A Deusa Perdida

Autor(es): Marih di Angelo


Sinopse

Uma deusa há muitos anos desaparecida é encontrada sem memória. Agora ela e alguns amigos seguem em uma viagem para descobrir o que houve em seu passado e quem a raptou, enquanto ela reaprende a usar seus poderes.


Notas da história
~ História em andamento
~ Percy Jackson pertence a Rick Riordan, apenas os personagens headcanon pertencem a mim. E relembrando, plágio é feio *olhar estilo tio Cronos a possíveis plagiadores de plantão*
~ Postada inicialmente no site Sótão, do Anaklusmos (se é que podemos contar dois capítulos como postada, é).

IMPORTANTE: a história foi iniciada no ano de 2011, quando minha pessoa tinha 13 anos. Não que eu não fosse alguém legal naquela época, mas de qualquer forma, agora com 16, estou reescrevendo todos os capítulos desde o início (sem mudar o enredo, apenas corrigindo). Aqueles com o escrito [editado] antes da história são os que têm minha escrita atual, os sem são os, bom, de 2011. Acho que é legal citar isso, porque não sou muito fã da minha eu daquela época.

Índice

(Cap. 1) Prólogo
(Cap. 2) É, matar monstros pode ser bastante divertido de vez em quando
(Cap. 3) Sou ‘reclamada’, assim dizer
(Cap. 4) A reunião mais estranha de todos os tempos
(Cap. 5) Fugas hipotéticas (Ou nem tanto)
(Cap. 6) Hannah faz alguns haikais pra lá de profundos
(Cap. 7) Uma nova companheira bulustruca
(Cap. 8) Restart entra em cena
(Cap. 9) Sonhos, lágrimas e confissões
(Cap. 10) Enfim na bela NY!
(Cap. 11) Mais uma 'ajudinha' de Apolo
(Cap. 12) Digo sim a encheção de saco gratuita
(Cap. 13) Medidas drásticas são tomadas
(Cap. 14) Tábuas malditas (ou seriam benditas?)
(Cap. 15) Muke dá uma investida nem um pouco sutil
(Cap. 16) Rachel é abençoada por Hefesto
(Cap. 17) Seguura, peão!
(Cap. 18) O Simba não é tão bonitinho assim na vida real
(Cap. 19) Devia poder mandar M.I. pra caixa postal, sério
(Cap. 20) Dando uma de Dioniso
(Cap. 21) Boa sorte, Bangladesh
(Cap. 22) Alguém por favor me dê um dicionário de italiano
(Cap. 23) Escolhas, bengalas e lenhadores lenhando
(Cap. 24) Plantinhas natalinas podem ser algo do mal
(Cap. 25) Deuses, alguém jogue essa mina numa caçamba
(Cap. 26) Que isso Rach, que isso
(Cap. 27) "Anjos e Demônios" nunca pareceu tão realista
(Cap. 28) Amo você, você me ama, somos uma família feliz - I
(Cap. 29) Amo você, você me ama, somos uma família feliz - II
(Cap. 30) Pois é colega, acho que dona Afrodite começou a jogar pro nosso time
(Cap. 31) Caramba, isso tem mais intriga que novela das oito
(Cap. 32) A volta dos que já foram — ou ‘nunca mais uso Nike na vida’
(Cap. 33) “I'm hiding the tears in my eyes 'cause boys don't cry”
(Cap. 34) Acho que o lema da minha vida devia ser 'vive la mèrde', porque né


(Cap. 1) Prólogo

Notas do capítulo
Olá :3 Essa é minha primeira fic... Espero que gostem! ~~ (wild autora alguns anos depois) não sei se todo mundo lê disclaimer, então: IMPORTANTE: a história foi iniciada no ano de 2011, quando minha pessoa tinha 13 anos. Não que eu não fosse alguém legal naquela época, mas de qualquer forma, agora com 16, estou reescrevendo todos os capítulos desde o início (sem mudar o enredo, apenas corrigindo). Aqueles com o escrito [editado] antes da história são os que têm minha escrita atual, os sem são os, bom, de 2011. Acho que é legal citar isso, porque não sou muito fã da minha eu daquela época.

[Editado]

1. Prólogo

Point of View - Nico di Angelo

Existem muitas lendas no Acampamento Meio-Sangue, muitas mesmo. As mais comuns são a do Dragão de Bronze (que no fim era verdade, mas tudo bem), dos filhos de Hera (ela quase colocou fogo no Acampamento quando ficou sabendo dessa)… Mas nenhuma dessas ganha da deusa perdida.

Diz a lenda que, há séculos atrás, Zeus teve uma filha com uma mortal. Tá, normal. Mas, ao crescer, a garota conquistou o respeito e a simpatia dos deuses do Olimpo, e quando Zeus quis transformá-la em deusa, ninguém foi contra. Eu sei, você deve estar pensando: qual era o nome da garota?; ela era deusa do quê?; quem eram seus parentes mortais?.Olha, me desculpa, mas não é minha culpa se na lenda faltam uns pedaços.

Enfim, a menina era bem jovem quando se tornou imortal, algo em torno de treze. Mas nem por causa disso deixava de ser, como dizer, útil. Era ela que acalmava os nervos de seu pai, confrontava Hera, sua madrasta, e dava umas bofetadas em Dionísio e Ares quando era preciso (como ela conseguia isso, eu não sei). Dizem que era muito admirada por deuses e semideuses.

Mas um dia ela sumiu. Nem mesmo os Olimpianos foram capazes de achá-la. Zeus revirou os céus (bom, ela era filha dele, então poderia muito bem estar por aí), Poseidon o mar e meu pai o Mundo Inferior atrás dela, mas não encontraram nem o rastro. Alguns pensam que ela morreu, como Pã. Outros, que foi raptada, como Perséfone. A maioria — quase todos os campistas — acha que a deusa perdida é só uma lenda, que nunca existiu (e nem pense em perguntar a Zeus. Você vai levar um raio na cara antes que termine de falar). Quer dizer, se houvesse uma deusa andando por aí, além de que os deuses a achariam, nós saberíamos da sua existência, certo? Eu também achava isso.

E não fazia ideia de como estava errado.

Notas finais do capítulo
E ai, gente? O que acharam? *u* por favor, comentem, assim vou saber se continuo ou não... Criticas também são bem vindas (:




(Cap. 2) É, matar monstros pode ser bastante divertido de vez em quando

Notas do capítulo
Obrigada pelos reviews, gente! Espero que gostem desse também :D

[editado — se você não entendeu, volte e leia os disclaimers, run run u.u]

Capítulo 2 (que teoricamente é 1 mas como o prólogo foi 1 pelo Nyah, tanto faz): É, matar monstros pode ser bastante divertido de vez em quando

Parte I: Point of View — Nico di Angelo

Estava sendo um dia bastante normal, se você quer saber. Eu havia passado a última semana no Mundo Inferior, fazendo nada além de escutar meu pai reclamando de como eu era inútil, Perséfone dizendo que não aguentava me ver sem se lembrar de todas as milhares de vezes que fora traída e Deméter falando que eu devia comer mais cereais porque estava muito magrelo, ou algo assim. Ou seja, tinha sido uma semana muito, mas muito tediante. O que é normal.

Saí pela porta de Caronte, em Los Angeles. Era divertido sair por lá, primeiro porque eu não teria que subir trocentas escadas da porta de Orfeu. Segundo porque gosto de vagabundear pela cidade, conversar com os mortos, assustar casais que acham que é divertido se pegar em cemitérios... Aliás, sabia que existem cerca de trinta e dois cemitérios em LA? Por isso que se chama cidade dos anjos.

(Ba dum tss)

Enfim, piadas ruins à parte, saí pela porta de Caronte, ignorando as almas que me imploravam por mais alguns dias de vida e caminhei por algumas das avenidas mais importantes da cidade. Pela quantidade de limusines, hoje era um dia bastante corrido para as celebridades. Importante citar que já vi algumas delas enquando vadiava por aí, e nem sempre elas estavam vivas, como da vez que eu vi o fantasma do Michael Jackson rondando Holmby Hills, um bairro pouco pobre da cidade.

Foi estranho.

Depois de bater perna nos arredores de Hollywood Boulevard, fiz meu caminho até a parte não tão bonita de LA, atrás de um cemitério bastante interessante que há por lá.

Uma curiosidade sobre a cidade das estrelas: ela é legal, sim, é. Tem gente bonita, famosa, rica, é lógico que tem. É a capital da fama, afinal. Mas se você andar até a parte menos, como dizer, glamurosa, te dou apenas um conselho: entrega sua alma ao céu, segura na mão dos deuses e vai cara, porque as chances de você ser assaltado, sequestrado, esquartejado, esfaqueado, destroçado, decapitado, fuzilado, atropelado ou quem sabe caçado pelo FBI são grandes.

Não que eu ligue pra isso. Eu caminho por lá que nem eu caminharia num shopping. Fala sério, ninguém mexe com um garoto branco-defunto vestido de preto da cabeça aos pés que vez e outra é visto passeando por cemitérios.

Também já disseram que eu cheiro a morte, obrigado.

Enquanto eu andava calmamente com as mãos nos bolsos numa ruela não muito bela com nome de algum presidente que governou nos meus anos de Cassino Lótus, lançando um olhar carrancudo a qualquer caboclo que ousasse pensar na possibilidade de me assaltar, ouço o que parece ser uma briga.

Não dou muita bola porque discussões que acabam em hospitais ou almas sedentas por vingança são coisas comuns por aqui, mas de repente escuto algo que me faz parar de caminhar por alguns instantes.

— Não quero saber! — é a voz de uma garota, não muito velha. É um berro raivoso, mas parece vacilar um pouco no final — Me deixa em paz, seu filho de uma rapariga!

Minhas sobrancelhas se franzem. É raro quando mulheres também se envolvem nessas brigas.

Ora, colabore com a gente — agora, é a voz grave de um rapaz — Não é minha culpa se você pediu nossa ajuda.

Tento descobrir de onde vêm as vozes, e então ando silenciosamente até o cruzamento. Me apoio na parede do último prédio e, discretamente, olho o que está acontecendo.

Não era uma rua, mas sim um beco sem saída, que mesmo estando de dia conseguia a incrível façanha de estar escuro. Havia uma garota de pé no meio dele, que não parecia ser mais velha que eu: treze, talvez? Seu rosto sério é emoldurado pelo cabelo loiro liso, mas desgrenhado.

Em sua frente estão parados três garotos que devem ter em torno de seus dezesseis anos. Pela forma como eles sorriem debochadamente, não são pessoas muito simpáticas.

— Eu não pedi a ajuda de vocês — diz a garota, andando pra trás para se distanciar deles — Eu estava com fome, e vocês são melhores em roubar que eu. Só isso.

Ela anda pra trás um pouco demais, e acaba batendo as costas no muro. Um dos garotos, o mais alto, firma suas mãos na parede e encurrala a garota.

— Você sabe das regras, Hannah — ele fala enquanto os outros riem. Pela voz, é ainda o primeiro que escutei. Parece que ele é o líder e os outros dois os comparsas — Nada é de graça por aqui.

Quando o mesmo que a encurralava segura seu queixo, Hannah cospe na cara do garoto. Ele fecha os olhos, rindo sem humor um pouco alto demais, e limpa o rosto com as costas da mão.

— Pega leve, docinho — ele pega seu queixo de novo, mas dessa vez aperta com força — Seja boazinha. Não torne as coisas ainda mais complicadas.

— Eu sempre vou complicar as coisas pra você, Scott — e ela dá uma joelhada no garoto num lugar que, olha só, se fosse eu teria me contorcido de dor na hora.

Enquanto ele grunhe um xingamento, muito concentrado na dor de seus apetrechos, Hannah corre para longe deles. O segundo, que tem o mesmo físico de um rochedo, tenta pará-la, mas desiste quando leva um soco no rosto. Pelo jeito que ele grita e segura o queixo, está quebrado. A garota está quase na rua em que me encontro quando o terceiro, que é menor que o segundo mas ainda deve ter o dobro do meu tamanho, puxa-a pelo cabelo e joga-a pra trás. Ela cai de costas no chão, respirando com dificuldade, e o terceiro coloca o pé em sua barriga para que não possa se mexer. Scott, que parece ter superado a joelhada bem rápido, anda até Hannah e se ajoelha ao lado da garota.

— Vadia.

Ele tira um canivete do bolso, e assim que o vejo, arquejo. Nenhuma lâmina tem um brilho metálico tão forte quanto aquele. Ao menos, nenhuma lâmina mortal. Aquilo não era aço nem ferro, era bronze celestial. O único metal capaz de ferir monstros, deuses ou semideuses.

Decido que é melhor sair do meu (quase) esconderijo, e fazer algo que preste. Não sei o que eles são, mas ela tem perfil de semideusa. Não posso deixar que três idiotas, mesmo que também sejam meios-sangues, cortem sua garganta na minha frente. Desmanipulo a névoa de forma que minha espada estígia embainada fica visível, e paro na frente do beco. Preciso de uma frase de efeito. Intimidar o inimigo, mostrar que não se mata ninguém quando eu estou presente.

— Com licença — digo, me arrependendo cinco segundos depois. Qualquer coisa soaria menos ridículo que ‘com licença’. Qualquer coisa.

“Olha aqui, com licença, mas vocês são semideuses? Monstros? Ah, legal, muito prazer, sou Nico di Angelo, filho de Hades, e estou aqui pra cortar a garganta de vocês de forma que não cortem a garganta dela. É, pois é, meio chato, mas mande lembranças ao meu pai. Obrigado aí, cara. Gente fina, você”

Scott vira a cabeça em minha direção, ainda virado para a garota imobilizada no chão.

— Pois não? Desculpe, mas estamos meio ocupados — ele está olhando pra mim, mas continua com o canivete na garganta dela. Reparo que ele ainda não a machucou, deve estar só esperando a distração, vulgo eu, deixar de atrapalhar — A Calçada da Fama fica pra lá — ele aponta para a oeste com a cabeça.

— Não sou um turista — respondo. Ele certamente chegou à essa conclusão pelo meu sotaque nova iorquino. Era bem diferente do deles, californiano — Quero que você solte a garota, por favor.

Primeiro ‘com licença’, agora ‘por favor’. Ótimo, consegui deixar eles tão intimidados quanto um poodle deixaria.

— Calma aí, caubói. Isso é entre a gente e ela, sacou? Então se você puder.. — desembaino a espada, e a voz de Scott vacila. Posso sentir que ele não gostou de não ser mais o único com uma arma que possa o ferir.

— Eu falei pra soltar a garota — rosno, dando um passo pra frente. Vejo o pavor passar rapidamente pelos olhos escuros do cidadão quando fala ‘peguem ele’ com os capangas.

Santo Hades. Dá uma de bandido, mas por dentro é uma princesa.

Seus guarda-costas avançam na minha direção, mas é muito fácil me desvincular deles. Uma das razões é porque estão de mãos vazias, se limitando às tentativas de acertar o punho na minha cara, a outra porque eles tinham quase dois metros de altura e pareciam mais armários. Eu, com meus um e sessenta e cacetada e peso de um garoto de treze anos normal, tinha muito mais facilidade para desviar dos golpes.

Mas (sempre tem um ‘mas’, brigas sem mas não são brigas de verdade) é lógico que não era o tempo todo.

Segundo, o cara com o queixo meio deslocado que mais parece um Pão de Açúcar ambulante, me acerta na barriga quando tento cortar a cabeça do terceiro. Bato de costas na parede, ficando sem ar por instantes. Caramba, espero que essa tal de Hannah seja semideusa mesmo, ou terei tido muito trabalho pra nada.

Não que eu fosse deixar ela morrer se fosse humana, sabe, mas.. Ah, enfim. Você entendeu.

— Perdeu a pose de Super-Homem agora, guri? — pergunta debochadamente o brutamontes, com certo sotaque latino na voz. Ele me agarra pela camisa e me levanta de uma vez, fazendo minha espada cair com um baque no chão.

Sinto o suor correndo pelo meu rosto, mas então olho para além do segundo. Foi uma questão de instantes, mas quando faço isso, vejo que Hannah está olhando pra mim. Ela ainda está caída no chão, com uma lâmina no pescoço, e me encara como se eu fosse sua única chance de sair viva daqui, o que talvez fosse verdade. Reparo também que seus olhos, que se encontram arregalados, são azuis. Mas não aquele elétrico como os da Thalia nem aquele escuro como eram os do Luke, e sim azul-bebê. Um tom mais claro, como os do céu acima da Casa Grande num dia sem nuvens.

Esses filhos da puta não iam me impedir de levá-la pro Acampamento. Não iam mesmo.

Sigo o exemplo da Hannah e chuto o segundo com o máximo de força que consigo, e ele cai de joelhos no chão, me soltando. O coitado começa a me xingar de alguma coisa, mas pego minha espada do chão e cravo em suas costas antes, fazendo-o virar pó instantaneamente. Então eles não são semideuses. São monstros.

Terceiro evacua quando vê o comparsa sumir (eu poderia dizer ‘quando vê o comparsa morrer’, mas todos nós sabemos que monstros são putos demais para algo tão simplório quanto morrer) começando a ter uma noção do perigo que o semideus branquelo pode causar. Corro em sua direção e ele tenta acertar a mãos em concha nos meus ouvidos, o que me deixaria tonto ou furaria meus tímpanos, mas me abaixo e dou uma cambalhota antes de ele me golpear. Me levanto atrás do sujeito, e num pulo, passo a lâmina em seu pescoço. Mais uma vez, ele some instantâneo ao golpe.

[Lembrete: Como minha pessoa disse lá em cima, é muito mais fácil eu desviar dos golpes deles do que o contrário. Tá vendo Deméter, não comer cereal e ser relativamente magrelo tem suas vantagens.]

Viro-me na direção do último monstro, Scott. Ele não está mais ajoelhado, e sim de pé, segurando Hannah com uma espécie de chave-de-braço, impedindo-a de respirar. Acho que ficou com medo por perder os guarda-costas (não falei, é uma princesa). Ele também está com o canivete contra pescoço da garota, onde passa sua jugular. Um corte, por menor que seja, poderia levar à sua morte.

— Dê mais um passo, Super-Homem, e a vadiazinha aqui perde a cabeça.

Olho de volta pra ela. Seu rosto está ficando pálido e os lábios azuis, e ela me encara desesperadamente. Não sei o que é pior, ficar parado e ela ser asfixiada, ou tentar ajudar e ela ser degolada.

Vida de semideus. A personificação da felicidade.

— Vá com calma, cara — abaixo a espada e levanto a mão livre num sinal de inocência — Solte a garota e eu deixo você ir.

Ela balança a cabeça negativamente, mas eu ignoro. Está sem ar e sem oxigênio no cérebro, não deve estar pensando direito. Scott ri com escárnio, e a prende com um pouco mais de força.

— Até parece. Vocês, semideuses, são mais sujos que o Caos.

As engrenagens de meu cérebro começam a girar, primeiro devagar, depois num ritmo acelerado, e então tão rápido que nem mesmo eu consigo acompanhar. Caos. Escuridão. Sombras.

Hora de testar seu nem tão talentoso talento para o teatro, di Angelo.

— Quer saber? — falo aumentando minha voz alguns tons, observando mais uma vez o beco sem saída. Coisa boa ele ser escuro — Não tenho nada a ver com isso.

Scott solta uma risada má, que ecoa nas paredes úmidas.

— Nem mesmo o semideus emo quer você, Hannah — ele olha pra mim com um sorriso superior — Covarde. Não aguenta nem ver um pouco de sangue de vadia derramado.

Cerro os dentes com o ‘semideus emo’, mas finjo despreocupação.

— Que se dane — dou de ombros — Não é problema meu, nem ao menos sei quem ela é. Mate-a.

— Com prazer — ele diz, no mesmo instante que pulo na sombra da parede ao meu lado. Coisa boa é uma viagem nas sombras de três metros de distância ser tão rápida que, quando piso em terra novamente, ainda posso escutá-lo dizer a última sílaba zer.

Fico atrás de Scott e coloco a espada contra seu pescoço, do mesmo jeito que ele fizera com Hannah. Ele se assusta com a lâmina fria em sua pele e solta garota, que cai no chão, tremendo.

— Pra sua informação é dark, não emo — falo por entre os dentes, certificando-me de que ele seria morto caso se mexesse.

— Você.. como.. — diz com pânico na voz, sem entender como eu surgi ali — Você é um filho de Hades?

Dou uma risada sem humor e quase que sombria. É o único tipo de risada que eu dou a anos, na verdade.

— Não. Não sou um filho de Hades — falo perto do seu ouvido — Eu sou o filho de Hades.

Então passo a lâmina em seu pescoço, e ele se desintegra. Um, dois, três já foram: touchdown.

Passo as costas da mão na testa. tirando o suor, e embainho minha espada novamente. Também manipulo a névoa com a mente de forma que ela não fique visível. É muito mais fácil andar por ai sem que as pessoas vejam que você tem uma espada e achem que vai, sei lá, ser um maníaco que terá prazer em decapitá-las.

Embora eu realmente goste de decapitar algumas pseudo-pessoas de vez em quando.

Ando até a suposta semideusa, que ainda se encontra encolhida no chão. Suspendo-a pelos ombros e, com cuidado, deixo-a sentada apoiada no muro. Vejo que seu pescoço está vermelho onde Scott segurou o canivete antes que ela põe as mãos em volta dele, tremendo. Me agacho na sua frente e enquanto espero alguns minutos sua respiração descompassada voltar ao normal, eu a observo discretamente.

Sua calça jeans e sua blusa que em algum momento longínquo devia ser branca estão bastante surradas, assim como os coturnos, indicando que ela deve estar nas ruas a muito tempo. Pelo mesmo motivo é difícil dizer o tom da sua pele, mas creio que seja um claro nem tão claro quanto eu. Também, ela tem algumas cicatrizes nos braços, que suspeito ser de situações como as de hoje, e entre os fios de cabelo loiros há também alguns pintados de roxos.

Ela parecia mais uma garota que você encontraria num show do Sex Pistols.

— Você está bem? — pergunto, quando ela volta a respirar normalmente. Hannah para de fitar o chão e olha para mim, com uma mão ainda no pescoço. É, não era impressão minha, seus olhos realmente são azuis.

Ouço um trovão ao longe no mesmo momento que sua expressão passa de atônita a raivosa. Antes que eu consiga ao menos começar a entender, ela fecha o punho da mão livre e me acerta no queixo.

~~

Parte II: Point of View — Hannah

Eu queria começar logo a contar sobre o dia que um garoto desprovido de melanina apareceu feito um tijolo desgovernado na minha vida, mas acho que a parte chata das apresentações deve vir primeiro. Certo, lá vai.

Oi pra você. Sabe a garota que quase perdeu o pescoço hoje? É, era eu. Muito prazer, Hannah. Ótimo, apresentações feitas!

— Você está bem? — perguntou o garoto, agachado na minha frente. Ele havia acabado de matar Scott, Marcus e Miguel, três dos maiores bandidos da parte não angelical de Los Angeles. Não que eu não estivesse feliz com isso. Na verdade, se eu pudesse, estaria jogando serpentina no túmulo deles enquanto cantava que no pare la fiesta.

Mas ele não havia exatamente matado, e sim evaporado os caras. As únicas vezes que eu já havia visto algo assim era o próprio Scott brigando com as gangues inimigas, o que acontecia com certa frequência. Normalmente, sempre que eu arranjava alguém com quem andar, o trio parada dura chegava e pá!, adeus comparsas. Havia cerca de um ano que eu rondava por aí, e desde meu primeiro dia de fuga eles queriam que eu me juntasse ao grupo. Por quê? Hmm.

Por isso eu não confiava no garoto branquelo parado à minha frente. Como eu poderia ter certeza de que ele era confiável? Quero dizer, quem era eu para não ser a próxima a ser evaporada? Foram essas e outras perguntas que me fizeram bater nele, ao invés de simplesmente responder a ‘você está bem’. O que, aliás, era uma pergunta bastante idiota. Tô ótima, tá vendo não? Quase fui decapitada por um panguá aqui. Sonho de consumo de toda garota!

Assim que meu punho acerta seu rosto, ele cai sentado no chão. Não estou com forças o bastante para deslocar alguma coisa, como fiz com Miguel, mas foi o bastante pra fazê-lo colocar a mão no queixo e olhar pra mim com os olhos castanhos indignados.

— Posso saber por que a senhorita me bateu? — ele começa a frase normal, mas sobe o tom no final. Ah, não é minha hora de responder às perguntas.

— Quem é você? — rebato, dobrando os joelhos na altura do peito e mantendo o máximo de distância entre nós. Leia-se vinte centímetros.

Ele mexe o maxilar, certificando-se de que está tudo no lugar. Reparo que sua pessoa tem uma obsessão não-saudável pela cor negra. Tudo em seu corpo, desde seu all-star até sua camisa com o desenho de uma caveira, é preto. Menos a pele, porque meu Deus, eu me pergunto aqui comigo mesma, como alguém consegue ser tão pálido.

— Meu nome é Nico. Nico di Angelo — responde, suspirando. Acho que desistiu de tentar entender porque levou um de direita no rosto — Não sou como eles, Hannah. Você pode confiar em mim.

Eu ia perguntar como ele sabia meu nome, mas então me lembrei de que Scott dissera me chamara de Hannah no mínimo meia dúzia de vezes.

— O que quer dizer com não ser como eles? Por que foi exatamente isso que Scott e companhia ilimitada falaram na primeira vez que os vi.

Ele passa a mão pela nuca, certamente pensando como explicar. Ah, tenho todo o tempo do mundo meu filho, não saio daqui até ter respostas.

— Eles eram monstros — diz, finalmente.

— Diga algo que eu não saiba.

— Não, é sério. Monstros de verdade — Nico me encara — Sabe a mitologia grega?

Ah, mitologia... Me lembra meus anos de escola. Era minha matéria preferida em história e filosifia. Certa vez tive de fazer um trabalho sobre as cidade-estado gregas, e acredite, a melhor parte foi assistir à 300.

THIS IS SPARTAAAAAAAAA!

— Sei sim — respondo.

— Então, não são mitos. É real — sua expressão está séria, então percebo que não está brincando — Por mais que seja difícil de acreditar os deuses são reais, e vez e outra têm filhos com mortais. Daí surgem meios-sangues, que numa explicação bem grosseira são humanos com características divinas. E é lógico que também têm os monstros, que como esses três que acabamos de ver, não fazem nada de bom na vida além atormentar semideuses.

Pisco. Pisco de novo. E pisco mais uma vez só pra confirmar.

— É informação demais pra minha cabeça — falo, tentando entender. Não que eu não acreditasse, sabe, ver pessoas virarem pó é quase que uma prova viva de que é verdade — Isso quer dizer que eles eram monstros de verdade — o indivíduo faz que sim com a cabeça — E você é um semideus. Fruto do shimbalaiê de uma divindade com um mortal.

— É isso aí.

— Filho de quem? Íris?

Ele faz cara de bunda.

— Hades. O deus dos mortos.

— Eu estava só brincando. Já suspeitava, pela caveira na sua camisa.

Nico olha para os lados do beco, até focar o olhar em algo. Ele se estica até pegar o canivete que pertencia a Scott, também conhecido como monstro com nenhum vocabulário além de ‘vadia’. Faço cara feia quando ele se agacha na minha frente de novo, segurando-o com a lâmina descoberta.

— Tira esse troço de perto de mim — falo, levando a mão ao pescoço outra vez.

— Calma, não vou machucar você. Só quero te mostrar uma coisa — o filho de Hades faz um corte na palma, e o sangue logo mancha sua mão de vermelho. Então ele estica o braço para pegar a minha, mas escondo-as atrás do corpo. Ele suspira — É sério.

Estico o braço relutante, e ele faz a mesma coisa: um corte superficial na minha palma. Como ele me segura pela mão com o corte, nossos sangues se misturam.

— Está vendo? — diz — Nenhum de nós dois virou pó. Pode confiar em mim.

Não é uma prova concreta de que ele é confiável, mas ao menos é de que não é um monstro. E agora pensando bem, quantos desses bandidos de Los Angeles não são como Scott e seus seguidores, também?

— Quer saber? Minha vida já é uma droga — respondo — Nada que você fizer vai conseguir piorá-la.

— Ótimo — Nico se levanta, e eu sigo seu exemplo — Tem um lugar chamado Acampamento Meio-Sangue, que é basicamente para gente como nós, e o Sr. D também, mas isso não vem ao caso. É o único lugar do mundo que os monstros não conseguem entrar. Além do Olimpo, eventualmente.

— Então pé na estrada, colega — digo, mas estou olhando pro canto do beco — Só me dá um segundinho? Tenho que pegar minhas coisas.

Ele franze a testa pra mim.

— Coisas?

Ando até o meu cantinho e pego meus únicos pertences, que são quase que minha vida. Um skate de quatro rodas levemente acabado (mas que ainda dá pro gasto, muito obrigada) e um livro pegado emprestado da biblioteca pública da Cidade de Los Angeles a oito meses atrás, que suspeito estar atualmente com uma multa do preço de minha alma. Paro de volta ao lado do filho de Hades, segunrando minha troxa, e ele continua com as sobrancelhas franzidas.

— Desde quando isso tá ai? — pegunta, enquanto lê o título do livro: Os quinhentos maiores nomes da Música mundial e suas influências.

— Desde sempre. Antes até de eu estar calmamente lendo a biografia do Fats Domino e cantarolando I’m With You, e os três canalhas aparecerem atrás de mim, e daí você aparecer pra chutar a bunda deles — suas sobrancelhas continuam, ainda, franzidas — Esse é meu beco, cidadão. Rua Presidente Eisenhower, entre os números 473 e 474.

— Eu já passei nessa rua várias vezes e nunca vi você — Nico corre os dedos pelo cabelo. Ele parece incomodado, mas eu dou de ombros.

— A gente só vê o que quer.

Minha intenção não era ser melodramática ou dar uma de coitada, mas pelo visto foi o que pareceu, porque ele olha pra mim com certa pena e resolve mudar de assunto.

— Mas o Acampamento, tipo, é o máximo — diz — Tem uma torre de escalada e de vez em quanto botam fogo nela, o que pode parecer meio masoquista, mas é um ótimo incentivo pra chegar no topo mais rápido.

Eu rio. Ele é uma pessoa muito mais divertida quando não está por aí degolando monstros e coisas assim.

— Aposto que coloco você e todos os outros no chinelo com meu treinamento de correr da polícia.

Nico sorri, mas não aquele sorriso normal que pessoas felizes como eu, você e o Zubumafoo dão, foi uma coisa mais... Sem emoção.

— Quem sabe? Seu soco foi tão forte quanto o de Clarisse. Talvez ela finalmente ganhe uma adversária à altura — me pergunto quem é Clarisse, mas acho que isso não é relevante agora — Pronta?

Respiro fundo teatralmente.

— Eu sempre estive pronta, Nicolau. Não estava brincando quando falei que corria da polícia, aguento caminhar daqui até onde diabo for o Acampamento — fico pensativa por alguns segundos — Mas aliás, é onde? Nos parques da Universal?

— Não, não — ele diz, casualmente — É em Long Island.

Não, pera.. Oi??

— Long Island? Em Nova York? — pergunto, com a voz esganiçada. Não tem KGB que dê treinamento pra atravessar os Estados Unidos a pé, cara.

— É isso aí — Nico fala com um sorriso na voz e logo depois agarra meu pulso. Antes que eu possa desistir e voltar pra calmaria do meu beco, ele pula numa sombra do muro, fazendo minha visão se escurecer de repente.

Notas finais do capítulo
Gostaram? *u*




(Cap. 3) Sou ‘reclamada’, assim dizer

Notas do capítulo
Heey pessoas! Ontem eu nao pude postar, tive sexto horário, ingles, ballet... Quase morri de cansaço x.x
Maaas eu nao poderia bater as botas no terceiro capítulo, neah? *Mó se acha*
Hahahahahaha entao obrigada pelas reviews, gente!! I love ya :3

POV Hannah

Aparecemos no meio de um acampamento, em cima de um morro. Hm... Bizarro. Num momento, estamos em Los Angeles, e de lá fomos para as sombras geladas como neve, depois... PLIM! No meio de chalezinhos felizes. Mas levando em conta as coisas estranhas que acontecem comigo, que NÃO são poucas, essa nem se destaca.

Eu olhei para o meu braço. Nico continuava o segurando, pelo meu pulso, mas olhava para os chalés, como se tivesse boas lembranças dali. Só nesse momento reparei em como ele era bonito. Sua pele era pálida, MUITO pálida mesmo, mas isso só fazia com que ele fosse mais fofo. Seus olhos eram de um marrom escuro quase preto, assim como seu cabelo, que ia até os ombros. Eu devo ter ficado lá babando, mas então ele olhou pra mim como se só agora tivesse se lembrado que eu estava lá, e eu fiz cara de desinteressada. Sabe como é, tenho uma má reputação a zelar.

– Então, Hannah, estamos no Acampamento Meio – Sangue, a casa dos, bem... meios – sangues.

– Ah, bem, legal, mas... – Eu pigarreei - Nico...

Ele fez uma cara confusa.

– Que foi?

Eu pigarreei de novo, só que mais alto.

– Que é? – Disse ele, irritado. Ai meu Deus. Garotos são lerdos. Eu olhei para o meu pulso, que ele continuava apertando (Eu não ficaria nem um pouco surpresa se minha mão caísse naquele momento), e ele ficou vermelho. Awn, que fofo.

– Ah. Foi mal. – Disse ele, me soltando. – Bem, já que você está lendo Odisséia, acho que não preciso te explicar sobre os deuses, e coisa e tal. Mas eu devo te apresentar a Quíron.

– Quíron? Eu... Eu já ouvi esse nome em algum lugar. – Foi estranho, era como se várias lembranças voltassem a minha mente e fossem embora tão rápido quanto chegaram. Nessa hora, dois homens vieram andando morro acima. Um era moreno e gorducho, o outro era alto e...

– Espere. - Eu olhei para cima. - Homem. – Eu olhei para baixo - Cavalo. Homem. Cavalo. Homem. Cavalo. Homem. Cavalo. Homem. Cavalo. Homem. Cavalo.

Ele me olhou meio assustado.

– Sou um centauro. Metade homem, metade cavalo.

– Aaaah, isso explica o porquê do homem, cavalo, ho... – Eu. To. Pirando.

O cara gorducho deu um grito.

– AH MEUS DEUSES! CALE A BOCA! VOCÊ JÁ ENTENDEU, ELE É METADE HOMEM, METADE CAVALO AGORA FAÇA O FAVOR DE... – Ele parou de falar, e me olhou com uma cara estranha. – Quíron, ela não parece... – O centauro levantou a mão, como se dissesse ‘Silêncio!’

– Espere, Sr. D. Qual é seu nome, garota?

Os gritos do gorducho me tiraram do transe (Homem. Cavalo. Homem. Ca... Tá, parei).

– Eu? Ah, ta. Hannah.

O Sr. D ficou branco como giz.

– Quíron! Ela é...

– Sr. D, vamos falar com Zeus primeiro.

Eu não estava entendendo bulhufas, e Nico estava tão confuso quanto eu.

– Eu sou quem? Eu já vim aqui? Porque eu não me lembro...

– Acalme – se, Hannah. Você tem quantos anos?

– Doze. Err, eu acho.

– E... Você toca algum instrumento?

Nico franziu a testa, e olhou para Quíron como se ele fosse doido.

– Quíron? O que isso tem haver...

– Espere! Então? – Ele olhou para mim. Eu fiquei vermelha, não gosto muito de contar vantagem.

– Bem, é... Eu toco piano, guitarra, bateria... essas coisas. Mas não pego em um desde que... – Eu me cortei. Eu prometi a mim mesma que nunca mais falaria sobre minha vida antes da rua. NUNCA.

Nico olhou pra mim como se eu tivesse acabado de dizer que era de Marte.

– Você toca tudo isso? Mas você não morava na rua, cacete? – Eu simplesmente olhei pra ele e dei de ombros. O Sr. D me encarou.

– Oh, então... – Eu achei que ele ia desmaiar ali mesmo.

– Ah, bem, você tem doze anos, então pode ser que seja reclamada hoje. – Quíron disse, mas não parecia acreditar muito em suas palavras – E então saberemos em qual chalé lhe colocar. Nico, você pode acomodá – la no chalé de Hermes, por favor?

– Sim, senhor. – E então Quíron e o Sr. D foram embora, me fazendo não ter escolha senão ir atrás de Nico.

POV Nico

Cara. Que estranho. Quíron e Dioniso falam como se já conhecessem a Hannah. Eu tentei falar com ela no assunto, mas depois da trocentécima vez que eu perguntei se ela já tinha vindo ao Acampamento ela se irritou.

– NICO! Eu já disse que não sei! Tipo, eu so me lembro do... – Eu esperei ela continuar, mas ela simplesmente olhou para frente e suspirou – Me desculpe. Mas é que... eu REALMENTE não sei.

– Ah. E que eles falavam como se...

–... Já me conhecessem – Ela completou – Sim, e eu tenho a impressão que também os conheço. Mas então... Como...

– Você quer mudar de assunto, não é?

Ela me olhou agradecida.

– Então, qual é seu chalé? Quem são seus pais?

Eu olhei pra ela assustado. Ela não tinha percebido?

– Hm, achei que fosse óbvio. Sou filho de Hades.

E então, uma coisa muito estranha aconteceu. Hannah arregalou os olhos, dobrou os joelhos e quase caiu pra frente. Se eu não tivesse a segurado, ela teria caído de cara no chão.

– Ei, Han? Hannah? Ta tudo legal com você?

– Eu... Eu estou bem... Só tropecei. – Ela não parecia nada bem, como se alguém tivesse dado um ‘Pedala, Robinho!’ nela.

– Tem certeza? É melhor eu chamar Quíron.

– Não. Não, tá tudo legal. Eu... Só preciso relaxar um pouco.

– Hum... Ok... – Nós entramos no chalé de Hermes, que estava surpreendentemente vazio. – Não se acostume, ele só fica assim na hora das atividades.

Ela sorriu.

– Ok. – Ela se sentou em uma das camas – Eu estou bem, certo?

– Se você diz... – Eu dei de ombros – Vou encontrar uns amigos por aí. Não quer ir?

– Não. Preciso digerir toda essa coisa de deuses e homem cavalo homem... – Nós dois rimos.

– Bem, até depois, então – Eu saí do chalé, e fui correndo até a Casa Grande.

POV Percy

Eu estava sentado na grama, com minha namorada Annabeth e Nico. Ele nos contava sobre a meio – sangue que ele encontrou em Los Angeles, e já estava quase no final da história.

– E Hannah disse que estava bem, mas ela quase caiu de cara, então eu...

Uma menina loira de roupas pretas/roxas e coturnos veio correndo na nossa direção, muito irritada. Seus olhos azuis soltavam faíscas (literalmente), e ela estava com os punhos fechados. O estranho é que mesmo que ela pisasse com força no chão, não fazia nenhum barulho. Nico e Annabeth estavam de costas para ela, então apenas eu tinha a visto. Eu pigarreei.

– É, gente, tem uma...

Antes que eu pudesse completar a frase, a garota chegou e deu um murro na cara de Nico. Ele deu um grito e se levantou.

– VOCÊ QUER FAZER O FAVOR DE PARAR DE ME BATER?

Eu olhei para Annabeth. Annabeth olhou para mim. Nós chegamos à silenciosa conclusão que era melhor ficarmos calados.

– VOCÊ CONTOU PRA QUÍRON! EU DISSE QUE ESTAVA BEM! – Ela ia bater nele de novo, mas ele segurou sua mão a cinco centímetros de seu rosto.

– VOCÊ NÃO VAI ME BATER DE NOVO, PORRA!

– MAS EU ESTAVA LEGAL! EU SÓ FIQUEI TONTA POR UM MINUTO!

Ele levantou uma sobrancelha.

– Você disse que tinha tropeçado.

Ela ficou vermelha.

– Eu... É... Que... EU TROPECEI E FIQUEI TONTA, CARAMBA! MAS NÃO FOI NADA DE MAIS! – Ela estava cada vez mais brava. Nico estava com a mão em sua espada, eu em Contracorrente e Annabeth em sua faca. – EU... EU...

Então, a coisa mais surpreendente aconteceu. Ela caiu sentada no chão, e começou a chorar.

– Descuu-uu-uulpee!! Eu n-não queria ter feito iiiiiiiiissoo! – Ela enterrou as mãos no rosto. Nico estava com uma cara de ‘what the f...’ – E que eu estou acostumada a morar na ruua. – Chuif – E lá as pessoas são más, Nico. Muito mesmo. – Chuif - Elas... elas não se preocupam com a gente. Então – Chuif – eu costumo me cuidar sozinha. Ter alguém que se importa como eu estou nunca acontece. BUÁÁÁÁÁ!!

Do nada, começou ter uma tempestade, que não passou pelos limites mágicos (Uhu), e Clarisse passou com sua lança, rindo.

– Awn, que bonitinho, o Bafo de Cadáver achou uma namoradinha tão retardada quanto ele!

Nico estava pegando a espada, mas Hannah foi mais rápida. Ela se levantou muito brava, diga – se de passagem.

– OLHA AQUI, SUA MOCRÉIA – Ai meus deuses, eu pensei, é agora que ela vai morrer -, EU TIVE UM DIA MUITO RUIM. ENTÃO SE VOCÊ PUDESSE FAZER O FAVOR DE CALAR A BOCA E LEVAR O SEU TRASEIRO GORDO PRA BEM LONGE DAQUI, EU FICARIA MUITO FELIZ!

– VOCÊ ME CHAMOU DE MOCRÉIA, SUA FIL... – Clarisse parou de falar. Isso porque tinha uma nuvem de chuva bem em cima dela. Ela ficou ensopada. Espere. Chuva... Água... Eu olhei para Hannah.

– Maninha! – Nesse momento, caiu um raio a um milímetro de mim – É, acho que não.

Clarisse estava confusa. Mas depois ela... Sorriu???

– QUE DOIDO, MANOLA!! COMO VOCÊ FEZ ISSO?

Hannah balançou a cabeça, atordoada.

– Eu não sei!

– Hum... Mas eu gostei! – Fala sério, Clarisse tem problema - Fique longe de mim, Garota Roxa, e nós vamos nos dar muito bem!

Hannah sorriu.

– O mesmo pra você, Garota Guerra.

– VOCÊ VAI TER QUE ME ENSINAR ISSO UM DIA! Passa lá no chalé cinco! – E daí ela saiu correndo toda molhada, levando a nuvem junto.

– Espere. – Annabeth falou – Você é a Hannah? De Los Angeles?

– Fala sério, Filha de Atena – Eu disse – Até eu tinha sacado. – Ela me deu um soco na barriga.

– Bem, sim, sou eu, e... Que barulho é esse?

Nico apurou os ouvidos.

– É a hora do almoço. Vamos, Han.

– Você não está bravo comigo? Eu quase desloquei seu maxilar.

Ele deu de ombros.

– Faz parte. Contando que você nunca me dê um Pra Matar, eu tô legal. – Os dois riram. Como assim, pra matar?

– Ei ei ei. Piada interna não vale. Como assim?

– Ah, é uma loooonga e estraaanha história... Mas tudo bem – Ela contou enquanto andávamos, e daí eu tive certeza que ela tinha mais problema que Clarisse. – Aqui é o refeitório?

Annie respondeu.

– Sim. Vamos entrar.

***

Quando chegamos, eu expliquei a Hannah essa coisa de oferendas, e tudo o mais. No meio do almoço, eu já estava entediado (As mesas de Poseidon e Atena ficam de lados diferentes do refeitório, por razões óbvias), e então comecei a prestar atenção na conversa de Hannah, Connor e Travis.

– Olá! Sou Connor Stoll!

– E eu sou Travis Stoll!

– E eu sou Hannah Seiládeque! Ei, vocês são filhos de Hermes, certo?

– Certo – Disseram os dois de uma vez. Como eles fazem isso eu não sei.

– E seus sobrenomes são Stoll?

– Sim. E daí?

– Por quê?

Hannah girou os olhos.

– Nada.

– Eieieieiei! Fiquei sabendo que você encharcou Clarisse! – Connor ficou animado – É sério?

– A Garota Guerra? Sim, por quê?

Os irmãos se entreolharam, e disseram de uma vez.

– NUUUUUUUUUUSGA!!

– Parabéns! – Disse Travis.

– É! Muito boa, Capitã Nascimento!

Hannah franziu a testa.

– Como assim?

– Você nunca viu Tropa de Elite? Mas você morava em Hollywood!

– Ei, inteligência – Me intrometi – Ele nem foi feito nos Estados Unidos, pra sua informação.

Connor ia reclamar, mas de repente deu um cheiro de Ozônio. Eu comecei a tossir, mas Hannah apenas inspirou o ar e sorriu.

Zeus apareceu no meio do refeitório, com seu impecável terno cinza. Ele passou os olhos pelos campistas assustados e parou em Hannah.

– MINHA FILHA! FINALMENTE!

Ele correu até ela e a abraçou. Ela ficou confusa.

– Com licença, senhor, mas eu te conheço?

– OH! Você não se lembra de mim – Ele falou, melancólico. Mas logo se endireitou – Eu sou seu pai, Zeus.

Todos ficaram chocados. Outra filha de Zeus??

– Ah, ta. – Hannah girou os olhos e falou em tom de deboche – Se você é Zeus, eu sou quem?

Zeus olhou para ela, com o orgulho saindo pelos olhos.

– Você é a senhorita dos céus, do som, da névoa e da tecnologia. Protetora dos injustiçados, fracos e oprimidos. Você, minha filha, é Hannah, deusa das nuvens e da música.

Notas finais do capítulo
E entao?? Gostaram?
O final ficou meio *muito* confuso, mas no proximo tudo vai ser explicado *Baixou um espírito de 1700 akie, gente...*
Hoje eu ganho reviews? :3




(Cap. 4) A reunião mais estranha de todos os tempos

Notas do capítulo
Hola personas!!!!!
Olha, tenho algumas noticias boas e ruins para contar.
Bem, vou começar das ruins:

-> O meu notebook quebrou, e isso significa que o meu cúmplice para escrever na madrugada não existe mais, agora só tenho o pc normal... E nele meus pais ficam de olho, ou seja tenho menos tempo para escrever/postar D:
-> Estou deprimida por causa do fato acima, o que significa que a minha criatividade está só para coisas trágicas D:²

E finalmente, as boas:

-> Sou um unicórnio precavido *Culpa do Tumblr, gente...*, então estive escrevendo a um tempinho... ou seja... estoque de capítulos *isso foi brega, admito*!! Eeeeeee!! Hahahahah mas estou escrevendo um pouco a cada segundo que meus pais me deixam sozinha, então espero conseguir não ter que postar mensalmente.... pois é, ne....
-> Eu não perdi media na prova de Geometria!! Uhul!!
Eu sei, voces estao pensando 'E eu com isso?', mas quando ficou sabendo, minha mãe deixou eu vir pra net todo dia! E eu nao vou tomar bomba!! Ebaaaaa :D

Entao, é isso, vou deixar vcs lerem logo, hahahah
Espero que te guste, personas!

Ps. O espanhol é culpa da prova de amanhã, to estudando pra essa merdita que nem doida

POV Nico

Zeus apareceu lá no meio do almoço falando que Hannah era a deusa das nuvens e de sei lá o que mais. Todos no refeitório olharam pra ela assustados. Ela não tinha cara de deusa; se você já viu as Olimpianas sabe do que estou falando. Uma deusa? De coturnos e cabelo roxo? Tá, até parece. Deu pra ver que ninguém acreditou muito em Zeus. A própria Hannah começou a rir igual a uma doida.

– Hahahahaha, ta bom, conta outra. Eu? Uma DEUSA? Fala sééééério, eu to mais pra maloqueira do que pra isso aí.

Quíron bateu a mão na cara, Dioniso começou a rir e Zeus já estava prestes a jogar uma descarga de um zilhão de volts na filha quando ele resolveu só estalar os dedos. E daí, tudo começou a girar.

***

Quando voltei a mim, estávamos na sala de recreação, o local das reuniões. Zeus, Quíron, Dioniso, Hannah, eu e todos os outros chefes dos chalés estávamos lá. Ninguém estava entendendo mais nada.

– Bem – Começou Zeus – Estamos aqui para falar sobre a volta da deu...

– EU NÃO SOU DEUSA NENHUMA, CARAMBA!

– É, Hannah, sinto lhe informar – Quíron disse – Mas você é sim, querida. Estava desaparecida há mais de um século.

– Mas então como eu não me lembro disso? Por que vocês não me acharam antes?

– Ora – Ele continuou calmamente – Você teve a memória apagada.

– E sobre resgatá – la... – Zeus disse com a voz falhando. Espere. Zeus? Emocionado?? Eu TINHA que ter filmado aquilo! – Ninguém conseguiu a achar, nem mesmo eu. – Modesto ¬¬’

– EU ERA UMA DEUSA ROXA MORANDO EM PLENA LOS ANGELES E VOCÊS NÃO ME ACHAM? APOSTO QUE VOCES MESMOS ME DESPACHARAM! E QUE COISA É ESSA DE EU SER A DEUSA DA MÚSICA? APOLO É O DEUS DA MÚSICA, ATÉ EU SEI DISSO!

– Bem, na verdade, eu era – Soou uma voz da porta. Apolo apareceu na sala com seu sorriso Colgate, fazendo todas as meninas suspirarem - Éons atrás, quando recebi as funções de Hélio, o ex deus Sol, eu fiquei muito atarefado. Faz idéia de quanta coisa eu sou deus? Sol, medicina, sabedoria, pragas, teatro, beleza, oráculo, poesia, tiro com arco... Até deus dos solteiros eu sou, não que eu reclame disso. – Ele deu uma risada maliciosa - Enfim, aí eu recebi uma pequena profecia, que dizia o seguinte. – Ele pigarreou, e fez uma pose dramática. Humpf. Convencido. As meninas suspiraram de novo, sendo Annabeth uma delas. Percy não ficou nem um pouco feliz com isso.

Agora, da música Apolo é deus

Mas então nascerá uma semideusa de Zeus

Deusa das nuvens ele a fará

E então o fardo da Música ela carregará

Ele terminou a profecia, e sorriu para Hannah.

– E então? Legal, né?

Mas ela estava preocupada com outra coisa.

– O fardo da música? Desde quando música é um fardo? QUER SABER DE UMA COISA? A música é importante pra mim! Quando eu escuto uma, eu NUNCA mais esqueço. COMO isso pode ser um fardo?

– Então, filha! Você acabou de admitir que é a deusa da música! – Zeus falou todo animado – Você nunca esquece uma. Somente Apolo era assim.

– É verdade! Eu me lembro daquela de Esparta! – Ele começou a cantar em grego - Apolo é o maioral! Super gato e animal!

Zeus se irritou. Já tava demorando.

– É, é. Tanto faz. E... Espere, nunca existiu essa música.

– Existiu sim.

– Não.

– Sim.

– Não.

– Sim.

– Não.

– MEU DEUS, NÃO ME IMPORTA SE EXISTIU OU NÃO! EU SÓ QUERO SABER COMO É QUE DO OLIMPO EU FUI PARAR EM HOLLYWOOD!

– Deuses. – Eu corrigi.

– O quê? – Ela me olhou como se eu tivesse acabado de dançar o Rebolation.

– Deuses. Você disse meu Deus. Mas é meus deuses.

– MEU DEEEEEEUS, TANTO FAZ! – É, ela nunca vai aprender.

– E, querida – Quíron falou – Você se lembra do que houve com, hum, seus braços? - Hannah olhou para si mesma.

– Ah, você diz essas cicatrizes? Bem, a maioria eu não sei, digo, não me lembro... Mas essas – Ela apontou para umas nos braços – e essas – mais algumas no pescoço – foram de brigas que, modéstia a parte, eu ganhei – Ela fez uma cara de 'sou phoda' e começou a discutir com Clarisse sobre brigas gregas e los angelenas, enquanto Quíron e Zeus se entreolharam e sussuravam visivelmente preocupados.

– E como vocês não me acharam? - Hannah disse depois que desistiu de tentar convencer Clarisse de que murros são mais doloridos que espadas. Acredite, eu já levei dos dois, e tenho mais medo de uma certa deusa estressada do que da filha do deus da guerra - Não tem nenhum tipo de GPS divino?

– Bem, Hannah – Quíron falou com cuidado – Tem sim. E seria o seu símbolo.

– Meu o quê?

– Seu símbolo. Assim como o de Zeus é o Raio Mestre, de Poseidon é o Tridente, de Hades o Elmo do Terror...

– O meu é a Lira! – Apolo gritou.

–... você tinha seu símbolo. – Quíron o ignorou.

Eu levantei a mão, como se estivesse numa sala de aula.

– E esse símbolo seria...?

Dioniso – Que estava lendo uma revista sobre vinhos – falou irritado.

– Ora! Até eu sei, Nicholas Ângelo! Qual é o símbolo ÓBVIO da música??

Percy bateu o dedo no queixo.

– Um violão?

Annabeth girou os olhos.

– Fala sério, Cabeça de Alga. Ta mais pra um piano.

Jennifer, filha de Afrodite e substituta de Silena, deu um pulo.

– Eieieieiei! Já sei! Um microfone! – Ela começou a cantar Barbie Girl com um microfone imaginário.

– Por favor, Jenny. – Katie Gardner, do chalé de Deméter, colocou as mãos nos ouvidos – Acho que poderia ser aquele treco de cinco linhas. Qual é o nome? Pauta, partitura, sei lá. Mas aí o símbolo dela é um papel?

– Uma clave – Hannah murmurou, olhando para a mesa como se estivesse em choque. Depois ela olhou para nós – É isso! Uma clave de Sol!! É o símbolo óbvio da música! (N/A: Pra quem não conhece... http://pt.wikipedia.org/wiki/Clave_de_sol)

Apolo franziu a testa.

– Ué, óbvio não! A mais bonita até que sim, lógico, é de Sol – Ele sorriu, e quase nos cegou – Mas não a óbvia! Tem a clave de Dó, a de Fá...

– Mas a de Sol é a mais usada, mais importante, assim dizer! É isso, não é? – Ela puxou um colar que tinha um pingente de clave de Sol com aquele ‘rabinho’ bem comprido, como se fosse...

– Um cajado? – Butch, filho de Íris, arriscou.

– Tipo isso – Apolo falou.

Hannah se levantou, de olhos arregalados.

– EU LEMBRO! EU ME LEMBRO DELE! Cadê??

Zeus mudou de posição, desconfortável.

– Bem... É por isso que não a achamos. Seja lá quem foi que a raptou, pensou em tudo. Ele foi despedaçado e o que restou foi jogado por aí. Seu ‘GPS’ divino, sua energia divina foi esgotada.

– Pai, eu não entendi bulhufas do que você falou.

– Você voltou a sua essência, Hannah. É como se você ainda fosse uma semideusa.

– Mas... Então como eu consegui fazer aquela nuvem na Garota Guerra?

Clarisse levantou os olhos da faca que estava afiando e disse.

– Meu nome é Clarisse. E é mesmo, aquilo foi muito DOIDO!!

– Err, acho que você está no meio do caminho entre semideusa e deusa.

Ela abaixou a cabeça e cruzou os braços.

– Eeee. Que legal. Sou a esquisita de novo.

Quíron andou até ela.

– Ora, Hannah, isso é bom! Significa que você terá não só seus poderes, mas também os de seu pai!

Ela pensou por um minuto, e então disse.

– Super normal. – Ela suspirou - Eu sou deusa do que mesmo?

Dioniso começou a rir.

– Deusa das nuvens... Inútil! Ser deus da loucura é muito mais legal!

Hannah o fuzilou com os olhos, fechou os punhos e os bateu na mesa.

E então, o Sr. D começou a gritar.

POV Hannah

Aff, Dioniso acha que só por que pode enlouquecer as pessoas ele é o gostosão. E, acredite, NÃO É. Enfim, ele disse que eu era inútil, eu olhei furiosa pra ele. E do nada, ele colocou a mão nos ouvidos e começou a gritar. Até que faz sentido o deus da loucura ser louco.

– NÃÃÃÃÃÃÕ! JUSTIN BIEBER NÃO! PELO AMOR DOS DEUSES!! (N/A: Se alguém aí gosta do Justin Bieber, me desculpe, mas eu imagino que ele não seja o cantor preferido dos garotos)

Eu continuava encarando pra ele, até que Annabeth passou a mão na frente da minha cara e eu voltei a mim.

– Ahn? Quié?

– Meus deuses, o que você fez?

– Eu? Nada.

Dioniso parou de gritar, bateu nos ouvidos e me olhou de cara feia. Apolo bateu palmas. Hmm... Ta, né.

– ISSO! FINALMENTE!!

– O que eu fiz?

– VOCÊ ME FEZ OUVIR ‘BABY’ NO VOLUME MÁXIMO! ISSO É TOTALMENTE INJUSTO! – Dioniso disse (ainda) furioso.

Nico franziu a testa.

– Como assim? Eu não ouvi nada. Felizmente.

– Nem eu! – Praticamente todos os outros campistas gritaram. Apolo girou os olhos.

– Ô SEUS BESTAS! Ela fez só Dioniso ouvir ‘Baby’, graças aos deuses.

Ai eu fiquei perdidinha.

– Ain?

– Ah, nada não. Só um truquezinho nosso. – Ele piscou pra mim, e eu corei. Fala sério, Apolo é muito lindo.

– Bem, ok, ok, tanto faz. Voltando. Eu ainda não acredito muito nessa coisa de deusa, só vou aceitar mesmo quando colocar as mãos nesse símbolo aí. Então, obviamente, precisamos ir atrás dele.

– NÃO! – Zeus gritou completamente assustado. Estranho. – VOCÊ NÃO PODE! Se alguém sumiu com você uma vez, vai fazer de novo. Você precisa ir para o Olimpo, e lá ficará em segurança.

– Não, eu quero achar esse troço ai – Eu falava num tom de desinteressada, mas na verdade estava animada para ir atrás desse tal símbolo. – Escuta aqui papis, todo esse tempo, tudo o que quis foi uma pista para descobrir quem eu era – Eu já estava ficando emo. Legal. – E agora eu estou a um passo de achar essa pista. E vocês NÃO vão tirar ela de mim.

– Hannah – Meu pai disse com sua melhor voz de Senhor Maligno dos Céus. – Você. Não. Vai. ENTENDEU?

Eu estava furiosa, mas assenti.

– Ta bom, papai.

– Ótimo! – Apolo disse enquanto pulava de sua cadeira. – Hannah, posso falar com você?

– Hum... – Eu hesitei. – Ééé... – Eu olhei para Nico pedindo ajuda – Você vem?

– Hannah, eu preciso falar com você em particular – Apolo falou sério – Você não se importaria com isso, né? – Ele levantou uma sobrancelha.

Nico olhou pra mim assustado e balançou a cabeça negativamente, mas já era hora de eu voltar a viver minha vida sozinha.

– Não, claro que não. – Eu disse enquanto o seguia até o lado de fora.

POV Nico

Eu não gostei daquilo de Apolo querer falar ‘em particular’ com Hannah. Mesmo ela sendo sua meia – irmã de doze anos, ele não brinca em serviço. Se é que me entende. Eu já estava indo atrás deles escondido para poder auxiliar se Apolo, ahn, provocasse algum incidente quando ouvi alguém me chamar.

– Filho de Hades – Eu me virei e era Zeus, com olhar de aversão – Posso falar com você por um minuto ou você prefere ir ver seu pai sem passagem de volta?

Pro Hades, por favor, eu pensei em falar. Mas aí que eu ia me fuder mesmo, então eu resolvi apenas segui – lo.

***

Zeus foi andando ao lado da floresta, e depois parou em frente aos campos de morangos.

– Preste atenção em uma coisa, Filho de Hades. Não pense que eu gosto de você. Meu ódio não mudou em nada. A questão é que vejo que minha filha tem certo apreço por você, então devo lhe avisar umas coisinhas.

– Sim, senhor.

– Certo. Primeiro: Se você quiser entender a Hannah, ouça o que ela canta. Agora que descobriu que é a deusa da Música, ela vai voltar a fazer isso bastante. O que é bem irritante, diga – se de passagem. Mas enfim, não adianta perguntar, isso só vai a fazer bater em você.

– Ok. Eu já descobri isso do pior jeito o possível.

– Segundo: Ela é muito imprevisível...

– Como as nuvens. Já que ela é deusa das Nuvens.

– Isso mesmo.

Uma coisa me bateu feito um tijolo na cabeça.

– Quando Hannah chorou, hoje de tarde, o tempo se fechou e começou a chover. E em Los Angeles, o céu ficou nublado, e ela entristeceu – Eu olhei para Zeus, sem medo se ele ia me fritar ou algo assim – Então o tempo muda de acordo com o humor dela ou o humor dela muda de acordo com o tempo?

– Huuum... Boa pergunta. É meio que os dois. Mas na maioria, o tempo muda de acordo com seu humor.

Eu olhei para o céu. Ele estava claro, mas com nuvens pesadas. Zeus seguiu meu olhar e falou.

– Isso é não é bom.

– Por quê?

Zeus me ignorou.

– Bem, meu tempo está acabando. Terceiro: Fique longe de minha filha. E eu tenho certeza que você entendeu muito bem o que eu quero dizer com isso.

Eu fiquei vermelho. Fiz um ‘joinha’ pra ele.

– Pode’xá.

– Ótimo. E se a vir, diga que vou passar aqui amanhã às 11h para levá – la ao Olimpo.

– Sobre isso, Senhor Zeus, acho que Hannah pode viver muito bem aqui no Acampamento. Não é preciso que ela vá para lá.

– Você não entende, Filho de Hades. Hannah precisa ir. Ela não é uma semideusa como você. Ela é uma deusa. E o lugar dos deuses é no Olimpo.

– Então por que o Sr. D mora aqui?

Zeus cerrou os dentes.

– Isso é um caso à parte. Sinto admitir que eu deva agradecer por você ter trago minha filha de volta. Então... – Ele fez uma careta, como se dizer aquilo lhe desse vontade de vomitar – Obrigado. Agora, adeus para você, Semideus. Espero poder te carbonizar da próxima vez que nos virmos. – Ele começou a brilhar, e eu virei o rosto. Quando o brilho passou, tudo o que restava era um cheiro de Ozônio.

Resolvi ir para o meu chalé. Hoje foi um dia confuso, e tudo o que eu queria era dormir um pouco, mesmo estando na hora do jantar. Eles sabem que às vezes eu só quero ficar na minha. Eu abri a porta e a única coisa que me lembro é que desabei na cama.

E acordei sendo sacudido nos ombros, com alguém gritando meu nome.

Notas finais do capítulo
Tchan tchan tchan tchaaaaan........ Mas não se preocupem, vou fazer de tudo para não demorar para o próximo! E desejem-me sorte para as provas de amanhã, personas :D

Ps. Um minuto de silêncio pela morte do meu notebook.... Buaaa vou sentir sua falta nooty :x




(Cap. 5) Fugas hipotéticas (Ou nem tanto)

Notas do capítulo
Oooie gente (:
Bom, lembram que o Nooty morreu? Entao, eu pedi pro meu pai levar ele pra consertar, mas ele disse que vai ser bom eu ficar um tempo sem computador.... hunpf... e meu tumblr, minha fic, como ficam?
Enfim, né, esse capítulo é o maior até agora.... É porque só vou poder postar segunda, quarta e sábado agora, então resolvi dar um bônus :D

POV Nico

Eu acordei num pulo. Não é bem normal alguém te sacudir e gritar seu nome, sabe? Quando eu vi quem era, me assustei mais ainda.

– Hannah?!? O que em nome de Hades você está fazendo aqui?!?!?

Ela estava sentada na beirada da minha cama, e me olhava com uma cara estranha, como se estivesse em transe.

– Han? Hannah? Que foi?

Ela continuava olhando pra mim. Medo.

– Hannah. Você. Quer. Fazer. O. Favor. De. Me. Dizer. O. Que. Você. Está. Fazendo. No. Meu. Chalé. As. Duas. E. Meia. Da. MANHÃ????

Ela balançou a cabeça, como se estivesse acordando.

– Ain? Ah, foi mal – Ela disse completamente vermelha – Éééé, caham, me faz um favor. Coloca isso. – Ela jogou pra mim a minha camisa preta, que estava embolada no chão. Enquanto eu colocava, ela olhava pro teto.

– E agora vamos fingir que isso nunca aconteceu. Certo? – Ela disse ainda envergonhada, assim como eu.

– Certo. Mas o que você esta fazendo aqui mesmo? – Eu disse desconfiado.

– Ah, por nada. E só que... Ai, não. EU NÃO ESTAVA TE ESPIONANDO, ENTENDEU? E só que dava pra ver pela sua cara que você ia atrás de mim e Apolo, mas no fim você não apareceu e eu fiquei preocupada. – Eu levantei uma sobrancelha. Ela olhou pra mim e arregalou os olhos – NÃO PREOCUPADA PREOCUPADA. Só preocupada confusa, sabe? Ai eu resolvi vir aqui para... bem... é... como dizer... contar... como... foram... as... coisas...

Eu a fitei.

– Apolo não, você sabe... – Ela me olhou confusa por dez segundos e depois corou.

– Ah, não. Não. Claro que não. Ele só me explicou essas coisas da Música, e talz. Eu não entendi muita coisa, só uma de como... – Ela parou de falar.

– Como... – Eu tentei encoraja – la a contar.

Ela balançou a cabeça.

– Nada. Ignore o que eu disse. E, caham, Nico – Ela passava a mão no cabelo que era tão bagunçado quanto o meu – Fiquei sabendo que você fugiu do Acampamento no seu primeiro ano.

– É – Eu respondi meio grogue.

– Hum... – Ela sorriu, satisfeita consigo mesma. Depois se voltou para mim – Se eu, hipoteticamente fosse, hipoteticamente fugir, o que eu hipoteticamente teria de levar?

– E por que você hipoteticamente iria hipoteticamente fugir?

– É pra uma questão do dever.

– Por isso tudo hipotético, né?

– É claro.

– É pra aquele dever de ‘Aprendendo a Fugir’, da aula prática com Quíron?

– É claaaaaaro!

– Bem, hipoteticamente falando, você deveria levar o quê você hipoteticamente iria precisar.

– Dãh. Certo. E eu hipoteticamente precisaria de...

– Dãh digo eu. Você é que sabe o que você iria precisar.

Ela apertou os olhos pra mim.

– Nico. Um dia atrás eu vivia com um livro e um skate. Não sou muito boa com essa coisa de mala, sabe?

Então eu apertei os olhos pra ela.

– Então, Inteligência. Você hipoteticamente teria de levar seu livro, seu skate e, é claro, ambrosia, néctar, roupas e essas coisas aí.

Ela olhou para cima, pensativa.

– Hum... Interessante... Hipoteticamente falando, é claro.

Eu respirei fundo. Por acaso ela pensa que eu sou retardado?

– Bem, agora que você já sabe o que hipoteticamente deveria levar, me diga por que você realmente está aqui. Porque eu posso jurar pelo Rio Estige que não foi falar de fugas hipotéticas.

Ela suspirou tristemente.

– É que essa coisa de deusa me confunde, sabe? Por exemplo: Apolo disse que, como deusa da tecnologia, posso fazer coisas tecnológicas aparecerem do nada. Mas eu estou à meia hora tentando fazer aparecer um iPod, e até agora não deu em nada! – Ela bufou e cerrou os dentes. Foi impressionante o quanto ela pareceu o pai naquele momento. – E Apolo também disse para eu cantar. Hum, ok, eu simplesmente vou sair cantando por ai? Em público? Não, né, por favor! Tenho minha dignidade.

– Mas é uma boa ideia fazer o que os deuses mandam; a não ser que você queira acordar debaixo d’água.

Ela estremeceu como se o simples fato de imaginar a cena lhe desse arrepios. Depois lembrou que eu estava lá e fez uma careta.

– Ai. Ta bom. Mas só não reclama depois. – Ela pigarreou.

(N/A: Me, Myself and Time – Demi Lovato)

Eu vou onde à vida me leva

Mas às vezes ela me faz

Querer mudar minha direção

Às vezes eu fico sozinha

Mas eu sei que é apenas

Uma questão de percepção

Eu só entrei neste novo mundo

E eu estou de coração aberto

Eu sei que eu tenho um longo caminho a seguir

Mas eu estou apenas começando

E eu sei que tudo vai ficar bem

Comigo, eu mesma e o tempo...

Agora eu entendi aquela coisa de ouvir o que ela canta, total. Por que mera coincidência não foi, com certeza.

– Então? Foi tão ruim assim? – Ela perguntou quando terminou.

– Ammmn, nem tanto. Mas era uma música bem... sincera.

– Hum... verdade.

Não sei por que, mas eu me lembrei de um jogo que eu costumava jogar quando era pequeno. Primeiro eu hesitei, mas depois pensei que jogar com Hannah seria... interessante. (N/A: Não pensem merda não, viu, seus mentes poluídas!)

– Ei, Hannah, quer jogar Pingue – Pongue?

– Ahn? Pingue – pongue? Às duas da manhã? Nico, você tem problema? A sala de recreação fica do outro lado do Acampamento, quase morri pra vir andando de lá até aqui. Sem contar o fato que eu não gosto muito de raquetes, você pode sem querer acertar a cara de algum ser inocente que está passando atrás de você; não que eu já tenha feito isso, é claro, a não ser aquela vez que...

– Deuses. Você fala demais. Não é esse pingue - pongue, é um jogo que minha irmã inventou quando eu era menor. Por que tem esse nome eu não sei, então não me pergunte. Enfim, as regras são simples: Eu pergunto, você responde, depois troca.

Ela mexeu no prendedor do cabelo, desconfortável.

– Que perguntas?

– Qualquer uma. Vale tudo. E tem de responder a verdade.

– Meu Deus, eu vou me arrepender, mas... Ta bom. Vai logo com isso.

– Certo. Mas jure pelo Rio Estige que vai ser sincera.

– Ta. Eu juro pelo Rio Estige que vou falar a verdade.

Trovão. Aê! Deu certo!

– Ai Deus – Ela choramingou – No que eu fui me meter?

– Tarde demais – Eu fiz minha melhor cara de ‘se ferrou’.

– Humpf. Veja lá o que vai perguntar. Eu jurei que ia falar a verdade, não que não ia deformar a sua cara.

– Muito bem, vou pegar leve com você – E isso era verdade. Por mais que eu goste do Mundo Inferior, eu prefiro não morar lá permanentemente – Primeira pergunta: O que aconteceu hoje naquela hora que você quase caiu de cara no chão?

– Quando?

– Aff, não banca a desentendida. É lógico que você sabe, foi quando estávamos indo ao chalé de Hermes.

– Amm, lembrei. É que... Ah, não foi nada. Eu só tive uma... visão.

Eu me inclinei para frente, visivelmente interessado.

– O que exatamente você viu?

Ela piscou com força e mordeu o lábio.

– O vulto de alguém dizendo ‘Talvez possa não ter sido hoje, Hannah, mas não se preocupe: Em breve eu conseguirei cumprir a minha promessa de elimina – la.’

– O QUÊ? Você tem a visão de alguém dizendo que queria te matar e você diz que não é nada?! Hannah, você não entende? Essa pessoa certamente é a mesma que te raptou do Olimpo! E por que você não quis me contar? Por que não disse para Quíron, ou até mesmo a seu pai?

– Olha aqui, Nico, eu não vou me preocupar com isso agora. Só quero ter um tempo para pensar e me acostumar com a vida nova. – Ela parou e piscou – Nossa, isso pareceu resolução de Ano Novo. Enfim, por que você não faz perguntas normais, como ‘Quais são as coisas mais estranhas que você faz?’, ou algo do tipo?

Eu concluí que seria melhor tocar nesse assunto num outro momento. Como Zeus disse, perguntar só me daria um olho roxo.

– Ta, tanto faz. Sem estresse. Quais são as coisas mais estranhas que você faz, então?

– Ei, eu não disse pra você fazer essa pergunta! Era pra ser alguma do tipo, mas não essa!

– Que pena. Eu já fiz.

Ela bufou.

– Sabe o que é uma fobia?

– Aham. Medo irracional de alguma coisa.

– NÃO É IRRACIONAL! É COMPREENSÍVEL! - Ela parou para respirar e se acalmou - Mas enfim. Eu... ahn... tenho uma.

– Que seria...

– Não, você vai rir de mim. Sempre riem.

– Eu não vou rir. E você jurou pelo Rio Estige.

– Hidrofobia.

Espere, hidro? Então...

– De água?

– Aham.

– Água?

– É, bem, não exatamente. De rios, piscinas, banheiras, lagos e do mar sim, mas não do chuveiro. – Ela olhou para mim, que estava à beira de um ataque de risos – Ei, não era pra você rir de mim! Digo, é compreensível. Não estou a fim de me afogar.

– Você chama Clarisse de mocréia na cara dura, mas foge de banheiras. Okeei. Super normal.

– Ei, é normal! Hum, talvez.

– Fala sério! Thalia tem medo de altura, você de água. As filhas de Zeus são tão covardes!

– Covarde?! Pois então se você vai ficar me zoando, eu vou embora. – Ela se levantou irritada. – Eu ia te contar do plano confidencial que eu bolei depois do jantar que você não foi, mas não é mais importante. Tchauzinho. – E foi se dirigindo a porta.

– Foi mal! Desculpe! Mas que plano confidencial?

Ela parou em frente e saída e deu um sorriso misterioso/maligno.

– Como eu disse, não é mais importante. Você já tem seus amiguinhos corajosos, não é? – E bateu a porta com força, me deixando curioso e sozinho no meu chalé.

POV Hannah

Acordei com o sol batendo em meu rosto. Olhei no relógio – 6:37 da manhã.

– Aff. Pelo amor de Deus, Apolo, se mata.

Ah, sim, esqueci de avisar. Falo sozinha de vez em quando. Voltando para a história, eu tentei dormir de novo, mas a claridade era tamanha que me obrigou a levantar. Xinguei o deus Sol de uns nomes nada lisonjeiros e olhei a minha volta. Avistei um pequeno papel ao lado de minha cama, e nele estava escrito o seguinte:

‘Hannah, imagino que o imprestável do Filho de Hades tenha esquecido de lhe avisar, mas passarei aí no Acampamento às onze para busca - la. E não se preocupe, não mudamos nada em sua velha casa no Olimpo. Ainda está aquela bagunça pelos cômodos, como você deixou. Seu pai, Zeus’’.

Humm... Bagunça pra tudo quanto é lado? É, era eu mesmo.

Espere, meu pai tinha me mandado um recado por Nico e ele tinha se esquecido de avisar? Hunf, típico.

Quero dizer, ontem ele me chamou de covarde! De todas as pessoas, justo eu! Dá pra acreditar? DÁ PRA ACREDITAR?! Não, eu pensei, não pense nisso. (N/A: Lol). Eu tinha de me concentrar em arrumar as coisas, e não podia me distrair. Porque, na verdade, eu tinha um plano secreto: Eu não ia pro Olimpo coisa nenhuma. Ia fugir, procurar meu Símbolo nem que tivesse de morrer fazendo isso, e depois voltar com ele toda feliz e o esfregar na cara do meu pai. Mas pra isso eu não podia me esquecer de nada; eu não poderia voltar para pegar alguma coisa que esqueci porque estava pensando no Nico. Então, vamos lá, arrumando!

1) Meu skate - Confere

2) Meu livro - Confere

3) Minha mochila com coisas do Acampamento que Connor, Travis e eu roubamos, digo, pegamos emprestado ontem da loja – Confere

Terminei de arrumar minhas (poucas) coisas e olhei novamente no relógio – 6:41. Repassei meu plano de fugir, e instantaneamente me lembrei de uma música que combinou com o momento. Em menos de cinco segundos, me esqueci que deveria estar indo embora e comecei a cantar e dançar feito uma louca no meio do chalé.

(N/A: Natasha – Capital Inicial)

Dezessete anos e fugiu de casa
Às sete horas da manhã do dia errado
Levou na bolsa umas mentiras pra contar
Deixou pra trás os pais e namorado
Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar.

O mundo vai acabar
E ela só quer dançar
O mundo vai acabar
E ela só quer dançar, dançar, dançaaar

Eu estava lá mó feliz cantando quando me senti observada. Sabe quando você tem a leve impressão que alguém está atrás de você, te encarando? Pois é, foi justamente assim. Fiquei calada, e quando virei tinha certa pessoa me olhando com uma cara que era a mistura de ‘what the f...’ e um ataque de risos. Meu rosto ficou do tom da mecha roxa de meu cabelo.

– AH MEU DEUS NICO O QUE VOCÊ FAZ AQUI?!?

Ele estava do lado de fora do chalé, com os cotovelos no parapeito da janela rindo histericamente.

– PUUUTZ VOCÊ TINHA QUE VER A SUA CARA!!!! Ou melhor, eu devia ter filmado isso e colocado no Youtube! Foi MUITO engraçado, você tava toda ‘Ela só quer dançar’ – Nico me imitou dançando, e eu poderia ter enfiado a cara na parede naquele momento.

– Mas são SEIS da manhã!

Ele tentou segurar o riso.

– Hahahaha... é que... hahah... eu sempre vou cedo para a arena treinar com a espada, quando ela ta vazia. Hahahah... Fica mais fácil... ha... assim. Ai eu tava indo pra lá e... hahahahah! Eu vi você mó... HAHAHAA!

– Você não tinha o direito de aparecer no meu chalé às seis da manhã! Isso é propriedade privada!

Ele parou de rir e me encarou.

– Propriedade privada? Tem certeza? Mas não foi você que me acordou hoje às duas e meia?

Merda.

– Uéé, mas foi diferente! Você não estava tendo um momento suuuper pessoal!

– Eu estava DORMINDO. Quer algo mais pessoal que isso?

– Quero.

– Aff, vá te catar. E por que você está dançando em plenas seis horas? Seu pai só vai chegar às onze.

– Ah, sim, obrigada por me avisar com antecedência. - Eu fui irônica - Mas eu não estou indo para o Olimpo. Estou fugindo. – Eu saí pela porta com minha trouxinha - Tchau pra você, Nico. Mande um abraço ao Percy, a Annie e aos irmãos Stoll.

– Espere – Ele me alcançou correndo e me segurou pelo braço – Onde você está indo?

– Dãããh. Já disse, estou fugindo.

Ele me olhou com cara de ‘se mata’.

– Eu sei que você está fugindo. Não sou retardado. Eu quis dizer fugindo para onde.

– Para achar o meu símbolo. A Clave Feliz, sabe?

Ele olhou para mim, para os chalés (que estavam surpreendentemente silenciosos) e depois para mim novamente.

– E como você pretende fazer isso? Sozinha? Com esse tanto de monstros soltos por aí?

Uéé, tem algum outro jeito?

– Claro. Por quê? Você quer ir junto? – Eu disse sarcasticamente.

Ele deu de ombros.

– Quer saber? Aqui está muito chato mesmo, to atôa desde que cheguei. Vou com você.

Eu gritei apressada.

– NÃO! Ou melhor, não precisa. ^^’

– Tem certeza? Eu tenho um exército a meu comando.

– Quem? O Percy e a Annabeth? Uau, grande exército esse seu. – Eu ri. Ele me olhou irritado.

– Não. Um de mortos.

E eu podia morrer sem saber disso.

– E, além disso, – Ele continuou – eu sou seu guardião.

– ...meu guardião?

– E que são muitos semideuses. – Ele olhou para mim – Err... Ou quase isso. Mas não é essa a questão. Os sátiros são poucos para tantos... é hum... pessoas ligadas a mitologia grega. É isso aí, pessoas ligadas à mitologia grega. Então agora quem trouxer o semi... ou melhor, a pessoa ligada a mitologia grega é o guardião dela.

Eu coloquei a mão na cintura.

– Que desculpa esfarrapada, hein, meu filho?

Ele ficou vermelhinho.

– Ei, é verdade! E por incrível que pareça, seu pai tem razão. Quando a pessoa que apagou sua memória descobrir que você lembra de quem realmente é, ela vai atrás de você. Então você precisa de alguém com habilidade para te... hm... ajudar quando essa pessoa aparecer. E você lá sabe como achar seu símbolo?

