu não ousaria desafiá-lo em sua casa, não era necessário.


_Saudações, Rudolph.


_Edward Cullen. – Ele ainda lembrava meu verdadeiro nome, então. – És mesmo muito ousado em vir aqui novamente. O que quer? Tripudiar sobre minha desgraça? Já não é suficiente ter-me tirado Beatrice?


_Acalme-se, Rudolph… não é nada disso, não vim aqui tripudiar sobre nada. Eu sequer tenho motivo para fazê-lo… eu vim aqui por Beatrice.


_O que tem ela? – O semblante de Rudolph suavizou-se. Minha noiva tinha razão, ele a amava. Um tipo de amor suficientemente perturbado, mas era amor. – O que houve com Beatrice? Deixou que algo acontecesse a ela?


_Rudolph… – Ferdinand colocou a mão por sobre o ombro do pai, em um gesto de conforto. – Edward veio nos fazer um convite.


_Eu e Beatrice vamos nos casar. Um casamento como os casamentos humanos. Teremos uma celebração, um juiz de paz, documentos que não têm muita validade para nós, alianças, convidados e uma festa. Pode parecer ridículo, eu sei, mas é o que Beatrice quer. E eu gostaria de convidá-los para estar presente nesse momento… porém há um problema. Humanos estarão presentes, também. Amigos de Beatrice.


Eu disse tudo de uma vez, porque Rudolph não ficaria de guarda mais baixa por muito tempo. E eu não queria me demorar, porque se eu chegasse muito tarde em casa Beatrice perceberia minha ausência. O vampiro em encarou por diversos segundos, e eu tentei não demonstrar muito claramente que o estava lendo. Eu não sabia como ele reagiria àquela informação.


_Isso é realmente ridículo. – Ele soltou uma sonora gargalhada. – Beatrice vai casar-se! Felicia estragou a garota, está vendo, Ferdinand? Felicia e suas lendas e filmes humanos… veja bem! Beatrice vai casar-se!! E… ela é amiga de humanos?


_Sim. Ela freqüenta a escola… ela é muito popular entre eles.


_Aquela híbrida sempre conseguiu tudo que queria. – Rudolph parecia definitivamente mais calmo e menos agressivo. Na verdade, ele parecia estar… feliz com a notícia. – Porém é muito complicado isso que me pede, Edward Cullen. Não somos como vocês, acostumados aos humanos.


_Eu sei. Por isso vim aqui para uma conversa, não enviei um convite. – Tentei ser divertido, se fosse possível. – Gostaria de convidá-los, mas avisando que haverá humanos na festa. Muitos deles. Vocês seriam capazes de estar no meio deles sem atacá-los?


_Convivo com os humanos há séculos. – Rudolph surpreendeu-me, severamente. – Tenho diversos pactos com eles. Alimento-me deles, mas resisto a eles. Obviamente se houver derramamento de sangue…


_Sim, não pretendemos que isso ocorra. Na verdade, se houver sangue derramado até mesmo minha família está em risco.


_Ferdinand e Felicia nunca foram testados. – Rudolph considerou. – Mas… foi Beatrice quem te mandou aqui? Por que não veio ela mesma?


_Pretendia fazer-lhe uma surpresa. Ela sequer sabe que estou aqui…


Rudolph encarou Ferdinand, que tinha o semblante curioso e confuso. Depois deixou-nos no salão e desapareceu por outras portas, sem falar nada. Porém eu sabia o que ele pretendia. Aquilo era uma idéia completamente ridícula, porém vinda de um vampiro controlador como ele não seria surpresa. O que ele pretendia iria colocar-me em apuros, obviamente. Beatrice saberia que eu havia ido até o covil, e ela me repreenderia. Ah, mulheres. Para fazer o que ela queria, para surpreendê-la, eu precisaria enfrentar a provação de desagradá-la.


O vampiro retornou alguns instantes depois com Felicia, que definitivamente não havia entendido nada devido à ausência de explicações. Ela assombrou-se ao me ver, e previu que o pior fosse acontecer, se já não tivesse acontecido. Eu sorri, para tentar fazer desaparecer o pavor em seus olhos.


_Quando será o evento? – Rudolph perguntou-me, ainda com a mesma rispidez de sempre.


_Em quatro dias. – Respondi, sem saber se eles tinham inteira noção de tempo, como os humanos. – Será em um sábado, em nossa casa.


_Pois bem. Tem até lá para garantir que esses dois não ataquem nenhum humano. – Rudolph empurrou Felicia para o lado de Ferdinand, ainda sem lhes dar qualquer explicação. – Eu não quero que isso aconteça tanto quanto você… então, se quiser que eles compareçam ao casamento, terá que levá-los agora. E testá-los.


_Isso não me parece tão razoável… – Tentei argumentar.


_Não há argumentos. – E ele me repeliu. – Felicia, vá arrumar uma mala para você e Ferdinand. Vocês vão com Edward para o casamento de Beatrice.


A híbrida não fez qualquer pergunta, correu para fora do salão a fim de cumprir a ordem que lhe fora dada. Eu ainda resistia àquela situação. Não que eu não gostasse de visitas… os Cullen adoravam visitas, porque não recebíamos nenhuma. Mas aquelas visitas não estavam em meus planos naquele momento.


_E você, Rudolph? Você comparecerá ao nosso casamento? – Eu tive que perguntar porque a resposta não estava nada clara. Naquele mesmo instante, meu celular tocou e eu já sabia que era Alice. Ou a me repreender ou a me dizer que Beatrice já sabia de tudo. Seja o que fosse, eu não a atenderia naquele momento.


_Dependerá de alguns fatores, vampiro. Bem, agora vá. Ferdinand, vá buscar Felicia e vá com Edward. Vocês devem voltar no domingo, independentemente do que aconteça. Isso não é uma viagem de férias, é apenas uma liberação para agradar a Beatrice. Está entendido?


_Sim, Rudolph.


O vampiro deixou o salão, e daquela vez definitivamente. Tinha sido muito mais fácil do que eu imaginava, então. Parecia até fácil demais, e aquilo me deixou apreensivo. Eu tinha aquela sensação de que as coisas no covil eram ruins, e seriam ainda piores. Eu tinha aquela sensação de que eu era odiado, de que Beatrice estava renegada, e que nunca mais ela seria bem vinda naquele lugar. Eu tinha certeza que eu nunca fora bem vindo. Eu imaginava um ódio terrível em Rudolph, que fosse capaz de fazê-lo perder o controle e pular sobre mim a fim de eliminar-me. Eu tinha aquela sensação… e ela parecia tão errada depois que Rudolph me deixou sozinho com Ferdinand. Era como se tudo estivesse normal, e eu fosse o único que estivesse me preocupando com aquilo. O celular tocou novamente, e decidi atender enquanto seguia Ferdinand pelos corredores a fim de encontrar-nos com Felicia.


_Diga, Alice.


_Edward, onde você está?


_Não faça perguntas tolas, você sabe onde estou.


_Por que foi que eu vi os híbridos vindo para cá novamente?


_Porque eles estão mesmo indo. Alice, como está Bea? E Charles?


_Seja bem vindo ao meu inferno particular. Sua irmã Rosalie abriu a boca e contou a Bea que você havia escapado para o covil. Ela está rodando de um lado para o outro feito uma maluca desde que ficou sabendo, e não para de falar. Charles está nervoso porque ela está nervosa, e eu não sei lidar com isso, Edward!! Esme teve que sair com o bebê de casa… por favor, fale com sua noiva e diga a ela que está tudo bem!


E Alice entregou o telefone a Beatrice, enquanto eu pensava em mil maneiras de matar Rosalie sem deixar rastro. Aquela loira ainda iria me pagar.


_Bea, meu amor, como você está?


_Edward Anthony Masen Cullen, você está ficando completamente louco! Aliás, você quer me deixar louca? O que afinal você está fazendo nesse covil? Céus, venha para casa Edward… saia daí, por favor saia antes que Rudolph veja você e…


_Bea. – Eu a interrompi. Felicia já havia nos encontrado na saída, carregando duas malas, e Ferdinand pegou a bagagem e caminhamos para onde estava estacionado meu carro. – Bea, eu já estou indo para casa sim? Já saí do covil, estou na floresta. Está ouvindo os pássaros cantando? Está ouvindo? Acalme-se meu amor.


_O que foi fazer aí? Você está louco, quer morrer antes de casar-se? Se não queria casar-se era só dizer e…


_Bea, preciso desligar agora. Tenho que dirigir e quero chegar aí bem rapidamente, sim? Por favor, acalme-se e vá buscar Charles. Ele precisa de você.


Desliguei o aparelho rapidamente, e abri o carro. Colocamos as malas no bagageiro e liguei o rádio em uma música relaxante. O telefone começou a tocar e precisei desligá-lo, definitivamente.


_Ela é difícil, sempre foi. – Felicia determinou. – Mas… vamos entender o que está acontecendo?


_Sim, logicamente. Eu vim convidá-los para o casamento. E Rudolph achou prudente que vocês fossem antes para podermos conferir se vocês… conseguem conviver com a presença dos humanos.





(Cap. 27) Capítulo 25 - O casamento - parte 02

PARTE 02 – PREPARAÇÕES TOTALMENTE DESNECESSÁRIAS: UMA VISITA À ESCOLA.

*tema: Wang Lee Hom’s Heartbeat*

Aquele vampiro era mesmo irritante. Eu poderia ter acreditado na mentira dele, se Rosalie não fosse tão terrível e tivesse me contado toda a verdade. Seria apenas um dia com todos os outros, se Rosalie não tivesse irritado todos os Cullen com a revelação da informação que me deixaria fora de controle. Edward estava no covil.

Eu acordei tarde, porque ele não estava ao meu lado. Foi um indício de que as coisas estavam diferentes, porque Edward não saía para ir à escola sem despedir-se de mim. Esme também parecia que escondia alguma coisa, quando desci com Charles para alimentá-lo. Eu pude notar, na forma como ela me olhava, que ela estava relutante em me dizer algo, que provavelmente eu não poderia saber. Mas o que poderia estar errado, se eu estava bem, Charles estava bem e bastante sonolento, o que era uma anomalia, e Edward estava na escola, como o aluno aplicado que ele era? Tudo estava tão perfeitamente encaixado e adequado que eu tive certeza que estava inventando coisas para ver problemas onde eles não existiam.

Mas os Cullen chegaram da escola, no carro vermelho de Rosalie. E Edward não. Onde estaria aquele vampiro e seu carro prateado? Eu sentia uma falta terrível dele, como se estar separada de Edward significasse manter aberta uma ferida pulsante, em carne viva. Esme tentava de tudo para me agradar, mas eu estava sempre em agonia. Charles Henry era um bebê muito quieto, muito tranqüilo. Ele não me dava nenhum trabalho, só exigindo de mim que o alimentasse regularmente. Não era distração o suficiente; eu precisava retornar logo à escola, viver uma vida normal. Se eu pudesse considerar que estava vivendo alguma coisa, claro. Alice me abordou imediatamente e começou a falar sobre o casamento, sobre cores e flores e arranjos e outras coisas que eu ignorava o que fossem. Ela falava tão rapidamente que Charles chegou a assustar-se em meu colo. Meu filho era muito perceptivo de tudo ao seu redor, e o comportamento de Alice era, também, suspeito.

Depois de algumas horas em que ela conseguiu me entreter sem, no entanto, me dizer o que havia acontecido com Edward, eu acabei por perguntar. Eu queria saber onde meu vampiro havia se perdido, porque ele nunca se atrasava sem me avisar. Foi quando Rosalie decidiu relatar os fatos, e eu percebi que ela não estava interessada em manter os segredos do irmão.