– Sei. Apolo me disse como. E por que eu iria querer a sua ajuda? Ontem você me chamou de covarde, esqueceu? Bem que dizem que quem apanha sempre lembra, mas quem bate sempre esquece.

– Ei, foi você quem bateu em mim. Duas vezes! E eu já me desculpei por ter te zoado.

– Mas por que você quer ir tanto assim, hein? Hein? Posso saber?

– Ora, por que... bem, digamos... – Eu pensei que ele diria algo como ‘me preocupo com você’, ‘ia ser trágico se você morresse’ ou até mesmo ‘é muito perigoso você ir sozinha’. Mas não, veja lá o que me aparece – É que quando seu pai descobrir que você fugiu, ele vai tacar raio em todo mundo e ontem ele disse que gostaria de me matar da próxima vez que nos víssemos. Então eu prefiro estar bem longe daqui quando isso acontecer.

Grrr que droga! Se Nico fosse comigo ia ser, hm, tenso, mas se meu pai o incinerasse eu também não ficaria nada feliz! E agora, o que eu faço?

– Está bem – Me ouvi falando – Mas eu já estou de partida. Então...

– Não se preocupe. Eu não costumo levar malas. Quando você mora por uns tempos no Mundo Inferior, aprende a viver com o mínimo.

– Am, ok. Na verdade, é até bom que você venha, já que preciso de um guia. Você conhece Nova York? Por que lá é a nossa primeira parada.

Antes que Nico pudesse responder, duas pessoas surgiram da floresta de mãos dadas, e sussurrando um pouco alto demais.

– Falando em Nova York... -Nico murmurou.

– Hannah? Nico? Por que em nome de Atena vocês estão aqui?

– Annabeth? Percy? Por que em nome de Zeus vocês estão aqui?

Annabeth deu de ombros.

– Por nada. Agora é a sua vez.

– Estamos fugindo – Nico respondeu. Eu lhe dei uma cotovelada.

– CALE A BOCA!

– Putz, foi mal, mas tenta colocar menos força da próxima vez.

Percy segurou o riso.

– Oooh, que fofo, vocês dois fugindo juntinhos.

– NÃO! – Eu gritei completamente envergonhada. – Não é nada disso. E que eu estava indo atrás do meu Símbolo, ai Nico apareceu e se ele ficar aqui é provável que meu pai vá o incinerar ou fazer um desses trem ai que ele faz. E isso não ia ser legal.

– Nem um pouco – Nico enfatizou.

Annabeth franziu a testa.

– Mas fugindo assim? Do nada, para procurar algo que foi despedaçado há um século e está espalhado por aí?

– É claro.

Percy e Annie se entreolharam. Pude perceber que estavam conversando algo silenciosamente como:

Annabeth: Não podemos os deixar sozinhos!

Percy: Bem, sim, mas também não podemos ir embora assim, do nada.

Annabeth: Cale a boca, Cabeça de Alga! Isso é sério!

Percy: Eu sei! Também não quero ser incinerado.

Annabeth: Então... A gente vai fugir também? Junto com eles? Por que eu não acho que dois menores vão conseguir viajar o mundo por ai.

Percy: Am, Annie, nós temos dezesseis. Somos menores também.

Annabeth: VOCÊ ENTENDEU! ò.ó E aí?

Percy: Se Hannah não bater em mim, eu topo. Já basta você me socando o dia inteiro.

Annabeth: Awn, você sabe que eu te amo!

Percy: Aham, Sabidinha ¬¬’

Eu tinha a leve impressão que se não disséssemos nada eles ficariam ali o dia inteiro, e meu plano (nem tanto) confidencial de fuga iria pra cucuia. Resolvi dar um basta na ‘conversa’.

– Am, gente, então nos vamos indo. Sabe como fazemos para chegar a NY?

Annabeth estalou os dedos, desconfortável.

– Hannah, olha... Eu, digo, nós achamos que... Bem, vocês podem precisar de ajuda, então...

– Vocês querem ir conosco achar a minha Clave da Felicidade.

Nico franziu a testa.

– Achei que fosse a Clave Feliz.

– Ah, feliz, felicidade, dá na mesma. Mas então, vocês querem ir com a gente achar a Clave Feliz ‘barra’ da Felicidade?

– Como você sabe? – Percy perguntou

– Ah, foi a mesma desculpa que Nico usou por não querer ser carbonizado...

– Ei!

–... e então acho melhor irmos logo – Nós já estávamos na divisa do Acampamento, do lado da estrada.

– Como a gente pretende ir? A pé? – Percy perguntou.

Eu abri a boca para dizer algo, mas senti que era observada novamente. Uma voz soou atrás de nós:

– E vocês achavam mesmo que tinham conseguido me enganar? Hahahahaha... Amadores. Pois vocês não vão a lugar nenhum.

Notas finais do capítulo
Não me matem pelo suspense, pessoas! Até sabado (:

Ps. Tipo, meus pais querem me obrigar a ir num casamento irritante sábado que vai demorar quase o dia todo, mas nao se preocupem, posto até por iPod se for preciso :D




(Cap. 6) Hannah faz alguns haikais pra lá de profundos

Notas do capítulo
Heey people! Aqui está mais um capítulo pra vcs (:
E esse ta beeeeim piquininho, mas e q agora eu vo vê se posso fazer um pouco - só um pouco! - menor, mas mandar mais rápido. Facilita as coisas pra mim e pra vcs :D

POV Annabeth

– APOLO?! – Todos nós gritamos ao mesmo tempo.

– E aí gentem!

Hannah ia avançar no deus Sol, mas Nico foi mais rápido e a segurou. Enquanto isso, eu estava super-hiper-mega-ulltra-über irritada.

E AI? COMO ASSIM E AI? E aquele papo de \'vocês não vão a lugar nenhum\'? – Eu gritei na cara de Apolo. Ele deu de ombros.

– Só queria ser dramático. Sou o deus do teatro, sabiam? :D

Ah, ta. Ótimo motivo pra quase me matar do coração. Também te amo, Apolo.

– Whatever – Percy disse -, o que você faz aqui?

– Pelas minhas contas, esse é o quarto ‘o que você faz aqui’ que eu ouço hoje. - Nico murmurou.

– Ora, eu sou o Sol...

– Ah! Essa eu conheço! – Hannah o interrompeu e começou a cantar– ‘Eu sou o Sol! Eu sou o Sol! Sou eu que brilho pra você meu amor!’

– Perdeu uma bela oportunidade de ficar calada – Nico disse. E eu concordo.

– Hunf – Ela cruzou os braços e mostrou a língua - Pois você também.

Apolo pigarreou.

– Voltando ao assunto, eu sou o sol. Posso tudo. Vejo tudo. Ouço tudo. Inclusive quando certo alguém chama você de nomes nada lindos de manha. – Ele olhou descaradamente para Hannah.

– Foi mal. Mas você me acordou, caramba!

Nico olhou pra Apolo raivosamente. Humm... Interessante, esse fato.

– Então quer dizer – Eu me virei para Apolo – que você acordou ela para...

– Uééé – Ele me interrompeu – Na verdade eu te acordei também.

Cara, aquilo foi constrangedor. Ai foi a vez de Percy olhar raivosamente para Apolo. Hannah olhou para os garotos depois para o deus.

– Caramba, se olhar pudesse matar você tava fudido.

– O negócio é o seguinte – Ele disse ignorando os olhares maléficos – Eu joguei luz na cara de todos vocês e os trouxe até aqui. Ou vocês acharam que estarem os quatro na mesma hora e no mesmo lugar foi mera coincidência?

Humm, eu não tinha pensado nisso.

– Aham – Todos nós respondemos ao mesmo tempo. Apolo se assustou.

– Meus deuses, até você, filha de Atena? Isso merece um haikai!

– NÃO! – Percy, Nico e eu gritamos. Mas era tarde demais. Hannah só ficou com uma cara de... Bem, a mesma do Percy quando eu começo a falar sobre a arquitetura de Dédalo.

Eu vou ajudar

Se Han fizer um haikai

Melhor que o meu

Houve um minuto de silêncio. Depois, Hannah o quebrou rindo.

– Caramba, esse foi horrível. E olha que foi o primeiro que eu ouvi.

Apolo grunhiu.

– Você entendeu. Faça um haikai melhor que o meu e eu irei os ajudar.

– Melhor que esse até eu fazia – Nico gozou, e Hannah riu novamente.

– Olha, Apolo, eu adoraria – Suuuper falsa – Mas eu não faço idéia de como se faz um haikai – É claro que ela sabe.

– Então eu vou fazer um haikai de como se faz um haikai! - Apolo disse animado.

– NÃO! – Todos nós gritamos.

Cinco sílabas

E agora mais sete

E cinco. Pronto!

– Entendeu? Ou quer que eu desenhe?

– Desenho, por favor.

– Olha, gente – Nico entrou na frente dos dois. – Desistam. Vamos andando mesmo. Nova York fica a quanto tempo de carro? Meia hora? Três andando? Ótimo!

– Ferrou – Eu choraminguei. Andar as seis da manhã REALMENTE não é meu forte.

– Já sei – Hannah disse, e nós a olhamos surpresos. Seria ela capaz de fazer um haikai? o.õ

Belo sabiá

Seu cocô no meu capô

Só trouxe fedor

Eu devia adivinhar que só isso poderia vir da Hannah. Ela olhou orgulhosa para nós, que estávamos de queixo caído. Nico apontou para ela.

Esse foi o seu haikai? Sobre cocô de passarinho?

– Foi melhor que o de Apolo, com certeza. Olhem – Ela pigarreou.

Meu haikai sobre

Fezes falou, mas lá no

Fundo já ganhou

– Certo, eu estava errada – Eu disse – ESSE foi o pior haikai que eu já ouvi.

– Aaah, admitam. O meu foi beeeeeeeem melhor que o de Apolo.

Nós pensamos por meio segundo.

– É, foi mesmo.

– Aff, ta bom. Seu haikai foi melhor que o meu. Seu poema foi melhor que o do deus dos poemas. Grande coisa. – É, ele estava com o ego ferido - Mas enfim, algo me diz que minha ajuda está chegando em – Apolo olhou no relógio – cinco, quatro, três, dois...

De repente, eu ouvi uma voz familiar vindo da floresta.

– MAS QUE MEEEEEERDA!!!! – E então o meu ex-pior pesadelo chegou à nossa frente.

Notas finais do capítulo
E então? *--* Até segunda, hahahahaha!
E não quero ser chata, mas minhas reviews tao diminuindo... A historia ta ficando tao entediante assim?? D:




(Cap. 7) Uma nova companheira bulustruca

Notas do capítulo
Hello guys :D
Mais um capítulo pra vocês :)

POV Percy

– RACHEL?!

Minha amiga ruiva vinha andando enquanto xingava bastante, ainda com o uniforme da Escola de Moças e com uma mala enorme.

– Hunf. Mala idiota. Tinha que quebrar a rodinha justo agora! – Ela praguejou em grego e olhou para nós - Ah, e ai pessoal? Tudo beleuza?

– Apoooooolo! – Annie batia o pé no chão. Ela ainda não superou direito o lance da Rachel – A Rachel? Desde quando isso é ajuda, querido??

– O que você quis dizer com isso, Annabeth Chase? – Rachel perguntou.

– Aaah, naaada!
Apolo pigarreou.

– Ué, quer algo melhor que o oráculo numa brava e difícil jornada...

– Ai, lá vem - Hannah suspirou.

– EI!

– Eu conheço você? – Rach apontou para a maloqueira de coturnos.

– Não.

Ela deu de ombros.

– Legal. E eu sei que vocês acham estranho que eu esteja aqui agora sendo que eu deveria chegar só na semana que vem, mas acontece que ontem eu estava em uma prova de geografia quando uma amiga me mandou um bilhete pedindo a cola da capital de Bangladesh e eu comecei a falar uma profecia. Cara, que vergonha. Assim, não que eu me lembre, mas a diretora disse que eu falei a capital não só de Bangladesh, mas também da Turquia, Mongólia, Butão e as respostas da prova do semestre que vem.

– Então – Apolo disse - agora que Rachel está aqui ela pode ajudar vocês e...

– Peraperaperaí – Rachel jogou a mala no chão e fitou Apolo – Ajudar? Então foi VOCÊ que me fez falar aquela profecia??

– Ahn... Veja bem... Na verdade... Meio que sim.

Ela ficou imóvel, olhando fixamente para o deus.

– Ops – Ele disse.

Ela continuava imóvel olhando fixamente para ele.

– Fudeu pro teu lado, mermão - Nico riu.

Ela ainda continuava imóvel olhando fixamente para ele.

– Com certeza – Hannah murmurou.

Ai a Rachel explodiu.

– AQUELA MALDITA PROVA VALIA UM TERÇO DA NOTA FINAL, SEU DEUS FILHO DA...

– Bulustruco.

Rachel parou no meio da frase e olhou para a Hannah.

– O quê?

A deusa deu de ombros.

– Filho da puta é uma frase muito pesada. Então eu prefiro falar bulustruco no lugar. Mas também uso pra irritante, chato... Coisas assim.

Nico a encarou.

– Você fumou alguma coisa?

– Olha, eu não quero ser mal educada, mas... Dá. Pra. Calar. A. Boca?

– Ui, ela ta brava. Ta de TPM?

– TALVEZ EU ESTEJA MESMO! ALGO CONTRA ISSO?

– HANNAH! – Apolo gritou – Sem estresse! Não ia ser legal se tivesse uma tempestade de raios agora. Então, se acalma!

Ela respirou fundo.

– Ta bom. Mas não e minha culpa se esse ser aqui fica me irritando.

– Eu?! – Nico olhou para ela ultrajado – Eu irrito você? E você que me irrita!

– Fala sério! É você que...

Rachel se virou para mim e Annabeth.

Eles me lembram alguém.

– NÃO LEMBRAMOS NÃO! - Nico e Hannah gritaram ao mesmo tempo.
- EEEEI! TODOS VOCÊS FIQUEM CALADOS! – Apolo deu um grito tão alto que e capaz de ter acordado todos os campistas – SE VOCÊS FICAREM FALANDO FEITO UNS POBRES NA CHUVA EU NÃO VOU AJUDAR NINGUÉÉÉÉM!
- Bem, posso até ser pobre, afinal só tenho um skate e um livro, mas chuva não! Apesar de estarmos na fronteira mágica eu controlo as nuvens, então...
- Maninha... CALA SUA BOCAAAAAA! - Todos nós ficamos calados e olhamos para Apolo. É raro o deus Sol explodir desse jeito, e nós realmente não queríamos ter de ir a pé até NY. – Pronto, me acalmei. Tenho mais duas ajudas. A primeira é isso. Toma – Ele entregou uma coisa pra Hannah.
- What? Apolo, você me deu uma lanterna?
Ele riu.
- Aperta esse botão – Ela fez o que ele mandou, e ela acendeu. Hannah jogou a luz na cara do deus. Ele franziu a testa.
- Amn, não era pra isso acontecer. Ah, sim, é do outro lado. Foi mal.
- Apolo, se esse treco me der um choque eu não vou hesitar antes de te bater.
- Hehehe preocupa não Han. Vai valer a pena.
Ainda hesitante, Hannah fez o que foi pedido e em menos de cinco segundos a lanterna se transformou em um violão.
– ÓÓÓÓÓ!!! Que chiiiique!!!!! Ameeei, Apolo!
- Eu sabia que você ia gostar. E se transforma em qualquer instrumento que você quiser. Só temporário enquanto você não acha o seu Símbolo, sabe?
- Certo. E você disse qualquer um?
- Qualquer um.
- Até um cajón?
- O que é cajón? – Eu perguntei a eles. Que como sempre me ignoraram.
- Até um cajón :D
- AAAAH! Isso é tão fofo da sua parte, Apoooolo! Valeu mesmo! – Hannah abraçou o deus, que riu satisfeito.
Eu me virei para Annabeth.
- O que diabos é cajón?
Ela deu de ombros.
- Ah, é um instrumento inútil. Nada importante.

- Tá, né. Explicou bastante. Valeu.
Nico pigarreou e disse irritado.
- Ta, ta, já entendemos. Você deu uma Discoteka inteira pra ela. Legal. E a terceira ajuda?
- Ah, sim – Apolo soltou Hannah e alongou os braços – Já estava me esquecendo. – Ele estalou os dedos, e então um enorme trailer estava em nossa frente. – Sejam bem vindos ao seu novo carro.

Notas finais do capítulo
Agora deu pra entender o nome do capítulo, ne? Hahahahaha eu sou doida, admito ^^
Até quarta! Deixem reviews, plz :)

Ps. Eu usei 'bulustruca' no sentido de irritante, ok? Eu nunca xingaria a Rachel, s2 her :3




(Cap. 8) Restart entra em cena

Notas do capítulo
Hello, gente! *Eita, to poliglota*
E ai? Ta tudo bem com voces?
Hahaha hoje eu to muito estranha, eu sei, mas e que eu estou feliiiiz!! Por que? Não faço ideia. Bem, na verdade é porque 'ele' falou comigo por livre e espontânea vontade, mas isso é um outro tópico. Whatever. Mas enfim, HUAHUAHUAH, aqui está o proximo pra vocês... Mas antes queria agradecer a Brunaah e a Cannibal_ pelas reviews e a recomendação *--* morri akie qdo vi x.x Well, I love ya guys! s2
Hahahahahaha
'You know that I'm a crazy bitch, I do what I want when I feel like it! All I wanna do is lose control! Oh, oh!'
Foi mal gente, e que eu to com essa musica na cabeça desde ontem '-'
Tá, ne.... Acho que acabei de mostrar o quão normal eu sou.
Haha
Sooooo, have a good read :D

POV Percy

Aquela foi uma cena bizarra. Sério. Estávamos olhando para a 'coisa' e Apolo olhou orgulhoso para nós.

– E então, pessoas? O que acharam? Eu mesmo fiz o design.

– Isso é uma ofença ao meu ser – Nico falou com cara de bunda.

Nós estávamos sem palavras, literalmente. Até Hannah e Rachel que costumam ser tagarelas olhavam atônitas (N/A: Atônitas = perplexas, hahaha sou uma pessoa culta!) para o trailer em nossa frente. Ele era pouco maior que um caminhão, mas não era o tamanho que assustava. Ele era como um ônibus da turnê do Restart (N/Percy: Não que eu já tenha visto algum, né, mas fazer o que; a autora tem cara de quem já foi no show – N/A: EI! Fala sério, eu desfarço meu ódio por eles tanto quanto o Nico e a Hannah desfarçam seu amor. Ou seja, não tem disfarce u.u – N/Hannah: SHUT UP! - N/Nico: CALE A BOCA! - N/A: Eita povo estressado... Távoufalarrapidinhovocêssegostamsim! Fuck yeah! Ganhei!), tipo multi-colorido. Roxo, verde, preto, branco, rosa, vermelho, azul, laranja.... Mas não parava por aí não, afinal tudo que é ruim sempre pode piorar. Nele ainda estava escrito 'Be true, be you :D' com alguns sóis desenhados. Nós só ficamos lá observando aquela tragédia quando finalmente alguém resolveu quebrar o silêncio.

– APOLO! O QUE SIGNIFICA ISSO?

– Uai maninha, não gostou não?

– Pra falar a verdade, eu... - Percebi que Hannah ia falar alguma merda que nos faria nos dar mal, mas então Nico tapou a boca dela com a mão.

– Olha, o que Han quis dizer é que ele podia ser menos espalhafatoso, sabe, tipo preto e... AI! - E nesse momento ele gritou porque o ser loiro ao seu lado o mordeu – Caralho! Tá sangrando!

Ora – Ela disse enquanto limpava o sangue da boca com toda a calma do mundo. Eu apostei com Rachel quantos segundos ia demorar para que eles começassem a se matar – Eu costumo morder as pessoas que colocam a mão gelada na minha boca.

– Você queria o quê? Que minha mão fosse quente? Meu pai é Hades, não desse aí – Ele apontou com a cabeça para Apolo – E agora por causa da minha ascendência meu anel tá sujo de sangue.

– Não foi por culpa da sua ascendência, aliás nem sei o que isso quer dizer, foi por culpa sua mesmo.

– Tá, gente, parem com isso e… - Apolo começou a falar, mas Rachel o repreendeu.

– Tsc, tsc, tsc... Apolo, Apolo, em briga de namorado e namorada ninguém mete colherada.Eu, Annabeth, Rachel e Apolo começamos a rir como doidos, enquanto os outros dois atingíam uma tonalidade vermelha no rosto. – Porra Rachel – Nico falou – Até você?

– Olha aqui meu filho, eu sou a oráculo, né? Sou boa com essas coisas.

– É, enfim, né, não queremos nenhum homicídio por aqui – Annie, que estava calada até agora, disse – Vamos ser racionais e educados. APOLO! COMO VOCÊ EXPLICA ISSO?

– Foi o que eu perguntei! - Hannah exclamou indignada, mas seu irmão a ignorou.

– Poxa, eu fiz com todo o carinho – Ele falou todo melodramático – E é assim que vocês me agradecem?

– Não estamos agradecendo - Rachel disse, o que fez o deus se irritar mais ainda.

– AFFE! Vocês só sabem criticar?? Graças ao Sol tudo tem cor, então graças ao Sol isso tem cor! Pronto!

– Agora fala sério, tinham que ser todas? Sem enrolar por favor, estou ferido e quero ir ao acampamento pegar um pouco de nectar e ambrósia! - Nico falou irritado, e eu segurei uma risada. Ele ficou mais irritado ainda – Ela tem dentes fortes, tá?

E verdade, olha – Hannah tentou pegar minha mão enquanto eu estava destraído, mas felizmente Annie foi mais rápida.

– Sem matar meu namorado, por favor!

– Ué, eu não ia matar ele, só ia arrancar um pedaço de sua mão – Ela disse como se tivesse alguma diferença entre os dois – E Apolo, meu filho, Nico tem razão. Se fossem umas três cores, até que ia, agora precisava ser o Arco-Íris inteiro? Vão achar que é um circo, ou se não o trailer vai ser invadido por fãs loucas! Vão achar que é turne do Restart (N/Percy: Não falei?)! – Ahn... Bem... - Apolo começou a se explicar, mas de repente, PUF!, ele desapareceu. Eu, Rachel e Nico começamos a xingar o deus, Annabeth colocou o rosto entre as mãos, e Hannah começou a bater a cabeça no trailer. Depois de uns cinco minutos ela parou e olhou para nós. – Alguém tem uma Neusaldivina aí?

– Eu até tenho, mas depois desse trocadilho ridículo eu não vou te dar. - Muahahahaha e por isso que eu amo a Annie.

– Aaaaaah tá bom, né. Pessoas sem senso de humor são difíceis. Mas então, o que a gente faz agora??

– Ora, você que falou com Apolo. O que ele tinha mandado a gente fazer? - Nico falou.

– Hum...Xo've... AH! Ele disse que a gente ia precisar passar no Olimpo, mas eu acho que a gente tem que parar pra comprar tinta preta primeiro. Ninguém merece esse Arco Íris. – Por mais que ela tivesse razão ('Be true, be you' ? Tá falando sério, Apolo?), eu pensei em mais um ponto importante.

– Gente, vocês não acham melhor a gente ver por dentro? As vezes não é tão ruim assim.

***

POV Hannah

Sinceramente, eu não entendi essa do Trailer-Restart de Apolo. 'Be true, be you'? O que eu fiz para merecer isso?? Mas, bem, o que ele tinha de brega por fora tinha de enorme por dentro. Parecia que deciplicava (Essa palavra existe? Foda-se, a partir de agora sim) de tamanho, parecia até uma casa! Se os deuses podem fazer coisas assim, aaaah, mal posso esperar para ser uma de verdade. Eu estava com cara de 'OOOH!' quando Percy me chamou para ver um cômodo no fim. Era o quarto, pois haviam as camas. Até ai tudo bem, mas depois eu me liguei em um pequeno detalhe.

– Só tem três.

– Três de casal – Rachel corrigiu.

Percy deu de ombros.

– E daí?

– E daí que os dois pombinhos não tem nenhum problema com isso – Nico falou -, mas nós três temos.

– Olha, uma já é nossa, o resto vocês que se decidam aí. Boa sorte – Annabeth foi embora e levou o Percy junto. Portanto sobramos eu, Rachel e Nico. Eu começei a falar.

– Bem, pessoas, vamos ser racionais. Nós somos duas garotas e um menino.

Nico olhou para mim com cara de bunda.

Nossa, voces são garotas. Eu sou menino. Valeu.

– Aaah, você entendeu. Voltando... Somos duas MENINAS e um GAROTO. Então, vamos ser racionais! O melhor a fazer é... - Nesse momento eu fiz uma cara filosófica

– É...

– É...

Eu peguei minha mochila, saí correndo e pulei em cima de uma delas.

– Boa sorte pra vocês dois!

– Owowowowowow! Desde quando isso é o melhor? - Nico gritou.

– Ué é o melhor pra mim :D

Rachel chegou e me empurrou da cama, me fazendo cair de cara no chão.

– Ei!

– Bela racionalidade essa sua – Ela disse - Mas olha, dá certinho: Percy e Annabeth = 2; Hannah e Nico = 2; eu e o Oráculo = 2! Viu? Nunca se contesta a matemática!

– Ah, fala serio – Eu tenho a leve impressão que Nico já estava cansado de tudo aquilo. Mas era uma questão importante, né? - Olhem, é simples: Vocês duas são garotas, não? Então vocês ficam juntas e eu sozinho.

– NÃO! - Nós duas gritamos ao mesmo tempo.

– Eu fico sozinha! - Gritei.

– Eu! - Rachel gritou.

– Eu! - Foi a vez de Nico gritar.

– Eu sou o oráculo! Eu prevejo o futuro, e o futuro me diz que EU VOU FICAR SOZINHA!

– Eu sou a deusa! Tenho direito de ficar com mais espaço!

Nico olhou para mim com cara de 'dãã'.

– Até ontem você nem sabia disso.

– Mas agora eu sei! Aaaah, isso me lembra uma música! - Eu começei a cantar de olhos fechados - 'Agora eu já sei, que me falta sempre a razão! Traduzir melho...' - Quando abri os olhos percebi que eles olhavam pra mim com cara de 'wtf?' Ah, tá, voltando o assunto. E, olha, deusa da tecnologia igual a deusa das camas!

Rachel riu ironicamente.

– Realmente, são duas coisas muito parecidas.

– Aff, tenta dormir num toco de madeira então! - Acredite em mim, não é fácil.

– Vocês duas parem de...

Annabeth chegou pisando com força no quarto.

– VOCES TRÊS! CALEM A BOCA! EU QUE VOU SEPARA ESSE TREM AI! – Mas.... - Eu começei.

– NADA DE MAS! - Ela parou para respirar - Olha: Rachel, você fica sozinha, afinal você é o Oráculo de Apolo e também tem que, ahn... Permanecer longe de garotos. Nico e Hannah na outra. PRONTO!

Nico caiu de joelhos no chão e colocou a cabeça entra as mãos.

– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!!!!!!!

Eu estava indignada. Por que isso foi acontecer???

– Mas Annabeth...!

– CHEGA! Calem a boca vocês dois! Pelo menos não vão ter que aturar os roncos do Percy.

– EU OUVI ISSO! - O dito cujo gritou sei lá de onde.

– Aaah, você sabe que é verdade, Cabeça de Alga! - Annie gritou de volta e foi atrás dele. Rachel, que estava esparramada na sua cama disse.

– Muahahahahahahahaha se ferraram! >:]

– CALA A BOCA RACHEL! - Nós dois gritamos ao mesmo tempo. Ela começou a rir - Agora eu já tô de boa aqui mesmo, então tanto faz. Bem, boa sorte pra vocês aí. E tentem não se matar, eu estarei tomando café – Ela saiu com a malinha, e então restou apenas eu, Nico e um silêncio mortal.

– Então... - Eu começei – A gente se fudeu.

– FOI O QUE EU DISSE! - Rachel gritou da cozinha.

– SHUT UP! - Gritei de volta. Nico começou a rir.

– Bem, melhor com você do que com o Percy – Ele disse e nós começamos a rir que nem doidos, até Annabeth chegar e dar um tapa na cabeça de cada um.

Vocês dois, deixem ele em paz! Apolo não deixou motorista, Percy vai ter que ir dirigindo até o Olimpo e o trânsito tá uma merda, prévia de duas horas. DUAS HORAS! Entenderam? Então, fiquem quietos! - E com essa feliz afirmação ela foi embora.

– Bem, vou tomar banho – Eu disse – Enquanto isso você pode, sei lá, dormir. A gente faz tipo um revezamento, sabe?

– Hum, por mim, tudo bem. Não tenho nada melhor pra fazer mesmo – Ele se jogou na cama e adormeceu instantaneamente. Percebi que Percy não era o único que roncava. Coitadinha de mim.

Deixei ele lá semi-morto e fui para o banheiro. Deixei minha roupa para depois do banho separada (Até parece que eu ia sair andando por aí de toalha, né? Por favor) e entrei debaixo do chuveiro, deixando minhas más lembranças irem com a correnteza (N/A: Eita gente, filosofei agora).

Notas finais do capítulo
Eeeei espero reviews, ok?
E sem querer estressar, mas se você le a fic mas nao comenta, FAÇA O FAVOR DE ESCREVER ALI EMBAIXO AGORA, viu?
Huahsauhsash eu e meu estresse... Fazer o que, né?
Mas entao, até sabado! To quase terminando o proximo...
Beijos! :*




(Cap. 9) Sonhos, lágrimas e confissões

Notas do capítulo
Heey gente! :3
POR FAVOR ME DESCULPEM A DEMORA!!!!!
Mas e que minha criatividade foi embora, tava em epoca de prova, AS REVIEWS DIMINUÍRAM, tava atolada de dever...
Pois é, vida dura...
Mas enfim, agora acho que so vou poder postar semanalmente D:
E teoricamente era pra esse serem dois capitulos, mas eu demorei tantos éons que eu resolvi juntar xD
Whatever
Entao... não me matem!!!

POV Nico

No meu sonho, eu estava em Los Angeles. Reconheci o letreiro de Hollywood ao fundo, e à frente um colégio grande e antigo; na fachada haviam muitos alunos por isso imaginei que fosse término da aula. Resolvi entrar e saí andando pelos corredores para tentar descobrir porque estava sonhando com aquilo, e foi quando reconheci um ser humano de cabelo bicolor perto dos escaninhos.

Hannah estava andando rápido (Ou correndo devagar, depende do ponto de vista) pelos corredores e resmundando algo sobre garotos idiotas, ao mesmo tempo que colocava (Leia-se: Tacava) trilhões de livros dentro da mochila (N/A: Menina multi-tarefa). Tirando a expressão demoníaca, ela estava totalmente diferente: Arrumada (Se é que coturnos, jeans preto e blusa dos Ramones podem ser considerados arrumados), não-anorexa e com o roxo do cabelo não desbotado. Me perguntei se isso seria uma visão do futuro, afinal antes ela morava na rua, certo? Acabei indo atrás dela, ninguém podia me ver mesmo.

Ela parou em frente uma sala meio isolada do mundo e olhou pela janela. Sim, tinha uma janela para dentro da escola, vai entender. Mas enfim, dentro havia cerca de dez alunos com cara de delinquentes juvenis e uma professora na frente lendo uma revista. Só podia ser detenção. Hannah corria os olhos apreensiva por toda a sala, procurando alguém, quando seu olhar parou em um garoto sentado no fundo. Sabe aquele tipo de cara que costumam chamar de bad boy? Então, podemos dizer que o ser era um desses. Cabelo loiro espetado, jaqueta de couro, correntes prata no pescoço e cara de que-se-foda-o-mundo. Hannah começou a acenar para o Fulano de um jeito bem discreto, mas já que depois de cinco minutos ele não percebeu, ela resolveu apelar: arrancou uma folha do caderno, amassou e jogou em sua cara.

– Mas que mer- Ele parou depois que a viu pela janela, acenou com a cabeça e gritou – E aí, Punk?
Hannah se abaixou enquanto a professora olhava os alunos, e depois de se certificar que era seguro levantou do esconderijo.

Seu idiota! - Ela esboçou com os lábios

– Não grita, ela vai matar a gente!

Fulano (Vou chamá-lo assim, pra facilitar) faz cara de 'wtf?', fez um sinal para ela esperar e depois pegou um celular do bolso. Meio segundo depois começou a tocar American Idiot, e me aproximei do celular para conseguir ouvir a conversa.

Quié? - Pude ouvir ele sussurar.

– Eu disse pra você não falar alto, seu idiota!

– Ah! Também te amo, Punk.

– Não me chame de Punk! - Ela falou brava, mas tinha sorrido quando ouviu o apelido.

– Foda-se. Mas enfim, o que a senhorita faz por essas bandas? Explodiu a sala de química de novo?

– FOI UM ACIDENTE!- Ela gritou e se escondeu de novo – Ah, merda! Ela tá olhando?

– Olhando? Nem percebeu.

Ah. Digo, não foi por querer. Como eu ia saber que clorato de potássio e fósforo vermelho explodem quando misturadas? - Ela explodiu um colégio. Por que eu não estou surpreso com isso? - Mas tá, não, eu ainda não matei ninguém hoje, a não ser a aula – Fulano começou a rir.

– Wow, você aprende rápido, Punk – Ele disse, e ela ficou vermelha – Também, com um professor ótimo como eu.

– Tá, né. Tanto faz. Mas é que o senhor pegou o meu dinheiro de ir embora emprestado, lembra? Agora eu não posso pegar o metrô até você estar liberado.

– Iiih, pode arranjar um violão pra pedir esmola ai minha filha, porque ainda falta quase uma hora e meia pra terminar.

– WHAT? Tá me zoando, né?

– Não mesmo.

Ela bufou.

– Affs. Então, tá. Eu vou esperar aqui só uma hora. Mais nada.

– Na verdade, é uma e meia.

– TANTO FAZ – Ela desligou e sentou debaixo da janela – Merda, uma hora e meia no tédio. Valeu, Muke.

Ah, então esse era o nome do Fulano.... Muke. Estranho.

– Lalalala, sleep all day – Ela começou a cantarolar, mas parou com cara de 'wtf?' – Por que raios eu tô cantando Sean Kingston? Ah, foda-se, o Muke não tá aqui mesmo – Ela continuou.

Nota mental: Lembrar deste acontecimento e zoar ela pelo resto de sua vida.

(Party All Night – Sean Kingston)


Nós gostamos de dormir o dia todo e festa a noite toda!

É assim que gostamos de levar a vida!

Eu tenho a sensação de que tudo vai dar certo

Então vamos lá, vamos lá!

Nós gostamos de dormir o dia todo e fazer festa a noite toda!

É assim que gostamos de levar a vida!

Eu tenho a sensação de que tudo vai dar certo

Então vamos lá, vamos lá!

Vamos fazer festa essa noite!

Então do nada, enquando ela estava lá em seus devaneios, Muke saiu da sala e agachou do seu lado.

Que isso, minha filha, Sean Kingston? Tá baixando o nível...

– Muke?! O que você tá fazendo aqui fora? Só passaram uns... Ahn... TRÊS SEGUNDOS!

– Sei lá o que aconteceu, só sei que do nada todo mundo caiu, fraga? Como se eles tivessem tomado 'Boa noite, Cinderella'. Ai enquanto todo mundo dormiu, eu aproveitei tá dar o fora.

– Hm... Interessante. Mas você não acha suspeito o fato de todo mundo ter dormido, menos você?

– Não...

Engraçado, depois dela ter cantado uma música com a palavra 'dormir' o povo todo caiu no sono... Eu nunca vou entender esses poderes ninjásticos dos deuses.

– Hey, então, como foi seu dia, Punk? - Ele perguntou enquanto eles iam andando.

– Ah, normal... Aquela coisa da Lindsay me irritou na aula de novo. Eu juro que, se ela ousar chegar perto de mim de novo, eu dou um Pra Matar na hora.

– NÃÃÃÃO!! Você não pode matar a Lindsay! Ela é gata demais pra morrer.

– Ah, esqueci que ela é sua próxima vítima – Ela falou de cara fechada.

– É a próxima? Você quis dizer 'era a próxima', né? No passado? Por que ontem...

– Ah, seu pegador de uma figa!

– AAAH! PAARA! Livros são feitos para ficarem na mochila, não para serem jogados nos outros!

– Ah, cala boca! Aposto que você já pegou esse colégio inteiro.

– Inteiro? Não, não. Corrigindo: Já peguei quase todas as meninas desse colégio. É bem diferente, sabia? E pra serem todas só falta certa estressada cujo nome eu não vou citar.

– Affs. Eu sou a única menina sã desse lugar.

– Desde quando alguem são taca livros nos outros?

– Desde sempre! Obrigada por me lembrar do meu hobbie – Hannah pegou o livro (Que devia ter a grossura de Guerra e Paz) e saiu correndo atrás de Muke. Depois de uns cinco minutos de perseguição ela o alcançou, rindo, mas ele estava sério.

– Hey, o que foi? Você está estranho esses dias.

Ele estalou os dedos, desconfortável

– Ahn, claro que não. Tá tudo de boa

– Muke – Hannah parou na frente dele – Eu te conheço, sei que tá escondendo alguma coisa de mim.

– Não, é só que...

– Não enrola.

– Espera! Meio que... Ah, deixa pra lá.

– MUKE! EU VOU FAZER VOCÊ FALAR NEM QUE SEJA À FORÇA!

– Fuuu!

– VOLTA AQUI SEU BULUSTRUCO!

– Ela saiu correndo atrás dele (Sim, ele tinha fugido da batalha outra vez... Tsc, tsc, tsc, lamentável), mas ele conseguiu ir para o refúgio do banheiro masculino antes que ela conseguisse o alcançar

– MUITO MADURO DE SUA PARTE! Muke? Muke?? MUKEEE!!! Ah, então tá! Eu vou ficar aqui até você sair! Entendeu? E quando esse momento chegar, aaah, você vai estar FERRADO!!! E quebrado também! - Hannah ficou la na porta no que me pareceram horas, até que um homem grisalho, de meia idade, chegou perto dela e disse:

– Com licença, Hannah, mas você tem que ir, porque, anh, vai começar o próximo turno.

– O que? Nããão! O meu amigo, se é que podemos o chamar assim, ainda tá la dentro. Aliás... - Ela parou pra pensar – se você pudesse ir lá o arrastar até aqui, CAHAM digo, o chamar pra mim, eu ficaria muito agradecida.

– Mas é claro – Enquando o zelador ia no banheiro ela fez uma dancinha dá vitória e deixou o livro na posição de arremessagem, mas depois ele voltou sozinho.

– Sinto muito, mas não tem ninguém lá dentro.

– O QUEEEEE? - Olhou pela porta, indignada – Mas... Ele tinha entrado! Eu vi!

– Ora, se você quiser ir lá procurar...

– Não, to legal aqui fora.

– Então, não tem nada que possamos fazer. Peço que você espere ele lá fora, se é que ele ainda está dentro do colégio.

– Hunf. Tá, né. Ah, quando eu achar esse menino ele vai sofrer... - E antes que eu pudesse ver o que iria acontecer, fui acordado de uma forma dolorosa e nada carinhosa.

POV Hannah

Ai meu Deus, que garoto que dorme! Tive que jogar água nele pro Nico sair do estado vegetativo. Pra falar a verdade, tive que bater também.

Mas isso não vem ao caso.

AAH QUE ISSO? Me larga!

– A culpa e minha se você dorme que nem pedra? Devia estar tendo um sonho bem interessante, né?

Ele enrubesceu.

– Ahn, pra falar a verdade, nem tanto.

– Hum... Vou fingir que acredito. É porque eu estava conversando com Annabeth, e ela me disse que os semideuses sonham com, bem, acontecimentos.

– Pois é, né. É porque meu sonho foi meio estranho. Porque ele foi com... ahn... você.

***

Merda! Merda! MERDA! Tanto esforço para guardar o passado em segredo, e POOF! Um sonho acaba com todo o seu trabalho em meia hora! INJUSTO! Quando Nico disse que tinha tido a visão comigo no colégio, eu tive que me esforçar para não me descontrolar e dar umas bofetadas nele. Porque não foi sua culpa, certo? Por mais que eu estivesse brava, eu consegui me controlar. Fisicamente falando, é claro.

VOCÊ NÃO TINHA O DIREITO DE SONHAR COMIGO!

– Direito? DIREITO? ATÉ PARECE QUE FOI POR QUE EU QUIS!

– MAS MESMO ASSIM! A LEMBRANÇA E MINHA, EU DEVIA PODER ESCOLHER QUEM VÊ OU NÃO!

– AFF, SÓ POR QUE É DEUSA JÁ TÁ SE ACHANDO?

– EU NÃO ESTOU ME ACHANDO! ESTOU FALANDO O ÓBVIO!

– CALA A BOCA!! - Não, esse 'cala a boca' não foi do Nico. Nem meu, como era de se esperar. Foi da Rachel

– Que parte de 'tentem não se matar' vocês não entenderam?

– Mas é que ele sonhou com a MINHA vida! Eu devia poder controlar!

– Espere – Rachel olhou para Nico – Você teve uma visão dela? De antes de ser encontrada?

– Aham

– ANNABEEETH! VEM AQUI LOOOGO!

– O quê? - Annie apareceu na porta.

– Nico sonhou com o passado da Hannah!

– Sério? - Ela veio correndo, interessada – Conta tudo. Logo.

– Owowowow, que que é isso? Virou casa da mãe Joana? Nada disso, ninguém mais vai ficar sabendo. Esperem até sonharem comigo também.

Os três olharam para mim por cinco segundos, depois continuaram conversando normalmente.

– Mas então, era lá em Los Angeles aí...

– EI!

– Hannah! Deixa ele falar!

– Mas...

– HANNAH!

– Aaah, tá bom! Mas só dessa vez.

– Então tá, né, ela tava conversando com um garoto que tava na detenção... - Wait. Não. Esse dia não. Não com o Muke.

– Pois é, esse dia é o único que você não tem minha permissão pra falar. Se fosse qualquer outro eu deixaria, menos esse. E o do que eu explodi o laboratório também não, foi muito vergonhoso. Então tá, qualquer dia menos esse e o da explosão.

– Han... – Nico disse. Eu ia contestar, mas cometi o erro de olhar em seus olhos. Eles eram de um castanho profundo, que quando eu vi eu ... Peraí, o que que eu tava falando mesmo? Ah, é. FOCO, HANNAH! FOCO!

– Mas... - Eu até fiz cara de cachorrinho que caiu da mudança. Que não funcionou – Ah, tá bom, eu tinha um amigo que chamava Muke, ai ele tava estranho e sumiu. Feliz?

– Calma, explica isso direito. Ele sumiu do nada? - Annabeth perguntou.

– É, do nada mesmo, assim: PLIM! - Eu fiz o gesto de 'oooh!' com as mãos - Mas eu não quero mais falar sobre isso – Eu disse e me enfiei debaixo da coberta. Continuei ouvindo eles conversarem. Rachel foi a primeira a se pronunciar.

– Tá, conta a história toda de novo, Nico. Por que eu não entendi nada que ela falou – E ele contou mesmo, tin tin por tin tin. E foi aí que eu percebi que fazia tempos que não pensava mesmo naquele dia.

***

Depois que saí do colégio, percebi que o infeliz tinha ido embora com o meu dinheiro. Tanta espera por nada! Pra piorar, encontrei a bitch da Lindsay se gabando para as amigas, dizendo que tinha ficado com 'o garoto mais lindo do colégio'.Bla bla bla bla. O que essa garota tem na cabeça? Por que cérebro não é, depois de dois anos convivendo com aquele ser posso afirmar isso. Mas deixando a Lindsay pra trás, eu esperei. Esperei mesmo, quase um mês, e o Muke não voltou. E pra fechar com chave de ouro, eu cumpri a minha promessa de dar um Pra Matar em certa bitch e fui explusa do colégio. Com raiva de tudo e de todos, eu fugi do Orfanato dos Infernos também.

***

Eu não sei se foi o estresse, a emoção pela descoberta de quem eu era ou sei lá o que, só sei que começei a chorar lá no quarto. Porcaria, três choros em dois dias?! Annie ficou toda preocupada, perguntou o que eu tinha, e quando percebi já tinha contado pra eles toda essa história (N/Hannah: Essa aí que eu acabei de narrar pra vocês, sacaram?).

Rachel adorou o Pra Matar, Annie quase chorou também e Nico só olhou pra mim com uma expressão indecifrável. Graças a Deus, antes que eles pudessem fazer mais perguntas, Percy nos gritou que tinhamos chegado em Nova York.

Notas finais do capítulo
And what did you think? *---*
Eu espero reviwes, tá? Por favor, nao me façam desistir D:




(Cap. 10) Enfim na bela NY!

Notas do capítulo
Olá seres! :D
Eu sei que eu sou uma PÉSSIMA autora porque eu fico éons sem postar e que se não fosse pela minha querida co-autora -Letícia- *Sério, se não fosse por ela acho que eu nem ia ter postado nada. Agradeçam a Lets, não a mim* eu ia demorar mais ainda, mas... Ah, não vou atrapalhar a leitura, né, hahah
Espero que gostem *3*

POV Percy
Depois de três horas, duas batidas e muita dor de cabeça, conseguimos entrar – entrar!– em minha querida Nova York. Annie e Rachel estavam revezando para não me deixarem morrer de tédio, mas depois de um pequeno desentendimento por parte dos meus priminhos eu fiquei sem ninguém para conversar. Com o motivante pensamento de que 'não há nada que uma boa música não resolva!', liguei o rádio.
''Baby, baby, baby, oh!''
Troca.
''Vou cantaar! Pra-'
Troca.
''E as meninas falam ôôôôô! Os caras-''

Troca.

''I-I-I wanna gooo''
Troca.
''She doesn't care nobody else, she's in a own world. I love this little pa-''
Caramba, não tem nenhuma porcaria de radio que toque uma porcaria de música que me agrade? Pô, eu tô num engarrafamento desde as seis horas da manhã! É tão difícil colocarem uma música, só uma música, que preste? (N/A: EI! Eu gosto do McFly! - N/Annabeth: Eu também! Mais respeito, Cabeça de Alga! Afinal, além de cantarem bem, eles são lindos - N/A: Pois é! Viu a capa do novo CD? MEUS DEUSES, morri quando vi o Dougie! - N/Annabeth: Viii! E o Tom, então? Gente, morri! - N/Percy: Desculpe interromper a fofoca ai, mas eu tenho uma história para narrar e ninguém tá afim de saber da suposta beleza dos membros do McFly. Falando nisso, ANNABETH CHASE! QUE ASSANHAMENTO É ESSE? - N/A: Eita gente, lembrei que tenho umas coisas pra fazer ali... Fui! - N/Annabeth: Não fala nada Percy, afinal você BEIJOU a Rachel, lembra? - N/Rachel: Alguém chamou? - N/Percy: Mas foi antes da gente começar a namorar! - N/Nico: Com licença, pessoal, estamos passando por problemas técnicos aqui, então vamos continuar a narração e depois a gente vê onde essa briga foi parar e... Não Hannah, já tem Notas demais! - N/Hannah: Mas todo mundo falou alguma coisa, eu não quero ficar excluída! Heey, gente! Tudo bem com vocês? - N/Nico: Tá, chega de palhaçada! Percy, volta pra cá! AGORA!) Ninguém merece Restart, Bieber, Ci-
- Percy, você tá legal?

Eu estava tão concentrado em xingar os pop stars que nem reparei que estava fazendo o mesmo em voz alta, nem que minha namorada estava com cara de 'wtf?' atrás de mim.

– Claro. Só estava, ahn, relatando meu descontentamento a respeito do gosto musical do povo estadounidense (N/A: Teoricamente, o Cine e o Restart não... - N/Nico: Cala a boca, não vai começar de novo! - N/A: Cuidado que eu te tiro da história, hein? - N/Nico: o.o *medo* ) – Ela riu – Mas então, o que houve lá atrás?

– Ah, bem – Ela pulou pro banco da frente – Hannah estava chorando por causa de alguns, ahn... problemas do passado – Suspiro - Mas é melhor você perguntar ao Nico, ele vai saber contar melhor.

– Mas você já...

– Vou lá atrás ver se eles estão bem – Ela me beijou na bochecha – Já volto, Cabeça de Alga – E pulou lá pra trás outra vez. Nesse exato momento, meu primo veio andando com uma cara pensativa.

– Ei, Nico. Passa pra cá – Eu apontei com a cabeça para o banco do passageiro – O que houve lá atrás?
- Ah, e que eu tive mais uma daquelas 'visões' durante o sono – Ele me contou sobre a Han e esse tal de Muke. Não preciso nem comentar que não fui com a cara dele, né, afinal ele 'meio' que abandonou a Hannah. Ok, ok, abandonou total.

– Mas esse cara aí, amigo dela, era como mesmo? Pra gente poder dar umas porradas se o virmos pela rua – Eu disse e nós rimos só de imaginar a cena. Depois de uns cinco minutos, ele respondeu.

– Ah, era um loiro chato, irritante e... bonito. Pelo menos é o que eu pensaria se fosse uma menina.

– Então ele parecia uma garota?

– Bem, não. Aliás, se formos observar, ele se parecia um pouco com a Hannah sim. Sabe como é, loiro.

Hum, eu fui o único que percebeu algo curioso nessa frase aí?

– Ah, então você admite que acha ela bonita? - Até eu tenho que concordar, Hannah estava bem bonitinha. Nem tanto quanto Annie, claro, mas bem bonitinha (N/A: Aff, pra mim bonitinha é feia arrumadinha. Mas vocês entenderam o que ele quis dizer).

– Ahn? De quem você... Ah – Ele corou. Fala sério, como tem gente lerda nesse mundo – Cala a boca, Percy!

– Admite, vai?

Há! Como eu adoro irritar as pessoas.

– Fala sério.

– Admita... - Eu devia estar com cara de retardado, mas precisava ver ele reconhecer logo.

– Bem... - Ele ficou mais vermelho ainda – É, mais ou menos.

– Mais ou menos o quê? - Eu queria ouvir palavra por palavra, para ter provas depois.

– Ela é meio bonitinha sim – Ele murmurou, irritado.

– Pode falar em alto e bom som, por favor? Não dá pra ouvir assim.

– CARAMBA! TÁ LEGAL, ADMITO, EU ACHO ELA BONITA SIM – Ele gritou. Por essa eu já esperava – TÁ FELIZ?

– Hey, meninos! Quem é bonita?

E por essa eu não esperava.

– Ah, oi, Han! - Eu a cumprimentei - Nico só estava me contando aqui que acha...

– A vista de Nova York linda! - Ele me cortou, apressado. Droga, acabou com meu plano – Olha, já estamos em Manhattan!

– Ah – É impressão minha ou ela pareceu decepcionada? - Mas é verdade, é uma cidade muito linda. Me faz pensar em algumas músicas. Vocês se importam se eu cantar feito autista aqui?

– Bem, se não falar mal daqui, ok. Tipo, é a minha cidade. Mas como eu sei que mesmo se eu falar não você não vai obedecer, fique a vontade – Eu respondi.

– Muito bem, Perceu. Estamos começando falar a mesma língua – E começou a cantar.

(N/A: New York City Cops – The Strokes)

Ela não consegue parar de dizer:

''Policiais de Nova York,

policiais de Nova York,

policiais de Nova York,

Não são muito espertos"

Agora me dá um dó, por que eu vou te desapontar

Eu juro que um dia nós vamos deixar esta cidade

Ela não consegue parar de dizer:

''Policiais de Nova York

Não são muito espertos..."

Eu ignorei o fato de que ela estava chamando os nova iorquinos de burros e olhei para Nico, segurando o riso.

– O que foi, priminho? Você não admitiu que achava 'Manhattan' linda?

– Eu nunca disse isso – Mais estressado, impossível – Só disse que achava meio bonitinha.

– Não, não. Você afirmou que 'Manhattan' é bonita. Nada de diminutivos.

– Aff, vai dirigir, Percy, que é melhor pra todo mundo.

– Não preciso – Eu disse, agora realmente morrendo de rir desse estresse todo por causa de uma garota. Bem, mais ou menos – Já estamos no Empire State.

***

POV Hannah

– Sinto muito, mas vocês não podem entrar.

Legal. Três horas mofando e agora isso.

– Mas senhor, nós precisamos passar! É urgente! Olha, eu sou filha de Atena e...

– Não me interessa de quem vocês são filhos – O porteiro mala falou - Semideuses estão proibídos de entrarem no Olimpo desde que alguns deles resolveram pregar peças com a rainha Hera – Por que será que eu tenho a impressão que Connor e Travis estão envolvidos nisso? - São ordens de Zeus – Peraê, tem um negócio ai...

– Acontece que eu não sou uma semideusa

– Você é o que então? Uma mortal?

– Não, né, inteligência. Uma deusa.

Annabeth, Percy, Nico e Rachel confirmaram com a cabeça, enquanto o porteiro ficou com cara de besta e riu.

– Aham, sei. Claro. Deusa. Por que eu não pensei nisso antes? Saiam todos do meu hall AGORA!

– É verdade! Eu sou Hannah – Falei o mais séria o possível – Deusa da música, das nuvens e... espera aí, de que mais? Ah, é, e da tecnologia. Protetora dos fracos e dos pevertidos!

– Oprimidos.

– Disso aí que a Annie falou!

– Bem, agora como você vai provar que é a Deusa Perdida?

Eita porteiro chato, se eu falei é por que é!

– Ué, prova que é imortal – Percy falou.

– Ah, claro, Cabeça de Alga. Vamos ficar aqui até 2119 pra provar que ela não envelhece.

– Pois é, né. Ou então passem a espada em mim pra provar que eu não vou pro Hades. ACORDA, PERCEU!

– Tenta aquela nuvem que você fez na Clarisse.

– Não dá, Nico. É involuntário, ainda não sei controlar – Eu suspirei - Pô carinha, deixa logo a gente passar!

– Não, até vocês provarem isso aí.

– Ah, seu bulustru-

Só pra deixar registrado, não foi intencional. Mas esse carinha me tirava do sério! Foi culpa dele eu ter dado um Pra Machucar. Ok, uns. Muitos.

– Larga o porteiro!

– Me larga você, garoto morte! Deixa eu dar uma surra nele!

– PEEEERCY EU NÃO VOU CONSEGUIR SEGURAR ESSA MENINA POR MUITO TEMPO!

Os dois tentavam me puxar enquanto Annabeth tentava ajudar o pobre trabalhador. Por sorte (ou azar) só conseguiram me parar quando alguém (Nota mental: Descobrir quem foi e mandar essa pessoa para o Tártaro) chamou a polícia, que nos expulsou do prédio.

– Poxa, Han, a gente já tava lá dentro!

– É, mas o bulustruco não ia deixar a gente subir – Eu repliquei e olhava para as ruas, procurando vendedores de balão (Que foi? Se no Up! eles conseguiram levantar uma casa daqui até a América do Sul, porque a gente não conseguiria ir até o Olimpo? Vocês pensam muito pequeno, gente!), até me toquei de que estava faltando alguém – Ei, pessoal, cadê a Rachel?

– É mesmo, eu não vejo ela desde... - Percy estava respondendo quando a dita cuja chegou.

– Olá pessoas!

– Rach?! Onde você estava?

– Calma, Annabeth. Eu só aproveitei o, bem, pequeno show da nossa amiga deusa aqui – Eu fiz uma reverência – para fuçar as coisas lá do Porteiro do Mal e, tcharans! - Ela pegou um cartão do bolso, como aqueles de abrir as portas dos quartos dos hotéis chiques – Está aqui o precioso para entrar no Olimpo.

– Boa, Ruivinha – Nico elogiou – Mas como a gente não te viu pegando?

– Ah – Ela deu um sorrisinho malígno – Eu tenho meus truques.

– Uau, tenho que admitir Rachel, nós duas temos um futuro promissor no ramo de espionagem.

– É isso aí, Hannah. Você bate, eu pego a grana!

– E eu faço o plano!

– Uhul! - Gritei – Somos as Três Espiãs Demais!

Todos nós rimos feito retardados, até Annabeth nos lembrar do principal.

– Hey, gente, temos que subir. Já temos o cartão, só precisamos conseguir entrar no prédio.

– Que tal a gente sair correndo e subir rápido, tipo, de uma vez? - Eu sugeri. Me desculpem se eu não sou a filha de Atena para ter ideias perfeitas e mirabolantes.

– Boa, Chloe! - Percy zoou. Nós rimos (mais uma vez) e saímos em desparada ao elevador.

***

Nem preciso dizer que o Olimpo era bem mais lindo do que eu imaginava. Todo prata, brilhante, arrumadinho... Bem, começando do começo, quando as portas se abriram (O que me pareceu uma eternidade depois; não aguentava mais aquelas musiquinhas toscas de elevador), eu fiquei até com a visão embaçada com a claridade do lugar.

– Nossa, o sol até brilha mais aqui em cima!

– Ah, obrigado, eu realmente prefiro mostrar meu charme e beleza aqui.

– Apolo?

O deus-Sol estava parado ao nosso lado, lindo como sempre. Agora não me pergunte de onde ele saiu, por que eu não faço a mínima ideia.

– Olá, semideuses! Ou melhor, mortal, semideuses e deusa-semideusa. Enfim. Não contavam com a minha presença?

– Na verdade, não – Rach respondeu - Só estamos aqui porque Han disse que você falou que ela precisava passar no Olimpo.

– Então, desembucha logo, porque não podemos correr o risco de Zeus nos vir e atrapalhar o plano – Um certo semideus estressado falou. Caramba, achei alguém que se irrita mais facil que eu.

– Bem, então tá. Quanto a Zeus, eu fiz questão de arrumar um jeito de deixá-lo fora umas horas – Ok, não quero nem imaginar o que ele fez – E nós só precisamos passar na casa dela. É aqui pertinho, mas posso nos teletransportar até lá.

– Não! - Eu falei um pouco alto demais – Digo, vai ser legal conhecer as, ahn, ruas. Tipo, um dia eu vou ter que voltar a morar aqui mesmo.

– Ah, certo. Me sigam. É simples, só andar por aqui, virar naquela rua, passar por uma praça, dobrar a esquina perto do templo de Ártemis e...

– Peraí, Apolo. Ninguém vai reconhecer ela não? - Só depois entendi o que Percy quis dizer. As ruas estavam cheias de pessoas (deuses?) comprando, andando, conversando... Era meio impossível passar sem ser visto. Ou reconhecido.

– Não se preocupem, diante da minha beleza, vocês estarão ofuscados. Ninguém vai reparar em vocês – Ok, posso quebrar a cara dele? Não? Ah, ok - Tá bom, vou nos teleportar mesmo – Ele estalou os dedos, e tudo girou, como no refeitório.

Eu não sei nada da minha vida antes do suposto acidente, mas uma coisa eu posso afirmar.

Eu era rica.
E sabia que deuses podem fazer as coisas aparecerem do nada e que isso significa que um dia eu vou poder também, mas mesmo assim eu fiquei de cara quando chegamos. As paredes tinham um tom de roxo escuro (Tá, eu tenho uma leve obsessão por roxo), e nem parecia ser uma casa de milhões de anos (Ok, mil. Mas tanto faz). Estava um pouco bagunçado, como meu pai disse, mas isso não atrapalhava a linda visão de TVs, videogames, pufes fofinhos (tive que me monitorar para não pular em cima deles), notebooks...

– Não faz um seculo que você sumiu? Como você já tinha essas coisas, então? - Rachel perguntou, interrompendo a minha apreciação, e antes que eu pudesse responder (Tá, eu não sabia a resposta; na verdade nem tinha pensado nesse detalhe), Apolo me fez o favor.

– Nós deuses sempre conseguimos essas coisas antes de vocês, mortais. Mas como deusa precisamente da tecnologia, Hannah tem mais privilégios ainda. Sabia que ela e Atena que inventaram o computador? Cara, aquele dia foi hilário, todos nós assistindo Napoleão na batalha de Waterloo e as duas discutindo de placas de memória e... - Percy e Nico me olharam admirados e, modéstia a parte, eu estava me sentindo a fodona. Tipo, eu sou meio que a patrona do Bill Gates e do Steve Jobs. Pois é, quem me viu e quem me vê.
- Hannah – Annabeth apontou para uma porta no fim de um corredor – Olha aquela sala.
Eu estava doida para sair fuçando tudo, mas tinha que me comportar perto de meus amigos. Por isso fui andando calmamente até lá e descobri que era uma sala de música, a julgar pelos milhares de instrumentos (Nem preciso comentar que ai eu me esqueci dessa história de me comportar). Baixos, baterias, guitarras, violões, banjos, pianos (Uhul, sou chique *-*), teclados, até mesmo um ukulele (Não queira saber o que é. Mas faz um sonzinho bem legal, até). No canto havia uma espécie de suporte, e em cima dele...

– AI MEU DEUS! - Eu gritei e saí correndo em direção ao precioso dos deuses. Percy apareceu na porta, para ver o que tinha acontecido.

– O que foi? - Ele sacou a espada (Que antes era uma caneta. Mas fazer o que, a minha é um prendedor de cabelo) – Quem morreu?

– Percy! Olha isso! - Eu disse ainda maravilhada; nunca imaginei que veria uma daquelas ao vivo! Muito menos na minha casa! Mas infelizmente Percy só me olhou como se eu tivesse algum tipo de retardamento mental (O que não está muito longe de ser verdade)

– Tá, é uma guitarra. E daí?

– Uma guitarra? Uma guitarra? – Eu não acreditei no que tinha escutado – Perceu, isso é uma Gibson Les Paul vermelha, modelo Goldtop de 1952 fabricada com mogno. Mogno! Elas não tinham números de série, ou seja, hoje é peça de colecionador. Não dá pra acreditar que eu estou olhando para uma das guitarras criadas pelo próprio Les Paul, que aliás era um tipo de deus guitarrista, e ainda já foi usada por caras fodásticos como Michael Bloomfield, Pere Townshend e Billie Gibbons, aquele do ZZ Top! - Eu esperava que o meu discurso o fizesse admirar a obra de arte a sua frente, mas ele me olhou indiferente.

– Em outras palavras, é uma guitarra.

– Não, Perceu. NÃO É UMA GUITARRA!

– É O QUE ENTÃO? UM BANJO?

– Ei, pessoas! Calma! - Eu nem tinha reparado que Apolo (Que, aliás, foi quem falou), Rachel, Nico e Annabeth estavam assistindo nossa pequena discussão – Ok, tenho que concordar com a Hannah, isso não é apenas uma guitarra. É um tipo de instrumento divino - Literalmente! - Mas enfim, eu vi e me lembrei de você.

– Então foi você que me... Awn!! – Não resisti em abraçá-lo. Fala sério, tem alguém mais fofo que Apolo?

– Ah, esse nem é o melhor – Disse ele, e na hora eu pensei: Putz, desse jeito eu vou ficar mimada. Se é que não já estou.

– Melhor que isso? JURA? Você vai ressuscitar o próprio Les Paul, ou algo assim? Porque eu sempre quis conhecer ele *-*

– Fala sério Hannah – disse Rachel -, tá na cara que vai ser um unicórnio! Eles são tão fofinhos! Fala que é um unicórnio, Apolo! Fala!

Ok, nessa hora eu tive que me segurar para não rir da cara dos meninos.

– Amn, não é um unicórnio. Nem o Les Paul, isso aí você tem combina com Hades. É isso – Ele me entregou um treco muito estranho, uma pedrinha de meio centímetro.

– Farinha?! – perguntou Nico.

– Ah, obrigada, farinha. Tipo, a Gibson foi melhor.

Apolo bufou, irritado.

– É porque vocês não sabem as prioridades dele! Sério que não fazem nem ideia do que é isso?

Annabeth se aproximou da minha mão para observar.

– Na verdade, parece ouro misturado com bronze celestial. Ou seja... – Ela olhou para mim, animada – Minha filha, isso não é farinha, é um pedaço do seu símbolo!

– Sério? – Eu olhei para Apolo – Desse tamanho? Então a gente vai rodar os Estados Unidos atrás de milhares de pedacinhos desses?

– Não, esse era o menor – Ele explicou – Os outros têm tamanhos consideráveis, vão ser fáceis de achar. Na hora, você vai os reconhecer.

– Com a mesma facilidade que ela reconheceu esse? – Nico zoou com a minha cara.

– Quieto, garoto morte.

– Bem, não – O deus ignorou minha resposta - Mas a cada pedaço recuperado, melhor fica a perspectiva dela sobre o objeto divino – Acho que ele viu nossa cara de ‘wtf?’ e traduziu – Quanto mais vocês recuperarem, mais fácil vão achar.

Vários aaahs foram ditos na sala.

– Legal – disse Nico – Mas onde nós devemos procurar? Porque não vai demorar muito até Zeus a procurar. Nem a matar o resto de nós, se quisermos ser mais realistas.

– Bem, como antigo deus da música eu até poderia ajudar, mas assim eu deixaria tudo fácil demais. Então, boa sorte pra vocês :D

– Não! O próximo, pelo menos, está aqui em Nova York? - Uma Annabeth apreensiva perguntou.

– Sei lá! Ao invés de vocês agradecerem, só pedem mais! Vão ter que se virar – Ele disse e depois meio que olhou para o além - Mas agora sinto que Zeus está voltando, vocês precisam ir antes que ele os veja.

– Não! – Eu choraminguei – Nem pude pegar a guitarra!

– Então você admite que aquilo é uma guitarra.

– Cala a boca, Percy!

– Desculpe Han, mas se ficarem mais serão pegos. Só tenho tempo para manda-los para o trailer...

– Trailer uma ova, até uma loja de tintas, por favor! – disse uma Rachel indignada.

–... Antes de Zeus aparecer por aqui – É incrível como ele adora ignorar nossos comentários construtivos - Ah, e terão um novo motorista, então não se preocupe com isso, Percy. Bem, não sei se verei vocês vivos depois dessa, então, boa sorte! – E aquele lance de tudo rodar aconteceu outra vez.

***

E o pior é que Apolo realmente fez o que Rachel pediu. Nós aparecemos numa loja de tintas.

O engraçado foi que ninguém reparou em cinco adolescentes de uniforme laranja (Menos Rachel, ela ainda usava a roupa do colégio e Nico, bem... Ele sempre usa preto. Esse dia não foi uma exceção) caindo de sei lá onde no meio do mostruário de cores berrantes (Temos que mudar urgentemente o gosto para cores de Apolo). Na verdade, os vendedores apenas passavam por nós apressados, e os clientes pechinchavam os galões, nada de anormal. Nós tentávamos chegar a um acordo quanto à cor do trailer. Annie queria cinza; Percy, azul; Rachel, laranja e Nico, preto. Bem, o que posso dizer? Me gusta ^^

Estávamos tentando convencê-los de que dois votos para um mesmo item era vitória, mas eles eram teimosos. Eu estava quase jogando um galão rosa-choque na cabeça de cada um quando escutei:

– Hannah? É você mesmo? – E era uma voz que eu não esperava mais ouvir.

Notas finais do capítulo
Me desculpem se alguma coisa ficou meio desregulada, eu estava no formatando certinho pelo nyah mas ai na metade me deu preguiça e eu resolvi postar ^^'
Mas, bem, any reviews? *-*
~le leitores querendo me matar pelo ultimo acontecimento~




(Cap. 11) Mais uma 'ajudinha' de Apolo

Notas do capítulo
Hello human beings!
Ta aí mais um pra vocês, hehehe :3

POV Hannah
Sabe aquele momento estranho no qual suas emoções começam a se confrontar, e você não sabe como deve reagir? Tipo, ou rio? Desmaio? Choro? Grito? Fujo? Morro? Então, pode-se dizer que eu fiquei assim quando vi quem me chamava.

– Mu-Muke? – Gaguejei – É, hum, é você?

– Sim, sou eu – Ele disse, rindo. Fazia mais de um ano que eu não o via, e ao mesmo tempo que ele não tinha mudado nada, parecia completamente diferente. E agora você diz; ‘Hannah, isso não faz sentido!’. Mas é que ele estava mais alto e forte. Não que eu repare nos músculos dos meninos (N/A: Sei), era sua camisa que deixava isso meio evidente. Ok, voltando, e ele parecia estar agora com uns quinze anos. Seus cabelos loiros continuavam curtos e despenteados, e os olhos castanhos esverdeados brilhavam, o que só podia significar duas coisas: Ou ele estava realmente feliz ou estava tendo algum pensamento pevertido. Eu rezava para que a primeira opção fosse a correta – Caramba, Punk! Você continua igualzinha!

– Pois é, fazer o quê? – Não sabia se era uma boa ideia contar pra ele essa história de deusa. Ainda estava (muito) brava por ele ter fugido de mim em Los Angeles, e estava doida pra pedir satisfações. Mas aí olhei para meus companheiros de viagem, que ainda brigavam pela cor do trailer, e percebi que não seria uma boa eles verem Muke. Fiz um sinal para ele esperar e cutuquei Annabeth.

– Com licença, Annie...

– EU JÁ DISSE QUE VAI SER CINZA! – Ela se virou e gritou na minha cara.

– Eita! Calma, mulher! Eu só ia falar que vou ali no, ahn... – Pensa rápido, Hannah! – banheiro.

Wow, boa desculpa!

– Onde?

– No banheiro, ele é ali... Perto das tintas. Pra aquele lado de lá, onde tem um tanto de gente – Bem específica, eu – Então, com licença, se não eu vou fazer aqui. E você sabe que eu faço mesmo.
Dito isso Nico me olhou completamente assustado.

– Annabeth, deixa ela ir, pelo amor dos deuses.
Annie suspirou, vencida.

– Ok, Hannah. Vai, mas anda logo! Ah, e vê se não se perde no meio dessa muvu.... RACHEL O TRAILER NÃO VAI SER LARANJA! – E voltou a discutir.

Eu voltei para perto de Muke, peguei sua mão e o levei para algum lugar menos lotado.

– Nossa, Hannah – Ele disse ao chegarmos – Aquela sua amiga loira era bem gata.

– Aiai, começou - Eu suspirei - Fique sabendo que ela tem namorado, tá?
Ele deu de ombros.

– E daí?

– Nada que seu cérebro de Neanderthal consiga processar – Eu disse, girando os olhos – Mas aqui, tenho algumas perguntas pra você: Porque você fugiu, e pra onde você foi? E o que está fazendo aqui, justamente no momento em que eu estou também?

– Ok, ok, pergunta um. Por que eu fugi. Bem, é um caso complicado, só posso dizer que eu meio que tive algumas surpresas.

– Ora, não me fale em surpresas – Eu disse, amargamente – A minha vida também não está tão simples não.

– Seja lá o que aconteceu com você, não é tão estranho como o que houve comigo.
Ah, se ele soubesse.

– Sei...
Muke bufou, irritado.

– E se eu te dissesse que os antigos deuses gregos ainda existem? E que sou filho de um deles?
Eu fiquei tão pasma que fiz a coisa mais idiota que podia fazer. Eu comecei a rir. Loucamente. Como uma hiena. No meio da loja. Pois é. Vou me matar ali e já volto.

– Ok, conta outra, Muke. Eu sei que eles não tem nada haver com o fato de você ter fugido!

– É claro que... Espera – A ficha dele caiu – Se você diz ‘eles’, é porque você acredita em mim?
Putz, ferrou. Eu e minha boca grande, agora ia ter que contar a verdade a ele.
- Bem, sim. Também sou filha de um deles – O quê? Não olhe pra mim assim, era verdade. Ou pelo menos parte dela.

Ele me olhou surpreso por cinco segundos, depois sua expresão voltou ao normal.

– Sério? Legal! Quem é seu pai?

– Zeus, e você?
- Uau, Senhor dos Céus! Tá podendo, hein, Punk? E não, eu não sou seu irmão, felizmente.

– Então você seria de...
Ele olhou no fundo dos meus olhos.

– Apolo. O deus da música – Ou não, né?
***
POV Nico

Quer um conselho? Nunca deixe alguém te obrigar a procurar sua amiga louca no meio de uma loja de tintas em luquidação entupida de gente. Porque ela vai dar um jeito de se enfiar lá no fim do mundo e seu humor matinal que já não é lá muito bom vai ficar pior ainda.

Pois é, digo de experiência própria (N/Leitores: Avá). Quinze minutos depois de termos decidido esperar Hannah para tomarmos a decisão final sobre o Trailer Restart, Rachel se irritou. Bastante.

– Caramba, a gente não tem todo o tempo do mundo! Alguém precisa ir atrás dela.

Os três olharam pra mim.

– Que foi, nunca me viram não?

– Nico - Disse Annabeth – Acha ela e traz ela pra cá.

– Por que eu?

– Porque foi você que achou ela quando nem Zeus tinha achado – Percy respondeu.

– E daí?
Annie me lançou um daqueles olhares mortais.

– Ache. A. Hannah. AGORA.

– Ta bom, tá bom, to indo – Eu resmunguei enquanto a procurava – Sou eu que faço tudo aqui.
Por fim, a vi numa parte que não estava tão lotada, com cara de que ia esmurrar alguém. Que beleza, pelo visto agora duas garotas loucas querem me matar.

– Han – Eu disse a ela – Acho melhor você voltar, o povo tá ficando meio irritado com a sua demora.
Só ai ela me viu, e ficou vermelha.
- Eu, ahn... Pode falar com eles que eu j-já to indo, de verdade.
- Olha, sinceramente eu acho melhor-
Só aí reparei que tinha um cara ao seu lado. Parecia ser pouco mais novo que Percy, era loiro e usava roupas surradas. Engraçado, ele me parecia familiar ._.

– Espere – A porcaria da ficha finalmente caiu – Muke?
Ele me olhou surpreso, e Hannah estava com uma cara de quem ia se matar.

– Caramba, como você sabe meu nome?
O simples fato de falar com ele me deu vontade de joga-lo pela janela. Na verdade, eu fiquei surpreso em ver que a própria Hannah ainda não havia feito isso.

– Eu tive uma visão na qual você apareceu. Do dia que você fugiu – Eu disse, de cara fechada.

– Bisbilhotando a vida dos outros? – Ele fingiu espanto – Que coisa feia, hein, playboy?

– Do que você me chamou, seu... – Eu avançei nele, de punhos fechados. Mas infelizmente Han se colocou no meio de nós dois, me impedindo de cometer um assassinato.

– NÃÃO! Meninos, parem! – Ela suspirou - Primeiro: Muke – Ela se virou para ele – Cale a boca! Se tem alguém aqui que é um playboy, esse alguém é você. E segundo: Nico – Ela se virou para mim – Eu sei que o Muke é idiota, chato, irritante, inconha, que fala sem pensar...

– Eu também te amo, Hannah.

– ...em outras palavras, um bulustruco total – Ela suspirou – Mas não precisa matar ele, né?

– Há! Se fudeu!

– Tipo - Ela o ignorou – Não suje suas mãos com sangue dele – Olha o que ela diz, Senhorita Mordo a Mão dos Outros Até Jorrar Sangue Delas (N/Hannah: Meu Deus, que melodrama! Olha aqui, eu já levei piores que aquela e nem tô reclamando! Então fique quieto, garoto morte, se não eu te mostro o que é jorrar sangue de verdade u-u) – Deixe que eu mesma mato esse ser vivo um dia desses.

– Há! Se fudeu! – Eu revidei.
Muke me lançou um olhar de ódio, que eu respondi com um de ‘sou foda’. Depois ele olhou ultrajado para Hannah.

– Fala sério, Punk! Você teria coragem de matar um cara tão gato, atraente e gostoso como eu?
Ela girou os olhos, mas reparei que suas bochechas adquiriram um tom intenso de vermelho.

– Fique quieto, idiota – Depois resmungou – Só porque é filho de Apolo acha que pode pegar todas.

– Espere – Eu fiquei completamente horrorizado – Ele-

– HANNAH E NICO DI ANGELO VOCÊS PODEM FAZER O FAVOR DE NOS FALAR PORQUE ESTÃO BATENDO PAPO ATÉ AGORA E NOS DEIXARAM ESPERANDO FEITO MARMOTAS?
Eu e Han pulamos para trás de susto, depois vimos que o grito foi de uma Annabeth estressada, com um Percy envergonhado e uma Rachel irritada a tiracolo. Como nós permanecemos mudos, ela voltou a gritar conosco.

– E então? O que vocês tem a nos dizer?
Eu ainda estava pensando em uma boa desculpa (Ficamos perdidos! Paramos para escolher uma cor! Fomos sequestrados por um maníaco loiro!) quando Hannah resolveu falar.

– Porque vocês esperaram feito marmotas? Desde quando marmotas detestam esperar?
Percy abriu a boca para falar, mas neste exato momento os olhos de Rachel ficaram verdes e ela se curvou para frente, inconsiente.

Notas finais do capítulo
O que vocês acharam? *O*
~le morrendo de ansiedade~




(Cap. 12) Digo sim a encheção de saco gratuita

Notas do capítulo
Oláááá pessoas!!
Desculpe a demora, tava em semana de provas e.e
Mas, bem, aqui está!! :D
Boa leitura heuhuehuehue
Ps. Acho que isso vai interessas as meninas: Sabem o Paul Butcher, que fazia o Dustin em Zoey 101? Então, ele é EXATAMENTE como eu imagino o Muke, tá aqui uma foto
http://media.tumblr.com/tumblr_ln63iwGEBj1qgb1cp.jpg

POV Annabeth

É impressionante como as profecias da Rachel sempre aparecem nos melhores momentos. Eu estava pensando em uma boa resposta para Hannah (Eu sei lá por que disse que marmotas esperam! Eu estava estressada, caramba!) quando o Espírito de Delfos falou por seu corpo.


Atrás da Clave vós sete irão

E nas Casas da Música norte-americana vós a encontrarão

Porém muito cuidado deverão tomar
Pois o fruto da mãe desconhecida pode vir a fazer tudo falhar

Após a última palavra, o brilho esverdeado em seus olhos se apagou, e ela caiu para frente. Felizmente, um garoto loiro a segurou antes que ela esburrachasse a cara no chão.

– Com licença, pode deixar que eu seguro ela. – Percy disse ao garoto.
Ele levantou a cabeça para olhar para nós, e eu fiquei em transe. Ele. Era. LINDO!! (N/Annabeth: Desculpe, Cabeça de Alga ^^’ )

– Pode deixar, Percy – Disse Hannah – O Muke carrega a Rach.

Isso me tirou do transe. Bem... Mais ou menos.

– Ah... Você...Hum...Ahn... O quê? – Pois é, Afrodite ficaria orgulhosa.

– Você – Percy apontou para ele, ignorando minha pergunta. Se é que podemos chamar aquilo de pergunta – É o tal bulustruco de Hollywood?

– O que você quis dizer com ‘bulustruco de Hollywood’? – Muke retrucou, desafiador.

– Um bulustruco que morava em Hollywood. Dã.

– Ok, ok – Hannah finalmente falou – Muke, estes são Rachel, a que tá semi-morta aí; Annabeth, a loira; e Percy, que aliás é o NAMORADO da Annie. Entendeu? E pessoal, esse é Muke, agora também conhecido como Bulustruco de Hollywood.

– Não temos tempo para apresentações – Nico rosnou – Temos que decifrar a profecia e ir logo pra onde tivermos que ir.

– Tipo, esse negócio de Casas da Música... Eu estive pensando... Não te lembra nada, Hannah?

Ela franziu a testa ao ouvir a pergunta de Percy, como se estivesse tentando se lembrar de velhas memórias em sua mente.

– Eu, bem... Não – Ela disse, infeliz.

– Peraê - Muke entrou na conversa – Que parada é essa de Casas da Música? E Clave?

Nós quatro nos entreolhamos. É seguro contar a ele?, eu perguntei a eles mentalmente. Sem chance, Nico disse com o olhar. Fala sério, disse Percy.

– Gente – Hannah disse, hesitante – Eu também não acho uma ideia brilhante, mas... Talvez ele possa ajudar. Muke é filho de Apolo.