_Edward foi até seu covil. – Ela disse, sendo instantaneamente repreendida por Emmett, que chegava ao salão. Ah, os rapazes… como eram unidos, os rapazes! Como eles se defendiam, como faziam tudo para que as coisas dessem certo entre eles. Eu percebi que Emmett pretendia defender Edward, naquele instante, quando ele chegou como um dragão enfurecido e encarou Rosalie com olhos de fogo.

_Rose!  – Foi o protesto. Meus olhos arregalados encararam os vampiros ao meu redor. A palavra covil sendo utilizada na mesma frase com o nome de Edward me causou pânico imediato. – Você não pode contar isso para Bea… Edward vai ficar desapontado!

_Como assim ele está no covil? – A pergunta saiu instantaneamente de mim. – O que ele foi fazer ao covil?

_Isso ele não me disse. – Rosalie desdenhou de todos. – Mas fique tranquila, Bea… se alguma coisa tivesse acontecido, Alice saberia.

Não, eu não ficaria tranquila. Nada me faria ficar tranquila a partir daquele instante. Meu organismo sofreu uma espécie de knock out, e eu me senti bombardeada imediatamente na cabeça. Esme pegou Charles de meus braços quando eu comecei a andar de um lado para o outro, sentindo uma explosão de adrenalina totalmente inusitada. Eu nunca me imaginei sentindo nada daquilo, era verdade. Eu mal me imaginava sentindo alguma coisa, quanto mais aquela ansiedade terrível. Alice e Jasper, que também chegou para tentar contornar a situação, tentaram me acalmar. Jasper tinha aquele poder irritante de fazer tudo ficar bem, mas eu ainda respirava rapidamente e sentia meu coração bater. Eu achava insuportável quando meu coração batia rapidamente demais, era assustador. Como se eu fosse irromper em vida, o que Carlisle já havia dito ser impossível mas eu ainda não acreditava plenamente. Deveria mesmo ser curioso, um ser com medo de viver.

Alice notou minha condição deplorável e ligou para Edward. As expectativas de meu vampiro estavam todas frustradas mesmo, e eu precisava saber se ele estava bem. Se ele estava inteiro, se nada tinha acontecido com ele, se ele se mantinha imaculado e perfeito como sempre. Quando ele atendeu Alice eu quase tive uma síncope totalmente humana e colapsei sobre minhas próprias pernas. Inacreditável que aquele comportamento fosse meu. De qualquer forma ele estava bem, e aquilo foi suficiente para fazer desaparecer qualquer vontade de fazê-lo em pedaços. Ele estava incólume e voltando para mim, era tudo que importava.

Eu ainda rodava de um lado a outro quando ouvi o Volvo prata parar no pátio. O ruído quase inaudível do motor suave do veículo conjugado com o barulho dos freios me deu a maior sensação de alívio que eu já pudera sentir. Como eu já estava reagindo da forma mais ridícula possível, meus pés se atropelaram e eu corri para a sacada a fim de receber Edward. Eu não prestei atenção em nada, eu não vi Esme retornando com Charles, eu não vi Jasper tentando em vão me segurar, eu não me importei se tropeçaria em mim mesma; eu só corri para Edward e joguei-me sobre ele tão logo a sua imagem, ainda borrada, se formou em meu campo de visão. Nossos corpos trombaram com alguma violência, e eu tinha certeza que aquilo me renderia alguns hematomas. Mas eu não me importei, nada era relevante naquele instante. Só o fato de que Edward estava de volta. Tive a sensação de que ele deixou cair alguma coisa para me segurar, tão logo eu me agarrei em seu pescoço e afundei-me em sua pele.

_Bea, meu amor… – Ele sussurrou em meus ouvidos, eu de olhos fechados, não querendo olhar para nada, só ficar presa a ele. – Bea… acalme-se, o que houve?

_Edward, nunca mais faça isso! – Eu disse, som abafado por meus lábios grudados em sua camisa. Ele cheirava como se um jardim inteiro estivesse em sua pele. Nada podia afetar o aroma incrível que Edward exalava no ambiente. – Nunca mais faça isso!! Eu tive tanto medo que algo lhe acontecesse, o que você foi fazer naquele covil?? Não diga, só prometa que nunca mais fará isso…

Edward deixou meu corpo apoiar novamente no chão, e delicadamente usou suas mãos firmes para afastar-me de seu corpo. Seus dedos percorreram a linha de minha face, e o polegar direito limpou uma lágrima de meus olhos. Chorar… eu havia chorado duas vezes em tão pouco tempo. Sensações muito estranhas, era fato. Seus olhos incrivelmente translúcidos penetraram nos meus e seu sorriso foi suficiente para fazer meu mundo parar imediatamente.

_Eu vou fazer Rosalie pagar por isso. – Ele disse, entre os dentes. – Está tudo bem, Bea.. estou de volta. Vamos entrar, venha.

Eu ainda não estava vendo nada. Eu ainda não estava ciente do que estava ao meu redor. Os Cullen estavam todos entre a sacada e o salão, apenas Carlisle ainda não havia retornado do hospital. Eu não percebi que eles tinham a expressão de curiosidade, e que conversavam sobre algo com alguém. Eu estava surda pela voz de Edward e cega por sua imagem. Meu coração estava praticamente parado, como se ele nunca tivesse batido antes.

_Esme… vamos precisar organizar o quarto de hóspedes. – Então eu pude ouvir meu vampiro falar, e olhei para ele confusa. Por que precisaríamos do quarto de hospedes?

_Sim… podemos colocar Charles para dormir com vocês e oferecer o quarto dele a Felicia, então.

_Aha, quero ver o que vão fazer com o bebê no meio! – Emmett deu uma risada. Meus ouvidos me traíram ao ouvir o nome de Felicia, e eu imediatamente passei a me conscientizar dos arredores. Olhei em volta e vi Edward segurando uma mala, o que ele provavelmente havia derrubado antes, enquanto atrás de si vinha Ferdinand, meu irmão híbrido, carregando outra mala. Felicia vinha logo atrás de Ferdinand, não tão tímida quanto antes. Esme segurava Charles, que movia os bracinhos em minha direção. Jasper chegava da cozinha com uma mamadeira para ele, uma vez que Rosalie parecia desaparecida. Alice recebia os recém chegados, e Emmett fazia piadas com nossa vida sexual, como de costume.

Os híbridos estavam ali, na casa dos Cullen. Minha mãe híbrida e meu irmão, ex prometido, que desistiu daquela sandice e me permitiu ir embora com Edward. Meus olhos procuraram Edward, e ele tinha um sorriso delicioso nos lábios, demonstrando que ele já tinha compreendido minha confusão e que pretendia explicar-me tudo que acontecia. Até porque os demais Cullen também não pareciam muito conscientes do que os híbridos faziam ali.

_Vamos nos sentar? – Ele disse, convidando todos ao salão. Abraçou-me pela cintura e arrastou-me com ele. Era tão bom tê-lo comigo. No caminho, tomei Charles em meus braços e pude notar que ele me sorria. Sim, ele sorria. Tudo nele demonstrava felicidade, como se ele tivesse entendido toda a minha angústia e soubesse que estava tudo bem, então.

_Então, teremos visitantes para o casamento? – Esme perguntou, e eu tive certeza novamente que ela era mais sábia do que eu. Todos eram mais sábios do que eu, era um fato intrigante. Eu era tão pouco objetiva que nunca conseguia enxergar nada claramente.

_Sim, teremos. – Edward começou a falar. – Eu estive no covil, como sabem… eu fui convidar seus pais para o casamento, Bea. Queria fazer-lhe uma surpresa, mas Rose parece que atrapalhou um pouco meus planos. – O olhar de Edward para Rosalie foi tão cruel que senti-me mal por ela. Ele rosnou, mas não moveu um músculo. Por mais irritado que ele estivesse, ele jamais faria nada contra ela, eu sabia. – De qualquer forma, após conversar com Rudolph, ele considerou…

_Rudolph? – Arregalei os olhos e deixei a palavra escapar em sonoro volume. – Você… falou com ele?

_Sim, meu amor. – Edward beijou-me os lábios com bastante suavidade. Maldito vampiro, ele não podia ser tão cruel! – Afinal, eu precisava da permissão dele… você entende das regras do covil muito melhor do que eu! Como eu poderia trazer Felicia sem falar com ele? E… bem, eu queria que ele viesse também.

_Rudolph? – Foi a fez de Emmett repetir o nome de meu pai vampiro. Obviamente Emmett, que não lia mentes, também não tinha entendido as intenções de Edward. Ninguém entenderia, porque elas não faziam o menor sentido prático. Por que ele teria retornado àquele lugar horrível, e por que ele pretendia ter uma conferência com um vampiro cruel. Pior ainda, por que ele pretendia trazê-lo de volta a nossas vidas.

_Sim. Eu sei que vocês devem estar todos confusos, mas eles são a família de Bea. Por mais conflitos que tenham acontecido, vocês deveriam dar-me um pouco mais de crédito. Afinal, eu estou dentro da cabeça de todos vocês… eu sei, eu tenho absoluta ciência do que pensa Rudolph. E Bea. E eu sei o quanto ela ama, mesmo que ela não saiba disso, a família do covil. Eu também sei que eles a amam. Ferdinand com sua desistência, Rudolph com a resignação, Felicia com a doação absoluta… eu não podia deixar que as coisas ficassem mal. Fui até o covil para buscá-los para o casamento sim, e pretendia que Rudolph conduzisse Beatrice ao altar. Mas como ele não veio, espero que Ferdinand nos faça essa gentileza.

_Mesmo eu sendo bastante ignorante nesse assunto, será uma honra. – Ferdinand respondeu quase que instantaneamente, imitando um comportamento que era todo meu. Falar apressadamente para impedir que Edward lesse nosso comentário.

_Mas… – eu ainda estava no humor de fazer perguntas – eles vieram… dias antes.

_Sim, foi idéia de Rudolph. – Edward demonstrou algum descontentamento com a situação. – Felicia e Ferdinand nunca estiveram na presença de humanos. Ele os enviou para que nós os… testássemos.

_Ah! Maneiro. – Emmett bradou.

_Louco demais. – Jasper considerou, sabendo claramente dos riscos que aquilo representava.

_Completamente insano! – Alice deixou cair o queixo.

_Tão ridículo quanto esperado. – Rosalie debochou.

_Já imagina como fará isso sem expor todos ao perigo, Edward? – Esme perguntou, tentando não reprovar publicamente o que o filho estava fazendo.

_Não. – Edward respirou fundo. Ele sempre fazia aquilo quando estava com problemas; era um cacoete totalmente humano. – Mas eu sei que vou levar nossas visitas para caçar. Eles vão estar mais aptos a enfrentar a tentação se tiverem sangue fresco como refeição.

Edward sorriu, tentando mostrar que ele tinha o controle da situação. Ele não tinha, e não precisava de super poderes para saber isso. Mas eu precisava estar do lado dele, afinal tudo que ele estava fazendo era por mim. Ele havia inventado aquela história toda porque ele sabia que eu tinha dúvidas quanto à história do altar. Edward então decidiu levar minha mãe e meu irmão para caçar tão logo eles foram devidamente acomodados. Ferdinand ficaria no quarto de hóspedes, enquanto Felicia dormiria no quarto de Charles. Ela disse que não era preciso que ele dormisse conosco, mas eu quis que assim fosse. Eu gostava de ter meu filho por perto, sempre, o máximo de tempo que eu pudesse tê-lo. Jasper e Emmett acabaram por decidir acompanhar Edward; os dois nunca dispensavam uma boa caçada. E meu vampiro efetivamente precisava de uma ajuda, pois os híbridos não estavam acostumados a caçar. Eu sabia, e imaginava que Felicia teria ainda mais dificuldade do que eu tive, para alimentar-se. Ferdinand ao menos era um homem, ele fora criado com os caçadores e sabia mais sobre caçadas.