– O quê? – Eu e Percy gritamos ao mesmo tempo.

– Apolo é meu pai, sacaram? Deus da beleza... Até que faz sentido, não?

Ah sim. Faz sentido sim.

Meus deuses! Cale a boca, Annabeth Chase.

– Bem, se o oráculo é de Apolo, talvez ele possa ajudar. Hannah, posso dar as honras? – Perguntei a ela, que simplesmente deu de ombros.

Eu contei sobre o desaparecimento repentino de Hannah, e toda essa história louca sobre a Clave desaparecida. Por fim, disse sobre estarmos indo atrás dela.

– Então, é isso. Agora que já sabe o contexto da história, use seu poder de filho do deus das profecias.

– Olha, pra mim parece óbvio. ‘Nas Casas da Música vós a encontrarão’. Ou seja, lugares musicais.

– Traduzindo...

– Caramba, playboy. Lugares musicais. Lugares que tem haver com a música.

De repente, o rosto da Hannah se iluminou.

– AAAAAH ENTENDIIII! Olha pessoal, até que é facil!

– Facil?! – Perguntei, depois de ter ‘matado a charada’ – Faz ideia de quantos lugares musicais estamos falando? Locais de shows, lojas de instrumentos, cidades natais de nomes da música famosos... Em todo o país!

Seu sorriso sumiu.

– Ah, merda. Verdade. Bem, tenho vários lugares musicais em mente *--* Acho que a gente deve passar neles todos, então. – Oh céus. Eu mereço.

– E o resto da profecia? – Percy perguntou.

– Que resto?

– Aquele de tomar cuidado e... Ei! Nós não somos sete, somos cinco! – Excluiu o Muke legal, hein? – ‘Atrás da Clave vós sete irão’... Então isso significa que... Ah, não.

– Ah, sim! – Muke disse, rindo – Parece que vão ter que me aguentar.

– O quê?? Não! Sem chance de aturar o Bulustruco de Hollywood por todo esse tempo.

– Fica de boa, playboy. Eu nem sou tão chato assim.

– Imagina – Nico resmungou.

– E eu sou bem útil. Sabia que antes de você sonhar em achar a Hannah, eu já morava com ela?

– O QUÊ?

– MALS HANNAH! Eu dividia o orfanato com ela, então. Seu bem mais da vida dela do que ela mesma.

– Até eu sei mais da vida dela do que ela mesma!

– HELLOOO!! ‘Ela’ está aqui!

– Mas é verdade – Percy disse, pensativo.

– EI! – Ela saiu correndo atrás do meu namorado. Pensei em ir atrás deles também, mas aí os dois machões iam se matar. Percy podia se cuidar sozinho.

– Hey, Nico, vem aqui um segundo – Fui com ele mais afastado do filho de Apolo – Olha aqui, por mais que vocês já se odeiem de cara, você tem que admitir que ele deve saber muitas coisas importantes dela nesse período ‘pré-deusa’. Pode ser que hajam coisas que ela não quis contar, tipo, mas ele saiba. Então PARE DE DISCUTIR COM ELE!

– Fala sério, Anne! Você, filha da deusa da inteligência, acha essa uma boa ideia?

– Bem, não totalmente. Mas admita que ele decifrou a profecia bem antes de mim – Falei amargamente.

– Decifrando ou não, não acho que ele seja, hm... Confiável.

Eu ri.

– Não se preocupe, ficaremos de olho nele. E ele vai ficar com a Rachel, então não teremos de ouvir ele e a Hannah gritando a noite inteira. Já bastam você e ela.

Nesse momento, a dita cuja e Percy voltaram.

– MEUS DEUSES, HANNAH! O que você fez com ele? – Gritei.

Percy estava com o olho roxo, latejando. Eu fiquei horrorizada com a visão do meu pobre Cabeça de Alga machucado.

– Achei que fosse meio óbvio – Ela disse, piscando – Eu bati nele.

– Own, coitadinho! Ela machucou você, fofinho? (N/Percy: Não. Eu que resolvi passar tinta na cara ¬¬) Isso não é coisa que se faça, não é, Percy? – Eu o abraçei – Annie vai preparar um leitinho com Toddy só pra você.

Nico e Hannah se entreolharam, enojados.

Dou um mês para os dois estarem assim também.

– Pessoal, sem querer acabar com o momento meloso aí, mas vocês não deveriam estar atrás da Clave? – Era Muke, se aproximando com Rachel (ainda desmaiada) nos braços.

– MEU DEUS É MESMO! A CLAVE! – Hannah gritou, desesperada.

– Caramba, olha que o troço é seu - Nico observou – Imagina se não fosse?

– Putz, aí que eu ia esquecer mesmo.

Disso eu não duvido.

– Então, façamos o seguinte: Muke carrega a Rachel até o trailer, eu vou tratar desse olho roxo – Olhei raivosamente para a deusa – e Nico vai comprar a tinta – Eu entreguei o dinheiro a ele.

– Bem, já que você não me disse o que fazer, eu vou lá nas tintas também. Anda, Garoto Morte – Ela passou o braço no dele e foi o arrastando até a seção de cores escuras.

– Boa, Sabidinha – Percy me disse – Agora como vamos achar o trailer outra vez?

Hm, boa pergunta.

– Vocês querem dizer uma geringonça multicolorida? Porque se for, eu vi parada em frente a porta.

– Fique sabendo que a geringonça foi dada pelo seu pai, Bulustruco de Hollywood.

– Cara, eu podia jurar que era de Íris e.e

– Meninos, andem! Que lerdeza, parecem duas lesmas! – Eu fui andando em direção a porta, os obrigando a irem também. Ao chegarmos lá, eu disse a Percy.

– Me dê as chaves, Cabeça de Alga.

– Por quê? Eu não sou digno de abrir?

– PERCEU JACKSON EU VOU CONTAR ATÉ TRÊS PARA VOCÊ ME DAR ESTA CHAVE!

– Caramba, Annie! Estresse demais faz a pessoa envelhecer mais rápido.

– Três.

– Annabeth, contar igual minha mãe fazia quando eu era criança não vai funcionar.

– Dois.

– Isso é pressão psicológica, sabia?

– UM!

– TA BOM, TA BOM, TÁ AQUI A CHAVE! – Ele as jogou para mim (Isso sempre funciona com o Cabeça de Alga hohoho)

Destranquei a porta, feliz com a vitória, mas ao entrar, gritei outra vez. Não com o Percy, como era de se esperar, mas porque havia um homem estranho lá dentro.

E ele não tinha cabeça.


Notas finais do capítulo
MUAHAHAHAH SOU MÁÁÁ!!! Ah, eu sei que tá completamente desfigurado, mas minha mae tá me apressando aqui e.e
Depois eu volto pra arrumar, ok?
Deixem reviiiiews :D
Ps. Eu e minha co-autora Lets fizemos um tumblr só de Percy Jackson *--* Caso interesse a alguém, é demigods-rules.tumblr.com :3




(Cap. 13) Medidas drásticas são tomadas

Notas do capítulo
Heey people! Sorry pelos éons sem postar, minha co-autora fez questão de viajar ¬¬
Tá, não foi culpa dela, foi minha mesmo. Mas EEEE! demorou mas chegou HUHUEHUEHE
/nãofoiengraçado/
*Okay face*
OOOK NÉ, I hope you all like it, guys! *-*

POV Nico

No fim, eu e Hannah saímos ganhando.
Sem Annabeth por perto, nós levamos a tinta preta, e ainda compramos um estoque de balas no caminho para o Empire State.

– Tem certeza que esse é o caminho certo? – Ela me perguntou, entre mastigadas.

– Aham – Parei para pegar mais M&Ms – Só virarmos aquela esquina.
Ela pigarreou.

– Nico... Como você conhece Nova York? Você é daqui também?

– Não, eu sou de Washington – Imagens de minha mãe e Bianca passaram em minha mente – Mas essa é uma história que você não vai querer saber. E sobre conhecer Nova York, bem... Já estive aqui algumas vezes. Sabe como é, mais ou menos perto do Acampamento, com passagem pro Mundo Inferior no Central Park... Já teve até uma luta contra Cronos aqui.
Ela arregalou os olhos e começou a pular.

– MEU DEUS, CRONOS?! O deus do relógio?
E eu começei a rir feito um retardado.

– Deus do relógio?? De onde você tirou essa? Ele era o rei dos titãs, o Senhor do Tempo.

Eu não sou senhor do tempo mas eu sei que vai chover, me sinto muito bem quando fico com você. Eu tenho habilidade de fazer histórias tristes virarem melodia e vou vivendo o dia-a-dia. Na paz, na moral... – Ela parou de cantar e olhor pra mim – Que foi? Nunca ouviu essa música não?
– Hm... Não.

– Ah, pois devia. Um clássico do Charlie Brown Jr! Não tão boa quanto ‘Hoje Eu Acordei Feliz’, mas... Enfim. Conhece? - Eu assenti com a cabeça.

Hoje eu acordei para sorrir mostrar os dentes, hoje eu acordei para matar o presidente!– Começamos a cantar pelas ruas de Nova York, feito loucos problemáticos - Hoje eu acordei feliiiiz! Sonhei com ela a noite inteira, eu sempre quis.

Alguns minutos depois de cantarmos o refrão, reparamos na coincidência da letra com os acontecimentos de hoje de manhã.

Continuamos andando calados, os dois completamente vermelhos. Só ao chegarmos em frente ao Empire State voltamos a falar.

– Ué, eles não estão aqui – Disse Hannah, procurando o trailer-Restart

– Avá

– Talvez Apolo tenha o transportado pra lá também – Ela completou, me ignorando – A gente vai ter que andar até lá outra vez... NÃO FORAM QUASE VINTE E NOVE MINUTOS!!

– Vinte e nove? – Eu perguntei, piscando.

– É, meia hora é tempo demais.

– Como se um minuto fizesse tanta diferença.

– Ué, faz sim. Tem até uma música assim também – Ela pigarreou – Um minuto para o fim do mundo, toda a sua vida em sessenta segundos, uma volta do ponteiro do relógio pra viveeer!

Acredite, quando a gente está prestes a morrer a gente não para pra cantar – Eu resmunguei.

– Ah, pois devia. As pessoas iam morrer muito mais felizes!

– Enfim – Eu balançei a mão, afastando o pensamento – Olha, eu não estou afim de andar ‘vinte e nove’ minutos de novo. Nem você, certo?

– Certo.

– Eu prefiro só fazer isso em emergências, mas... Tem vezes que a preguiça vence – Deuses, ainda bem que Quíron não estava por perto.

– O que você quer dizer com isso? – Ela me perguntou, confusa.

– Que é hora de viajar nas sombras outra vez – Eu peguei a mão dela e nós pulamos na sombra de uma árvore.

POV Hannah

Meu Deus. Era um pandemônio.
Saímos das sombras no meio da sala, e logo um objeto não identificado passou raspando em minha cabeça.

– QUEM FOI O BULUSTRUCO QUE JOGOU ESSA PORCARIA EM MIM? – Só que eu disse uma palavra um pouco menos educada que porcaria. Hm.

– Desculpe Hannah! – Percy gritou do outro lado da sala. Ele estava com Contracorrente em mãos, Annie com sua faca de bronze celestial e Muke com uma espécie de facão de churrasco – Eu não tinha mirado em você.

– Ah, então você tinha mirado em quem? Em mim? – Nico gritou.

– Não! Nele – Annabeth apontou para atrás de nós, e me deparei com uma figura assustadora.
Era um homem usando um sobretudo preto que ia até o chão, e de mangas compridas. Ele parecia um ladrão problemático que gosta de assaltar supostas bandas coloridas como qualquer outro, tirando o fato de que acima da gola não havia nada. Isso mesmo, nada. Sem pescoço, sem cabeça.

Agora é oficial: Eu tenho graves probleminhas.

– SOCORRO O CAVALEIRO SEM CABEÇA É REAAAAL – Me escondi atrás do Garoto Morte.

– Hannah, agora seria um bom momento pra dar um Pra Matar – Ele disse a mim.

– Esperem! - O homem gritou a nós. Pra alguém sem cordas vocais, até que ele fala bem alto – Vocês não me deixaram explicar, já saíram me atacando! Eu venho em paz – Ele levantou o braço, acho que na intenção de fazer o símbolo com a mão, mas a manga escorregou e revelou o nada. E isso não me acalmou nem um pouco.

– Olha, dar uma de extraterrestre não vai colar – Eu disse, e Nico me olhou feio. Pelo visto zoar com a cara do oponentee não é algo que deve se fazer em uma batalha.

– Não estou ‘dando uma de extraterrestre’, fui enviado por Apolo – Ele disse, irritado

– Aê, meu pai conhece o Dearth Vader.

– Espere – Annabeth foi se aproximando, com cuidado – Apolo te enviou pra quê?

– Bem, ele disse que eu devia dirigir.

– Como você vai dirgir se não tem mãos?
Dearth Vader deu de ombros, o que foi estranho já que ele não havia nenhum.

– Não é tão dificil assim – Ele ergueu as mangas – Tenho elas.

– Ahn, certo... Mas, tipo... O que é você? Um homem invisível, ou...? – Percy deixou a pergunta no ar.

– Na verdade, é um tipo de encantamento antigo... – Desse, obviamente, Annabeth – Os antigos egípcios misturavam shabtis, criados de argila, nas roupas, para criarem supostos criados-roupa, com vida. Mas é só uma lenda, claro. Talvez Apolo tenha ‘pegado a ideia’ e enfeitiçado o casaco, a ponto dele agir como um ser humano.

O casaco-homem bateu palmas, digo, mangas (Essa foi horrível, adimito)

– Isso mesmo, sou uma espécie de servo. Então... qual seria a primeira ordem?

– Ainda não sabemos – Confessou Percy

– Bem, então se resolvam logo, e me avisem. Estarei bem aqui esperando – E se jogou no sofá, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

***

Nós fizemos nossa mini-conferência na mesa da cozinha. Ela era bem grande e cabia todo mundo, de forma que de cada lugar era possível ver todos os outros. Não fazíamos ideia de onde deveriamos passar primeiro, e eu já estava ficando ansiosa.

– Bulustruco, você aí que é filho de Apolo, onde acha que a gente deve ir primeiro?
Ele deu de ombros.

– E eu lá vou saber, Hannah? Era pra eu estar dormindo, mas a senhorita inteligência me obrigou a vir.

– É mesmo, cadê a Annie?

– ESTOU INDO! – Ela gritou, de outro cômodo.
Percy pigarreou.

– Então, Hannah, você havia dito ter vários lugares em mente. Quais seriam eles?

– Na verdade eu dizia sobre todos os Estados Unidos, mas só aqui em Nova York-

– Voltei! – Annabeth entrou na cozinha, trazendo um laptop prata, com a letra grega delta atrás – Apolo transportou nossas coisas para o armário do quarto, que fofo.

– Como disse?

– Caridoso. Que caridoso, Percy, foi o que eu disse.

– Não, você-

– Enfim – disse Nico – Prossiga, Hannah.

– Eu ia dizer que por mais que eu, hm, conheça alguns lugares, Nova York é enorme. Iríamos gastar meses para passarmos em todos, e nem temos certeza se realmente há algum aqui – Eu confessei, infeliz.

– Ah, mesmo assim vamos fazer uma lista, pode ser útil – Percy pegou o notebook de Annie e começou a fazer anotações – Madison Square, Carnegie, Tin Pan Alley...
Nico olhou pra mim com cara de quem estava boiando.

– Madison Square Garden é uma arena de shows – Eu expliquei – Carnegie Hall de concertos de música classica e Tin Pan Alley foi um importantíssimo grupo de produtores e compositores em Nova York, com sede em Manhattan.

– Como você sabe disso, Punk? - Muke me perguntou, e eu dei de ombros. Porque na verdade eu não sabia como sabia, só sabia que... sabia. Ah, você entendeu.

– Eu simplesmente sei. É... Natural. Do mesmo jeito que ser filho de Apolo faz você saber qual é a cantada certa pra cada tipo de garota.

– Aaah entendo – Ele balançou a cabeça, filosoficamente.

– Temos cerca de dez lugares principais – disse Percy – Anh... E se a gente tirar no uni-duni-tê?

– Fala sério, Cabeça de Alga – Annabeth girou os olhos – Não é tão simples assim. – Ela respirou fundo – Eu estive pensando... Sempre que há uma busca, há uma pista no inicio. Sei que Apolo já ajudou até demais – Ela olhou raivosamente para Muke, que já estava roncando suavemente na cadeira – mas será que ele não se esqueceu de dar a primeira pista? Tipo, não dá pra começar do nada e... – Ela parou de falar e arregalou os olhos – É ISSO!

– Isso o quê? – Eu, Percy e Nico perguntamos juntos

– MUKEEE! – Ela gritou, fazendo ele cair da cadeira.

– Caramba, que é? Precisava interromper meu sono?

– Pergunta o Dearth Vader se Apolo não entregou nada pra ele.

– Por que eu?

– Porque todo mundo tá ajudando e você tá ai dormindo.

– Mas...

– ANDA!

– Putz, tô indo – Ele foi andando (e resmungando) até a sala.
Nós perguntamos a Annabeth qual fora a descoberta dela, mas ela se manteve calada até Muke voltar.

– Toma – Ele jogou um papel na mesa – Ele disse que tanto ele quanto meu pai se esqueceram de entregar e blablabla. Agora se me derem licença, estarei no quarto dormindo, porque é o melhor que eu posso fazer.

– Filho de Apolo uma ova, esse ai é filho de Hipnos – Resmunguei

– RÁÁÁ eu sabia! Está aqui nossa pista, pessoal – Annie virou o papel para nós.

– ‘Sigam os passos de Robin Williams’ – Percy leu em voz alta – Hm, ok, né.

‘Um olho na escuridão protegendo seus companheiros, do sol alto até a lua nas suas costas. Mandando os vilões para o Hades e fa..’. – Eu parei de cantar – Ok, ok, menos música do Wills, mais foco na pista. Posso ver ela, Annie?
Ela me entregou, e pensou alto.

– Engraçado, achei que o Wills fosse britânico... – Ela se virou para Percy – É, não é?

– Como é que eu vou saber? Vocês meninas que ficam idolatrando esses caras...

– Gente, só eu que reparei numa coisa? – Parei de encarar o papel e mostrei a eles – O Wills cantor é R-O-B-B-I-E. Aqui está escrito R-O-B-I-N. Será que Apolo escreveu errado?

– Creio que não – respondeu Annabeth – Apolo pode ser palhaço, mas não é burro.

– Ao contrário de seus filhos

– NICO! – Eu o repreendi

– Você não me bateu. Significa que concorda.
Ele e Percy bateram as mãos, e Annabeth girou os olhos.

– Garotos... Aiai. Me dê o notebook, Cabeça de Alga – Ela o pegou e começou a digitar. Após algum tempo, disse – Meus deuses, estamos no caminho certo! Hannah, olha isso.

– Ok, tô indo. Troca de lugar comigo – Essa última frase eu disse a Nico, que estava entre Annabeth e eu.

– Ahn? Por quê? – Ele perguntou, franzindo a testa.

– Porque você está do lado da Annie, e eu preciso ver o computador.

– Aff, você brigou comigo porque queria sentar aí, agora você fica aí

– Nico!

– Por que você não fica em pé?

– PORQUE ATRÁS DA GENTE TEM UMA PAREDE, INTELIGÊNCIA!

– FODA-SE, EU NÃO VOU SAIR DO MEU LUGAR

– ENTÃO TÁ – Percebi que era hora de tomar medidas drásticas – VOCÊ NÃO QUER SAIR, ÓTIMO, NÃO SAIA! – Eu sentei no colo dele. Viu? Medida drástica – Mas então, Annie, o que você achou?
Ela olhou pra mim boquiaberta.

– Você-

– SEM COMENTÁRIOS NÃO-CONSTRUTIVOS, POR FAVOR.

– Pode fazer o favor de sair de cima de mim?

– Ah, você não quis trocar de lugar, agora você aguenta – Me virei pra ele, que me lançou um olhar de ódio (um ódio bem envergonhado, mas enfim).

– Ah, muita coisa – Ela e Percy trocaram olhares, segurando o riso – Existe um cara chamado Robin Williams. Ele é comediante e ator, fez ‘Férias no trailer’, ‘Uma noite no museu’ e ‘AI: Inteligência Artificial’. Conhece? – Eu assenti com a cabeça – Então, Apolo estava se referindo a ele, não ao cantor.

– Mas olha aqui – Percy apontou para a tela. Nesse momento já estavamos todos amontoados em frente o computador – Ele é de Chicago.

– Sim, mas a dica diz para seguirmos os passos. Ou seja, o que ele fez depois.

– Caramba, só uma filha de Atena pra pensar nisso – Eu falei, admirada.

– Ah, obrigada – Annie disse com uma espressão orgulhosa.

– Já que é o que ele fez depois, vamos olhar a biografia – Disse Nico. E sim, estávamos na Wikipedia. Vai dizer que você nunca fez trabalho da escola por ela? – Em mil novecentos e setenta e três, blablabla – Ele foi lendo em voz alta – um dos vinte estudantes a serem aceitos como calouros na renomeada Juilliard School e... – Ele parou de ler, e todos nós nos entreolhamos.

– AAAH ACHAMOS! – Gritei com todas as forças dos pulmões. Como não pensamos na Juilliard antes, a maior universidade de música (e dança e teatro também, mas foda-se) do mundo?

– SIM, NÓS ACHAMOS – Annabeth e eu começamos a gritar juntas, feito duas loucas, então Muke apareceu na porta, com cara de sono e tapando os ouvidos.

– Caralho, precisa gritar tão alto? Não sei como a Ruiva não acordou...
– Rachel? – Perguntei – Cadê ela?

– Ainda desmaiada na cama, e... Nossa Hannah, eu saio por meia hora e você já sai sentando no colo dos outros, caramba...

– FIQUE QUETO BULUSTRUCO! – Eu peguei a primeira coisa que vi pela frente e taquei nele.

– AAH VOCÊ JOGOU UM GARFO EM MIM – Ele me olhou indignado – Porque você jogou um garfo em mim?!
– Preguiça de procurar a faca.

– Você nunca jogaria uma faca em mim Punk, poderia me acertar mal e me matar.

– ... e qual você acha ser o meu propósito?
Poderiamos ter ficado horas lá discutindo, mas Annabeth interviu.

– Não acho que seja o melhor momento para brigar, temos que ir para Juilliard.

– Olha, rimou! Posso fazer um poema também? TIVE UMA IDEIA, um haicai!

– Ah não, haicai aqui não, já basta os péssimos do seu pai – Disse eu, mas era tarde demais.

– Haicais vou fazer / Para todos alegrar / E Playboy irritar

NÃO ME CHAME DE PLAYBOY!

– Esse último teve seis sílabas – Percy murmurou, pensativo

– Não posso deixar de te chamar de algo que você é, Playboy.
Nico se levantou, com cara de que ia levar certa alma pro Mundo Inferior, e eu caí de cara no chão. Apoiei os cotovelos na mesa e perguntei a Annabeth:

– Posso deixar eles se matarem? Só um pouquinho?

– Bem, por mais que isso ia ser divertido... Não, não pode

– Aff – Eu sentei no chão, apoiei as costas na parede e gritei – Se algum de vocês ousar encostar UM dedo no outro, eu juro que dou um Pra Destrinchar, que eu acabei de inventar e é o Pra Machucar com o Pra Matar juntos. ENTENDERAM SEUS BULUSTRUCOS FUTRICADOS?

Os dois me olharam aterrorizados e assentiram, mas após alguns segundos voltaram a discutir. A única coisa que passou pela minha cabeça na hora foi: ‘Essa vai ser uma looonga viagem’.

Notas finais do capítulo
Comentem, pessoas! Please heheh :)
*Músicas:
Senhor do Tempo - Charlie Brown Jr
Hoje Eu Acordei Feliz - Charlie Brown Jr
Um Minuto Para o Fim do Mundo - CPM 22
A Man For All Seasons - Robbie Williams
* Ps. Resolvi colocar os títulos só no fim agora, bem mais prático
* Pps. Não que eu ache que alguem vai ter interesse em fuçar as músicas que eu botar aqui, mas uai, nunca se sabe, tem louco pra tudo nesse mundo




(Cap. 14) Tábuas malditas (ou seriam benditas?)

Notas do capítulo
HELLOOOO PEOPLE FROM THE WORLD
*de boa, meu ingles humilha. pois é*
Bem, não vou atrapalhar vocês, que ja devem estar querendo me matar.
Então.
Boa leituraa! :D

POV Rachel

Cara, tem vezes que eu odeio ser o Oráculo. Primeiro, o bulustruco do Apolo fez questão de mandar uma profecia justo enquanto eu fazia a prova, ou seja, tirei zero (E lembrando, ela valia UM TERÇO da nota final), e depois quando eu estou começando a ficar animada com a busca (Fui com a cara da Hannah, ela é gente boa. E ainda tem bom gosto musical! Se dependesse da Annie nós iriamos ouvir Jonas Brothers o dia todo, argh [N/Annabeth: ‘I’m burning uuuup, burning up for yooou baaaby!!!’]), uma outra maldita profecia aparece, eu desmaio e perco o bonde. Foi estranho, em um momento eu estou indo brigar com a Hannah e o Nico por ficarem namorando (N/Nico-Hannah: O QUÊ?) ao invés de comprarem logo a porcaria da tinta laranja e no outro quando acordo estou deitada na minha cama do trailer, do lado de um deus grego.
– Hey, você acordou – Ele disse quando reparou que eu estava o encarando. Antes, quando eu achava que gostava do Percy, achava que ele era o cara mais lindo que eu conhecia. Agora, vejo que estava errada. Esse garoto era simplesmente maravilhoso, com os cabelos loiros e ar de badboy. Aiai – O povo pediu pra eu te chamar. Aliás, pediram nada, me obrigaram.
– Ahn… Ah – Meus deuses, como eu ia conseguir falar alguma coisa com aqueles olhos esverdeados olhando pra mim? Como? AFRODITE, ME RESPONDA!
– É mesmo, esqueci de me apresentar: Muke, filho de Apolo – Ele estendeu a mão, e eu o cumprimentei
– Rachel Elizabeth Dare, também conhecida como portadora do Oráculo de Delfos, às suas ordens!
Engraçado, eu já tinha ouvido aquele nome, Muke, em algum lugar… Seria alguém do Chalé 7, no Acampamento? Não, se eu já estivesse visto tanta beleza assim, eu me lembraria. Óbvio.
– SANTO APOLO! – É, eu me lembrei – Você é aquele amigo da Hannah, que fugiu!
– Não, não, eu não fugi, eu… Dei um tempo.
– Pulando pela janela do banheiro?
– Hm, talvez
– BULUSTRUCO DE HOLLYWOOD!! – Hannah apareceu na porta, montada pra guerra. Usava coturnos (que novidade), lenço camuflado na cabeça e muita, muita maquiagem preta. Sabe a vocalista do The Pretty Reckless, Taylor Momsen? Então, multiplique ela por dez e vai achar a quantidade aproximada de lápis de olho que Hannah estava usando – POR QUE DEMOROU TANTO?
– Demorei? Eu não demorei, eu estava acordando a Rachel de forma pacífica, ao contrário de uns e outros que gritam ‘barra’ batem ‘barra’ ligam o amplificador da guitarra no volume máximo no seu ouvido ‘barra’ jogam água em você
– Eu nunca fiz isso
– Nãão, claro que não
– Tá, talvez eu tenha sim. Poucas vezes – Ela girou os olhos e olhou pra mim – O negócio é o seguinte, Rach. Nós descobrimos que precisamos ir a Juilliard, a clave está lá. Então, se você estiver disposta…
– EU VOU! – Levantei correndo, coloquei minhas botas e fui andando pra fora, onde Annabeth, Percy e Nico esperavam irritados.
– E aí, Rach? Você tá legal? – Percy me perguntou
– Ah, sim. São desmaios rápidos, não fazem mal
– Rápidos? – Nico interferiu – Você ficou quase uma hora e meia apagada
– Ok, talvez não tão rápidos assim. Mas acredite, eu me sinto muito melhor
Annabeth olhou pra mim e começou a segurar o riso. Creio que ela tenha sacado o porquê da melhora
– Ah, eu te entendo, Rachel. Eu também me senti muito melhor
– Néé? Não entendo como a Hannah consegue permanecer tão normal
Nós duas começamos a rir, e obviamente Perseu teve que mostrar quanto lerdo é.
– Espere, como assim você sentiu melhor? Tá passando mal, Annie?
– Percy, ignore – Nico respondeu, porque eu e Annabeth não conseguíamos parar de rir – É piada interna de garotas. Nós, meros machos, nunca vamos entender.
– Qual seria a piada interna? – Perguntou Hannah, que apareceu na porta com o lindo-gato-ai se eu te pego-Muke
– Bem, acho que a Annie está passando mal – Perseu parecia preocupado de verdade.
Hannah levantou uma sobrancelha para Annabeth, que segurava a barriga de tanto rir
– Ela não me parece doente
– Eu sei! Mas ela disse que se sentiu melhor, como a Rachel, então…
– Ah. AH – Ela girou os olhos para nós – Suas bobocas
– Você entende do que elas estão falando? – Nico perguntou
– Bem, entendo. Embora não concorde, entendo
Percy soltou um palavrão
– Todo mundo entende, menos eu! Isso é bullying!
– Não Percy, sua lerdeza que faz bullying com o mundo
– EI! Cale a boca Hannah, eu não sou lerdo. Certo Annie?
Ela olhou para cima, fingindo não ter escutado
– Certo Annie?
– O quê? – Ela disse ‘distraída’
– Você não acha que eu sou lerdo, acha?
– Er… Lerdo é um termo relativo, Cabeça de Alga – Antes que ele pudesse protestar, ela continuou - Não acho que seja uma boa ideia você gastar seus neurônios com coisas inúteis. Preciso de você relax mais tarde
Hannah, Nico, Muke e eu nos entreolhamos, depois dissemos ao mesmo tempo
– HMMMMM MAIS TARDE, HEIN?? :9
Os dois ficaram com cara de paisagem por alguns segundos, até que caiu a ficha
– NÃOOOO!!! – Annabeth gritou completamente vermelha. Aliás, vermelha é pouco, ela estava meio cor de beterraba mesmo – SEUS PERVOS! EU QUIS DIZER PARA JUILLIARD!!
– Ah, então vocês pretendiam fugir de nós no meio da missão para fazerem ~coisas~?
– HANNAH! EU QUIS DIZER PRA AJUDAR A ACHAR SUA CLAVE EM JUILLIARD! Você é muito nova pra ter uma mente tão pervertida!
– Nanão – Disse o Nico – Ela é mais velha que qualquer um aqui. Tem mais de mil anos
– Isso mesmo, o Penadinho tem razão!
– …Penadinho?
– Como você havia dito pro porteiro? – Disse eu - ‘Sou Hannah, deusa da Música, protetora dos fracos e dos pevertidos!’
Todos nós rimos.
– Verdade, eu disse isso. Não é minha culpa de oprimidos e pevertidos são palavras parecidas!
– E falando em palavras parecidas, olhem onde já estamos – Annie colocou a cabeça para fora da janela, e nós a seguimos. Era uma grande construção triangular cinza, com várias janelas e uma das paredes de vidro. Eu a conhecia, era a Juilliard School of Arts. Deve ser um sonho estudar nela, com aulas divertidas, universitários gatos e… *-*
– O que palavras parecidas tem haver com Juilliard, Sabidinha? – Percy me tirou de meus devaneios
– Bem, Juilliard me lembra estudar, que me lembra minha mãe Atena, que me lembra aquele cara gordo e chato Datena, e Atena e Datena são palavras parecidas. Entendeu minha lógica?
– Ahn, claro…
– Ótimo! Agora, precisamos resolver quem vai e quem fica. Afinal somos seis, e nunca vamos conseguir passar despercebido com um grupo tão grande.
– O Playboy fica
– O QUE? Você que fica, Raio de Sol
– Não, você que-
– Gente, acho que a Hannah que deve escolher. A busca é dela, não é?
– Hm, obrigada Annie – Ela parecia nervosa. Tanto Nico quanto Muke a encaravam de um jeito meio medonho, como se fossem atirá-la pela janela dependendo de quem ela escolhesse ficar – Olha, eu… É… – Ela tomou fôlego e respondeu – Acho que o Nico tem razão. Muke, você deve ficar. Nós cinco vamos.
O QUE?? COMO ASSIM, TEM QUE REVER ISSO AÍ, PRODUÇÃO! ELE TEM QUE IR, É MINHA CHANCE DE DAR UMA INVESTIDA! FALA SÉRIO!!
– NÃO! ELE TEM QUE IR! – Eu gritei, sem pensar. Todos me encararam como se eu tivesse probleminhas, e Hannah perguntou ressabiada:
– Por quê?
– É, bem, porque… – Eu pensava numa desculpa – A Juilliard é uma faculdade de artes, não é? Música, teatro e dança. Ele é deus dessas coisas, então talvez Muke possa nos ajudar com futuros imprevistos – Apolo ficaria orgulhoso dessa minha atuação, é
– Acontece que agora a Hannah é a deusa da música – Nico rosnou
– E meu pai não é o deus da dança .____.
– EU ESTOU TENTANDO TE AJUDAR, INTELIGÊNCIA! NÃO ME ATRAPALHE!
– VIXE! Ta bom, eu fico quieto G.G
– Mas ele tem razão, Rachel – falou Annabeth - Terpsícore que é a Musa da dança, não Apolo. Quero dizer, não que Apolo seja uma Musa, mas a dança não é um requisito dele
– Ah… Ok… Mas o teatro é! E lá é uma faculdade de atuação também!
– Não vem ao caso! – Eu juro que vou enfiar a cabeça da Hannah na privada por me fazer perder uma oportunidade dessas! - Muke, você fica
– Por que eu?
– Porque você falou que eu pareço um urso panda! E eu sou uma pessoa sensível! (N/Nico: Aham. Vou fingir que acredito) Fala sério, nunca me viu de lápis de olho não?
– Ué, de lápis sim. Depois de ter levado um soco no olho não.
– Ah, quem vai levar um soco agora é você, meu filho (N/Muke: Tecnicamente, você é minha tia u-u )
Dito e feito. Antes que alguem pudesse falar alguma coisa, ela bateu nele.
ÓH MUNDO CRUEL!
Acho que ela teria batido um pouco mais se eu e Annabeth não tivessemos a segurado e a arrastado até a calçada. Nico e Percy vieram atrás de nós, com cara de quem estavam nas nuvens.
– Hoje foi o dia mais feliz da minha vida!
– Pena que vocês arrastaram ela pra fora, acho que a Hannah estava quase dando um Pra Matar no Raio de Sol!
– E ia dar mesmo – Ela massageava os pulsos – Fala sério, eu não pareço um urso panda
– Pandas são fofinhos – Disse eu
– Eu não quero ser fofinha – Ela disse de cara fechada enquanto íamos entrando – Por que os seguranças não nos pararam? É aberto ao público?
– Creio que não – disse Annabeth – Talvez inconcientemente você esteja manipulando a Névoa para parecermos universitários normais.
– AH MEU DEUS, QUE FODA! DIN DIG DIN DIG DIN DI—
– Hannah, não estrague nosso possível disfarçe cantando, por favor – Falou Percy.
– Hunf, estraga prazeres. Mas então, o lugar é enorme… Por onde começamos?
– Bem, o cara da pista era ator, certo? Então, vamos procurar na ala de dramaturgia – Nico sugeriu
– Dramaturgia?
– É, de atuação
– Dramaturgia não é uma palavra muito comum.
– Só porque sou filho de Hades eu não posso saber palavras difíceis, não?
– Não, não foi isso que eu quis dizer. Eu não estou criticando, só estou um pouco… Impressionada.
– Ah – Nico corou instantaneamente – Obrigado, acho.
Fala sério, eles não são lindos juntos? E dá até um contraste, a Hannah loirinha de olho azul e o Nico branquelo de cabelo e olho castanho. Se bem que os dois só usam roupas escuras, ia ser um casal punk muito engraçado.
Naquele momento ao qual eles andavam mais no canto, conversando sobre Hollywood, eu pensei o quanto a Névoa devia os deixar parecendo universitários apaixonados e fofos.
Mas sabe o que seria mais fofo?
SE A HANNAH NÃO TIVESSE OBRIGADO MEU MARIDO A FICAR MOFANDO NO TRAILER, HUNF
– Por que você não me disse antes? – Eu fui andando até eles e me coloquei no meio dos dois
– Ahn? Dizer o que? – Ela perguntou, piscando, e eu girei os olhos.
– Aff, você sabe. Que seu coleguinha de Los Angeles era tão gostoso.
– O QUÊ? Credo, Rachel!
– Ora, até uma garota cega afirmaria isso.
– Pode usar um termo menos esdrúxulo, por favor?
– Não. Agora, repita comigo: ‘Eu acho ele muito, mas muito gostoso’
– Que ele é MEIO quente eu posso dizer. Agora isso, nem morta.
– De boa, vocês duas precisam falar sobre isso justo enquanto eu estou presente? – Nico disse muito, MUITO bravo – Fala sério, aff – Ele foi pisando duro até Percy e Annabeth
– Ah Rachel, você afugentou o garoto! Nós estávamos tendo um papo super cabeça sobre qual filme era melhor, ‘300’ ou ‘Imortais’, ai você—
– Aiai, o amor é lindo.
– O quê? – Ela franziu a testa
– O amor é lindo. Primeiro você diz que acha outro cara quente…
– Meio quente, foi o que eu disse.
–… e o Nico sai bravo, morrendo de ciúmes. Depois você fica irritada por ele ter ido embora
– EU NÃO ESTOU IRRITADA.
– Não, imagina. ÓÓÓH já pensou se vocês tivessem filhos? *u*
– RACHEL!
– Um ia ser loiro dos olhos castanhos e o outro moreno dos olhos azuis. OWNTI QUE LINDO!
– EU DESISTO DE CONVERSAR COM VOCÊ! – E exatamente como a cena de cinco minutos atrás, ela foi brava até o outro lado do corredor, me deixando lá morrendo de rir.
***
POV Percy
Eu nasci em Nova York. Eu estudei em Nova York. Eu morei em toda a minha vida em Nova York. Mas eu nunca havia estado em Juilliard. E se me perguntassem, eu não acharia que a primeira vez que eu entrasse lá seria com minha namorada, uma Oráculo louca, um filho de Hades estressado e uma deusa-semideusa com cara de que ia botar fogo em alguém (E com minha sorte, esse alguém seria eu). Pois é.
No exato momento que Rachel foi atrás dos dois, eu já pensei que aquilo ia dar merda. Pense comigo: Se Nico + Hannah = Explosões, então Nico + Hannah + Rachel = Muitas explosões.
E foi justamente o que aconteceu: Cinco minutos depois de ela ir para o lado deles (que estavam assustadoramente se dando bem, sem nenhum Pra Matar), Nico veio a passos fortes em nossa direção.
– Garotas idiotas – Ele resmungou
– O que elas fizeram dessa vez? – Perguntou Annie
– Nada que seja necessário mencionar
– Ah, fala sério
– Pergunte a elas. Ou ao precioso Raio de Sol
Eu e Annabeth nos entreolhamos, e dissemos um ‘AAAH’ um uníssono.
– O que foi isso? – Nico perguntou um pouco assustado, até.
– Você está com ciúmes. Isso é completamente normal.
– O quê? Eu não estou com ciúmes!
– Está sim. Mas não se preocupe, o Cabeça de Alga também demorou a admitir.
– Eu nunca senti ciúmes do Luke – Eu disse, bravo. Mas nem um pouco enciumado, claro.
– Viu? Até hoje ele nega.
Eu já ia dar alguma resposta inteligente (Como ‘NÃO NEGO NÃO, E PONTO FINAL LALALA’), quando ouvimos a seguinte frase:
– EU DESISTO DE CONVERSAR COM VOCÊ!
Hannah também veio andando em nossa direção, com a mesma expressão de alguns minutos atrás de Nico. Rachel vinha andando também, morrendo de rir.
– E eu repito: O que fizeram dessa vez?
– Eu só disse a ela que— Rach começou a falar, mas Han tapou a boca dela com a mão.
– NADA. Ela não disse nada
– Hm, é impressão minha ou sua cara está meio roxa? – Observou Nico
Roxa? É, estava mesmo.
– Não, não está não. Por que estaria? Afinal, a Rachel não falou nada, nada mesmo. Nada que tenha haver com nossos possíveis futuros filhos inexistentes.
Annie fez uma cara de ‘AAAAH saquei’ depois uma de ‘HMMM’, e eu e Nico só ficamos tipo: ‘WTF???’ Isso é um complô, primeiro o caso da doença no trailer, agora mais essa também. Ô beleza.
– Possíveis futuros, né?
– EU DISSE INEXISTENTES, RACHEL!
– Nananinanão. Você—
– Esse assunto já esta ficando muito chato. Estamos perdendo nosso precioso tempo com ele, já devíamos ter achado a Clave – Ela parou em frente uma enorme porta vermelha, que dava para o teatro de Juilliard, chamado ‘Peter Jay Sharp Theater’. Que foi? Eu sou lerdo, mas sei de algumas coisas, ok? (N/Rachel: Ele diz isso porque estava escrito em letras garrafais na porta, que até um disléxico conseguiria ler – N/Percy: CALE A BOCA! Ninguém precisa saber desse detalhe)
– Prontinho, podem ir procuran… UAU!
Se você acha que já foi em um teatro grande, você esta errado. O Peter Jay era simplesmente GIGANTE. ENORME. GIGAENORME. Ok, essa doeu. Era… ENFIM você entendeu que o troço era quilométrico.
– Ahn… Pessoal – Nico passou a mão em frente o rosto de todos nós – A Clave
– MEUS DEUSES, A CLAVE – Annabeth saiu correndo, me arrastando junto
Nós subimos no palco, e eles vieram atrás de nós
– Por que estamos aqui em cima? O lugar é enorme! – Disse Hannah
– Porque aqui nós temos uma boa visão periférica – Ela balançou a cabeça – Mas não temos tempo para darmos aula de geografia. Nunca se sabe quando alguém pode aparecer aqui, olhe como o palco já está montado – Ela apontou para trás de nós, onde se viam vários instrumentos musicais – HANNAH, NEM PENSE NISSO
– EEEU? Eu nem tinha pensado em nada, vixe – Ela disse na defensiva, depois murmurou - Droga
– Hm… Sei… – Annie girou os olhos e continuou – Então, para irmos mais rápido, vamos nos separar. Nico, olhe nos bastidores. Percy olha nas cadeiras de cima, Rachel nas da área esquerda, Hannah nas da direita. Eu procuro aqui no palco
– NÃOOOOOO!!!! – Hannah gritou e caiu de joelhos – Me deixe olhar no palco, por favoooor!
– Nanão. Lado esquerdo, anda.
– Por quê? D:
– Porque se você ficar aqui em cima vai ficar admirando a paisagem e não vai procurar nada
– Eu juro que não toco nada, pleeease!!
– NÃO! ENE-Á-Ó-TIL! Agora levante daí e vá rápido, temos pouco tempo
– Anda logo, Cabeça de Vento
– Cabeça de Vento? CABEÇA DE VENTO? SEU, SEU… PENADINHO BULUSTRUCADO! – Ela se pôs em pé brava e foi marchando até o lado direito – EU JURO QUE SE NÃO FOSSE MINHA CLAVE MALDITA EU DAVA UM PRA MATAAAAAAAAAH!!!!
No meio do ‘Matar’ ela tropeçou, e caiu de cara no chão.
FOI A CENA MAIS ENGRAÇADA DA MINHA VIDA.
SÉRIO.
– AAAIIIIÊÊ! – Ela (que ainda estava deitada no chão) olhou para nós, que estávamos quase rolando no chão - PAREM DE RIR DE MIM! – Ela respirou fundo - Quem foi o bulustruco idiota, retardado, maldito, dos infernos que colocou essa pedra no meio do caminho?
Nunca me esquecerei desse acontecimento – Falou Rachel - na vida de minhas retinas tão fatigadas. Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tinha uma pedra.
– O que diabos…? – Disse eu
– Aff, é um poema. Não conhece? Tem que começar a ler mais, Percy.
– EU ESTOU MORRENDO E VOCÊS ESTÃO FALANDO SOBRE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE?!
– Viu? A Hannah é culta, ela conhece.
– E você não está morrendo – Nico se abaixou e deu a mão para ela levantar– Se estivesse, eu ia saber
– Cale a boca – Ela resmungou, mas aceitou a ajuda – Morrendo ou não, essa pedra idiota não pode ficar aqui. Já pensou se no meio de uma apresentação o violoncelista tropeça e cai?! Ia ser um desastre! Primeiro que um negócio daqueles tem quase sete quilos, segundo que pode custar mais treze mil dólares. TREZE MIL!
– Violoncelista? – Perguntei eu
– É Percy, violoncelista. Que toca violoncelo. Aquele instrumento gigantérrimo ali atrás – Ela apontou para uma espécie de violino de meio metro, que estava lá no fundo
– Parece um violino
Ela deu de ombros
– São da mesma família. Sabe como é, os dois são tocados com a vara, e afinados no mesmo tom…
– Vou fingir que entendi. Mas porque o cara ia sair andando por aí com um trambolho desses?
– EU SEI LÁ! Só sei que temos que tirar a pedra idiota daqui
– Não é uma pedra – Disse Annie, que estava calada até agora por estar ajoelhada observando o chão – É uma tábua que está solta e subiu
– Então a tábua idiota não pode ficar aqui – Ela foi até lá e começou a tentar arrancar a tábua
– Você é louca? Não podemos depredar o teatro de Juilliard! – Nico tentava levantá-la
– Não estou depredando, estou AJUDANDO! Me larga!
Acho que ou Nico pôs força demais ou a tábua era do Paraguai, porque os dois caíram pra trás. E Hannah com um pedaço de madeira na mão.
– SUA IDIOTA! Você arrancou o chão!
– EU NÃO ARRANQUEI! Você que não me deixou quietinha ali tentando arrancar, então foi culpa sua!
– MINHA?!
– É! Eu só ia ajudar os músicos a não irem pro hospital porque de verdade, cair de cara no chão dói muito! E, acredite, cair de costas também!
– Você não caiu de costas no chão, eu que caí! Você caiu em cima de mim!
– Então cair em cima de um filho de Hades dói muito!
– Ah, você preferiria o que? Cair em cima de algum filho de Apolo?
– O Muke não tem nada haver com isso!
– Não tenho tanta certeza!
– GENTEEEE!! – Annabeth gritou – PQP, PAREM DE BRIGAR E VENHAM AQUI OLHAR UMA COISA!
– OLHAR O QUÊ? – Os dois gritaram ao mesmo tempo
– Andem!
Eles vieram, e todos nós nos ajoelhamos no bendito buraco que Hannah causou. No fundo havia alguma coisa no formato de ma bolinha de gude, com papel em volta. Eu estiquei a mão e peguei
– Você acha que… – Eu comecei a perguntar a Annie, mas ela me interrompeu
– Tenho quase certeza que sim. Mas só a Han pode dizer se é mesmo ou não
Eu entreguei a ela
– Eu… Eu me sinto – Ela fechou os olhos e respirou fundo – exatamente igual a cinco minutos atrás
– Ah, que ótimo – Resmungou Nico
– Mas eu não quis dizer que não é a Clave da Felicidade. É ela sim, e olha: a próxima pista também – AHÁ! Eu sabia que era papel ao redor
– Então o que estamos esperando? Vamos voltar logo ao trailer! – Engraçado, Rachel parecia bastante disposta em voltar. Ela literalmente foi nos arrastando até a porta, enquanto Hannah ia cantando sua versão de uma música da Rihanna
We found the Claf in the deepest place, we found the Claf where I took the floooooor! I told you Nico that I was riiiiight
– Cale a boca, Cabeça de Vento
– ‘So shut up, shut up, shut up don’t wanna hear you’
– Você tá legal?
– Eu? Nunca estive melhor! ‘I feel good, tana tana tanananan, I knew that I would, now. I feeeel goooood, I knew that I wooould, now! So good, tan tan, so good, tan, I got yooou TAN TAN TANANANÃÃÃ’
– Annabeth, ela está me assustando
– Whoa! I feel nice, tana tana tanananan, like sugar and spice! I feel niiiice, like sugar and spiiiice! So nice, tan tan, so nice, I got yoooou TAAAAANN
– Acho que é algum… Efeito colateral da Clave. Acho que ela vai ficar mais musical agora
– Mais? – Eu questionei – Ela já canta até demais!
– Sing it for the boys, sing it for the girls, every time that you lose it sing for the world!
– Bem, olhem pelo lado bom. Ela não cantou nenhuma música realmente irritante até agora – Disse, otimistamente, Rachel
–‘OLD MCDONALD HAD A FARM, YEEAH YEEAH YOOO’
– Nossa, valeu mesmo, hein, Rachel – Eu resmunguei
– ‘Thanks for the memories, thanks for the memories. “See, he tastes like you only sweeter ohohohohoh”‘

– Annabeth, Percy, Rachel… Posso matar a Hannah agora?
– ‘You’re killing me, you’re killing me! All I wanted was yooooooou’

– Por mim, pode – Rachel disse suspirando, quando chegamos a frente do trailer Restart
Hannah começou a rir
– Como eu adoro irritar meus coleguinhas
– Espere – Eu me virei para ela – Você estava cantando por vontade própria? Não era efeito da Clave?
– Claro que não – Ela abriu a porta - Eu só gosto de encher a paciência das pessoas. I’m a criminal, you god damn right! MUAHAHAHAH – Ela deu um sorriso maligno, e eu a empurrei para dentro do trailer