Eu sinceramente não imaginava como Edward pretendia apresentar minha família aos humanos. Qualquer atitude era arriscada demais, mas ao mesmo tempo eu tinha aquela compreensão de que os meus híbridos não seriam cruéis com os humanos. Assim como eu não fui. O auto controle era uma característica interessante nossa, e por isso eu tinha certeza, dentro de mim, que Felicia e Ferdinand não se importariam tanto com os humanos. Eles sentiriam, sim, o mesmo que eu. A dor e a queimação na garganta como se a necessidade daquele sangue fosse imprescindível para nossa existência. E nós sabíamos que não era.

Quando retornaram da caçada, eu estava recolhida em meu quarto a admirar Charles Henry. Eu não tinha sede, estava bem alimentada, e depois do terror a que me submeti durante a tarde eu precisava passar algum tempo com meu filho, com minha família, para acalmar-me. Eu havia terminado de alimentá-lo, e ele me olhava com olhos brilhantes, vívidos, completamente transparentes. Ele tinha olhos transparentes, era fato. Edward entrou no quarto bem devagar, silencioso, imaginando que Charles dormia. Ele tinha um aroma ainda mais delicioso do que de costume; ele cheirava a sangue fresco. Seu cabelo impecavelmente desordenado, sua roupa inegavelmente limpa, e o aroma intoxicante do sangue fresco.

_Sua família se saiu muito bem. – Ele me deu informações sobre a caçada, enquanto sentava-se ao meu lado. Edward e seus movimentos perfeitamente calculados e medidos. – Ferdinand será um excelente caçador.

_Você está fora de seu juízo, já disseram isso? – Eu franzi os lábios, olhando em seus olhos límpidos. Tão claros quanto os de Charles, mas densos. – Toda essa empreitada é louca.

_Ninguém disse, mas todos pensam. Dá no mesmo para mim. – Ele me acariciou a face, gentilmente.  – Eu devo tomar um banho, certo? – A pergunta me surpreendeu um pouco, mas eu imaginei que o cheiro dele tivesse despertado algo dentro de mim. E muito provavelmente, dentro de Charles também. Apesar de ele ter acabado de alimentar-se, o aroma estava muito forte. – Emmett fez muita bagunça hoje.

_Deu para perceber. – Eu ri. – Edward… eu estava pensando… depois disso tudo… – Interrompi-me quando notei que ele já sabia tudo que eu falaria.

_Diga, Bea.

_O que vai ser? Vamos continuar em Forks… Charles crescendo tão rapidamente… os humanos…

_Vamos ter que ir embora de Forks, Bea. Pelo menos pelos próximos vários anos. Mas isso é natural, a maioria dos nossos colegas de escola vai para a Universidade. Nós vamos também.

_E para onde vamos?

_Podemos pensar nisso mais tarde. – Edward tomou meus lábios e beijou-me bem devagar. – Vou banhar-me, ou nosso filho vai ficar inquieto a noite toda.

Edward me deixou mas retornou rapidamente. Eu nem estava interessada em adormecer, porque estava ansiosa demais para entender o que ele pretendia no dia seguinte. Mas meu corpo sucumbiu ao cansaço, e eu tive que acompanhar Charles. Pela primeira vez, Edward teve que sustentar dois híbridos adormecidos. Eu, completamente apagada por sobre seu peito, e o pequeno Charles, que ele segurava firmemente com o braço esquerdo. O peso insignificante de nosso filho não era suficiente para fazer com que Edward se incomodasse em segurá-lo a noite toda.

Meu sono foi daqueles inquietos que eu tanto abominava, e que não me deixavam sucumbir ao completo estado de inconsciência. Eu tive que perceber os movimentos durante toda a noite; saber que as coisas aconteciam sem no entanto poder participar delas. Quando a manhã chegou e eu finalmente pude despertar, percebi que Edward não estava mais ali. Temi ter perdido algo importante, e que ele já tivesse ido para a escola sem despedir-se. Mas Charles Henry também não estava na cama, e eu decidi buscá-lo. Vesti o roupão, sempre presente de Alice, e desci as escadas sem prestar muita atenção ao meu redor. Notei apenas que o dia estava claro mas sem sol algum, o que representava dia de aula para os Cullen. Para minha surpresa, porque eu esperava que nenhum dos Cullen estivesse mais em casa, Jasper encontrou-me quando eu chegava ao salão. Sorrindo, ele me deu bom dia e subiu correndo as escadas, em velocidade incompatível com a que eu estava acostumada a vê-lo transitar pela casa.

Fui até onde meu instinto me conduziu para achar Edward, ainda vestido em seu moletom preto, sem camisa, com Charles na sacada. Um vento muito frio soprava, e Edward parecia mais uma figura pintada no meio da paisagem do que uma pessoa. Aproximei-me, e notei que ele conversava com Charles. Eu não queria fazê-lo perceber a minha chegada, mas aquilo era impossível. O status de curiosidade prejudicava seriamente o status de coerência. Eu não me considerava apta a disfarçar meus pensamentos quando toda a minha concentração estava voltada para o que Edward fazia. Mesmo assim, ele pareceu não se importar inicialmente comigo, prosseguindo com seu discurso para o bebê.

_Faremos exatamente assim, você compreende? Quando você for apresentado àquelas pessoas, elas podem querer tocar você, e você pode sentir vontade de fazer algo que não seja adequado. Na verdade, Charles, nada é adequado. Os humanos não podem ser tocados por nós, a não ser em algumas situações. Você precisa resistir a eles, sim?

Aquela conversa era mais uma das conversas sem sentido de Edward, principalmente se eu a havia pego pela metade. Antes que ele se voltasse para mim, Rosalie aproximou-se por trás e me tirou do transe normal.

_Beatrice,  já vamos nos atrasar. – Ela disse, surpreendendo-me. Olhei para Rosalie, que também não estava vestida para a escola, sem entender por que os Cullen não estavam estudando em um dia sem sol. – Se vai ficar babando em Edward por muito tempo, vamos deixar você para trás.

_Eu…

_Ela não sabe, Rose. – Edward disse, rosnando. Ele ainda não havia perdoado Rosalie completamente, apesar de eu sentir que ele não se irritaria com ela por muito tempo. – Eu não disse a ela.

_Disse o que? – Eu ainda estava completamente perdida. – Por que vocês estão todos aqui, ainda?

_Porque hoje só vamos chegar à escola no horário de almoço. – Edward entrou em casa, e me interceptou com um beijo na testa. – Vamos todos… inclusive você, Charles Henry e sua família.

_Ahm ? – Pavor preencheu meus olhos.

_Calma, Bea… está tudo sob controle. – Emmett disse, também se aproximando. – Pelo menos achamos que está… ah, vai dar tudo certo, não se incomode com isso.

Edward passou por mim, convidando-me implicitamente para subir e vestir-me. Eu ainda não tinha entendido direito, mas parecia que iríamos para a escola. Então, a exposição dos híbridos aos humanos se daria na escola? Nada menos coerente. Como Edward e os Cullen podiam cogitar a idéia de que aquilo fosse seguro? E se Felicia e Ferdinand não dispusessem do meu autocontrole? E se eles simplesmente não resistissem? O que estávamos arriscando, afinal? Era estúpido, e eu cheguei a celebrar que a idéia não tivesse vindo de mim. Não disse uma palavra, mas não me preocupei em esconder os pensamentos. Deixei que Edward soubesse tudo que se passava comigo, e seu semblante emburrado me deu indícios que eu aquilo o incomodava. Mas como eu podia pensar em não incomodá-lo quando tudo aquilo parecia além do limite da loucura?

Vesti-me com alguma coisa pré selecionada por Alice, porque não estava interessada em ocupar-me com vaidades, e escolhi uma roupa para vestirmos em Charles. Ele precisaria parecer mais humano do que nunca, e muito mais novo do que ele era. Charles não parecia um bebê de uma semana, mas de várias. E se ele teria que ser apresentado como um bebê prematuro – e eu sabia exatamente o que aquilo significava! – ele não podia aparentar tanta idade. E eu teria que agasalhá-lo o máximo possível, pois bebês sentiam muito mais frio. Toda aquela informação ao mesmo tempo, eu tendo que processar tudo enquanto estava completamente enlouquecida com a idéia.

No salão dos Cullen, encontrei-me novamente com Felicia e Ferdinand, que estavam tão diferentes que custei e reconhecê-los. Ferdinand estava vestindo algo de Jasper, porque provavelmente eles tinham tamanhos similares, enquanto Felicia vestia roupas emprestadas de Esme. Obviamente eles não poderiam ir à escola com aquelas vestes do covil. Além de tudo do covil cheirar ao século retrasado, as roupas eram como se pertencessem à Idade Média. Edward nunca se vestia como um jovem humano, eu já tinha percebido, mas ele usava ao menos vestimentas do século XXI. Foi interessante ver Ferdinand completamente penteado, parecendo um dos Cullen. Ele estava muito menos híbrido e muito mais vampiro. Talvez ele fosse mais depurado do que eu, então. Talvez ele fosse a genética perfeita que Rudolph buscava, e por isso o meu prometido.

Eu ainda não sabia exatamente o que faríamos na escola, e Edward pareceu interessado em manter-me na ignorância. Entramos no Volvo prateado eu, Felicia e Ferdinand, com Edward ao volante. Os demais Cullen iriam no carro de Emmett, o discreto Jeep de proporções monstruosas. Edward ligou o carro e me apontou o porta luvas, querendo dizer que algo estava ali e eu deveria checar. Mesmo segurando Charles, abri o porta luvas e encontrei vários envelopes de cor roxa, um tom bastante forte, combinado com um suave prateado nas bordas.

_O que é isso? – Perguntei antes de verificar, uma característica de quem não tem o intelecto suficientemente desenvolvido.

_Os nossos convites. – Edward disse, o sorriso brotando em seus lábios. – Ficaram prontos ontem, Alice os trouxe para casa. Ela consegue tudo quando quer, até convites em vinte e quatro horas. Imagino que ela tenha subscritado todos corretamente, ela seguiu a sua lista.

Tomei os envelopes nas mãos e olhei um por um. Cada envelope roxo estava endereçado a cada um de meus amigos humanos; seus nomes impressos em tons prateados e com uma caligrafia impressionante. Abri um dos envelopes e me deparei com um papel em um tom de roxo mais claro, mas ainda muito forte, também escrito em tons prateados, e as informações de nosso casamento.

Carlisle Cullen e Esme Anne Platt Evenson Cullen   -   Rudolph Caldwell e Felicia Marie Caldwell

Convidam para o casamento de seus filhos

Edward Anthony Masen Cullen                        e                          Beatrice Ann Caldwell

 

 

Olhei para Edward completamente chocada, e ele tinha aquele sorriso insuportável nos lábios. Era muita coisa, realmente, para eu assimilar em pouco tempo. Meu organismo não reagia bem a tudo aquilo, eu senti uma dificuldade em respirar e uma sensação muito estranha. Eu considerei que estava feliz demais, aquela era a questão.