Notas finais do capítulo
Então, o que acharam? *-*
Bom? Ruim? Ótimo? Normal? Perfeitamente fodástico? Desgraça ambulante? Me faleem!
E pessoas que infelizmente não dá pra saber quem, obrigada por colocarem minha historinha capenga nos favoritos! *-*
E Anne, Malu, Lets, Tah, Maju... Obrigada pelas recomendações! Chorei aqui ToT
Se mais alguem quiser recomendar, eu nao ligo... Ia ser até legal, sabe? Ia me deixar muito feliz! *-*
Ah, e eu escrevi uma One-Shot chamada Olympian Choice Awards KAPSOKASPOAKSPOK se alguem se interessar, o link é fanfiction.com.br/historia/191762/Olympian_Choice_Awards *O*
*Músicas:
We Found Love - Rihanna (Versão adaptada KPASOKAPOSK óbvio)
Shut Up! - Simple Plan
Feel Good - James Brown
Sing - My Chemical Romance
Old McDonald - Fulaninho aí que eu juro que um dia eu vou matar porque essa porcaria de música sempre fica na minha cabeça
Thnk Fr Th Mmrs - Fall Out Boy
The Kill - 30 Seconds to Mars
Criminal - Eminem
~~~
PQP, eu cheia de avisos KPAOSKAPOSKAPSK mas para sua felicidade, agora acabou mesmo ^^




(Cap. 15) Muke dá uma investida nem um pouco sutil

Notas do capítulo
OAISOIASOIAOSI EU SOU UMA ***** DE AUTORA, ADMITO
Eu demoro muito pra escrever... *n/leitores: avá* tive que praticamente reescrever esse capítulo porque ele tinha ficado uma b*sta. masok
Boa leituraa!! :3

POV Hannah

Por mais que eu estivesse zoando quando comecei a cantar feito doida na volta para o trailer-Restart, eu sabia que Annabeth tinha razão.

Eu estava mais musical.

Do nada, me deu uma súbita vontade de pegar um violãozinho, sentar no meu canto e ficar cantando até alguém aparecer e dizer ‘Hannah, sua Punk problemática, sabe que horas são? Você perdeu o jantar, e sabe que as regras são rígidas: vai ficar sem comer até amanha. Onde estava com a cabeça?!’, como nos velhos tempos.

Pela primeira vez, senti falta deles. Velhos tempos, quero dizer. No Orfanato dos Infernos não havia Sala de Música, mas eu sempre conseguia ‘pegar emprestado’ alguma coisa da do colégio. Eles estranhavam o fato de eu voltar da escola com um violão, mas contando que eu parasse de atormentar as pessoas antes das dez, ninguém reclamava. Agora, eu estava feliz, mas... Não tinha um violão. ÓH, VIDA CRUEL! Por que és tão sombria?!

Wait, sombria? Sombra. Luz. Lanterna.

A LANTERNA!! ABENÇOA, SENHOR!

FLASHBACK MODE ON

What? Apolo, você me deu uma lanterna?
- Aperta esse botão. Amn, não era pra isso acontecer. Ah, sim, é do outro lado. Foi mal.
- Apolo, se esse treco me der um choque eu não vou hesitar antes de te bater.
- Hehehe preocupa não Han. Vai valer a pena.
– ÓÓÓÓÓ!!! Que chiiiique!!!!! Ameeei, Apolo!
- Eu sabia que você ia gostar. E se transforma em qualquer instrumento que você quiser. Só temporário enquanto você não acha o seu Símbolo, sabe?

FLASHBACK MODE OFF

Eu disse a Percy, Annie, Rach e Nico esperarem na sala, e saí correndo em direção ao quarto, onde eu havia deixado a Preciosa Lanterna Transformer. Mas quando a vi, ela estava no Mode Guitarra. Não que ela estivesse se transformado cabulosamente sozinha, ou algo paranormal do tipo, mas porque um ser bulustruco havia pegado ela e descoberto pra que ela serve.

– SEU COISA! – Andei furiosamente até Muke, que estava tocando ‘Sweet Child O’ Mine’, deitado na cama minha e de Nico (N/Hannah: Antes que a Rachel apareça aqui, vou dizer: COMENTÁRIOS NÃO CONSTRUTIVOS SÃO DISPENSÁVEIS!) – Isso é meu, sabia? – Eu arranquei o instrumento de suas Mãos do Mal e a coloquei cuidadosamente na cama de Rachel

– Eu frago sim, Punk

– Ah, se ‘fragava’, porque pegou, hein? Posso saber?

– Bem, eu estava sem nada pra fazer, então fiquei rodando o trailer atrás de algo útil. Ai eu vi uma lanterna, e pensei: ‘por que diabos tem uma lanterna aqui? Já não tem luz o suficiente com um fruto do Sol presente?’ – Eu revirei os olhos, mas fiz um sinal para que continuasse – Então presumi que fosse obra do meu pai, e assim que a peguei ela se transformou

– Ah, certo – Respirei fundo – Agora, quer por favor sair de cima da MINHA – Mais ênfase, impossível – cama? – Não achei que fosse necessário mencionar que ela era do Nico também (N/Nico: EI!)

– Por quê? Minha sensualidade divina te incomoda?

Antes que eu pudesse responder ‘meu filho, se tem algo divino aqui sou eu, não a sua suposta sensualidade’, ele me puxou pela cintura, me fazendo deitar ao seu lado. Quando me dei conta, estávamos a milímetros um do outro. Pelo que eu me lembrava de que ele fazia com outras garotas em LA, sabia que ele ia se aproximar ainda mais. Fui chegar um pouco para o lado, mas acho que o fato de eu estar um pouco (muito) nervosa se somou com o fato de eu estar perto demais da beirada, e caí no chão.

Nem sou desastrada. Três tombos num dia, imagina!

– Hannah? Você tá legal? – Muke perguntou, me olhando lá de cima

– Ããããã, claro

– Tem certeza? Não quebrou nada? Se estiver machucada, sabe como é, habilidades divinas para medicina e—

– Não – Eu não sabia onde enfiar a cara. Eu olhava pra tudo quanto é canto, menos pra ele – Estou legal, mesmo!

Mas por dentro eu pensava: ‘PQP quebrei umas costelas’

Me levantei, hm, calmamente (N/Annabeth: Sei), balbuciei um ‘tenho que ir’ e fui em direção a sala. Mas senti que ele me observava.

Ah, e eu jurei que ia quebrar a cabeça desse garoto.

POV Annabeth

Assim que Han voltou para a sala, eu vi que alguma coisa estava errada. Não errada ERRADA, mas ela parecia envergonhada. E brava. E surpresa. E brava.

Que novidade.

Pouco depois de ela pegar a Clave (ou os pedaços dela) para vermos a pista, Muke apareceu, segurando uma linda guitarra preta e vermelha.

– Ei, Punk, você esqueceu. Foi ela que você foi pegar, não foi?

– NÃO É DA SUA CONTA, SEU BULUSTRUCO ATIRADO! – Ela gritou com ele, mas a pegou, e começou a tocar alguns acordes. E continuava estranha. Corrigindo: Mas estranha do que o normal (N/Hannah: MENTIRA! CALÚNIA! DIFAMAÇÃO! EU NÃO SOU ESTRANHA! – N/Percy: Não? Tem certeza? Porque eu tenho a impressão que pessoas normais não falam ‘bulustruco’ – N/Hannah: Ah, fica no seu canto, Golfinho u-ú)

– Bem, então vocês acharam a Clave? Posso ver? – Muke a pegou da minha mão, e eu resmunguei:

– Fique a vontade

Ele franziu a testa ao ler a pista

– ‘ Para ter sucesso, basta acreditar / Com as Runaways, você pode brilhar!’ – Ele revirou os olhos e (OMFG) jogou o papel para trás – Aff, propaganda

– SEU RETARDADO – Nico tentou pegar a folha antes que ela voasse pela janela, mas era tarde demais – VOCÊ JOGOU A PORRA DA PISTA FORA!

Muke piscou

– Ah, era a pista? Jura?

– CLARO QUE ERA, SEU BULUSTRUCO PARLAPATÃO ENERGÚMENO FUTRICADO (N/Nico: Os xingamentos dela me surpreendem cada vez mais)! AGORA POR SUA CULPA NUNCA MAIS VAMOS ACHAR MINHA CLAVE DA FELICIDADE! – Agora ela parecia a Hannah louca de novo, lol

– HANNAAAH – Gritou Rachel – Calma, não precisa matar o garoto! Você se esqueceu que estamos com Annabeth? Ela tem uma memória simplesmente incrível, nunca esquece minhas profecias. E olha que elas são bem complicadinhas - OWN GENTE, QUE COISA FOFA

Ela (Han) levantou uma sobrancelha para mim

– É serio?

– Aham – Eu nem estava me sentindo foda, para – Dizia ‘com as Runaways você pode brilhar’. Mas ainda estou tentando entender, porque esse nome ‘runaways’ me parece familiar—

– AAAHH ACHO QUE SAQUEI! – Exclamou Hannah – Havia uma banda só de garotas, nos anos 70, chamada The Runaways. Já fizeram um filme sobre elas, as vezes foi por isso que você achou familiar

– Isso mesmo – disse Cabeça de Alga – Lembra quando a gente foi no cinema, Annie, e tinha um casal chato na nossa frente que ficou o filme inteiro se agarrando? Então, acho que passou o trailer desse filme da banda

– Como se vocês dois não se agarrassem também – Rachel murmurou, mas eu revirei os olhos (um pouco vermelha, talvez) e a ignorei

– Sim, sim, me lembrei. Mas onde será que a pista nos leva? – Olhei para a (mini) deusa, porque certamente ela é a que melhor entende dessas coisas entre todos nós ali – Hannah?

– Bem... A Joan Jett, que era cantora e guitarrista, nasceu na Pennsylvania – Depois completou - Ela era foda, mano *-*

– Mas quantas pessoas haviam na banda? Quatro? Cinco? Quem garante que não é nenhuma das outras integrantes? – Observou Nico

– Uma delas já morreu – Ela fungou –, outra mora na Inglaterra, acho. Das outras três, a Joan é a única que segue carreira até hoje. Isso pode significar algo. Além disso, é aqui pertinho, o que temos a perder?

– Ahn... Sua Clave? – Perguntou Muke

– Cale a boca, Guitarrista do Mal

– Opa, opa, opa – Rachel fez uma cara ‘passante’, ou seja, de ‘estou passada’ – Você toca guitarra?!

Ele riu, meio modesto

– Toco sim

– Ah, que maravilha – Resmungou (novidade) Nico

– Geente, que toop! O que mais eu não sei sobre você? - Rach parecia até admirada – Tem namorada?

Uia, ela vai logo ao que interessa

– Ah, não – Ele fez uma cara de desdém – Eu não costumo me envolver assim, a não ser que seja alguém MUITO especial – Ele olhou (desaradamente) meio adimirado pra Hannah (que observava o céu), mas depois de reconstituiu – Sabe como é, Apolo é o deus dos solteiros

– Que fudido – disse Nico, revirando os olhos

– Ei, não provoca, Playboy

– Ou o que, Raio de Sol? Vai mandar um exército de solteiros atrás de mim? – Ele disse, segurando o riso

Muke fuzilou Nico com os olhos, mas ele já estava rindo loucamente

– Talvez, Playboy – Ele disse de forma macabra, depois riu maquiavélicamente – Talvez

Notas finais do capítulo
HEEEEY PERSONS!! Deixem reviews, ok?? E eu ficaria muito feliz com uma recomendação... Falando nisso, THAAANKS GUYS pelas que fizeram *O* quase morri HEUHEUHEU
Eu sei que toda vez eu prometo isso, mas de boa que vou escrever mais rapido agora *ja estou escrevendo o proximo capitulo u-u*
Atéé, pessoas!! :D
DEIXEM A PORCARIA DO REVIEW OU EU VOU AI PUXAR O PÉ DOCÊS DI NOITE!! HUNF *raios* *sintam a furia de uma filha de Zeus problematica*




(Cap. 16) Rachel é abençoada por Hefesto

Notas do capítulo
HELLO PEOPLE OF THE WORLD!!! *tenho a leve impressão que errei alguma coisa no ingles ferrado dessa frase masok*
Viiiiram, nao demorei tanto dessa vez *-*
Boa leitura!! :D

POV Percy

As pessoas sempre me chamam de lerdo, por ser filho de Poseidon. Talvez, no fundo (BEEEM no fundo) elas tenham só um pouco de razão, mas é que eu prefiro não me envolver nessas discussões e desentendimentos, enfim, dar pitaco. E por isso fico rotulado como ‘devagar’, parecendo meio desligado de tudo (N/Rachel: AHAAAM, tá que é só por isso. Nem um pouco de genética envolvida nessa lerdeza aí – N/Poseidon: O que você quis dizer com esse genético, hein? – N/Rachel: Nada! Nada não, Seu Popô! G.G ) Enquanto todos discutiam onde seria a próxima parada em busca da Clave da Felicidade, eu fiquei só calado, refletindo sobre a vida.

...

Mentira, eu estava pensando ‘Santo Poseidon, como mesmo que eu fui parar em um trailer multi-colorido, com cinco pessoas beirando na insanidade mental??’. O mais bizarro de tudo é que Rachel ficou completamente admirada com aquele cara chato, com nome de cachorro. Qual era mesmo o nome dele? Snoopy, Lupe... Não, não, era Muke. Isso mesmo, Muke. Ela simplesmente baba nele, por mais irritante e metido que o cara seja. Argh, meninas.

Depois do incidente de que ele deu uma risada do mal, digna de Cronos, ficou um clima estranho. Eu e Annie olhamos para ele tipo ‘wtf’, Hannah ‘onde foi que eu errei’, Rachei ‘AH QUE RISADA FODA’ e Nico ‘uii, to morrendo de medo’

– Bulustruco de Hollywood – Chamou-o, por fim, Hannah. Para quebrar o gelo, acho – Faz um favor? Vai lá pegar um suco na geladeira pra mim, por favoor? – Ela fez aquela cara de cachorrinho pidão.

– Por que eu iria andar até a geladeira para pegar suco pra você, Punk?

– Porque se você não for – Ela disse com a cara mais inocente do mundo – eu vou transformar essa guitarra num tambor e vou jogar na sua cabeça.
Ele respirou fundo

– De laranja? Sempre foi seu preferido.
Ela sorriu, triunfante

– Exatamente.

– Espere – interviu Rachel – Deixa eu te mostrar onde é a cozinha

– Ahn... Eu sei onde é, valeu

– Foda-se, EU VOU TE MOSTRAR O CAMINHO – Ela gritou enquanto os dois iam em direção ao corredor

– A Rachel parece—Comecei a comentar, porém fui interrompido antes do ‘bem interessada nesse cara’. Annie me deu uma cotoveladam e apontou discretamente para Hannah, acho que pelo fato deles serem amigos, e tal. Mas a deusa estava concentrada em outra coisa.

– Que tipo de metal é esse?

– Ahn? – Nós três dissemos ao mesmo tempo.

– Sua espada, Penadinho – Ela apontou para a lâmina negra embainada, de Nico – Que tipo de metal é esse?

– Ah, isso – Ele a desembainou, e o ferro refletiu seu rosto – Se chama ferro estígio

– Posso pegar?

– Contando que você não usa pra me matar, tudo bem – Ele a entregou a Hannah, que fitou a arma, admirada. Não acho que ela seja a pessoa mais confiável para segurar um trambolho daqueles, masok – Foi resfriada no Rio Estige, do Mundo Inferior.
Ela estremeceu, e devolveu a espada a Nico

– Não gosto de rios – Antes que eu pudesse perguntar, ela se virou para mim e Annie – E vocês? Tem espadas também?

– Na verdade eu uso uma faca – respondeu Annabeth – Mas Percy tem uma, chamada Contracorrente.
Eu peguei a caneta, e mostrei a ela como se transformava ao tirarmos a tampa. Nesse meio tempo, me lembrei de um detalhe. Um detalhe crucial, mas tudo bem

– Gente, só agora eu me dei conta de uma coisa: Hannah não tem uma arma
Todos olharam para mim

– E você ainda acha que ela precisa de uma? – Zoou Nico

– EI!

– Vocês dois, nem começem – Sabidinha pôs fim a uma possível grande discussão – Percy tem razão. Caso aconteça uma batalha, socar o adversário não é tão eficiente

– Não tenho tanta certeza – Murmurou o filho de Hades

– Olha, sobre isso... Acho que não vamos ter problemas – Hannah deu uma pausa – A um ano atrás, quando eu estava fugindo do Orfanato dos Infernos, um bicho cabuloso me atacou. Tentou me atacar, na verdade.

– Como exatamente era esse bicho? – Perguntou Annie, preocupada. A filha de Zeus simplesmente deu de ombros.

– Era estranho. Enoooooorme - Ela fazia gestos com as mãos -, e peludo. Muito peludo. Como um cachorro. Se não fosse mau, seria até fofinho
Nico engoliu em seco

– Um cão infernal
A descrição realmente me fez lembrar Sra. O’Leary, minha cadela. Mas ela é tão dócil, nunca atacaria ninguem. Acho.

– Mas continuando a história – Voltei ao assunto – um bicho cabuloso te atacou. E aí?

– E-eu nunca tinha visto algo do tipo, então meio que saí correndo—

– Bem heróico

– NÃO ME INTERROMPA, PENADINHO! Caham, aí uma hora ele me encurralou – Ela segurava o braço da guitarra com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos - Não me lembro direito o que houve; foi tão rapido! Só sei que de repente, de repente mesmo... Uma espada apareceu em minha mão.
Nós, ouvintes, até paramos de respirar, ansiosos para ver como aquilo ia terminar. Ela continuou:

– Eu fiquei tão chocada quando aquilo apareceu na minha mão, que gritei e joguei ela para cima – Ela franziu a testa – Não exatamente pra cima, digo, foi algo como ‘AH, SAI DE MIM CRIATURA’, e, na cagada, acabei acertando esse... Qual o nome? Cachorro do Mal? Não, não, Cão Infernal – Ela balançou a cabeça – Mas enfim. Ele se dissolveu, o que foi bizzaro, mas o mais estranho é que a espada havia sumido, e no lugar dela – Pausa - estava isso.
Ela levou a mão a cabeça, e depois de tirar o cabelo da frente, pude ver o que ela pegou: Um prendedor de cabelo, com mais ou menos cinco centímetros. Era um grampo, e em cima tinha a forma de um raio, que reluzia entre dourado e aquela cor estranha que só os raios de verdade conseguem ter. Branco? Azul? Prateado? Sei lá.
Annie pegou com cuidado o prendedor, e perguntou a Hannah

– Você não lembra do que fez para abri-la, certo?

– Não... – Ela respondeu, meio envergonhada, meio assustada. Você deve estar pensando: ‘A Hannah? Assustada? Que merda é essa, manolo?’ Mas sério, quase ser morto por um Cão Infernal é um trauma pra vida toda. Até pra deusa dos Punks – M-mas é porque eu estava em choque! Só sei que—

– Ei – interrompeu-a Nico – Ninguém aqui está te culpando. Era a primeira vez que você se deparou com um monstro, não esperaríamos que você chutasse a bunda dele. Tudo bem – Ele disse num tom calmo, depois tirou o cabelo arroxeado dela da frente de seu rosto e colocou-o atrás de sua orelha.
Eu vi isso como um gesto inocente e amigável, mas Annabeth certamente o viu como alguma prova de amor, ou algo ‘bênção de Afrodite mode on’ do tipo. Ela disse ‘own’, fazendo com que Nico afastasse a mão do rosto de Hannah e os dois corassem imediatamente.

Resolvi os ajudar, afinal quando eu tinha treze anos e Afrodite deu a entender que eu supostamente gostava de Annabeth, quase morri de vergonha.

– Então – Lançei um olhar de ‘deixe para zoar eles quando terminarmos’ para Sabidinha e peguei o prendedor – Isso é um grampo. Certamente se nós—
Quando o abri, ele não se deformou, como um grampo comum, mas sim se tranformou. Era parecida com Anaklusmos, porém um pouco menor. Como a maioria das armas feitas de Bronze Celestial, era dourada, com um leve toque de lilás. Pelas marcas dos lados, pode-se dizer que fora bastante usada em batalhas no passado.
Me virei para os três

– Sou foda u-u
Annabeth revirou os olhos

– Você não é foda, Cabeça de Alga. Eu tinha pensado em fazer isso antes, mas tive receio de quebrar - Depois ela sorriu – Você é fofo, é diferente.

– Com licença – Chamou Hannah, ainda com as bochechas vermelhas – Lembrem-se de que nós dois ainda estamos aqui, não queremos ser platéia. Agora, por favor, posso ver minha bendita espada? – Ela a pegou

– Eu estava pensando... – disse, pensativa (avá), Annabeth – Nós temos uma amiga que também é filha de Zeus, e consegue conduzir a eletricidade por sua lança. Talvez você consiga também.
Me lembrei da Cara de Pinheiro, com sua lança elétrica e o escudo, Aegis. Não é uma visão muito bela, ainda mais se ela estiver vindo em sua direção (Nota mental: Nunca, EM HIPÓTESE ALGUMA, deixe ela e Hannah se conhecerem. Muitos traseiros seriam eletrocutados se isso acontecesse).

– Por acaso essa outra filha de Zeus se chama Thalia? – Disse Hannah, desconfiada. Eu e Annabeth a olhamos, incrédulos.

– Como você—

– Foi o que me disseram. Que eu e Thalia, as filhas de Zeus, somos covardes. Não é mesmo, Nico? – Ela o encarou, brava

– Não exatamente – Ele tentou se explicar, nervoso. Acho que pelo fato de ela estar com uma espada e uma guitarra de quatro quilos nas mãos. Só acho – Só disse que vocês têm uns medos incomuns.

– É mesmo? – Ela pigarreou, e imitou a voz dele num falsete estridente – ‘’Thalia tem medo de altura, você de água. As filhas de Zeus são tão covar’—

– Calma – disse eu – você tem medo de piscinas?!

– É, hidrofobia. Fobia de água. Diagnosticada por um psicólogo depois de bater em três professores que me forçaram a fazer aula de natação.
Eu simplesmente não entendia como alguém podia odiar o mar.

– Então... Você não toma banho?

– PERCY! É claro que eu tomo banho! Não tenho nada contra chuveiros, só não gosto do mar, piscinas, rios, córregos, banheiras, riachos, lagos, lagoas e ribeirões. Resumidamente, qualquer lugar no qual eu possa me afogar – Ela disse, indignada.

– Bem, parando a discussão entre fobias para comentar algo REALMENTE importante – Annie interrompeu – acho que devemos te dar um treinemento, Hannah. Só o básico, digo. Amanhã de manhã podemos parar em algum campo, bem rápido, para isso. Para você dominar as habilidades de deusa no futuro, precisamos focar nas de semideusa por enquanto.

– Então amanhã nós faremos uma parada – falei – Acho que o Invi vai gostar de um descanço.

– Quem??? – Os três perguntaram

– Ué, nosso motorista Dearth Vader.

– E por que ele seria o Invi...? – Questionou Nico

– Porque ele é INVIsível! – Começei a rir que nem retardado. Os três reviraram os olhos (N/Percy: Fala sério, essa foi boa! Invi! De invisível! KAOPSKAPOSKPAOSK)

– Depois dessa – disse Hannah – eu desisto de viver.

– Ah, preocupa não. Você é imortal 8D

– AFF, GOLFINHO! – Ela se levantou e jogou o prendedor/lanterna pra cima de mim – Desisto de ficar aqui, então. Estou indo tomar banho, porque EU NÃO TENHO MEDO DE CHUVEIROS! – E saiu batendo o pé.

– Caramba, é a segunda vez que essa garota toma banho hoje – Comentou Nico.

– Ué, eu costumo tomar dois banhos por dia – Annie disse, sem entender - E daí?

– Que desperdício de água, Sabidinha.

– Desperdicio nada! – Ela nos fitou – Qual foi a ultima vez que um de vocês tomou banho?

– Sei lá – disse Nico, para zoar com ela – Uns tempos aí.

– Ah... Ontem, ou antes... – Respondi, pensativo.

– QUE NOJO! Saiam de perto de mim! – Ela gritou.

– Cara de Corujaa, você sabe que eu te amo, não sabe? – Eu a abraçei, mas ela gritou (de novo) e se levantou.

– SEUS BULUSTRUCOS BÊBADOS FRANCESES E SUADOS! DEUSES ME LIVREM, que nojo, nojo, NOJOOO – Ela saiu correndo pelo corredor. Nós dois rimos.

– Percy, acho que sua namorada bebeu. Já pegou a mania do bulustruco!

– Tipo isso, cara. Culpa da sua namorada.


Ele parou de rir, confuso.

– Minha o quê?

– Sua namorada.

– Eu não tenho namorada.

– Não?

– Não.

– Então a Hannah seria o que? Sua paixão platônica?
Eu imediatamente me arrependi de ter dito isso, pois os olhos dele ficaram com aquele brilho assassino típico de Hades. Felizmente, antes que ele tivesse a oportunidade de jogar um tambor na minha cabeça, ou fazer algo cabuloso que me mandasse direto pros Campos de Punição, ouvimos um barulho que salvou minha vida.

O barulho de uma explosão.

POV Hannah
Todos os dias eu agradeço a Deus por ser eu, não outra pessoa. Não, não que eu seja fodasticamente legal, ou narcisista. Mas sim porque, fala sério, deve ser muito irritante ter que me aguentar. Na uma hora e meia de banho, dei meu melhor show da turnê Live In Banheiro: Com direito a Green Day, The Pretty Reckless, The Kooks, Arctic Monkeys, Beatles, Queen, Adele, McFly, Avenged Sevenfold, Coldplay... Acho que os únicos estilos musicais que eu não cantei foram pop e sertanejo, porque né (Não, Adele não é pop. É soul u-u).

Enfim, podemos pular essa parte. Quando desliguei o chuveiro, já eram quase oito da noite. Estiquei a mão para pegar minha mala, e subitamente me lembrei de um acontecimento de ontem à noite, no Acampamento. Uma onda de pânico tomou conta de mim. Elas não teriam feito isso comigo, né? Não, é claro que não. Se bem que... Fariam?

Flashback mode on

Eram quase nove da noite, e eu já havia decidido que ia fugir atrás da Clave da Felicidade no dia seguinte, de manhãzinha. Eu estava na loja do Acampamento com Connor e Travis Stoll, arrumando minha malinha da alegria, quando de repente ouvi vozes atrás de nós.

– Sinceramente, não acha mais fácil deixar isso com a gente?
Me virei, e vi Jennifer e Anne, duas filhas de Afrodite. A primeira era branquinha, de cabelos ruivos e lisos, e usava um vestido azul bebê (meio curto demais pro meu gosto, masok). A segunda era morena de cabelos ondulados, e usava uma blusa florida com uma saia salmão. Embora fossem diferentes, era óbvio que eram irmãs. As duas tinham o característico olho multicolorido da deusa do amor: Ora azul, ora verde, ora mel.

Nunca me senti tão Ozzy Osbourne quanto naquele momento, é.

– Olá, garotas – Disse Connor, com cara de conquistador. Aff, esses meninos, não podem ver um rabo de saia – Que surpresa ver vocês aqui.

– Olá, Stolls! – disse Anne - Olá Hannah! Voltando ao que minha irmã havia dito, não acha melhor deixar seu guarda-roupa com a gente? Podemos falar com nossa mãe, ela adoraria te dar uma mãozinha.

– Aaaanh, acho que estou bem assim. Sério, obrigada, mas—

– Nana, por favor – Jennifer me interrompeu – Escute a gente. Quero dizer, olhe pra você! – Ela me virou pelos ombros, para ficar de frente ao espelho.
‘Qual é o problema comigo?’, pensei, ‘Se fosse hoje de manhã, na rua, eu responderia: ‘TUDO’’. Mas depois que cheguei, e Quíron veio verificar se eu não estava doente, ele me mandou pro chuveiro. Agora, eu parecia uma campista (quase) normal. Camisa do Acampamento, short jeans, coturnos. As cicatrizes pareciam mais aranhões. Meu cabelo continuava com uma mecha roxa desbotada, mas eu pretendia recolorir o quanto antes. As pontas eram ‘meio’ irregulares, partes na cintura e partes acima dos cotovelos, de um dia que Muke cortou ele com um canivete (Longa historia. Digamos que eu nunca mais dormi com a porta destrancada).

– Qual é o problema comigo? – Repeti, em voz alta.
Jennifer e Anne começaram a rir.

– O que há de errado com você? Sério?! – Perguntou a ruiva.

– Minha filha, não há NADA errado. Muito pelo contrário, acho que você devia deixar de se esconder, mostrar ao mundo quem você é!

– Ain? – Elas tinham usado crack, sério. Porque, acredite em mim, eu não sou nenhuma musa globeleza.

– Falando sério – Continuou Jennifer – Se você fizesse uma hidratação no cabelo e recolorisse o roxo, ia ficar um loiro mais bonito. Uma limpeza de pele também ia ser bom – Ela disse meio que me examinando. Connor e Travis se entreolharam, como que pensando ‘garotas loucas, meus deuses’.

– Também acho que você deve usar blusas menos largas, para não te deixar reta – Anne disse, e Jen concordou.

– AIN? – Repeti

– O que estamos dizendo, é que você tem potencial.

– Ah, se tem – Murmurou Connor.

– O que? – Me virei pra ele

– Nada.

– Enfim, deixe sua mala com a gente – Anne a pegou enquanto Jennifer nos empurrava para fora – Vamos fazer direitinho – E bateu a porta na nossa cara.
Travis se virou para mim:

– É Hannah, boa sorte.

– Vou precisar – suspirei – Mas vocês não acham que elas colocariam florzinhas rosa chock pra mim, acham?

– Nunca se sabe, quando depende de crias de Afrodite – Respondeu Connor – Uma vez elas colocaram maquiagem permanente na gente G.G

– Ah, que lindo – Eu ri – Vocês devem ter ficado tão sexies de batom vermelho.

– Zoa mesmo, Dona Hannah. Daqui a pouco é você que vai sair andando de vestido rosa

– Fala sério, Travis. QUALQUER COISA é melhor que batom vermelho – Eu disse, mas rezava para Afrodite para que ela tivesse pelo menos um pouco de piedade de mim.

Flashback mode off

Pois é, agora você entende por que eu quase tive um piripaque quando me lembrei de olhar a mala. Em cima havia blusas do Acampamento, o básico, mas eu estava com medo de fuçar em baixo. Muito medo.

Acho que meu nervosismo era pior do que eu achava, porque de repente ouvi trovões lá fora, e o clarão de um raio. Contei até cinco, esperando a triste visão de purpurinas, ou babadinhos rosa floridos, mas vi roupas completamente escuras e estranhas. E com isso eu quero dizer exatamente o meu estilo. Um rosa aqui e ali, mas nada de babados. FUCK YEAH! Achei um pijama legal, um short preto com caveirinhas e uma regata branca combinando. Me vesti, e levei minha mudança para fora do banheiro.

Ao sair, quase fui atropelada. Dei de cara com Penadinho, que trazia minhas coisas que deixei na sala. Prendi o grampo no cabelo de forma que a franja puta não ficasse caindo no rosto.

– Caramba – disse ele, depois de tossir por conta da grande quantidade de vapor (Eu só tomo banho quente, bitch) – Para uma hidrofóbica, você até que gosta bastante de água.

– Eu já expliquei! Só tenho horror de—

– ... mar, piscinas, lagoas, ‘eticétera’ – Eu riu, se recostou na parede e olhou pra mim – Belo pijama.

– Ah – eu corei – Obrigada.

– Por acaso você escutou algum barulho de, hum... Coisas explodindo?

– O QUEE? Coisas explodindo? DA FUCK?

– Ahn... Sabe quando você pediu pro Raio de Sol pegar suco, e a Rachel foi atrás?
Nossa, eu já havia até esquecido. Faziam, o que, duas horas isso? CADE OS DOIS IMPRESTÁVEIS COM MINHA LARANJADA, HEIN? HEINNN???

– Sei.

– Então. Eles meio que explodiram a cozinha.
WHAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAT????

– MASOQUE?? PQP, eu pedi para eles TRAZEREM, não FAZEREM o suco!!!!

– Não sei. De alguma forma, Rachel conseguiu botar fogo no liquidificador.

– Jesus of suburbia! – Fiz uma alusão à música do Green Day (N/A: Eu estava escutando Jesus of Suburbia quando eu escrevi esse POV HEUHEUHUE enfim) – Nem quero saber como ela conseguiu essa façanha.

– Diz a garota que explodiu um laboratório – Ele revirou os olhos – Ah, e Annabeth está te chamando.

– Para...?

– Acho que para lanchar. Ninguem conseguiu te esperar, você demorou éons no banho. Agora, se me der licença, é melhor eu ir tomar o meu antes que Annabeth apareça e jogue um balde de água na minha cabeça.

– Por que ela... Esquece, não quero saber.
Ele sorriu.

– Não vai querer mesmo.
Fui procurar a filha de Atena, e por fim a achei na cozinha.

– Me chamou? – Perguntei.

– Ah, sim. Você deve estar com fome.

– Está parecendo minha mãe – O que era bem contraditório, já que eu não me lembro da minha.

– Não é a primeira vez que ouço isso – Ela riu – Ainda mais hoje, que fiz Rachel e Muke limparem a cozinha.
Olhei para os lados. Nenhum vestígio de explosão.

– Como eles conseguiram arrumar tudo?

– Nem foi difícil – Ela respondeu, enquanto eu devorava dúzias de pãezinhos – Só o pobre liquidificador que pagou o pato. Rachel resolveu fazer um chá, mas se destraiu – Nem imagino o motivo da distração – e o gás butano em excesso acabou causando uma reação química com...

– Annabeth.

– Sim? – Ela piscou.

– Nunca fui muito boa em ciências.

– Ah, certo. Bom, vou lá ficar de olho em Rachel. Não quero que ela exploda mais nada.

– Apolo pode não ser tão generoso da próxima vez.

– Exatamente – Nós rimos, e ela saiu.
Terminei meu lanche (N/Hannah: Meu lanchinho, meu lan... Tá, parei) correndo, para ter tempo de treinar umas musicas antes de dormir, e fui correndo para o quarto.

Estava vazio, então taquei minha mala num canto e pulei na cama. Transformei a lanterna num violão comum e, embora meus dedos estivessem um pouco enferrujados de um ano sem atividade, tentei pensar em alguma música. No fim, me lembrei de uma que adoro.

– All the other kids with the pumped up kicks, you'd better run, better run, outrun my gun. All the other kids with the pumped up kick, you'd better run, better run, faster than my bulleeeet!!
Pouco antes do ultimo refrão, ouvi passos na porta, e parei de tocar. Era Muke.

– É uma música bem legal – Ele disse, e se sentou ao pé da cama, certamente esperando que eu continuasse. Ah, bem capaz mesmo.

– Hey, Muke, hoje de tarde eu me esqueci de uma coisa.

– Sério? – Ele disse se aproximando – O que?
Cheguei mais perto.

– Isso – Dei um soco no queixo dele.

– PORRA, HANNAH! QUE MERDA É ESSA??

– ISSO FOI POR TER FEITO AQUILO COMIGO!

– Aquilo o que? – Ouvi uma voz da porta. ‘Ah não, por favor. Agora não.’, pensei. Quase me joguei pela janela, COM TANTA GENTE PRA APARECER, OLHA QUEM VEM.

– Aquilo o que? – Nico perguntou de novo, com o cabelo ainda pingando do banho.

– Nada que te interesse, Playboy.

– Acho que me interessa sim – Ele andou irritado – E falando nisso, faça o favor de sair da minha cama.
FUUUUUUUUUUUUU!!!!

– Quem disse que ela é sua?

– A Annabeth.

– Mas quem garante que a Punk não prefere ficar comigo?

– EI! Eu— Começei a falar, mas eles me ignoraram.

– Não acho que ela vai querer ficar com você, Solzinho.

– Não foi o que me pareceu hoje de tarde.

– OPA! Podem deixar a dona Hannah aqui falar? - Tentei intervir, mas Muke foi jogado no chão antes que eu pudesse fazer alguma coisa. Pois é, ninguém ouve a garota doida de cabelo roxo.

– Quem você pensa que é, Playboy? – Muke se levantou, bravo.
Resolvi tomar mais medidas drásticas (Não, dessa vez eu não me sentei no colo de ninguém. A medida de agora foi menos drástica que aquela). Transformei o violão num trompete e fiz a nota mais irritante que consegui lembrar, aquela que os mortos até reviram no túmulo.

– OW PORRA, ME ESCUTA AQUI!!! – Eu meio que falo muitos palavrões quando estou brava, é – VOU FAZER VOCES ENGOLIREM ESSE TROMPETE, QUE MERDA!

– Hannah – Muke começou a falar.

– Suma daqui.

– Mas—

– SUMA DAQUIIIII – Descontei toda minha raiva nele, coitado.

– CRUZ CREDO, TO INDO!! – Ele saiu correndo, assustado.
Peguei a lanterna, joguei na minha bolsa e sentei na cama, emburrada. Nico se aproximou meio sem graça.

– Hmm... Voce não vai me mandar sumir daqui, vai?

– Não. Pelo menos não por enquanto.
Ficamos calados por alguns minutos, até que ele comentou.

– Dava pra ouvir você tocando de lá de fora. Você canta bem.

– Obrigada – Eu estava sendo meio rispída, admito.

– Você vai ficar brava comigo porque seu amigo é um idiota?

– Sim.

– Ah, obrigado. Me sinto muito melhor.

– Era minha intenção.
Não sei por que, mas de repente começei a rir. Nico olhou para mim assustado.

– Por que você está rindo?

– Nada.

– Ah, e claro que tem um motivo. Num momento você está quase quebrando o mundo e no outro você começa a rir – Ele parou para pensar – Ah, você admite que foi engraçado quando o Solzinho caiu de cara no chão?

– Não! – Gritei e joguei meu travesseiro nele, mas comecei a rir mais.

– Claro que foi! - Ele jogou o travesseiro na minha cara.

– Não foi nãooo!!

– Admita!

– Boa noite, Penadinho! – Enterrei a cabeça no travesseiro, mas minha barriga já até doía.

– Um dia você vai admitir!

– BOA NOITE, SEU COISA!! – Me enfiei embaixo das cobertas, e embora não achasse que estivesse cansada, adormeci instantaneamente.

Notas finais do capítulo
Deixem reviews, ok? *-*
E sabem o que eu descobri?? SÓ 25% ~le eu estudando pra prova de amanha, rezem pra Atena por mim porque vou precisar G.G ~ DAS PESSOAS QUE ACOMPANHAM A FIC DEIXAM REVIEW!!! ACHO UMA PUTA FALTA DE SACANAGEM
Nem que seja pra falar 'bom' 'ruim' 'legal', por favoor!
Me deixem feliz *-*
Olha: Uma autora feliz = uma autora que escreve mais rapido u-u
Pensem nisso u-u
*Músicas:
Jesus of Suburbia - Green Day
Pumped Up Kicks - Foster the People
(também conhecida como banda indie super fodástica que a Marih aqui viciou agora)
Ps. Me inspirei no Leo incinerando as coisas pra fazer esse título HEUHEEUHEUHE




(Cap. 17) Seguura, peão!

Notas do capítulo
Hello guys!
Mariana tentando ser responsável aqui u-u
Nem demorei, demorei?
Bem... Esse foi o capítulo com mais POVs que ja fiz HEUHEUHEUHE
Acho que vão gostar *-*
Ou não, né?
Sei lá ._.
Well, boa leitura!

POV Annabeth

Eu estava sentada, olhando para a janela, e observando as nuvens. ‘Como uma garotinha louca pode ser dona disso tudo?’, eu pensava. Por conta de sua obsessão pela Música, eu até me esquecia que as Nuvens são da Hannah também. Devo ter ficado horas lá, observando o anoitecer, até que ouvi alguém me chamar.

– Annie? – Percy se aproximou – Tudo bem? Já são quase onze horas.

– Ah, certo – Eu voltei para a realidade – Eu só estava... Pensando na vida.

– Sei... – Ele se sentou ao meu lado – Eu te conheco, Sabidinha. O que foi?
Eu suspirei.

– Faz um tempo que a gente não fica junto. Quero dizer... Você sabe (N/Annabeth: Seus pervertidos, eu disse isso de um modo completamente inocente, ok? u-u )

– Quer dizer que você sente minha falta? Mesmo a gente se vendo todo dia?
Revirei os olhos.

– Hm, convencido – Depois ri - Talvez.

– Eu também – Ele me beijou, e depois eu apoiei minha cabeça em seu ombro.

– Você sabe que eu te amo, não sabe, Cabeça de Alga?

– Sei... E você sabe que eu te amo mais?

– Não, eu amo mais.

– Não, eu.

– Eu.

– Sabidinha, eu que— O interrompi com outro beijo.

– Tudo bem, entendemos que os dois amam muito. Certo?

– Sempre. Mas eu mais u-u

– Percy! – Eu o repreendi, rindo – Pensei que tivéssemos chegado a uma conclusão!

– Nossa, ela fala que nem advogada.

– Meritíssimo! Isso é uma calúnia!
Ficamos rindo por um bom tempo, depois observamos a paisagem passando rápido a medida que o trailer se locomovia.

– Está cansada? – Percy perguntou depois que bocejei.

– Um pouco. Eram o que, seis horas quando nos levantamos?

– Por aí – Ele se levantou e deu a mão para me ajudar – Anda, Annie. Até mesmo a garota mais inteligente do mundo tem que dormir um pouco.

– Ceeeeerto... Mas é um caminho muito longo daqui até lá... Me carrega? *-*

– Ahn...

– Por favooor!

– Tudo bem – Ele me pegou, e foi me levando até o quarto. Rachel e Muke dormiam em uma cama, Hannah e Nico na outra. Awn, eram tão lindos juntos *u*

– Muito bem, senhorita Chase. Mais alguma coisa? – Percy sussurrou, para não acordarmos os outros.

– Não, obrigada, estou acomodada agora – OOOH, cobertas quentinhas *-* (N/A: what)

– Eeei – Rachel murmurou, ainda dormindo – Eutovindtudok? Nãopensquiiitodurmin (Tradução: ‘Eu estou ouvindo tudo, ok? Não pensem que estou dormindo’ u-u )

– Não se preocupe, Rachel. A Annabeth é santa.

– Será que posso dizer o mesmo de você, Perseu Jackson? - Perguntei

– Claro u-u

– Imagiiina – Revirei os olhos.
Percy riu, e me deu um beijo de boa noite.

– Durma bem, Annie . Sonhe comigo!

– Obrigada, Cabeça de Alga. Vou tentar sonhar com você, ao invés com o Ian Somerhalder.

– Quem? – Cuímes mode on. Aiai.

– Ninguem, Percy – Virei para o canto e murmurei, quase dormindo – Ninguém.


POV Nico

Pela primeira vez em minha vida de semideus, eu não tive sonhos bizarros enquanto dormia. Pra falar a verdade, o pesadelo começo quando eu acordei. Quando abri os olhos, não dei de cara com o teto, como era de se esperar, mas sim com dois grandes olhos azuis bebê.

– BOM DIAAA, BELO ADORMECIDO!!!
Esfreguei os olhos, incomodado com a claridade, e olhei para ela, meio grogue. Não gosto quando me acordam em plena madrugada, sabe?? (N/Annabeth: Eram dez e meia da manhã, masok – N/Rachel: Todo mundo estava de pé desde as nove, só o Nico que ficou morto lá – N/Nico: PELO AMOR DOS DEUSES, me deixem narrar a porcaria da história?)

Hannah estava pulando pelo quarto, com uma blusa preta, escrito ‘‘punk’s not dead’’ em dourado, e de alguma forma havia conseguido retingir o cabelo. Agora havia uma mecha roxa, azul, vermelha e verde. Nem vou perguntar onde Hades ela conseguiu tinta.

– Eu não sei por que, mas hoje estou me sentindo hiperativa!! Sera que é a clave? Não consigo ficar quieta um segundo! –Antes que eu pudesse fazer um comentário, ela pegou a lanterna e transformou num banjo – OLD MCDONALD HAD A FARM, IA IA IÔÔ

– Hannah?

– AND ON HIS FARM HE HAD SOME CHICKS, IA IA IÔÔ

– Hannah. – Ela estava começando a me assustar O-O

– WITH A CHICK CHICK HERE, AND A CHICK CHICK THERE! HERE A CHICK, THERE A CHICK, EVERYWHERE A CHICK CHICK!! OLD MCDNALD HAD A FAAARM (N/A: Hannah – Naturalmente dorgada)

– PELO AMOR DOS DEUSES HANNAH, CALE A BOCA UM SEGUNDO!

– Ia ia iô?

– Pode parar de tocar banjo? Esse negócio é irritante.

– Nem é u-ú

– É sim.

– Nem é.

– É sim.

– Nem é.

– ENFIM.

– Ah, certo – Ela colocou a lanterna no bolso – Seguir o conselho do Percy. Tentar agir como uma pessoa normal.

– Exatamente.

– Eu estou meio nervosa com esse tal treinamento... – Não sei o que me assusta mais: O fato de ela ser louca ou voltar à normalidade em cinco segundos - Com minha coordenação motora, não ficaria surpresa de colocasse fogo em alguém, é – Ela tirou algumas roupas aleatórias da minha mala e ia jogá-las a mim, mas parou subitamente – AI MELDEOS. QUE BLUSA FELIIZ!! *O*

– Ahn?

– Essa – Era minha camisa preta, com estampa de esqueletos dançarinos, como uma comemoração ao dia dos mortos. Eu diria que ela é qualquer coisa, menos feliz – POSSO FICAR COM ELA?? *O*

– Não.

– AFF, seu chato – Ela jogou tudo em cima de mim - Ande logo aí, estaremos esperando. ARE WE, WE AARE! ARE WE WE ARE THE WAAAAITING!!! AND SCREAMING, ARE WE WE ARE THE WAITING! – Com essa saída dramática, fechou a porta.

Deuses. Essa garota fala demais.

Troquei rápido de roupa, peguei uma maçã na cozinha e fui para a sala. Percy e Rachel conversavam, enquanto Annabeth discutia algo com Raio de Sol. Hannah estava na frente, do lado do Invi... CAHAM, do Dearth Vader, quase quebrando o aparelho de rádio, procurando algo naquele fim de mundo que prestasse.

Não sou a pessoa mais bem humorada de manhã, então simplesmente me recostei na parede e fiquei fazendo anotações mentalmente. O que sabemos que houve:

*Algum psicopata resolveu raptar uma deusa problemática que, um século depois, é encontrada com idade mental variante de seis a quinze anos. Ah, e é hidrofóbica.

Vamos ter que apelar para o Scooby Doo.

– Hey, Invi – Annabeth me trouxe de volta a realidade – Acho que aqui está bom.
Olhei para a janela: Estávamos em um daqueles campos, de grama baixa, bege, com uma plantação de milho e ao fundo uma fazendinha. Ah, maravilha, vamos invadir propriedade alheia.

Contando que ninguém me faça engolir cereal, tudo bem. Já basta Deméter ‘ah, está muito magricela, tem que comer mais. Dois meses de arado deixariam o garoto em boas condições. Hades, pelo amor da agricultura, quer fazer sacrifício humano com seu filho? Da pra ver as costelas dele, daqui a pouco Éolo passa e ele voa longe!’ BLA BLA BLA .

Mas enfim. Revirei os olhos me virei para a porta.


POV Annabeth

Sinceramente, eu não mereço isso. De verdade. ESSE POVO NÃO CONSEGUE FICAR CINCO SEGUNDOS SEM BRIGAR! Euzinha aqui estava fazendo um FAVOR para a Hannah, estávamos indo para o treinamento DELA, e ela se recusou a sair do trailer. Oh, sweet gods.

– Nãoo, Annie!!! Por favor, justo quando eu acho uma música decente? :c

– Não interessa!

– Mas mas—

– NADA DE MAS!!
Percy me olhou assustado.

– An, acalme os nervos aí.

– ESTOU CALMA! – Gritei na cara dele, e saí arrasstando Hannah até o Campo. Ela me olhou indignada.

– Injusto, Annabeth! Só porque estava tocando St. Jimmy! Uma música tão especial...

– Por que ela seria especial? – Perguntou Rachel.

– Porque ela é a música do meu namorado u-u
Olhamos para ela perplexados. Deuseeeeeeees, um namorado!!! QUE REVELAÇÃO!

Espere, isso não é bom. Eu estava torcendo por ela e o Nico. Mas... E se ele for o tal namorado? *cara perversa*

– O queee? – Perguntou o dito cujo, sem acreditar. É, pelo visto não é o Nico ._.

– É sim gente – Ela comecou a cantar - St. Jimmy's coming down across the alley way, upon the boulevard like a zip gun on parade… My name is Jimmy and you better not wear it out, suicide—
Rachel estava a ponto de explodir.

– Gente, que coisa fofa *-* - Claro, a musica fala que o cara anda por aí com uma bazuca e ela acha lindo – Quem seria esse namorado?
Hannah olhou para ela com cara de paisagem.

– Ué, achei que fosse óbvio. O Jimmy.

– Jimmy?? – Muke e Nico perguntaram ao mesmo tempo, enciumados – Que Jimmy?

– O Jimmyntira 8D
Ah, deuses. Eu não acredito que caí nessa ¬¬

– Depois reclamam do meu apelido Invi – Percy fingiu estar magoado. Dei tapinhas nas costas dele.

– Tudo bem, Cabeça de Alga. Vai passar.

– Que isso, Punk – Muke disse a Hannah – Você pode ter um namorado – Ele passou o braço pela cintura dela, que o lançou um olhar mortal.
Vish. Isso não vai acabar bem.

– Exatamente! – Rachel se enfiou no meio dos dois, obviamente – Jimmy é um nome melhor pro Invi!

– Nossa, obrigado – Murmurou Cabeça de Alga.
Muke franziu a testa.

– Mas o Invi é invisível, não de mentira! – Teoricamente ele é um casaco falante, masok – Jimmy é a namorada do Nico, já que nem uma invisível ele consegue.

– Annie – Percy sussurrou – De acordo com meus cálculos, isso vai dar merda.

– Exatamente – Sussurei como resposta.

– O QUE FOI QUE VOCÊ DISSE? – Nico gritou na cara dele (Muke)

– A verdade ._.

– MAS VOCÊ TAMBÉM NÃO TEM NAMORADA!

– Eu já disse, é porque estou esperando por alguém especial – Ele passou os braços na cintura da Hannah de novo, mas ela bateu nele e veio andando para o meu lado.
Nico revirou os olhos, depois cerrou os punhos.

– Pelo menos eu tenho uma justificativa – Raio de... Muke continuou – Meu pai é deus dos solteiros.

– Grande coisa, pff

– O QUE DISSE?

– Nada! Só que seu pai é muuuito foda, deus dos solteiros. Grande utilidade.

– NOSSA, PORQUE SER DOS MORTOS É BEM MELHOR.

– É SIM.

– ENTÃO PROVA.

– PRONTO – Nico cravou a espada no chão, e de repente um exército de esqueletos apareceu – VOCÊ CONSEGUE FAZER ISSO, SOLZINHO?

– CONSIGO AINDA MELHOR, COM VIVOS – Ele estalou os dedos, e centenas de solteiros (nerds, devo mencionar) apareceram também.
E aí a guerra começou.


POV Desconhecido


Lá tava eu calmo, arando os campo pra plantação de milho quando ouvi uns baruio istranho. Resorvi bizoiá o que era de trator, e quando cheguei mais perto ouvi, além dos baruio, uma minina cantando uma música em ingreis, acho que é dos Bitols. Infim, nunca fui muito fã desse tipo de música. Prefiro uns banjo, uns cajón... Quando cheguei perto, vi um tanto de caras. Bem, acho que era caras, porque CRUIZ CREDO! QUE BANDO DE GENTE DISGRAÇADA DI FEIA! Pior que Tião meu vizim! Mas no meio deles tinha um minino que atraía todos os olhares. Parecia até que brilhava, mais até qui o lampião da fazenda! Eita, beleza danada de boa, minha gente! Ou pode ser que ele atraía os olhares porque tava praticamente matando um minino branquelo.

Nããão, né por causa disso não.

Acho que isqueci de prestá atenção no trator, porque di repente ele estava fora do controle...


POV Nico


Eu estava acabando com o Raio de Sol na luta (N/Rachel: Que mentiraa!!! Ele tava era sendo massacrado pelo meu marido! – N/Nico: CALÚNIA! Eu estava ganhando! Né, gente? *silêncio*) ENFIM, EU ESTAVA LUTANDO COM O RAIO DE SOL, e quando finalmente ia desferir o golpe para ferir seu lindo rosto (DE ACORDO COM OPINIÕES ALHEIAS, OK???).....

– SEGUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUURA PEÃO!!!!!!!!!!!!!

Notas finais do capítulo
E entaaao, gente?? Curiosos??
Agora que a fic fica interessante *-*
Tipo, eu acho ._.
Enfim...
Me falem o que acham que vai acontecer, ou quem é o Desconhecido! *O* Ok? :3
*Músicas:
Old McDonald Had a Farm, IE IE IÔ!
Are We the Waiting - Green Day
St. Jimmy - Green Day
Ps. Tipo, todo capítulo tem musica do GD HUEHUEHU medo




(Cap. 18) O Simba não é tão bonitinho assim na vida real

Notas do capítulo
OKAY
EU SOU IRRESPONSÁVEL
KASJHFAKSJFHAKSJFHAKSJHF
Don't kill me Ç-Ç
E desculpe nao ter respondido alguns reviews, eu sempre posto depois de responder...
Bem, I hope you enjoy this chapter! *u*

POV Hannah

Às vezes eu penso que minha vida já é tão bizarra que nada mais estranho pode acontecer. Mas naaao, tudo que é ruim pode piorar. Acredite em mim, pode sim.

– Help, I need somebody. Help! Not just anybody, help! I need somebody HEEEEEEELP – Eu cantava, porque definitivamente eu esperava alguém pra me tirar daquele manicômio.

Primeiro, QUE TIPO DE PESSOA TRAVA UMA LUTA EM PLENO CAMPO DE MILHO?! HEIN?? ~le se acalma~ Enfim, os dois exércitos, de esqueletos (que tooop *O*) e nerds lutavam. Ossos e óculos voavam para tudo quanto é lado, quando ouvimos um grito estridente.

– SEGUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUURA PEÃO!!!!!!!!!!!!!
Aquela foi a cena mais bizarra que eu já presenciei. Um garoto ruivo gritava loucamente enquanto tentava controlar um trator enorme, que estava desgovernado. Se não fosse tão trágico, eu teria até rido (N/Muke: Mentira, ela riu sim – N/Nico: É, ela tava rindo porque você estava perdendo u-ú – N/Rachel: Quantas vezes eu vou ter que te dizer! O Muke que— N/Nico: Rachel, ninguém quer saber, ok?) . Rachel puxou Muke, e eu empurrei Nico para o lado a fim de não serem esmagados. Infelizmente, os exércitos não tiveram tanta sorte, é. O trator saiu levando esqueleto e nerd e companhia (N/A: Estou imaginando a cena. LOL), saindo desembestado... Ei, isso me lembra: Sabia que existe uma banda em Natal chamada Jumento Desembestado? KAPOSKAPOSKA É VERDADE!

Espere, onde eu estava? Ah, sim. Desembestado. Ok.

O trator saiu desgovernado, arrastando tudo, e o garoto ruivo caiu de cara nos campos de milho. Murmurei um ‘de nada por ter te salvado, Nico!’ e fui correndo até ele. O garoto era ruivo, queimado de sol (devido ao trabalho na lavoura, creio eu) e devia ter cerca de oito ou nove anos.

– Ei – O cutuquei – Ei, garoto. Você está legal?

– Ãhnnz – Ele resmungou alguma coisa, desmaiado.

– Ô MULEKE! – Deu um tapa na cara dele, sou tão carinhosa com as pessoas – ACORDA!

– Hummm – Ele abriu os olhos devagar, eram verdes. Quando me viu, os arregalou – VISH MARIA! Ocê é garota dus Bitols? Que qui ocê tá fazendo aquí?
Sweet Jesus, o que é isso? Um marciano? O-O

– Hm, se você quer dizer garota dos ‘Bitols’ porque eu estava cantando ‘Help!’, sim, sou eu. Agora resta saber quem é você, e por que saiu andando por aí atropelando as pessoas.

– Ieu? Eu não... AI MEU SÃO BENEDITO! Eu machuquei ocês?

– Não. Mas quase. Parabéns. A propósito, meu nome é Hannah. E o seu?
Quando ele ia abrir a boca para falar, Annabeth veio correndo e se ajoelhou ao meu lado, perguntando ao garoto:

– Meus deuses! Você está bem?
Ele olhou para Annie, e era como se, se... Como se ele estivesse vendo o céu depois de passar pelo purgatório. Que lindo, eu sou um purgatório. Legal, hein. Wait, what? Ah, digamos que ele olhou para ela vislumbrado, literalmente babando.

– Você está bem? – Ela perguntou novamente, preocupada.

– Ô, lasquera. Nunca estive miór.
Aiai. Homens. São todos iguais.

– Quem é ele? – Nico se ajoelhou ao meu lado.

– Não sei. Quem seria você, pirralho? – Perguntei, dando outro tapa na cabeça dele. Annabeth me repreendeu com o olhar.

– Uai, eu sô eu. Quem mais eu seria?

– Ela quis dizer qual é o seu nome – Explicou Annie.

– Ah, intonces ela divia dizê de um jeito mais civilizardo.
Eu estava quase empurrando ele civilizadamente encosta abaixo.

– Meu nome é Orchard. Muito prazê – Ele fez uma reverência – Mas pode mi chamar de Orchinho. E você, pomar das minha fazenda, quem seria?
Nico e eu estávamos, tipo, ‘não ria, não ria’.

– Hm, sou Annabeth. Essa é Hannah, e ele é Nico.

– Ah, o minino branquelo.
Penadinho fuzilou ele com os olhos.

– Olá.
Fala sério, ele não é ‘branquelo’. Pálido, ou branco, talvez. Ok, muito branco. Você entendeu. E mais uma coisa, só eu posso o chamar de branquelo.

Espere, eu realmente pensei isso? Vish.

– O que houve com seu trator, para sair descontrolado daquele jeito?

– Num sei não. Ele só saiu e... – Ele se desesperou – AI MEU JESUIS! Cade meu trator?

– Explodiu.

– Hannah! – Fala sério, a Annie não deixa eu me divertir – Bem, depois que você caiu, ele sumiu de vista...

– Meu avô vai me matar! – Ele gritou, quase chorando.

– Talvez você devesse primeiro falar com sua mãe. Mães são mais compreensivas.

– Eu num moro com minha mainha. Nunca nem a conheci, na verdade. Meu paizim diz que ela não pôde ficar.
Annabeth e Nico se entreolharam. Eu só fiquei lá boiando, como sempre.

– Eu suspeitava – Murmurou a filha de Atena – Era coincidência demais.

– O quê? – Perguntei.

– A profecia. ’’Atrás da Clave vós sete irão’’. Somos seis. Falta um meio sangue.

– E vocês acham que... Fala sério.

– Mas faz sentido – Ela se virou para OrchinhoCAHAM, Orchard – Você já pensou ter alguma... Habilidade especial?
Ele pensou por um tempo.

– Sô muito bom cas plantação, bom de arado. E bem rápido pra abrir as porteira.

– ‘Toda vez que eu viajava pela Estrada de Ouro Fiiino de longe eu avistava a figura de um menino, que corria abrir a porteira e depois vinha me pedindo: ‘Toque o berrante seu moço que é pra eu ficar ouvindo’’’.
Orchard me olhou, franzindo a testa.

– Minina dus Bitols? Ocê bebeu? – Depois continuou – Barsicarmente, é isso. Ah, e sou muito sardável.
Nico rangeu os dentes.

– Maldita Deméter.
Até que fazia sentido, afinal ele era um garotinho bem caipira. No pouco tempo que passei no Acampamento, percebi que as crianças de Deméter tinham uma tendência ao country. Na verdade, até tenho minhas suspeitas de que a Taylor Swift seja filha dela.

Annabeth foi discutir o caso com Rachel, e eu já ia me intrometer no papo quando Nico me empurrou até a sombra do trailer.

– Acho melhor nós já irmos – Minha cara devia ser de ‘wtf’’ porque ele explicou, bem devagar – Sua Clave. Acho melhor irmos até ela agora, adiantarmos o expediente. Tantos semideuses assim atraem montros. Muitos monstros. Quando decidirmos partir, pode ser tarde demais – O jeito sombrio com que ele falou ‘tarde demais’ me deixou um pouco assustada, então assenti.

– Mas como vamos voltar? Outra viagem nas sombras?

– Não, não posso fazer duas em um só dia. Desmaiaria por uma semana. Afinal, com grandes poderes vem uma grande necessidade de tirar um cochilo - Ele riu, como uma piada interna. Adivinha quem ficou com cara de retardada? Parabéns, mil dólares pra você que falou ‘Hannah!’

– Mas de qualquer forma - Ele continuou – Percy e Annie me conhecem a muito tempo. Vão atrás da gente, sabem onde está a Clave.

– Tem certeza?

– Claro. Você não confia em mim?

– Não é que eu não confie. Só não quero correr o risco de ficar presa em uma cidadezinha no meio do nada com ninguém para conversar a não ser você.

– Ia ser uma experiência traumatizante.

– Exatamente.

– Você me mataria nos dez minutos de conversa.

– Ei! – Protestei, fingindo indignação – Não estou te matando agora, estou?

– Ainda não se passaram dez minutos – Ele pegou minha mão.

– Detalhes, detalhes – Eu ri

– Onde esta a Clave, dessa vez?
Me lembrei da pista, que Muke jogou pela janela (Vou matar esse garoto). Runaways... Joan Jett... Ai meu Deus, onde diabos a Joan Jett nasceu? PENSE HANNAH, PENSE!

– É Wynnewood, Pensilvânia - Me lembrei, por fim.

Dei uma última olhada no grupo, que mal havia reparado em nosso sumiço. Apenas Muke olhou distraidamente em nossa direção, e quando nos viu de mãos dadas, franziu a testa, pedindo explicações. Mostrei a língua para ele, depois me deixei levar pelas sombras.

POV Nico

Wynnewood realmente era uma cidade minúscula. Estávamos numa pequena praça, com imóveis ao redor, e uma estação de trem. Mas depois de estar nos campos de Deméter, tenho um novo conceito de ‘roça’.

Engoli em seco. Deméter. Que ótimo, agora não só vou ter de ouvir sermões sobre a importância do cereal no Mundo Inferior, mas também na missão. Linda sogra com lindos filhos que meu pai foi arranjar, é.

– Acho que devemos perguntar a alguém – A fala de Hannah me tirou de meus pensamentos odiosos sobre a deusa do cereal – Quero dizer, sobre onde a Joan costumava ficar aqui. A porcaria da Clave da Felicidade deve estar em algum desses lugares – Ela disse, dando de ombros.

Perguntamos a algumas pessoas, e descobrimos que a Joan Jett foi embora de Wynnewood com nove anos. Droga. Eu já estava deduzindo que estávamos no lugar errado, quando Atena resolveu me ajudar.

– Ela foi embora daqui cedo, certo? Então devemos ir ao lugar que a levou até onde ela fez sucesso.
Hannah me olhou com cara de paisagem.

– Pode dizer de forma que eu entenda?

– A estação de trem, anta. Se daqui ela foi pra sei lá onde e ficou famosa, a estação deve ser o lugar certo.

– Talvez. Mas na falta de um lugar, vai lá mesmo u-ú – Ela me empurrou até lá.

Coincidentemente, não havia ninguém na estação. Como nada na vida de um semideus é coincidência, fiquei ressabiado, a procura de monstros. Mas bem, a estação era pequena comparada às de Nova York (óbvio), mas grande se levarmos em conta que teríamos de fuçar tudo pra achar algo de dois centímetros.

– Bem, mãos a obra.
Ficamos meia hora procurando, em todos os locais possíveis. Bancos, cadeiras, frestas, enfim, mas nada da bendita da Clave.

– Merda! – Ela bateu o pé no chão de indignação – Não acredito que a gente veio parar nesse fim de mundo e nada da tungstênia da minha Clave!

– Tungstênia? – Eu não era o garoto mais estudioso de minha sala, mas podia jurar que já havia escutado esse nome em algum lugar – Tungstênio não é um tipo de metal?

– É sim – Hannah piscou.

– ENTÃO PORQUE VOCÊ USA COMO XINGAMENTO, CARAMBA?

– Ah, o nome é legalzinho. Vai dizer que não parece que estou te xingando quando falo ‘Nico, seu tungstênio!’ – O pior é que parecia mesmo – É que nem bulustruco. Parece inofensivo, mas pode ter significados por trás u-u

– Quais seriam os significados obscuros dos seus xingamentos?
Ela deu um sorriso maligno.

– Você não vai querer saber
Eu ia responder algo como ‘eu sou chamado de bulustruco todos os dias, mereço saber o que é’, quando houve um tremor de terra, como se algo muito pesado estivesse pulando, por perto.

– O que seria isso? – Hannah franziu a testa – Uma tropa de choque? Lutadores de sumô?

E então escutamos o rugido.

***

Depois de ouvir os relatos da luta de Percy, eu pedia aos deuses, titãs, monstros, semideuses, qualquer pessoa, para nunca encontrar o Leão de Neméia.

Infelizmente, não tive tanta sorte.

– Uooou, gatinho, fica parado aí gatinho.

– Hannah, isso é um leão, não um gatinho.

– Mufasa, fica quieto aí Mufasa!

– HANNAH!

– Fala sério, quer que eu o chame de quê? Scar? Simba, Nala?

A ignorei e desferi um golpe contra o monstro quando ele tentou nos atacar com as garras. Preferia não saber o estrago que unhas de meio metro podiam fazer na minha cara.

– Esquece o Rei Leão e corre! Sai e mande uma mensagem de Íris para Percy.

– O quê? Não! – Ela pegou no meu braço – Não vou deixar você com um tribufu gigante, Senhor di Angelo - O Leão rugiu, acho que ele não gosta muito de ser chamado de ‘tribufu’. Seja lá o que isso signifique – OH MUFASA, você podia escovar os dentes de vez em quando, né?

– Então tá, ao invés de reclamar – Desviei das garras do animal – Faça o favor de pegar sua—Vi que o prendedor não estava em seu cabelo – Por favor, não me diga que você esqueceu a espada em casa.

– Eu? Esquecer? Claro que n— Ela levou a mão na cabeça – MASOQUE, eu estava com esse negócio hoje!
Lei de Murphy: Se seu dia está ruim, acredite, ele ainda pode piorar.

– Fique longe dele, então – Desferi outro golpe, mas a porcaria da pele blindada da porcaria do tribufu repelia tudo – Desarmada, é alvo fácil.

– Mas—

– FIQUE LONGE!
Antes que Hannah pudesse protestar, eu a empurrei para o lado. Acho que eu coloquei um pouco de força demais, porque ela caiu de costas na parede. Me virei para conferir se ela estava bem.

– Não olhe pra mim! – Ela gritou – Estou bem, não se distraia comigo.
Pois justamente nesse meio segundo que me distraí, o Leão pulou. Tive a sorte de me esquivar, mas ainda foi tarde demais. Senti as presas rasparem em meu rosto. Caí para trás, e com o impacto, a espada voou, parando do outro lado do mundo.

Enquanto o monstro avançava, Hannah arregalou os olhos e correu. Me perguntei o que Hades ela ia fazer, mas só me dei conta quando era tarde para impedi-la. Ela pulou em cima dos bancos, depois pulou direto em cima da juba do monstro.

Isso aí, ela pulou em cima do monstro. O pior lugar da lista ‘onde ficar quando estiver numa batalha contra um monstro gigante fedorento’, depois de ‘frente dos caninos’, que era onde eu me encontrava.

As vezes eu me pergunto se ela é mesmo a deusa da tecnologia, porque eu achava que pessoas que criam computadores e companhia deviam ser inteligentes. Só um palpite.

– O que você tem na cabeça? – Gritei, pois o Leão se esquecera de mim – O pêlo dele é impenetrável, você vai acabar caindo daí.

– Eu não tinha pensado nisso – Hannah disse enquanto tentava se segurar no monstro, que começou a agir como um touro mecânico para se livrar dela. Então soou mais como ‘e-eu não ti-ti-tinha pensa-aa-do ni-i-i-ssooo’
Não havia nada que eu pudesse fazer; pensei em invocar alguns esqueletos, mas era impossível: Eu estava acabado, não teria energia para nada.

Ela mal terminou de me responder, quando não conseguiu mais se segurar, tamanha a força do monstro. Hannah foi arremessada pelos ares, e bateu na parede. Só que dessa vez a queda foi feia, e ela não se levantou. Eu não sabia se era impressão minha ou realidade, mas parecia ter uma poça de sangue se formando ao redor dela.

Fui correndo em sua direção, me esquecendo do animal mortífero atrás de mim. Me ajoelhei e a chamei.

– Anda, Han. Acorda, vai. Responde Hannah, responde! – A sacudi pelos ombros, mas ela continuava inconsciente. Reparei que o sangue não era imaginação minha.

Uma pata gigante me empurrou, e fui lançado alguns metros adiante. Para ter certeza de que sua presa não iria fugir (Fugir pra que, eu me pergunto, se minha espada estava caída do outro lado do mundo?), ele prendeu meus braços. ‘’É o fim’’, pensei. Que jeito honroso de morrer. Desarmado, decaptado por um leão gigante e fedorento com sua amiga apagada tendo uma hemorragia bem na frente do seu nariz. Isso que é partir dessa pra melhor com estilo.

Bem, pelo menos terei uma história para contar ao meu pai.

O monstro rugiu, só para deixar claro quem é que manda, quandoo me dei conta de que esse era seu pontro fraco: A boca. O único local onde é possível mata-lo.

E então, as flechas prateadas acertaram sua guela.

Notas finais do capítulo
TCHAN TCHAN TCHAN TCHAN
Sou chata, eu sei kkkkkkkkkkkkk
Vou ser mais responsável dessa vez *-*
Okay?
Campanha faça uma autora irresponsável e mala feliz, mande um review ou recomende que ela vai ter um infarto do coração e vai te idolatrar para sempre!
HUEHUEUEH MASOQ
*Músicas:
Help! - The Beatles
Menino da Porteira - Sérgio Reis kkkkkkkkkkkk
''TODA VEZ QUE EU VIAJAAVA LÁ PELA ESTRADA DE OURO FIINO''
/levatjolada
Okay then.




(Cap. 19) Devia poder mandar M.I. pra caixa postal, sério

Notas do capítulo
Hello pessoal :3 Me desculpem a demora, de novo.. Explico direitinho lá em baixo. Boa leitura!

[editado]

19. Devia poder mandar M.I. pra caixa postal, sério

Parte I: Point of View — Hannah

Quando acordei, não me lembrava de nada. Eu devia ter batido a cabeça. Estava em uma espécie de cabana prateada, deitada no chão, com uma caixinha de Primeiros Socorros do lado. Ao tentar me levantar, senti uma dor aguda abaixo do peito, tão forte que me forçou a me deitar novamente.

— Eu não me levantaria se fosse você — disse alguém.

A dona da voz era uma garota que estava sentada no chão, certamente posta na tarefa de ficar de olho na moribunda aqui. Ela possuía cabelos pretos como a noite e olhos azuis fortemente marcados com lápis preto, como os meus. Usava uma jaqueta prateada e um arquinho de princesa, que não combinava com a blusa estampada do Justin Bieber sendo tostado por um raio na cabeça. Em sua mão estava pousado um arco prata.

— Por que eu não deveria me levantar? — perguntei.

— Você fraturou algumas costelas. É melhor ficar parada por algum tempo, até melhorarem — ela deu de ombros — De qualquer forma, sou Thalia. Você deve ser minha irmã Hannah, certo?

Então ela era a famosa Thalia. Fiquei com vontade de perguntar porque ela tinha medo de altura, mas achei melhor ficar na minha. Depois quem ia voar era eu, por um penhasco.

— Certo — de repente, me lembrei do ocorrido em Wynnewood. Eu pulei em cima do Leão de Neméia (o que, admito, não foi lá muito inteligente da minha parte. Mas eu faria qualquer coisa para o monstro deixar o Nico em paz), então apaguei. Sentei-me ignorando a dor — Por favor, me diga que o Nicolau está bem.

Thalia piscou.

— O Nico? Está, sim. Meio quebrado, mas ótimo. Acho que está andando por aí, porque não gosta muito de nós, Caçadoras — ela franziu a testa — Não que a gente morra de amores por ele, também.

— Por quê? — então percebi que a pergunta estava meio ambígua — Ele não gosta de vocês, quero dizer.

Pausa.

— Motivos pessoais — ela hesitou um pouco para responder — É melhor você mesma perguntar a ele.

Abri a boca pra responder, mas alguém entrou na tenda na hora e me distraiu. Era uma garota baixinha (como se eu pudesse falar alguma coisa) de porte atlético, com os cabelos loiros escuros presos em um rabo de cavalo. Trazia nas mãos uma prancheta prateada.

— Thalia, Senhora Ártemis pediu para-- — então ela viu que eu estava acordada — Ah, oi! Está se sentindo bem? — assenti com a cabeça.

— Hannah, esta é Cassie — apresentou-nos Thalia — A melhor médica das Caçadoras. Filha de Apolo.

Santo Deus, quantos filhos Apolo têm?! Precisamos ensiná-lo alguns hobbies normais estilo xadrez ou alpinismo para ele parar de ficar só procriando pelo mundo.

— Obrigada, Cassie — sorri — Acho que eu estaria morrendo se não fosse por você.

Ela fez um gesto de desprezo com a mão.

— Não foi nada. Estou acostumada.

Nico passou pela porta com uma expressão não muito feliz. Talvez tenha sido porque Cassie fizera cara feia e se afastara quando ele passou, ou por ser o único garoto onde só havia mais eu e outras trezentas garotas armadas que, como dito por uma delas, não caiam de amores por ele.

Thalia pigarreou.

— Nós vamos ali falar com Lady Ártemis. Não devemos ficar muito perto de homens mesmo — ela me encarou, depois mudou o foco do olhar para Nico — Acho que você consegue ficar de olho nela, di Angelo.

As duas Caçadoras saíram da tenda, certamente para resolver algo importante com a deusa da Lua. Me perguntei onde estariam Percy, Annie e companhia, e se Orchard já teria empanturrado alguém de cereal. Espero que não, quero estar presente quando isso acontecer.

Nico se jogou no chão ao meu lado.

— Você está bem? — perguntou.

— Sim, se é que podemos dizer ‘costelas quebradas’ como bem — respondi — E você?

— Pode-se dizer que sim — ele deu de ombros.

Olhei para Nico, que encarava o além ao longe. Ele parecia cansado, como se evocar todos aqueles mortos tivesse tirado suas forças, o que talvez fosse verdade. Um corte vermelho, do canto do olho direito até a bochecha, dava a impressão de sua pele ser mais pálida do que já é.

— Se me permite — eu disse, um pouco receosa —, posso fazer uma pergunta?

— Você pode me perguntar o que quiser — ele deu de ombros — Agora se eu vou responder é outra coisa completamente diferente.

Poxa, não acha mais fácil falar ‘não’ de uma vez?

— Por que você odeia as Caçadoras?

Ele me olha estupefato.

— Onde você ouviu isso?

— A Thalia comentou.

— Ah, certo. Eu não as odeio, é só que... Caramba, por onde começar.

— Que tal do começo?

Ele respirou fundo, e deduzi que era uma história não muito fácil de ser contada.

— Quando eu tinha dez anos, não sabia que era um meio-sangue. Morava em um colégio militar com minha irmã mais velha, ela se chamava Bianca. Bianca di Angelo — ele sorriu tristemente pra mim — Acho que você ia gostar dela.

Sorri de volta.

— Tenho certeza que sim.

— Certo dia Percy, Annabeth e Thalia apareceram na escola a chamado de Grover, um sátiro. Grover estava estudando lá em busca de novos semideuses e convocou os três após descobrir dois meios-sangues que pareciam ser poderosos. Talvez, filhos de um dos três grandes.

“Quando saímos da escola, um monstro nos perseguiu... Bem, não exatamente. Digamos que, no fim, fomos salvos pelas Caçadoras. Ártemis logo convidou Bianca a se juntar à Caça, e ela aceitou. Hoje entendo que nós dois precisávamos de uma nova família, após anos órfãos só tendo um ao outro. Ela, a Caçada. Eu, o Acampamento. Mas na época não entendi isso, achei que, sei lá... Ela quisesse se livrar de mim. Depois, ela foi chamada para uma missão, mas nunca voltou. Um dos autômatos de Hefesto os atacou, e vendo que se nada fosse feito todos iriam morrer, Bianca entrou no robô para tentar desativá-lo. Mas no processo uma corrente elétrica passou pelo autômato, e ela... — ele encarou as mãos pousadas no colo — Bi foi eletrocutada. Talvez... Talvez se ela não tivesse se juntado à Caça, ainda estivesse aqui. Agora."

Eu sentia as lágrimas correndo pelo meu rosto, então fiz algo que o surpreendeu. Na verdade, até eu me surpreendi. Eu o abraçei.

— Sinto muito.

— Tudo bem — sua voz soou abafada contra meu cabelo — É a lei da vida. As pessoas nascem e morrem e não há nada que possamos fazer.

— Mas... Seu pai é Hades! — eu disse indignada, me afastando — Por que ele não a trouxe de volta?

Nico mordeu o lábio.

— Não é tão fácil quanto parece. O deus do Mundo Inferior é quem mais deve respeitar a morte.

Suspiro. Se eu fosse Hades, estaria pouco me lixando pra essas regras.

— Deve ser difícil para você também — ele comentou depois de alguns minutos de silêncio — Não se lembrar de nada antes de Los Angeles.

— É... é estranho — encolhi os ombros, sentindo uma pontada de dor nas costelas ao fazê-lo — Eu queria me lembrar da minha infância. Da minha família, minha mãe, e coisa e tal.

— Deviam ser tão estranhos quanto você.

Revirei os olhos, mas acabei rindo um pouco.

— Mas acho que você tem razão.

— Sobre o quê? — perguntou — Todos os seus familiares serem estranhos?

— Também. Mas mais sobre esse negócio de precisar de uma nova família. Talvez eu também precise de uma. Ter alguém pra quem falar aquela coisa de 'ohana quer dizer família'.

Eu não sabia se Nico reconheceria a citação de Lilo e Stitch, mas pelo visto, sim.

— ‘Família quer dizer nunca mais abandonar, ou esquecer’ — ele deu de ombros — É uma frase legal.

— Com licença, mas isso foi uma maneira indireta de se incluir nessa meu novo núcleo familiar?

— Talvez. Se não for problema pra você ter um filho do Submundo nele.

Não entendo porque a maioria dos deuses (e seus filhos) mantêm distância de tudo que tem relação com Hades. Como o Nico. Você não pode culpar uma pessoa por ser quem é.

— Não vejo problema nenhum, contando que você nunca me abandone — fitei o chão, envergonhada — Promete?

Ele colocou a mão no meu queixo, levantando meu rosto, e vi que estava sorrindo de lado.

— Prometo.

Não foi intencional. Nenhum de nós dois sequer imaginava que aquilo ia acontecer. Só sei que num momento estávamos nos encarando, e no outro as mãos dele estavam no meu rosto, e meus braços em volta de seu pescoço. Nico me puxava com delicadeza, fazendo com que nós nos aproximássemos devagar.

Reparei em pequenos detalhes, como o fato das íris castanho-escuras de seus olhos serem acinzentadas nos arredores, com pontinhos castanho-claros no centro. Ou de ele ter sardas tão claras na bochecha que eu não havia reparado antes, e sua boca ser de um tom de rosa que nem sei como descrever. Ao contrário da minha pele porosa dos infernos, a dele não tinha nada, era simplesmente perfeita. Suas mãos deslizaram para minha nuca, e eu podia sentir seus lábios roçando nos meus.

Abri os olhos por cinco segundos, parte da minha mente me dizia isso. Por quê? Era o que eu me perguntava, quando...

Eu arfei, acabando com as chances de qualquer coisa acontecer e me empurrei para trás, o que não foi algo muito inteligente levando em conta meu estado moribundo. Minha expressão não devia ser lá das melhores, porque Nico me olhou sem entender.

— O que foi? — ele parecia preocupado de verdade.

— Seu puto! — gritei — O que você pensa que está fazendo?!

Nico se irritou, franzindo as sobrancelhas.

— Olha aqui, você não estava reclamando--

— Você não, ele!

Muke estava com uma cara de poucos amigos numa mensagem de Íris atrás do filho de Hades, falando do trailer.

— Tipo.. vocês.. se.. beijarem?!— ele fez uma careta — Onde estavam com a cabeça?

Nico se virou, e sinceramente achei que ia fazer uma viagem nas sombras só pra ir torcer o pescoço de alguém.

— Pode fazer o favor de cair fora, Solzinho? — grunhiu.

— Não, obrigado. Depois que os dois sumiram, nós ficamos nos perguntando para onde vocês tinham ido — Muke cruza os braços sobre o peito e me olha com cara de bunda — E devo dizer que não sei pra onde, mas sei por quê.

— Isso não é da sua conta! — Nico bateu a mão na M.I, e ela se dissolveu.

A proximidade que havia entre nós foi resumida a um silêncio bastante desconfortável, que se estendeu por o que me pareceram horas. Fiz questão de anotar mentalmente que deveria matar o Muke o mais rápido o possível.

~~

Parte II: Point of View — Rachel

Naquele dia em que a Hannah e o Nico deram um sumiço que eu reparei o quanto nós éramos irresponsáveis. Porque só reparamos que eles tinham fugido meia hora depois. Sério.

Eu fiquei um meio desesperada, afinal não é muito legal sair perdendo semideuses (ou quase) por aí. Mas a Annie só respirou fundo e mandou nosso motorista bizarro ir pra algum lugar aí, e depois Percy sugeriu de mandarmos uma mensagem de Iris pra conferir se estava tudo bem, porque ''não duvido nada que eles estejam se matando por aí''. Fizemos uma votação para quem mandaria, e apesar de eu ter ganhado (parece que você vira a Oráculo e de repente tudo vai pra cima de você), quem mandou foi o meu futuro namorado, também conhecido como Muke, porque ninguém conseguia se concentrar com ele tocando heavy metal na guitarra da Hannah.

— E aí? O que eles falaram? — perguntei, quando ele voltou da M.I — Eles estavam se matando?

— Ah, não, muito pelo contrário. Na verdade, eles estavam bem mais próximos do que eu imaginava.

Silêncio. Eu não sabia exatamente o que aquilo queria dizer, mas que se dane. Observar a beleza do garoto é mais importante do que entender o que ele diz.

— Sou só eu que estou com fome? — Annabeth quebrou a pausa, se virando para o namorado.

— Não, não — ele suspirou — Eu estou também. Faz horas que não como alguma coisa.

Annabeth revirou os olhos.

— Cabeça de Alga. Foi uma indireta pra você pegar comida pra mim.

Percy fez aquela cara típica de pessoas lerdas, e antes que ele respondesse, Orchard se intrometeu.

— Ocê tá cum fome, pomar das minha fazenda? — ele bateu as mãos e... Espere. ISSO É UMA GOIABA, QUE SURGIU DO ALÉM? — Procê, amori mio.

— Oh, obrigada! — Annie pegou a fruta (que, só pra constar, SURGIU DO ALÉM) — Ai, Orchard, você merece um beijo, depois disso.

— Que isso, amori mio — Ele disse, completamente vermelho... Ai meus deuses, vou fingir que não vi isso.

— Espere aí — disse Muke — Como você fez surgir essa goiaba?

— Poderes de filhos de Deméter, meu amor — eu disse, embora estivesse tão confusa quanto ele. Mas pagar de inteligente não mata, certo? — Assim como os filhos de Apolo são totalmente gosto.. quero dizer, bem-apeçoados, filhos de Deméter podem fazer frutas surgirem do nada.

Ele pensou por um tempo.

— Orchinho, meu caro — Muke disse com uma cara perversa —, quer que eu te mostre o trailer?

— Ara, podi deixá, eu tô beim aqui... — Orchard esperava o beijo da Annie, ai meus deuses. Melhor ver isso que ser cega.

— Ah, você quer sim, Chico Bento — Muke saiu arrastando o pobre garoto caipira pelo corredor.

Suspirei. Talvez eu devesse ir lá ajudar a mostrar o tralier.

— Pode ir atrás dele, Rachel — disse Annie, que ainda comia a goiaba (QUE SURGIU DO ALÉM, VOU CONTINUAR A LEMBRAR VOCÊS DISSO), depois que o Percy foi fazer alguma coisa lá em algum lugar que eu não sei onde porque estava distraída pensando em quantas Rachels o Muke conseguiria carregar levando em conta o quanto que ele parece ser forte. Eu fiz uma cara de espanto, e ela continuou — Pode admitir, eu sei que você está se corroendo por dentro pra ir atrás do Muke. Ou, eu deveria dizer, para ir admirar o quanto ele é gostoso, e et cetera. Sério, pode ir.

Ei, eu sou a Oráculo, e ela que sai por aí lendo mentes. Isso é justo, produção?

— Bom... Não — eu ia negar, mas dã, é a Annabeth — Vai ficar muito na cara.

Ela parou de mastigar, e me olhou com cara de 'fala sério'.

— Rachel. Já está na cara. Perdi as contas de quantas vezes você deu em cim-

Nesse momento, joguei uma almofada na Annie pra ela calar a boca, porque Muke passou pela porta. Ele foi até a cozinha e voltou para o corredor segurando uma garrafa. Depois que me certifiquei que ele não estava por perto pra ouvir, respondi.

— Lógico que não está na cara!

— Está sim.

— Me diga uma vez que eu tenha deixado na cara.

— Tipo quando você quase disse que filhos de Apolo eram gostosos? — droga, achei que não tinha dado pra perceber — O resto você quer em ordem cronológica ou alfabética?

Revirei os olhos, e me levantei.

— Desisto de conversar com você, Annie Bell.

Saí batendo o pé, e no meio do corredor trombei com alguém. Quem seria esse alguém?, você se pergunta.

Foi com o Muke, você se responde.

— Caramba, vai com calma, ruiva! — ele sorriu de lado, mostrando um dos caninos, e eu me corroí por dentro — Tava com pressa?

— Ahn, não, eu só... Estava discutindo alguns tópicos com Annabeth — não convinha eu dizer que o tópico era ele.

— Ah. Eu estava conversando com o Chico — Chico? Que Chico? Ah... É o Orchard. Enfim.

Droga, como alguém consegue ser tão gato? Sério, devia ser ilegal. Tipo.... Liguem para a padaria, acabei de achar um pão.

...

Ai meus deuses, eu realmente pensei nisso?! Um pão? Qual é o meu problema?! Essa gíria já era velha quando a vovó Dare nasceu, putaquipariu! Respire, Rachel. Respire. Ou ele vai perceber que você está pensando que ele é um pão.

— Bem... — passei a mão no cabelo, ajeitando pra ficar apresentável, e ele me olhou com uma cara estranha, como se soubesse do negócio do pão — Então... o que, hm, você foi fazer aquela hora que você saiu, hein?

Foi um avanço, melhor isso que 'ai se eu te pego'. Afrodite ficaria orgulhosa, é. Mas infelizmente, antes que ele pudesse me responder, Annie intrometeu na conversa.

~~

Parte III: Point of View — Annabeth Chase(calma lá gente que é o último, prometo)

Existe uma coisa que se chama paixonite, e isso é algo que a Rachel tem pra caramba. Mas assim, que nem ela está com o filho de Apolo irritante, eu nunca vi. Sério. Quando eu fui perguntar ao Orchard se ele conseguiria achar mais umas goiabas perdidas por aí, ela estava no meio do corredor com Muke, falando algo como ‘você é hã saiu hm hein tipo oi?’.

Acho que ela estava babando tanto no garoto que nem reparou que ele estava segurando um coisa. Era a garrafa de vidro que ele havia buscado na cozinha, mas agora ela não estava mais vazia. Comecei a encará-lo com um olhar meio suspeito.

— Que é? — ele olhou pra mim desconfiado — Tem alguma coisa no meu rosto? Ou é só minha beleza habitual que te faz me encarar assim?

Revirei os olhos, pensando no que Hades eu fiz para merecer essa pessoa.

— Posso saber o que é isso na sua mão?

Ele hesitou pra responder.

— ....água da pia — e saiu andando pelo corredor, antes que eu pudesse perguntar de novo.

Pisquei, muito concentrada em tentar entender, quando Percy surgiu perguntando porque diabos a Rachel estava pulando por aí feito uma retardada, e o garoto com nome de cachorro estava correndo com uma garrafa suspeita.

— Não faço a mínima ideia, Cabeça de Alga — respondi, suspirando — Mas sinceramente, estou até com medo do que diabo ele está tramando.

Notas finais do capítulo
Digamos que eu tinha o capítulo pronto, mas tive que mudar o fim, e isso junto com a minha lerdeza extrema deu em demora askjfhaksjfh Mas então, o que acharam? ~carinha fofa




(Cap. 20) Dando uma de Dioniso

Notas do capítulo
Hello. Não precisam me matar que eu já estou me sentindo culpada o suficiente g.g
SÉRIO EU IA DORMIR PENSANDO QUE TAVA DEMORANDO DEMAIS AKSJFHAKJSFHAKSJGHKJH
Mas não achei que eu abandonei a DP, isso nunca u-ú
ENFIM.
Boa leitura :3

POV Nico

Eu nunca quis socar a cara de alguém tanto quanto eu queria socar a cara do Muke.

Verdade seja dita, o cara é um porre. Se fosse por mim, deixava ele no primeiro cabaré de estrada, pra ele se virar. Mas naaaao, a dona deusa roqueira não quer se livrar dele.

Fala sério, que tipo de pessoa atrapalha outras duas quando um beijo esta quase acontecendo?