A Forks High School não parecia sombria como eu imaginava. Eu a imaginava entristecida e fria, porque por alguma razão ridícula eu suspeitava que todos soubessem que uma horda de vampiros chegava para colocar a sua sobrevivência em risco. Estacionamos os dois carros e eu ainda estava apreensiva. Os convites em uma mão, meu bebê em outra, sem saber direito que tipo de desculpa eu poderia apresentar. Na verdade eu sabia, pois eu estava expert em mentir. Estar entre os humanos me fizera expert, haja vista eu não poder contar a verdade para eles nunca. Eles jamais poderiam suspeitar da minha real natureza orgânica, então eu mentia deliberadamente para poder viver sob a luz do sol e não confinada em um covil fétido.

_O que vamos fazer, agora? – Perguntei, ansiosa.

_Os Cullen vão cuidar de suas vidas. – Edward fez um gesto para os irmãos. – Eles vão ficar apenas observando, caso sejam necessários. Eu e você vamos conversar com seus colegas… pelo que percebo, estão todos reunidos em uma mesa, o que simplifica a nossa vida. Haja naturalmente, Bea… deixe que eu introduzo a conversa, entre no jogo comigo.

Sim, entrar no jogo. Edward sempre me dizia para não me preocupar, que ele sempre faria tudo dar certo. Eu acreditava nele, eu sempre acreditei nele sem contestar. Mas eu não podia evitar preocupar-me, porque era uma sensação mais forte que a minha. De qualquer forma, minha apreensão não estava relacionada aos humanos, mas à reação de minha família a eles. Caminhamos para o refeitório, Edward dando instruções para Felicia e Ferdinand. Ele explicou que o aroma dos humanos era fantástico, porém resistível, e que sem haver sangue derramado era perfeitamente possível suportar a presença deles. A dor era angustiante, porque sentíamos dor na garganta, uma vontade louca de beber algo que não nos estava disponível. Eu senti aquilo desde o início, mas eu sempre resisti bravamente porque eu queria. Era um desejo meu, que eu tive desde sempre, no covil. Edward explicou a eles que se houvesse força de vontade da parte deles eles conseguiriam resistir.

Da entrada do refeitório Ferdinand parou instantaneamente. Ele fechou seus olhos e prendeu a respiração, enquanto Edward subitamente levou suas duas mãos até os ombros de meu irmão híbrido. Era uma medida de segurança, pensei. Edward podia antecipar o que eles pensavam e sentiam, e aquilo era uma vantagem. Emmett, que já estava no refeitório, e que estava prestando atenção em nós, moveu-se na cadeira esperando que fôssemos precisar dele.

_Está tudo bem, Ferdinand. – Edward disse, voz baixa. – A sensação é essa, não precisa reprimir-se. Basta controlar-se.

Ferdinand reabriu os olhos e nos encarou, positivamente. Meneou a cabeça como que nos dizendo “sim”, e retomou a sua respiração. Felicia parecia bem, estranhamente bem. Edward não se sentiu tentado sequer a aproximar-se dela.

_Eles são muito iguais a nós. – Ela disse, finalmente. – A uma primeira vista, eu diria que somos idênticos.

_Vocês são parte humanos. Obviamente, parecem-se muito mais. – Edward sorriu. – Beatrice, está tudo sob controle. Vamos?

Sim, vamos. Edward caminhou por entre as mesas, os presentes nos olhando como se fôssemos fantasmas, até chegar à mesa de meus amigos. Claro que parecíamos fantasmas, mas não por nossa cor esbranquiçada. Éramos fantasmas porque ele era um Cullen, e eu estava sumida há meses. Mais chocante ainda, eu trazia em meus braços um embrulho, um pacote enrolado em um pano flanelado, o que causava ainda mais expectativa.

_Bom dia? – Edward disse, e Layla foi a primeira a olhá-lo. Eu tomei o cuidado de esconder-me atrás dele, nem sei se fui notada.

_Edward Cullen. – Sylvia disse, em tom debochado. – Falando conosco?

_Traz alguma notícia de Beatrice? – Geoffrey perguntou.

_Vamos precisar dar parte à polícia? – Layla finalmente falou algo.

_Vocês falam demais. – Edward riu. – Sim, trago notícias de Bea… eu disse que ela estava faltando o semestre porque estava doente, mas eu menti.

_Mentiu? – Sylvia arregalou os olhos. – O que houve com ela, Edward? Ela foi embora, algo assim?

_Aposto que ele aprontou, ela se irritou e voltou para casa. Isso sempre tem o dedo dos homens…

_Bea não voltou para casa. – Edward riu novamente, concordando com a gargalhada sonora emitida por Geoffrey. – Eu menti para protegê-la, porque ela estava muito constrangida com a situação. Vocês sabem que éramos namorados… e eu não fiquei sabendo imediatamente, assim como vocês, até porque ninguém notou… mas Beatrice ficou grávida.

_COMO? – Sylvia levantou-se repentinamente e deixou a cadeira cair no chão. Layla deixou cair o alimento que tinha nas mãos. Todos no refeitório inteiro se calaram, como se o que Edward disse pudesse ter sido ouvido com facilidade. Eu realmente estava envergonhada, não seria difícil fingir constrangimento.

_Preciso explicar como se fica grávida? – Geoffrey riu mais uma vez.

_Mas… como assim? Nós não… ninguém notou… onde ela está? Ela está bem? – Layla estava curiosa.

_Beatrice escondeu a gravidez porque ela ficou muito constrangida. Não éramos casados, e ela talvez considerasse que o que fazíamos era errado. Ela é de uma cidade do interior… teve uma criação muito rígida. Eu soube da gravidez quando ela já estava em estágio bem avançado, e não podia mais esconder o fato. Mas ela teve diversas complicações… e ficou em repouso absoluto. Isso não impediu que o bebê nascesse, prematuro.

Se era a minha deixa ou não, eu não sabia. Mas tão logo Edward mencionou o nascimento do bebê eu olhei para trás e vi Felicia e Ferdinand aguardando, resistindo tranquilamente à presença dos humanos saborosos, e decidi sair detrás de Edward. Movi-me lentamente e me fiz ver por completo. Meus amigos me encararam e se levantaram, todos ao mesmo tempo, intencionando uma aproximação.

_Oh!!! – Sylvia soltou a interjeição. – Bea!!!! Você está bem… e…

_Olá para vocês também. – Decidi demonstrar emoções humanas. Sinceramente eu também sentia falta dos meus amigos humanos, era um fato verdadeiro. – Senti saudades.

_Bea! – Layla correu para abraçar-me, e eu instintivamente entreguei Charles para Edward. Ele olhou para o filho com aquela expressão fantástica de adoração, e sorriu. Eu não queria colocar Charles em contato inesperado com Layla, era uma tortura muito cruel para o pequeno híbrido. Geoffrey também caminhou para meu lado, e logo eu estava cercada pelos humanos. – Céus, você está ótima… nem parece que esteve doente!

_Eu estava bem, só precisava repousar para garantir a segurança do bebê. – Tentei aproveitar a mentira de Edward e improvisar sobre o tema. – Como estão vocês, bem?

_Vamos poder conhecê-lo? – Sylvia apontou para o bebê nos braços de Edward, ansiosa de curiosidade. Até mesmo eu podia sentir sua ansiedade, os humanos costumavam ser bastante óbvios.

_Claro que sim. – Edward sorriu, e entregou-me o bebê. Respirei fundo, apesar de estar cercada de humanos, e descobri a face de Charles Henry para exibi-lo aos humanos. Ele tinha os olhos arregalados, e parecia bastante surpreso com tudo que acontecia. Os humanos imediatamente o circundaram também, e provavelmente a reação deles a Charles foi tão chocante quanto a de qualquer outro ser.

_O nome dele é Charles Henry Cullen. – Eu disse, apresentando-o a todos os humanos.

_Ele é adorável!! – Sylvia disse, em êxtase.

_Lindo demais… como vocês dois conseguiram uma criança completamente loira!

_Ele nem parece prematuro! Lindo, Bea… parabéns, vocês devem estar muito felizes.

_Sim, estamos. – Edward passou seu braço ao redor de minha cintura, puxando-me para perto. – E é por isso que viemos aqui hoje… Bea tem algo para vocês.

Meu filho mudou de colo outra vez, e eu peguei os convites que estava guardando. Entreguei um a cada um dos meus amigos presentes, que receberam surpresos o envelope mas já imaginavam do que se tratava.

_Isso é nesse final de semana!!!! – Layla jogou-se na cadeira.

_Que pressa é essa? – Geoffrey arregalou os olhos.

_Quero oficializar nossa família o mais rapidamente que puder. – Edward disse, beijando-me os cabelos. – E também, a mãe e o irmão de Beatrice vieram de longe para o casamento… precisamos ser breves.

Meu vampiro apontou para os dois híbridos que estava na porta, e os chamou com um gesto. Felicia e Ferdinand caminharam em direção ao público, ainda bastante hesitantes. Senti aquela apreensão de novo, mas meus amigos pareciam estar apenas divertindo-se com a situação. Vendo Ferdinand talvez eles descobrissem por que eu e Edward tivemos um filho loiro. Era característica genética, um fator considerável. Meus amigos humanos imediatamente festejaram a presença de minha família biológica e se apresentaram, dando início a uma pequena confraternização.

Foi algo inexplicável, e ao mesmo tempo impressionante. Ferdinand e Felicia não só resistiram aos humanos como se misturaram imediatamente a eles, da mesma forma que eu. Notei olhares bastante significativos de Layla para meu irmão híbrido, mas um relacionamento daqueles jamais poderia prosperar. Humanos e híbridos não… uma vez que Ferdinand passaria todo o tempo de vida de Layla desejando matá-la, e o segredo acabaria por se revelar. Eu sequer podia cogitar a possibilidade de um absurdo daquele, humanos e híbridos! Mas Ferdinand tinha toda aquela beleza surreal dos vampiros, graças à parte contribuição de Rudolph. Levamos vários minutos interagindo com meus amigos humanos, ate o momento em que deveriam voltar para suas salas. Edward não iria para a aula, pois ninguém poderia conduzir-nos até a casa. Eu não fazia a menor idéia de como dirigir aquele carro, e duvidava que minha família soubesse fazê-lo. Voltamos todos para casa, eu com a certeza de que as coisas finalmente estavam encaixadas, sob a luz do sol.





(Cap. 28) Capítulo 25 - O casamento - parte 03


*tema: Elton John’s The Way You Look Tonight*


*** Um capítulo pelo ponto de vista de Edward Cullen ***


Eu sentei-me na varanda à luz do luar, somente. A casa estava tão silenciosa; já passava de três da manhã e todos estavam reclusos. Os híbridos estavam dormindo, principalmente porque o dia foi bastante cansativo. Alice levou todos para Seattle a fim de realizar provas de roupas e outros detalhes, e isso tudo alguns dias depois da provação mais difícil de suas vidas. A visita deles à escola foi uma provação, era fato, e eles se saíram muito bem. Beatrice também. Mesmo assim, foi bastante cansativo. Meus pais tinham saído para caçar; eles preferiam caçar à noite. E eu considero que eles também foram passar algumas horas na cabana na clareira. Desde que eu recomeçara a usar a cabana, os Cullen decidiram que era um bom lugar para encontros amorosos. Tão pouco originais…


Eu tenho que confessar que todos estavam certos e eu fiquei fora de meu juízo por alguns momentos, durante toda essa história de casamento. Obviamente eu não estava pensando quando fui ao covil e trouxe dois híbridos bebedores de sangue para lidar com humanos pela primeira vez. Quando Rudolph pensou aquilo eu já sabia que era uma péssima idéia. Mas eu concordar com a péssima idéia era quase ridículo. E eu concordei, porque eu só pensava em levar a família de Beatrice para o casamento. Colocar todos os humanos da escola em risco, e ainda arriscar a família com a revelação de nosso segredo, o que certamente despertaria a ira irreversível dos Volturi, foi uma das coisas mais loucas que já fiz na minha existência.