Não que eu quisesse beijar a Hannah. Não.

Isso nunca.

Quero dizer, eu não reclamaria se acontecesse.

Mas se eu queria? Pff, nope.

– Vê se não quebra mais nada, Hannah - disse Thalia, quando nós estávamos indo de volta para o trailer Restart - E ensine Annabeth a escutar musica boa, coloca um Green Day pra tocar.

As duas filhas de Zeus bateram ao mãos, e percebi que talvez esse gosto musical punk e bizarro seja de família.

A Caçadora, então, olhou para mim.

– E você, Senhor Morte, cuide bem da minha irmã, ou será atravessado por flechas antes que possa dizer 'Elíseo'.

– Claro. Foi muito bom rever você também, prima.

Escutamos um grito.

– THAAAAALIAAAA!!! - Annabeth desceu correndo do veículo, e foi em direção a amiga - Quanto tempo, como vai a Caça?

Ela disse, toda amigável, mas não antes de me lançar um olhar de 'vocês dois, pra dentro, antes que eu quebre os ossos de mais alguem'

Captei a mensagem e peguei Hannah no colo, e na hora ela começou a me bater.

– EI! Eu posso andar sozinha, sabia?

– Não pode, não. Você tem que ficar em repouso, e se mexer no mínimo o possível. Lembra?

Han revirou os olhos e resmungou algo como 'Mufasa maldito'. Quando chegamos ao quarto, a deitei na cama e me ajoelhei ao lado. Depois de se aninhar nas cobertas, ela respirou fundo e perguntou.

– Nico, você acha que se o Muke não tivesse aparecido, a gente... Tipo, a gente teria se beijado... Pra valer?

Hã... O que significaria esse 'pra valer'? (N/A: Não olhe pra mim, nem eu sei)

– Acho que não.... Quero dizer, sim... Alias, sei lá, talvez.

Não terminei a frase, porque antes disso Hannah segurou minha blusa e começou a me puxar para perto dela. Olhei no fundo de seus olhos azuis, e passei o braço por trás de seu pescoço.

E olhe o lado bom, agora, não tinha nenhum filho de Apolo para interromper.

– FINARMENTE OCÊS VOLTARAM! - Mas pelo visto, tinha um de Deméter.

Hannah me largou, e eu caí sentado no chão. Orchard vinha correndo com uma garrafa na mão.

– Nois tava precupado, ocês sumiram! Ispera... Eu atrapaiei arguma coisa?

– Claro que não - Respondi, mal humorado - Nós estamos com cara de que fomos atrapalhados?

– Uai... Ocê tá cum cara di qui o boi lambeu.

Boi? Ahn? Que expressão da roça é essa, deuses?

– CARAMBA MEU FILHO, FALA LOGO O QUE VOCÊ QUER! - O humor da Hannah também não estava dos melhores.

– Oshi, casar di estressados... São duas coisa. Primeira, oia o anel di minha família.

Ele tirou algo do bolso, e me entregou. Observei bem, e vi que...

– Meus deuses, Hannah, é uma parte da sua Clave!

– Jesus Cristo, não acredito! - Ela pegou a jóia, e olhou admirada para Orchard - Onde você achou isso?

– Uai, um dia quando ieu era piqueno.... - Nota, ele tem nove anos - meu pai mi disse 'Orchard, fio meu, um dia ocê vai ter qui deixá a fazenda e vivê sua própia vida, e nesse dia...'

– Meu filho, ninguém quer saber do seu testamento, só fala onde diabos você achou isso.

– Oshi, minina, istresse faz mal pro coração, sabia? Mas infim, ele mi entregou o aner e contô qui um dia meu bisavô tinha comprado um cajón na vendinha do Seu Juca, ô vendinha qui divia ser das boa meu Deus, e qui quando eles foram tocá, acharam o aner junto... Foram passano o aner de pai pra fio, e quando ele conheceu minha mãe, ela falô que ele divia mi intregá quando eu fosse homi crescido.

Ah, claro... Tenho nas mãos a Clave de uma deusa, vamos entregar pro meu filho caipira. Todo mundo faz isso.

– Então, era isso que dava a pista... A Clave não estava na cidade da Joan Jett, e sim no caminho até lá... Ou melhor, certamente a tal venda do seu Juca ficava em Wynewood - pensei em voz alta

Peguei os antigos pedaços que nós já havíamos achado, e os juntei. Instantaneamente, eles se fundiram e se tornaram uma meia lua pequena.

– Caramba Nico, minha Clave é mágica *-*

– É... Eu tenho mais um negócio pra dizê... Na verdadi, eu quiria falá cum o Minino dus Môrto.

Penadinho, Senhor Morte, Minino dus Môrto... Qual seria o próximo apelido criativo pra um filho de Hades? Ceifador de almas albino? (N/Hannah: LOL, gostei desse)

– Sou todo ouvidos.

– Ah... Mais num dá pra falá na frente da moça... Assunto particulá.
Momento que você percebe que está enlouquecendo: Quando um filho de Deméter quer falar em particular com você.

– Hã... - Me levantei e olhei para Han, que simplesmente suspirou e fez o gesto de 'xô' com a mão.

– Anda Penadinho, vai salvar o mundo com o Miss Festa Junina.

Fui até a sala, e me joguei no sofá. Nenhum sinal do Solzinho, graças aos deuses. As vezes, realmente resolveram deixaram ele no meio da estrada.

– Então, o que você quer, Orchard?

– Eu fiquei sabendo qui foi seu niversário... Intonces quiria ti dá um presente!

Olhei pra ele, confuso.

– Hã, meu aniversario foi há seis meses atrás.

– Ô meu fio, jumento dado num se oia os dente.

Cavalo dado não se olha os dentes.

– Infim, toma.

Ele me entregou a garrafa.

– Hm, água. Interessante.

– Num é água, é suco. Tem um tanto di trem. Cana, e tau... Fico tão bão que eu nem arguentei e tomei um poquin.

Ah, tá explicado porque metade tá vazia.

– Vou levar pra Hannah então, já que...

– NÃO. NUM PODE. Qué dizê... No niversário dela eu dô.

Suspeito. Muito suspeito isso.

– Pode tomá sô, é bão dimais!

Olhei pro negócio transparente e para Orchard. Havia algo de errado com aquele garoto, ele estava falando demais. Se bem que ele é filho de Deméter, então sempre terá algo errado com ele.

Peguei o bagulho, e percebi que o cheiro me era familiar. Engraçado, eu não conseguia me lembrar de onde...

Quer saber, foda-se, pensei. E virei a garrafa toda de uma vez.

**

POV Hannah

Acho que Afrodite não vai muito com a minha cara. Caramba, fomos interrompidos duas vezes. DUAS. Na primeira é coincidência, na segunda pode saber que algum deus maldito está zoando com a sua cara. O que não faz sentido, já que eu sou uma. Deusa, quero dizer.

Isso significa que meu subconsciente divino não quer que eu beije o Nico? Um paradoxo meu... comigo mesma?

Vish, isso é muito complexo. Chega.

Enfim, o fato é que eu tive que juntar muita coragem pra tomar a iniciativa de tentar começar o beijo de novo. Então, o Miss Festa Junina chega e acaba com tudo. OBRIGADA DEMÉTER, POR GERAR UM SER ALTAMENTE XERETA E CAIPIRA (N/A: Ei, olha o preconceito, euzinha aqui sou caipira ok? u.ú)! TERIA ME POUPADO MUITA DOR E ESFORÇO SE ELE TIVESSE FALADO E ENTREGADO ANTES DE EU E O NICO IRMOS PRO FIM DO MUNDO PROCURAR, NÃO ACHA??

Enfim, isso não em ao caso.

Quando dei por mim, vi Muke na porta. Normalmente eu diria algo como 'quer o que, bailarina?'. Mas neste dia em especial, devido a acontecimentos prévios, minha maior vontade era dar um Pra Matar na fuça de alguém.

Sorte desse alguém, que costelas quebradas = preguiça mórbida de dar três passos.

– Ora, se não é a dona Hannah di Angelo.

Senti meu rosto enrubescer.

– Cale a boca, viado.

Muke revirou os olhos.

– Tentar me ofender com inverdades não vai mudar o fato de que, mesmo que você tenha quase beijado o filho desimportante (N/Annabeth: wtf?) de Hades, é só para tentar esconder o fato de que você se sente profundamente atraída por minha sensualidade.

Masoq diabos.

– Pff, até uma porta é mais sensual que você.

Ele fez uma cara de 'uhum, acredito'.

– Mande uma porta dançar pole dance então u.u

Espere... O que ele quis dizer com isso? O-O

– Por favor, não me diga que você vai...

No meio de minha assustada pergunta, escutei um 'CAPOF' no corredor. Minha curiosidade gritou mais alto que a sanidade (desde quando eu tenho alguma lol) e fui lá ver quem tinha morrido dessa vez.

Ah, quem dera se eu tivesse escutado minha sanidade inexistente. Porque a cena que eu vi não foi nada linda. O Miss Festa Junina tinha, de alguma forma, tropeçado e caído de cara no chão.

Wee, achamos alguém mais desastrado que eu.

– Ei, Orchard, não siga meu exemplo, tente manter sua cabeça longe do assoalho - Ajudei o coitado a se colocar de pé, enquanto Muke murmurava algo como 'nunca deixe o caipira fazer o trabalho'.

– O quê? - Perguntei, sem entender.

– Ah, nada, eu não disse absolutamente nada.

Orchard ia falar alguma coisa, mas quase caiu de novo.

– Caramba, você parece mal, Chico Bento .-.

– Magiiiiina, eu tô bão! O quii te faiz axá u contráá?

Hm, não sei... Talvez pelo fato de você quase ter caído duas vezes, ou de estar falando mais embolado do que normalmente, ou talvez pelos dois, né?

– Caramba, Muke, o que será que deram pra esse garoto? o.o

Ele fez uma cara de 'pff'.

– É só neura, deixa disso Hannah! Pra mim ele parece ótimo u-ú

Orchard pigarreou e começou a cantar.

– OCÊ É LUUUUZ, É RAAAI ISTRELA I LUÁÁ MANHÃ DI SOOOOR MEU IÁ IÁ MEU IÔ IÔÔÔÔ!!!!

Olhei pro Bulustruco outra vez.

– Tem certeza?

– Err... Talvez ele goste do Wando... ^^'

O Orchard começou a embolar milhares de músicas caipiras (acredite, se eu estou te falando isso é porque foram muitas mesmo), até que Annabeth deu um berro.

– ALGUÉM PODE POR FAVOR ME EXPLICAR O QUE ESTÁ ACONTECENDO?

Ela veio até a gente, rebocando junto um Nico semi morto (sim, ele estava dormindo que nem uma pedra e sendo arrastado por ela).

– Ai meu Deus, o que fizeram com ele? - Perguntei, preocupada.

– É exatamente o que eu quero saber - Disse Annie - Talvez o Muke possa responder, né?

– Eu?! Por que TUDO que acontece nesse lugar é culpa minha?

AH, NÃO FAÇO IDÉIA.

– Sei lá, talvez pelo fato de você ser você. Isso se resume a por que tudo que você faz dá errado - Respondi. Sério, achei que isso fosse óbvio.

– Ou talvez porque pouco tempo antes da Hannah e do Nico voltarem, você estava com uma garrafa suspeita - Annabeth olhava pra ele com uma cara de 'vou te matar seu puto', me confundindo.

– Pera, que história é essa de garrafa suspeita, Bulustruco??

Muke rangeu os dentes.

– Aff, só porque os dois estão bêbados feito gambás significa que eu mandei o Orchard fazer plantas que dão origem ao álcool aparecerem do nada pra transformar em vodka e cachaça, e depois mandei o Chico Bento chapar o Penadinho, mas o garoto é tão imprestável que os dois ficaram bêbados?? CLARO QUE NÃO.

Poker face.

– Por que Hades você fez isso?? - A filha de Atena respondeu, horrorizada.

– Eu nunca disse que fiz u.u MAAS se por acaso, em algum universo paralelo eu o fizesse, seria por motivos bem óbvios - Ele me encarou.

Bati o pé no chão.

– Aquilo foi algo no qual você não deveria ter metido o focinho! Eu, SOMENTE EU, decido quem beijo ou não! - Me arrependi de ter proferido essas palavras cinco segundos depois de ter o feito.

– Você decide o que? - Annie estava juntando as peças do quebra-cabeça, já sorrindo de forma maliciosa.

– O quê? Beijo? Quem disse isso? - Pff, sou uma ótima atriz - O que eu disse foi... Foi... Eu decido quem vejo ou não!

– Vejo...? .-.

– ISSO MESMO MUKE EU DECIDO SE TE VEJO OU NÃO NESTE MOMENTO NÃO QUERO TE VER ENTÃO NÃO ESTOU TE VENDO E PONTO FINAL.

– Okay... Então você também não queira ver que o Orchard tá dormindo no seu ombro.

Olhei pro lado, e vi que o Miss Festa Junina estava, realmente, chapadamente adormecido no meu ombro. Seria até fofo, tirando um pequeno fato.

Ele babava enquanto dormia.

– AIIIIIEEEEHHHH QUE NOJO TIRA TIRA ELE TA BABANDO EM CIMA DE MIM ANDA TIIIIIRA AJHBASFKHBADFJJBDFKHB - Empurrei ele, que mesmo caindo no chão não acordou. Annie me lançou um olhar mortífero e foi carregar o Orchard pra deixar ele no quarto.

MAAAS outro pequeno fato: Ela estava segurando o Nico, lembra?

~CAPOF~

– Ai, caramba - Xinguei em grego antigo, e Muke olhou pra mim.

– Boa sorte - E saiu, rindo.

AI ESSE FILHO DUMA PU....RA CIDADÃ AMERICANA.

Me ajoelhei do lado do Penadinho, pra ver se a queda não tinha quebrado nada. Pelo visto não, já que nem acordar o Benedito acordou.

– O que o álcool não faz com as pessoas - Murmurei.

Nico abriu os olhos, lentamente.

– Hum?

– Ah, graças a Deus, você acordou! - Eu o ajudei a se sentar - Como se sente?

Sem resposta. Di Angelo só olhava pra mim com a testa franzida.

– Olha, sei que dessa vez o Bulustruco se superou, e daqui a pouco eu vou vou lá socar a fuça dele, mas--

Antes que eu pudesse terminar, fui interrompida, porque... Bem... O Nico me beijou.

Reação dos leitores: VAS HAPPENIN.

Só me resta dizer que agora eu sei quanto tempo perdi sendo bv. DIGO. Não que eu tenha gostado. Nãaaao. Mas... Não foi exatamente ruim... AH SEI LÁ, É COMPLICADO EXPLICAR. Num momento você está ajudando um filho de Hades completamente bêbado a se levantar, no outro ele está com a língua na sua boca.

QUERO DIZER, língua, ahn? Quem disse isso? ~wild disfarça

– Caramba – Ele falou, ofegante. Vale explicitar que ele não falou de forma tão entendível quanto como você leu – Não sabia que um sonho podia ser tão real.

Wait wat. Sonho?!

– Com licença senhor Nico, mas você não está dormin—

POF.

Pela segunda vez no mesmo dia, alguém capota no meu ombro. Vem cá, EU LÁ TENHO CARA DE BABADOR?

– Aiai. Como a vida é linda – Suspirei, e fui deixar o Belo Adormecido no quarto. Agora eram dois apagados. YAY!

Depois disso, era hora de acertar as contas com alguém.

– SENHOR MUKE DOS INFERNOS.

Uma cabeça apareceu no corredor, piscando os olhos castanho-esverdeados.

– Sim?

– O que você estava pensando em chapar dois garotos inocentes? – Gritei na cara dele.

– OLHA A CALÚNIA DONA PUNK. Eu não pensei em chapar os dois. Um foi lá e se intrometeu – Olhei pra ele com uma cara de ‘wtf’ – Oras, quer dizer que eu nunca tive a intenção de que o Chico Bento ficasse também, só o Playboy.

Senti a raiva subindo, e percebi que fazia tempos (vulgo horas) que eu não praticava meu lindo hábito de bater de verdade em alguém. Pelo menos, agora eu tinha um motivo.

Empurrei Muke para a parede, prendendo seu pescoço com o antibraço.

– Meu filho, só resta eu te dizer que você está muito encrencado.

Fiz que ia bater na cara dele, mas pensei que chantagem emocional é bem mais interessante (imma bad bitch hohoho).

Soltei o Muke, que abriu os olhos com cara de ‘wtf’.

– Hein?

– Mudei de ideia... Sabe como é, não consigo ser tão cruel assim depois de ter recebido um beijo romântico desses – Joguei o cabelo pra trás, like a diva.

Tá que não foi romântico, mas ele não precisa saber disso...

Notas finais do capítulo
GENTE FICOU TÃO RUIM QUANTO EU ACHO? ASKLFJASKJHAKSJGHKJH ~wild Mary cries
Enfim.
Reviews? ~cutie face
Mais uma vez me desculpem askfjhasjkgkjh
Não vou mais demorar, juro :3




(Cap. 21) Boa sorte, Bangladesh

Notas do capítulo
HEY, SEXY LADIES! õ/ Antes de pegarem a bazuca, me desculpem mesmo G.G Foi muito difícil eu conseguir sentar pra escrever esse capítulo *viva a aula chata de ciências, que me salvou*, mas espero que gostem *u* E VISH MARIA LARGUEM A BAZUCA ASKJFHASKJFHASKJHAK ~corre

21. Boa Sorte, Bangladesh

Parte I: Point of View — Nico di Angelo

Ficar bêbado não é muito legal. Você acorda com uma dor de cabeça do Hades. Bem, não que eu soubesse o porquê de estar assim quando acordei. Não. Eu simplesmente olhei pra Rachel, que por sua vez olhava um papel (pista sobre o próximo local da Clave, depois descobri) e perguntei se aquilo era normal.

— Claro que é, querido — ela riu pelo nariz — Nunca ouviu falar em ressaca?

Sim, ela só respondeu isso. Nem levantou os olhos do papel. Então eu me pergunto, por que eu ando com eles mesmo?

De qualquer forma, acabei descobrindo por minhas fontes (nem foi o Orchard) que um ser humano chamado Muke tinha armado isso. Embebedar um inocente. Então, lá fui eu, com toda minha calma de filho de Hades, perguntar pro indivíduo se era verdade, afinal isso é uma acusação muito séria. E digamos que alguém ficou com o olho roxo (risada maléfica).

Só que Annabeth, infelizmente, não viu isso como um acerto de contas e sim como o sujo batendo no mal lavado. Vá entender.

— Fala sério, Annabeth! Ele me deixou bêbado! — gritei. É, eu não estava lá muito feliz.

Eu estava jogado no sofá, levando o sermão, e podia escutar o Invi segurando o riso do bando da frente. Isso porque ela nos colocara de castigo (isso mesmo, castigo! Quantos anos eu tenho? Cinco?) antes que pudéssemos brigar de verdade.

— Não me importa quem começou, Nico. Aliás, isso não é meio infantil da sua parte? — ela suspirou — Eu sou o quê? A mãe de vocês?

Tanto eu quanto Muke (que estava tão perto que eu poderia socá-lo no outro olho, se Annabeth não fosse me matar depois) a encaramos, talvez pelo fato de nenhum dos dois nunca ter vivido com a mãe.

— Okay, me desculpe. Não tocar no assunto 'mãe' — ela levantou as palmas das mãos, num sinal de inocência — Mas falando sério, vocês não podem ficar no mesmo recinto que já quase fazem a Terceira Guerra Mundial! Não pode, isso!

Ou seja... Nós deveríamos deixar o punheteiro na estrada! Problema resolvido!

— ... por isso, eu cheguei a inteligente conclusão de que vocês deveriam dormir juntos.

?

Não, desculpa, eu escutei isso direito?

— Isso mesmo — Chase sorriu inocentemente — Vocês precisam aprender a conviver!

— Eu não acho que eu preciso aprender a conviver com o Playboy — grunhiu Muke.

— O sentimento é mútuo — respondi.

Annabeth suspirou.

— Tá vendo, é por isso que precisam.

— Que seja! — exclama Muke — Não podemos ao menos conviver de outra forma?

A filha de Atena dá de ombros, calmamente.

— Não podem não. Já que não vão parar de encher minha paciência brigando feito filhos de Ares, vão ter que dividir a cama.

— Annabeth — digo, da maneira mais séria que consigo — Isso é ridículo.

— Não é, não — ela responde como uma psicóloga — O jeito mais fácil de fazer duas pessoas esquecerem suas desavenças é fazer com que elas passem ainda mais tempo juntas!

Aperto a ponte do nariz, me perguntando se o Percy ficaria muito triste se, sei lá, por um mero acaso, a namorada dele caísse pela janela.

— Isso não faz sentido!

— Lógico que faz — ela sorri maléficamente — Ai de quem não conviver! — ela ignorou os protestos e saiu, deixando a ameaça no ar.

Olha, só aqui entre nós...... A Annabeth tem algum problema mental? Não é possível! Não é cria de Atena isso não, tá mais com cara de Dioniso!

Muke olhou irritado pra mim.

— Você conhece ela a mais tempo, faça algo a respeito disso!

De repente, as engrenagens no meu cérebro começaram a funcionar melhor. Ah, essa sim era uma ótima ideia.

— Você sabe que existe uma coisa chamada tranca, não sabe? — falei, distraidamente. Enquanto ele raciocinava, o que demorou bastante, andei calmamente até o quarto e o tranquei do lado de fora.

— Perdeu, Playboy — gritei. Ahh, como é boa a sensação de ser o mais esperto!

Isso não é justo! — Muke se jogou conta a porta, mas acho que dificilmente ele conseguiria derrubá-la — Abra essa porta, agora!

— Não, obrigado — sentei-me no chão e me recostei na porta, com as mãos entrelaçadas atrás da nuca — Estou bem assim.

Agora, também, não haveria deus que me fizesse abrir aquilo. Bem feito pra Annabeth, ficar arranjando essas idéias! Agora ela ficava de fora. Percy, Ochard, Hannah e Rachel, bem, infelizmente sofreriam também. Mas o que posso fazer. Não sou filho de Afrodite. Não nasci pra ser uma pessoa legal.

Escutei um rangido, e logo pensei que Raio de Sol havia quebrado a porta. Mas eu estava recostado nela, então isso não faria sentido nenhum. Faria?

Vi que a que fora aberta foi a da suite. Achei estranho, afinal deduzi com minha mente brilhante que todo mundo estaria lá fora. Mas em menos de cinco segundos percebi que estava ferrado, porque vi que o espelho do banheiro estava completamente embassado, e só tinha uma pessoa que conseguiria fazer tanto vapor com um só banho.

Santo Hades.

~~

Parte II: Point of View — Hannah

Antes de qualquer coisa, gostaria de informar vocês sobre algo. Algo muito, muito importante.

Sabiam que um adolescente de ressaca pode chegar a dormir por dois dias e meio direto? Pois é colega, eu também duvidava até o momento de esperar pacientemente (ou não) o Nico acordar. Depois de quarenta e poucas horas de espera eu pensei seriamente em ligar pra Hades e avisar que o filho dele tinha batido as botas. Mas no terceiro dia acabei descobrindo que ele estava acordado, e de um jeito não muito legal.

— Droga — murmurei, quando percebi que tinha tomado banho mas esquecido as roupas no quarto. Eu nunca deixo pra trocar de roupa fora do banheiro. Você sabe, orfanatos fazem isso com as pessoas.

Suspirando, acabei saindo só de toalha mesmo. Só esperava que Muke não estivesse por perto, porque não estava com nenhuma paciência para bancar a Mônica em 'Como Atravessar a Sala'. Vocês sabem, aquele episódio da Turma da Mônica em que ela tem que tentar passar pela sala de estar (ah sério) de toalha, tentando não ser vista pelo Cebolinha, Cascão e Ronaldinho.

Saí, e para nossa alegria vi que o quarto estava vazio. Yey, nada de Muke aparecendo para puxar a toalha e sair correndo! Mas não vem ao caso se isso já aconteceu ou não. (ele fez isso com uma outra garota do orfanato, uma vez. Não preciso dizer que levou um chute bem dado num local bastante estratégico).

Ah, não, espera.

— Ai meu Deus — quase despenquei pra trás.

Nico estava sentado recostado na porta, e achei que o queixo dele ia cair naquele momento, sério. Senti minhas bochechas pegando fogo, porque quando eu vi ele me encarando, dei um pulo tão grande que quase derrubei a toalha no chão.

AKSJFHASKFJHJKG~ÇKJSFAJSFK

Ele ficou calado, olhando pra mim com os olhos arregalados e cara de tacho. Era uma situação mais que constrangedora.

— Pare de olhar pra mim, caramba! — esbravejei, enrubescendo.

Ele balançou a cabeça, como se estivesse saindo de um transe, e desviou o olhar. O rosto dele deixou de ser branco-defunto e ficou vermelho, como o meu.

— Não estava olhando pra você.

Ah, claro que não. Eu que sonhei.

Playboy? Você está aí? Abra essa portaagora! — escutei Muke gritar, e logo após ele ele se jogou contra a porta.

Caramba, vindo desses dois eu nem vou tentar entender. Suspirei.

— Olha, eu não sei que porcaria está acontecendo aqui, mas eu quero minhas roupas.

As batidas cessaram.

....

Ai meu Deus. O que eu fiz. O Muke pensou merda. Ele parou de bater porque teve muitos pensamentos não-Ártemis.

Falei alguns palavões que não precisam ser contados aqui, peguei a primeira roupa que achei na minha bolsa e fui me trocar no banheiro. Ao voltar, tentei abrir a porta, mas me impediram.

— Por que não? — pisquei.

— Pergunte a Annabeth — Nico resmungou, irritado. Parece que, ao contrário de mim, ele superou rápido o acontecimento 'não estava te encarando'.

— Como eu vou perguntar, se não posso abrir a porta? — cruzei os braços sobre o peito. Ele me olhou com uma cara de ‘essa garota é uma negação’ — Ah por favor, quer dizer que vou ficar o resto da minha vida trancada?

— Se for possível.. — ele deu de ombros.

Enterrei o rosto nas mãos, respirando fundo. Conte até dez, Hannah. Conte até dez e se acalme, porque o Nico é uma pessoa bem legal que não merece ser xingada nem batida. Então, mantenha a calma que eu sei que você tem, Hannah.

— PELO AMOR DO SANTO ZEUS — berrei — Eu estou com fome e necessito urgentemente assaltar a geladeira, e você acabou de me ver de toalha. E muitíssimo justo que você me deixe sair!

Nico se levanta e estreita os olhos pra mim.

— Annabeth acabou de ter a brilhante idéia de que eu e o seu colega sexualmente duvidoso devemos passar a dividir a cama — ai meu Deus, eu amo a Annie — Eu nunca mais abrirei essa porta, ao menos não até que alguém atire o Muke, e a Annabeth também, pela janela.

Bati meu punho na porta, firmando uma mão ao lado de seu pescoço, enquanto colocava a outra na minha cintura. Cheguei tão perto do garoto que podia sentir sua respiração quente contra meu rosto.

— Não me faça te dar uns tapas, di Angelo.

Ele encarou meu rosto por alguns instantes, com raiva, até que respirou fundo e fez cara de desinteresse.

— Que seja. Mas eu não durmo com o Raio de Sol.

Sorri, vitoriosa, quando ele deu um passo para o lado e saiu da frente da porta. Por favor né gente, não sou de ferro. Trancada? Pra sempre? Se tivesse comida eu nem ligava, mas sem? AHAHAHAH não.

Assim que abri as portas da liberdade, vi que Muke estava plantado no corredor, de braços cruzados sobre o peito. Um de seus olhos estava levemente roxo, algo que fui inteligente o bastante para não perguntar sobre.

— Se fudeu, Playboy — falou, sorrindo debochadamente.

Devo comentar que o olhar que o Nico lançou pra ele era tão maligno que mesmo não sendo pra mim eu tive vontade de sair correndo pra debaixo da cama que nem um cachorrinho.

— Arranje onde dormir Raio de Sol, ou eu viajo nas sombras com você até Bangladesh e te deixo lá.

— Ah tá, sei.

Nico riu, mas não um riso fofo e legal, um riso escárnio.

— Espere e verá.

E então, ele saiu. Simplesmente. Muke revirou os olhos, mas percebi que por dentro ele estava meio desconfiado de que poderia mesmo acontecer. É Bangladesh, cara.

— Dá pra acreditar nisso? — perguntou, rindo.

— Sendo sincera — respondi — Dá sim.

O filho de Apolo olhou pra mim com cara de bunda, e dei de ombros. A verdade, é que desejo boa sorte pra vocês, bangladeshianos. Com o Muke lá, vão precisar.

Notas finais do capítulo
Tenho uma notícia a dar, personas...... o próximo está pronto! SIMMMMMM! ~le dance~ agradeçam mais uma vez a minha professora chata de ciências. Mas então, por favor meus queridos, não sejam como os fantasmas do Nico e apareçam com os reviews, okay? :3 E se tivermos muitos reviews liamdos dos leitores liamdos, poderei postar amanhã, ou quem sabe terça, certo? ~carinha de cachorro que caiu do caminhão~




(Cap. 22) Alguém por favor me dê um dicionário de italiano

Notas do capítulo
LALALALA EU DISSE!! Me tornei uma autora responsável u-ú Eu gostei desse capítulo *u* ainda mais a parte do leggiadra. Vocês vão entender HUEHEUHEUH Até as notas finais! :D

22. Alguém por favor me dê um dicionário de italiano

Parte I: Point of View — Rachel Dare

As palmeiras da Califórnia passavam como borrões pela janela. Eu achava que era proibido dirigir tão rápido dentro de uma cidade, mas pelo visto o Invi não era um motorista muito cuidadoso.

Talvez pelo fato de ele ser uma roupa falante.

Ah, sim, acho que devo explicar esse negócio de Califórnia. A última pista achada pela dupla caipira Branquelo e Estressadinha (lalala) sobre o próximo local da Clave, dizia "não queira ser um americano idiota". Não é preciso ser punk para sacar que se tratava dos caras do Green Day, pais da música American Idiot.

Por isso estávamos a dois dias com o pé na estrada para chegarmos logo a uma cidade de aproximadamente cinco mil habitantes. Ela ficava próxima a São Francisco, e de acordo com nossa enciclopédia musical ambulante foi onde o cantor e o baixista do Green Day se conheceram e tiveram as primeiras idéias sobre a banda.

Só que, mesmo sendo uma Nimrod (ou seja, fã dos caras) assumida, a própria enciclopédia musical ambulante não estava lá muito animada para voltar para a Califórnia.

— Eu não gosto desse lugar — Hannah resmungou, olhando feio para a cidade.

Suspirei. Essa garota não é fácil.

— Você nunca esteve aqui. Morava em Los Angeles, não em Crockett.

Ah, sim, a propósito esse era o nome da cidade. Crockett. Orchard estava a meia hora nos perguntando se era uma homenagem aos croquetes.

— Não me importa, Rachel. Eu odeio a Califórnia em geral. Não me importa se a Clave está aqui — ela suspirou — Fala sério, o Nico podia muito bem ter viajado nas sombras e pegado, enquanto a gente esperava em Nova York ou, sei lá, na Pensilvânia.

— Obrigado por lembrar que várias viagens nas sombras seguidas me fazem desmaiar — Nico revirou os olhos, sentado na janela.

Continuei tentando entender porque alguém detestava tanto um lugar tão lindo.

— Mas olha só as palmeiras! — insisti.

— Não me importo com as palmeiras — ela respondeu carrancuda, sem nem olhar para onde eu apontava.

— Bem... Olhe a quantidade de caras gostosos, então.

Nico me lançou um olhar mortal. Mas, ei, não é minha culpa se ela era tão teimosa que me fez partir pro golpe baixo. O importante é que minha fala atraiu a atenção da Han.

*Rachel Elizabeth Dare ganha outra vez!*

Nós duas amassamos nossas caras na janela, levando em conta que Nico estava sentado em uma parte dela e não fazia questão de se levantar para deixar a gente observar a paisagem.

— Olha aquele ali, na direita — apontei para um garoto moreno de uns dezesseis anos que andava pela calçada.

Ele usava jeans e uma camisa xadrez por cima da camiseta branca. Segurava duas baquetas em uma mão e um iPod touch na outra, pelo ritmo que fazia com a cabeça devia estar escutando rock. O rapaz seguia seu caminho tranqüilamente, sem notar que no sinal vermelho ao lado havia duas garotas babando por ele.

Meus deuses. O garoto era muito gostoso.

— Não entendo esses californianos — falei, chocada — Tão quente lá fora, e eles andando por aí vestidos. Deveria existir uma lei para no calor eles andarem au naturale.

Sabe o que significa au naturale no dicionário da Dare? Bem, o importante é que pelo visto, a Hannah sabia. eheheheh

— Rachel! Que mente pervertida!

— Admita que é verdade.

— Claro que não. Eu nunca faria isso. Não nesse nível. Pervo demais pra mim, hm.

Segurei o riso.

— Faria sim. Se fosse com um alguém específico, faria.

Hannah franziu a testa.

— Quem?

— Você sabe.

— Não sei não.

— Sabe sim.

Percebi quando a ficha finalmente caiu, porque ela olhou de soslaio pro Nico e enrubesceu.

— Cale a boca, Dare.

— Há há, se ficou vermelha é porque é verdade! — exclamei.

— Não é! Eu não estou vermelha! É só que... — ela arregalou os olhos — AI MEU DEUS, RACHEL, QUE RUIVO É AQUELE.

Aham, me engana que eu gosto. Tudo isso é armação pra me distrair. Fique sabendo, dona das nuvens, que eu nunca, jamais, em tempo algum, me distrairia de te irri--

O QUE QUE É ISSO MEUS DEUSES. QUE TIPO DE ABDÔMEN É ESSE DO RUIVO, APOLO APAGA A LUZ ASFKJHASFJHBASFJKASDBJHSAB

— Awnnnnn, eu adoro ruivos, eles são tão fofos! — Hannah suspirou, acompanhando o garoto com o olhar. A propósito, obrigada por me chamar de fofa indiretamente.

— Vai pegar o Orchard então — falou Nico, e eu quase dei um pulo. Depois de fangirliar, até esqueci que ele estava ali do meu lado.

Han ficou mais vermelha que o ruivo lá.

— Ahn...

Belo bem ou pelo mal, Annabeth apareceu enquanto arrumava o rabo de cavalo do cabelo. Para alguém que iria encontrar uma Clave, ela estava bem arrumada; dona Chase usava um vestido cinza prateado (mas o quê essa cor existe?) e uma sapatilha vermelha.

Nossa, Annabeth, quem te viu e quem te vê. Acho que o namoro faz isso com as pessoas, elas se vestem de forma mais fofa e tals. Só espero que quando eu ficar o Muke, eu não saia por aí de sapatilha.

— Nossa, Annie, tá indo arranjar namorado? — Hannah perguntou, aproveitando a intromissão.

— Ha ha. Muito engraçado. Fique sabendo que eu estou feliz com o Percy — ela sorriu daquele jeito que os apaixonados fazem. Argh.

— Tá, tá, enfim — interrompi os pensamentos apaixonados de coelhinhos e unicórnios e fadas pirlimpimpantes dela — o fato é, não por quem você se arrumou, mas sim por quê. Só vamos sair procurando um pedaço de metal, sei lá, numa floresta ou na Terra do Peter Pan.

Na melhor das hipóteses, seria numa padaria. Aham.

— É aí que você se engana, querida Rachel. Enquanto vocês ficavam aí de boa na lagoa, eu andei pesquisando — dessa vez ela sorriu normalmente — A clave não está no meio do nada, está num shopping center.

~~

Por isso meia hora depois eu estava em algum lugar do subsolo de um shopping em Croquete (ops, me desculpe, Crockett) com Annabeth e Percy. É, eu estava lá segurando vela pro casal 20.

E tipo, mais uma vez, o Muke ficou. Ai eu me pergunto, POR QUÊ. Eu por acaso joguei pedra em alguém na minha outra vida, hein? É isso, Zeus? Não é possível, até o garoto ruivo caipira veio, menos meu marido. "Aposto que no meio do caminho ele vai parar para cantar alguma garota, por favor", disse Hannah. E blá blá blá. Não é justo.

Mas devo dizer que ele não ficou muito irritado com isso. Acho que depois que ele e o Nico ficaram de dividir a cama (coisa que nesses dias eles tem evitado, geralmente eles brigavam até a Han chegar e mandar o Muke ficar no sofá) ele queria um tempo sozinho pra dormir.

Mas eu não reclamaria de ter ficado lá sozinha com ele, não...

Fala sério, eu até me arrumei para vir pra cá e seduzCOFCOF ficar bonitinha pro garoto. Digo, quase arrumei. Era só uma blusa do acampamento, mas isso não vem ao caso. A pobre da Hannah que eu e Annie obrigamos a ficar parecendo uma princesinha, porque fala sério, ela ficava muito fofa de vestido. Parecia a Rapunzel, só que de cabelo colorido e lápis preto nos olhos. É.

Porém os xingamentos que ela falou depois não eram nada Reais. Na verdade foram tão obscenos que eu mandei ela deixar a gente em paz e andar pelo shopping. E não é que ela foi mesmo? Mas ao menos o Percy insistiu pro Orchard ir junto com ela. Melhor assim.

Só que depois o Nico ficou tão puto com a gente que desistiu e foi embora também. É.

— Rachel!

Saí dos meus devaneios loucos e olhei pro Percy. Pelo visto, era lá pela quinta vez que ele chamava meu nome.

— O quê?

— Nós perguntamos se você acha que devemos ir por aqui.

Olhei para onde ele apontava. Era uma portinha, que tinha escrito ‘Carquinez Middle School, Crockett, CA. Recordações de 1980 à 1997’.

Nota dos leitores: Explica direito esse negócio!

BLÁ BLÁ BLÁ. BANDO DE APRESSADOS. TÔ INDO, A PRESSA É INIMIGA DA PERFEIÇÃO, SABIA? LALALALA.

Tá, de acordo com várias pesquisas na internet foi nessa escola, Carquinez Middle School, que Billie e Mike participaram de uma competição da escola e ganharam como a melhor banda. Uma das alças do troféu era uma das partes da Clave da Hannah, só que o diretor não sabia disso e simplesmente o doou para uma exposição sobre algumas coisa que a Annie comentou e eu não prestei atenção no shopping. O tempo passou e todas aquelas coisas escolares e inúteis foram entulhadas no ‘porão’.

Sei lá como que chama porão de shopping center, velho.

Com um pouco de manipulação de Névoa (créditos ao Percy, que finalmente aprendeu), passamos pela sala dos zeladores (ou ‘Galeria Técnica’, como disse Annie) sem sermos encomodados, e seguimos por um corredor que tinham várias portinhas. ‘Decoração de Natal’, ‘decoração de Páscoa’, ‘decoração de dia das crianças’, acho que esse lugar tem decoração até pro dia de São Nunca, meus deuses!

Olhei mais uma vez para a ‘Carquinez Middle School, Crockett, CA. Recordações de 1980 à 1997’. Eu estava com mau pressentimento, algo me dizia que as coisas iam desandar se fôssemos ali.

— Não sei se devemos... — quando os instintos de Oráculo falam mais alto, geralmente é uma boa idéia escutar — Talvez possamos perguntar.

Annie revirou os olhos. Pra ela deve ser difícil conviver com pessoas menos favorecidas por Atena, como eu.

— Nós usamos a Névoa justamente para não sermos pegos. Ai você vai lá e pergunta, acaba com o disfarce. Boa, Rachel.

— Garotas, não há mais o que fazer — Percy balançou a cabeça — É nossa chance.

Suspirei. Queria estar como Hannah, Orchard ou Nico, que estavam por aí andando no shopping. Mas não, eu fui lá e abri a porta infeliz.

Parece que não foi dessa vez que nós fomos ouvidos, senhor Oráculo de Delfos.

~~

Parte II: Point of View — Hannah

Eu não queria brigar com eles. Não mesmo.

Só que, caramba, eu tinha o direito de reclamar da minha roupa! Eu estava perfeitamente feliz com minha blusa do The Maine, mas ai a Annie e a Rach cismaram que eu deveria parecer mais fofinha e me jogaram pra um vestidinho. Sem motivo nenhum, foi só porque elas acharam que ficaria bonitinho. Sem motivo nenhum, tipo, oi? Qual é o sentido? QUAL!?

Pois é...... Agora pare de rir, por favor.

Eu xinguei tanto os deuses e o mundo, que a Rachel mandou eu dar uma voltinha por aí pra esfriar a cabeça.

Mas esse nem é o ruim. Se fosse pra eu ficar por aí andando sozinha eu tava feliz. Mas não, eu tinha que levar o Orchard junto. Enquanto eles partiam em uma emocionante aventura pelos cafundó do shopping (oi?) eu era babá de um ser altamente caipira. Já tentou correr atrás de um garoto de nove anos que nunca viu uma escada rolante? Não é pra qualquer um, não.

— Volta aqui, seu moleque endiabrado! — gritei enquanto corria atrás do Orchard.

Tirei um dos meus all star e joguei em sua direção. Um segurança se aproximou depois que acertou a cabeça do garoto.

— Vocês dois estão bem?

— Ah, claro. É que eu tropecei, e meu sapato voou no meu irmão. Ele esta legal — dei um sorriso Colgate pro cara.

O Homem de Preto franziu a testa, sem acreditar, mas mesmo assim não fez mais perguntas e foi embora.

— Iss dueu, sabia? — Orchard falou, com a voz fanhosa. Ah, por favor, não me faça ser babá de um caipira chorão, ainda.

Revirei os olhos.

— Agradeça que eu não estava de coturnos, Chico Bento. Eles doem pra caramba.

Acho que o all star de cano médio que eu fui relutante o bastante para não trocar não era macio que nem gelatina, mas eu estava concentrada demais pra isso.

Por quê? Bem, eu escutei um som familiar. A melodia de Slow Dancing in a Burning Room. Foi só olhar na direção e vi que era um garoto tocando guitarra numa loja de música.

AWKFJHASFKJBASFJHBAJSHFBAJSH

— Ocê reclama que ieu corro, má ocê merma corre tambéim — Chico Bento falou, quando me alcançou. Fiz o sinal de 'shh!' pra ele, a música era boa demais para ser interrompida. Só que no final fui eu quem interrompi. O guitarrista parou de tocar e levantou os olhos pra loira doida que o encarava.

— Ahn... Olá — ele falou timidamente — Eu te conheço?

Foi então que vi que, sim, eu o conhecia. Era o garoto bonitinho que andava na calçada (o de fones de ouvido, moreno). As baquetas que ele carregava aquela hora até estavam em cima da caixa de som.

ALÉM DE LINDO E BATERISTA ELE AINDA É GUITARRISTA, JESUS APAGA A LUZ.

— Meu Deus, você toca pra caralho!

Não me olhe assim, pelo menos eu fui uma pessoa normal e não gritei ‘ô lá em casa’. Sou doida, mas nem tanto.

Senti Orchard puxando a barra da minha saia insistentemente, tentando falar alguma coisa. Dei um tapa de leve na cabeça dele, como se dissesse espera, caramba!. Afinal, eu estava muito ocupada pensando em bancar o cupido pra Rachel (sim, eu pretendia jogar o garoto pra cima da ruiva. Talvez assim ela se desencantasse do bulustrucado do Muke).

— Obrigado — o garoto riu — Não é sempre que eu ouço isso.

Certo momento eu estava pensando se conseguiria trancar ele e a Dare em algum lugar do shopping, quando me peguei reparando que o benedito era ainda mais (acredite, muito mais) bonito pessoalmente. O cabelo castanho caía um pouco no olho, que era de um marrom acinzentado....

Parei de babar por cinco segundos e percebi uma coisa. É impressão minha ou ele se parecia com o Nico? o.o

— Alguma coisa errada? — o garoto perguntou, porque eu estava o encarando.

— Ahn... Não! É só que você se parece com... Com um amigo meu — olhei pro Orchard, que estava enroscado na minha perna que nem um garoto de cinco anos assustado — Não é verdade?

Só que ao invés de me ajudar, o diabrete piorou a situação.

— É devera, pareci sim — então ele falou pro garoto — Ocê si pareci cum o namorado dela.

Senti minhas bochechas fervendo.

— Orchard! O Nico não é meu namorado!

— Uai, se ocê diz... Má por que ele ti beijô, intão?

Wait. What. COMO??? AJSFHJKASHFAJKSKJASHFDGDFH

— Como você sabe que ele me beijou? — perguntei, atônita.

Ninguém sabe disso além de mim. E do Nico, naturalmente. Mas acho que ele estava tão chapado na hora que não deve se lembrar, sei lá.

— Ieu num sabia não — Orchard começou a rir loucamente — Má se ocê perguntô como eu sei é qui é devera!

Oh shit. Trollada por um filho de Deméter. PRA VER COMO MINHA VIDA É LEGAL.

— Tá Orchard, agora fica calado e vai lá comprar sorvete — apontei pro McDonalds e joguei uma nota de dez dólares pra ele, que saiu andando feliz. Pois é, as vezes o preço do sorvete aumentou, nunca se sabe.

O futuro marido da Rachel (que eu mentalmente apelidei de Ferdinando, porque esse nome é legal) piscou, tentando entender o que diabo tinha acontecido, mas acabou desistindo e desviou do assunto.

— Você toca?

Se ele soubesse.

— Aham. Sou pianista — dei de ombros. Não vem ao caso outras coisas que sou, desse jeito facilita a vida de todo mundo.

— Ah, porque aqui eles são legais. Não se importam que a gente bagunce um pouco — Ferdinando apontou pro piano — Você tem cara de quem toca bem, deveria tentar.

Já estava indo, quando me lembrei.

— Com licença, posso te fazer uma pergunta? É a primeira e última, juro.

— Claro — respondeu, sorrindo. Aw.

— Você gosta de ruivas?

O garoto piscou.

— De garotas ruivas? Ué, acho... acho que sim. Minha namorada é morena, mas ruivas são legais também.

Wait what. Namorada? .________.

É, acho que eu não sou um bom cupido mesmo não.

— Ah, era só curiosidade mesmo. Ahn, arrasa na guitarra aí, Ferdinando.

É, eu o chamei pelo apelido que eu tinha dado mentalmente. Eu meio que esqueci que ele não sabia, por isso eu dei meu jeito pra correr antes que Ferdinando pudesse me perguntar se eu tinha parado de tomar algum remédio pra loucura, ou sei lá.

Sentei no banquinho e fiquei passando os dedos nas teclas, tentando escolher uma música. Tinha tanto tempo que eu não tocava um piano daqueles, de cauda.

Você sabe, cauda é o compridão. Piano vertical é o fino, que ocupa menos espaço e ISSO NÃO VEM AO CASO.

Me lembrei de Clocks, e da primeira vez que a ouvi. Estava voltando da escola, e Muke ficou cantando o refrão no meu ouvido o caminho inteiro.

Aquele viado.

O lado bom é que no fim ela acabou se tornando umas das minhas favoritas. Apertei as primeiras notas, que são famosas internacionalmente.

Lights go out and I can't be saved, tides that I tried to swim against...

Eu só murmurava a letra, mas então o Ferdinando juntou a guitarra ao piano Algumas pessoas cantavam junto, outras eram mais tímidas e apenas balançavam a cabeça no ritmo. Tudo o que digo é que Chris Martin ficaria orgulhoso, foi tão lindo *chora de emoção*.

Quando acabou, me levantei e acenei com a cabeça para o Ferdinando (não, não vou parar com isso) e o povão todo que tinha se juntado à música. Saí da loja antes que eu tomasse posse do piano ou, sei lá, roubasse um banjo.

SEM ZUEIRA, O BANJO QUE TINHA LÁ ERA TOP. É.

— Nem parecia a mesma doida que vive me batendo, estou impressionado.

Quase dei um pulo, mas vi que era só o Nico recostado numa pilastra.

— Ah, obrigada — senti meu rosto ficando vermelho. Era estranho pensar que ele me viu tocando piano — Acho que vou precisar de um hobby desse tipo, agora que não posso ficar te batendo o tempo inteiro.

Ele sorriu, mas só de lado. Acho que vou ter que esperar alguns anos até ver o Nico sorrindo de verdade.

— E por que você não pode me bater o tempo inteiro?

— Ah... Não sei. Acho que porque você não se sente mais incomodado com meus tapas. Vou ter que arranjar outro jeito de provocar você, um jeito mais eficiente.

— Então vou esperar pacientemente até você descobrir, leggiadra.

Poker face. Do que ele me chamou?

— Claro, use francês no meio da conversa. Quando eu achar um dicionário eu te respondo.

— Não é francês, inteligente. É italiano — ele fez uma pausa, como se estivesse resolvendo se continuava ou não — Minha mãe era da Itália, por isso que eu falo. Mesmo que não goste de usar muito.

— Por quê? — foi mal aí se sou curiosa.

— Ah, é uma longa história — deu de ombros — Longa mesmo, você não quer ouvir.

— Quem disse? Quero sim — falei, cruzando os braços.

Nico me lançou um olhar severo.

— Não quer não.

Era a milésima vez que ele desviava desses assuntos. Mas deixo passar, porque eu não sou muito diferente.

— Você não deveria estar junto com a Rach e companhia? — mudei de assunto.

— Ah, eu estava. Só que Percy começou a discutir sobre o caminho com a Annie, ai eu desisti e voltei. Mas acho que conseguem achar sozinhos.

Entendo .-.

— Legal, agora o Quarteto Fantástico virou Trio Parada Dura.

Nico ignorou meu pequeno comentário retardado.

— Você não pode falar nada, cadê o Orchard?

— Ah, ele está bem. Descobrindo o McDonald's ou algo do tipo... Ei, não me olhe assim, ele vai ficar bem. O máximo de problema que vai conseguir criar é uma discussão sobre vegetais transgênicos com os atendentes — falei enquanto arrumava a porcaria do vestido.

Ah, como eu detesto esse negócio. Diacho.

— Tem certeza? — Nico perguntou, ressabiado.

— Absoluta. Eu sou uma ótima babá a distância, sério. — Nos sentamos num sofazinho, perto da praça de alimentação. Se o Orchard roubasse o alface de alguém (?) eu veria.

— Posso te fazer uma pergunta? — falei.

— Eu já te disse isso milhões de vezes, Hannah — ele colocou as mãos entrelaçadas atrás do pescoço — Você pode me perguntar o que quiser, só não sei se vou responder ou não.

Estreitei os olhos.

— Tá. Que seja. Eu só quero é saber o que é ‘leggiadra’.

— Ainda se perguntando isso? — ele riu — Não achei que era tão persistente.

— Aham, ainda quero saber, senhor da Vinci.

— Sinto muito. Eu não vou contar.

— Ah, por favor, você me viu de toalha. É o mínimo que pode fazer.

Mesmo enrubescendo (aquele dia foi tenso, sim), ele deu de ombros.

— Descubra sozinha.

Bati o pé no chão, indignada. Fala sério, eu teria que esperar até chegar no ônibus pra descobrir o que diabo é isso?

— Não é justo!

— A vida não é justa, leggiadra.

Que absurdo, isso non ecziste!

Eu ia protestar, dizendo que aquilo poderia ser uma ofensa contra minha pessoa e eu tinha o direito de entender, mas um grito agudo cortou o ar. Achei que era alguma criancinha infeliz que perdeu o balão, mas percebi que não era qualquer uma. Era nossa criancinha infeliz que perdeu o balão. Aquela que eu deveria estar tomando conta.

Orchard.

Notas finais do capítulo
Sim, eu sempre falo isso, mas adoro finais de suspense MWAHAHAH o que será que aconteceu com o Orchard, hein? TAN TAN TAN TAAAN ~música de filme de terror~




(Cap. 23) Escolhas, bengalas e lenhadores lenhando

Notas do capítulo
Primeiro: Me desculpem pelo título sem graça laç~kajsgjhajbhvdg e pela demora também D: MAS o lado bom, acho que esse é um dos maiores capítulos kkkkkkkk Agradeçam à minha beta Letícia, porque todas as ideias realmente boas desse capítulo são dela *u* LETS, WE LUV YAH ~le serpentina E muito obrigada a todas as minhas leitoras lindas que não desistem de mim, e hoje em especial à giustiisa *-* suas abençoadas de Afrodite aksjfhaskjhas Tá, vou parar com meu blá blá blá antes que alguém ai taque um tijolo na minha cabeça. Boa leitura!

23. Escolhas, bengalas e lenhadores lenhando

Parte I: Point of View — Percy Jackson

A partir de agora, eu juro que sempre irei escutar o que a Rachel diz. Sempre. Não me importa: se ela me mandar pular num buraco, eu pularei. O Oráculo que manda. A não ser que esse buraco seja o Tártaro, porque né, coisas assim estão abertas a negociações.

Mas depois daquela de Crockett, a Rachel virou minha conselheira oficial.

— Não falei? — disse Annie, quando abrimos a porta — Esse é o lugar certo. Só devemos procurar, fácil!

Ah, claro. O recinto era enorme, do tamanho de uma quadra de futsal. E havia trocentas coisas espalhadas. Facílimo!

— Continuo com um mau pressentimento — disse a ruiva — Então, vamos logo achar a Clave da Felicidade antes que um monstro coma minha cabeça.

— Deixe de drama, Dare — revirei os olhos, enquanto destampava Contracorrente.

O brilho dela iluminou o recinto, bem mais que a lâmpada furreca (algo me dizia que alguém não visitava as 'Carquinez Middle School, Crockett, CA — Recordações de 1980 a 1997' a muito tempo). Havia caixas amontoadas, com papéis e medalhas amontoados. Parecia que o Katrina tinha passado por ali. Por isso resolvemos nos separar para olhar, e depois de trinta faixas, setenta caixas e cerca de milhares de medalhas, eu não tinha achado nem o rastro.

— FUCK YES, TEAM ORÁCULO VENCE OUTRA VEZ! — gritou Rachel, com uma dancinha da felicidade, já que ela foi a primeira a ver a prateleira dos troféus. Deuses, depois a Annie fala que eu sou o dramático.

— Menos Dare, menos — suspirou minha namorada, com a mão na testa.

— Ah, Sabidinha, não reclame. Pelo menos eu não falei 'team ginger power vence outra vez'.

— Ei — fiquei indignado — Sabidinha é o apelido que eu dei pra ela!

Rachel revirou os olhos.

— Desde quando sua namorada é marca registrada, querido?

Desde quando a Rachel fala que nem a Denise, da Turma da Mônica? Perguntas sem resposta.

— Já chega! Rachel, deixe o Percy em paz. Percy, ignore a Rachel.

— Você quem manda, Annie — ri, e iluminei o canto dos troféus com Contracorrente.

Troféu de jogo de feira de ciências, troféu de xadrez, troféu de judô, troféu de balé, jazz, capoeira, natação, basquete, futebol, vôlei, futebol americano, tênis, arremesso de dicionário, escrita, cuspe a distância e até contorcionismo.

MENOS A PORCARIA DO NEGÓCIO.

— Achei!!

Eu e Annie olhamos esperançosos pra Rachel, que levantava um dos troféus.

— Achou a Clave? — os olhinhos da filha de Atena brilhavam — Ah, graças aos deuses Dare...

Rach franziu a testa.

— A Clave? O quê? Claro que não, eu achei foi um de concurso de desenho! — ela levantou um negócio como se fosse um milhão de dólares — Olha que lindo!

Dei um tapa nele e joguei o troço longe.

— Percy!

— Poderia por favor procurar o que realmente estamos procurando? — ignorei o olhar indignado dela.

— Mas eu já procurei! — gritou a ruiva, apontando raivosamente para a pilha — Não é minha culpa se não está ali!

— Então procure direito! — gritei, impaciente.

Annie se colocou no meio de nós dois.

— Woopa, acalmem seus corações ai. Só temos que procurar melhor.

— Mas eu já olhei! — gritou Rachel, enquanto gesticulava feito uma doida — O Percy já olhou. Você já olhou. Eu disse, aqui não--

Ela parou de repente, olhou para algo atrás de mim e gritou, horrorizada. Não havia cheiro de monstros, mas eu e Sabidinha nos viramos instintivamente, como numa batalha.

Atrás de nós havia um homem alto, que sei lá como Hades aparecera lá. Era magro, tinha os olhos escuros e fundos e usava um sobretudo preto. Pareceria um cara normal se não fossem pelos dois rostos. Me lembrei dele instintivamente: Jano, o deus das escolhas e das portas, aquele que nós encontramos no Labirinto. Não era meu ser divino preferido.

— Sim, sou eu mesmo, semideus — disse o rosto da esquerda. Era como se ele (eles?) tivesse lido minha mente. Já falei que é muito irritante quando os deuses fazem isso?

— Parece que nós nos encontramos de novo — completou o da direita.

Annie empunhou a faca, com um olhar mortal.

— O que faz aqui, Jano? — perguntou, num tom ameaçador. Um rosto pareceu surpreso, o outro irritado.

— Mas que pergunta, filha de Atena! Achei que-- — o da direita foi interrompido pelo outro. Eu já estava ficando confuso com isso.

— O porquê de eu estar aqui é óbvio — disse o da esquerda, com um tom de 'dãh' — Eu só apareço quando há uma importante escolha a ser feita.

Fiz uma careta. Essas escolhas divinas nunca dão certo. Você termina ou morto, ou com as calças em chamas (não pergunte).

— Deuses não podem interferir em missões — rosnou Annabeth — Então leve sua maldita escolha e sua cabeça enorme pra bem longe daqui.

— Primeiro — disse o rosto da direita — Não vou interferir. Só aconselhar.

— Segundo — disse o da esquerda — Isso não é uma missão, é? Vocês tiveram a permissão que Quíron para sair do Acampamento, por acaso?

Rachel deu um pulo lá atrás.

— Ô, moço. Com licença, mas você pode deixar sua escolha importante pra mais tarde? Porque nós estamos tentando achar um negócio que tenho certeza ser muito mais urgente, sabe como é.

Os dois rostos riram, de modo escárnio, e disseram juntos.

— Seria isso, o que procuravam? — uma das mãos levantou um troféu. Era possível ler 1st place: Billie Joe Armstrong and Michael Ryan Pritchard.

Annabeth e Rachel entoaram um 'oh', perplexas. Fiz um movimento rápido para pegá-lo, mas pelo visto ter quatro olhos fez o deus ser mais atento a ataques surpresa. Ele pulou como um gato, aterrissando em cima de uma caixa a quatro metros de distância de nós.

— Nos dê isso, agora! — Rachel esbravejou, mas eu e Annie a seguramos pelo fato dela não ter uma arma. Além disso, acho que Jano ficaria muitíssimo bravo se, não sei, alguém jogasse uma escova de cabelo azul na(s) cara(s) dele.

— Nada acordos até escutarem minha escolha — disse o rosto direito.

— Sua escolha? — perguntei, confuso — Achei que era nossa.

Ao mesmo tempo que Annabeth me dava um tapa, o rosto esquerdo bufou.

— Meus deuses! Como pode ser tão lerdo, filho de Poseidon? É a escolha que eu darei a vocês.

Ah. Eu sabia.

— Vocês têm a chance de renunciar a essa busca — disseram juntas as duas faces — Se assim fizerem, serão poupados. Se não, serão punidos.

Franzi a testa, processando as informações.

— Como assim?

— Ora, você achou que aquela garota estava sumida por acaso? Lógico que não. E assim deveria ter ficado. Entregue-a a mim, e não serão punidos.

Ah, claro. Só se eu quiser que o Nico chute minha bunda direto pro Mundo Inferior (não diga a ele que eu disse isso, mas é verdade).

Avancei no deus, e dessa vez ele estava muito mergulhado no seu mar de felicidade de cara do mal para perceber. Jano foi derrubado da caixa, ficando imobilizado no chão. Me ajoelhei em cima de seu peito e coloquei Contracorrente contra seu pescoço.

— Então, foi você que deu um sumiço nela? — apertei um pouco mais Anaklusmos. As duas faces engoliram em seco.

— Não direi nada, rapaz — disse o rosto da esquerda, fingindo estar confiante (devo dizer que ele fingia muito mal. Mas acho que é meio difícil atuar quando seu pescoço está quase sendo arrancado do corpo).

Annabeth apareceu atrás de mim, lançando um olhar felino e feroz contra o deus. Trabalhávamos como uma equipe da polícia: enquanto eu chantageava, ela fazia as perguntas.

— A não ser que queira ser decepado, querido Jano, responda a pergunta dele! Agora!

— Não direi nada! — exasperou o lado esquerdo. Já o direito...

— Não fui eu! — disse, arquejando — Só sigo regras!

— Seu burro — ele gritou com ele mesmo — Não abra o bucho!

Eu e Annabeth nos entreolhamos. Pelo visto, o rosto direito seria mais contribuinte. Ela tampou a boca do rosto esquerdo com a mão.

— Diga quem foi, direito. Agora.

— Mmmf! Mmf!

— Cale a boca, esquerdo! Responda, direito.

Se não fosse um momento tenso, eu teria rido.

— Não fui eu! Só sigo as ordens do meu senhor.

Ia perguntar quem era esse tal do benedito, mas Annie gritou. Olhei pra ela, preocupado, achando que ela havia sido atacada.

— Esse porco lambeu minha mão! Que nojo! — ela pulou longe, balançando a mão que nem uma batata quente.

Poker face.

Me distraí por um segundo, e foi quando Jano me jogou longe. Bati as costas na parede, e senti minha cabeça tontear. Enquanto isso, Annabeth estava jogando uma caixa do tamanho do mundo na cabeça de Jano.

Essa é a minha garota.

— Percy! — gritou Rachel, correndo até mim. Ela estava imóvel, até agora — Você está bem?

— Estou — tossi — Não se preocupe comigo, só pegue o troféu!

Ela olhou em sua volta, até ver o negócio brilhante do outro lado do recinto. Foi correndo até ele, mas no meio do caminho Jano a segurou pela blusa. Rachel foi jogada em cima de Annabeth, fazendo as duas caíram fracas e desprotegidas. A tontura de repente passou. A raiva daquele ser que machucou duas das mulheres mais importantes em minha vida foi mais forte. Corri até elas, e quando Jano se levantou as mãos para pegá-las, bati com o punho da espada em seu peito, fazendo-o cambalear para trás.

— Nem mais um passo — falei, com a voz firme. Os dois rostos do deus se contorceram, bravos.

— Não vão nos entregar a deusa?

— Não! — proferi, com raiva — Aceite isso.

Ele nos encurralou no canto. Desferi um golpe com a espada, mas somente consegui arranhá-lo, pois ele tremeluziu e apareceu a cinco centímetros do arco do ataque.

Poderes divinos dos infernos.

— Então, acho que eu deveria levar vocês ao meu lorde — ele começou a brilhar, dando início à sua forma divina.

Respirei fundo, minha mente défict trabalhando loucamente por um plano. Tudo que eu tinha que fazer era dar uma rasteira, e quando ele caísse, desferir um golpe de tal modo que ele diria quem era o tal chefe.

Cinco segundos antes de eu executar meu plano bem bolado e genial, Jano deu um grito e caiu de joelhos no chão.

?

— Deuses! Pare!!

— MORRE, HÔMI BRIÂNTE! MOOOOOOORRE DIACHO!!

Nosso coleguinha caipira havia aparecido magicamente, e estava batendo um troféu repetitivamente na cabeça do deus.

— Pare com isso, moleque irritante!

Assim como fez comigo, Jano bateu a mão em Orchard, que por ser mais leve voou até o outro lado, dando um grito agudo que certamente foi escutado até na rua. Jano passou a mão pela cabeça, e viu que seus dedos ficaram sujos com icor, o sangue dos deuses. Ele então levitou, como quem vai dar o pé de um lugar.

— Desprezível! — disse a cabeça esquerda.

— Ser machucado por um mero meio-sangue, que vergonha! — falou a direita.

— Pois é, parece que alguém foi derrotado por um filho de Deméter de nove anos — ri, deixando-o ainda mais irritado.

— Isso não vai ficar assim — disse um rosto, e o outro complementou — Vocês serão punidos por isso. Logo, logo, nós sumiremos outra vez com aquela garota irritante.

— Tente pegá-la — falei, de modo ameaçador — E eu cortarei um 'P' em cada um dos seus rostos.

É, eu tive um momento Zorro. Vai reclamar?

Jano praguejou, enquanto começava a brilhar.

— Se não fosse pelo caipira intrometido... — ele se virou para o Orchard, que estava despejado em um dos cantos. O deus esbravejou, com as duas vozes — Orchard o' Apple, filho da Abundância, eu o amaldiçôo pelos seus atos. E essa maldição será seu destino, para sempre.

Todos desviamos o olhar. Ele ficou em sua forma divina, e com essa alegre afirmação, sumiu.

~~

Parte II: Point of View — Hannah

— Deus, eu desisto — falei, quando passamos no mesmo lugar pela terceira vez.

Procuramos o Orchard por tudo quanto é canto. Quando nos certificamos que ele não estava no shopping, procuramos nas ruas lá perto. Crockett era uma cidade tranquila, mas fiquei com medo de... Sei lá. Algo ruim ter acontecido. Já vi coisas que acontecem nas ruas de Los Angeles, e acredite em mim, elas foram ruins o bastante para me deixar assustada.

Chutei algumas folhas no meio da rua, e me larguei num banco. Mais um motivo pra eu odiar a Califórnia.

— Isso não é possível! Onde ele foi parar?

— Não sei — Nico correu os olhos pela rua — Mas não deve estar longe. Pelo grito, parecia estar perto da gente.

— Isso que não entendo — balancei a cabeça, inconformada — É culpa minha, por ter deixado ele sozinho — cobri o rosto com as mãos. A porcaria do sentimento maternal (que surgiu contra minha vontade, claro) fez meus olhos umedecerem.

Maldição.

Penadinho suspirou, e se ajoelhou na minha frente.

— Ei. Han. Chorar não vai ajudar a achar o Orchard.

— Não estou chorando — respondi, com a voz abafada.

— Então, tire a mão da frente da cara.

Como eu não fiz nada, ele pegou meus pulsos com cuidado e os puxou para baixo. Depois, apoiou os cotovelos em meus joelhos e olhou pra mim.

— Se você estiver preocupada com o fato de o Orchard ter sido esfaqueado, destroçado, decapitado, desmembrado, fuzilado, ou até mesmo atropelado — eu arregalava ainda mais os olhos a cada palavra que ele, com toda a calma do mundo, dizia —, saiba que não aconteceu. Ele não está morto.

— Você escutou o grito que ele deu? — perguntei, um pouco ríspida demais.

— Sim, Hannah, eu escutei — Nico suspirou, cansado — Mas eu te juro pelo Rio Estige que ele não morreu.

— Como pode ter certeza? — perguntei, mais uma vez, estreitando os olhos.

— Eu tenho uma, hm... capacidade especial pra isso. Se alguém que eu conheça morre, consigo sentir.

Senti meu corpo se relaxar.

— Oh, certo... Quase tinha me esquecido que você é filho do deus dos Penadinhos.

— Já chamaram meu pai de muita coisa, mas deus dos Penadinhos é nova — ele se colocou de pé — Mas é sério, aposto que o Ochard está bem. É capaz que ele já até voltou pro Trem da Alegria.

É assim que nós dois apelidamos o trailer Restart agora. Mas também, multi colorido daquele jeito. Só Apolo mesmo.

— Você acha? — perguntei, enquanto me levantava e batia a poeira da roupa.

— Claro — ele deu de ombros, e apontou pro meu rosto — Agora, seque essas lágrimas, porque a maquiagem em volta dos seus olhos está começando a borrar seu rosto.

Praguejei. Maldita sensibilidade que surge dos cafundó.

— Eu não estava chorando — reclamei, mas mesmo assim esfreguei as mãos no rosto molhado. Maldito dia pra passar lápis. Além de inchada e horrenda, minha cara certamente vai ficar toda borrocada de preto.

Nico me encarou por alguns segundos.

— Posso te falar uma coisa, Hannah?

— Diga.

— Você não precisa ser forte o tempo todo.

Olhei para ele, curiosa.

— O que isso quer dizer?

— Não precisa fingir que não estava chorando. Eu vi, e não te condeno por isso. Acho... Sei lá, demonstrar seus sentimentos não te faz uma deusa, ou garota, fraca. Sei que isso soa meio boiolado, mas é verdade — ele falou rindo, então comecei a sorrir também.

— Obrigada pelo conselho — agradeci, passando os braços pelo seu pescoço. Nico pareceu meio relutante, como se não estivesse muito acostumado com esse tipo de contato físico, mas logo retribuiu o abraço.

Era engraçado, encostando em sua pele fria, minha temperatura parecia febril. Mas era uma sensação boa. Eu me sentia quase... Protegida, em seus braços. Todos aqueles anos convivendo com o bulustruco do Muke e eu nunca havia me sentido daquele jeito.

Meu queixo se encaixava perfeitamente entre seu pescoço e sua clavícula, e eu fiquei alguns minutos só assim, sentindo seu cheiro. Que eu não conseguia distinguir, mas podia crer que era de morte. Só que isso não tinha importância pra mim. De morte ou não, eu achava bom do mesmo jeito.

— Me desculpe por estar fungando no seu cangote, Penadinho — falei, contra sua pele pálida. Levantei a cabeça e vi que o Nico estava sorrindo.

— Não se preocupe — ele passou os dedos pelo meu cabelo — Não é tão desagradável quanto parece.

— Tem certeza?

— Absoluta.

Ficamos assim, abraçados no meio da rua, até algo bater com força em minha cabeça.

— Ai!

Um senhor meio caduco, de uns oitenta anos, brandia a bengala.

— Esses jovens de hoje! Não têm mais respeito por si mesmos!

Poker face.

— Meu senhor, mas o que foi isso? — perguntou Penadinho, perplexo — Você, você não pode sair batendo na cabeça de--

O velhote brandiu a bengala entre nos dois, com uma careta.

— Mas que absurdo! No meio da rua! — o senhor apoiou o instrumento de tortura no chão —Tem crianças passando por aqui! — ele nos fuzilou com o olhar, e saiu andando pela calçada, resmungando — A geração de hoje. Nunca entenderei! Tão novos e tão pervertidos!

Meu Deus, acho que a batida do velho fez mal aos meus neurônios.

— Hannah — Penadinho me perguntou, enquanto nós dois ainda encarávamos o velho, que estava a uns bons metros de distância — O que foi isso?

— Não faço a mínima idéia — balancei a cabeça — Só sei que nós deveríamos voltar pro Trem da Alegria.

— Ah — Nico desviou o olhar até mim — Ah, certo. Era pra lá que a gente ia antes de... — ele ficou vermelho antes de terminar a frase, me fazendo enrubescer também.

Meu Deus. Bem que dizem que a adolescência é complicada.



Não foi difícil achar o Trem da Alegria. Pra falar a verdade, nunca é (sim, precisamos pintá-lo de preto urgentemente). E também, não foi uma caminhada com muitos diálogos. Mas a bizarrice voltou para nossas vidas assim que subimos.

— Olás, gente bonita — falei, quando vi Annabeth e Percy ajoelhados do lado do sofá — Quais são as novas?

— Nada boas, devo dizer — Annie se virou, mas parecia apreensiva. Cheguei mais perto e vi que Orchard estava deitado no sofá, desacordado. Ele parecia péssimo, sua pele estava pálida como a de um doente e o cabelo ruivo empapado de suor.

— Deuses — Nico se aproximou —, o que houve com ele?

Percy e Annie se entreolharam, receosos. Por fim, Cabeça de Alga se pronunciou.

— Jano apareceu. Uma longa história, mas ele amaldiçoou o Orchard, no fim. Temos medo do que isso pode significar.

Esse nome me era familiar.... Jano. Fucei os confins de minha memória, mas não me lembrei quem era ele.

— É o deus das portas e das escolhas — explicou Annabeth, depois ela pareceu um pouco distraída — Eu estive pensando sobre essa maldição. Tenho várias hipóteses em mente, mas não conseguirei saber qual é a certa até ele acordar.

Coloquei a mão na testa dele e mordi o lábio. Sua temperatura parecia perigosamente febril. Rachel chegou com um termômetro (sabe-se onde diabo ela achou, parece que nesse lugar tem tudo quanto é buginganga que você procurar) e confirmou minhas suspeitas: 41,7.

— Bem, isso é mais que quente — ela disse, observando o termômetro — Mas daqui a pouco está acordando... não está?

Ela se virou para Nico, esperando uma confirmação.

— Ah, não se preocupe, ele não está morrendo — ele nos tranquilizou — Mas tipo, se Jano é o deus das escolhas, ele só aparece quando há escolhas. Certo? Ao menos, foi o que Quíron falou.

— É... Mais ou menos. Mas isso não importa — disse Percy, com uma careta — Vamos deixar ele no quarto. Acho que daqui uns dias acorda, que nem o Nico quando.... bem, quando ficou bêbado — Percy olhou com um sorriso divertido pro Penadinho — Você dormiu tanto que eu achei que tinha morrido, é.

— Não me lembre disso, Cabeça de Alga — o dito cujo grunhiu, com os braços cruzados sobre o peito — Ainda quero quebrar a cara do Solzinho.

Mordi a língua para segurar o riso. Esses dois são uma piada, aiai.

— Nem pense nisso, Nico. Lembre-se da convivência — Annabeth também se colocou de pé, e levantou o ruivo semi-morto do sofá azul marinho.

Ela fez um aceno com a cabeça para mim, e logo fui a ajudá-la a carregá-lo pelo corredor, claro que com todo o cuidado do mundo.

— Hannah! — ela chamou minha atenção quando eu sem querer bati a cabeça dele num quadro da parede — Cuidado!

Fitei a pintura. Havia um adolescente fazendo pose de superioridade. Ele usava uma túnica meio apertada demais e estava em pé num pedestal, com várias garotas em baixo tentando o alcançar.

Aiai, Apolo.

Mas vale dizer que ele estava muito gato no quadro u_u não são todos os garotos que ficam bem de toga, e sinceramente o deus Sol com ela não deixava nada pra imag..

— Muke!

Pisquei, desviando os olhos do quadro. Annabeth havia soltado o Orchard, de forma que ele estava 'em pé' e apenas eu estava o segurando pelos braços. A filha de Atena estava na porta do quarto, olhando abismada para algo lá dentro. Deixei o garoto sentado no corredor (deixar alguém que está desmaiado sentado é muito difícil, diga-se de passagem), respirei fundo e contei até três, indo para descobrir o que diabo acontecera agora.

Arregalei os olhos.

— Mas... Mas... Como assim!?

Eu já vi o Muke fazer muita coisa bizarra. Juro. Eu vi quando ele bateu uma panela na cara da professora de geometria. Vi quando ele quase fez strip no meio da avenida mais movimentada de Los Angeles. Também vi quando ele explodiu as máquinas de pipoca de uma estréia hollywoodana, fazendo o cinema cheio de celebridades ser evacuado. E não vamos nos esquecer de quando ele deixou o Nico, de todas as pessoas desse mundo, bêbado. Mas dessa vez o infeliz se superou.

Ele conseguiu serrar uma cama ao meio.

???¿/¿¿??/?¿¿

Isso mesmo que você acabou de ler ai em cima, mas não quer acreditar. No meio, certinho.

— Por quê?! — Annie berrou, sacudindo o Muke pelos ombros.

— Uau! — Rachel surgiu atrás de mim, certamente porque farejou o barraco — Fez tudo sozinho? Você é forte, hein?

Bati a mão na testa. Só a ruiva mesmo.

Andei até os pés da cama, me ajoelhando para observar a linda obra de arte que ele fez. E eu conhecia aquelas marcas.

— Posso saber onde diabos o senhor achou um serrote, Muke? — perguntei, acusatoriamente.

— É que... anh... você sabe... — ele coçou a cabeça, e olhou pela janela — TINHA UM LENHADOR, SABE? Aí ele tava lenhando...

Escutei o Nico bater as típicas palmas irônicas, lá da sala.

— LENHANDO?? ISSÂE!! — Ô garoto do ouvido bom.

— CALA A BOCA PLAYBOY! — Muke se virou para nós três — Ou vocês não querem que eu explique?

Eu e Annabeth reviramos os olhos, enquanto Rachel ficava alheia ao mundo, como sempre acontece quando ela baba no Muke.

— Aff, diz logo Solzinho — Annie falou.

Ele levantou o queixo, dramaticamente.

— O cara estava lenhando e sendo um lenhador feliz, na dele, e então eu fui falar com ele, e como um bom vizinho pedi uma xícara de açúcar. Mas acho que ele se sentiu humilhado pela minha extraordinária beleza e disse que ia ali buscar. E eu fiquei perto das árvores esperando...

Franzi a testa.

— Mas o que o açúcar tem a ver com--

— E EU FIQUEI PERTO DAS ÁRVORES ESPERANDO. Aí eu vi um belo pássaro e comecei a ir atrás dele, porque queria ver se o lindíssimo animal tinha um canto bonito também... Mas ele sumiu. Ai eu me lembrei do açúcar e voltei correndo. Aí encontrei o lenhador saindo do trailer e falei 'você deixou o açúcar lá dentro?', e ele disse que tinha deixado, e então eu entrei e encontrei a cama assim e logo depois vocês chegaram. E por isso que eu estou cansado.

Pisquei, tentando entender o que diabo açúcar e pássaro e lenhador estava fazendo na desculpa esfarrapada do Muke.

— Não posso com isso — Annabeth saiu, balançando a cabeça. Acho que o discurso do lindíssimo animal foi um tipo de ofensa à inteligência dela. OLHA, ATÉ EU QUE NÃO SOU LÁ MUITO ABENÇOADA DE ATENA FIQUEI OFENDIDA, ENTÃO SIM.

Coloquei o indicador e o polegar naquele ossinho entre os olhos que eu não sei o nome mas tenho certeza que você entendeu.

— Por correr atrás do pássaro. Você estava cansado por correr atrás da PORCARIA DO PÁSSARO.

Muke sorriu maliciosamente.

— Desculpa, mas posso correr atrás de outra coisa sem ser você, não fica com inveja não — falou, dando uma piscada.

Deuses, óh deuses, digam-me o que fiz para merecer esse panguá.

— Cai fora, quadrúpede — lancei o meu melhor olhar de caia-fora-antes-que-eu-arranque-seu-dente-fora, enquanto Rachel me fuzilava internamente.

Vi um vulto ruivo na porta, então deixei os dois amantes desafortunados e fui conferir se o Orchard já tinha acordado. E realmente, ele estava sentado em baixo do quadro hot de Apolo, parecendo deslocado e observando as paredes.

— Olá, Chico Bento. Foi mal por ter batido sua cabeça na parede — falei com um aceno. Ele continuava alheio ao mundo, e quando escutou minha voz, me encarou assustado.

Ei, sou feia mas nem tanto, tá?

— Que foi? O gato comeu sua língua, Caubói?

Agora ele arfou, me fitando com os olhos verdes confusos.

— Orchard, pelo amor de Deus, você pode parar de me encarar com essa cara que o boi lambeu?

— ¡No compreendo! ¿Qué ha pasado? ¿Dónde estoy? No recuerdo nada, y ¡no tengo idea de cómo llegué aquí!

Pisquei de novo.

E pisquei só mais uma vez pra garantir.

— Orchard? Você.... — balancei a cabeça — Pera aí, que diabo de língua você está falando? É espanhol?

Eu escutava um bocado de latinos conversando nas ruas de Los Angeles, e eles soavam exatamente como ele agora.

— Yo no soy Orchard. Mi nombre es Orchito Juanez Dolortito de la Rosa Ramirez — ele se levantou apressado, e foi correndo em direção à cozinha, gritando — ¡Tengo que encontrar mi camino de regreso al México! ¡México!, ¿donde está usted?

Santo Poseidon, quem bateu a cabeça desse garoto na parede? Ah, fui eu mesma. Opa (insira sorriso amarelo aqui).

— Ai meu Deus — murmurei — A maldição.

Tudo fez sentido. Jano é o deus das escolhas.... Mas ele também é o deus duas caras, pelo que eu me lembrava. Ele tinha duas personalidades. O que queria dizer, que ao amaldiçoar o Chico Bento.... Não. Não era possível.

Mas era a verdade. Agora, Orchard tinha duas personalidades. O caipira e o mexicano. Porque Jano é um filho de uma pura deusa passadora de rodo da night.

Dios mío, dame paciencia.

Notas finais do capítulo
TAN TAN TAN TAAAAAAAAAN ~tentativa fail de musiquinha de suspense Ah, e o próximo será um capítulo especial de Natal porque eu acordei super natalina esses dias u_u Ou seja, vou escrever que nem uma condenada pra acabar ele até segunda feira omg desejem-me sorte porque eu vou precisar G-G E não se esqueçam dos reviews :3 que eles realmente me fazem feliz askjfaksjgkj E ESSE NYAH QUE COME MINHAS RECOMENDAÇÕES. A MARI NO LE GUSTA.




(Cap. 24) Plantinhas natalinas podem ser algo do mal

Notas do capítulo
Hai people! Ai está o capítulo especial askjfkajsfhkjh

Especial de Natal — Plantinhas natalinas podem ser algo do mal

*Porque a autora acordou super natalina hoje*

Dia vinte e quatro de dezembro à noite. Na rua, tudo deserto. As pessoas estão em suas casas, aproveitando o aconchego de seus familiares para comemorar o Natal. Mas, dentro do trailer que passa….

— PINHEIRINHOS DA ALEGRIA, LALALALALALALALALA OS SINO TOCA AS NOITE I OS DIA LALALALALALALALALA

Ninguém mais aguentava o garoto ruivo cantando musicas natalinas para cima e para baixo (com o sotaque caipira dele, então, ficava ainda mais lindo). Começara de manhã, e embora no inicio tenha sido fofo, à noite os outros já estavam quase jogando-o pela janela. Annabeth havia explicado que gregos não celebram o Natal, mas não havia nada que fizesse ele parar de gritar Noite Feliz por aí.

— Quando falam em pinheiros, eu não penso em alegria — murmurou Percy — Eu penso em choques e queimaduras de terceiro grau — ele viu os olhares de 'que diabo' de Orchard, Hannah e Muke — Uma prima minha. Longa história.

Estavam todos sentados no sofá, que era grande e em formato de L. Embora não tivessem a tradição de fazer uma ceia, ninguém reclamara quando o Invi (ou Jimmyntira, fica a seu critério) parou no drive thru do McDonalds.

— Ara, sô, pois pinheiro me lembra muito di alergia… Nonono, alegria. Si beim que meu avô era alérgico ao nosso pé di quiabo, entonces me alembra um pouco di alergia, sim… Mais Natar é dia di alegria! Ocês devia tá comemorando!

— Hm, Orchard. Tipo, nós não comemoramos o Natal.

— AH, PÉRCI, QUE FARTA DE GRAÇA. Pois quando ieu morava cum meu pai e meus tio barrigudo, nois tudo cantava nas seresta e nas capela… — Orchard roubou uma alface do McChicken de Annabeth, que se exclamou um ‘ei!’ indignado — Ieu nunca vô mi esquecê daqueles Natar que nois passô… Ô diazin filiz, medeus!

— É, mas pena que você não tem mais o Natal — disse ninguém mais ninguém menos que Hannah, com sua sensibilidade de sempre — Agora, me dá esse chapeuzinho de Papai Noel, garoto.

— NONONO, no meu chaperzin, ninguém mexe! — ele afundou mais o gorro vermelho na cabeça — Sein ele, o Papai Noer num vai me ver pra intregá meus presente.

Annabeth respirou fundo, começando a ficar irritada. Filhos de Atena só crêem nas coisas que podem ver, comprovar que existem. Como tirar isso da cabeça de um menino irritante de nove anos?

— Olha, Chico Bento, deixa eu te contar uma história — Muke pigarreou — Era uma vez, um garoto lindo e gostoso…

— Só que não.

Muke olhou feio pro Nico.

— Cale a boca, Playboy.

— Não me chame de Playboy, Raio de Sol.

— Então tá, Braquelo.

— Solzinho da RiHappy.

— Cadáver.

— Viado.

Percy desviou o olhar. Seria legal se intrometer, mas sabia o motivo real da briga. E ele não tinha nada a ver com isso.

— Que droga, vocês dois! — Hannah bateu a mão no sofá para dar efeito — Já chega! Se eu escutar mais um desses eu vou bater na cara de… — Orchard estalou os dedos na cara dela.

— Ei! Ei! O espirito de Natar! Nada di brigá, qui o Papai Noer num trais presente pras criança má!

Annabeth finalmente perdeu o pouco do controle da razão dela que restava.

— Não tem Papai Noel! — explodiu na cara do garotinho ruivo — Ele foi só a imagem de um santo popularizada pela Coca Cola com roupas vermelhas pra aumentar as vendas, ele não traz presentes porque ele não existe!

Orchard arregalou os olhos, abismado.

— Você… mas… — os lábios dele começaram a tremer, e ele abriu o berreiro. Annabeth se arrependeu de ter gritado com ele, afinal nada é pior que choro de criança as onze da noite.

— Ah, Orchinho, desculpa! A Titia Annie não queria gritar com você!

Percy franziu a testa.

— Orchinho?

— É, daqui a pouco perde a namorada e não sabe por quê — comentou Rachel, mexendo nas unhas.

— O garoto está quase se esgoelando de chorar e você está olhando as unhas?!

— É claro, Hannita — ela olhou fixamente pro Muke com aquele olhar de sedução 43 — Nunca se sabe quando você vai arranhar alguém.

— Ah meu Deus O-O

Enquanto isso…

— Calma, Orchinho, escuta a Annie! Foi sem querer! — tentativa fracassada. O barulho irritante de criança birrenta ainda era 'escutável' — Hm, tia Annie vai contar uma história pra você!

Ele fungou.

— Di Natar?

— Claro! De Natal! Ahn… é… ERA UMA VEZ UMA RENA DO NARIZ VERMELHO.

— O quê? Não — Percy fez uma careta — Rudolph de novo, não. Conta a vez da patinação — ele se virou pro Orchard, que até observava a conversa, curioso — Natal passado eu fui ensinar a Annie a patinar num lago congelado perto da casa dela. Depois de uns dez tombos, ela até que pegou o jeito.

— Aw, que romântico — disse Hannah, com os olhos brilhando.

— É, nem tanto — Annie resmungou — O lago não estava tão congelado quanto o senhor filho do deus da água disse que estava — insira olhar significativo para o Percy aqui — Eu estava lá, patinando feito uma profissional, com os cabelos ao vento, quando escuto um barulho de gelo se quebrando. Ai o Cabeça de Alga me grita ‘não olhe agora, Annie, mas acho que o gelo tá partindo’ — ela faz uma careta — Foi só piscar que caí de cara na água.

— E eu, como um bom namorado que sou, só ri da cara dela. Afinal, me certifiquei que meu pedaço de gelo continuaria congelado.

Rachel olhou pra Annie.

— Olha, se fosse eu, matava.

— Ah, mas eu tive meu troco — ela sorriu maliciosamente — Foi só puxá-lo pelos patins.

— Ficamos os dois congelados — Percy sorriu de modo divertido — Mas ao menos, foi o segundo melhor beijo sub aquático de todos os tempo, né?

— É, tipo isso — Annabeth ficou vermelha — Valeu pelas semanas na enfermaria do Acampamento, com resfriados e tomando sopa em todas as refeições.

— E não fazendo nada, absolutamente nada o dia todo e… ok, talvez não tenha valido tanto assim — ela deu um tapa no namorado — Ai! Tô brincando, caramba.

— Ah, eu me lembro de quando vocês chegaram resfriados — disse Rachel — Foi uma semana depois do Natal no Acampamento.

Hannah franziu a testa.

— Vocês comemoraram?

— Não é bem uma comemoração — disse Nico — Eu estava lá também.

Percy pareceu estupefato.

— Você passa o Natal no Acampamento?

— É… as vezes. Tipo, eu tinha acabado de fazer uma viagem das sombras, e acabei trombando na Rach.

O Oráculo apontou acusadoramente para ele.

— Trombando uma ova, você quase me derrubou! Esse método de transporte de Hades é muito pouco seguro, só acho.

— Não é minha culpa se você estava na sombra única sombra que tinha num raio de um quilômetro! E aquele seu hematoma nem ficou tempo demais.

— Não ficou, seu nariz! Saiba que minha testa nunca mais foi a mesma — reclamou, indignada — Mas continuando, eu perguntei porque ele estava lá, afinal todos sabem que o Nico é um ser super sociável que adora ficar no meio dos pentelhos do Acampamento. Ai ele respondeu ‘gosto de ficar sozinho, mas Natal nas trevas é demais até pra mim’.

— Uau Nicolau, realmente, você consegue ser menos sociável que eu. Parabéns — disse Hannah, colocando os pés no sofá e apoiando o queixo nos joelhos.

— É, eu sou tão extrovertido que deveria der filho de Afrodite — ele foi o único que não riu da própria piada — Mas aí Rachel disse que os pais dela tinham viajado, e como não queria passar mais tempo do que o necessário na escola de moças de sei lá das quanta, falsificou assinatura do pai pra sair no feriado de Natal.

Dare fez uma careta.

— Acredite, aquele lugar consegue ser pior que as suas trevas.

— Será? — Nico semicerrou os olhos — Mortos, cemitérios, cadáveres…

— Vestidos floridos, decorar a ordem dos dez talheres de jantas, AULAS DE CROCHÊ.

— O dela é pior até pra mim que sou filha de Atena.

Orchard se levantou, de repente.

— Agora, ieu vô contá o meu Natar! Nois tava cozinhando os nabo, pra ceia — a voz dele mudou, ficando um pouco mais grave — cuando mi madre apareció con mi perro Juanes que por poco no murió y meu tio Joãozin disse que os pato tava tudo fugindo dos cercado.

O queixo do filho de Poseidon caiu.

— Com licença..?

— A maldição, Cabeça de Alga. A maldição — disse Annie, suspirando.

Hannah estreitou os olhos.

— Juanes é um cantor de música latina. Muito feio, por sinal. Porque alguem daria o nome do cachorro de Juanes?

Por fim, foi algo entre caçada de patos usando nabos como arma e Juanes passando mal por ter comido balão de festa. Ou caçada de cantores latinos enquanto os patos comiam balão de festa. Sei lá.

— Bem, pelo visto é nossa hora de compartilhar nosso Natal — disse Muke, cutucando Hannah — O do visco.

— Espere ai — Nico parecia ressabiado — Visco não é aquela planta que quando duas pessoas estão embaixo, elas devem se beijar?

— Tipo isso — a filha de Zeus deu de ombros — Foi o seguinte, a gente tava meio que de castigo no dia. A inspetora não deixou a gente ficar pra entrega dos presentes porque tínhamos sido ‘crianças más’ — ela fez as aspas com as mãos — Só porque eles acharam nossa escolha de música de Natal pra apresentação de fim de ano na prefeitura inapropriada. O que foi completamente injusto.

Annabeth tinha medo de perguntar, mas não resistiu.

— E qual música seria?

Yule Shoot Your Eye Out. ‘Natal arranca seu olho fora’. A letra é basicamente ‘não volte para casa no Natal, sua vadia, ao invés disso se enterre viva e me faça feliz’.

— Letra profunda. Acho que vou dedicar a você ano que vem — disse Nico, e Hannah o encarou indignada.

— O que disse?

— Nada. Continue.

Ela o fuzilou com os olhos, mas voltou à história.

— Nosso ‘castigo’ foi ficar no jardim, num frio glacial, enquanto todo mundo ganhava chocolate do centro comunitário.

— Ai a Punk ficou cantando a música e xingando a diretora de uns nomes bem criativos debaixo da janela da entrada.

— E ela tacou um sapato em mim.

— E a Hannah jogou o salto dela num lago — disse Muke, como se isso fosse normal.

— Você jogou o sapato da mulher no lago? Qual o seu problema?

Han mostrou a língua pra Percy.

— Era legítima defesa, tá? Aquele salto agulha quase furou meu olho. E quando ela viu que isso não me calaria, fechou a janela e a neve acumulada em cima dela caiu na nossa cara.

— Infelizmente, eu estava por perto — explicou o filho de Apolo.

Annabeth roubou uma batata do prato de Percy.

— É, acho que não fomos os únicos a pegar um resfriado.

— Não mesmo. Fiquei espirrando por semanas — Muke torceu o nariz — E a bicho do mato da Punk nem quis trocar calor corporal, pra se esquentar. Ela deu um tapa na minha cara.

— É lógico que dei! Eu não gosto de abraços! — ela se lembrou do incidente do velhinho, e do porque de ele bater em sua cabeça com a bengala — Tipo, depende. Mas na maioria das vezes, eu detesto.

Rachel revirou os olhos.

— Perdeu uma grande oportunidade.

— Exatamente, minha ruiva — Muke piscou pra Rach, que quase derrubou a água do seu copo que segurava na cabeça do Orchard.

— Ara sô, ieu já lavei meus cabelo hoje, vira esse trem* pra lá.

— Tá, mas o que o visco tem a ver com isso tudo? — perguntou Annie, curiosa. Teria Han ficado com Muke? Será que, quando descobrisse, Nico ia dar um soco na cara dele? ‘Hannico’ finalmente seria assumido ao mundo?

Sexta feira, no Globo Repórter.

— Bom, depois que eu dei um tapa no Muke, nós ficamos sentados numa pedra conversando — continuou calmamente Hannah. Era impressionante o quanto a história deles ganhava de lavada em bizarrice — Só que ele inventou uma história fajuta que tinha o direito de ganhar alguma coisa de presente já que eu, na minha pobreza, não tinha dado nem feliz Natal.

— Era justo — comenta o garoto conhecido como Raio de Sol.

— Era, sei. Justo foi você dizer 'não é nada que você tá pensado Punk, só quero que olhe pra cima', né? Quando eu olhei, ele tava segurando um visco em cima de mim.

— E ela ficou puta — disse Muke, nem um pouco arrependido, e Annabeth revirou os olhos.

— Com razão.

— Exatamente. Só que eu vi que a gente tava do lado da lagoa que eu tinha tacado o sapato da mulher, e reparei num negócio se mexendo nos arbustos.

— Um negócio mexendo? — Percy franziu a testa — Era uma pessoa?

Hannah deu um gole na Coca antes de responder.

— Não, não. Era um sapo.

— ECA! — Rachel fez uma careta — Você pegou num sapo?! QUE NOJO.

— Ela não só pegou, como colocou o bicho no meio e eu beijei foi ele. E depois ela ainda me bateu — Muke semicerrou os olhos — Num lugar não legal.

— Bem feito — Nico riu da cara dele.

— Não se intrometa, Pla—

— Me chame disso mais uma vez — ele disse, com a voz ríspida — E você visita meu pai mais cedo.

— Como quiser, Defunto.

Annabeth revirou os olhos. Será que quando ela e Rachel gostavam do Percy, elas eram competitivas assim?

Não. Claro que não.

— Mas aqui, Punk, você não seguiu as regras do visco — Muke passou o braço nos ombros de Hannah —, e quebrar a tradição dá um azar danado. Então se eu fosse você, começaria a seguir.

Ela o fitou, ressabiada. O que isso queria… Ah, espere. Ela olhou pra cima. Visco.

?

— Meu São João de Santo Cristo, desde quando essa porcaria está ai em cima?!

— Isso não importa! Você está embaixo dele, é o que é realmente importante.

Rachel arquejou. Ela que deveria estar embaixo daquele negócio.

O que se seguiu foi uma cena digna de Vídeo Cassetadas. Rach deu um pulo, empurrando a Hannah do sofá e praticamente caindo no colo do Muke. Só que o impacto fez o visco cair da mão dele. Orchard escorregou na planta, jogando ela pra cima e empurrando a Hannah que empurrou o Nico que empurrou a Rachel de cima do Muke.

Percy colocou os pés em cima do sofá. Não queria correr o risco de cair embaixo da planta com alguém.

— OUSH OIA QUE QUI OCÊS FIZERAM, SEUS FAROFERO! — Orchard chorava o leite derramado com um alface caído no chão. Deméter teria orgulho.

Annabeth procurou o visco pela sala. Será que caiu pela janela? Ela esperava que sim, finalmente acabaria com a bagunça desses maloqueiros.

— Ai, meus deuses.

Pois bem. Nesse boliche humano, Muke caiu batendo suas costas contra as de Nico. Eles estavam no meio da sala, com metade da planta infernal na cabeça de cada um.

— NÃOOOOO — é, não foi hoje que Rachel conseguiu beijar o Muke.

— Agora, você vai ter que escolher um deles — disse Annabeth — É a decisão mais sensata, a não ser que queira beijar os dois.

Hannah xingou mentalmente.

— Volta pro playground, Playboy, porque eu já sei quem vai sair ganhando hoje — Muke fez a típica expressão de vitória que era vista em seu rosto noventa por cento das vezes.

— Fala sério, não é possível que ela vá beijar você — Nico revirou os olhos, e por cinco segundos a lerdeza do Percy sumiu, dando lugar a um sorriso malicioso.

— Quer dizer que você quer que ela escolha você?

— Não! Digo… ah, cale a boca Percy! — ele ficou vermelho, e Annabeth suspirou. Ela já tinha acabado de comer, e estava ficando curiosa pra saber logo onde diabo aquele Natal daria.

— Fala logo, Hannah! — insistiu ela — Não seguir o visco dá azar, pensa bem.

— Err.. — ela mexeu no cabelo — tenho mesmo que fazer isso?

— Tem — respondeu a filha de Atena, sem piscar. Afrodite ficaria orgulhosa.

— Você me paga, Annie — Han suspirou — Mas tá, que seja. Eu, hm.. escolho..

— O Nico? — perguntou Rach, na expectativa.

— Não — ela respondeu, rápido demais.

Nico fez uma expressão ofendida.

— Não?

— Quero dizer, não, tipo… ah, desgraça!

— Você vai escolher o Muke?!

— Não!

— Não? — disse Muke, encabulado.

— Não.

— Não? — Rachel parecia chocada. Como assim?

— Não! Ai meu Deus, vocês estão confundindo minha cabeça!

— Então responde logo, droga! — Nico já estava sem paciência (o que não é raro).

Uma luz se acende na cabeça da filha de Zeus.

— Olha, acabei de pensar numa coisa. Se a regra é beijar quem está debaixo do visco.. — ela os puxou pela golas das camisas — Vocês dois são quem têm que se beijar.

— Quê?! — disseram os dois, atônitos, ao mesmo tempo.

O queixo de Annabeth caiu. Ela tava zoando, não tava?

— QUE CHICA LOCA, ELLOS SON HOMBRES, HOMBRES!

— Não me importa, Orchard — Hannah se sentou no sofá, calmamente — Eles estão embaixo do visco, não? Então, não tenho nada a ver com isso.

— Eu não vou beijar o Solzinho — Nico olhou com nojo pro Muke — Eu prefiro morrer a isso. Sério.

— Você é o filho do deus dos mortos — ela cruzou os braços — Morte não é um problema pra você.

— Mas pra mim, é! — disse Muke, indignado — Punk, eu não vou beijar um defunto!

— Primeiro de tudo, pare de chamar o Nico de defunto. Segundo, problema seu. Quem mandou ficarem embaixo do visco? — Hannah sorriu de modo maligno e saiu, fechando a porta atrás de si. Eles ainda puderam ouvir ela gritar do outro lado — E se ousarem não obedecer, eu castro os dois com faca de cozinha!

Percy fez uma careta de dor, embora não tivesse nada a ver com aquilo. Era uma ameaça bem ameaçadora a seres do sexo masculino.

— É di Angelo, o negócio tá feio pro seu lado — disse.

Rachel ficou desesperada. De jeito nenhum que o Nico ia beijar seu marido antes dela mesma (opa, a frase ficou estranha).

— Os dois se beijando, mas que absurdo! O Orchard tem razão, eles são homens! Héteros! Ou ao menos, quase!

Annabeth pigarreou.

— Olha, quando eu te peguei lendo aquela fanfic pornô do Harry e do Louis, você não parecia ver problema nenhum em homens se pegando — ela recebeu olhares enfurecidos de todos e encolheu os ombros — Só comentando.

Muke se levantou, exasperado.

— Qual o problema dela?! Cara, eu me recuso a fazer isso com minha masculinidade!

— Como se você tivesse alguma.

— Olha quem diz, Playboy.

— Olha, o cara que se olha no espelho a cada meia hora aqui é você, então…

A porta foi aberta com violência, e Hannah aparece furiosa com um facão de meio metro.

— Duvidaram de minhas palavras, seus capados?!

Poker face.

— Puta que pariu — Percy quase teve um infarto. Era uma faca bem afiada.

— Olha aqui, eu fui bem direta, e as regras são bem simples — ela cruzou os braços e quase degolou Orchard no processo — Quem fica debaixo do visco, deve dar um beijo bem ardente e cheio de pegação na outra pessoa. Beijo de verdade, nada de selinho de jardim de infância, seus futuros bois de fazenda.

— Bois? — Perseu piscou, confuso, e Annabeth pigarreou antes de dar a resposta.

— Bois são touros inférteis. Quando eles chegam à idade adulta, a maioria têm cortados seus..

— Entendemos, Annabeth — Rachel a interrompeu — Obrigada pela péssima imagem na minha cabeça.

— Voltando ao que interessa — diz Hannah, olhando fixamente para os amantes desafortunados — Tem gente aqui que tem trabalho a fazer.

Nico grunhe algo na língua de sua mãe, italiano, e se põe de pé irritado.

— Me obrigue, então! — ele fechou os punhos — Prefiro beijar Hera.

Hannah estreitou os olhos pra ele.

— Quer dizer que você vai contestar a tradição?

— Isso mesmo.

— Do mesmo jeito que eu contestei mandando o Muke se catar no último Natal por que, assim como eu, você está pouco se lixando pra essa besteira?

— Exatamente. Foda-se a planta.

— Tem certeza? — Hannah levanta uma das sobrancelhas — Mesmo com minha ameaça de se tornar um parente muito próximo dos bois?

— Absoluta — Nico a fuzila com os olhos — Nunca fui muito fã da ideia de ter pirralhos, mesmo.

Ela balança a cabeça, rindo, e joga a faca em cima do sofá.

— Ahhhh diabo, cuidado com esse troço! Eu que quase fui castrado, aqui! — Perseu chega pro lado, olhando de cara feia pra filha de Zeus. Mas ela estava muito ocupada para isso.

— Interessante seu ponto de vista, di Angelo — ela bateu o indicador no queixo — Se parece muito com o meu.

Han ficou na ponta dos pés e apoiou as mãos nos ombros do filho de Hades, que pareceu confuso por meio segundo. Mas ela já havia o beijado antes que ele pudesse perguntar.

Não foi um beijo de verdade, ela apenas encostou os lábios nos dele por um instante e logo se afastou. Mas já era um começo, não era?

As reações foram diferentes: Annabeth e Rachel se entreolharam, com um 'awww' uníssono; Percy sorriu ao se lembrar do dia que ele conheceu o primo, que na época tinha só dez anos e não era nem de longe o mesmo que era atualmente; e Orchard começou a cantar Noite Feliz.

E o Muke? Bem, ele jogou o visco pela janela.

— Cacete, de novo! — ele saiu batendo o pé, e quando passou pelo Orchard, colocou o indicador no nariz dele — ESSAS PLANTAS DA SUA MÃE NÃO SERVEM PRA BOSTA NENHUMA.

— ¿Mi madre? — Orchard piscou, confuso — ¿Qué hay mi madre?

Annabeth observou enquanto Hannah pôs as mãos na cintura, satisfeita.

— Bem, acho que isso foi um bom final de Natal — disse ela, cutucando Nico.

Ele assentiu, meio atordoado. O pobre coitado não se lembrava de ter beijado ela antes, no dia em que estava levemente alterado, então devia ser meio bizarro pra ele.

Rachel se levantou do sofá.

— Muto bem, ninguém beijou meu marido. Estou feliz com isso, mas agora vou lá rezar pra Tique e testar minha sorte — ela andou em direção aonde Muke andara.

— Você não vai desistir, vai? — Percy suspirou.

— Claro que não! Afinal, hoje é Natal! — ela gritou do corredor.

Orchard saiu dando pulinhos pela sala.

— Ara, agora ocêis tudo já tão arcreditado no Natar!

Annabeth ponderou por um tempo.

— É, mais ou menos. Não muito, devo dizer.

— Sei… — ele sorriu, com os dentes meio tortos, e foi cantando atrás de Rachel — NOITE FILIZ, NOITE FILIZ.

E apesar de tudo, talvez fosse mesmo.

***

Trem* — negócio, coisa ou troço, no sotaque meio muito caipira que é o mineiro, que aliás é o que uso pro Orchard já que é o meu mesmo. Antes que mais alguém me pergunte se era uma locomotiva caindo na cabeça dele.

Notas finais do capítulo
O que acharam? *u* aksjhfakjshakjsgh Ah, tenho que correr aqui, mas tenho que avisar que viajo amanha, então não sei quando sai o próximo D: Volto dia sete de janeiro, vou tentar escrever lá também... Farei de tudo! Feliz Natal e Ano Novo, cambada! :D




(Cap. 25) Deuses, alguém jogue essa mina numa caçamba

Notas do capítulo
ANTES QUE TODO MUNDO TAQUE EM FOGO EM MIM, EU POSSO EXPLICAR OH GOD.Tipo....... Eu tentei. Juro que, nesses seis meses, eu tentei. Teve umas seis versões desse capítulo. E sempre eu apagava e refazia, apagava e refazia.. E agora eu entrei no Ensino Médio, então as coisas ficaram puxadas na escola D: Ok, lógico que conta um pouco de falta de responsabilidade, mas POR FAVOOOOOR, me perdoem, e não pensem que desisti da fic que isso nunca akjsfhaskjhf mesmo que você se case e tenha filhos e netos e bisnetos, pode saber que nos seus ultimos minutos vai aparecer lá 'Marih di Angelo atualizou a Deusa Perdida'. Omg não credo vamos deixar esses seis meses como recorde a não ser batido mesmo HUEHEUHE ok, iremos ao que interessa :3 vejo vocês nas notas finais, Cupcakes!

25. Deuses, alguém jogue essa mina numa caçamba

Pequena retrospectiva porque a autora é uma bitch irresponsável que levou seis meses pra atualizar a fic:

Nico andando feliz por Los Angeles, quando acha uma semideusa. Eles vão pro acampamento, blá blá blá, descobrem que essa semideusa na verdade é uma deusa perdida da música e das nuvens e que alguém chutou a bunda dela pra fora do Olimpo. Ela, o filho de Hades LIMDO, o Percy lerdo, a Annie e a Rachel vão atrás do símbolo divino dessa mesma deusa doida, que por acaso se chama Hannah. No meio do caminho, Apolo dá uns presentes divos, tipo um trailer super discreto que parece de turnê do Restart, e uma lanterninha da Avenida Vinte e Cinco de Março que magicamente se transfoma em coisinhas musicais. Seguindo, acham um peguete antigo da Han (mentira, que ela detesta ele com todas as forças), que por sinal é um filho desse mesmo deus das lanterninhas do comércio paulista, e esse garoto é um vagabundo safado irritantemente gostoso. Carregam o pedaço do mal caminho junto porque a Rachel merece ter a vista linda do tanquinho dele na viagem, depois dão de cara com um semideus caipira que toca banjo, carregam ele junto porque banjo é uma das paixões da Hannah, o Muke dá um jeito de deixar o Nico completamente bêbado, mas para sua infelicidade isso ajudou o Penadinho que pega a Hannah afinal é isso que adolescentes fazem, depois vão todos pra uma cidade com nome de biscoito na costa oeste dos EUA atrás de um pedaço da Clave da Felicidade Divina, o Orchard vira metade espanhol, tem uma comemoração de Natal porque sim, espírito natalino é o que há, e a Hannah e o Nico se beijam porque se fosse o Muke as Hannico shippers iam lá queimar ele vivo pra fazer sacrifício pra Apolo. E chegamos ao capítulo de hoje, que demorou mas chegou. AKSJHF.

Point of View – Annabeth, porque a Annie é diva e merece um pov. Nada de reclamar falando que queria de outra pessoa, quem contestar leva um tapa do Muke u_u só avisando.

— Eu não acredito que estão me obrigando a fazer isso — Nico resmungou, de braços cruzados. Ele não parecia muito feliz. Como sempre.

— Não se preocupe, di Angelo. Você não é a única presa do jogo do pesadelo ruivo — Percy suspirou, enquanto se recostava na soleira da porta.

De manhã, estávamos nós sete felizes sem fazer nada, enquanto seguíamos em direção de alguma cidade ao norte dos Estados Unidos. Mas (porque sempre há um 'mas', histórias sem 'mas' não são histórias de verdade), nossa amiga Rachel Elizabeth Dare teve uma ideia brilhante e insistiu que deveria haver uma convivência pacifica entre os moradores do trailer Restart, e o melhor jeito de fazermos isso era nos conhecendo melhor.

E como ela espera conhecer as pessoas melhor? Com perguntas? Conversas normais? Nah, lógico que não. Isso é coisa de gente velha. A Rachel é diva. Ela é absoluta, que nem a Stefhany. Portanto, ela inova.

Verdade ou consequência.

..


Não, sério, para. O quê?

Eu tinha minhas breves suspeitas que isso tudo era uma armação pra assumir Hannico e, finalmente, dar uns pegas no Muke. Afinal, desde o incidente do visco do Natal ela vem tentando mostrar pro filho de Apolo que a Han ta em outra, e que ele deveria partir para a próxima. Pelo visto, o trem mais próximo da estação vai para Oráculo (ok, minhas metáforas não são tão boas quanto eu achava).

— Parem com o drama, pessoal — falei — O pior ainda nem chegou. E nem a pipoca, pelo visto — olhei a volta. Hannah tinha ido achar pipoca pra nós (porque se nós somos obrigados a jogar essa porcaria, que ao menos tenha pipoca), mas já fazia alguns minutos. Fiquei encarando a lanterna que fora presente de Apolo, aquela que se transformava em qualquer instrumento possível. Foi ideia minha usar ela como garrafa (uma de verdade, de vidro, seria perigosa demais. Eu via o momento que alguém ia acertar a cabeça de outro com ela). Será que demora demais pra fazer pipoca? Tipo, nós não temos dessas coisas no Acampamento, graças a Quíron. Fazia éons que eu não comia. Se a Hannah pudesse ser menos lerda, eu agradeceria.

Só porque falei, ela apareceu com um balde do tamanho mundo. Juro, acho que caberia minha cabeça e a do Cabeça de Alga lá dentro.

— O que eu perdi de bom? — perguntou, se sentando e rodando a vasilha.

— Nada, basicamente. A gente só estava te esperando — respondeu Rachel, se inclinando pra frente sobre os joelhos para encher a mão. Mas percebi que ao se sentar ela foi mais para a direita. E sabe quem estava a direita dela? O peguete imaginário dela, claro.

Entendo seus motivos, Dare.

— Temos que jurar pelo Rio Estige que iremos falar a verdade e cumprir as consequências — disse ela, de boca cheia. Sim, esse era o 'pior' que eu citei a algumas muitas frases atrás. Esse juramento maldito que te impede de mentir, aff — A não ser o Orchard, ele é carta branca. Só pergunta.

Todos murmuraram o juramento, ainda que revirando os olhos. Um trovão estrondoso soou. Zeus fabulosa (a Hannah que me perdoe).

— Bem, está feito — disse Rach, indo girar a lanterna — Eu começo.

Orchard x Percy

— Consequência — disse Cabeça de Alga, certamente tendo o mesmo pensamento que eu: um garoto de nove anos não seria capaz de criar um desafio ruim. E de fato. Orchard apontou para um vaso com uma planta que filhos de Deméter certamente saberiam o nome.

— Pérci, quero qui ocê beije arqela pranta — Nico e Hannah se entreolharam e começaram a rachar de rir. Muke encarava Orchard com uma expressão de 'garoto, volte para o hospício de onde você saiu'. Pela primeira vez na vida, eu concordo com o Muke.

— Orchard, que tipo de desafio é esse? — perguntei.

— Ara sô, é meu disarfio. Anda Pérci, beije arquela pranta u.u

— Mas mas, é um junípero, não posso fazer isso com o Grover! — Cabeça de Alga fingiu espanto — Sabe, meu amigo é um sátiro e a namorada dele é uma ninfa, então eu estaria traindo os dois — ele balançou a cabeça negativamente — Não posso.

— Ah, Percí!

— Não, não posso.

— Percí.

— Não!

— Aff, então beije logo a Annabeth e para de enrolar a gente! — disse Muke, impaciente. Orchard se levantou, afobado.

— NONONO, A FROR DOS CAMPO, NÃO!

— A flor de quê? — movi o olhar franzido lentamente em direção ao O.

— Ela é o pomar das minha fazenda, num pode! — vou tomar isso como um elogio, caham. Percy me abraçou de modo possessivo.

— Não, não, ela é o pomar da minha fazenda! Onde já se viu, perder minha Sabidinha pra um caipira mexicano. E não é justo, você é ruivo. Ruivos sempre ganham.

— É verdade. O fato de ruivos terem uma mutação nos genes que os deixam, bem, ruivos, me deixa loucamente atraída por eles. Além do mais, só dois por cento da população mundial tem cabelo ruivo. É VIP. Sexy demais — falei, séria, de forma que a lerdeza do Percy quase acreditou — Ai meus deuses, como é lerdo — rindo, o puxei pela camisa e o beijei. Acho que nunca mais vou ganhar goiaba do além do Orchard.

Depois de alguns segundos (ok, muitos segundos), Nico nos interrompeu, batendo na cabeça do Percy com o cano da lanterna.

— Ei, mantenham suas línguas dentro de suas bocas — ele fez uma cara maliciosa. Enrubesci, mas reparei, que Cabeça de Alga continuou com um braço em volta de meus ombros.

— Estraga prazeres — Percy fez um gesto obsceno para o di Angelo, que revirou os olhos e revidou com o mesmo gesto. Amor de primo é lindo, não?

— Não, para tudo! — disse Rachel, pasma — Que história é esses de mutação num-sei-o-que-mais de ruivos?? Eu não sou mutante coisa nenhuma! Absurdo!

— Na verdade, é sim — pigarreei — Você e o Orchard são ruivos porque em algum momento da história seus antepassados tiveram uma mutação no décimo sexto cromossomo, e..

— Nossa, isso realmente é muitíssimo interessante Annie! Pena que os não-ruivos não estão tão interessados assim — disse Hannah, girando a 'garrafa' — Vamos continuar essa joça.

Suspirei. É difícil ser inteligente ao redor desse bando de bestas, aiai.

Nico x Rachel

— Verdade — respondeu ela, assim que a ponta se voltou em sua direção. Penadinho (sim, esse apelido pega) apoiou o queixo na mão, pensativo.

— Senhorita Elizabeth Dare. É verdade que, por você ser o Oráculo, é proibida de namorar? — perguntou, com um sorriso divertido.

— Uii, a coisa vai ficar feia — Hannah levantou as sobrancelhas, olhando para Muke e depois para Rach.

— Mas que absurdo! — Rachel ficou vermelha em segundos — Nico di Angelo, essa sua pergunta é o cúmulo dos cúmulos!

Trovões. O juramento de Estige não estava muito feliz com Rachel contestando a pergunta.

— 'Cumulus' é um tipo de nuvem — pensei alto. Todos me encararam.

— Que foi? É verdade — apontei acusatoriamente para Hannah — Como deusa das nuvens, você deveria saber!

— Opa, calma aí Annie! Eu nem sou uma deusa completa. Não vou ser presa por isso, vou?

— OH SEUS BADERNERO, ocês tão se distraino da pregunta da Rácher.

— Obrigada por lembrar, Chico Bento — Rachel fuzilou Orchard com os olhos, suspirando logo depois — Infelizmente, eu sei sim. Sou impedida de namorar, segundo as leis de Apolo. Mas não há nada no mundo como o bom e velho amor proibido.

Ela sorriu maliciosamente para Muke, que estava muito concentrado em brigar com Nico para perceber.


Annabeth x Muke

Ah, obrigada deuses, por me colocarem justo com o Muke. Que tipo de desafio dar a esse garoto? A Hannah disse que ele já fez um quase strip no meio da Hollywood Boulevard, que pelo visto é uma das mais famosas de Los Angeles. NADA que eu disser, não importa sobre o que seja, vai ser novidade pra ele.

Bênção de Tique às vezes faz falta, hein?

— Verdade ou consequência, Bulustrucado de Hollywood? — perguntei. Ele passou a mão pelo cabelo loiro-escuro, deixando-o ainda mais despenteado. Tamborilou os dedos no queixo, e DEUSES, como ele ficava atraente fazendo isso. Não que seja da minha conta.

— Pode ser verdade, Einstein.

Ok. Agora eis a questão: o que perguntar. "Por que você não deixa o casalzinho lindo que é Hannico em paz e vai pegar a Rachel?". Não, antes dele responder o Nico já ia me levar pro Hades. "Afrodite te abençoou ou isso tudo é de Apolo mesmo?". Só se eu quiser um pé na bunda do Percy.

— E então, Annie. Pergunte — a voz da Rachel me tirou dos devaneios. Verdade ou consequência. Pergunta. Ah, sim.

— Amm... Eu sinceramente não tenho ideia do que perguntar — olhei para o povo — Alguém tem alguma sugestão?

— Ei! — Muke protestou — Não é justo!

— Lógico que é! Não teve nenhum trovão, oras — disse Nico.

— Exatamente — a cria de Apolo me fuzilou com os olhos, mas eu não me deixei incomodar. Sou uma bad bitch, eu sei — Então... Perguntas?

Hannah engoliu um punhado de pipoca antes de me responder.

— Pergunta porque ele foi embora. De Los Angeles, sabe.

— Ok. Responda a pergunta dela, Solzinho.

— Não posso. A pergunta tem que vir de você, Annabeth.

— É, minha pergunta é essa — bufei. Que garoto irritante, meus deuses! — Responda!

— Não posso.

— Responda! — disse Percy, irritado.

— Caramba, gente, é contra as regras do Verdade ou Consequência. Ou outra pergunta, ou nada.

— Não continuaremos até você responder, meu filho — Han cruzou os braços. Rachel bateu no chão, irritada — CHEGA. ELE FOI EMBORA PORQUE SIM. AGORA RODA ESSE NEGÓGIO LOGO — ela nos encarou, bufando. Algo me dizia que ela ia dar uma espécie de Pra Matar na primeira alma viva que discordasse.

Ok, acho que Estige não vai ficar muito decepcionada se nós pularmos só esse.


Muke x Hannah

— Então, Punk... Mas que coincidência cair com você. Verdade ou consequência? — Muke ficou brincando com a lanterna, como quem não quer nada, ignorando a ruiva babando do seu lado.

— Nem precisa perguntar — falou Percy, revirando os olhos — Qual a probabilidade de alguém escolher você, de todas as pessoas, pra dizer um desafio? Nenhuma. Qualquer pessoa em sã consciência saberia que é até perigoso--

— Consequência.

Percy engasgou com a própria saliva, de forma que tive que dar um tapão nas suas costas para ele voltar a respirar normalmente.

— Dios mío, qué chica valiente! — Antonio Banderas Orchard parecia chocado, dizendo coisas incompreensíveis em espanhol.

— Você escolheu consequência?! — soltei, indignada — Qual o seu problema? Você não vê o perigo que é, isso! Ele pode pedir qualquer coisa!

— É... Pode. Mas acho que ele não ousaria. Acredite, os Pra Matar estão sempre disponíveis – disse Hannah, crente de que isso realmente bastaria.

— Ok, talvez você tenha razão. Não vou correr o risco de ter todos os ossos quebrados mais tarde — Muke coçou o queixo com os nós dos dedos — Então, quero que você beije o cara aqui presente mais, como colocar.. Atraente? Gato? Gostoso? Tanto faz. Acho que você entendeu. Bem, só isso — ele sorriu maliciosamente — É o meu desafio.

— NOOOO — Rachel puxou os cachos ruivos em desespero. Coitada, ela é azarada mesmo.

Mordi o lábio, pensativa. Tenho que admitir, o Muke não é tão tapado assim. Tipo, AH, ele conseguiu. Porque, que o que for dito aqui não seja espalhado, mas se fosse comigo, ele ganharia com certeza. Não me entendam mal, eu amo o Cabeça de Alga e sou completamente fiel a ele, mas aquele cabelo loiro bagunçado e aquele jeito de vagabundo safado faz qualquer garota pirar, ay papi.

*só comentando que se alguém contar isso ao Percy, eu (: enfio (: a (: adaga (: nos (: olhos (:*

— Você não ousaria! – soltou Hannah, junto com uns palavrões bem criativos.

— Ah, ousaria sim — ele se apoiou na parede, satisfeito consigo mesmo, ignorando os xingos — E nem tente contestar a magia de Estige. Você sabe que dá merda.

NÃOOO, O NICO JÁ ESTÁ COM CARA DE QUEM VAI PULAR DE CARA DO ASFALTO, EU NÃO ACREDITO QUE O SOLZINHO VAI ACABAR COM MEU OTP, MUKE SEU PUTO PARE COM ISSO QUE HANNICO É VIDA. NEM TE ACHO GATO MAIS, SUA BULUSTRUCAÇÃO SUPERA SUA BELEZA.

Pronto, estou calma. Não foi um comportamento digno de uma filha de Atena. Desculpe.

Sinceramente, eu sabia que em algum momento isso ia acontecer. Só que eu achava que seria a Rachel que tiraria o Muke, e mandaria ele a beijar. Admita, é bem a cara dela. Mas, tipo, o Muke acabar com meu OTP? SÓ POR CIMA DO MEU CADÁVER (mentira, que se eu contestar Estige vem pra cima de mim. Boa sorte ai Han, eu fico só lamentando nos bastidores).

— MUDA O DESAFIO, PELO AMOR DE DEUS — Rachel já tinha arrancado metade dos seus fios de cabelo, agoniada. Muke fingiu estar pensativo por alguns momentos, batendo o indicador no queixo.

— Hm.. Boa oferta, mas não. Estou bem assim.

Prendi a respiração. Omg. É o fim. Adeus, Hannico shippers. Foi bom fangirliar com vocês *choro*. Han tinha uma cara de quem ia explodir naquele exato momento, completamente vermelha. Ela não queria ceder. Mas ela tinha. Estige é Estige, quem não cumpre paga. AH, QUE ÓDIOOO. Da próxima vez que eu ver Estige na rua, dou um soco na cara dela (?).

Ai, caramba, ela vai beijar o Muke. Não, eu não quero ver isso. Sinceramente. A cena seria bizarra demais pra mim. Se bem que eu tenho que ver, sabe, porque caso o Nico bata no Muke eu tenho que intervir. Não, seria dolorosa demais essa cena. Ver seu OTP se acabar assim é de cortar o coração, não vou olhar. Se bem que minha curiosidade mórbida é demais, eu tenho que.. Não, calma, ela virou pra direita. O Muke está a esquerda. Oi? Com licença. É o lado errado. Não estou entendendo, e eu não gosto de não entender as coisas. Me faça entender as coisas. Eunecessito entender as coisas.

Muke franziu as sombrancelhas, sem entender (viu, não sou a única).

— Ei, Punk. O que dia..

— Seguindo seu desafio, Playboy — ela mostrou a língua pra ele, e agarrou o Nico pela camisa. A cara dele quando foi beijado era de ‘não, pera, o quê?’.

LAÇ~JKHASFKJHASJHGJHBSKJAKNAKSJGKJ HANNICO’S NOT DEAD BITCH. Ai, que orgulho!

— TOOOOOMA DISTRAÍDO. ELA ACHA O NICO MAIS GOSTOSO QUE VOCÊ KAKAKA — Percy começou a rir da cara de pastel (?) do filho de Apolo. Rachel suspirou, aliviada, sabendo que agora o caminho estaria livre para ela admirar a gostozura do Muke em paz.

— Ei, vocês dois, mantenham suas línguas dentro de suas bocas — falei, me lembrando do que Nico dissera enquanto Cabeça de Alga me beijava. Penadinho parou o beijo imediatamente e me fez uma careta, enquanto limpava a boca com as costas das mãos.

— Não vale usar minhas piadas.

— Vale sim – falei, cruzando os braços – Se a carapuça servir. E com vocês dois se pegando ai, acredite, serve.

— ‘Se pegar’ não seria o termo certo — Hannah revirou os olhos, tentando disfarçar a cara roxa — Isso vale apenas pra você e o Percy nas noites de sábado no chalé de Poseidon. No nosso caso, bem.. – ela riu, olhando na direção do filho de Apolo – seria puramente o ato de se fazer o que foi mandado.

Olhei de soslaio para Muke. Vish, a cara dele não é boa. Está bufando. Bravo. Muito bravo. De repente, fecha os punhos. Ah, não, de novo não.

Antes que pudéssemos impedir, ele se levanta e acerta Nico no rosto. Minha expresão se tornou horrorizada ao som de alguma coisa se quebrando. Tudo culpa da idéia de girico da Rachel.

Sempre a Rachel.

~~

Parte II: Point of View — Nico di Angelo

Cara, nunca quebre o nariz. Dói pra caralho.

Tá, foi mal, não foi um bom jeito de começar. Vou tentar de novo. Caham. Olá, aqui quem fala é o di Angelo. A minha tragédia meio que começou quando a gente estava jogando Verdade ou Consequência por causa da Rachel. Tava tudo indo bem, mas ai a Han me beijou, o retardado do Muke ficou puto, eu fiquei puto, nós ficamos putos, o Percy tentou apartar a briga, o Muke acabou batendo nele, o Percy ficou puto, a Rachel entrou no meio, a Annie e a Hannah também, ai ferrou com tudo. Pronto. Apresentações feitas. Voltando ao importante.

Nunca quebre o nariz. Essa porcaria dói pra caralho.

— Ai caramba, vai com calma — falei, olhando pra cima enquanto tentava amenizar a porcaria da dor do meu nariz despedaçado — Calma. CALMA PORRA.

Abaixei a cabeça de novo, dando de cara com uma Hannah de mão na cintura, irritada.

— Com licença, meu filho, mas se você continuar reclamando eu vou deixar você sangrando até a morte. Eu não filha de Apolo, se não percebeu. Estou fazendo meu melhor pra estancar esse negócio, só que é muito irritante fazer isso com uma pessoa falando no seu ouvido.

Revirei os olhos. Estava sentado na pia do banheiro, observando metade do meu sangue ir embora.

— Olha, eu tenho todo o direito de reclamar, afinal foi o filho da mãe do seu coleguinha que... Que... AH MEUS DEUSES Hannah, faz esse negocio parar de sangrar!

Nessa altura do campeonato, a ambrosia e o néctar já tinham feito um bom trabalho, de forma que se você olhasse pra minha cara já dava pra ver a forma de, sabe, um nariz. Não estava mais quebrado. É impressionante o que esse negócio faz. Mas como comida divina em excesso explode semideuses, eu estava naquela situação 'quase bom', mas não totalmente. O sangue e a dor (que como avisado lá em cima, dói pra caralho) continuavam.

E como.

— Eu estou tentando! Mas você tem que ficar com a cara levantada, seu debiloide — ela empurrou minha cabeça com força pra cima, quase quebrando meu pescoço. Que garota mais delicada, essa.

Olha, se a intenção da Rachel era manter todo mundo único e fazer um unidos venceremos do Restart, é mais que óbvio que o negocio não deu muito certo. A essa altura do campeonato estava todo mundo meio quebrado. Lógico que não havia ninguém nesse meu estado Voldemort de ser, mas... Ah, não, mentira. Também tinha o Percy, coitqdo, mas principalmente o Muke. A única coisa que me deixava menos irritado era que, se meu olho estava roxo e meu nariz quebrado, o Solzinho não estava muito melhor, não (Nota/Hades: ISSAÊ FILHO, CHUTA A BUNDA DELE).

Na verdade, as meninas tiveram que praticamente nos trancar em cômodos diferentes antes que algum torcesse o pescoço do outro. Por isso que eu estava trancado no banheiro com a Hannah agora, escutando a Rachel e a Annabeth brigarem por alguma coisa do outro lado da porta. Elas cuidavam do Muke e do Perseu, Han de mim. Só comentando, é irritante o quanto todo mundo faz questão que eu e a Han fiquemos sozinhos. O que são três beijos nos dias de hoje? Levando em conta o que outros adolescentes podem estar fazendo nesse exato momento, nada. Não é como se a gente tivesse se pegado, né. Lógico que eu não gostava da ideia dela com o Muke, mas é só porque ele é um vagabundo safado. O que estou fazendo não é nada além de protegendo uma amiga.

É. Só isso mesmo.

Eu estava encarando o teto, mas depois de cinco minutos irritantemente longos, resolvi tentar observar discretamente a Han dando uma de enfermeira. Até que ela não era tão ruim, tinha mãos ágeis. Sua testa estava franzida enquanto ela abria a torneira e lavava a toalha que a alguns minutos estava branca.

— Então.. — quebrei o silencio, certamente a tirando de devaneios — Como vai a vi.. Ah! Cuidado! — olha, só acho que alguém deveria ter mais cuidado ao colocar aquela porcaria de pano no meu rosto.

—Vai bem, muito obrigada — ela ignorou meu protesto — E a sua?

— Dolorida — resmunguei, com a voz abafada.

— Ah, claro — ela riu um pouco — Imagino. Dolorida, quebrada, sangrenta.

— Graças a você.

Senti ela segurar a toalha com mais força, me olhando de cara feia. Eu disse no sentido de que naquele exato momento ela estava tornando minha vida mais 'dolorida, quebrada, sangrenta', mas pelo visto ela pensou que eu falava sobre o incidente do jogo.

— Não acho que seja necessário discutirmos isso.

— Certo. Também acho.

— Ótimo.

Ótimo — suspirei. É triste quando ambos são cabeça dura.

Han mudou de assunto, perguntando sobre minha vida antes da busca. Como ela já sabia sobre a história até Bianca (ou ao menos parte da história. Não acho que seria necessário dizer que o pai dela, Zeus, quase me fritou com um raio a alguns muitos anos atrás), resolvi pular logo para depois de Percy chutar a bunda de Cronos de vola para o Tártaro. Sabe como é, a vida nem-tão monótona entre o chalé 13 e o palácio de Hades com a linda vista pros Campos de Asfódelos.

Por alguma razão, ela preferia muito mais saber do Acampamento do que do Mundo Inferior. Sempre que eu citava Cérebro, Melinoe ou meu pai, ela desviava o assunto. Ignorei, afinal entendo que não é todo mundo que aprecia acordar na casa do seu pai com os gritos agoniados dos Campos de Punição.

Acredite, almas torturadas podem ser um ótimo despertador.

— Ah, acho que finalmente parou. Graças a Deus, achei que você ia morrer de hemorragia. Agora só falta o esparadrapo — disse Hannah enquanto se ajoelhava e abria o armarinho em baixo da pia — Mas continue, o que aconteceu depois que vocês jogaram o filho de Hipnos no lago?

— Ele afundou. E não acordou — abaixei a cabeça, ficando tonto por alguns segundos, mas percebendo que realmente não havia mais sangue em meu rosto — O Percy teve que içar o Clóvis até a superfície antes que ele afogasse. A lição é, se você tentar acordar alguém com água, não jogue ela na água. Vai dar merda.

— Talvez eu devesse tentar com você, pra ver se é verdade.

— Ei, meu sono não é tão pesado assim!

— Não. Claro que não — ela disse com ironia, enquanto fazia o curativo. Cinco minutos depois, deu um passo para trás para contemplar as habilidades de enfermeira — Voilà! Terminamos. Aposto que você se sente novo em folha agora.

Passei a mão pelo rosto, me certificando de que realmente parecia que estava tudo em ordem mas uma vez. Uma pontada de dor quando encosto, mas nada que vá me matar.

— Nem tanto. É meio irritante respirar pela boca, sabe.

— Reclame da minha obra de arte e eu quebro seu nariz mais uma vez.

— Estou zoando com a sua cara — baguncei o cabelo dela, rindo — Obrigado, leggiadra.

Hannah abriu a boca num perfeito 'O', surpresa com a menção da misteriosa palavra italiana, mais uma vez.

— Não acredito! Ah, pois dessa vez você vai--

Há uma batida na porta:

Nico? Han? — escutamos a voz de Percy — Vocês, hm.. Estão bem aí? Espero não ter interrompido nada, sabe.. importante.

Xinguei o Jackson mentalmente. Dava para perceber que ele estava se esforçando para não rir. Abri a porta abruptamente, vendo que minha teoria dele segurando o riso era verdade.

— É, pela cara de vocês eu interrompi mesmo — ele disse, sorrindo com malícia. Escutei Hannah dizer uma palavra meio (muito) feia em grego, atrás de mim — Que coisa hein, essas crianças de hoje são rápidas demais — fiz um gesto obsceno, o que só o fez sorrir mais — Já que os pais de vocês não estão aqui, eu tenho que fingir que sou um, oras. Seus pirralhos safados.

— Diz logo o que você quer, Jackson — grunhi.

— Ah, o amor. Deixa uma cria de Hades mais irritada que no normal, é. Mas enfim. Vocês dois, pra fora. Andem logo, é hora dos pirralhos irem dormir. E nem pensem em se 'distraírem' antes disso, por favor.

Grunhi, tentando (sem muito sucesso) manter a calma, sabendo que quanto mais eu reclamasse mais ele nos irritaria. Virei de costas e comecei a andar, mas Han me segurou pela camisa antes que eu desse dois passos.

— Ei, eu disse sem distrações, lembra? — Percy franziu as sobrancelhas. Ela enrubesceu, e o deu um soco no brqço. Espero sinceramente que tenha doído.

— Não tem nada a ver com isso, com licença! O fato é — ela se virou pra mim, semicerrando os olhos — não ache que eu não vá o obrigar a me dizer o que diabo ‘legginadra’ significa um dia, caubói.

— Não é ‘legginadra’, é l-e-g-g-a-d-r-a, sem N nenhum. Mas tudo bem, vou esperar pacientemente você conseguir tirar essas palavras da minha boca — dei de ombros, e fiz um gesto para que ela fosse na minha frente. Ela foi, de cara feia mas foi.

Vi a expressão ressabiada de Percy (que ainda alisava o braço vermelho).

— Essa palavra. Legi-alguma coisa. É italiano?

— Aham.

— O quê que é?

— Pff, até parece que eu vou te falar, Cabeça de Alga.

— Ah. Então tá — ele piscou, atordoado.

Era divertido falar uma língua que ninguém mais entende. Pode ser muito útil, na verdade. Como por exemplo, a palavra bendita. Foi meio no impulso que eu criei o apelido, sabe? Mas pegou. Leggiadra significa graciosa. Porque mesmo sendo irritante e impulsiva, a Han até que era um pouco. Não que ela precise saber disso. Pelo amor dos deuses, ninguém precisa saber disso.

Vi com o canto do olho que Percy digitava alguma coisa no iPhone, no meio do corredor.

Ah, não.

Me dá esse celular agora! — voei pra cima dele, tentando pegar o telefone.

— Não antes de eu descobrir o que diabo é isso, di Angelo! — ele respondeu, confirmando minhas suspeitas de que o filho da mãe estava no Google Tradutor.

— Você só vai saber por cima do meu cadáver, Nemo!

Saímos rolando, o que foi meio complicado já que o espaço era estreito. Um pé na cara do Percy, e consegui pegar o maldito do negócio.

Pena que um pé na minha cara, e o celular escorregou da minha mão. É golpe baixo chutar a cara de um coitado que acabou (alias, nem acabar acabou) de se recuperar um nariz quebrado, não é?

— Aaah! Acho que quebrou de novo! — falei, apalpando meu rosto e me certificando que tudo estava no lugar. Ou quase.

— Deixa de frescura, homem. Virou o quê, o Muke? — ele disse, sem parar de rolar a tela do celular. Ótimo, mais uma batalha perdida. Hades ficaria muitíssimo orgulhoso.

Mas fala sério, esse puttano chutou minha cara! QUE TIPO DE PRIMO FAZ ISSO.

— Ah. Meus. Deuses. — ele olhou pra mim com os olhos arregalados. Ferrou-se. Ele achou — Como assim significa graciosa?

— Escuta aqui Percy, não tire conclusões precipitadas, que naquele dia, em Crockett..

— AH MEUS DEUSES ANNABETH O NICO TÁ APAIXONADO.

Suspirei, com a mão na testa. Lá vamos nós de novo. E tudo culpa de quem? Da Rachel, claro. Alguém, por favor, jogue essa garota na estrada.

Notas finais do capítulo
Sinceramente, eu não gostei muito desse capítulo, achei ele meio desnecessário na história D:Mas as Hannicas certamente gostaram AKJSHFAKJSH ou não, sei lá. Pode acontecer uai ._.Bem, é que eu me senti muito irresponsável, então postei esse e estou trabalhando no próximo! YAAAAAAAAY! Vai ter emoção, a vida de aventura vai voltar porque não é só de festa e amor que se vive hun u.u'Mas caaaaso eu demore de novo (REZEMOS AOS DEUSES QUE NÃO ACONTEÇA), não se sintam tímidas, podem mandar review ou M.P (senhorita Ramona Aflame, sinta-se amada HUEHUEHEU) me cobrando, ou sei lá, até ask nos meus tumblr mydamnlittleworld ou demigods-things. Realmente me ajuda quando vocês fazem valer minha historinha capenga :3 Obrigada por não desistirem de minha pessoa, bolinhos de arroz! E não se esqueçam dos reviews, me deixam muito feliz (não pude responder os do ultimo capítulo, mas não acontecerá de novo) :DBeijos,Marie Curie di Angelo (também conhecida como a Autora Irresponsável, caso haja algum zé perdido por aí)




(Cap. 26) Que isso Rach, que isso

Notas do capítulo
Hoje chegou HoH para nós... E junto com ele, a Deusa Perdida o/ ......ok, isso não é bom. Demorei de novo *chora* Mas uma coisa é certa, eu juro que não é falta de consideração. Teve problemas com escola, família, esses etc etc da vida. Mas está tudo se resolvendo *u* Mas me desculpem mesmo assim D:

26. Que isso Rach, que isso

Point of View – Percy Jackson

Se você andou reclamando da sua vida recentemente, saiba que eu e o Nico passamos um domingo inteiro sendo perseguidos por uma celebridade defunta meio demoníaca. Mas não acho que isso deva ser comentado agora.

Depois de uns dias de folga com joguinhos superficiais e conversa jogada fora, era dia de nos dedicarmos novamente ao que realmente deveríamos estar fazendo o tempo todo – a Clave mágica. Como já sabido, cada minúsculo pedacinho do objeto divino está escondido por aí, perdido no tempo e no espaço, e alguém deve ter a triste missão de achá-la. Na teoria, a pessoa com essa missão deveria ser a própria Hannah, mas não. A cidade da vez era Seattle, também conhecida nos EUA como Cidade Esmeralda. Eu nunca tinha ido lá até meu primo dark e eu (sim, somente nós) sermos jogados nela com a missão ‘achar a bentida da clave da guria louca’,com a única ajuda sendo uma profecia da Rachel num momento Delfos, que não fazíamos ideia de como decifrar:

"Filho da Poesia, vítima da taça envenenada
Não sabemos o assassino de tua dura morte antecipada
Enquanto o temível Hades o chama, és tu,
Homem de coragem, que Londres inteira em luto aclama"

No momento em que ouvi essa profecia, cheguei à brilhante conclusão de que estávamos completamente ferrados. Porque se tem alguém que paga o pato, seremos sempre nós, os machos imprestáveis.

— Olha, eu não sei você, mas eu não estou com paciência o bastante pra ver pseudo-pessoas o dia inteiro.

A frase dita acima por Nico pode parecer meio bizarra pra você, mas pra mim não. Já faziam algumas horas que nós estávamos rodando um bendito dum museu de Seattle, dedicado apenas a música. Eram tantas estátuas de cera de artistas famosos no meio do caminho que eu cheguei a pedir licença para Elvis.

— Acho que a gente devia parar de rodar por aí esperando a sorte ir com a nossa cara, e começar a prestar atenção na biografia do povo. Um desses infelizes é a tal da Clave — falei, lendo numa plaquinha aos pés da pseudo-Madonna que ela segue uma filosofia de vida chamada Kaballah. Vivendo e aprendendo.

— Ah, lógico. Nós vamos simplesmente topar com a plaquinha certa — Nico revirou os olhos daquele jeito irritante — É um museu do tamanho do Hades, com trocentos pseudo-artistas. Até a gente descobrir o benedito, levaria o dia inteiro. E como já comentado, não tenho paciência o bastante para isso — eu não admiti, mas sabia que ele estava certo (meio pessimista, mas certo). Nem mesmo eu, que costumo ser uma pessoa lerda (digamos, paciente), seria capaz de ler as centenas de plaquinhas e bancar a Mãe Diná pra adivinhar qual era a da profecia.

Pode dizer, você agora está pensando e porque não desvendaram a profecia antes? Dãh.Bem, foi o que eu pensei na hora também, mas

a) A Annie me disse ‘Percy, me pergunte o nome de todos os imperadores romanos, mas pelo amor dos deuses não pergunte nada de música, porque eu não faço ideia’;

b) A Hannah ainda estava irritada comigo por ter descoberto o que era leggiadrae não ter contado a ela o que significa, de forma que por mais que eu insistisse e chantageasse e reclamasse ela apenas disse ‘se virem, muchachos’ e começou a tocar uma música qualquer no violão; e finalmente

c) A Rachel estava desmaiada por causa da invasão de Delfos.

E foi assim que ficamos perdidos na Cidade Esmeralda sem ajuda nenhuma. Divertido, não?

— Então, vamos listar as características do sujeito que nós sabemos — sugeri, enquanto desviávamos de um grupo de asiáticos que se acotovelavam para ver Beethoven.

— É, pode ajudar. Melhor que nada — Nico deu de ombros, enquanto nós dois ignorávamos os suspiros e cochichos indecifráveis de duas japonesas. Abri o papel com a profecia escrita e comecei a lê-la.

— Filho da.. da.. — apertei os olhos para tentar entender os rabiscos. Dislexia é triste, irmãos. — Cortesia? Que isso?

— Poesia — Nico corrigiu, com uma calma inesperada — É poesia, Percy.

— Ah, sim. Filho da poesia, certo — pigareei — Vítima da.. hm... Caramba quem foi o analfabeto que escreveu isso? A letra é pior que a minha, credo. Tipo, isso é um tê ou um érre?

— Tê — a paciência rara de Nico começou a se esvasiar, fazendo ele respirar fundo antes de me responder — De taça, sabe.

— Hum. Vítima da taça.. bulinada?

Envenenada!É envenenada, caramba! Como alguém bulinaria uma taça?!

— Ué.. Sei lá... Filhos de Eros podem ser aventureiros.

— Ok, eu não quero saber — ele me interrompeu, estendendo a mão — Só me passa o papel.

— Ingrato — reclamei, mas passei a profecia a ele mesmo assim. Paramos no meio do caminho por alguns minutos, enquanto Nico relia as informações.

— Não tem nada muito específico.. — ele murmurou concentrado — ‘’Filho da poesia’’ deixa óbvio de quem é a cria, mas esse troço de taça envenenada e morte antecipada... Coma alcoólico?

— Provável — dei de ombros.

— Ok. Então, filho de Apolo, encheu a cara em Londres e bateu as botas por lá mesmo — finalizou Nico com a maior simplicidade possível — Vai ser fácil, fácil de achar, com certeza.

— Não se esqueça da parte que diz que é um cara de coragem que morreu em Londres — lembrei, lendo as duas últimas linhas da profecia (com muito esforço): ‘’Enquanto o temível Hades o chama, és tu, homem de coragem, que Londres inteira em luto aclama’’

— Sobre Londres, sim. Mas o resto não é importante. Viadagem do Oráculo.

Ri um pouco com o ‘viadagem’. Realmente, é uma palavra que descreve bem certos filhos do deus dos Oráculos.

— Se você diz..

Continuamos andando, correndo os olhos por todos os lados. Até que brotamos numa seção intutulada Rock n’ Roll Hall of Fame. Havia mais chances da Clave da Han estar com um desses caras estilo AC/DC, Nirvana, Green Day (maldito Green Day. Nunca me esquecerei do dia que quase morri por causa da Clave que estava ‘com eles’) do que, sei lá, com Mozart ou com o povo dos tempos da brilhantina.

Momento confissão: até mesmo eu que sou meio indiferente com essa coisa de bandas e etc etc, fiquei admirado com o lugar. Ao fundo, ouvia-se uma música do Rollin Stones que eu tinha certeza ser a preferida do meu padrasto, Paul Blofis. O teto era alto, muito alto, com imagens de diversos nomes do rock, desde Elvis até Paramore. Realmente, é uma pena eu estar vendo isso e a Hannah não (risada maléfica).

— Deuses — resmunguei — Estamos na estaca zero com relação à profecia.

Nico encolheu os ombros, como se dissesse ‘ao menos não é culpa minha’. Apoiei-me na parede mais próxima, refletindo sobre as informações que já sabíamos. Será que existem tantas pessoas que morreram em Londres, assim? É só olharmos todas as biografias e anotarmos as mortes, e por meio de eliminação..

— Acho que devemos perguntar logo essa joça pra quem realmente vai saber responder — comecei a andar, desviando dos (outros) turistas.

Meu primo me alcançou correndo, meio confuso com minha decisão repentina.

— Quem? A Han?

— É, ela mesma — respondi enquanto empurrava uma porta com um homem-palito azul — Agora, espere um pouco antes de fazer mais perguntas.

Para nossa sorte, estávamos completamente sozinhos. Peguei a placa de interditadousada pelos faxineiros, que estava encostada no canto, e coloquei-a discretamente do lado de fora de porta, trancando-a por dentro depois.

— Sacou o que vou fazer agora, Michelangelo? — abri uma das torneiras e olhei para Nico pelo reflexo do espelho. Algo me dizia que ele não gostou do apelido — A propósito, a não ser que você queira tomar um banho de água fria, eu recomendaria ficar um pouco mais longe dessas pias.

Nico resmungou algo sobre ‘esses filhos de Poseidon’, mas deu uns bons passos pra trás. Ri um pouco, e logo fechei os olhos para concentrar-me na água que corria. Doía um pouco, mas continuei até que ela ‘se rendesse’ e se deixasse ser controlada. Com isso, finalizei com perfeição (modéstia) minha fonte improvisada, que saía de uma das torneiras e acertava o espelho, deixando-o com uma camada de água, e escoando nas pias a seguir. Minha cabeça doía um pouco depois desse processo, mas ignorei. Abri uma pequena janela no alto devagar, até achar um ângulo que fizesse os raios de sol baterem no espelho e criarem um mini arco-íris, que dava pro gasto.

— Você tem dracmas? Parece que Annabeth confiscou os meus — virei-me para trás, vendo que Nico ainda estava se escondendo da água. Assim que ele me jogou um eu o atirei no espelho encharcado. Falei ‘’Annabeth Chase, filha de Atena, em Seattle’’, e a imagem tremeluziu até que Sabidinha aparecesse nela. Só que não muito do jeito que eu esperava.

Era um estacionamento ao ar livre, que coincidentemente (ou por conta de muita névoa) encontrava-se vazio. O traile Restart estava como sempre bastante visível, só que apenas metade dele estava colorido. Rachel passou correndo por nossa visão periférica, com Annie perseguindo-a com um balde gigante na mãos. Fiquei perplexo demais para falar algo quando Annie derrubou o troço na cabeça da ruiva, deixando-a toda manchada de preto.

Tinta. O negócio era tinta. Eu achava que todos já tinham se esquecido de pintar o trailer.

— Eeei! Garotas, aqui! — balancei os braços no estilo SOS até elas pararem de rir e nos notarem. Elas se entreolharam confusas, mas se aproximaram da M.I.

Hey! O que os dois estão fazendo aqui? Mesmo que teoricamente, claro— perguntou Sabidinha, se ajoelhando.

— Desistimos de tentar achar a clave sozinhos. Precisamos de ajuda profissional pra isso — explicou Nico, que pelo visto perdeu o medo da água — Mas parece que as coisas estão bem interessantes por aí.

Pequeno detalhe que esqueci de comentar: Annie estava num modo bem ~divertindo na praia~, de short e biquíni. Ó O PERIGO, SABIDINHA DE BIQUÍNI COM MUKE POR PERTO PODE ISSO NÃO OXENTE.

— É — fitei Annabeth intensamente — Bem interessantes. Sem mim.

Ela sorriu inocentemente, jogando o cabelo para trás.

Não precisa ter ciúmes, Percy. Você sabe que eu te amo.

E além do mais —disse Rachel, limpando a tinta preta da cara com as mãos— Eu estou de olho no Muke. Ele nem ousaria chegar perto da Annie.

— Ótimo. Continue assim, ruiva, e eu te dou três caixas de tinta profissional quando nós terminarmos a missão.

É uma honra fazer negócios com você, Jackson.

Annabeth fez uma careta pra Rach, que respondeu mostrando a língua.

— Ok, o assunto de vocês está muitíssimo interessante, afinal ninguém quer o Percy chifrado — semicerrei os olhos pro filho de Hades —, mas será que nós poderíamos ter a ideia da pista primeiro? Quanto mais rápido acharmos, mais rápido voltamos.

— Nós sabemos porque você quer voltar, Nico. Não se preocupe — Annie se levantou — Vou chamar a Han e já volto. Ela e Orchard estavam pintando o outro lado do trailer.

Ela correu, deixando-nos em silêncio por alguns instantes.

— Então, Rachel.. Por que exatamente a Annabeth jogou tinta preta na sua cara?

O Oráculo piscou os olhos verdes, pensando. Parecia uma morena de mechas vermelhas daquele jeito.

— É uma ótima pergunta. Acho que sua namorada é louca.

— Me parece uma resposta válida.

— Muito válida.

— E a sua perseguição ao Muke? Tem dado certo? — perguntou Nico. Rachel suspirou, como se fosse começar a desabafar sobre seus sentimentos.

— Nem um pouco, dá pra acreditar nisso! Eu achei que a forma mais fácil de conquistar um garoto que não parece tão interessado assim fosse estar linda na frente dele, mas nãaaao. Fala sério, vocês têm a mínima ideia do que eu fiz?

— Hm.. Não..?

— Eu chamei ele pro trailer enquanto todo mundo estava aqui fora pra ele me ajudar a amarrar o biquíni. Ajudar a amarrar a porcaria do biquíni! E sabem o que ele fez? Nada!

— Nada? Tipo.. Nada? — perguntei — Ele te ignorou e te deixou com cara de tacho?

Ai meus deuses, Percy. Lógico que não! — ela revirou os olhos — Que pessoa lerda. Ele ajudou, claro. Mas nãoexatamente do jeito que eu queria, entende.

O__________________O gente essa Rachel.

— Acho que nós não precisávamos saber desse detalhe — falou Nico, meio ressabiado.

— Verdade, não precisavam. Mas de boa, vocês são homens. Admitam que é uma atitude estranha da parte dele.

— Talvez ele seja gay. É o que eu sempre disse — respondeu o filho de Hades novamente, dando de ombros.

— Isso me lembra o dia que a Hannah quase fez vocês dois se beijarem. Foi um dos momentos mais gays que já vi, atrás do Zac Efron cantando Bet on Me — comentei, pensativo. Era dia de Natal quando isso rolou. Oh, deuses, foi um dos dias mais engraçados da minha vida. Mas pelo visto pro Nico não, porque ele me fuzilou com os olhos.

— Não me lembre disso!

Coincidentemente, ou não, nesse momento a tão esperada Hannah apareceu no nosso campo de visão de M.I..

É impressão minha ou algum dos debilóides está solicitando minha presença? — ela disse, se sentando na grama ao lado da Rachel. Reparei que Nico sorriu discretamente quando ela acenou pra ele.

He. Hehe. He.

— É sobre a pista. Nós desistimos de tentar descobrir quem é a pessoa sozinhos — falei, por fim. Ela suspirou, fazendo cara de entediada. Acho que ainda não tinha me perdoado por descobrir o que é leggiadra, gritar pra todo mundo que o Nico estava apaixonado mas não ter dito a ela o que significava.

Você sabe que eu tenho uma condição. Se não me disserem, sem pista.

Eu olhei pra Rachel, e nós dois juntos olhamos para o filho de Hades. Nós o encaramos até ele ceder. Ah, mas eu não ficaria o dia inteiro preso num museu porque ele não quis contar que chama a guria de graciosa nem que Hera tussa.

— Tá, chega! — disse ele, irritado — Eu falo o que quer dizer. Mas só quando a gente voltar pro trailer. Fala a pista da Clave é primeiro.

É um preço justo— Hannah sorriu, satisfeita — Bom, alguém ai sabe a profecia? Rachel?

— Não sei. Quando apago, não me lembro de nada — a ruiva balançou a cabeça — Mas se não me engano, a Annie disse que o Nico anotou.

— Pera, aquele garrancho de letra era sua? — cutuquei meu primo, rindo. Ele fez uma careta pra mim.

— Ela não é tão feia assim, tá? Você que tá cismado — disse, desdobrando a folha e pigarreando — Começa com ’filho da Poesia, vítima da taça envenenada’.

Eu já tinha visto as habilidades musicais da Han em ação, mas elas continuavam a me surpreender. Ela colocou a mão no queixo, pensativa.

Hum. Interessante. Amy Winehouse, mas como ela é mulher acho que não conta. Pode ser o Bonzo do Led Zeppelin, embora alguns digam que foi não foi álcool. Mas, bem, continue.

— ‘Não sabemos o assassino de tua dura morte antecipada’.

— É, Bonzo continua na lista. Mas Morrison também pode ser.

Fui anotando os nomes mentalmente. Só o que faltava era ela descobrir a pessoa e depois de acabarmos com a M.I, esquecermos o nome do benedito.

— ‘Enquanto o temível Hades o chama, és tu que Londres inteira em luto aclama’.

— Hmm estranho. Nenhum desses morreu em Londres.

— Bom, a Amy morreu.. — disse Rachel, ponderando a informação — Mas disse filho da Poesia, e ela era filha de Dioniso. Droga.

— Ah, o Bon do AC/DC morreu em Londres! Deve ser ele, então. Ótimo, procurem por Bon Scott. Aquele de Highway to Hell, sabem.

Lembrei-me de um documentário que Thalia me obrigara a assistir uma vez, sobre várias bandas que ela gosta. Metade das coisas que vi nele se perderam, mas a morte do vocalista do AC/DC foi uma das únicas que eu recordava, porque era provavelmente a pior forma de bater as botas.

— Ele não morreu engasgado com..? — perguntei. Meio punk contestar a deusa da Música mas tudo bem.

— Vômito. É. Tadinho, deve ter engasgado e morrido de desgosto— Han secou uma lágrima imaginária no canto do olho. Pela cara que a Rachel fez, imaginei que elaia vomitar — Mas estava completamente chapado quando isso aconteceu, então é válido.

Ok, não contestarei argumentos de autoridade.

— Espere — lembrei-me — E o troço de homem de coragem?

— Eu disse, é viadagem — Nico fez cara de bunda — E por ser viadagem eu não citei, ora. Quanto menos saliva gasta, melhor.

— Viadagem?! Que viadagem?— indagou Rachel ofendida —Como ousam dizer que eu falo viadagens? E é preconceito isso, seu homofóbico!

— Eu usei viadagem no sentido de frescura, não de gay, ô anta.

Que viadagem?— perguntou Hannah curiosa.

— Podemos parar de usar a palavra viadagem, por favor?— Rachel estava com o rosto vermelho, irritada.

— Querer que a gente pare de falar viadagem é viadagem.

— Senhor di Angelo, você não quer me ver pregando os direitos humanos aqui. Pare de dizer viadagem.

Acho que nunca escutei a palavra viadagem tantas vezes em tão poucos segundos.

— Tá, parei. Mas a.. Bagatela, diremos assim, é que o verso real era ‘enquanto o temível Hades o chama, és tu, homem de coragem, que Londres inteira em luto aclama’.

A expressão facial da Han foi de ‘haha unicórnios pôneis’ pra ‘............loading’.

— Homem de coragem? Falou isso?

— Sim. Exatamente com essas palavras — Nico levantou o papel e o estendeu na frente da M.I.

— Caramba tua letra é um garrancho mesmo filho — disse Rachel, apertando os olhos pra conseguir ler.

— Parem com isso! É bullying, escrever não é uma coisa tão útil no Mundo Inf..

Jimi Hendrix — disse Hannah, apenas.

— Oi? — perguntamos os três, juntos.

— Esquece o Bon. Procure o Jimi Hen—

‘’Por favor, insira um dracma para mais cinco minutos. Íris agradece!’’. Lá se vai nossa conexão. Tudo que restou foi nossos próprios reflexos deformados pela camada de água no espelho, dois garotos atônitos

— Droga. Péssima hora pra sermos pobres murmurou Nico, guardando a profecia novamente.

Foi difícil descobrir que quem precisávamos era Jimi Hendrix, um fato. Precisamos rodar por horas e horas até tomarmos a decisão sensata da M.I. Mas achar o Sr. Jimi no museu foi fácil pra caramba.

— Com licença. Será que você poderia nos informar de algo? — cutuquei uma funcionária do museu.

A moça se virou, mostrando não ter mais que vinte anos de idade. Tinha a pele morena e os cabelos castanhos muito compridos. O que me chamou a atenção eram os olhos, de uma cor meio mel, tipo amarelada.

— Com prazer! Algum ídolo em especial procuram ver?

— É.. Mais ou menos. Jimi Hendrix, conhece? — a mulher sorriu ao escutar o nome.

— Oh, Hendrix! Adoro esse homem! Levo vocês lá, não é problema. Ajudar os visitantes é meu lema.

Nico me lançou um olhar meio desconfiado, mas dei de ombros. Se é pra vivermos a vida desconfiando de todos, melhor ficamos no Acampamento. As vezes a pobre coitada da moça quer dar um ar poético à exposição, oras.

— São apreciam o trabalho dele? — perguntou ela enquanto nos guiava num longo corredor com algumas estátuas. Reconheci Paul McCartney e o cantor do Aerosmith pelo caminho.

— Não exatamente — respondi — Conhecemos de nome, só.

— Ah, sim. Gosto muito das canções dele. Minha preferida é Bold as Love.

Espere. Bold as Love... Valente como o amor. Ah, tá. No fim, o homem de coragem não era bobagem. Desculpe, Oráculo. Nunca mais duvidarei das suas palavras.

— Ele parece ter músicas muito boas. Mas nunca chegamos a escutar. Na verdade, quem mandou nós virmos vê-lo foi a namorada desse aqui — passei o braço pelo ombro de Nico, que estreitou os olhos pra mim. A mulher riu um pouco.

— Namorada? Interessante.

Esperei que ela dissesse algo mais, ou rimasse uma palavra com ‘interessante’, mas a moça ficou calada todo o resto do percurso. Subimos uma longa escada até o segundo andar e uns bons passos depois, estávamos em frente a uma alta estátua de cera. Era um homem com quase o dobro da minha altura, negro, cujo cabelo estava entre black power e capacete. Tinha um cigarro na boca, e estava posicionado de forma que parecia tocar guitarra. Observei o Sr. Jimi, tentando achar algum pedaço da Clave. Nada.

— Percy. O braço — sussurrou Nico.

Observei o braço do Sr. Jimi. Meio magrelo, mas nada demais.

— Da guitarra, Cabeça de Alga. O braço da guitarra!

Olhei para o braço da guitarra do Sr. Jimi. Opa. Era completamente dourado e brilhava, refletindo a luz. Realmente, senão é a Clave, só pode ser pirlimpimpagem de Apolo.

— Era ele mesmo? — dei um pulo ao escutar a voz da mulher. Ela ainda estava ali?

— Hum, sim. Ele mesmo, Hendrix. Bem conservado — disse Nico — Er, obrigado.

— De nada, foi um prazer — ela sorriu — Mas sinto lhes informar que venho a malfazer. Os dois semideuses em missão da deusa asnada, que pena!, caíram numa cilada — oi? Sério mesmo que é complicado entender essa guria com ela falando em rimas. E, aliás, tenho a leve impressão que asnada vem de asno. Algo me diz que alguém vai chutar o traseiro dessa mulher logo, logo.

Seu cabelo castanho foi mudando gradativamente de cor, até estar completamente lilás (lilás! Por acaso colocaram dorgas no meu café da manhã?). O jeans e a camiseta de funcionária se transformaram num vestido branco. Em suas mãos havia uma flauta prateada, e na cabeça surgiram flores numa coroa.

— Espere. Flores? Você é uma ninfa...? — por exceção do cabelo, ela estava igualzinha à Juníper. A moça/ninfa do mal bateu o pé no chão, com o rosto vermelho de raiva.

— Por que todo mundo me chama de ninfa? Caramba, mas que cafifa! Sou Euterpe, seus ignorantes, a Musa da Música e da Poesia. Não uma árvore mágica de fantasia — nota mental: perguntar Annabeth o que é cafifa.

Havia alguns poucos turistas de camisa havaiana por perto rodeando outras estátuas, mas pelas caras felizes a névoa estava fazendo um bom trabalho. Tirei Contracorrente do bolso, segurando-a com força, temendo um conflito. Nunca é bom brigar com seres mitológicos em locais públicos, meu passado meio que condena isso.

— Como toda boa vilã, meus motivos devo revelar. Aquela loira maldita deixou-me com as mãos abanando, sem uma função para qual cuidar. Agora, séculos mais tarde, minha vin--

— Com licença dona — disse Nico com cara de entediado — Nós estamos com um pouco de pressa, pode pular esse pedacinho de vilão de Scooby Doo? E essa coisa de ficar rimando é meio irritante também. — Euterpe revirou os olhos, feito uma adolescente mimada.

— Ninguém aprecia uma boa poesia ultimamente. Humanos incultos.

— Semideuses. Semideuses incultos, não humanos — corrigi.

— É, tá. Tanto faz — ela fez um gesto de desprezo com as mãos — O fato é que aquela loira azeda da filha de Zeus teve a coragem de roubar minhas funções de guardiã da Música. Depois dela subir no pódio de deusa, a Musa aqui não era chamada pra nadano Olimpo. Nenhuma festa, comemoração, movi, nada! Ofuscou totalmente meu brilho — suspirou — Mas enquanto ela esteve fora, euentrei pra cena outra vez. E vocês não vão me impedir de continuar assim!

— Sinto avisar — bocejei — Mas vamos sim.

Euterpe grunhiu e soprou a flauta, emitindo um som que ultrapassava o agudo (sem exageros, quase senti meus tímpanos estourando). Imaginei que ela fizesse isso para nos distrair, mas pelo visto tinha uma função a mais.

— Ai, meu Hades — Nico deu um passo atrás, com os olhos arregalados. A estátua do Sr. Jimi se endireitou, ficando reta como uma vara. A expressão antes de tô-curtindo-um-som-mano se tornou mortífera, e suas íris de cera antes castanhas tornaram-se vermelhas. Ele se virou para a Musa.

— Pegue eles — ela ordenou, com um sorriso escárnio no rosto. Nico desmanipulou a névoa, fazendo sua espada Estígia visível. Fiz o mesmo, destampando Contracorrente até ver o reflexo do Sr. Jimi correndo atrás de nós.

— Manda esse troço pro Mundo Inferior! — gritei para meu primo, embora ele estivesse do meu lado.

— Quê?! Não tem como mandar uma estátua de cera pro Mundo Inferior!

— Ao menos tenta, cahai!

Quando Sr. Jimi se aproximou Nico acertou um golpe em seu peito, onde num humano ficaria o coração. Mr J ficou paralisado. De raiva. Porque bufou, arrancou a espada e a atirou alguns metros longe.

— Opa. — Sr. Jimi me encarou com os olhos vermelhos e rosnou.

— Valeu hein, Percy! — gritou Nico enquanto ia em direção ao vaso de planta onde sua espada caíra. Em minha defesa, sempre achei que os poderes de Hades iam além dos seres humanos vivos.

Euterpe,sentada em cima do piano branco da estátua de Lennon como uma espectadora, tocou a flauta novamente. Desta vez alguns turistas tamparam os ouvidos, incomodados. Os que estavam próximos de minha luta com Sr. Jimi gritaram. Não sei o que viam com o efeito da Névoa, mas não devia ser bom. Era um pandemônio de gente desesperada, um corre corre de seguranças gritando para manterem a calma, o Nico de um lado pro outro tentando mandar o povo pras saídas. E eu acertava o Sr. Jimi, pois é.

Ele levava golpes e não sofria dano nenhum, ao contrário de mim que queria dar logo o pé na bunda dele pra acabar de vez com isso. Anaklusmos apenas abria talhos na cera, mas ele continuava de pé tentando me acertar com a guitarra dourada que era na verdade parte da Clave. Determinado momento um turista asiático tropeçou em mim e acabou me desnorteando por alguns segundos. Nesse tempo, Sr. Jimi acertou o instrumento na minha cabeça, o que digo ter doído pra caralho.Dei uns xingos e o chutei na barriga, fazendo-o cair escada abaixo até o primeiro andar. Ele ficou caído, não se levantando depois.

Passei a mão na testa. Aquilo deixaria um galo. Maldito.

Eu não via mais Nico ajudando-os a encontrar a saída, então presumi que ele havia descido. No primeiro andar as pessoas se acotovelavam para irem embora, ao contrário do segundo que já quase esvaziara. Suspirei. Vida de semideus é difícil, mas vale a pena. Desci a escada e andei até o Sr. Jimi caído, para pegar a Clave.

Assim que me aproximei, ele abriu os olhos vermelhos e deu um pulo no meu pescoço (ÊH, XÔ, CAPETA). Ele me estrangulou (para alguém (algo?) com braços tão magrelos, era bastante forte). Contracorrente caiu a medida que meus esforços para me desvincular foram em vão, e o ar em meus pulmões foi se esvaziando. Minha visão também ficou turva, de forma que Sr. Jimi parecia estar desconfigurado, derretendo. Quando senti o sangue escorrendo pela minha camisa e estava prestes a desmaiar, o enforcamento para. Tombo no chão, com a respiração descompassada.

— Você está bem? — Nico se ajoelha do meu lado, com a testa franzida. Tá vendo não filho, tô ótimo. Nos trinques. Pronto pra correr uma maratona.

— O quê...? — murmuro, sem entender.

— Não fale. Coma — o filho de Hades me entrega um pedaço ambrosia, e mastigo devagar com certa dificuldade. Tenho vontade de dizer 'estou bem', mas não estou em condições de falar. Ele corta uma parte da própria camisa e amarra em volta do meu pescoço. Ranjo os dentes com a dor, mas não reclamo. Sei que se deixar aberto, será pior.

— O que diabo você fez? — murmuro ao terminar a ambrosia, já sentindo-me (um pouco) melhor.

— Mexi no sistema de ar condicionado. O único jeito de parar aquela coisa era colocando na temperatura 'ante-sala do inferno'.

Olhei a minha volta. Todas as estátuas nos pedestais estavam pela metade, e Sr. Jimi era um amontoado de cera chutada e molenga no chão. Pelo visto não era alucinação, ele realmente estava derretendo enquanto me esgoelava.

— Vamos pegar a Clave e dar o fora daqui — me levantei, pegando Contracorrente do chão, e já me sentindo um pouco melhor. Só agora sem a adrenalina no sangue que eu sentia o calor que estava no ambiente. Passeia mão na testa, tirando o suor.

Ai, caramba, realmente tinha feito um galo.

— Vocês não acham que só porque acabaram com ele, vão conseguir passar por cima de mim, acham? — Euterpe surgiu a alguns metros de nós, segurando em uma das mãos a guitarra-Clave. Mas num é possível, depois de lidar com a celebridade defunta ainda tem que aguentar essa mulher com voz de taquara rachada?

— Ah, por favor. Já demos um jeito no Sr. Jimi. Nos dê a Clave, para que não tenhamos que dar um chute na sua bunda — levantei Anaklusmos. Ela riu.

— Coitadinhos, tão inocentes — ela levantou a guitarra — Isso foi apenas o começo. Não deixaremos a Clave estar completa de novo. Ao menos, não até que aquela vadia esteja morta!

Aconteceu rápido demais. Avancei pra frente e arranquei a guitarra de suas mãos, e Nico empurrou Euterpe contra a parede. Levantou-a pela gola do vestido e colocou a lâmina contra seu pescoço.

— Chame ela de vadia mais uma vez e eu corto sua cabeça fora.

Ela não fraquejou. Embora tivesse por um fio de perder a cabeça (literalmente), sorriu debochadamente.

— Vadia.

Ele não cortou a cabeça dela, é um fato, mas afundou a lâmina um pouco mais. Icor, o sangue dourado dos imortais, começou a pingar no vestido branco. Ela engasgou e começou a tossir.

— Foi você que raptou a Hannah do Olimpo? — perguntei, desconfiado. Só que ela não parava de tossir — Nico, calma ai cara. Daqui a pouco você desmembra a mulher.

Ele lançou um olhar raivoso a Euterpe. Continuou a segurando contra a parede, enquanto embainhava a espada.

— Não, seus semideuses inúteis. Não fui eu quem sequestrou a deusa perdida. Acham que eu era a única que odiava aquela garota? — ela riu, levando a uma nova crise de tosse — Claro que não. Apoiei a ideia, mas não fui eu que a tive.

— Quem foi o líder? — perguntou Nico.

— Não importa.

Quem? — repetiu, subindo o tom da voz.

Nico. Calma — repreendi — Se deixá-la desmaiada, vai acabar com nossa única chance de ter respostas.

— Obrigada diz a Musa com a voz entrecortada É muita gentileza sua.

— Isso não quer dizer que pegarei leve com você, Estepe. Quem tramou tudo isso? E quem mais está envolvido?

— Não sou uma delatora. Que cortem meu pescoço, mas não digo quem é — ela estava pálida, com os lábios brilhando de dourado — A única coisa que digo, é que para quebrar um símbolo divino como a Clave, é necessário muito poder. Uma simples Musa ou um deus menor não seria capaz de fazer isso.

— Muito poder... — murmurou Nico — Algum dos doze?

— Os deuses podem ser ingratos, di Angelo. Os mais próximos viram as costas pra você — ela começou a brilhar, e desta vez não era pelo icor. Nico a soltou antes que tomasse a forma divina, e quando abrimos os olhos novamente, estávamos sozinhos no museu vazio. Eu nem sabia que musas possuíam formas divinas.

— Que bosta, hein, cara — disse di Angelo, suspirando, e andamos até a saída. Sem mais turistas, o único vestígio do que ocorrera eram estátuas derretidas pela metade e uma coroa de flores caída no chão.

Notas finais do capítulo
Gostaram? *-* tentei colocar emoção nesse, não sei se consegui (ação não é muito meu forte ASFJHSAJHG) Mereço reviews? :3 Ah, e um aviso: ~TEM SPOILERS DE CASA DE HADES ~Se você não pulou esse spoiler, certamente já sabe. Mas pularei mais linhas por precaução omg É canon: Nico, para felicidade de uns e infelicidade de outros, é gay. Ou bi. Ou hétero curioso, sei lá ASJGASJFKFHJASHF é meio que óbvio, mas gostaria de avisar que isso não vai mudar (ao menos não muito) a DP. É, só isso. HUHEUEH Gemt esse canon foi completamente inesperado pra mim, fui a única? Mas não necessariamente não gostei. Nem gostei. Estou, sei lá, ainda tipo 'gsuis inimaginável'. Bom, é isso. Hasta la vista õ/




(Cap. 27) "Anjos e Demônios" nunca pareceu tão realista

Notas do capítulo
HOLA PERSONAS!! Estou tão orgulhosa, menos de um mês!! E o próximo já tem 1000 palavras! O que aconteceu, os deuses resolveram me abençoar de repente? Aliás, muito obrigada por não terem desistido de mim das outras vezes! *u* Boa leitura!

27. "Anjos e Demônios" nunca pareceu tão realista

Point of View – Rachel Dare

Uma pequena nota daquela que vos fala: AQUELE GAROTO É UM PUTO. COM ‘P’ E TODAS AS OUTRAS LETRAS MAIÚSCULAS. ARGH, SANTO ZEUS, DAI-ME PACIÊNCIA.

É, era só isso. Eu precisava desabafar. Como vai você, querido leitor? É a senhorita ruiva aqui. Se não fosse o Puto do Muke, eu estaria muito bem também, obrigada.

— Você tem que dar um tempo pro garoto, Rach — consolou-me Annabeth Chase, enquanto eu grunhia uns xingamentos e ela retocava um pedaço da nova pintura preta do trailer. Finalmente, deixou de ser Restart e tá mais pra Evanescence *fuck yes* — Ele é filho de Apolo, não é muito ligado a compromissos.

Suspiro, levantando a franja ruiva manchada de tinta que estava caída no meu rosto.

— Mas eu não quero compromisso! Sai pra lá Saravá com esse negócio de namoro sério. Eu quero exatamente o que ele deveria querer.

Annabeth levanta uma sobrancelha, desconfiada.

— Dar uns pega?

— Basicamente — dou de ombros.

Senhorita Chase-Jackson larga a pintura e se senta ao meu lado. Reparo que ela tem um risco preto na testa, mas como não devo estar melhor devido ao balde de tinta que recebi na cabeça, não faço comentários.

— Acho que você deveria desencanar desse garoto..

— Mas mas ele é tão lindo!

—… e se lembrar que quem reside o Oráculo, não pode ter nenhum tipo de relação amorosa — ela ignora meu protesto. Faço um gesto de desprezo com a mão.

— Nah, Apolo me adora. Acharia o máximo me ter como nora.

— Imagina que bizarro ter ele como sogro, cara — Annabeth fita o céu, meio pensativa. Encaro o além junto com ela.

— Você fica com o mino e aproveita pra pegar o pai junto. Tipo um ménege à trois.

A ”filha certinha de Atena menos aos sábados à noite no chalé 3” arregala os olhos cinza.

— Meus deuses, Rachel!

— A mamãe Dare aqui tem cara de santa mas tem fogo no rabo, querida. Acostume-se. — Annie tenta fazer uma expressão horrorizada, mas acaba rindo ao me dar um tapa.

Estiro-me na grama, apoiando a nuca nas mãos e fechando os olhos com a claridade do sol. Será que o problema é minha cor de hospital? O Muke é moreno, ele deve ser mais pras coradinhas. Se bem que se for assim, posso passar o tempo que for ao ar livre, Annabeth sempre será mais preta que eu. Até a Hannah é mais que eu, pelo amor dos deuses. Mas não custa nada tentar, ora pois.