Foi sentado ali que eu considerei: eu estava fazendo aquele casamento por Beatrice, ou era por mim mesmo? Estaria eu escondendo meus sentimentos por trás da desculpa de que Beatrice queria tudo aquilo? Claro que ela queria, eu sabia. Eu sabia o quanto o casamento era importante para ela, mesmo quando ela falava pouco sobre ele. Beatrice falava pouco sobre tudo, e aquilo era culpa minha. Eu tolhia demais a sua possibilidade de falar, porque eu sempre estava ansioso demais para dar coisas a ela. De qualquer forma, eu considerei seriamente que eu estava me enganando desde o início. Eu queria aquele casamento tanto quanto Beatrice, talvez mais do que ela. Afinal, eu era um vampiro antiquado.


O casamento seria no dia seguinte, e eu só sabia que tudo seria em tons de lilás e roxo. A cor que Beatrice escolheu. Eu ainda considerava se eu poderia dar a ela o que ela queria, porque Alice me disse um grande “não”. Não, o noivo não poderia estar ao piano enquanto a noiva chegasse. O noivo tem que estar no altar, esperando, lindo. A pequena Cullen estava no comando, graças à desistência de Beatrice, e discutir com ela era tão cansativo! Então, eu não poderia fazer aquilo para Bea, por mais que eu quisesse. Eu não poderia tocar Beethoven para ela. Alice me garantiu que eu ficaria feliz com a música, e que eu deixasse mesmo tudo por sua conta. Eu não me atreveria a pensar diferente.


_Edward? – Esme chegou pela porta da sala com Charles no colo, supreendendo-me. Eu nunca era surpreendido, mas eu estava muito disperso em outros pensamentos. Eu sequer imaginava que Esme e Carlisle chegariam tão cedo, de volta.


_Já de volta, Esme? – Olhei para minha mãe vampira, que reluzia com a luz artificial por trás dela. Meu filho estava adormecido em seus braços; elas adoravam perambular com Charles no colo.


_Por que está aqui pensativo, meu filho? Pensei que passaria esta noite com sua noiva…


_Ela está dormindo, e eu preciso de um momento


_Está ansioso? – Esme sentou-se ao meu lado.


_Se eu disser que sim, mas que não estou nervoso, você acreditaria? – Olhei para Esme com um bico em meus lábios. – Eu estou ansioso porque eu quero muito que isso aconteça… pode parecer tolo, porque vampiros não se casam, não seguem essas tradições. Mas eu sou um homem à moda antiga, certo?


_Você sempre foi. – Esme sorriu, e depositou Charles em meu colo. – Fique com ele, você não passa tanto tempo com seu filho.


_Passo o suficiente. – Sorri, acariciando a face do pequeno. – Ele cresceu muito, não?


_Sim, bastante. Você compreende o que ele sente, o que ele pensa?


_Quase. Eu compreendo algumas coisas, ele é muito seguro do que quer. Mas ele tem dificuldades de se expressar de forma que eu possa decodificar… muitas vezes eu não leio nada.


_Edward, você sabe que eu, seu pai e seus irmãos só queremos sua felicidade. – Esme preparou-se para um discurso de mãe, o qual eu já sabia por inteiro mas a deixaria falar sem interromper. – Não importa que você tenha passado mais de um século e que Beatrice seja um híbrido; não importa que toda a situação seja bastante fora do que estamos acostumados. E não importa que precisemos mudar de Forks mais uma vez… isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Beatrice é a sua escolhida? É ela que você quer?


_Sim, é. – Falei, com certeza absoluta. Eu nunca tive dúvidas. – Eu não sei o que me fez apaixonar por ela. Ela é linda, é espirituosa e completamente tola. Talvez o amor seja muito estúpido, não acha?


_Não precisamos de motivo para amar uma pessoa. – Esme sorriu, enquanto acariciava os pezinhos de Charles. Fazia tempo que ele permanecia sempre com o mínimo de roupas possível, porque ele era como todos nós: não sentia frio, exatamente. Mas sua pele era morna, e ele tinha uma cor surpreendente. – Amanhã Beatrice será sua esposa, e vocês terão um laço que nenhum de nós tem; um laço imposto por uma convenção. Esse laço, bem como nossa existência, é permanente.


_Assim como é meu amor por Bea. – Novamente, eu não tinha dúvidas. – Eu a amo e esse amor cresce a cada dia. Olhar para meu filho e imaginar que foi ela quem me proporcionou essa experiência me faz adorá-la, além de amá-la. Beatrice está em um tipo de pedestal… é até difícil explicar. O mais interessante, ela sente o mesmo.


Esme sorriu, sem dizer mais nenhuma palavra, e entrou. Fiquei na varanda com Charles, observando as estrelas por mais um tempo. Logo o céu se tingiria de cinza e então de rosado, e o dia chegaria. Logo faltaria muito pouco para que eu pudesse chamar Beatrice de esposa. Aquela convenção nunca me passara pela cabeça até conhecê-la, e perceber que ela queria aquilo. E então eu não conseguia imaginar como eu poderia tê-la sem que ela fosse, afinal, minha esposa. Minha Beatrice.


Meu irmão Emmett iniciou o dia bastante agitado na frente da televisão, assistindo à programação de fim de noite. Alice estava já pela casa a dar ordens e decidir onde podíamos ou não podíamos ficar. Com Charles em um dos braços, decidi não interferir em nada até que alguma incumbência me fosse dada, até porque eu estava ciente das encucações de Alice. Ela estava totalmente ensandecida com as preparações do casamento, então era melhor que eu me mantivesse longe. Sentei-me ao lado de Emmett, que discutia veemente com a televisão, e apoiei Charles em meu peito. Ele ficava extremamente confortável em contato com meu corpo inerte, o invólucro sem vida de uma alma perdida. E eu nem sabia se eu tinha, afinal, uma alma. Podia ser que meu corpo fosse apenas um invólucro inútil.


_Edward e Emmett Cullen. – Alice sussurrou, vendo que Charles estava presente. – Vocês têm duas opções: desaparecer ou desaparecer. Não quero nenhum dos dois aqui, vão atrapalhar a decoração. E Sr. Edward… você está proibido de ver Beatrice até a hora do casamento.


_E onde é que vamos ficar, hem? – Emmett resmungou, rosnando.


_Isso não é problema meu. – Alice segurou o controle remoto e desligou a televisão. Ela era cruel quando estava no controle. – Vamos, Jasper também vai com vocês. Não quero homens por aqui. Isso inclui Charles Henry.


Emmett e eu nos entreolhamos, e não havia muito que fazer.


_Posso ao menos vestir-me? – Considerei minhas roupas e elas não eram suficientes para passar o dia fora.


_Você tem cinco minutos. Rosalie já preparou as coisas do bebê.


Dei de ombros e subi as escadas o mais rapidamente que pude. Beatrice já estava acordada, e fora de lá. Eu não sabia o que tinham feito com minha noiva, mas ela já tinha sido abduzida para algum lugar o qual eu ignorava, e provavelmente seria a próxima vítima de Alice. Vesti o básico em mim e em Charles, preocupando-me em agasalhá-lo o suficiente, e encontrei-me com Emmett e Jasper no pátio. Iríamos com o carro de Emmett para qualquer lugar que fosse, passar o tempo enquanto a casa seria decorada. Eu estava tenso, então. A tranqüilidade que eu sentia até o primeiro minuto da manhã deu lugar a uma ansiedade confusa e muita tensão. Jasper percebeu como eu me sentia e cuidadosamente tratou de manter o ambiente ameno. Emmett falava sem parar, não levando nada a sério como nunca fazia, sobre assuntos que não só não me interessavam como não me faziam concentrar.


_Em, vamos para Port Angeles. – Jasper decidiu, enquanto Emmett parecia não saber que caminho tomar. – Lá podemos agir como três solteirões e um bebê.


_Ah, se Rose te ouve falar isso. – Emmett caiu na risada. – Definitivamente, um bebê vampiro seria um apelativo para conseguir mulheres.


_Vampiras, Em. – Jasper consertou. Eu ainda estava alheio a tudo; minha concentração prejudicada.


_Sério, não existem bebês vampiros! Quantas não dariam tudo por um?


_As híbridas têm filhos, isso nem deveria ser novidade. – Jasper considerou.


_É, mas eles vivem em reclusão… nosso sobrinho deve ser o primeiro a viver sobre a terra e…


_Vocês estão importunando meu filho. – Finalmente eu disse alguma coisa. Charles se movia em meus braços, e seu olhar claramente me mostrava o que ele queria. – Sinto muito, Charles… não posso te levar até sua mãe agora.  – Eu o aproximei do peito e o abracei para lhe oferecer maior conforto.


_Você é um pai muito chato. – Emmett implicou. – Fala com o menino como se ele fosse um universitário!


_Emmett, preste atenção na estrada! Do jeito que você está correndo, vamos ser notícia no jornal da tarde. – Jasper protestou.


_Terei mesmo que passar o dia com vocês?


_Você parece um velho, Edward. Você precisa passar o dia conosco.


E os irmãos Cullen estavam preparados para um dia entre irmãos, todos homens. Carlisle eu imaginava que poderia permanecer na casa, pois ele seria de grande valia. Mas os irmãos… nós éramos jovens, pela concepção de Alice, e os jovens eram sempre impertinentes. Até porque eu sei que ela queria que eu ficasse longe da casa, para que em hipótese alguma eu visse Beatrice antes do horário do casamento. Eu não era tão curioso assim, ela devia saber. Eu respeitaria todas as convenções, mesmo eu estando tão neurótico quanto qualquer noivo no dia do casamento.


Cedemos à vontade de Jasper e fomos para Port Angeles. Perambulamos de carro pela cidade por vários minutos, observando tudo e todos ao nosso redor, enquanto Emmett bancava o solteiro bonitão. Realmente, se Rosalie soubesse… meu irmão não duraria mais uma década. Depois fomos a algumas lojas, porque Jasper nunca tinha equipamentos eletrônicos suficientes, e Emmett nunca tinha equipamentos de caça suficientes. Eles eram muito exagerados, mas eu não podia repreendê-los. Eu também exagerava com CDs e outras coisas que eu adorava. Foi divertido fazer compras em uma loja física depois de algum tempo comprando pela internet. Eu podia escolher alguns presentes para minha futura esposa, então.


_Diga, Edward… – Jasper começou uma conversa, enquanto caminhávamos pelas ruas da cidade. Já chegava a hora do almoço dos humanos, e Charles demonstrava fome. Rosalie foi insensível o suficiente para preparar a mamadeira com sangue, mas eu consegui administrar a situação sem muitos inconvenientes. – Você e Beatrice vão morar onde?


_Boa pergunta. – Emmett considerou. – Vocês dois não vão poder continuar em Forks… ou vocês vão, assim mesmo?


Era uma grande pergunta, a de Jasper. Eu já tinha pensado naquilo tantas vezes, e em todas a resposta era óbvia e indesejada. Eu não queria me mudar para longe dos Cullen, e nem Beatrice. Na verdade ela nunca considerou aquilo.


_Não podemos continuar em Forks. – Eu considerei, apesar de resistir tocar naquele assunto. – Eu poderia ficar mais em Forks se não fosse Charles… mas como imaginamos que ele vai crescer rapidamente…  mesmo assim, me afastar de vocês seria muito difícil para Bea e Charles. E imagino que nem Rosalie nem Esme gostariam de ficar longe dele.


_Não temos mais o que fazer em Forks. – Emmett considerou.


_Podemos nos mudar, todos. – Jasper considerou. – Já ouvi Carlisle falando sobre isso com Esme. Mas vocês não vão querer ter seu próprio espaço?


_Sim, vamos. – Eu sorri. – Beatrice não pensa muito nisso, ela sempre viveu em grupo no covil e acha isso natural. Mas ao mesmo tempo ela quer a privacidade de uma casa… eu vou dar isso a ela, na verdade eu já estava vendo um imóvel que tenho. Mesmo assim, podemos morar todos perto.


_Não vamos ficar felizes sem poder pegar no seu pé. – Emmett passou a mão por meu ombro e desferiu um tampinha amistoso. Meus irmãos, eu também não queria me afastar deles. O casamento deveria somar, e não dividir. Deveríamos fazer a família crescer, e não reduzi-la.


Acabamos gastando bastante tempo em conversas masculinas sem sentido, até que o celular de Jasper tocou. Era Alice, obviamente, e ela queria me falar, na verdade. Ela queria me lembrar que eu não poderia chegar depois das quatro horas da tarde, porque eu precisava arrumar-me e outras coisas que ignorei. Alice era sempre daquele jeito quando estava empolgada, e ela estava constantemente empolgada. Eu não compreendia nunca como Jasper podia tolerá-la com tanta paciência… ele era provavelmente o vampiro mais paciente da história. Bem, os Cullen não eram vampiros normais, mesmo. Éramos muito diferentes dos outros de nossa ‘espécie’, e por isso acabávamos sempre nos relacionando com humanos, somente. Tirando o clã dos Denali, os outros de nossa espécie não costumavam nos ser muito afetos. Éramos estranhos, era verdade, para eles. Éramos até mesmo considerados ridículos.


E o tempo, que passava muito devagar para a minha ansiedade, que crescia vertiginosamente a cada movimento dos ponteiros do relógio, decidiu dar-me uma trégua e avisar que era hora de ir para casa. Charles, atento como nunca, demandava Beatrice com uma exigência insistente. Era inconveniente saber o quanto ele queria a mãe e não poder fazer nada… eu queria dar a meu filho tudo, principalmente uma coisa tão simples como aquela. Emmett anunciou que teríamos que ir, ou não cumpriríamos o prazo de Alice. E não cumprir o prazo de Alice não era uma opção. Eu estava já bastante nervoso quando estacionamos novamente no pátio da casa; o nervosismo que eu resisti em sentir por tanto tempo vinha todo de uma vez como se eu fosse um adolescente.


Foi Carlisle, já bastante paramentado, que nos recebeu no alpendre.


_Venham comigo, meninos… não podemos cruzar o caminho de Alice agora.  – Meu pai vampiro nos puxou para dentro da casa e nos conduziu para o quarto de visitas do andar de baixo, onde meu cunhado Ferdinand estava hospedado. Ele estava lá, com Rosalie em seu encalço, terminando de ser vestido.


_Edward! – Minha irmã nos recebeu; Emmett com um beijo. – Venha, sua roupa está aqui… – ela me entregou um cabide. – Jazz, Em, vocês vestirão esses. – E ela entregou um cabide a cada um deles.


_Charles? – Eu tinha que perguntar, apesar de já saber. – Ele quer Beatrice demais, leve-o para ela por favor!


_Vamos vesti-lo para a cerimônia. – Rosalie tomou o bebê em seus braços com todo prazer. – Pode deixar, ele ficará com Bea.


Sorri, mais satisfeito, e retirei da proteção plástica a roupa que Alice separara para o noivo. Um terno cinza chumbo com camisa branca e gravata lilás de seda italiana. Alta costura, nada diferente do que se podia esperar dela. Percebi que Carlisle e Ferdinand vestiam também cinza, porém mais claro, e ela provavelmente não deve ter querido os padrinhos com a roupa parecida com a do noivo. Detalhista, como era esperado.


Eu ainda estava me vestindo quando tive uma revelação. O relógio já estava marcando cinco horas da tarde e eu li nitidamente algo que me deixou em um estado de nervos ainda pior do que eu já me encontrava. Sem terminar de abotoar os punhos da camisa, ainda sem o blazer e sem gravata, saí do quarto e corri atrás de Alice, sem preocupar-me se ela estaria com Bea e se eu poderia vê-la ou não. A revelação era… chocante. Nada que eu esperasse. Encontrei minha irmã no quarto de Charles; Felicia estava com ela e elas vestiam o bebê. Eu estava atordoado, e meu olhar completamente assombrado fez com que as duas me encarassem um tanto surpresas.


_Edward Cullen! O que está fazendo aqui em cima? – Alice bradou, imediatamente me empurrando para fora do quarto e para baixo, com a velocidade de sempre.


_Alice, é verdade? – Eu falava como se ela também pudesse ler mentes. – Você teve mesmo essa visão… ele está vindo?


_Eu disse que não te queria a menos de cem metros de Beatrice! Ela vai surtar e sair daquele quarto e…


_Diga, Alice. – Eu parei, no pé da escada, e a segurei com as duas mãos. Meus dedos comprimiram os braços de minha irmã, com força. Por sorte ela jamais se machucaria. – Ele está vindo?


_Ah! – Ela então percebeu minha pergunta. – Edward, você está um radar hoje, hem! Eu só pensei vagamente nisso… e você estava tão longe! Não era para ter percebido… ah! Bem, o que fazer? Sim, ele está vindo. Tive a visão hoje de manhã… ele já deve estar chegando, para falar a verdade.


_Beatrice sabe?


_Escondi até de você! – Alice riu. – Vamos, acha que eu estragaria a surpresa? Agora suma! Não quero ver você até a hora da cerimônia.


Um sorriso involuntário se solidificou em meus lábios, e eu não consegui parar de rir. Nada poderia fazer aquele casamento mais perfeito do que a vinda de Rudolph para conduzir Beatrice até o altar. Ele era a peça que faltava para tudo ser como o idealizado… por mim. Eu não podia mais negar que o casamento também era um desejo meu, e que nada me faria mais feliz do que chamar Beatrice de esposa. Ela já era minha, a partir daquele dia ela seria minha esposa. Carlisle encontrou-me no quarto sorrindo como um bobo sem conseguir ajeitar a gravata, e dispôs-se a fazê-lo por mim. Ele percebeu que eu estava pouco objetivo, porque eu jamais teria dificuldades com um nó de gravata.


_Filho, se você fosse humano você estaria tremendo. – Meu pai, calma e meticulosamente, fazia o nó da gravata em torno de meu pescoço. – Aliás, também estaria suando.


_Eu estou tremendo, mesmo sendo um vampiro. – Eu disse, sem conseguir controlar o movimento das mãos. – É normal estar assim? Céus, eu sou um vampiro de um século de idade, por que estou me sentindo como um garoto?


Carlisle parou em minha frente, a gravata totalmente em seu lugar, o blazer impecavelmente sobre meus ombros, o colarinho muito bem alinhado, e me encarou. Seus olhos brilhavam com um cintilante muito poucas vezes observado por mim. Acredito que eu só vira olhar daquela forma para Esme.


_Você é um garoto, Edward. – Carlisle passou as mãos por meus ombros, retirando qualquer poeira que pudesse haver por sobre o tecido. – Você tem dezessete anos, não se esqueça disso. Por mais experiências que você tenha vivido durante esse século de vida, você não teve todas as possíveis. Você não teve tudo que poderia ter tido, e essa experiência agora é apenas mais um exemplo de humanidade que você havia perdido. Você amou pela primeira vez, foi correspondido pela primeira vez, teve uma relação sexual pela primeira vez, foi pai pela primeira vez, provou o gosto amargo da perda da pessoa amada pela primeira vez, e depois pode sentir o sabor de tê-la de volta. Tudo isso você viveu em menos de dois anos; os seus séculos de vida não te proporcionaram todas essas coisas. Posso dizer que você viveu mais experiências humanas do que todos nós da família, e isso é maravilhoso. Agora, você vai viver mais uma… você vai casar-se de acordo com as convenções humanas. É normal estar nervoso, eu diria que é esperado.


_Ela sabe que eu a amo. – Eu disse, lábios franzidos. – Eu digo isso sempre; eu a lembro do quanto a amo todo dia que estamos juntos.


_Ela sabe. – Carlisle afagou-me os cabelos. – Fique tranquilo, meu filho. Vocês serão felizes; todos nós seremos felizes juntos.


Meu pai deixou o quarto, e eu sentei-me na cama. Eu não precisava sentar-me, eu não me cansava. Mas era um cacoete, uma força maior do que eu que me atraía para baixo quando eu estava aborrecido. Minhas mãos percorreram os cabelos bem devagar, tentando não desarrumar o que eu havia levado muitos minutos para fazer. Carlisle estava certo, nós dois seríamos muito felizes. Nós três… nós nove. Éramos muitos, os Cullen. O segundo maior clã organizado de vampiros, nós só perdíamos para os Volturi. Mas comparar-nos com os Volturi era perda de tempo, eles existiam para conquistar e anexar vitórias. Eles não eram uma família; eles eram um bando.


Aquele era o dia do meu casamento. Aquela era a noite na qual Beatrice se tornaria minha esposa. Aquele era o momento no qual minha existência vampírica se modificaria para sempre, e eu me tornaria oficialmente um adulto, pai de família. Carlisle estava certo, nenhum deles havia vivido todas aquelas experiências. Eu devia ser eternamente grato, afinal não eram muitos os vampiros que transmitiam os seus genes. Não deveria haver outros vampiros com filhos biológicos espalhados.


_Edward! – Alice entrou quarto adentro, fazendo-me mergulhar na realidade outra vez. – Oh, você está lindo… – ela passou os dedos por meus cabelos, ajeitou algumas mechas, consertou a gravata. – Agora sim, perfeito. Vamos, está na hora.


_Está tudo pronto? – Hesitei. Ela balançou a cabeça, positivamente. – Beatrice? Charles? Rudolph? Os convidados? O juiz de paz?


_Está tudo pronto, Edward. Você pretende desistir?


_A sua pergunta é ridícula. – Eu ri, mas eu estava nervoso. – Você devia saber.


_Vamos, Edward. – Alice segurou minha mão e me puxou, suavemente, bem devagar. Levantei-me, percebendo que eu agia como um garoto ainda, e a segui. Estava na hora, disse ela. Estava na hora de tornar-me um homem.


A casa estava completamente transformada, e eu jamais pude acreditar que Alice fosse conseguir aquilo em apenas algumas horas. Todos os cantos cobertos de flores em tons de branco e lilás, com velas e incensos iluminando e aromatizando os arranjos. As luzes não pareciam definitivamente com as luzes naturais da casa; eu tive certeza que ela havia alterado isso também. Tules brancos envolviam pilares e serviam de amarras unindo os bastões que delimitavam o corredor que a noiva percorreria. Que eu percorreria, em poucos instantes. Meus ouvidos se deram conta da música que tocava, maravilhosa, na recepção. Meus olhos capturaram um trio de cordas a tocar o Romance de Beethoven, a música que Beatrice mais adorava que eu tocasse. Onde ela estivesse naquele instante, eu podia jurar que ela estaria emocionada.