Mesmo com os olhos fechados, percebo alguns minutos depois que alguém está em pé ao meu lado, sumindo com minha claridade.

— Se você tem algum tipo de amor à vida, não atrapalhe meu bronzeamento — continuo na mesma posição. Alguns segundo se passam, posso escutar o infeliz segurando o riso, mas nada da quentura de Apolo batendo no meu rosto — Quem é o futuro dEFUNTO QUE ESTÁ ATRAPALHANDO A PORCARIA DO MEU BRONZEAMENTO? — abro os olhos e vejo Percy Jackson de pé, com um sorriso maldito no rosto.

— Você não sabia que tempo demais no sol dá câncer de pele, Rachel?

— Você não sabia que tempo demais impedindomeu sol quebra seu nariz, Percy?

Nico, que tem as bochechas vermelhas (desta vez parece que é porque vieram andando) e posiciona-se a alguns metros atrás do Percy, faz uma careta.

— Nem mencione nariz quebrado. O meu está meio frouxo até hoje.

Di Angelo carrega na mão um pedaço de guitarra dourada, apenas o ‘braço’, que estava apoiado no chão como uma begala. Me levanto, percebendo que meu bronzeamento ficará para outra hora.

— O que é isso no seu pescoço, Percy? — Annie se aproxima do Cabeça de Alga, com os olhos semicerrados. Oh, é verdade. Ele tem um pano amarrado no pescoço, que digamos, está meio ensanguentado.

— Bom, era a camisa do Nico.

Realmente, a blusa do ser estava meio picotada na barra. É impressionante como semideuses acham primeiros socorros nas coisas mais inesperadas.

— Acho que não foi exatamente isso que ela perguntou, sabe — o filho de Hades responde com aquela típica cara de paisagem di Angelônica. Engraçado como ele ainda não se conformou com a lerdeza dessa cria de Poseidon.

Annie desamarra com cuidado aquilo que em algum momento foi a camisa do Sr di Angelo (as caretas de dor do Percy foram ótimas) e revela que havia alguns cortes profundos, que não haviam parado de sangrar desde que seja lá o que diabo ocorreu.

— Minha santa Atena!

— Não foi nada, Annie. Só..

— Estrangulamento sangrento por uma força demoníaca? — pergunto. Percy me lança um olhar irritado. Opa, parece que não estou ajudando muito — Ok, desculpe. Acho que estou assistindo Supernaturaldemais.

— Calma, Annie — ele tenta acalmar a namorada, que quase tem um infarto ao observar o ferimento — O Jimi de cera contra atacou, mas não foi nada.

— Ou seja, foi mesmo um estrangulamento sangrento por uma força demoníaca. Eu estava certa.

Nico pigarreou ao escutar minha (verdadeira) informação.

— Olha Rachel, acho que você não está ajudando muito.

— Você viu o que aconteceu. É verdade, não é?

— Bem… É. Ele era realmente meio demoníaco.

Annabeth deu um piti sobre infecções ou sei lá o que, e saiu arrastando um Percy relutante pra dentro do trailer, atrás de um primeiros socorros. Coitado, o garoto sofre. De qualquer forma, volto minha atenção para a guitarra dourada (ou o pedaço dela) nas mãos de Nico.

— Então, alguém tocou música tão ruim que partiu a guitarra em duas?

— Não exatamente. Mas poderia acontecer, caso tocassem Cody Simpson — eu rio, imaginando a cena — Ela inteira era pesada pra carregar, então trouxemos só o que realmente interessava — ele levanta o instrumento à altura dos olhos, observando-o — É a Clave. Deu um bocado de trabalho pra pegar esse negócio.

— É um pedaço bem grande de Clave.

Nico para de observar o bagulho, e olha pra mim. Mesmo sem responder, percebo que ele entendeu o que eu quis dizer sem realmentedizer. Estávamos a poucos pedaços da Han voltar pro Olimpo. A busca pela Clave parecia estar nos finalmentes. Ok, é meio mal da minha parte relembrar o Nico que um dia a dona Han vai voltar a ser completamente deusa e provavelmente terá que ir embora, já que não envelhecerá ao contrário de nós, humanos e semideuses. Mas quando eu era criança meu psicólogo disse aos meus pais que a filha deles tinha tendências sádicas, então tudo bem.

A porta do trailer se abre. Hannah desce e vem até nós, que estamos de pé a alguns metros. Seu cabelo está meio desgrenhado e sua cara é de sono (quando o trailer já estava pintado e tudo que faltavam eram os retoques, gritei para que todo mundo subisse para conseguir perguntar a opinião de Annie sobre a FALTA DE atitude do Muke com relação a mim a sós. Pelo visto, alguém aproveitou disso pra passar a última meia hora dormindo).

— Por que… — começo a perguntar, apontando para sua camisola. Sim, a Hannah estava de camisola.

— Sem comentários não construtivos, por favor. O Percy me acordou. Portanto, não esperem gentileza da minha parte — ela olha pro Nico com a mesma cara de paisagem — Ah, olá, Penadinho. Embora não pareça, fico feliz que não esteja nas mesmas condições de quase morte que o Cabeça de Alga.

— Embora eu não consiga levar nada que você diz a sério enquanto está de pijama, obrigado. É muita gentileza sua notar.

— De nada — Hannah estende a mão e me entrega o bolinho de Clave que tínhamos até agora — Façam a magia desse troço acontecer, estou com sono demais para isso.

— Nossa, quanta animação da sua parte — falo ironicamente enquanto ela responde com um bocejo. Viro-me para di Angelo — Olha, não é por nada não, mas sua guria é meio broxante.

Ele ri um pouco, enquanto a filha de Zeus estreita os olhos.

— Se eu não estivesse nesse estado de bênção de Hipnos, faria um barraco por isso.

Pego o (grande) pedaço da Clave achado pelos dois hoje, e aproximo-o do bolinho que já havíamos pegado. Nada acontece de início, até que com alguns segundos o braço da guitarra vai se fundindo, tornando-se liso. Então, como naquelas típicas pirlipimpagens dos olimpianos, os dois pedaços brilham num tom de dourado, e tornam-se um só. Era agora um bom pedaço da Clave, comprido. Quando ela termina de brilhar, apoio-a no chão. É um bastão que vai até a altura de meus ombros.

— Isso é um cabo de vassoura? — pergunto, encabulada — É igualzinho a um cabo de vassoura! Você vai virar deusa da faxina agora, por acaso?!

Infelizmente, não escuto a resposta. Maldito Delfos.

Sinto a névoa do Oráculo se apossando de mim, e perco o controle de meu corpo quando ele involuntariamente se curva para frente. Sei meus olhos ficaram com aquela cor meio radioativa de verde e que nesse momento falei alguma coisa, mas não faço ideia do que seja. Do mesmo jeito, não faço ideia de quanto tempo fiquei possessa.Mas tenho a impressão de que foram poucos minutos.

Quando recobro a consciência e abro os olhos lentamente, vejo que Nico me segura por um braço, Han pelo outro. Estou de joelhos no chão. Se não fossem os dois, eu certamente teria caído de cara. De novo.

— Santo Apolo — resmungo — Duas profecias num dia só. Que coincidência infeliz.

Com alguma dificuldade, fico de pé novamente, embora os dois estejam um pouco relutantes em me soltar. Uso a Clave, que mesmo durante o desmaio continuei segurando com força nas mãos, como uma espécie de bengala, e eles parecem achar que é suficiente. Devagar, soltam meus braços.

— Tem certeza que está bem? — pergunta Hannah, preocupada. Pelo jeito como seus olhos azuis estão arregalados, suponho que a benção de Hipnos tenha passado.

— Absoluta — respiro fundo, feliz que dessa vez a tontura tenha passado rápido — Qual foi a pérola de agora? Algum pedaço de Clave na casa do Justin Bieber?

— Cruz Credo — Han faz uma careta. Nico apoia a mão no queixo e bate o indicador nos lábios, pensativo.

— Foi parecido com ‘a busca retorna para onde havia começado’ e ‘algo que julgavam impossível talvez venha a ser realizado’.

— ‘Julgavam impossível’? Hum… — coloco a mão livre na cintura — Deveríamos estar preocupados?

— Nah. Acho que não — ele faz um gesto de desprezo — Talvez seja terrorismo para ‘essa coisa que achavam ser um animal selvagem realmente é uma deusa’.

— Haha. Muito engraçado. — Han ri ironicamente — E apenas relembrando, até meia noite de hoje você deverá me dizer o significado de leggiadra,señor.

— Pra sua informação, isso é espanhol. E se é assim, ainda tenho dez horas para te deixar na curiosidade, minha cara — retruca o filho de Hades. Pego meu celular no bolso do short e olho as horas.

— Na verdade, você tem nove horas e trinta de dois minutos. Até lá, viva na ignorância americana, minha filha — guardo o aparelho antes que um dos dois resolva bisbilhotar o fundo de tela. É uma foto do Muke, tirada hoje de manhã bem discretamente enquanto ele dormia. Hehe. Heh. — Que tal subirmos e perguntarmos a senhorita Annie o que ela acha sobre isso?

Uma pessoa aparece pela janela do trailer no momento em que Han abre a boca para responder. É uma pessoa linda e loira, com aqueles olhos meio castanhos meio verdes que, oh, que perfeição. Muke esta apoiado na janela, e pela visão de seu abdome nu e cabelo despenteado pingando, suponho que está apenas com a toalha amarrada na cintura. Me apoio um pouco mais na Clave-bengala, em estado de choque.

AFSHALKASFJHBASDJH QUE IMAGEM DEFINIDA É ESSA, PUQUEPARIU. AFRODITE, APAGA A LUZ QUE EU DESMAIO DE NOVO, MINHA FILHA.

— Se me permitem, minha pessoa estava aqui deitada, apreciando o brilho de meu pai depois de um banho e acabei escutando algumas coisas que gostaria de opinar sobre — ele dá um sorriso de lado, mostrando o canino. Seu pUTO PARE.

(Mentira, não pare. Estou babando e apreciando a vista).

— Tava no banho da beleza,florzinha? — Nico afina a voz sarcasticamente. Muke grunhe algum xingamento, baixo demais para minha compreensão.

— Tava sim, com licença? Afinal, é necessário manter esse físico do jeito que as gurias gostam — Muke se inclina ainda mais, colocando o tronco pra fora do trailer. Hannah faz algo parecido com um rosnado.

— Você poderia fazer o favor de não fuxicar nossa conversa e, principalmente, não aparecer semi nu na janela?

— Por quê? Eu estando semi nu te incomoda? De um jeito sensual?

— Não. Me incomoda de um jeito irritante, na verdade — ela olha pro céu, pro chão, pra Clave, pra mim, pro Nico, qualquer lugar menos pra janela. Ao contrário de mim, né. Chego a perder a capacidade de falar, e se tentasse dizer seria algo pesado demais para ser dito com duas ‘crianças’ do meu lado (se bem que eles conseguem ser mais safados que eu, hm).

Gente, que cara de quem lambeu limão do Nico. É brabo mesmo o mau humor desse garoto, santo Zeus.

— Sei, sei. Teremos que progredir nisso, Punk — Muke ficou um tempo pensativo — Porém, que eu diga o que é realmente necessário. Primeiro, se vocês ainda não perceberam o que a ruiva ali recitou, são um bando de lerdos.

Ah, ele disse a ruiva! Sou eu! Que emoção! O primeiro passo pra um relacionamento colorido é o garoto reconhecer que a garota existe. Ótimo. Estamos melhorando nossa convivência, Muke Dare.

— É mesmo? E o que o inteligentíssimo filho bastardo de Apolo descobriu dessa vez? — pergunta Nico. Não gosto do jeito irônico que ele diz ‘inteligentíssimo’, caham.

— Oras. O que vocês têm em mente? O Acampamento, porque é onde ficaram sabendo da história verdadeira? Nova York, por causa do Olimpo? Pff, isso é pensar pequeno. Embora eu não esperasse muito mesmo de um filho das trevas.

— Pois é — Nico mantêm a calma, o que é bastante surpreendente — Lembrarei meu pai disso quando você for enterrado.

— Obrigado. Será uma recepção bastante calorosa, creio — a luz do sol bate no rosto de Muke, de forma que seu cabelo parece mais claro e a pele mais bronzeada. Parece um garoto propaganda da Hollister.

— Realmente, as chamas dos Campos de Punição podem ser extremamente calorosas.

— Espero ansiosamente por esse dia. Mas o fato é que você tem que pensar além, dona Morte. A história dessa garota — Muke aponta pra Han, que xinga ele de algo que prefiro não revelar — começou bem antes de você aparecer com uma fantasia de Super-Homem pra levar ela no seu cangote pro chalé dos meios-sangues. Bem antes mesmo. Talvez não a história inteira, mas aquela que ela consegue lembrar. A que eu,com todo meu charme, carisma e sensualidade, consigo lembrar.

— Aposto que você consegue de lembrar de quando fugiu também, não é, Solzinho? — Nico cruza os braços, e Muke faz um gesto de desprezo (reparo que ele faz bastante isso).

— Nah, detalhes. O importante é,lá começou, lá termina.

— Bom, meus parabéns por ter descoberto isso sozinho — diz a deusa-semi deusa — Mas eu já te disse, nunca mais voltarei a Los Angeles. É uma meta de vida evitá-la para sempre.

— É, eu sei. Mas infelizmente, você terá que voltar ao Curral, Punk. Abraham Lincoln Public School of the City of Los Angeles. Bons tempos, aqueles — o filho de Apolo bate os nós dos dedos distraidamente no vidro, e depois suspira — Pois é, dei meu recado, agora para a tristeza de vocês devo deixá-los para procurar uma toalha. Não queremos que a Annabeth apareça no quarto agora e não resista à vontade ardente que eu sei que ela terá de chifrar o Peixe-espada.

Não, pera… Oi???¿¿¿????/?¿¿

— Quer dizer que esse tempo todo você estava peladoconversando com a gente?! — o rosto da Hannah sobre trinta tons na escala de vermelho.

— É, tipo isso — Muke dá de ombros — Bom, foi legal conversar com vocês. Menos com você, Playboy, nosso ódio mútuo deve continuar do jeito que está.

— Acredite Raio de Sol, nesse momento você conseguiu quintuplicar o ódio que eu sinto por você.

— Ótimo. Estamos iguais, então — Muke sorri e logo após se vira, me dando a vista de seu dorso por dois segundos antes de sumir de meu campo de visão.

Eu espero. Espero mais um pouco. Mais um pouco ainda. Espero….. Pronto. Não, ainda não. Espero… Meio minuto. Um minuto. Dois. Ele deve estar longe, agora. Ótimo. Dou um berro, xingando Afrodite de todos os palavrões possíveis em inglês e grego. Se ela já não me ajudava antes, agora vai me colocar na lista dos malvados.

~

Parte II: Point of View - Hannah

Havia uma mesa no centro, com quatro cadeirinhas caindo aos pedaços. Na parede bege estava pendurada uma pintura que parecia ter sido feita por uma criança, de um vale colorido com nuvenzinhas. Alguma coisa estava escrita, mas era num alfabeto que eu não consegui compreender. Tinha também algumas panelas incrivelmente velhas penduradas, o que não fazia sentido porque não tinha um fogão; e a luz do sol iluminava com tanta força o cômodo apertado que deixava a vela acesa no canto um pouco inútil.Da janela se via uma pequena vila, e uma floresta de pinheiros altos. Muito altos. Lá no fundo havia uma construção, mas não soube dizer o que era porque ela mudava de forma toda vez que eu tentava me concentrar em vê-la.

Acho bom ressaltar que eu não fazia ideia de onde diabo estava.

— Olá? Tem alguém em casa? Será que poderia me explicar onde exatamente estou? Não sou uma ladra, juro. Só quero uma informação — andei com cuidado pelo lugar, sem fazer barulho. O que, hm, é meio idiota porque eu estava praticamente berrando para que alguém me visse.

Já que não tive resposta, resolvi abrir uma das portas. Ela não tinha maçaneta, era apenas de empurrar.

— Com licença, desculpe intrometer — falei num tom mais baixo, enquanto colocava a cabeça pra dentro. Tinha uma caminha, e uma espécie de criado mudo com uma jarra de barro em cima — Mas é que não sei onde—

Parei subitamente de falar, com os olhos arregalados.Uma mulher estava caída no chão. O vestido esfarrapado estava rasgado na região do abdome, onde havia um corte que parecia ser bastante profundo. O piso de terra batida estava completamente manchado de vermelho.

Corri cambaleando até ela e pressionei dois dedos em seu pescoço, medindo a pulsação. Estava lenta, muito lenta, e a respiração rápida não parecia estar adiantando coisa alguma. Ela tremia bastante.

— Moça? Moça? Meu Deus — eu sabia que deveria fazer alguma coisa para salvá-la, mas não consigo. Meu corpo não reagia às minhas ordens, apenas ficava cuspindo as palavras — Você está bem, moça? Ah, que pergunta idiota Hannah. É lógico que ela não está bem.

Ela olhou pra mim com dificuldade e tentou sorrir, como se risse do meu desespero. Percebi que ainda estava consciente.

— Moça, você consegue falar? Sabe o que aconteceu? — perguntei, ainda mais desesperada. Se ela ao menos estivesse inconsciente, talvez não sentisse dor. Talvez.

Ela disse algo, quase como um sussurro de tão baixo, e não consegui escutar por mais que não houvesse nenhum outro barulho. Ela percebeu que não compreendi e tentou repetir, o que só levou a uma crise de tosse. Estava perdendo muito sangue.

— Está tudo bem, não precisa dizer — a tranquilizei, embora eu estivesse longe de estar calma — Respire fundo. Não tem problema, eu tinha entendido antes. Juro que tinha.

Ela treme mais, e tosse um pouco de sangue. Imploro que pare, mas antes que eu pudesse impedir, sussurra:

— Sacrifício — amulher olhou pra mim com os olhos marejados e sorriu. Não apenas tentou, ela realmente sorriu. Sua respiração tornou-se mais devagar, ainda mais devagar.. até que parou.

Quando me sentei sobre meus pés e apoiei sua cabeça em meu colo, fiquei completamente suja com esse sangue que não é meu.Senti o queixo tremer, mas não deixei as lágrimas caírem porque sabia que, se os deuses quisessem, ela estaria num lugar melhor agora.

~~

Acordo com a respiração acelerada, abalada pelo pesadelo. Levo alguns instantes para me acalmar e perceber que tudo aquilo não aconteceu realmente. É difícil tirar a imagem da pobre mulher da mente, embora acordada não me lembre de nenhum detalhe de sua aparência além de que deveria ser bela em outras ocasiões menos infelizes.

Concentro-me na minha volta, tentando me distrair. Que horas devem ser? Fiquei acordada até meia noite, sentada na mesa de jantar com Percy, ouvindo sobre a batalha contra Cronos em Nova York. Seriam três horas? Quatro?Nosso quarto está escuro, com as janelas fechadas e cortinas abaixadas. Ainda não amanheceu. Percebo que o trailer está em movimento pelos solavancos, que indicam que graças ao Muke e ao nosso lindo motorista mágico, o Invi, já estávamos a caminho do inferno, também conhecido como Los Angeles.

Sacrifício. O que ela queria dizer com aquilo?

Fico olhando pro teto, escutando o som da respiração de meus coleguinhas.Meu sono, ao contrário de quando fui acordada de tarde, passou completamente. Rolo pro lado, tentando arranjar uma posição confortável. Rolo pro outro. E de novo. De novo. Paro. Como consigo rolar de um lado pro outro? Não era pra eu bater no Nico no meio do caminho?

Estico o braço e tateio o criado mudo até encontrar um interruptor. O abajur emite uma luz muito fraca, mas boa o suficiente para eu ver que ele está sentado na beirada a alguns centímetros dos meus pés. Não está de pijama como da última vez que o vi, antes de dormir, mas sim com jeans e uma camisa preta. Ele apoia o pé na parte de madeira da cama e amarra o cadarço do all star, e pelo jeito que está concentrado, ainda não percebeu que não é o único acordado.

— Nico? — sussurro, tão baixo que quase não escuto minha voz. Mas ele se endireita mesmo assim.

— Hannah? — se vira, com a testa franzida — Você deveria estar dormindo.

— O que está fazendo?

— Nada — sussurra, olhando pros lados, preocupado em acordar mais alguém — São três e meia da manhã. Apague a luz e volte a dormir.

— Não, agora eu quero saber — me sento na cama e abraço meus joelhos, nem um pouco sonolenta. Ele morde o lábio.

— Eu tenho uns negócios pra resolver — apenasmetade de seu rosto está iluminado, de forma que ele tem uma aparência levemente fantasmagórica — Coisa de filhos de Hades.

Silêncio por alguns instantes. Eu me pergunto o que seriam ‘coisas de filhos de Hades’.

— Posso ir com você? — pergunto, com a voz mais fofa que consigo fazer (com muito esforço).

— Não. — nossa, depois a Rachel diz que eu que sou broxante.

Nico anda de forma surpreendentemente silenciosa até o criado para apagar a luz, mas quando ele se aproxima eu seguro seu braço. Ele suspira.

— É uma viagem nas sombras, você pode ficar tranquia. Quando o sol nascer eu já estarei aqui de novo. Então volte a dormir.

Silêncio.

— Deixa eu ir com você.

— Não.

— Por favor! — imploro, um pouco alto demais. Eu e minha (falta de) capacidade de falar sussurrando.

Há um barulho, e nós dois nos calamos. Após alguns instantes assim, imóveis, percebemos que era apenas o Percy murmurando algo sobre um tal de Tyson não poder ter um peixe-pônei na piscina.

— Eu.. — desta vez, realmente sussurro — eu tiveum pesadelo e não consigo dormir de novo. Foi horrível, juro pelo Rio Estige.

— Numa escala de zero a dez, o quão ruim foi?

'Sacrifício'.

— Nove e meio.

— Nove e meio..? — Nico me olha desconfiado.

— Isso mesmo — digo com veemência, tomando cuidado para não exatamente revelar por que era uma nota tão alta. Algumas coisas é melhor nós guardarmos para nós mesmos.

Ele aperta a ponte do nariz, respirando fundo.

— Tá legal.

— Ah, obrigada!

— Mas — é impressionante como sempre tem um ‘mas’ — estou saindo em dois minutos.

Pisco, achando a frase inesperada.

— Por que..

— Não estou brincando — ele me corta, se recostando na parede com braços cruzados no peito — Você tem dois minutos.

Solto um grunhido, eando até minha pilha de roupas amontoadas no canto. Pego algumas aleatórias (ou nem tanto) e fico parada com elas numa mão e meus coturnos na outra, aguardando o benedito me dar licença para que me trocar.

— Consigo ver pela sua cara que está esperando que eu saia — diz, na mesma posição — Bom, não fui eu que tive a idéia que você fosse. Portanto, não sou eu que mudo de lugar.

Eu estreito os olhos.

— Cê tá de brincadeira com a minha cara.

— Pior que não — ele sorri, como se achasse graça da situação.

Olho pra porta do banheiro, resmungando. Parece estar tão longe… Uns vinte passos. Duas camas no caminho, Orchard roncando no chão (alguém pelo visto caiu da cama). É coisa demais. Já o abajur, está praticamente do meu lado. Hm.

Aperto o interruptor, escurecendo quase que por completo o quarto. Noto que ainda há alguns feixes de claridade vindo da janela, mas não consigo enxergar nem mesmo o que está a cinco centímetros de mim.

Meu Deus, olha as coisas que você me faz fazer, di Angelo.

— Não olhe pra mim — digo, as mãos tateando o ar para não bater a cara na parede. Escuto sua risada rouca.

— Deixe de frescura. Tá escuro pra caramba.

Realmente. Chego a tropeçar no Orchard (por sorte, ele dorme como uma pedra. Só resmungou algo em caipirês e voltou a roncar).

— É — resmungo, ficando de pé — Mas de qualquer forma, não olhe pra mim.

Tiro meu pijama e, depois de várias tentativas frustradas por conta do breu e de muitos quase tombos, consigo finalmente colocar meu jeans e uma blusa dos Beatles. Me pergunto se estaria frio lá fora, mas como estou envergonhada demais pela situação, acho melhor não dizer nada em voz alta. Por via das dúvidas, já passo meus braços pelo casaco e fecho-o até o pescoço.

— Os dois minutos acabaram — Nico diz assim que termino de enfiar os pés nos coturnos. Ainda não consigo ver seu rosto, mas pelo tom de voz, percebo que ele está sorrindo quando surge do meu lado e sussurra — É sua última chance pra desistir.

Sorrio quando ele segura minha mão.

— Sinto desapontá-lo, mas não é dessa vez que você passa a noite sem mim.

~~

Olha, se você quer saber, eu deveria ter desistido.

Depois de toda aquela maluquice de ficarmos perdidos no tempo e no espaço no meio da escuridão com ventos frios malditos despenteando meu cabelo, as sombras nos cuspiram no meio de uma estrada. No meio mesmo.

— AH MEU JOÃO DO SANTO CRISTO — dou um grito quando uma carreta do tamanho do cahai vem em alta velocidade em nossa direção. O farol dela me cega, e quando começo a ver os anjinhos da morte cantando ‘se fudeu’,Nico me puxa pela blusa. Escuto os pneus passando a centímetros de meus ouvidos no momento que saímos rolando pra fora da pista.

Quando paramos de dar cambalhotas no asfalto e ficamos esborrachados no acostamento, eu o chamo.

— Que foi? — pergunta, ofegante.

— Existe algum deus das sombras?

— Mais ou menos — ele faz uma pausa para respirar — Tem Érebo, o deus das trevas.

— Da próxima vez que eu vir esse tal de Érebo, darei um chute bem dado na bunda dele.

Ele fica de pé e oferece a mão para eu me levantar. Sacudo a poeira da roupa, tiro a franja da frente do rosto e penteio o cabelo com os dedos. Essas reviravoltas não fizeram nada bem à essa coisa loura em volta da minha cabeça.

Ao lado da estrada há uma vegetação fechada de pinheiros altos, que não me parecem ser nada amigáveis. No momento que percebo que ela se parece com aquelas matinhas de filmes de terror, Nico faz-me o favor de ir marchando em direção a ela.

— Com sua licença, mas estamos no lugar certo? — continuo parada na pista de emergência, com as mechas balançando quando algum carro passa a 200 por hora, sem a mínima vontade de segui-lo.

— Aham. Aliás, quase. Na teoria a sombra deveria ter nos deixado alguns metros à frente, mas ao menos são só alguns minutos de caminhada.

Eu tinha duas escolhas, ficar parada na beira da estrada esperando ser morta por uma carreta desgovernada ou seguir o filho do deus dos Mortos até floresta da perdição. Dúvida cruel.

Vamos mato adentro, tomando cuidado com galhospontudos na direção de nossas caras. A medida que nos afastamos da rodovia, a poluição sonora de buzinas e pneus dão lugar aos sons bizarros de natureza, e como as árvores têm copas muito altas, a luz vai se tornando escassa (maldito Érebo).

— Nico, tá escuro — digo em tom de emergência. Embora ele esteja bem na minha frente, andando calmamente como quem anda no shopping, o fato de não conseguir ver o que tem a alguns metros de nós me incomoda. Também, os sons de grilos e corujas não ajudam muito na minha postura.

— Vai dizer que a deusa das nuvens e da música tem medo de escuro?

— Não medo. É só que gosto de ver por onde ando. Para não me escafeder em algum buraco no meio do caminho, sabe. — ele ri um pouco.

— Fica calma, é só me seguir.

Desvio de uma grande raiz em cima do solo, que certamente me faria quebrar todos os dentes.

— Como você sabe onde está indo?

— Filhos de Hades enxergam bem no escuro.

Paro de andar subitamente. Enxergam bem no..

— Como disse?

— Quero dizer, não é que eu enxergue no escuro — explica — Só vejo um pouco a mais que pessoas comuns,sabe?

Digo ‘aleluia’ mentalmente, mastentando manter a expressão facial a mais neutra o possível.

— Entendo. Habilidade interessante.

— Interessante mesmo. Ah, a propósito, bem legal sua blusa dos Beatles — Nico sorri debochado e volta a andar, tirando alguns galhos do caminho.

Olho pra baixo. Meu casaco listrado cobre totalmente a estampa do Lennon e companhia.

Ai meu Deus.

Nico di Angelo!Isso é uma falta de vergonha! Uma afronta contra meu ser! — grito, com as bochechas fervendo. Ele solta uma gargalhada, mas continua andando — Não vire as costas pra mim, volte aqui neste exato momento!

— É.. Nico?

Não, ele não voltou.

— Pelamor não me deixa aqui sozinha, caramba! — berro, e saio correndo atrás do infeliz. Quando o alcanço, o encaro com uma cara tão feia que se Afrodite visse, certamente me exorcizaria.

— Primeiro, você viola minha privacidade —dou ênfase em privacidade,com o rosto certamente bastante vermelho—, e depois me deixa sozinha pra morrer na floresta da perdição! Não tem graça nenhuma.

— Oras, não estou rindo — diz na defensiva, encolhendo os ombros — Ao menos, não estou demonstrando.

Chegamos ao limite da (miniatura de?) floresta, e a luz azulada da lua me permite enxergar onde piso novamente. Na nossa frente havia uma grade cinza alta, que parecia ser da idade dos deuses (sinto muito Zeus, mas aceite o fato de que você évelho). Depois dela, tinha o que eu deveria ter suspeitado desde o início, mas por ser lerda não suspeitei.

— Um cemitério? — pergunto, observando as lápides e estátuas aos pedaços — Por que um cemitério?

Nico se move até um portão que range ao ser aberto.

— Quando não posso ir no Mundo Inferior pessoalmente, o único jeito de falar com os mortos é fazendo uma oferenda em uma cova. Buracos comuns também funcionam, mas covas são melhores.

— Hum. Bastante alegre essa vida com os mortos.

Ele dá de ombros.

— Com o tempo você se acostuma.

Quando seguimos pelo caminho irregular de cimento, reparo nas inscrições das lápides dos falecidos. “Um bom pai, bom marido, bom filho”, “para sempre em nossos corações”, “o Céu tem mais um anjo agora”, etc. De tantos epitáfios diferentes, há uma semelhança em quase todos – os locais de nascimento são, em sua maioria, Washington DC.

Lembro-me de Nico dizendo que a mãe era italiana, mas ele e a irmã eram da capital dos Estados Unidos. Olha só, acho que descobri com quem ele quer falar.

— Estamos na sua cidade, não estamos?

— É. Ou ao menos, no caminho pra ela — o filho do deus dos Mortos suspira — Muita gente não se sente confortável com seus mortos perto de suas casas, então quanto mais longe da cidade eles forem enterrados, melhor.

É, mas pela cara de satisfação que ele faz ao achar uma cova aberta (sem defuntos, obrigada), imagino que não compartilhe desse sentimento.

— Você vai pular aí dentro? — indago, encabulada. Nós estávamos na beirada do buraco, desrespeitando as típicas normas de proibido pisar na grama.

— Pular? Não, não — ele abre um pacote de M&Ms tirado do bolso e despeja os chocolates coloridos no buraco — Isso seria constrangedor.

Me pergunto por que os mortos precisam de M&Ms pra ressurgir, mas chego à conclusão que se estivesse no Elísio, só sairia de lá por comida mesmo. Ou pelo Ian Somerhalder. Os dois meio que são a mesma coisa.

Nico fecha os olhos e começa a murmurar algo em outra língua, que não faço ideia se seria italiano ou não. Sua expressão está tensa, o que me faz pensar que talvez dizer essas palavras não seja tão fácil quando parece. O vento bate mais frio contra meu rosto, o que me faz encolher os ombros e dar graças por ter trago o casaco. A claridade da lua diminui um pouco, como se várias nuvens estivessem a tapando, e a névoa que surge enroscada em nossas pernas em pouco tempo aumenta e embaça minha visão. É a primeira vez que o vejo usar as habilidades hadizantes para se comunicar com os mortos, mas me parece ser um momento de extrema concentração.

— Ô, Coveiro.

Nico franze a testa e abre os olhos.

— Que foi?

— Vou observar os túmulos enquanto você termina as macumba — ele pisca, um sem entender — Volto quando terminarem de conversar.

— Mas..

— Não quero atrapalhar você e sua irmã. Vocês não têm muito tempo juntos.

O indivíduo parece refletir alguns instantes. Mesmo que ele negue, sei que seria muito incômodo para os dois eu fuçar a conversa. E também, as chances de eu tropeçar e cair no buraco eram grandes.

— Bom, você que sabe. Mas fica por perto. Caso apareça algum pedófilo, grite.

Ele fecha novamente os olhos e volta a recitar seja-lá-o-que-for de chamado à Bianca. Fico mais alguns segundos, observando, até que a névoa parece mais densa. Percebo que Bianca está a caminho, e então me afasto pelo caminho de cimento. Por mais que minha vontade de conhecê-la seja grande, eles realmente precisam de um tempo a sós.

Ao contrário dos cemitérios de filmes, este onde me encontro não é aterrorizante ou perturbador. Não fico com temor de uma alma penada aparecer na minha frente. Não me assusto com os mausoléus, altos e quebrados pelo tempo. Não fico com medo de uma mão surgir e puxar meu pé quando me sento de pernas cruzadas num banco de madeira ao lado do túmulo de uma tal Johanna White. A frase de Nico volta à minha mente: Muita gente não se sente confortável com seus mortos perto de suas casas.Acho que as pessoas temem tanto os cemitérios porque sabem que, um dia, elas que estarão lá. Evitando tudo que lembre o Hades, elas evitam pensar que ele chega para todos, mais cedo ou mais tarde.

Não sei se deveria ficar agradecida ou não, mas esse sentimento não me atinge. Sei que, a partir do momento que a Clave estiver completa, serei imortal.

— Presa nessa metamorfose ambulante dos treze para sempre. Que beleza. — me deito no banco, sem muitas ideias de como passar o tempo.

Acabo olhando para céu estrelado por alguns minutos, encarando nuvenzinhas escuras que pairam uns bons metros acima de mim. Hm, será que eu conseguiria fazer algo legal com elas? Tipo um raio? Não, não é uma boa ideia. Há duas possíveis consequências: a primeira, acabo me fritando sem querer. A segunda, acabo fritando o Nico sem querer, o que não seria muito agradável. Ele me dariaum pé na bunda tão grande que eu atravessaria o país e pararia em Seattle. Melhor arranjar algo menos perigoso.

Coloco-me de pé, determinada a encontrar algo emocionante a fazer. Depois de bater muita perna, encontro ummausoléu de aparência bastante antiga. A pedra está esverdeada, e não é mais possível ler o nome da pessoa homenageada. Ele não é muito alto, talvez bata nos meus ombros, e em cima dele há uma estátua empoleirada de um anjo.

Observo-a com curiosidade. O anjo de pedra tem aparência de um homem em seus vinte e poucos, e me parece ser azulado por causa do luar. O cabelo foi esculpido como comprido e enroladinho, ao estilo querubim, e emoldura a face de feições rígidas. Ele usa uma toga de estilo bastante grego, mas apesar disso o que mais me impressiona são as asas, lindas e negras como a noite. Elas são enormes, ainda mais do jeito que estão abertas, como se ele estivesse acabado de pousar do vôo. Admiro o trabalho do escultor pois além de bastante realista, é muito bonito.

Fico na ponta dos pés e estendo a mão para tocar as asas, que realmente me chamam a atenção. Porém, no exato instante que meus dedos encostam nela, percebo que não é pedra. Não são esculpidas. São penas de verdade. Ando lentamente para trás, processando informações. Tipo… oi? Penas? Olho para o rosto do anjo. Tem a mesma expressão rígida de antes, com apenas uma diferença.

Sabe aquela história de que eu não tinha medo desse cemitério? Pois é. Acabou. Desintegrou. Escafedeu a poha toda. No momento que observo seu rosto e seus olhos castanhos piscam, olhando diretamente para mim, percebo que conhecer Bianca talvez teria sido uma melhor opção.

Notas finais do capítulo
É, eu adoro finais de suspense. MWAHAHAHA Mas não é tão sem noção quanto parece, juro. No próximo vai fazer sentido :3 Ah, gostaria de fazer algumas pequenas perguntas a vocês, queridas leitoras (me desculpe se eu tiver algum leitor, por acaso). É só uma mini enquete para melhorar a fic, então seria bem legal se vocês me dessem só um minutinho :D 1- Qual ''ponto de vista'' vocês preferem? Algumas já me falaram que gostam dos pov's Rachel, mas não sei se é maioria. Lógico que não farei só dos preferidos, mas posso dar prioridade a eles! *carinha fofa* 2- A fic não está exatamente no final, mas estamos caminhando para ele... E eu tive, assim, uma ideia..... Uma espécie de continuação. Com os mesmos personagens e também alguns novos.. Vocês gostam da ideia? Eu estava só pensando por enquanto, mas acho que daria pra desenvolver bem! E eu não aguentaria escrever outra fic sem as loucuras da Han e caipirices do Orchard, é um fato. E a terceira pergunta, que depende da segunda... 3- Caso a ideia de continuação agrade a vocês, seria legal um ano depois, ou alguns anos a mais? Quando o Nico estiver com 16/17, por exemplo. Me gusta bastante essa ideia deles mais velhos, mas fica a critério de vocês :3 Obrigada pela atenção, gente! Eu gostaria de tentar deixar a fic bem do jeito que vocês gostam! *carinha fofa²* Hasta la vista! o/




(Cap. 28) Amo você, você me ama, somos uma família feliz - I

Notas do capítulo
Olá pessoas! Não consegui cumprir minha meta de um mês dessa vez D: era pra eu postar na sexta feira (29), mas com correria de fim de ano escolar acabei atrasando dois dias. Mas o triste é que ficou comprido demais, a ponto de até eu ficar com preguiça de reler G-G resolvi fazer em duas partes, no fim. Isso quer dizer que... amanhã sai parte II! YEEEEEEY ~le serpentina Boa leitura!

28. Amo você, você me ama, somos uma família feliz - parte I

Point of View – Nico di Angelo

A coisa mais estranha quando falo com Bianca pelo Mundo Inferior é que, por mais que sua aparência seja de um fantasma, ela não nunca muda o seu jeito de irmã mais velha. Dessa vez que a chamei num cemitério próximo de nossa cidade, Washington, não foi diferente, começando pela aleatoriedade da primeira pergunta:

— O senhor está comendo vegetais, Nico?

— Hoje em dia existe uma coisa chamada McDonalds, Bi. Muito melhor pela metade do preço.

E então ela me xingou em italiano. Amor fraternal é realmente lindo.

Como não tínhamos muito tempo, conversamos o que chamamos de 'básico'. Bianca contou sobre as novas dos Campos Elíseos (“tirando ter que assistir a Silena e Charles se beijando quase que todos os dias, tudo vai bem, obrigada”) e sobre papai (“ocupado com torturas de almas condenadas”), e ela perguntou como ia o pessoal no Acampamento. Foi então que contei que, er, como explicar, eu meio que tinha sumido de lá nas últimas semanas.

Expliquei a história da busca, e ela pareceu bastante interessada (“ah meus deuses tinha uma deusa perdida todo esse tempo e eu não sabia?! As pessoas acham que só porque a gente morre, não pode saber das coisas?”). Lógico que omiti alguns.. detalhes, comoeu e Han estarmos num estágio levemente liberal da nossa amizade. Além de eu não ser um cara lá muito chegado a conversar sobre essas afroditagens da vida, esse é um tópico que ainda me deixa de certa forma desorientado. Desculpa aí, mas fico mais perdido que cego em tiroteio com relação à Han.

Mas enfim, o caso é que não admiti pra Bianca que seu irmão mais novo está um pouco mais velho do que imaginava.

— Quem diria — ela ri pelo nariz — meu pirralho é mais eficiente que os doze do panteão para achar uma deusa na Costa Oeste.

Dou de ombros, ignorando o vento frio que bate nas minhas costas.

— Algum deles dificulta todo o processo. E pelo que passamos até agora, não vai desistir até que ela suma outra vez — respiro fundo, me lembrando da dona Euterpe das flauta no museu em Seattle chamando Hannah de 'vadia' — Não sabemos quem é, mas.. Espero que descubramos antes que as coisas desandem.

Bianca balança a cabeça, como se não aceitasse a hipótese de tudo dar errado.

— Vocês vão conseguir, bambino. Vai dar tudo certo.

— Ah, eu sei que vamos — afirmo — Ninguém é páreo para di Angelo.

Minha irmã ri e estende o braço, mas não sinto seu toque no meu rosto.

— Você está diferente — diz.

— Diferente como?

— Parece mais feliz do que da última vez que nos falamos. E está sorrindo mais.

— Talvez. Não reparei — encolho os ombros, inocentemente, e Bianca cruza os braçios com uma expressão desacreditada.

— Me responde uma coisa, Nico. Você tem alguma coisa com ela, não tem?

Fico atordoado pela mudança repentina de assunto.

— Quem?

— A filha de Zeus.

Ah. Ah.

— A Hannah? — passo a mão na nuca, acanhado — Ela é ótima, mas.. Não.

Sua forma esbranquiçada tremula e fica menos nítida, dando a impressão que minha conexão com o Mundo Inferior estava caindo. Mas pelo visto, a Névoa está a nosso favor.

— Com licença, mas conheço você. Sei quando está mentindo.

— Não estou mentindo.

— É, está omitindo. Tem que ter um motivo para você mudar tão de repente.

Bianca! — falo um pouco rápido demais, o que creio não ter ajudado.

— Ahá! Ficou vermelho, é fato.

Aperto a ponte do nariz, irritado. Não sei a situação da minha cara, mas como sinto as bochechas quentes mesmo com o vento batendo contra elas, acredito que tenham me delatado. Malditas bochechas.

— Podemos mudar de assunto, por favor?

— Hm, tudo bem. Serei uma irmã legal, só dessa vez.

— Ótimo.

— Como os quatorze anos têm tratado você?

Ah sim, talvez valha a pena ser comentado: a razão por estar falando com Bianca justamente hoje, no meio da busca, é que era meu aniversário. Nessa segunda-feira monótona, 28 de Janeiro, eu oficialmente deixei os treze para os quatorze. Um pequeno passo para o homem, um passo menor ainda para mim porque sinceramente, não tem diferença nenhuma entre treze e quatorze. Se alguém te disse que tinha, sinto lhe dizer que essa pessoa estava mentindo.

— Muito bem, até agora. Do mesmo jeito que os treze, doze..

Mas mesmo eu não vendo tanta diferença nas idades, havia o lado bom. Esse era o presente que Hades me dava todos os anos — conseguir trazer minha irmã, mesmo que só um pouco, para o mundo dos vivos. Não é muita coisa, no máximo meia hora em 365 dias. Mas para o pai não tão generoso que ele é, já é um feito e tanto.

— Agora você é fisicamente mais velho que eu. Inacreditável — Bianca me olha estupefata — Se me dissessem que isso ia acontecer enquanto estávamos no colégio militar, nunca acreditaria.

Só então, reparo que estou uns bons centímetros mais alto que ela, que continua presa a imagem de doze, com o uniforme das Caçadoras e a aljava do arco e flecha preso às costas.

— Então na teoria, eu sou o mais velho.

— Com licença, mas até mesmo quando você tiver filhos, ainda será meu irmão mais novo. Aceite esse fato.

—Valeu a tentativa.

Um dos postes próximos a nós pisca a luz, e a forma fantasmagórica de Bianca sai de foco por um segundo. Jeitos práticos de Hades dizer tempo esgotado, pirralhos.

— Acho que papai não quer você tempo demais aqui em cima — murmuro, sabendo que, dependendo do humor de nosso pai, teríamos agora cinco minutos ou cinco segundos.

— É.. — ela respira fundo, embora não precise respirar — Foi bom te ver de novo, irmãozinho. E feliz aniversário, porque não é todo dia que se faz quatorze.

— Como se eu tivesse feito treze mais de uma vez.

Bi pigarreia.

— Resposta errada.

Faço que sim com a cabeça, tirando o cabelo da frente do olho logo em seguida.

— Obrigado. Foi bom te ver também, Bi.

— De nada. E aqui, você vai me apresentar à Hannah algum dia. Não vai?

Pelo amor do santo Hades, ela não se esqueceu.

— Adiarei esse dia o máximo possível — respondo com sinceridade.

— Por quê? Algo de errado com a garota que tirou o bv do meu irmão mais novo?

— Não é nada de errado, é só que.. — a ficha cai e sinto o rosto queimando novamente. Ela é algum tipo de Oráculo, por acaso? — O quê? Ah! Ade benedetto, Bianca! — solto o 'santo Hades' em italiano sem querer, e pela gargalhada alta que ela solta, percebeu que a conclusão que ela tirou era real.

— Como eu sinto falta de pegar no seu pé vinte e quatro horas por dia.

A imagem de minha irmã se torna cada vez mais translúcida, de forma que consigo ver o que há atrás dela com mais nitidez. Ela para de rir, sabendo como eu que Hades não estava gostando da nossa despedida prolongada.

— Então, espero que não suma — diz, e balanço a cabeça negativamente. Ela dá um sorriso fraco — Eu te amo, Nico.

— Também te amo, Bi.

Minha irmã me abraça, mas no momento que entra em contato com o calor de meu corpo, ela vira névoa e desaparece. Suspiro quando sinto a brisa fria contra meu rosto. Nossa conexão termina, por hoje.



Depois que a evocação termina por completo, fico com uma missão um pouco mais difícil. Achar a Hannah.

Rodo algum tempo pelo cemitério, observando a paisagem morta enquanto corro os olhos por ela em sua procura. A névoa fraca que paira no ar, as lápides quebradas azuladas pela luz da lua, toda a atmosfera de filme de terror não me incomoda, na verdade chega a me dar a sensação de estar em casa. Uma característica engraçada — o que assusta os comuns, me deixa extremamente confortável.

Encontro a benedita alguns túmulos depois. Han se posiciona alguns metros à minha frente, perto de um memorial, e encara algo no topo dele que graças a uma árvore não consigo enxergar. Ela dá um passo para trás devagar quando uma voz masculina soa:

— Não era minha intenção. Devo dizer desculpas por isso.

Opa. Fala de pedófilo.

— Eu lá sei quem você é, por acaso? — diz Han com a voz não exatamente calma, ainda sem perceber que eu estou parado do seu lado.

— Algum problema aqui? — pergunto desconfiado, e ela dá um pulo.

— Ah meu Deus, Nico! Quer me infartar também?

A figura sombreada empoleirada no topo do memorial salta e pousa na nossa frente. É um homem jovem alto, de pele escura e cabelos encaracolados. Ok, normal, tirando o fato que ele tem um par de asas negras nas costas.

?

— Tânatos? — pergunto, intrigado. O deus da morte abaixa a cabeça num cumprimento.

— Di Angelo. Que coincidência ver você... com ela — ele aponta com o queixo para Hannah.

Olho ressabiado para o indivíduo. Com o tanto de deuses indo para o lado negro da força, até mesmo um servo de meu pai seria suspeito.

— O que faz aqui a essa hora? — indago de forma acusadora — Achei que estivesse ocupado demais com as almas.

Tânatos apoia as costas no memorial e cruza os braços sobre o peito.

— Realmente, meu trabalho não anda fácil ultimamente. Guerras no Oriente Médio, enchentes no Brasil, nevascas na Noruega... Vez e outra tenho que parar nos cemitérios próximos para dar uma checada na lista.

Um tablet preto surge na frente do deus e ele começa a rolar a tela. Já estou acostumado em ver essa cena, mas Hannah parece perplexa.

— Você tá brincando que usa Apple pra contar as vitimas.

— Isso é porque a senhorita não sabe o quando eu sofri com listas de papel. Pareciam papiros egípcios de tão indecifráveis. Assim, minha vida fica muito mais prática — ele vira o tablet e vejo a foto de um inventor famoso, que já passou dessa para melhor há alguns anos.

Arquivo de semideuses 2011.
Nº 153.518.471 – Steven Paul Jobs, filho de Atena.
Nacionalidade: Americano.
Local de morte: Palo Alto, Califórnia, Estados Unidos da América.
Causa: Câncer.
Situação: Entregue – atualmente em Campos Elíseos.”

— Como vão os nomes dessa semana? — pergunto, e ele vira o tablet de volta para si.

— Interessantes — Tânatos me responde sem tirar os olhos da tela — Bem interessantes.

Silêncio.

— Interessantes como?

Ele levanta a cabeça e olha para nós.

— Um dos homens do congresso americano terá uma infarto daqui a três minutos e vinte e sete segundos.

Nossa. Bastante preciso esse negócio.

— Por isso você está em Washington — deduzo.

— Exatamente. Mas não por muito tempo — o tablet some de suas mãos — Irei levá-lo até seu pai, com suas licenças — ele faz um cumprimento com a cabeça em nossa direção — Di Angelo. Nebavskaya.

Suas asas se abrem e com um impulso, Tânatos se eleva metros no ar e voa em direção à casa do moço do congresso. Fico parado onde estou, em choque.

— Isso foi... isso foi meu.. sobrenome? — Hannah diz perplexa.

A revelação do suposto nome de família da Han também me deixa atônito. Eu nunca tinha pensado na possibilidade de ela ter um sobrenome, mas provavelmente Tânatos a conhecia antes de sumir. Todo esse tempo nos perguntando onde e quando ela teria nascido, e deixamos nossas respostas saírem voando pra parte nobre de Washington. Talvez Annabeth teria sido mais útil que nós agora.

— O que foi que ele disse? Ne, Neba..? — pergunto, com certa dificuldade em pronunciar as consoantes juntas da palavra. Definitivamente não é inglês.

— Nebavskaya — pronuncia como se fosse fluente, sem tropeçar. Ela arregala os olhos azuis pra mim — De onde será que é isso?

— Não faço a mínima ideia — balanço a cabeça. Parece finlandês pra mim cara, pode ser qualquer coisa — Mas não é nem inglês nem italiano, é o que posso dizer com certeza.

Ando para longe do mausoléu e me sento na grama perto do túmulo de um tal Michael Cipriano, pensativo. É realmente uma revelação e tanto. Rachel tinha razão quando disse que estávamos quase solucionando a busca.

— Maldito Tânatos, vai me deixar encabulada com isso — suspira Hannah, se sentando do meu lado. Mas com certa distância dos túmulos, observo — Me pergunto como é que ele sabe disso.

— Os deuses já te conheciam antes de algum deles chutar sua bunda pra fora do Olimpo. Devem saber mais da sua vida que você mesma — ficamos em silêncio por alguns minutos, escutando apenas o som dos grilos e dos carros buzinando muito ao longe.

Estamos sentados na grama úmida de um cemitério e certamente parecendo mendigos, mas não havia nenhum outro lugar que eu preferia estar. É a milésima vez que passo a madrugada num cemitério mas a primeira que tenho companhia, e até agora eu estava apreciando bastante a experiência.

— Olha, sem querer cortar esse nosso clima de respirando o mesmo ar que os mortos — Hannah quebra o silêncio —, mas será que não seria hora de voltarmos? Annabeth é um pouco sonâmbula as vezes. Não seria legal se ela acordasse e achasse que fomos sequestrados.

Suspiro. Hora de encarar a realidade outra vez.

— Vou chamar nossa carona. Ela pode levar alguns minutos pra chegar.

Han, que já estava quase que de pé, se senta novamente.

— Carona? — ela franze a testa — Achei que fôssemos pelas sombras.

— Não, não. Não posso fazer mais que uma por dia, ainda mais carregando alguém junto. Ficaria três dias dormindo — acredite, tenho muitas experiências ruins pra provar.

— Seria divertido. Poderia até se candidatar pro papel de Bela Adormecida na Broadway.

— Haha, muito engraçado — reviro os olhos — E você poderia ser a bruxa esquisita de João e Maria que come crianças.

— Ei! Poderia ter me colocado como Rapunzel — ela joga o cabelo pra trás como num comercial de shampoo — Faria mais sentido.

— Com essa sua cara, não.

Hannah estreita os olhos.

— Cale a boca e chame logo a porcaria da carona.

Sorrio de lado, e balanço a mão no ar na minha frente. Devo estar parecendo um doido, mas faz parte do ritual.

— Senhor Hermes, deus dos mensageiros, dos ladrões e dos viajantes, eu lhe peço seus serviços.

— Hermes? — ela pisca, sem entender, e coloco o indicador nos lábios indicando silêncio. Ela se cala relutante.

— Eu, Nico di Angelo, filho do deus dos mortos, necessito uma entrega urgente até a costa oeste dos Estados Unidos, na interestadual que liga Seattle a Los Angeles, no estado do Oregon — nesse momento, Hannah já está sussurrando 'você está louco?' — Por favor, peço que faça esse serviço para mim em troca de dracmas.

Pego um dracma do bolso, previamente colocado ali quando planejei minha volta, e o jogo para frente. Quando a moeda some antes de tocar o chão, percebo que minha encomenda foi aceita.

Viro-me para Hannah, que ainda me olha como se eu fosse louco.

— Pronto, carona arranjada. Só esperarmos alguns minutos — bato uma mão na outra, como se tirasse a poeira. Ela balança a cabeça, descrente.

— Acho que o ar de cemitério está fritando seus miolos.

— Ah, por favor. É melhor que a ideia da Bela Adormecida.

— Não, definitivamente não é melhor que a ideia da Bela Adormecida! Isso não é proibido? No correio de Los Angeles é, ao menos.

Me pergunto como é que ela sabe disso. Deve ter experiência em mandar os corpos das vítimas dos Pra Matar pelo correio.

— Só é proibido se nos pegarem fazendo.

— Ah — ela ri ironicamente — Ah, me sinto muito mais aliviada agora. Obrigada, Nico.

— Oras, o que aconteceu com a garota rebelde que quebra as regras?

— Ela morreu — Hannah diz, séria — No exato momento que descobriu que teria que atravessar o país dentro duma caixa, empacotada com um filho de Hades louco, sendo jogada numa esteira de cartas que nem presunto!

Oi?

— Olha, que eu saiba, Hermes parou de prestar serviços pra Hera faz alguns meses.

Ela tenta manter a expressão séria, mas acaba não resistindo e começa a rir. Cara, se quer saber, a risada dela é muito engraçada. É daquelas altas. Muito altas. E sabe aquelas pessoas que riem tanto que param de respirar e quando vão puxar o fôlego de novo fazem algo muito estranho, parecido com um ronco? A famosa 'risada de porco'? Então. A Hannah ri assim.

Ah meus deuses. Ela ri exatamente assim, e minha frase nem era engraçada. Tentei me manter sério também, mas foi demais até pra mim. Seguro a barriga, não aguentando mais a dor de rir. Ela tenta parecer brava, mas não consegue parar também.

— Di Angelo, não ria da minha cara!

— Não estou rindo da sua cara, estou rindo de você roncado que nem uma porca tendo um filho.

Ela enxuga uma lágrima que corre pela bochecha com as costas da mão.

— Não é verdade.

— Se não é um porco tendo um filho— falo do jeito mais sério que consigo, tentando me acalmar — É fazendo um, então.

— Ah meu Deus! — ela chora de rir de novo, caindo de costas na grama — Não aguento mais, eu me rendo!

— E você acha que eu aguento isso? — caio deitado na grama também, ainda rindo. Era a primeira vez que eu ria de verdade a anos. Talvez Hannah fosse a segunda pessoa a me escutar tendo crises de riso em toda minha vida.

Depois do que podem ter sido minutos ou horas, conseguimos recuperar o fôlego. Encaro o céu carregado de nuvens, tentando entender como fomos de ‘burlando os correios’ a ‘porcos tendo/fazendo filhos’.

— Tá vendo, minha ideia do correio foi bem melhor.

— Verdade. Ela me deu o privilégio de escutar sua risada. Esse dia virou um marco na minha vida.

— Até porque minha risada é linda — curvo os cantos da boca pra cima discretamente. Ou nem tanto.

Ela se apoia nos cotovelos e olha pra mim.

— Oh meu Deus, isso que vejo.. são seus caninos? Você está sorrindo?— tento manter a expressão séria, mas isso só me faz sorrir mais. Maldição. — Você está sorrindo! Milagre, um sorriso de verdade! É isso mesmo, produção?

— Você diz como se fosse algo especial — reviro os olhos.

— Lógico que é — diz, como se fosse óbvio — Achei que teria que esperar anos pra ver você sorrindo de verdade.

Apoio a nuca nas mãos, ignorando a grama molhada embaixo de mim.

— Se é assim, ria mais feito um porco sempre que estivermos juntos. Acredite, vai funcionar.

Ela chuta de leve minha canela. 'De leve' entre aspas, na escala Han, entenda.

— Idiota.

Corro os olhos pelas poucas constelações não embaçadas pelas nuvens, tentando identificar alguma. Não sou muito bom com estrelas, mas tenho certeza de que vejo algumas em forma de uma garota correndo pelo céu com um arco e flecha nas mãos. Zöe. Caramba, quanto tempo faz isso. O Nico daquela época nunca imaginaria que um dia estaria aqui. Eu era tão inocente, com dez anos apenas..

Fico sentado outra vez, ficando levemente tonto por alguns instantes.

— Eu comentei que hoje é meu aniversário? — pergunto, sabendo que a resposta seria não.

— Oh meu Deus, não! É sério? — faço que sim com a cabeça, e ela se levanta — Parabéns!

Hannah me abraça, e sinto que ela tem cheiro de chuva. Annabeth certa vez me dissera que Zeus e seus filhos têm o mesmo cheiro das tempestades, que na verdade é o cheiro do ozônio liberado nas descargas elétricas, vulgo raios. Ela também disse que ozônio é tóxico, então provavelmente eu estava ferrado.

— Obrigado — digo um pouco relutante. Não importa o quanto eu esteja menos introvertido, contato físico sempre será algo estranho pra mim, por mais que eu goste. Acho que Han percebe, porque se afasta novamente.

— Por que não me disse antes?

Passo a mão pelo cabelo, sem jeito. A verdade é que eu não gosto muito de aniversários. Para os mortais pode ser mais um ano que se viveu, mas para mim é um ano a menos que vai se viver. Opiniões felizes de um filho do deus dos mortos.

— Não sou muito fã dessa coisa de parabéns.

— Hum. Terei que encontrar algo de presente pra você em cima da hora, então.

— Ah, por favor. Não se dê ao trabalho — pego uma mecha de seu cabelo e fico brincando com ela distraidamente. Percebo alguns fios roxos e azuis misturados entre os loiros.

— Mas é lógico que vou me dar ao trabalho.

Me pergunto onde diabo ela teria achado tinta pra cabelo no meio da busca. Em nenhum momento me lembro de termos parado num salão ou em algum Walmart da vida. Mas se tem algo que aprendi nesses últimos anos, é que não se deve fazer esse tipo de pergunta às mulheres. Elas te olham como se você fosse retardado e dizem que a resposta é óbvia.

'Internet'.

— Não, sério mesmo — respondo, sobre meu suposto presente de aniversário — Eu não faço questão. É só um dia normal pra mim.

Hannah segura meu queixo.

— Você não vai me impedir — ela se aproxima, e sinto que o presente era algo menos material do que eu esperava.

Sua respiração está quente contra minha boca e suas unhas arranham meu queixo, de forma que mordo o lábio para conter o impulso de me curvar cinco centímetros a mais pra frente. Das três vezes que nos beijamos, duas foram por causa da Han e só a primeira foi iniciativa minha. E isso graças ao Muke, que me deixou num estado ~estranho de embriaguez, achando que tudo era um sonho. Ou seja, eu não estava lúcido. O que nos leva à conclusão: eu nem me lembro.

Só que hoje, como ela falou sobre presente e tal, eu me esqueço do meu orgulho de macho ferido e contenho meus instintos. Nós teremos muito tempo para eu sair da linha. Hoje, como aniversariante, me dou ao luxo de ficar parado onde estou e deixar que ela me beije.

Mas nós não contávamos com uma coisa. Hermes.

Um portal para o correio olimpiano é aberto no ar, e do outro lado vê-se esteiras como as de aeroportos; várias linhas interligadas que levam qualquer coisa até o outro lado do mundo. É brincadeira com a minha cara. Não é?

— Parece que sua carona chegou, Penadinho — Hannah dá um tapinha na minha bochecha, e se coloca de pé. Me levanto também, resmungando bastante em italiano. Timing perfeito, Hermes. Está de parabéns.

— E aquela história de 'você não vai me impedir?' — pergunto.

— Oras, eu não disse nada sobre 'o correio não vai impedir'. Mas você achava que eu ia beijar você como presente? Por favor — ela faz um gesto de desprezo com a mão — Que coisa mais brega.

— Poderia ser brega, mas não seria exatamente ruim.

Para minha surpresa, Hannah fica levemente vermelha nas bochechas.

— É, é. Enfim. Arranjarei algo mais interessante, me aguarde.

Passo a cabeça pelo portal e observo a situação. De acordo com Connor e Travis Stoll, crias do deus dos mensageiros, o transporte de semideuses no Correio Olimpiano só é proibido se alguém te pegar fazendo ele. Como não vejo ninguém por perto, sem problemas.

— Damas primeiro — faço um gesto antiquado e Han se direciona calmamente até o portal, mas quando está quase passando por ele, me lembro de um detalhe — Hannah.

A filha de Zeus vira pra trás, com as sobrancelhas levantadas.

— Hum?

Leggiadra quer dizer graciosa.

Ela parece perplexa por alguns instantes, mas se recompõe com facilidade.

— Vamos antes que Hermes chute nossa bunda — fala, e me puxa pelo braço até o portal.

Notas finais do capítulo
Ok, vocês podem estar se perguntando o que diabo 'amo você você me ama somos uma família feliz' tem a ver com a história, mas isso veremos melhor na parte II askfjhaskjfh aliás, só lembrando, sai amanhã! YEEEEEY E sobre a enquete previamente feita no capítulo anterior, sobre a continuação, eis os resultados ~voz de locutor de mega sena~: será alguns anos depois da busca, quem sabe três ou quatro. EHEHEHEH Então, vejo vocês nos reviews? :3 não é preciso fazer um testamento, só um 'gostei' (ou uma crítica construtiva) já me deixaria imensamente feliz! Até porque não sei se todos que acompanham continuam lendo :x Até amanhã, pessoal!




(Cap. 29) Amo você, você me ama, somos uma família feliz - II

Notas do capítulo
Olá gente! Como prometido, aqui está a parte II! Espero que gostem :D

29. Amo você, você me ama, somos uma família feliz - parte II

Point of View — Nico di Angelo

Semideuses costumam ter sonhos com premonições de eventos passados e futuros, então eu não estranhei quando, depois de voltar do cemitério de Washington e me dar ao luxo de finalmente ir dormir, sonhei com pessoas que nunca vi na vida.

Era uma salinha bege, com uma mesa de madeira puída no centro e algumas cadeiras aos pedaços em volta, e havia um cara e uma mulher brigando. O cara usava um sobretudo, como se estivesse muito frio, e um chapéu felpudo esquisito. Ele gritava com a moça, que usava um vestido muito simples, numa língua que eu não conseguia entender. Ela gritava de volta com ele na mesma fala incompreensível e chegava a empurrar o cara, com raiva, algumas vezes. A única coisa que entendo na conversa é quando, no meio de uma frase gritada, o cara chama a mulher de 'Nebavskaya'. O mesmo nome de família que Tânatos usara pra se despedir de Hannah.

Acordo quando alguém joga um troço na minha cara. Resmungo algum xingamento qualquer e tiro a coberta da minha cara, vendo uma Rachel de braços cruzados do lado da cama.

— São três da tarde, di Angelo. Dê o troco da cama, uh?

Me viro pro outro lado, grunhindo. Eu e Han demoramos pacas no correio olimpiano, porque nossa caixa (sim, viemos encaixotados. É uma experiência que não recomendo a ninguém) foi parar de alguma maneira milagrosa no México e depois na Disney World de Orlando. Depois de eu torrar toda minha mesada em dracmas em três horas, fomos cuspidos de volta pro trailer, mas isso já eram mais de oito da manhã. Isso quer dizer que eu consegui dormir, no máximo, sete horas nessa noite.

'Noite'.

— Vamos logo, preguiça — Rach me cutuca — Você já tem tendências hadísticas a dormir de dia e ficar acordado de noite, então não ajude a genética.

— Nah — se ela soubesse o porquê, talvez me deixasse dormir. Sete horas é pouco pra mim — Me deixe em paz e vá incomodar os outros — cubro meu rosto com o travesseiro, mas a ruiva o arranca de minhas mãos sonolentas com facilidade.

— São três da tarde.

— Vocês ao menos estão fazendo algo útil lá fora? — rosno, tentando arranjar qualquer desculpa para voltar a dormir. Não me importo que sejam três da tarde, na madrugada fiz uma viagem nas sombras, uma evocação e ainda houve o troço do Correio Olimpiano. Isso requer uma energia do caralho, e agora cada músculo do meu corpo queima de dor. Tenho a impressão de que me levantar não ajudaria.

— Estar acordado já é algo útil — lanço meu melhor olhar de 'tá zoando com a minha cara', e ela dá um peteleco no meu nariz.

— Ai!

— Vá tomar um banho pra ficar perfumado perto da sua mina, rei dos fantasmas. Quando você acorda seu cheiro de terra de cemitério fica mais forte — Rachel faz uma pausa, pensativa — Mas parece que a Han não liga muito pra isso. Gosto pra homens, vá entender.

Sento-me na beirada da cama, já me sentindo um pouco (um pouco. Muito pouco) melhor. Parece que a Rachel não sabe de nada sobre nossas aventuras na madrugada, ótimo. Hoje será só um dia comum. Sem gritos por perambular por aí de noite, sem aniversários, sem aquela bobagem de 'hora de apagar as velinhas' e sei lá o que mais esse povo inventa pra me torturar.

— Você não pode dizer nada, garota que sonha em arrancar as roupas do Raio de Sol — cruzo os braços sobre o peito, me lembrando dos barracos que ela já fez por causa do Muke, também conhecido como a prova viva de que Apolo deveria usar camisinha com mais frequência.

Rachel suspira com uma expressão sonhadora, e eu balanço a cabeça em negação. Deuses, ela nunca vai superar.

— Com aquele corpinho ele podia cheirar a perfume francês estragado que eu não me importava, querido — Rachel rodopia pelo quarto, e sai saltitando pelo corredor. A visão dessa cena me deixa na dúvida se devo me atirar pela janela ou voltar a dormir, então na dúvida decido seguir a sugestão dela de tomar um banho.

Falando só de passagem, sabe aquele meu velho ditado de 'com grandes poderes, vem uma necessidade de tirar um cochilo'? Então, adicione grande necessidade de um banho quente também. Me arrasto até o banheiro e fico debaixo do chuveiro até a dor em meu corpo parar de queimar, o que leva alguns minutos. Acredite, viagens nas sombras e evocação dos mortos cansa pra caramba.

Quando estou de volta no quarto, já vestido, a porta se abre subitamente. Para meu desgosto, é a única pessoa que não me agrada a presença.

— Você não bate antes de entrar? — fuzilo-o com os olhos, enquanto tento lembrar onde joguei meus tênis quando voltamos. Que beleza, devem ter ido pra Nárnia.

— Nah. Perda de tempo — o filho de Apolo fala distraidamente enquanto procura algo no seu criado — Você não tem nada que eu nunca tenha visto, Playboy.

Olha, então foi aqui que larguei meus tênis, debaixo da cama do Percy e da Annabeth. Estranho.

— E se não fosse eu? Poderia uma das garotas. E ai, você teria problemas.

— Isso seria o contrário de problema, meu caro — ele sorri debochadamente, e reviro os olhos. Realmente, não há ninguém no mundo que eu goste menos do que ele. Cronos até parece um cara legal, pensando por esse lado.

Fico parado onde estou e fungo algumas vezes. Desde que Muke abrira a porta, um cheiro adocicado invadiu o quarto. Respiro fundo mais uma vez, e tenho a certeza: não é imaginação minha. Chamo a cria de Apolo pelo apelido nem-tão carinhoso de Solzinho.

— Que é? — ele se vira, com uma expressão entediada. Não achei que ele responderia pelo apelido.

— Que cheiro é esse? — pergunto, e ele franze a testa, confuso.

— Cheiro de quê?

— Se estou te perguntando é porque não sei, anta. Mas.. — inspiro novamente — É algo bom. Doce, tipo cookies.

— Ah, claro! Esse cheiro, óbvio. É minha deliciosidade.

Pausa.

— Você sabe que isso soou muito gay, não sabe? — pergunto. Ele ri, mais para si mesmo.

— É, sei sim. Combina com você — o ser humano tira algo do criado, que não consigo ver muito bem o que era porque ele logo guarda no bolso, e sai do quarto assobiando uma música qualquer do Nirvana. Respiro fundo, mantendo a calma. Se não quero bater na cara dele, terei que aprender a arte milenar da meditação.

Sinceramente, quem será que foi a mulher que soltou a franga com Apolo pra gerar esse ser humano? O deus Sol já é um cara de pau narcisista e a mãe devia ser a maior passadora de rodo da cidade, porque o Muke é o maior exemplo de metrossexual sem vergonha que a sociedade jamais vai conseguir repetir. E ele ainda diz que eu sou o Playboy daqui.

Minha barriga ronca alto, e então lembro que estou desde a noite do dia anterior sem comer nada. Ando até a cozinha, achando que encontraria alguém tomando café por lá, mas eu estava errado. Enfim, eu estou errado em 90% das vezes, então tudo bem. Quando abro a porta do armário, ele está vazio. Também não tem nada em cima da mesa, o que é estranho porque sinto cheiro de cookies vindo de algum lugar (ah não desculpa, é a 'deliciosidade' do Muke. Esqueci).

— Percy, o que você fez com a comida? — grito, mas ele não responde. Resmungo algum palavrão, irritado. Além de me tirarem da cama, somem com meu café da manhã às três da tarde — Perseu Jackson!

Mais uma vez, ele não dá sinal de vida. Chamo os outros, mas nenhum se pronuncia. Franzo (deuses, que palavra feia) a testa, ressabiado. Rach e Raio de Sol estavam no quarto a minutos atrás e estamos viajando numa estrada, eles não poderiam ter saltado em algum lugar com o trailer ex-Restart em movimento.

Volto pro corredor e vejo que a porta da sala está misteriosamente fechada, ao contrário de há dois minutos.

— Pessoal? — bato com o nó do indicador na porta de leve, e continuo sem resposta. Mas posso jurar que escutei risadinhas abafadas vindo do outro lado. Semicerro os olhos. Não quero nem saber o que é que estão tramando, embora não seja difícil imaginar.

Abro a porta devagar, e minha suspeitas se mostram reais.

— Feliz aniversário, Nicolau! — todos gritam ao mesmo tempo (menos Muke, o que é esperado) jogando serpentina na minha cara. Não entendo essa necessidade de me chamar de Nicolau; quantas vezes preciso explicar que Nico é um nome, não apelido? Mas de qualquer forma, complexos de identidade podem ficar para depois. Eles estão com chapeuzinhos de festa na cabeça, e Orchard segura uma bandeja de cookies azuis com uma vela no centro.

— Me falem que vocês não fizeram isso. Por favor — fecho os olhos. Santo Hades, eu vou matar a Hannah.

Ah, droga. Ela é imortal.

— Parabéns pra você! — fico parado com cara de tacho enquanto eles cantam parabéns pra mim, sem saber como reagir. É daqueles momentos que você não sabe se chora ou se ri.

Mas então começam a cantar 'com quem será', e sei muito bem o que falar.

— Opa, parabéns até vai, mas me recuso--

— É COM A HANNAH!

Aperto a ponte do nariz, embora esteja rindo de nervoso. Eles são umas pestes, deuses. A única pessoa que parece indisposta a cantar era (ironia!) a deusa da música, que gira o indicador na altura da orelha, insinuando que eram todos doidos. Vai entender esse povo, diz ela, sem emitir nenhum som, só com o movimento dos lábios.

— Por favor, me digam que vocês não fizeram isso. Sério mesmo — cubro o rosto com a mão quando eles terminam, sem acreditar. Eu detesto aniversários. Achei que tinha deixado isso bem claro no cemitério.

— Mas é claro que fizemos! — diz Annabeth, me abraçando. Me desvinculo dela rapidamente, mas pelo jeito que ri, não acha ruim — Você está ficando mais velho e para um meio-sangue isso é algo a comemorar, seu besta.

Pensando por esse lado, é verdade. Semideuses não passam da adolescência, muitas das vezes.

— Mal acreditamos quando a Han nos contou, da Vinci — Percy bagunça meu cabelo que já é naturalmente bagunçado — Por que não disse nada?

— Bom, talvez porque eu não goste de aniversários — fuzilo a loura de mechas coloridas, mas ela se faz de inocente.

— Não gostava porque nunca teve uma party hard que nem a nossa — ela aponta pro próprio chapeuzinho, que tem o desenho daquele dinossauro roxo de programa infantil. O engraçado era que Muke estava no canto com o mesmo chapéu, de cara de bunda. Ele parecia uma criança emburrada por não ter o que quer.

— Tem razão, esse tempo todo era o Barney que faltava — digo.

Rachel empurra Annie pro lado e apoia o braço no meu ombro.

— Você gostou? A idéia foi minha!

Eu já ia dizer que estava sendo irônico, quando Orchard chega na minha frente e levanta a bandeja, colocando a vela na altura do meu rosto.

— Apaga la vela y pide tu deseo, Niquito.

— Pedir que você nunca mais o chame de Niquito é válido? — pergunta Percy, e o Orchard mexicano dá de ombros.

—Tal vez. Pero tú no puedes decir que era el deseo para nosotros.

Não acredito que vá se tornar realidade, mas ora, os deuses podem estar de bom humor hoje. Não custa nada tentar. Penso por alguns instantes o que pedir e logo após sopro a chama, e mais uma vez jogam serpentina na minha cara. Virei musa de Carnaval agora, por acaso?

— Ok, chega de confete, por favor — digo, batendo a serpentina da roupa. Minha blusa antes preta está multi-colorida, agora — Isso já é abusar da minha boa vontade.

— Uai, é por nois de mió gosta docê — o velho Orchard caipira me entrega um dos cookies, que para minha surpresa é muito bom. Minha barriga roncante (?) logo pede mais — Ieu quem fiz — diz o garoto, orgulhoso.

— Olha só Orch, se nada der certo você pode ser cozinheiro — falo enquanto como outro, e ele parece tímido pelo meu (quase) elogio. O Orchard caipira é bem mais acanhado que o Orchito mexicano. Maldito Jano, ele nos paga.

Annie pega uma caixa que estava em cima do sofá e me entrega.

— O presente do Orchard foram os cookies, e esse foi de todo mundo — diz Percy, passando o braço pelo meu ombro — Foi meio difícil arranjar a tempo, mas parece que Tique estava do nosso lado. Chegou meia hora antes de você acordar.

Abro a caixa desconfiado, e a primeira coisa que vejo é um porta retrato com uma foto que eu nem sabia que existia. Nela, eu estava deitado de bruços na cama com o cabelo bagunçado, espetado em todas as direções possíveis. A minha volta estavam Percy, Annie, Rach e Orchard apontando para mim com os chapéus do Barney e cara de retardados, enquanto Hannah segura um cartaz escrito 'você dorme como uma princesa!'

— Quando vocês tiraram isso!? — pergunto com a voz esganiçada, sem acreditar na criatividade das pessoas. Eu, aquele que sempre evita câmeras, estou eternizado numa foto de pijama, dormindo e praticamente babando no travesseiro.

— Hoje de manhã — responde Rachel, rindo da minha cara perplexa — Quem mandou ter sono pesado? Eu queria ter feito uma pintura, mas sua pose de Bela Adormecida deu a ideia pra gente.

Balanço a cabeça. A que ponto esses baderneiros chegaram.

— Vocês são impossíveis, deuses — rio, olhando pro porta-retrato mais uma vez. A Rachel está ótima, os olhos verdes vesgos e a língua pra fora. Olho pra ela — Nunca vou conseguir esquecer isso cara, nem que eu tente.

— Eu sei que sou diva, obrigada — o Oráculo faz uma reverência teatral, que me faz revirar os olhos — Mas, ah, não é só isso, não! — diz ela de repente, como se tivesse acabado de se lembrar de algo — Cadê a outra caixa, alguém sabe?

Hannah cutuca o Muke emburrado no canto. Ele tira uma caixinha menor do bolso, de no máximo cinco centímetros de largura, e a entrega. Ah, então é isso que ele foi caçar no quarto.

— Achou que teríamos gastado toda nossa criatividade só com uma foto? — diz a quase-deusa, me entregando o bagulho. Abro e vejo que nela há um anel completamente preto, parecido com o que meu pai usa. Ele não refletia nenhum brilho, como se tivesse sido pintado com piche. Na parte de dentro há uma inscrição em branco, que tenho que apertar ligeiramente os olhos para ler.

— “Ohana quer dizer família”? — leio — Por acaso vocês estão me pedindo em casamento?

— É isso mesmo, Nicodemo — responde Percy. Legal, agora além de Nicolau tem Nicodemo também — Estou te propondo em casamento, meu amor — ele abraça minha cintura, e eu logo o empurro pro lado.

— Tá me estranhando, Perseu?

— Não, Nico. Acho que tenho que admitir logo de uma vez. Tanto tempo escondendo... — ele põe a mão no peito fingindo aflição. Annabeth murmura 'santa Atena, lá vamos nós de novo' — Tenho uma paixão ardente por você — diz Percy — É a verdade. Todo esse tempo fingindo amar a Annie, sendo que quem eu amava era você.

Rachel cobre o rosto com as mãos na hora que Percy beija minha bochecha, para esconder (de forma não muito eficiente) que está rindo descontroladamente.

— Obrigado — limpo a baba em meu rosto com as costas da mão — Mas entre na fila e espere sentado, porque tem muita gente na frente já.

— Quer dizer que nega meu pedido? Se for por causa da Hannah, não se preocupe. Ela já deixou. Na verdade, ela que vai celebrar o casamento.

— É verdade — concorda a filha de Zeus — Espero que sejam felizes na lua de mel. Eu e Annie estamos torcendo por vocês.

Coloco o porta retrato na frente do meu rosto, rindo. É impressionante como eles conseguem ser retardados as vezes.

— Tá legal, eu aceito seu pedido, Jackson. Mas será que agora vocês podem me dizer de verdade porque está escrito 'ohana quer dizer família'? — indago.

— Família quer dizer nunca mais abandonar ou esquecer — Annabeth me responde — E mesmo que não aconteça nenhum casamento..

— Não vai acontecer uma ova, aceite que foi trocada — Percy a interrompe. Ela dá um tapa na barriga dele, sorrindo.

— Continuando — Annie põe a mão no meu ombro, e olha bem nos meus olhos quando fala —, nós somos sua família agora senhor di Angelo, quer você queira ou não.

Fico calado alguns segundos. Bianca foi minha única proteção por tanto tempo, mas agora percebo que nos últimos tempos minha família tem sido um surfista lerdo com tendências homo, uma mini Einstein, uma pintora safada, um caipira mexicano e uma loura com certos problemas mentais. As pessoas têm razão quando dizem que familiares não são só de sangue. Se bem que, tirando a Rachel, eles realmente são meus parentes de sangue porque os deuses olimpianos são todos primos ou irmãos que cometem incesto e coisa e tal. Mas isso não vem ao caso.

— Gente, eu ainda sou contra aniversários.. — coloco o anel preto no meu polegar, e ele magicamente tem o diâmetro perfeito pro meu dedo. Bendito seja o sono pesado — mas vocês se superaram. Nem sei como posso agradecer, sério.

— Sorrir pra gente seria uma boa forma de agradecer — Rachel diz casualmente. Dou o melhor sorriso que consigo, mas não sou muito bom com essas coisas de sentimentalismo.

— É Michelangelo, vai precisar de mais alguns anos de prática — diz Percy, e respondo com uma cotovelada — Okay desculpe! Já é um começo.

Olho mais uma vez para a foto que eles tiraram. Ainda estou impressionado por não ter acordado com tantas pessoas apontando pra mim, mas pelos deuses, eu nunca nem imaginaria uma coisa dessas.

— E aí, gostou por eu não ter deixado você me impedir? — paro de encarar a cara de 'O Grito' da Annabeth na fotografia e vejo Hannah parada na minha frente, com os braços cruzados sobre o peito.

— Por mais que me doa admitir, sim — passo a mão na nuca, sem jeito — Obrigado por isso.

— De nada — ela parece satisfeita consigo mesma. Por algum motivo, isso me lembra a madrugada em Washington.

— Nós temos que terminar o que começamos hoje — não deixo explícito, mas por sorte ela entende que estava me referindo ao quase-beijo, antes de Hermes chegar na hora errada.

— Algum dia, quem sabe? Seria divertido — ela dá de ombros — E pra sua informação, eu te escrevi um negócio de aniversário — levanto as sobrancelhas, surpreso — É isso mesmo que você ouviu. Só que não vou te entregar, você tem que achar sozinho.

— Tenho que achar sozinho..? — repito.

— É isso aí. Está em algum lugar alcançável, e no dia que você resolver procurar, vai achar.

— Pode ao menos me dizer o que é? — ela balança a cabeça negativamente — Fala sério, como uma pessoa usando um chapéu do Barney pode ser tão má?

Ela ri.

— Assim, ó: pode ser uma música, um poema, uma carta ou um testamento. Mas não adianta reclamar, que não vou entregar. Boa sorte no caça ao tesouro.

Mulheres. Nunca as entenderei.

— Espero que saiba que isso não é justo — retruco.

— A vida por acaso é justa com algum de nós, meu caro? — Han sorri de lado e fica na ponta dos pés para beijar minha bochecha — Feliz aniversário, Nicolau — e ela vai atrás do Orchard, que estava levando a bandeja de cookies de volta pra cozinha.

É engraçado como sempre que acho que já a conheço, ela vai lá e me surpreende. Acho nunca vou saber quem é a Hannah de verdade, porque ela é como a caixa de Pandora. Assim como a coitada que trouxe os males ao mundo, eu estou nesse dilema de ou deixar contrariado o jarro trancado, ou descobrir o que tem lá dentro e causar um estrago.

Muke sai do canto que estava e anda pra perto de mim, o que não me deixa muito animado. Não achei que ele se daria ao trabalho de quebrar nosso acordo silencioso de nos ignorarmos o máximo o possível só porque eu passara a ser um ano mais velho.

— Parece que você finalmente saiu droga da casa dos treze, Defunto — diz ele, se apoiando na parede — Parabéns, eu fiquei um bom tempo preso nela.

— Tipo um ano? — pergunto sarcasticamente.

— Talvez — Muke tira o chapéu da cabeça e o observa por alguns instantes, até que resolve mudar de assunto — E o tal pedido? Algo que valesse a pena?

— Depende do que é valer a pena pra você — eu não pedi nada muito impossível, ou irreal. Na verdade, foi o mais simples o possível.

Que as coisas continuem dando certo, como estão agora, foi o que pensei quando Orchard disse para desejar algo. Muke ri sem humor no momento que me lembro disso, como se lesse minha mente.

— Só lembre que não são todos os deuses que estão do seu lado, Playboy — ele coloca o chapéu do dinossauro roxo na minha cabeça e sai da sala, assobiando a mesma música qualquer do Nirvana.