Não havia mais luz do lado de fora, ou meus olhos não estavam enxergando suficientemente bem. Com um sorriso iluminado e encantador, minha mãe Esme, em um vestido vinho estonteante, me aguardava para que fôssemos para o altar. Senti um mal estar súbito, e aquilo foi muito esquisito. Vampiros não sentem mal estar, nosso organismo não funciona o suficiente para isso. Minhas mãos tremiam, e se eu pudesse suar… Alice me segurava pelo braço, e se ela não estivesse me puxando com toda a sua força eu estaria travado no mesmo lugar, observando tudo enquanto ninguém ainda conseguia me ver.


Minha mão foi colocada por sobre a mão de Esme, e ela continuava sorrindo sem parar. Eles estavam tão felizes com o casamento quanto eu, mas eu praticamente não conseguia prestar atenção em nenhum pensamento, naquele instante. Meus sentidos estavam consideravelmente prejudicados, enquanto a música mudava para outra peça de Beethoven.


_Você entra logo atrás dos seus padrinhos. – Alice piscou para mim, mas eu também não prestei muita atenção. Eu tinha três padrinhos; depois que eu fui até o covil buscar Ferdinand eu não podia tê-lo excluído. Ele ainda me adorava, e eu tinha uma dívida de eterna gratidão para com ele, por ele ter desistido tão altruisticamente de Beatrice. Notei que por sob meus pés tinha um tapete vermelho, e que Esme calmamente moveu-se para frente. Eu deveria segui-la. Meus pés ainda estavam prostrados no tapete vermelho.


_Vamos, filho. É a nossa vez. – Esme me olhou mais uma vez.


Sim, era a minha vez. Nada importava, além daquele momento. Era fantástico demais, eu não era merecedor de nada daquilo. A vida não podia me ser tão gentil e me agraciar com tanto. Só ter Beatrice já era mais do que qualquer eu poderia esperar. Tê-la como esposa, e ainda ter um filho… eu ainda esperava que tudo se acabasse em um passe de mágica, quando como se acorda de um sonho.


Segui Esme pelo corredor criado por Alice até o altar totalmente ornamentado por lilases e rosas brancas. O aroma era tão adocicado que eu tinha certeza que causaria enjôos em Bea. O juiz de paz – que eu não conhecia – nos aguardava pacientemente. Carlisle me sorria. Entre os convidados, eu reconheci todos os amigos humanos de Beatrice; todos os nossos amigos humanos. Havíamos convidado os Denali, mas eles não puderam vir. Enviaram suas desculpas e um presente que eu ainda não havia aberto, então todos os convidados ali eram humanos. E as duas famílias de vampiros e híbridos, anfitriões.


Naquele momento, eu tremia incontrolavelmente. Estava difícil manter-me aprume, e aquilo era muito ridículo. Eu não tinha dificuldades com minha coordenação motora, muito pelo contrário. Eu era muito bem coordenado, eu conseguia fazer tudo melhor do que meus irmãos e irmãs. Sempre fui elogiado por isso. Como eu podia estar tão irracionalmente nervoso, naquele instante? As luzes muito claras que foram colocadas por sobre nossas cabeças me deixavam ainda mais pálido. Então, a música mudou novamente. Detalhista como era Alice, eu supunha que ela faria tocar a marcha nupcial. Mas ela não ousou desafiar-me demais, durante os preparativos. Eu disse, quero que Beatrice escolha tudo. A música de sua entrada foi Bach, a toccata 153. Os acordes do violino iniciaram a sinfonia e eu fechei meus olhos por alguns segundos. Respirei fundo; respirei fundo várias vezes. Eu pude ouvir claramente o burburinho das pessoas e saber o que se passava em suas cabeças. Então meus olhos se abriram para a visão mais fascinante de toda a minha existência – por mais que eu tenha subjugado aquela possibilidade.


There was a time


I was everything and nothing all in one


When you found me


I was feeling like a cloud across the sun


I need to tell you


How you light up every second of the day


But in the moonlight


You just shine like a beacon on the bay


Beatrice caminhava gloriosa pelo corredor, sendo conduzida por Rudolph, que também trajava um terno cinza claro, para meu total espanto. Ele tinha o semblante austero e não parecia estar se divertindo muito, apesar de eu saber… Mas nada ali, naquele lugar, poderia comparar-se à imagem de Beatrice. Ela tinha um largo sorriso nos lábios que estavam completamente tingidos de um batom ametista. Seus olhos também estavam tingidos de ametista, e havia brilho em seu olhar. Brilho artificial, brilho natural, simplesmente brilho. Seus cabelos muito longos estavam arrumados em um coque por sobre a cabeça, e os tons de dourado, vermelho e castanho claro se misturavam entre pedras claras e arroxeadas que estavam salpicadas pelos fios. Seu vestido era longo, totalmente rendado, em tons de lilás claro e branco. Ela carregava um buquê de rosas brancas, e caminhava lentamente em minha direção, seus olhos fixados nos meus.


And I can’t explain


But it’s something about the way you look tonight


Takes my breath away


It’s that feeling I get about you, deep inside


And I can’t describe


But it’s something about the way you look tonight


Takes my breath away


The way you look tonight


Mesmo podendo ler tudo que ela pensava, eu não conseguia assimilar todos os seus sentimentos. A Beatrice confusa e incompreensível dos primeiros dias em nossa casa estava ali, em minha frente, mais uma vez. Ela parecia nem mesmo compreender seus próprios sentimentos.


_Ela agora é oficialmente sua responsabilidade, Cullen. – Rudolph disse, por entre os dentes, quando colocou a mão de Beatrice por sobre a minha. – Cuide bem dela, ou eu te caçarei até a morte.


Delicadas palavras, porém esperadas. Rudolph não sabia ser mais gentil do que aquilo, e a preocupação que ele demonstrava por Bea era genuína. Por mais esquisito que ele fosse, e por mais cruel que ela tenha sido antes, eu sabia o quanto ele amava Beatrice; ele a amava a ponto de deixar o covil e misturar-se com humanos para fazer algo que ela queria.


Tentei bravamente concentrar-me no juiz de paz. Não foi uma tarefa simples. Beatrice estava radiante e aromatizada ao meu lado, exalando todos os aromas possíveis. Ela podia me fazer perder o controle com uma facilidade impressionante, mas eu era mais forte do que meus instintos. Eu sabia que era! Ela estava tão nervosa quanto eu, e seus pensamentos eram uma mistura de desespero, ansiedade e felicidade. Seus olhos não se desviaram o juiz nem um instante, enquanto eu precisei resistir à tentação de olhá-la o tempo todo. Teria eu a chance de vê-la tão linda em outros momentos? Faria diferença, afinal? Estariam meus olhos sensíveis aos meus sentimentos, enxergando Beatrice ainda mais perfeita do que ela era?



With your smile


You pull the deepest secrets from my heart


In all honesty


I’m speechless and I don’t know where to start


And I can’t explain


But it’s something about the way you look tonight


Takes my breath away


It’s that feeling I get about you, deep inside


And I can’t describe


But it’s something about the way you look tonight


Oh! Takes my breath away


The way you look tonight


Nossas alianças foram entregues por Rosalie, que tinha Charles consigo. Meu filho estava vestido como um pequeno homem, e era engraçado. Ele era ainda muito pequeno, um verdadeiro bebê. As alianças foram também compradas por Alice, mas eu não poderia ter feito um trabalho melhor. O momento da troca foi simultâneo ao “sim”, e nossos votos foram bastante simples. Eu não saberia dizer outra coisa além de prometer amá-la para sempre. Mesmo eu sendo tão hábil com as palavras, muitas vezes Beatrice me fazia sentir um completo incapaz. O juiz nos declarou casados, e os presentes aplaudiram. Meus dedos caminharam lentamente para a face de Beatrice, que me olhava em êxtase. Deixei que eles percorressem as linhas de sua bochecha, seu queixo, até chegarem a seus lábios. E, mantendo meus olhos fechados, deixei que meus lábios tomassem o lugar dos dedos, beijando-a bem devagar.


Estávamos casados. Segurei sua mão entre a minha, apertando-a com bastante força, e puxei seu braço para o meu, enlaçando-os. Beatrice ainda sorria, e sorria para todos os presentes. Meus lábios não conseguiam acompanhar tanta alegria que ela irradiava, mas eles também estavam involuntariamente flexionados em um largo sorriso. Levei Beatrice pelo corredor até estarmos fora do caminho de tules construído por Alice e podermos ser interpelados pelos convidados. Eles teriam, então, seu momento para cumprimentar as estrelas principais da festa. Que, por uma coincidência impressionante, incluía a mim.


_Bea!!!! – Sylvia atirou-se no pescoço de Beatrice, que a abraçou com a mesma vivacidade. O lado humana de minha Bea, completamente aflorado. – Bea você está ma-ra-vi-lhosa!!! Um escândalo!! Nunca pensei… nossa, sério!!! Agora até eu quero me casar…


_Vai chegar a sua vez… comporte-se e eu jogo meu buquê para você!


_Isso é trapaça! – Layla veio logo atrás, e também abraçou Bea com algum exagero. As pessoas me cumprimentavam com um aperto de mão, enquanto jogavam-se por sobre minha esposa. Ela era mesmo popular. – Bea, parabéns… você está maravilhosa, o casamento foi lindo. Quem organizou?


_Minha cunhada, Alice.


_Ah, espero que ela aceite a encomenda do meu casamento. – Layla implicou.


Outros humanos chegaram; todos da escola estavam presentes. Provavelmente uma festa na reclusa casa dos Cullen era motivo para movimentar a cidade… principalmente o casamento entre dois adolescentes. Depois dos humanos, Felicia e Ferdinand se aproximaram. Eles ainda estavam desconfortáveis com todos aqueles humanos e seus cheiros deliciosamente tentadores, mas estavam bem. Felicia abraçou Beatrice como realmente uma mãe abraça uma filha. Demorou-se bastante tempo com ela, e eu sabia que elas estavam conversando. Tentei abstrair o que falavam, porque eu não queria invadir aquele momento.


_Bea, você precisa prometer que não vai nos esquecer. – Felicia finalmente disse, e eu pude ver lágrimas em seus olhos. Os híbridos choravam, e aquilo era ainda mais emocionante.


_Eu jamais poderia esquecer vocês, mesmo que quisesse. – Ela implicou, sarcástica como sempre. – Eu prometo que verei vocês sempre que puder.


_Leve Charles para que possamos acompanhar seu crescimento. – Ela disse, com aquelas palavras pouco usuais para mim, e soltou Beatrice para que Ferdinand pudesse cumprimentá-la.


_Parabéns, Bea. – Ele também a abraçou. – Espero que você seja muito feliz com a sua família, e sua escolha.


_Obrigada, Ferdinand. Eu não sei como agradecer por você estar do meu lado.


_Para isso servem os irmãos.


Por último, quando eu pensei que todos os convidados já haviam nos abraçado e desejado felicidades, um vampiro inesperadamente materializou-se à frente de Beatrice, olhos rígidos e de um marrom indecifrável, mais puxados para o vermelho. O olhar me foi lançado com algum desprezo, mas eu esperava que um dia Rudolph parasse de me odiar. Eu já não conseguia odiá-lo mais, então. Ele segurou as duas mãos de Beatrice, e a olhou por vários segundos. Depois, em um gesto mais inesperado ainda, abraçou-a rapidamente, afastando-se em seguida.


A surpresa de Bea foi tanta quanto a minha.


_Eu preciso ir. – Rudolph disse, a voz baixa. – Não devo deixar o covil sem liderança… mas agradeço o convite, Edward Cullen. Você leva meus híbridos de volta, quando a festa acabar?


_Sim, sem demora. – Movi-me como em uma reverência. – Obrigado por ter vindo, Rudolph. Significou muito para Beatrice e para mim.


E o patriarca vampírico do covil dos Caldwell desapareceu da casa tão rapidamente quanto ele apareceu, sem dar muitas explicações. Olhei para Beatrice e finalmente tínhamos cumprimentado todos os convidados. Ela parecia ainda absorta em tudo que estava acontecendo, e então eu a tomei em meus braços, puxando-a rapidamente para mim e fazendo seu corpo colar no meu. Ela imediatamente voltou sua atenção para mim, e nossos olhos puderam se encontrar mais uma vez.


_Beatrice Cullen. – Eu disse, divertindo-me com seu novo nome. – Devemos ir para a pista de dança, agora.


_Edward… – ela não intencionou mover-se. – tudo isso foi real, certo?


_Também estou tendo dificuldades em assimilar. – Beijei rapidamente seus lábios, porque eu não ousaria demorar-me, naquelas condições.


_Falta alguma coisa para que eu possa me considerar a pessoa mais feliz que existe?


_Para você eu não sei. Para mim, nunca me senti tão completo.


_E poderemos ficar assim para sempre, certo? – Ela me abraçou pela cintura e colou sua cabeça em meu peito, amassando seu penteado antes da hora.


_Se para sempre não for suficiente para você, inventaremos uma nova medida de tempo só para satisfazê-la.


Beatrice riu, uma gargalhada sonora. Conduzi-a até o quintal, onde estava armada uma grande estrutura de metal coberta com tules e flores, e a valsa tocava apenas esperando por nós. Segurei Beatrice em meus braços uma outra vez, e nossos corpos começaram a flutuar ao som da tão conhecida música de Waltz. Recostada em meu peito, olhos cerrados, seus pensamentos nunca tinham ficado tão nítidos para mim. Beatrice pensava no sol, e associava o astro maior a mim. Em sua concepção, eu era o sol. Por mais pálido, gélido e obscuro que eu fosse, ela me chamava de seu sol. Talvez, um dia, eu pudesse compreender o quanto aquilo significava para ela.





(Cap. 29) Epílogo

Fazia muito calor, aquele dia. Eu estava acostumada com o frio de Forks, nunca com aquele calor intenso da linha do equador. Estávamos em uma ilha no Pacífico, de nome o qual eu ignorava, desde o dia de nosso casamento. Havíamos voado para lá com um avião fretado por Edward; eu, ele e Charles Henry, para passarmos alguns dias juntos, a sós, sob o sol.


Mesmo sabendo que o sol, astro da natureza, não era tudo aquilo que eu imaginava e mesmo sabendo que eu havia encontrado outro sol para mim, ao redor do qual eu girava como se fosse um planeta e nele se resumisse todo o sistema, eu ainda gostava de estar sob a luz do sol, aquele que provinha a vida para todos os humanos; para tudo que havia na Terra. Era como se eu me sentisse mais humana, mas viva, mais parte de tudo aquilo. O pavor de tornar-me humana já estava há muito superado; eu não precisava temer algo que eu era; algo que era tudo que Edward queria.


E ter Edward sob a luz do sol era ainda mais fantástico, porque a luz que dele emanava era tudo que eu precisava para enxergar. Com ele eu conseguia ver, efetivamente. E meus dias de híbrida tola que morava em um buraco sob a terra haviam acabado; e meus dias de Beatrice Caldwell, a ignorante, eram apenas um passado distante, que parecia nunca ter acontecido de verdade. Um fragmento, um sonho, um momento necessário para que eu tivesse acesso à vida, afinal.


Talvez eu tivesse direito a tudo aquilo. Talvez eu fosse merecedora da felicidade, talvez eu não fosse uma aberração. Ou talvez, ainda, em uma remota possibilidade, havia espaço para as aberrações nesse mundo tão diverso, tão acolhedor.


Mãos mais frias do que o normal tocaram meus ombros, enquanto eu observava o oceano transparente que se lançava a meus pés em ondas de espuma. O corpo de Edward não esquentava nunca, e o calor do sol não lhe fazia qualquer diferença. Seus longos dedos acariciaram a base de meu pescoço e eu movi a cabeça para o lado, a fim de prolongar o toque. O sol se punha no horizonte, em raios dourados e avermelhados, tingindo o céu de uma cor que eu ainda não tinha visto. Mais cores se acrescentavam à minha paleta todo dia. Virei-me para Edward para encontrar seus olhos vidrados nos meus. Seus braços me envolveram com urgência, e seus lábios me fizeram sucumbir a um beijo inesperado.


_O verão faz tudo mais lindo. – Ele sussurrou em meus ouvidos. – E eu não podia acreditar que você pudesse ficar mais linda… a natureza sempre me impressiona.


Afundei minha face em seu peito, aquele gesto tão característico da Beatrice mais tola, que se envergonhava de tudo. Eu sequer tinha o direito de envergonhar-me de mais algo, eu já havia feito de tudo. Quase tudo.


_Não devia acostumar-me com mentiras, Edward Cullen. Posso gostar delas.


_Eu amo você. – Ele disse, beijando-me novamente. – Já tinha dito hoje?


_Ainda não. – Fiz uma careta. – Eu às vezes sinto que é estúpido falar que te amo… quantas vezes por dia você lê essa frase em mim?


_Ouvir de você tem outro sabor. – Ele continuava a me beijar, eu mal podia expressar-me.


_Eu te amo, Edward Cullen. Mais do que imaginei que um dia pudesse amar alguma coisa, mais do que o permitido para qualquer um.


Os braços sempre fortes de Edward me comprimiram em um abraço mais apertado do que meu frágil corpo semihumano poderia suportar, e ele logo me soltou, percebendo que alguns ossos haviam estalado. Por mais que ele algumas vezes ultrapassasse os limites do meu permitido, eu nunca sentia dor alguma ao seu lado. Nenhum toque seu poderia ser dolorido, nada que ele fizesse poderia machucar-me. Naquele momento, estávamos vivendo como se um mundo paralelo existisse, e a felicidade fosse realmente aceitável para aberrações lendárias. Eu, a híbrida geneticamente modificada; meu marido vampiro e nosso bebê, um híbrido definitivamente diferente de tudo que já se havia visto.


Charles Henry já havia crescido muito, e ele parecia-se com um bebê humano de mais de cinco meses de idade. As semanas que passamos na ilha mostraram claramente seu crescimento fora nos padrões humanos. Ele crescia, e mostrava sua preferência por sangue. Ele ainda comia alimentos humanos, mas somente quando eu insistia muito. Fora isso, ele mostrava claramente que queria sangue, e deixava Edward louco com suas preferências. O pai precisava caçar animais por toda a ilha e muitas vezes precisava ir até o continente, para satisfazê-lo. Fardo de quem lê mentes, meu Edward carregava. Mas, apesar do crescimento exagerado, meu filho era um híbrido aparentemente normal, considerando a sua espécie. Ele ainda não tinha apresentado nada que sugerisse a sua genética apurada, nem uma força fora do comum ou uma resistência absurda. Até porque ninguém teve coragem de arriscar feri-lo só para testar, como fizeram comigo – a cobaia viva.


Enquanto nos beijávamos à luz do sol que já estava rarefeita, o telefone de Edward tocou. Pela primeira vez na ilha, semanas depois, seu telefone tocou e aquilo nunca poderia significar nada bom. Era uma regra dos humanos, telefonemas em horários inapropriados eram sempre má notícia. Mas que má notícia poderíamos receber? Eu considerava que nada mais podia dar errado em minha vida; que as coisas a partir do momento em que saí do covil pela última vez seriam apenas perfeitas. Estaria eu enganada por todo aquele tempo, e as aberrações não poderiam ser felizes?


Já dentro da casa, Edward atendeu o celular. Charles dormia sereno em seu berço, e fui acalentá-lo. Por algum motivo, talvez uma superstição, eu estava apreensiva.


_Diga, Alice. – Edward respirou fundo. Um telefonema de Alice era uma notícia, com certeza. – Sim, Bea está aqui, onde mais ela poderia estar? Estamos isolados em uma ilha…


_Coloque no viva voz. – Pedi, aproximando-me dele e segurando seu braço. – Quero ouvir.


Edward atendeu meu pedido e em um segundo eu estava ouvindo a voz de Alice.


_Edward, como está Charles? Oi Bea!


_Charles está bem. – Edward respondeu, e ele parecia mais apreensivo do que eu. – Vamos, o que foi? Não me deixe ansioso… Bea está quase tendo um ataque aqui.


_Edward, eu vi… uma coisa que está me deixando muito intrigada. Volte para casa, com Bea e o bebê.


_O que houve, Alice? Assim você me faz ter um ataque! Estamos em perigo?


Eu esfregava os dedos. Alice levou alguns segundos para responder, o que me fez acreditar que sim, estávamos em perigo. A resposta dela foi ainda mais perturbadora do que um simples “sim”.


_Edward, eu vi que Charles também tem um poder.


Meu marido franziu a sobrancelha, e me encarou. Um sorriso nada condizente com meu estado de espírito brotou em seus lábios.


_Ele ainda é um bebê… ele não tem nenhum poder.


_Sim, ele tem. Ele ainda não sabe como usá-lo… mas ele vai aprender, e ele não detém o controle sobre ele.


_Deixe-me entender… Charles tem um poder. E por que precisamos sair correndo de volta para casa?


_Porque Charles tem um poder imenso, grande demais… e assustadoramente perigoso.


O sorriso nos lábios de Edward se torceu, e ele apertou o aparelho com força demais. Eu ainda esfregava os dedos, e já havia sangue coagulado por toda a extensão de minhas mãos. Força demais, eu também.


_Alice, estamos falando de Charles… meu filho. Acha que ele pode nos colocar em risco? Eu vejo seus pensamentos, ele é uma criancinha, feliz, ama seus pais… o que você viu de tão ruim assim?


_Eu não sei explicar! Volte para casa, Edward… assim você poderá ver. Esme está aqui tão ansiosa quanto eu, desde que tive a visão…


_Vou desligar agora, preciso conversar com Bea sobre isso.


Edward desligou o aparelho e olhou para mim, os olhos claros um tanto sombrios. Delicadamente, ele levou suas mãos até as minhas e as segurou com gentileza, impedindo-me de continuar minha involuntária mutilação. Os dedos frios causavam uma sensação boa por sobre os hematomas.


_O que você acha? – Ele perguntou, já sabendo a resposta. Tinha vezes que eu simplesmente preferia não poder falar.


_Eu aprendi a não desafiar as visões de Alice. – Minha voz estava falha. – E eu preciso compreender que tipo de poder teria Charles para ser tão perigoso.


_Poder demais já é perigoso. – Edward conjecturou. – Se ele for muito poderoso… ele pode ter uma característica muito maximizada, e fazer coisas que acabam se tornando perigosas. Mas… ele é nosso filho, ele será uma boa pessoa. Certo?


_Claro, Edward… claro.


Ele então me abraçou outra vez, e eu confortei-me em seu peito. A respiração aos poucos retomou um ritmo aceitável. Depois de bastante tempo no paraíso, estava na hora de enfrentar a realidade novamente. Muito provavelmente, as aberrações não tinham o direito de ser felizes. Eu estava enganada, então.





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