Notas finais do capítulo
Hm, Muke misterioso demais pro meu gosto. Nada bom isso ai não, hein? HUEHEUH Gostaram? *u* contem-me tudo o que acharam asfjhkjhasfkjh Até a próxima, pessoal! Meu prazo é um mês, mas como estou de férias tenho quase 90% de certeza que terminarei (bem) antes. Que os deuses abençoem essa quase certeza asfhajfh Então, como diria o Nico, ciao! Ou como o Orchito, hasta la vista!




(Cap. 30) Pois é colega, acho que dona Afrodite começou a jogar pro nosso time

Notas do capítulo
OLÁ! Olha eu aqui de novo gente, em cinco dias! Descobri que minha criatividade e minha inspiração apolástica vêm as três da manhã, com a luz do ipod e quase babando estilo Percy em cima do bloco de notas que uso pro rascunho HEUEHUHE. Quase dormindo ou não, valeu a pena ficar acordada até de madrugada na sexta e no sábado! Ok, sem mais delongas porque eu falo (digito?) demais, esse capítulo é dedicado à senhorita Gabys, que com seu comentário me ajudou a ter ótimas ideias pra o que acontece nesse, à paz snape ridee potter e à TataDiAngelo! Sintam-se abraçadas, suas lindas! Espero que um dia vocês encontrem um semideus muito lindo enquanto andam pela rua c: boa leitura!

30. Pois é colega, acho que dona Afrodite começou a jogar pro nosso time

Parte I: Point of View — Annabeth Chase

Eu já tinha estado em Los Angeles duas vezes na minha vida.

A primeira eu era muito pequena, numa viagem com meu pai. Não me lembro muito bem de como foi, além de que fomos nos parques de diversão e caminhamos por avenidas compridas, que deviam estar cheias de limusines e artistas famosos. A segunda foi no primeiro ano de Percy no Acampamento, em nossa primeira missão, junto com Grover.

Foi um pouco menos luxuosa que a primeira: lembro-me do cara bizarro dos colchões de água, de Caronte com seus ternos italianos e de garotos valentões nas ruas da madrugada. Não foi a pior das missões, mas também não é uma experiência que eu gostaria de repetir. E agora, estávamos quase de volta a ela.

No dia seguinte da party hard com direito a chapeuzinhos que arranjamos pro Nico, fui acordada com o som bastante irritante de buzinas e xingos típicos de uma cidade grande. Esfreguei os olhos, com a cabeça ainda apoiada no Percy, e me levantei lentamente em direção à janela, puxando a cortina para ver a situação lá de fora.

A paisagem era bem bonita, com o céu azul e as palmeiras compridas da Califórnia. O único problema é que estávamos num engarrafamento, andando a menos de cinco por hora. Do nosso lado dois motoristas gritavam um com o outro, colocando a cabeça para fora dos carros, e o engraçado é que um deles gritava num inglês espanholado, algo bem Orchito de se fazer.

— Queusted pensa que está fazendo, eh!? — berra ele, falando o que suspeito serem muitos palavrões hispânicos depois, quando o cara de trás buzina feito louco — No soy surdo, puto!

O outro cara frouxa a mão na buzina outra vez, com o rosto vermelho de raiva. Parecia que ele ia explodir, sem exagero.

— Tira o pé do freio, filho duma puta latina! — grita o americano. Acho ridículo isso, xenofobia — Vá cagar no trânsito do seu país, cacete!

Hm, se ele soubesse que provavelmente sessenta por cento da comida que ele come vem da América Latina, talvez mandasse o cara não ‘cagar’ no trânsito de maneira mais educada.

Me cago en tu madre, seu americano malparido de mierda! — o latino berra — ¡ME CAGO EN TU MADRE!

Fecho a cortina mais uma vez. Deuses, ouvi mais palavões agora do que em minha vida inteira.

— Isso aqui é pior que Nova York — murmuro um pouco assustada.

A senhorita Hannah, que eu imaginava estar dormindo, pisca os olhos azuis pra mim, completamente acesa.

— Bem vinda a Los Angeles, Annie — diz, bocejando. Ok, talvez ela não esteja tão acordada assim — A única cidade dos Estados Unidos que você escuta mais espanhol que inglês — ela faz uma pausa, com as sobrancelhas franzidas — Junto com Miami, talvez.

— Mas nós ainda não chegamos em Los Angeles — sento-me em minha cama, de frente pra ela, enquanto acaricio distraidamente os cabelos do Cabeça de Alga. Ele ainda não havia acordado — Ao menos, acho que não. Não vi prédios altos quando olhei pela janela.

— Devemos estar quase, então. Já posso sentir a aura depressiva que é exalada por aquele lugar — primeiro acho que ela está brincando, mas percebo que está falando sério.

Hannah dobra os joelhos em posição fetal, e encara o além por algum tempo. Só então me dou conta do quanto deve ser uma difícil pra ela voltar a ver as ruas da cidade que perambulou por tanto tempo. Faço esse comentário em voz alta.

— Não é que seja difícil. É só... uma droga — Han suspira — É um lugar meio fútil, sabe? Com toda essa coisa de cantores e atores famosos, não sobra muito tempo pra alguém ligar pro resto dos insignificantes — ela estreita os olhos, e percebo o quanto ela tem raiva de lá — O Muke é um bulustruco panguá que vive metendo o bedelho onde não é chamado, mas tenho que admitir que ele sofreu um bocado lá pros lados de Hollywood comigo também.

— Mas ai ele sumiu, e as coisas ficaram um pouco mais complicadas pra você — concluo, e ela assente.

— Digamos que sim. Fui expulsa da escola e os diretores do orfanato tentaram me mandar pra algumas dúzias de casas de famílias, que normalmente me devolviam depois de uma semana. Acabei por dar no pé, mesmo.

Olho pro Percy quando ela diz isso. Ele também havia sido mandado embora de um bocado de escolas.

— Por que te expulsaram? — pergunto, curiosa. Ela ri um pouco.

— Foi uma lista bem grande de razões. Explodi um laboratório, sem querer acertei a cara de uma professora.. — ela vê minha cara de reprovação e se explica — Foi sem querer mesmo, eu juro! É, discuti com uns coleguinhas, matei algumas aulas, algumas provas e, hm.. Eu meio que briguei com uma garota de outra sala. A guria era um porre, meu Deus. Foi a gota d'água, e deram o pé na minha bunda — ela encolhe os ombros.

— Você 'meio que brigou' no sentido de xingar loucamente ou de bater mesmo? —indago.

— Os dois. Mas foi sem querer, tá? Não é algo que me orgulho... Ao menos, não muito. O problema é que alguns dias antes de cascar fora o Muke tinha dado uns pega nela, e com isso eu quero dizer que eles realmente se pegaram, com direito a arrancarem as roupas uns dos outros — ela faz uma careta — E a moçoila ficava de blá blá blá pra tudo quanto é lado se gabando, porque ele era isso, era aquilo, até que um dia escutei ela dizendo — Han pigarreia, e faz um falsete pra imitar a voz da tal — 'é uma pena que o Muke tenha sido transferido logo depois de terminar com aquela namorada sapata dele e ficar com alguém que valha a pena de verdade'.

— O quê!? — exclamo. Nem conhecia a garota, mas já tinha vontade de falar umas coisinhas estilo cara latino no carro pra ela — Ela falou na cara dura? Sabendo que você tava escutando?

Que coisa mais Meninas Malvadas.

— É! — diz, indignada — Dá pra acreditar num troço desses? Ela disse que ele tinha terminado comigo, como se em algum momento algo tivesse acontecido. E me chamou de lésbica na minha cara! Nada contra as lésbicas, mas poxa, eu não sou lésbica.

O fato de ela estar apoiada no Nico, usando o braço do garoto adormecido como travesseiro, meio que ilustra isso.

— Eu não acredito que violência seja a resposta pra tudo, mas essa garota quase, quase que mereceu — ah, se alguém algum dia me chamar de namorada sapata do Percy, eu mando a pessoa pro outro lado do Estige antes que ela saiba o que a acertou.

— Pena que o diretor não olhou por esse lado — ela suspira novamente — Mas até que foi bom. Pode parecer idiota, mas o Muke era meu melhor amigo, e eu não aguentava mais escutar ela pelos corredores dando os detalhes do momento pegação deles pra todo mundo. Ele não era só 'gostoso' como ela dizia, ele era bem legal naqueles tempos. Eu meio que sentia um pouco de ciúmes por ela achar que o conhecia melhor que eu só pelos dois terem brincado de liquidificador com as próprias línguas. — olha, essa é uma metáfora bastante interessante.

Olho de relance pro filho de Hades deitado ao lado da Hannah. Não tenho certeza se ele aprovaria a pergunta que quero fazer, mas ora, não sei quando teremos a oportunidade de conversarmos assim outra vez. Também, pelo jeito que seu peito sobe e desce num ritmo lento e uniforme, ele ainda dorme tranquilamente. Nunca nem vai saber que essa conversa aconteceu.

— Você gostava do Muke na época, não gostava?

Ela dá de ombros.

— Ele era uma pessoa engraçada. Intrometida, mas engraçada. Então, é, ele era um amigo legal.

— Gostar no outro sentido, Hannah — coloco o máximo de ênfase que consigo em 'outro'.

Finalmente cai a ficha nela.

— Ah. Ah — pausa — Não.

O barulho das buzinas e gritos lá de fora são tão altos que eu nem havia escutado o som do chuveiro, então levo um susto do caramba quando a porta da suite se abre, e o dito cujo entra no quarto. Muke aparece com o cabelo molhado, a toalha jogada no ombro e usando apenas jeans. A beleza do garoto é tanta que eu até me esqueço de piscar.

— Admita pra dona Coruja que me amava, Punk — ele passa a mão pelo cabelo até fazer uma espécie de topete, e fica ainda mais parecido com Apolo quando faz isso. Hannah revira os olhos.

— Vai sonhando, Raio de Sol.

— Ei, não me chame por um apelido que o Playboy inventou — e então Muke se vira pra mim — Mas é verdade que ela me amava. Certa vez eu estava..me divertindo com uma intercambista da França, quando a Punk apareceu do nada no quarto. Nem preciso dizer que teve crise de ciúmes, né? Faltou ela atirar a mina pela janela.

Quantos anos ele tinha quando estudava com a Hannah? Quatorze?? Nossa, eu nessa idade estava me atirando de penhascos e segurando o céu pra um titã. Apolo dos deuses, seus filhos são muito pra frente.

— Mas é lógico que eu queria atirar vocês pela janela! — Han fica de pé e coloca o indicador na ponta do nariz do Muke — Vocês estavam se pegando no meu quarto! Na minha cama!

Não sei como ela consegue agir normalmente (ou tão normal quanto a Han consegue ser) estando tão perto do Solzinho. Ele é bonito, sim, e existem muitos garotos bonitos por aí, mas tem alguma coisa no Muke que faz ele ser mais do que simplesmente agradável de olhar. Quem sabe seja alguma coisa apolástica. O fato é que a visão de sua pele bronzeada quase que me faz entender a obsessão que a Rachel tem ele.

Mentira. Nada nunca vai me fazer entender a obsessão que ela tem por esse garoto.

— Vocês poderiam por favor parar de gritar no quarto? — um Percy sonolento resmunga, com a cara no travesseiro — Seria legal se pudessem me deixar dormir ao invés de discutirem quem pegou quem na cama de quem.

— Não estavam discutindo quem pegou quem na cama de quem — digo distraidamente — Estavam discutindo por que quem pegou quem na cama de quem.

Percy suspira.

— Eu te amo Annie, mas por favor, cale a boca.

— Pensarei no seu caso, Cabeça de Alga.

Muke nos observa por alguns instantes, certamente achando curioso como duas pessoas se comportam num relacionamento normal, sabe, sem ficar trocando de parceiro de duas em duas horas.

— Acho que vou lá fora conferir onde estamos antes que o clima Percabeth comece a esquentar — ele fala, e eu reviro os olhos.

— Como quiser — respondo — Mas antes faça o favor de colocar uma camisa, pelo amor de Atena.

Pra mim, é meio desconcertante ele ficar andando só de jeans por aí. Acho que Muke percebe, porque sorri maliciosamente pra mim.

— Não se preocupa, Annabeth. Posso ser seu o quanto você quiser enquanto seu amado estiver nesse estado pouco lúcido do sono.

Aperto a ponte do nariz. O que eu fiz pra merecer esse garoto, mãe?

— Eu escutei isso, Solzinho — diz meu namorado, com os olhos fechados.

O filho de Apolo levanta as palmas das mãos, em inocência.

— Foi mal por cantar sua garota, Peixe-espada.

— Desculpas não aceitas. E eu sei que sou foda com Contracorrente, obrigado.

— Ah, não é por isso não. Você já reparou no seu nariz?

Percy abre os olhos verdes e fica sentado na cama num pulo.

— Que é que tem meu nariz!? — grita, irritado.

Muke sai do quarto, rindo, na mesma hora que Rachel entra tomando algo num copo. Ela vira a cabeça enquanto ele passa, observando o garoto até ele sumir da sua vista.

— Santo Apolo! — diz, se abanando, com bigode de iogurte — Aquilo não é um tanquinho, é uma lavadeira embutida — ela gira e vai atrás dele, na cara de pau.

OH MEUS DEUSES KKKKKKKKKKKKKK RACHEL EU TE AMO.

— Depois dessa, eu aproveito minha fome para me retirar para a cozinha — Hannah fala enquanto balança a cabeça — Lavadeira embutida, Cristo! De onde ela tirou essa?

Eu rio. Só a ruiva pra arranjar um negócio desses mesmo.

Quando eu e Percy somos os únicos (acordados) no quarto, ele segura meu queixo e me faz olhar em sua direção. Ele está lindo, com o cabelo escuro bagunçado, o pijama amarrotado e os olhos verdes brilhantes.

— Tem algo de errado com o meu nariz?

Fecho os olhos e respiro fundo. Cinco anos, e eu ainda tinha alguma esperança. O que mais eu poderia esperar dele, mesmo?

— Percy. Não tem nada com seu nariz. Ele é completamente normal.

— E se ele for pontudo demais? — ele tenta olhar pra ponta do nariz, ficando vesgo por alguns segundos — Ou redondo demais?

— É completamente normal — repito, como quem fala com uma criança — Você acredita mais em mim ou no Muke?

Cabeça de Alga pisca algumas vezes, pensativo.

— Não sei como respondo a essa pergunta — vou dar um tapa no seu braço, mas ele segura minha mão antes que aconteça, me puxando para perto de si com uma expressão debochada no rosto — Mas se você perguntasse quem eu quero beijar nesse momento, eu saberia.

Ele segura minha cintura, mas viro meu rosto quando ele se inclina pra me beijar.

— E aquela história de me trocar pra pedir o Nico em casamento?

Perseu ri e sussurra em meu ouvido.

— Eu posso ter uma amante.

— Parece válido — sussurro de volto — Ser a amante do seu casamento gay já está ótimo pra mim.

E agora, não desvio quando ele tenta me beijar.

Começamos com um beijo inocente, mas de repente nos esquecemos do mundo a nossa volta e vamos pra uma coisa mais voraz. Ele me põe sentada em seu colo e eu puxo sua camisa pra cima, jogando-a para trás logo depois. Não penso em nada além do quanto eu o amo, e em como gostaria de passar o resto de minha vida com nenhuma sensação que não seja a de seu corpo colado ao meu.

Minha visão se escurece de repente.

— Pelo amor do Hades, eu não precisava ver isso! — escuto a voz esganiçada de Nico, e Percy joga a coberta que ele atirou sobre nós pro lado.

O filho de Hades olha pra nós com uma expressão que está entre assustado e enojado. Resolvo que seria uma boa ideia sair de cima do colo do Percy, e é o que faço.

— Eu acordo todo feliz e vejo vocês fazendo striptease — diz ele, com uma careta — Foi a pior cena da minha vida. Estou traumatizado.

Hm, vamos esperar alguns anos para ver se ele continua assim (Afrodite aprova).

— Com licença, mas você está vendo algum de nós sem roupa por aqui? — pergunto, com a mão na cintura — Vocês, garotos, sempre andam sem camisa, então o Cabeça de Alga estar sem não pode ser considerado strip. Não é, Perseu?

— É isso ai — ele faz que sim com a cabeça.

Nico me encara, até que responde com sua típica cara de paisagem.

— Annabeth, com minha licença, mas você já olhou pra baixo?

Não, até ele dizer. Abaixo a cabeça e vejo que minha camiseta do pijama de corujinhas está bastante acima do meu umbigo.

— Você não viu nada, di Angelo — digo enquanto abaixo minha blusa, com o rosto vermelho.

Mas minha gente, que cena vergonhosa. Me pergunto o que minha mãe ou Poseidon diriam sobre esse momento.

— Pois me faça o favor de não ficar olhando pra Annie, moço — Percy me abraça por trás e apoia o queixo no meu ombro — Você já tem sua loira.

Imaginei que Nico ficaria extremamente vermelho ou faria um barraco por isso, mas ele simplesmente se senta na própria cama e suspira. Parece que superou o trauma do nosso striptease bem rápido.

— Quem me dera — ele coloca os pés na parte de madeira da cama e apoia os cotovelos nos joelhos.

OPA. OPA. Que falaste, Nicolau? 'Quem me dera'? Em resposta ao 'você já tem sua loira'??

EU SEMPRE SOUBE. EU SEMPRE SOUBE QUE HANNICO ERA REAL. MWAHAHAHAH CHUPA MUNDO, ANNABETH CHASE É MAIS ESPERTA QUE VOCÊ.

— A gente não faz muita coisa, sabe? — Nico continua, mexendo distraidamente no anel que o demos de presente. Parece que houve algum tipo de milagre, o filho de Hades (não qualquer um, mas esse, que detesta aniversários com todas as forças) de repente resolveu compartilhar sua vida com a gente, reles mortais (ou nem tanto) — Eu e a Han gostamos de ficar juntos, mas... Nada aconteceu até agora.

— Vocês já se beijaram — contraponho, e ele suspira novamente.

— É, mas mesmo assim... Nada de verdade aconteceu, sabe?

Faço que sim com a cabeça, e nos mantemos em silêncio. Já foi um progresso e tanto ele falar, por pouco que tenha sido.

— Ahhhh entendi! — exclama Percy, meia hora depois. Não, ele não é lerdo, imagina — Você quer dizer que não houve nenhum movimento lingual, é isso?

Nico enterra o rosto nas mãos, envergonhado.

— Pelos deuses, por que nós estamos falando disso mesmo?

Seguro o riso. É visível o quanto ele se arrepende de ter começado a conversa.

— Fica calmo, Nico — digo, fingindo estar séria — Quando o momento chegar, você vai saber o que fazer.

Annabeth — ele chama meu nome em tom de advertência.

— É simples — continuo, ignorando-o —. Você gira pra um lado, ela gira pro outro, daí vocês repetem infinitamente até que fiquem sem ar ou até que algum morda a boca do outro sem querer. Aliás, nunca morda nada sem permissão, é bastante desagradável.

Di Angelo levanta o rosto, que está vermelho tomate. Ele parece mais apavorado que bravo.

— Annabeth!

Começo a rir do seu desespero. Nada é mais engraçado que uma cria de Hades envergonhada.

— Ela tem razão, Michelangelo — fala Cabeça de Alga — Tudo depende da prática, com pouco tempo depois você já se acostuma — me viro pra ele e nós damos um beijo bastante demorado. Quando terminamos, o rei dos fantasmas está com a pior careta de nojo que eu já o vi fazer em toda a vida. Ele se deixa cair na cama e enterra o rosto no travesseiro.

— Seus puttanos, vocês dois são piores que os campos de punição — reclama, com a voz abafada.

— Um dia você ainda vai nos agradecer, meu caro — Percy passa o braço pelos meus ombros, sorrindo. Ele também acha muito divertido encher a paciência do primo — Só que o resto dos conselhos nós podemos esperar alguns anos porque o senhor ainda é muito novo pra isso.

Nico segura o travesseiro com tanta força que os nós de seus dedos ficam brancos, e ele grita alguma coisa em italiano. Não faço ideia do que seja, mas me parece ser um 'alguém faça esses putos pararem' bastante raivoso. Eu e Cabeça de Alga rimos de sua reação exagerada por éons, até que Hannah aparece na porta com a testa franzida.

Faço o meu melhor para me acalmar, porque o Percy parece que vai levar alguns dias para parar de rir.

— Ei, rei dos fantasmas — chamo-o — Tire o travesseiro da cara por um segundinho, só.

MANNAGGIA, EU NÃO QUERO MAIS SABER DE MOVIMENTOS LINGUAIS!

Hannah pisca, confusa. Ótimo, ela não escutou a conversa.

— Não quer mais saber do quê?

Assim que escuta sua voz, Nico tira o travesseiro da cara com os olhos arregalados. Ele olha pra ela, depois pra mim, depois pro Percy, que ainda se esgoelava de rir.

— Acho que vou tomar um banho — ele se levanta, pega um punhado de roupas em sua mala e trata de ir o mais rápido que pode pra suite, antes que alguém possa dizer mais alguma coisa.

— Tem algo de errado com ele? — pergunta Han, ainda boiando.

Não tem nada de errado comigo! — escutamos di Angelo gritar — Tem muita coisa de errada é com eles! Puttanos!

Hannah pisca mais algumas vezes. Ela está na dúvida se é melhor perguntar de novo ou não.

— Devo ignorar isso?

— Não — respondo, ao mesmo tempo que Nico grita deve!do outro lado da porta. Resolvo dar uma trégua porque ele já sofreu demais hoje, coitado — Ok, deve.

Obrigado por fazer algo bom ao menos uma vez na vida, Annie. —Reviro os olhos. Percy tem razão, algum dia ele ainda vai nos agradecer.

Outra pessoa loira coloca a cabeça pra dentro do quarto, o que me faz ter o pensamento aleatório de que somos três loiros, dois ruivos e dois morenos no trailer.

— Que foi, Raio de Sol? — pergunta Percy. Ele finalmente teve autocontrole o suficiente para parar de rir.

Muke faz uma careta ao ouvir o apelido.

— Vim alertar vocês, pessoas desprovidas de beleza, de que acabamos de sair da interestadual.

Eu e meu namorado nos entreolhamos, com as testas franzidas. Que informação aleatória foi essa, meus deuses?

— A interestadual 5? — pergunta Hannah como quem entende do assunto e o filho de Apolo faz que sim com a cabeça.

Olho pra ela. Hannah suspira e cruza os braços antes de responder.

— Agora é oficial: bem vinda a Los Angeles, Annie — ela ri ironicamente — A cidade que, de anjos, não tem nada.

~~

Parte II: Point of View — Nico di Angelo

CARA O PERCY E A ANNABETH SÃO DUAS PESTES. Primeiro eu me espreguiço de manhã, com toda minha calma pós-sono, e vejo os dois quase que se despindo num momento pra lá de íntimo. Depois, cometo o erro catastrófico de falar em voz alta sobre minha vida e eles conseguem, em cinco minutos, me envergonhar mais do que já me envergonhei em toda minha vida.

Tipo, com relação ao que eles disseram, nada aconteceu não foi porque eu não sabia o que fazer. Não aconteceu porque, ora...... (insira um sorriso amarelo aqui) não aconteceu..? Mas é verdade que eu não saberia o que fazer na hora. Não sou filho de Afrodite, Eros nem Apolo, caramba. Mas agora graças ao casal paraíso, eu sei que é importante não, err, morder nada sem permissão. O que eu fiz pra merecer isso?!

Saio do banho meia hora depois de me refugiar nele. Como fui uma pessoa esperta o bastante para pegar minhas roupas aleatoriamente antes de fugir de mais perguntas embaraçosas, já estou vestido com uma camisa preta com uma caveira e um jeans. Esse é o lado bom de usar sempre a mesma cor, você pode pegar qualquer diabo de roupa às cegas que ainda parece que você teve o trabalho de escolher.

Percebo que não sou o único no quarto. Hannah não estava mais de pijama, como da última vez que a vi, mas sim com calça jeans azul e uma blusa branca com a letra de alguma música – anything you say can and will be held against you, "tudo o que disser pode e será usado contra você". Como sempre, eu não faço ideia de qual seja. Seus coturnos estão jogados no chão, um pouco mais a frente, e os olhos claros estão contornados com muita maquiagem preta. Andei reparando que ela sempre faz isso quando vamos atrás da Clave.

Talvez seja pra intimidar os inimigos. Não sei.

Han está sentada de pernas cruzadas na cama, pensativa, e só percebe que estou olhando pra ela quando me aproximo. Imagino estar com o rosto vermelho porque me lembro da conversa com o casal paraíso, mas que se dane. Eu devo ficar vermelho noventa por cento das vezes que falo com ela.

— Oi — paro de pé, de frente pra ela.

— Olá — diz, quando nota minha presença — Eu estava esperando você terminar, Penadinho.

Respiro fundo, pensando numa forma de me desvincular desse assunto.

— Por favor, não pergunte o que foi aquilo comigo e Annabeth. Sinceramente, você não quer saber.

Ela franze as sobrancelhas, confusa.

— O quê? — e então parece se lembrar — Ah, não, não é isso. Já desisti de tentar entender vocês. Eu queria é dizer tchau antes de ir pegar a Clave.

— Ir..? — agora é minha hora de parecer confuso — Mas eu vou com você.

Ela suspira.

— Acho melhor não.

— Por quê?

— É na minha antiga escola, sabe — ela faz uma cara de frustração — Que eu chamava de Curral. Não quero associar a vida legal e feliz que tenho agora com o porre que foi lá.

Fico relutante por alguns segundos.

— Não é uma boa ideia você ir sozinha.

— Mas, hm, eu não vou sozinha — fala, e minhas sobrancelhas se franzem. Não gosto das consequências disso.

— Muke? — ela faz que sim com a cabeça — Ah, por favor.

— É só achar a Clave! Nós estudamos lá, vai ser simples.

— Estamos falando do Raio de Sol, Hannah. Nada é simples quando ele está envolvido.

Ela pega minha mão e entrelaça nossos dedos. Comigo em pé e ela sentada, pareço ser ainda mais alto que ela do que já sou.

— Eu juro que vai — insiste. Reparo que não foi um juramento pelo Rio Estige, mas deixo passar, porque talvez seja por causa da fobia de rios/lagos/mares/lagoas/riachos/ribeirões/corpos d'água no geral.

— Tá certo — é minha vez de suspirar agora, e ela sorri pra mim.

Não gosto da ideia dela sozinha com o Muke, mas então olho pras nossas mãos entrelaçadas e me sinto melhor. Não sei o que diabo somos, amigos, namorados, tanto faz. O que quer que seja, é o suficiente pra me fazer confiar nela.

Talvez por influência dela mesma, começo a me sentir dentro de uma música do Elvis Presley. A little less conversation, a little more action please, "um pouco menos de conversa, um pouco mais de ação, por favor". Eu reclamei por ainda não ter acontecido nada, e agora seria um bom momento pra tentar começar. Mesmo que não saiba o que deva fazer.

Solto sua mão e Han parece ofendida por um instante. Mas então me apoio em seu quadril e me curvo pra frente, pegando-a de surpresa. Eu não gosto de dar detalhes, mas digamos que Annabeth tinha razão. No momento eu soube exatamente o que fazer, e ela também, pelo visto.

Estávamos muito mais próximos fisicamente do que dos outros beijos, e era bom. Era muito bom. Eu gostava de segurar sua cintura, de ter seus braços em volta do meu pescoço e de sentir seus dedos finos de pianista correndo pelo meu cabelo. Mas mais ainda, eu gostava de senti-la em minha boca. Eu nunca ia imaginar, mas a Hannah tinha gosto de menta.

O lado triste de tudo isso é que eu não resisti aos impulsos e devo ter mordido os lábios dela algumas vezes. O lado feliz é que não foi isso que nos parou, e sim a falta de ar mesmo.

Quando nos finalmente nos separamos, respirando com dificuldade, abro os olhos e vejo que Han está sorrindo pra mim. É capaz que eu também esteja sorrindo pra ela, mas estou muito entorpecido pra saber alguma coisa além do meu próprio nome. E então eu começo a rir. E ela começa a rir. E eu encosto minha testa na curva de seu pescoço, o que me faz perceber que ela ainda tem o mesmo cheiro de chuva que tinha no cemitério, o que é óbvio, mas me deixa feliz mesmo assim. Pensando bem, eu devo estar parecendo um bêbado nesse momento.

Não fazemos ideia de porque estamos rindo, que é o que deixa a situação mais engraçada. É como dizem as filhas de Afrodite: goste de alguém que faça você rir, não importa o quão idiota foi o motivo.

Notas finais do capítulo
Frase do dia: 'Aquilo não é um tanquinho, é uma lavadeira embutida' KKKKKKKKK deuses eu sou muito dorgada as vezes. Então, o que acharam do Nico bêbado de amores? *u* é como diz meu amado Foster the People, "Love could be a wonderful thing. It can make you crazy" askjfhaksjfhkjh Hasta la vista, pessoal! Rezemos a Atena que minha criatividade da madrugada continue como está HEUHEUHE e lembrem-se, um review mesmo que curtinho já me deixaria mais que feliz :D




(Cap. 31) Caramba, isso tem mais intriga que novela das oito

Notas do capítulo
Hey, sexy ladies! Tudo broas? :3 Então, eu fiquei até as 4h30 da manhã pra terminar de escrever, mesmo sabendo que seria acordada as 8h em ponto. Se não é amor, não sei o que é ASDJHG tô aqui rindo que nem retardada pelas três horas e meia de sono! YEEEEEEEY ~le serpentina O capítulo de hoje é, como diz o título, intrigante *musiquinha Missão Impossível*. Não sei se será do gosto de todas... Mas é importante pro que rolará nos próximos! EHEHEHEH Dedico esse às lindas que pegaram seus minutos para comentar no último, e também à Stella (vulgo Teh Chahin - quase chorei quando li que você terminou tudo num dia, ai mds dá cá um abraço) e à dona Larissa (vulgo DemigoddessDaughterOfHades, minha companheira fangirl do Elliot - como prometido, sua mais nova obra de arte sobre pernetas está no capítulo! YEEEY)

31. Caramba, isso tem mais intriga que novela das oito

Point of View — Hannah

No momento que coloquei os pés no Acampamento e me dei conta de que estava do outro lado do país, bem longe da Califórnia, meu primeiro pensamento foi de que nunca voltaria a Los Angeles. Mas agora eu estava de volta a ela e não me sentia tãao mal quanto imaginei. Eu andava pelos mesmos corredores que costumava andar antes de minha fuga, não mais preocupada com notas e provas, e estava extremamente bem.

Talvez seja consequência do beijo. Porque ele foi, de alguma forma, ainda melhor do que minha mente não muito romântica imaginava. O Nico pareceu tímido, e riu acho que de nervoso, o que também me fez rir. A verdade é que fico feliz que tenha sido ele quem me pegou de surpresa e não o contrário, porque assim sei de que gostarmos um do outro é uma via de mão dupla.

*suspiro*

Ok, talvez eu devesse parar de agir feito uma filha de Afrodite.

Para dar uma sintonizada, eu e Muke estávamos de volta ao Curral, apelido nem tão carinhoso que nós demos à Abraham Lincoln Public School of the City of Los Angeles, porque pelo amor de Deus, até terminarmos de falar o nome inteiro já teríamos nos formado. Eu e Raio de Sol subíamos a escada até o segundo andar, a mesma que eu subia para as aulas de História Americana, e só quando ele fala comigo reparo que estava meio que saltitando de um degrau a outro.

— Caramba Punk — diz o garoto, desviando de um grupo de rebeldes que, oh!, matam aula na escada — Pare de pular feito um cabrito, ao menos um pouco.

Tá, confesso. Aquela felicidade retardada pós-beijo ainda não havia passado. Eu me sentia uma unicórnia bêbada-drogada-perneta (?) que saltitava pelo mundo das fadas enquanto cantarolava Sugar, We're Going Down, uma música bastante interessante que por algum motivo insistia em não sair da minha cabeça.

— “Derrube um coração, quebre um nome” — cantarolo o pré-refrão pela trocentésima quinquagésiama terceira vez, o que faz Muke revirar os olhos.

Chegamos no andar de cima na mesma hora que o sinal toca, e hordas de alunos saem das salas para trocarem de aulas. Quase todos os olhos viram-se para nós enquanto abrimos caminho por entre os outros adolescentes, mas não porque eles se lembram de nós. Eu até reconheço alguns poucos, mas todos nós sabemos que não é por nos reconhecer que eles nos encaram. Nem por minha causa.

É fato que filhos de Apolo passam tão despercebidos quanto um letreiro de neon, ao menos para as garotas e garotos que, como dizer... jogam pro outro time (alguns ex-colegas que eu juraria serem 100% machos olhavam para o meu amigo Muquêncio com uma cara que, olha, só podem ser no mínimo héteros bastante curiosos).

— Estou me sentindo um membro de boyband agora — murmura ele quando uma garota, que em algum momento já teve aulas de Francês comigo, olha em sua direção e morde o lábio.

Pequeno parêntesis na história: Sim, para a surpresa de todos, a senhorita Hannah aqui já teve que saber a língua dos français em algum momento inútil de sua vida. Não que eu me lembre de alguma coisa além de mademoiselle, pardon e pas plus croissants – que aliás quer dizer ‘não mais croissants’, anote aí que pode ser útil caso algum dia você vá à França e alguém tente te entupir desses pãezinhos malditos. Fecha parêntesis.

— Se chama carência, meu filho. Elas não tem ninguém melhor, então se contentam em encarar você — volto a cantarolar a mesma música de antes, enquanto observo distraidamente os armários nos corredores. É, está lá: número 274, aquele que costumava ser meu. Espero que a pessoa de agora deixe-o mais organizado do que era antes.

Muke me fita, a testa franzida com certa preocupação.

— Você está cantando essa música desde que saímos do trailer. É por algum motivo em especial?

Dou de ombros. Talvez, respondo.

Já reparei que certas músicas que insistem em pregar na minha cabeça fazem isso por algum motivo especial, uma espécie de premonição. Não que eu seja alguma Rachel da vida, longe disso. São apenas.. alertas. Alguns exemplos: certo dia nessa mesma cidade infeliz, a única coisa que passava pela minha cabeça era a Avril Lavigne com sua 'eu não sei quem você é, mas estou com você', e horas depois fui descoberta pelo Nico e mandada ao Acampamento. E hoje, quando eu estava sentada na cozinha bebericando um suco qualquer e podia escutar o Percy e a Annabeth rindo feito retardados, murmurava 'tudo o que eu quero é que você entenda que quando eu seguro sua mão, é porque eu quero', do Green Day. Pouco mais de uma hora depois as dúvidas sobre minha paixonite ser ou não platônica acabaram.

Mas a razão de Sugar, We're Going Down estar me infernizando a éons ainda era desconhecida pra mim, embora eu gostasse bastante dela.

— Não, sério, eu não aguento mais — reclama Muke, tampando os ouvidos com as mãos.

— Tá, tá, desculpa. Vou manter minha linda voz pra mim mesma, seu panguá — suspiro — Ok, estamos infiltrados. Pra onde agora?

Invadir uma escola é mais fácil do que eu pensava. É só entrar com toda a calma possível, com uma cara estilo 'estou de volta ao inferno' e voilà! Estamos dentro.

(Tá vendo, francês serviu pra mais alguma coisa).

— A deusa aqui é você — diz ele, cruzando os braços sobre o peito e se recostando na parede. Acho engraçado como homens adoram essa posição. Eles devem se sentir mais machos, sei lá.

Observo o corredor. Tudo parece igual a um ano e meio atrás. Os mesmos armários azul escuro e amarelo canário, as cores da escola; os mesmos trabalhinhos de arte das crianças do jardim de infância pegados nas paredes bege junto com os anúncios de testes de times de futebol e líderes de torcida; as mesmas pessoas que eu costumava dividir seis horas dos meus dias andando pra lá e pra cá, na pressa da troca de aulas.

Vejo a prateleira de honra ao mérito dos alunos a alguns metros de mim e ando até ela, sem saber se ainda estaria lá. Será que eles guardam coisas de alunos que nem mesmo continuam a estudar no Curral? A resposta é sim. Não é a maior das medalhas nem a mais reluzente, mas está bem no meio da prateleira de madeira.

Encosto meu rosto no vidro e aperto os olhos para enxergar o certificado ao lado dela, e consigo ler claramente meu nome em dourado no papel assinado pelo governador da Califórnia.

Vossa Excelência do trigésimo primeiro estado Norte Americano declara honra ao mérito do primeiro lugar da 3ª Competição Estadual de Música Clássica Escolar à estudante da Escola Pública Abraham Lincoln da Cidade de Los Angeles.”

E então havia uma foto minha ao lado do governador, segurando a medalha e sorrindo feito retardada. Ainda me lembro do que ele me disse naquele dia, depois da minha apresentação da 9ª Sinfonia no violino, também conhecida como Ode à Alegria: 'Beethoven teria orgulho de você, criança'.

É, quem diria que eu faço algo da vida além ser lerda.

Vejo que o antigo troféu da competição de futebol americano também está lá, junto com a foto do time que ganhou. Reconheço Muke no meio dos garotos, com o mesmo sorriso de lado que hoje faz a Rachel infartar, e então me lembro de como ele era naquela época. O filho de Apolo já era bonito aos quatorze anos, é um fato, mas estava mais baixo, menos encorpado, a pele um pouco menos bronzeada. É, a puberdade não fez bem pra ele, só o aprimorou um pouquinho.

Corro os olhos pelos outros, como dizer, prêmios? Tanto faz. É estranho ver os mais antigos, sentindo-me imersa nos tempos pré-fuga. A única coisa que me prende à realidade é perceber que, assim como Muke, todas as pessoas estão mais velhas nos corredores que nas fotos. Alguns engordaram, emagreceram, pintaram ou cortaram o cabelo, mudaram o estilo das roupas, mas todos têm em comum o fato de terem estarem, ao menos um pouco, diferentes.

Encaro minha foto sorridente. Sou a mesma baixinha loira que era antes, nem meio centímetro mais alta. Na verdade, é capaz que se eu colocasse agora o mesmo vestido azul-escuro que tive que usar na ocasião, ficaria a mesma Hannah do retrato, que não fez questão de trocar os coturnos ou o lápis de olho estilo punk nem mesmo num concerto de música clássica. É capaz que o sorriso que Nico viu depois de me beijar foi o mesmo de retardada que o governador vira ao elogiar minha apresentação de Beethoven.

Maldita seja a lógica divina que te prende pra sempre aos treze.

— O auditório — murmuro.

— Quê?

Tiro o rosto do vidro e vejo que Muke está parado do meu lado, com as sobrancelhas franzidas. Ele certamente também estava observando as honras aos méritos.

— A Clave deve estar no auditório — falo mais alto — Era lá que eu treinava antes de alguma apresentação.

Ele parece pensativo, mas acaba por dar de ombros.

— Você quem manda, Punk.

~~

E foi assim que nós fomos parar escondidos atrás das poltronas azul-marinho do Teatro da República, que está mais pra um auditório normal de escola do que essa pomposidade toda que americanos gostam de dar às coisas.

Engraçado, até três dias atrás eu juraria de pés juntos que era americana assim como a Rachel, o Percy e companhia. Quero dizer, tem essa coisa de estar perdida a um século e tal, mas se não me falha a memória das aulas monótonas de história, os EUA tornaram-se independentes no ano de 1776. Isso me daria cento e poucos anos de bônus pra nascer, me tornar imortal e sumir, sem que chegássemos aos 2000 ainda. Mas diante da revelação de Tânatos do meu sobrenome, que de acordo com o Nico é tudo menos inglês (ou italiano), as hipóteses que vagavam pela minha mente voltaram: eu era bem mais velha que o país no qual me encontro. Idade Média, talvez?

Legal hein, há chances de eu ter nascido na Idade das Trevas. Combina muito com minha pessoa.

— Pensando no quê? — indaga Muke, certamente curioso por eu estar divagando (sobre sobrenomes e pomposidades americanas, hm) a um bom tempo.

A essa altura do campeonato, nós esperamos a aula de teatro do professor Waters acabar, o que pode demorar um pouco. Estamos sentados um de frente pro outro no corredor estreito entre as últimas poltronas e a parede, ele com seus jeans preto, camiseta branca, camisa xadrez por cima e Vans; eu com os coturnos, blusa com frase de Just One Yesterday e jeans azuis. Devemos parecer dois alunos matando aula.

— Hein? — repete ele, quando não respondo no que estou pensando. Hesito algum tempo. Será que eu devia dizer algo sobre as recentes revelações?

— Não é nada.

Muke respira fundo, cansado.

— Olha Punk, eu não sou a porcaria do Playboy nem algo assim, mas não quer dizer que você não possa mais falar comigo.

Estreito os lábios quando ele se refere ao Nico como ‘porcaria do Playboy’, mas acabo percebendo que o que ele diz sobre podermos ou não conversar é verdade. Estamos na mesma escola que frequentamos juntos numa época que, por mais que seja difícil de acreditar, nós éramos próximos de verdade. Ao menos um pouco, o Muke é uma pessoa na qual posso confiar.

Não em todos os assuntos, claro. Nem morta que eu contaria sobre o momento Afrodite que tive antes de descermos do trailer, antes do resto do grupo se dirigir a um Starbucks a algumas quadras daqui e nós dois virmos pro Curral.

— Eu descobri meu sobrenome — digo, por fim — Só isso.

Muke arqueia as sobrancelhas.

— Sério? — faço que sim com a cabeça — Como?

— Tive um sonho — minto. Não acho que seja necessário comentar a fugida pro cemitério e o encontro com o deus da Morte. Muke estreita ligeiramente os olhos, como se percebesse que estou escondendo informações, mas finge que acredita na ideia do sonho.

— Bem louco, Punk. Achei que seu único nome de família seria di Angelo — reviro os olhos, sentindo as bochechas ficarem quentes, mas não discuto — Qual é?

— Nebavskaya. Ou algo do tipo.

— Hannah Nebavskaya — ele murmura com a mão no queixo — É, nada mau.

Fico surpresa com a facilidade com a qual ele pronuncia a palavra. Lembro-me bem que Nico tropeçou nas consoantes, acabando por desistir de dizê-la inteira.

— Parece uma coisa meio polonesa. Ou russa — ele sorri — Sei lá, algo pra esses lados leste da Europa.

Dou de ombros.

— Deve ser. Vou perguntar pro meu pai quando voltar ao Olimpo, o mínimo que ele tem que saber é em que budega de fim de mundo eu nasci.

Muke ri pelo nariz e fita o além, saindo da realidade por um bom tempo. Agora não sou eu quem está imersa nos pensamentos, parece.

Eu sou mais do que você esperava?, volto a escutar a voz de Patrick Stump, também conhecido como quem canta a bendita Sugar, We’re Going Down em minha mente. Droga, eu sabia que ela ia voltar em algum momento.

Resolvo fuxicar a aula de teatro que está acontecendo para tentar esquecer a maldita canção, e me ajoelho para espiar o palco. Embora ele esteja meio que longe de mim pelo tamanho do auditório, posso reconhecer os cabelos escuros do meu ex professor Waters. Ele está explicando aos alunos como conseguir forçar o choro numa peça de forma a convencer o público de que você está realmente, bom, chorando.

A voz dele chega até meus ouvidos, mas não presto muita atenção nela. Estou muitíssimo ocupada em estreitar os olhos e tentar reconhecer os alunos, sentados em fila no palco. Lembro-me de alguns aqui e acolá, mas então meu olhar se foca em uma cabeça descolorida em específico. Fito-a, encabulada, e acabo por reconhecê-la.

Maravilha! Com tantas turmas para invadirmos, conseguimos a façanha de invadir justo a da Lindsey, vulgo loura oxigenada que me chamara de 'namorada sapata do Muke' a tantos ciclos lunares atrás. Não consigo vê-la direito, mas que se dane, aposto minha vida que continua a mesma naja pegadora que sempre foi.

Duvido que os pais dessas garotas aprovem o que elas fazem com tão pouca idade, tsc tsc. Negações.

— Que ótimo rever nossos coleguinhas — falo entre os dentes, me deixando cair sentada na frente do filho de Apolo novamente. Aquela sensação de ódio à cidade dos anjos estava começando a voltar.

— Ora, não seja tão má — diz Muke, saindo de sua nuvem pensativa — Nós só vamos achar sua bagaça divina e dar no pé, se dermos sorte sem darmos de cara com monstros e coisa e tal.

— Já vi monstros demais por hoje, obrigada — suspiro, dobrando os joelhos e abraçando-os.

Muke segura meu queixo, fazendo-me olhar pra ele. É difícil enxergar a beleza que tanto falam quando ele está agindo feito um idiota, mas assim, sendo uma pessoa normal, eu consigo até admirar por alguns poucos segundos a bela combinação de genes que houve entre Apolo e sua mãe, além de como sua camisa xadrez vermelha dobrada nos cotovelos contrasta com a pele bronzeada.

Eu disse poucos segundos.

— Esqueça isso, tá legal? — seu rosto está sério, mas então ele sorri fracamente — Pela primeira vez a tanto tempo nós podemos agir como antigamente. Não desperdice a chance, Punk.

Dou uma risada irônica, sem me dar ao trabalho de estapear sua mão pra longe.

— Antes de você dar no pé sem me avisar e eu ficar um ano chutada nas ruas de Los Angeles? — pergunto amargamente — É isso que você quer dizer com antes, Muke?

Ele respira fundo e chega um pouco para trás até apoiar as costas na parede, tirando a mão do meu rosto.

— Esse é provavelmente o único momento que eu tenho a sós com você. Então por favor Hannah, não volte a me perguntar o que aconteceu.

Tiro a franja da frente do rosto, de certa forma surpresa por ele ter me chamado pelo nome. Desde o primeiro dia que cheguei no Orfanato, com os coturnos, ele me apelidou de Punk e até parecia se esquecer que esse não era meu nome de verdade.

— A verdade é que eu me arrependo, tá legal? — ele faz uma pausa — Você era muito importante pra mim, e ainda é. O problema é que eu não tive outra saída além de dar no pé sem avisar — Muke ri sem humor nenhum — Mas, acredite em mim, não tem um dia que eu não acorde querendo poder voltar àquele que eu sumi.

Rio ironicamente e estou pronta para alguma resposta sarcástica, mas então percebo que ele não está sorrindo. Seu rosto está sério de um jeito que eu não pensava ser possível, e demoro para aceitar a verdade: ele está sendo completamente sincero.

A repentina demonstração sentimental do Muke me deixa sem fala por um tempo. Mas então lembro-me da loura oxigenada sentada a alguns bons metros de nós, no palco, e de como ele havia passado a mão nela na mesma época que eu ‘era muito importante’.

— É, sei. Aposto que deu uma fugida pra casa de alguma Lindsey Lohan da vida, e--

Muke me interrompe.

— Teve a ver com meu pai — revela — E minha mãe. Basicamente.

Arregalo os olhos, mais uma vez surpresa. Engraçado, o Muke está me surpreendendo muito hoje.

— Você nunca me contou sobre sua mãe.

Quando penso que ele vai continuar nesse estado de pessoa legal, ele se recompõe e sorri debochadamente, como o garoto sem-vergonha e irritante que realmente é.

— E eu tive tempo, com você se esfregando no Playboy o tempo inteiro? — emito um 'ei' indignado, e ele faz uma careta — Tenho que me segurar pra não quebrar o nariz do garoto outra vez. — o filho de Apolo grunhe, e então tenho certeza que seu momento como um alguém quase que sentimental chegou ao fim, creio que para sempre.

— Mentira sua que eu não me esfrego em ninguém — cruzo os braços e espero que ele me responda, mas Muke apenas recosta a cabeça na parede e fica encarando o teto.

Continuo sentada na mesma posição, sem saber se deveria ou não falar algo a mais ou não. Acabo decidindo pelo 'não', já que o assunto proibido, também conhecido como Nico, pode voltar. Sabe como é, não sinto absolutamente mais nada pelo Muke, mas não quer dizer que eu vá contar dos meus momentos pessoais pra ele que nem eu conto carneirinhos.

Depois do que me pareceram horas mas certamente foram apenas minutos, sinto que Hipnos resolveu me castigar por ter acordado tão cedo, junto com Annabeth. Primeiro eu apenas tenho vontade de bocejar, que eu logo reprimo. Mas a vontade acaba voltando mais forte, e todos nós sabemos que esses troços infernais são impossíveis de serem parados.

Com cinco segundos, já mal consigo me manter sentada. Maldito Hipnos.

— Sono? — pergunta Muke, baixando a cabeça de novo pra mim.

Esfrego os olhos. Qualquer coisa pra me manter acordada.

— Não, seu idiota. Fome.

— É, eu suspeitava — diz ele, sorrindo.

— Acordei cedo demais com esses barulhos los angelenos — bocejo outra vez. Como comentei lá em cima, Annabeth abriu a janela para dar de cara com motoristas barbeiros e acabei por me despertar também. E agora, eu pagava as consequências.

Muke pega o celular no bolso do jeans e olha as horas. Ele esconde o aparelho quando tento bisbilhotar a tela de bloqueio, mas posso jurar que vejo o borrão de duas pessoas louras fazendo careta pra mim. Eu nem sequer lembrava que essa foto existia.

— São nove e treze. Falta quase uma hora pra aula deles acabar — ele aponta na direção do palco com a cabeça — Você pode dormir enquanto isso.

Semicerro os olhos, desconfiada. Ele está sendo legal demais pro meu gosto.

— Acho que não.

— É sério — Muke insiste — Pode dormir, eu te acordo quando bater o sinal do almoço. O auditório vai ficar vazio e nós acharemos a Clave. Simples assim.

Quero reclamar, mas mal consigo manter meus olhos abertos direito. Quando Hipnos quer vir com vontade, ele vem de uma vez.

— Tá certo, Raio de Sol — me deito de lado no carpete do auditório, usando as mãos como travesseiro. Minha cabeça está a poucos centímetros de seus Vans vermelhos.

— Não me chame de Raio de Sol.

Rio pelo nariz, de olhos já fechados.

— Por favor, não se esqueça de me acordar — murmuro, mais pra lá que pra cá — E se der alguma merda, não me largue pra trás.

Vou logo para aquele estado entre lúcida e desacordada, quando você sente o que acontece ao seu redor mas não consegue realmente compreender. Então, alguns minutos depois, quando Muke me puxa devagar e deita minha cabeça no seu colo, eu percebo mas não estou consciente o bastante para recusar.

— Eu nunca te largaria pra trás, Hannah. Não outra vez — ele fala baixo, mexendo no meu cabelo, o que me ajuda a adormecer.

~~

Eu estava deitada na grama, mas nada de cemitérios dessa vez. Era o Central Park, de Nova York. O dia estava bonito, com o céu azul-claro, e só algum tempo depois reparei que o Nico estava do meu lado, com as mãos atrás da cabeça. Ele sorri daquele jeito não-tão-sorriso de costume quando percebe que estou olhando pra ele.

— Hannah.

— Olá — eu disse, sem saber se deveria dizer alguma coisa. Deveria existir um manual sobre como se comportar perto de garotos que são mais que amigos e menos que namorados.

Ele estalou os dedos na frente do meu rosto.

— Hannah. Acorda.

Franzi a testa, sem entender. Alguém embebedou essa garoto, meu Deus?

— Quê?

Acorda!

Abro os olhos assustada, esquecendo por um segundo onde estava. Então, ao dar de cara com um rosto moreno e olhos de um castanho misturado com verde claro ao invés do rosto pálido e as íris escuras que eu esperava, me lembro de tudo. Teatro. Clave. Certo.

Ah, droga.

— Caramba Punk, não achei que seu sono fosse tão pesado — diz Muke curvado sobre mim, um pouco perto demais, e percebo que estou com a cabeça apoiada no seu colo. Sinto meu rosto vermelho, quero dizer, quando isso aconteceu?

Sento-me, ainda atordoada pelo sono, mas decidida a mantê-lo o mais longe de mim o possível.

— Quanto tempo eu dormi? — pergunto, ignorando a tontura e ficando de pé. Muke faz o mesmo, mas duvido que esteja a ponto de trupicar no chão como eu.

— O suficiente. Há poucos minutos bateu o sinal do intervalo, o que quer dizer que temos uma hora.

Que eu me lembre, o zelador sempre trancava as portas do teatro para evitar vagabundos insolentes que têm prazer em quebrar patrimônio escolar ou pombinhos que desejam ter prazer em outro departamento. Ou seja, estávamos dentro, sem ninguém para perturbar em uma hora.

Ando no corredor entre as poltronas, indo em direção à escada que sobe ao palco.

— Uma dúvida — digo, quando colocamos os pés no piso de madeira — Como todos foram tão burros ao ponto de não nos verem ali?

É uma pergunta válida. Tá que não era tão na cara quanto no meio do palco, mas não era o melhor dos esconderijos, também.

No entanto, parece que o Muke não compartilha desse ponto de vista.

— Tenho meus truques, senhorita.

Fito-o ressabiada, e ele dá de ombros. Decido que é mais fácil não argumentar.

Caminho pelo palco do teatro, tentando achar alguma coisa que seja visivelmente a Clave. Mas, além de uma solitária garrafa d'água esquecida pelo senhor Waters (ironia), não há nada de diferente.

— A sala dos contrarregra — diz Muke, quando eu já estava me perguntando se teria me enganado do esconderijo da Clave.

Meu rosto se ilumina instantaneamente. É isso!

Arrasto-o até as coxias do palco e, seguindo por um corredor estreito entupido de cenários e claquetes (é a cidade do cinema, afinal), chegamos na sala dos contrarregra. Como vocês sabem (ou não), contrarregra é aquela pessoa no mundo da atuação cuja função é montar os cenários de uma peça, gravação, etc.

Na nossa escola, essa sala servia para basicamente guardar tudo quanto é tralha que não era importante o suficiente pra ficar no corredor, inclusive os instrumentos musicais. Não que eles sejam tralha, ao menos não pra mim.

— Muke, você é um gênio! — exclamo, ao abrir a porta e ver algumas baquetas em cima de uma bancada de mármore. Na parede da mesma bancada havia um espelho enorme, que me faz perceber o quanto eu pareço uma baranga depois de acordar.

Enquanto tento inutilmente arrumar o cabelo, Muke anda até o canto da sala abarrotada de fantasias e tranqueiras e abre outra porta, que desta vez dá para um closet. O garoto se enfia lá dentro e volta instantes depois, carregando consigo um violão.

— Eu sei que sou genial, obrigado — ele se apoia na bancada e bate nas cordas, fazendo o blooom ecoar nos meus ouvidos.

— Nós devemos começar a procurar, seu panguá. Só temos uma hora, lembra? — coloco as mãos na cintura. Além de que ficarmos parados olhando pro tempo poderia atrair monstros, e acredite em mim, os monstros de LA não são legais.

Muke revira os olhos e começa a tocar o violão, ignorando completamente minhas advertências. O que é inesperado, já que posso ver minha cara de desaprovação no espelho e ela não está nada bonita.

— Lembra dessa, Punk? — pergunta com um sorriso brincalhão no rosto, já sabendo qual seria a resposta. Mas como ele me ignorou, resolvo ignorá-lo também, indo em direção ao 'closet'.

— Não, sério — diz, sem parar de tocar — Só me responde, depois eu te ajudo a achar seu bagulho.

Aperto a ponte do nariz, irritada, mas acabo me virando de frente pra ele novamente.

— Lembro. Feliz?

Era Sweet Child o'Mine, música que ele sempre cantava pra mim na época pré-fuga, geralmente depois de pegar legal alguma guria e tentar ser perdoado.

— Ah, sim. Muito feliz — Muke me responde, embora tenha sido uma pergunta retórica — Lembra como você ficava toda boazinha depois de escutar ela? — pigarreia, cantando com a voz perfeita que tinha. Esse é o problema do Muke, ele parece bom até demais. Menos na personalidade, como é percebível — “Ela tem os olhos como os céus mais azuis, como se eles pensassem em chuva”.

Respiro fundo, me contendo pra não esbofetear o garoto.

— Muke.

— “Detesto olhar para dentro daqueles olhos e enxergar o mínimo que seja de dor”

Muke! — grito, irritada.

Ele para de cantar e baixa o violão, deixando-o na bancada.

— Como estou vendo agora.

Fuzilo-o com o olhar, mas isso não o impede de vir na minha direção.

— Se quer saber, isso não é dor, é irritação — cruzo os braços sobre o peito, bufando. Meu Deus, quando mesmo que eu achei que trazer o Muke seria uma boa?

O garoto ri, achando a cena bastante engraçada. Ao contrário de mim.

— Deuses. Você não faz ideia do quanto eu senti sua falta, Punk.

Aham. Sei. E de todas as representantes do sexo feminino nessa cidade, deve ser.

— Ah, é? — sorrio ironicamente — Pena que eu não possa dizer o mesmo, Raio de Sol.

Imaginei que usar o apelido dado a ele pelo Nico surtiria algum tipo de efeito estilo xingos/raiva/reclamações, mas isso não o abala nem um pouco. Muke caminha na minha direção a passos firmes, com os polegares nas tranquetas do jeans um pouco caído demais. Ando pra trás, tentando manter a mesma distância que havia antes entre nós, mas bato com as costas na parede. Mas não é possível, isso acontece em tantos filminhos adolescentes água com açúcar e eu não aprendo a lição?

Ele firma as mãos na parede ao lado das minhas orelhas, me encurralando. Eu poderia ter feito alguma coisa útil, mas meu coração estava acelerado demais para isso. Não sei exatamente por que, se era de culpa por ter seu rosto tão perto do meu, de nervoso por ver os fios loiros caindo sobre os olhos castanhos esverdeados que me observavam tão fixamente, ou de medo mesmo. Não que ele fosse me bater, muito pelo contrário, mas..

— Será que não? — sussurra, sobre eu não ter sentido sua falta (o que é meia verdade), e antes que eu pudesse chutá-lo pra longe ele segura meu rosto e me puxa pra si.

Vou te contar uma coisa sobre o Muke: ele é insuportável, enxerido, ciumento, irritante e narcisista. Mas tem alguma coisa, que nenhuma garota nunca vai entender, que te deixa completamente imersa nele. Quanto mais você luta pra se desvincular, mais seu corpo e sua mente te mandam ficar quieta. Na verdade, te deixa tão presa nele quanto em areia movediça. É a única explicação para eu querer mandá-lo pro quinto dos infernos num momento, e retribuir ao seu beijo na outra.

Mas não foi só isso. Antes que me chamem de cachorra traidora, preciso deixar claro que, no momento em que ele me beijou, minha mente entorpecida fez o favor de esquecer que esse era o Muke, e não o Nico. Eu fiz o favor de me esquecer de que as mãos na minha cintura eram morenas, não pálidas. De que o corpo contra o meu era alguns centímetros mais alto e mais forte. De que esse garoto de agora mordia meus lábios com força, por querer, enquanto o outro fazia o máximo para não me machucar. E, o mais impressionante, eu me esqueci de que a temperatura que eu sentia por ter uma das minhas mãos em sua nuca não era fria como a de um filho da Morte, e sim febril como a de um filho do Sol.

Ok, simplificando. Eu estava mandando a ver no negócio porque cometi o terrível erro de me entregar ao Muke, e depois esquecer que era o Muke. Credo, que coisa mais novela da Globo.

O que me trouxe de volta à realidade foi, de alguma maneira milagrosa, perceber que o hálito de quem eu beijava agora era bem mais doce do que aquele que sentira algumas horas atrás. Enquanto o gosto de um filho de Hades (ou esse filho de Hades, não importa) é algo próximo do amargo, o do Muke estava igual àqueles Tridents de canela que ele vive mascando desde o primeiro dia que o vi.

Pois é, colega. O que me trouxe de volta foi o hálito de canela do cidadão. Valeu, tia Afro.

Empurro Muke com toda a força que consigo para longe de mim, e ele cambaleia até bater com as costas na bancada. Espero sinceramente que tenha doído. Muito.

— O que você pensa que está fazendo?! — berro, pouco me lixando se alguém vai me escutar.

Ele se põe de pé, recuperando-se bem rápido do baque, e parecendo cansado pelo que está por vir.

— Hannah, por favor. Calma.

— Calma? Calma?! — berro mais uma vez, sem acreditar na cara de pau do crioulo — Eu não vou ficar calma! Que se foda a calma! E que se foda você também, Muke!

Ele respira fundo, percebendo que é melhor que apenas um de nós dois grite.

— Olha aqui, se você puder me deixar explicar--

— Explicar o quê, hein? — coloco as mãos na cintura, ficando ainda mais puta por lembrar que há um minuto eram as mãos dele que estavam ali — Que é um filho da puta que só vem pra cima de mim depois de anos bancando o cachorro com as vadias da escola, sabendo o quanto isso me irritava? — não gosto de sair gritando meu passado obscuro por aí, mas não estava pensando direito. A quantidade de palavrões que eu falava ilustrava isso — Que é um filhinho de papai que não aceita que eu esteja feliz com o Nico agora, depois de anos me remoendo por você? É isso que você vai explicar, droga?

Seu rosto fica vermelho de repente, a calma se esvaziando tão rápido quanto a minha.

— É feliz o cacete! — ele eleva o tom da voz, até que está gritando como eu — Você conhece o cara a um mês. Um mês! E eu estou a anos aguentando você me chamando de cachorro, vagabundo, filho da puta e o caralho a quatro por coisas que você mesma causou! — ele fecha os punhos, perdendo o controle — Eu pegava a droga da escola inteira por sua causa, merda!

Sinto minhas bochechas vermelhas, não de vergonha mas sim de indignação, ofendida pela falta de vergonha na cara do cidadão.

— Minha causa!? — bato as palmas das mãos em seu peito, empurrando-o, e ele agarra meus pulsos.

— Sua, sim, Hannah! — me solta, com raiva — Você acha que deixava claro pra mim o quanto se importava com isso? Se não falasse agora, eu nunca nem saberia que você já teve um pingo de consideração por mim! — ele bate o punho fechado na bancada, fazendo o espelho da parede tremer.

Respiro fundo, tentando não exatamente ficar calma mas sim calar a boca.

Dou um tapa estalado no rosto do Muke que deixa a marca de meus dedos e saio a passos largos da sala dos contrarregra. Gostaria de voltar e gritar com ele muito mais que isso, mas todos nós sabemos que minha raiva só passaria por completo se eu batesse em quem realmente deve levar um soco na cara. Eu.

Ai meu Deus, eu não mereço o Nico. Não mesmo.

De volta ao palco, caio sentada no chão de madeira e enterro o rosto nas mãos. Quem me dera poder cavar um buraco e me enterrar aqui mesmo.

— Idiota — digo de forma ríspida, sem saber se é pro Muke, pra mim, pro cara que construiu a sala dos contrarregra no Curral, pro próprio Curral, pra Apolo por ter feito o Muke, pra Zeus pelo mesmo motivo... Não importa. Talvez seja pra todos ao mesmo tempo.

Continuo nessa posição, no meio do palco, até que ouço passos na minha direção. Xingo em grego algo tão ruim quanto os palavrões que falei há alguns minutos.

— Se você tem amor à vida, suma da minha vista.

Muke não me responde, na verdade continuo a escutar passos até que ele para na minha frente. Levanto a cabeça, com os olhos vermelhos de raiva.

— Eu disse pra sumir da minha--

Corto a frase no meio. Não é o Muke que está parado na minha frente, e sim uma mulher alta, dos cabelos e olhos dourados. Ela usa uma túnica branca e uma lança que me parece ser de ouro na mão direita. Tem um par de asas nas costas, assim como Tânatos, o que não me passa uma boa impressão.

— Quanto tempo, minha querida, e é assim que me recebe? — ela sorri, mas seus olhos delatam que não é uma pessoa muito amistosa. Me coloco de pé e dou dois passos para trás, desconfiada.

— Quem é você? — pergunto com a voz firme e os punhos fechados. Que beleza, ótimo momento pra estar puta com o Muke.

— Ora, quando me disseram que o rio Lete havia apagado sua memória, quase não acreditei — ela faz um gesto com a mão, como se dissesse 'que seja' — Enfim, não importa. Sou uma prima distante, digamos assim. Niké, a deusa da Vitória — ela sorri do mesmo jeito falso e escárnio, como um capataz levando a vítima ao abate — Mas sinto lhe dizer, Hannah, que não estou do seu lado.

Notas finais do capítulo
Muitas intrigas, revelações.. Muke sendo sensível? Hannah admitindo que já gostou do Muke? Nico sendo chifrado sem saber? Niké chegando de vela? Sexta-feira, no Globo Repórter KKKKKKKKK nossa véi nossa, as três horas de sono tão dando efeito agora. Mas calma Hannicas, não morram, porque como diz minha madrinha 'tudo dá certo no final, se não deu é porque cê tá ferrado'. HUEHEUHEUHEUE Enfim, pequeno aviso: postar antes do dia 25 acho que não, porque viajarei prum fim de mundo onde a internet é bem capenguinha. Mas antes do Ano-Novo, quem sabe? Está na mãos dos deuses! ou na minha. Sei lá. E claro, feliz Natal a todos! Lembrem-se, é uma época de paz e felicidade, tipo 'ok é Natal então eu não vou fuzilar o Muke até a morte'. Ou então você pode não acreditar no Natal, o que te dá caminho livre pra bater na cara dele até que bem entenda. Permissão da autora, palavra de escoteiro! *ok, acho melhor eu ir dormir agora antes que escreva algo do qual me arrependerei amanhã de manhã, sóbria (?) e lúcida*




(Cap. 32) A volta dos que já foram — ou ‘nunca mais uso Nike na vida’

Notas do capítulo
Heyou! Como foram de Natal e Ano Novo, pessoal? :3 Bom, esse capítulo é dedicado mais uma vez às lindas que comentaram no último (xingando bastante o sr. Muquêncio HEUHEUHE) e à Juu (aka JuuSmile) que recomendou *u* ah, sintam-se todas abraçadas! Boa leitura! *u* Ps. Esse tem mais, hm, violência do que os outros. E como eu não sou uma pessoa muito violenta, dei o meu melhor às quatro da matina pra ficar realista ASKFAKJSFH espero ter conseguido!

32. A volta dos que já foram (ou ‘nunca mais uso Nike na vida’)

Parte I: Point of View — Hannah

Há uma música de um cara levemente estranho que diz “viva pra vencer, até morrer, apenas lute até cair”. Sempre achei que fosse uma interpretação muito exagerada da vontade de ganhar das pessoas, mas esse pensamento morreu quando uma senhora com nome de marca esportiva caiu feito piano de desenho animado na minha vida.

— Isso mesmo, garota insolente — diz Niké, quando não respondo sobre ‘olha aqui krida, não tô do seu lado’ — Não vim para ajudá-la, se é o que pensa.

Olho para atrás da deusa, até as portas trancadas do teatro, imaginando quantos minutos gastaria para correr desembestada até elas.

— E posso saber o que fiz para não ter a honra de você do meu lado? — pergunto irônica, ainda observando minha possibilidade de fuga. Quanto mais Niké falasse, melhor; se ela percebeu que fiz a pergunta apenas para enrolá-la e distraí-la da missão de não estar do meu lado, não demonstrou.

— É uma longa história, você não quer ouvir — a moça suspira dramaticamente, e seus cachos dourados balançam em volta da cabeça — Mas tudo bem, temos tempo.

Permaneço calada enquanto grito internamente a mensagem mental de cadê você, seu demente!? pro Muke. Tá que eu estava puta com ele e coisa e tal, mas tenho certeza de que uma trégua rápida não faria mal.

— Meu desgosto por você não vem de hoje, garota — continua ela, os olhos também dourados me encarando com um desprezo explícito — Ele existe desde que você estragou minha vitória.

— Ah, é? — pelo amor de Deus, alguém mantenha essa baranga falando. Ao menos até eu arranjar alguma coisa melhor!

Dou um passo discreto para a direita. De acordo com meus cálculos, bastaria meio minuto para eu correr até a porta e quem sabe com o impulso da corrida, quebrar a tranca. Quem sabe.

— Se você não tivesse tido aquela ideia idiota de salvar seu país na invasão, talvez não me tivesse como inimiga agora — ela bate o cabo da lança que segura no chão, com força — Salvar seu povo numa guerra contra um filho da Vitória, argh! Estúpido!

Sua fala me faz esquecer o plano de fuga instantaneamente. Meu país? Contra um de seus filhos? Desvio meu olhar até o rosto contorcido de raiva da deusa, agora realmente prestando atenção no que ela tagarela.

— O que você disse? — aperto os olhos e ela faz uma careta.

— Maldito seja o Rio Lete, você realmente não se lembra — suspira — A Campanha da Rússia de 1812.

Pisco, as engrenagens do meu cérebro tentando girar.

— Campanha...? — Ela me ignora, absorta na raiva que sei lá o que diabo aconteceu no século XIX.

— Meu querido Bonaparte invadiu aquela bugeda que você chama de país com mais de seiscentos mil homens da Grande Armée, pronto para mais uma vitória, mas adivinha quem se enfiou no caminho? — ela rosna, apontando acusatoriamente para mim — Você! Sua inconsequente de uma figa, provocou uma nevasca tão grande que tornou aquele inverno o mais frio de toda a história da Rússia!

Sinto meu coração batendo mais rápido a medida que ela fala. Eu era russa! Ai meu Deus, eu era russa! Que coisa divertida! Mas, opa, espere um momento. Como Zeus foi passar o rodo lá nos cafundó da Rússia Medieval? Hmm. Terei uma conversinha com meu pai quando o vir da próxima vez.

— Um momento dona Nike — falei seu nome errado de propósito, pronunciando como o nome da marca — A senhora está me dizendo que eu, Hannah, nasci no país que chamam de Rússia?

— Com um sobrenome daqueles minha filha, achou que era de onde? Namíbia? — ela revirou os olhos — Mais alguma pergunta idiota?

Ah é. Nebavskaya. Faz sentido.

— Essa história de Napoleão. Explique-se.

Sorte que, como todo bom e velho vilão, ela tagarela por horas antes de realmente fazer alguma coisa. Parece que ninguém nunca aprende nada com ScoobyDoo.

— Conheci o pai dele em Ajaccio, na ilha francesa de Córsega — a deusa da Vitória começa, suspirando — Carlo Bonaparte era na época um juiz muito influente e também o representante legítimo do rei Luis XVI em toda a Córsega. Ele me chamou a atenção por ser um jurista que não aceitava sair perdedor do tribunal — outro suspiro. Alguém trocou Niké por Afrodite, é isso? — Como ele brigava para ter a última palavra! Nunca levou um desaforo sequer para casa! Nos apaixonamos instantaneamente, claro. E da nossa linda relação surgiu Napoleão — seu olhar perde o foco e vejo que ela está imersa nas lembranças — Ah, mon chéri Napoléon Bonaparte.. Um garoto de ouro de tão bom! Meu pequeno prodígio!

— Pequeno mesmo, porque né, o cara tinha um metro e meio de altura.

Niké bufa, perdendo o ar nostálgico.

— Um metro e cinquenta e seis! Não foi culpa dele o pai não ser alto! — rosna, e eu levanto as palmas com inocência. A deusa range os dentes para mim — Mas que se dane a altura, tamanho não é documento. Meu menino rapidamente ganhou espaço no exército de seu país, foi de um simples soldado ao imperador da França em poucos anos! Lutava à frente dos inimigos, não temia a morte, nunca aceitava nada menos que a vitória. Era invencível!

— Devia ser o orgulhinho da mamãe.

Como sempre, meus comentários são dispensados.

— Corria até mesmo um boato na Europa de que ele era um deus, um imortal, o que era meia verdade — continua a deusa, sem mais aquele olhar sonhador — E se não fosse por você, sua, sua.. — ela pensa num xingamento à minha altura, mas acaba desistindo — Aquela baboseira na Rússia foi ridícula! Meu Leãozinho perdeu quase quatrocentos mil homens e voltou pela primeira vez derrotado, humilhado para Paris só porque você, sua camponesa intrometida, intensificou as nuvens de neve e abençoou todos os soldados do exército russo!

Respiro fundo uma, duas, três vezes. Minha cabeça dói diante de tanta informação, tão forte que tenho que massagear as têmporas para não bater com a cara no chão. Mas que beleza, tanto tempo querendo saber das águas passadas e quando o momento chega não consigo lidar com ele.

— Leãozinho? Você chamava Napoleão Bonaparte de Leãozinho?

— De tudo que falei, é só isso que você guarda! Menina insolente!

Nota mental: perguntar Annabeth o que é insolente.

— Então, é isso? Fui chutada do Olimpo por um século porque congelei a bunda do imperador? — rio ironicamente — Que pena. Devia ser um exército muito ruim esse, pra ser batido por uma simples russa anã — faço uma pausa provocativa — Oh, espere. O anão da história não era eu, não é mesmo?

Niké estreita os olhos dourados e range os dentes para mim. Reparo que seus caninos são mais pontudos do que os de uma pessoa normal, como se ela rasgasse a garganta dos adversários perdedores com os dentes.

Animador, isso.

— Se quer saber, não fui eu quem sumiu com você, sua camponesa mal-criada — ela levanta a voz — Mas pode ter certeza que, dessa vez, vai ser.

Niké joga a lança que tem nas mãos no meio do caminho entre nós duas, e assim que ela se finca no assoalho, o ar torna-se esbranquiçado. Minha visão fica turva e a respiração difícil, de forma que aperto os olhos enquanto tusso com a fumaça do além. Parece mais obra de Hécate, a deusa da Magia.

Abro os olhos quando o cheiro da fumaça passa e meu coração parece parar por segundos. Eu e Niké não somos mais as únicas no palco, na verdade, estamos no centro de uma roda. Cerca de vinte homens, talvez mais ou talvez menos, estão parados em círculo ao nosso redor. Eles estão com a mesma cara de poucos amigos, têm a pele levemente acinzentada e estão todos em posição militar de descanso — pernas afastadas na linha dos ombros, mãos para trás.

Heróis de guerra. Mortos. É isso que eles são.

— Ora, ora. Talvez você não seja tão idiota quanto eu achava que era — diz Niké com a satisfação estampada no rosto, provavelmente lendo meus pensamentos — Todos esses homens que você vê — ela abre os braços ao dizer todos — foram capitães abençoados por mim com o passar das batalhas. Ingleses, norte-americanos, austríacos, sul-africanos... Apenas os melhores.

Corro os olhos pelos soldados e vejo uniformes de várias épocas: desde os estilo lorde inglês até as fardas de hoje. Se Niké estiver falando sério, esses foram os homens que dizimaram cada de seus inimigos até sairem vencedores de alguma batalha. Cadê o Percy e o Nico pra socar a cara desses mortos quando eu preciso?

Viro-me para trás, e vejo que há um desses capitães parado a meio metro de mim, na mesma posição de descanso. Pela aparência parece que, quando morreu, não devia ser muito mais velho que o Percy. Ele tem a pele cinzenta, os cabelos louros desbotados e um brilho maligno nos olhos vermelhos, e pela maldita insígnia no uniforme marrom, chego à horrenda conclusão de que é um soldado nazista.

Ele levanta os cantos da boca, satisfeito ao ver meus olhos arregalados.

— Será um prazer torcer seu pescoço, saumensch — diz com um sotaque germânico forte. Na verdade, ele podia ter dito que tinha um poodle chamado Mussolini que, pela sua forma de pronunciar, ainda soaria como uma ofensa contra mim.

Recomponho minha postura de badass habitual.

— Não antes de eu chutar essa sua bunda mole, chucrute — rosno. Se ele tinha o direito de me chamar de alguma coisa indefinida em alemão, eu tinha o direito de chamá-lo de conserva de repolho fermentada. Fala sério, aquele troço tem gosto de tijolo.

Chucrute (eu precisava de um apelido pra ele mesmo) levanta uma sobrancelha.

— Vamos ver se continuará com essa pose quando as coisas realmente ficarem interessantes.

Aperto os olhos para ele e viro-me de volta a Niké. O sorriso de satisfação da mulher quase me faz avançar pra cima dela. Mas não sou tão retardada assim.

— Sério mesmo, dona? — cruzo os braços sobre o peito — Me desculpa se dei ao seu Leãozinho a primeira derrota da vida dele ou sei lá que diabo, mas acha que isso é mesmo necessário? — ela continua a me encarar com cara de paisagem — Não sei o que passava pela minha cabeça na época, mas ele invadiu meu país e tudo que fiz foi salvar os inocentes que morreriam numa guerra sangrenta. Quando Cronos invadiu o Olimpo, a sua casa, a senhora também lutou, não é verdade?

A deusa da Vitória revira os olhos, mas percebo que ela chega a pensar no que falei por instantes.

— Não coloque Cronos nisso. Ele é um titã que não deve ser sequer lembrado — ela faz um gesto de desprezo com a mão — Mas, querida, diante do que você fez 1812...

— Eu sequer me lembro de 1812, pelo amor de Deus! — berro.

— ... para mim é questão de honra! Impedir você de voltar ao Olimpo é honrar a derrota de meu filho! — ela sobe o tom em resposta — Atenção!

Os soldados a nossa volta ficam em posição de sentido, e ela continua as ordens em grego antigo. Levo algum tempo para desenferrujar os ouvidos e entender o que ela diz.

— ..sua mestra ordena que vocês eliminem a filha de Zeus, nem que voltem para o Mundo Inferior fazendo isso. Agora!

Ai, fudeu.

Niké tremeluz e desaparece, deixando-me a sós com seus capangas de guerra, e tudo que passa pela minha cabeça é: CADÊ O VIADO DO MUKE PORRA.

Ordeno minhas pernas que corram pra longe do Chucrute e companhia quando eles partem pra cima de mim, pois elas teimavam em permanecer paradas. No meio do caminho para a liberdade, dou uma joelhada em um soldado grisalho e arranco a lança dourada de Niké de suas mãos, aproveitando para cravá-la em seu peito. Para minha surpresa, ele se desintegra e forma um montinho de pó no chão.

Uai. Será que só de beijar um filho de Hades eu já tive poderes hadísticos transferidos pra mim?

Me pergunto se foi algum tipo de coincidência, então aproveito minha dúvida para espetar um maloqueiro de uniforme azul que pula no meu pescoço. Como que em replay, a cena se repete. Puf!

— Minha gente, que coisa eficiente — falo pra mim mesma, olhando impressionada para a lança. Vai ser fácil, fácil acabar com esses diabretes. Melzin na chupeta!

Só que a anta aqui se esqueceu de que estava na desvantagem de um contra vinte (dezoito?), e um cotovelo, mão, pé, uma parte qualquer acertou meu rosto enquanto eu estava na metade da palavra ‘eficiente’.

Caio de costas no chão e o impacto tira o ar dos meus pulmões. Enquanto eu arfo descontroladamente, desesperada por oxigênio, um dos soldados, que agora tem a arma de Niké nas mãos, se ajoelha na minha barriga e piora minha pseudo-asma. O que, aliás, foi uma coisa muito mal-educada de se fazer. Você não tem modos, defunto? Isso é jeito de tratar uma dama!?

Enfim. Estou divagando.

Um dos soldados coloca um joelho na minha barriga, impedindo-me de levantar, e soca meu rosto. Não sei se ele mirava no queixo ou nariz, mas acaba acertando minha boca. Sinto rapidamente o gosto metálico de sangue esquentando a língua, com a gengiva cortada pelos meus próprios dentes.

Forço-me para engolir o sangue, mas é em vão. Ele rapidamente enche minha boca outra vez.

— Saia de cima de mim — grunho. Não gosto de ter um capitão de 500 quilos apoiado em minha pessoa.

— Ah, continua con la pose de heroína, muchacha? — ele tem a voz rouca, como se não a usasse a milhares de anos.

— Eu mandei sair de cima de mim!

Foram várias etapas: primeiro, cuspo o sangue que ele mesmo causou na cara do cidadão. Daí, acerto o cotovelo em suas costelas e quando ele se curva pra frente, acerto o punho em seu nariz. O creck que escuto soa como música para meus ouvidos, e aproveitando sua distração, empurro-o para o lado. Com ele gemendo pelo nariz espatifado, é (sim, adoro expressões bregas) mamão com açúcar roubar a lança que eu mesma roubei de outro cara e puf!, criar outro montinho de pó.

MWAHAHAH I'M THE QUEEN OF THE WORLDDD

Os que restaram se mantêm afastados, diante do meu poder de evaporá-los. O que não quer dizer que eu me afastei deles, também. Fala sério, eu tinha muita raiva pra extravasar — raiva do Muke, raiva de Niké, raiva do espanhol (ou argentino, paraguaio, porto-riquenho, tanto faz), raiva desses deuses que sabiam mais da minha vida que eu. Então, era óbvio que eu estava louca pra poder sair batendo em qualquer um que aparecesse na minha frente. Eu era uma máquina de matar.

Ou ao menos, uma máquina de espetar nos lugares mais improváveis o possível.

Mas eu não era de ferro, lógico. Levei uma porrada de porradas no caminho e podia sentir o corpo todo dolorido, a gengiva sangrando, os braços queimando de dor. Só que.. você já saiu espetando a fuça das pessoas? É muito divertido. Não tinha Anderson Silva (sem perna quebrada) que conseguiria me parar.

MAS isso não quer dizer que você deve sair pela sua cidade espetando as pessoas. Pelo amor de Deus, ó o Papa Francisco pregando a paz aí minha gente, vamos todos seguir o exemplo dele.

— AHHHHH MORRE DIABO.

Mas diante da minha situação, o único exemplo que eu seguia era de Resident Evil.

Determinado momento que eu havia dizimado metade deles e pulei para desviar de uma rasteira, senti que a dor na mão que segurava a arma estava ficando cada vez maior. Acredite em mim, carregar o símbolo divino de outro deus é mais difícil do que parece.

— Já vai tarde — resmungo, olhando para o montinho que mais um oficial era agora. Me viro para os que restaram: Chucrute, um asiático e um jovem ruivo de uniforme antigo estiloso: botas pretas até os joelhos, sobretudo escuro sobre a calça branca. Devia cegar os inimigos de tão fashion — Se vocês mexerem comigo, a próxima coisa que verão é um aspirador de pó!

Para dar ênfase, balanço a lança na minha frente. Eles recuam, os rostos sérios.

Ótimo. Hora de achar a Clave.

Dou passos para trás, ainda olhando para os enfardados. Eles continuam parados, observando qual será meu próximo movimento, e à medida que me afasto percebo que enquanto essa belezinha estiver nas minhas mãos, terei paz.

Mas eu esqueci que o palco tinha um limite. Capof!

Trupico no degrau do palco, caindo de uma altura de um metro e pouco. Não é muita coisa, mas o bastante para fazer o resto do que não doía do meu corpo doer e o soldado ruivo fashion pular na minha frente, me puxar pelo cabelo e me desarmar. Os outros dois esperam em cima do palco, de braços cruzados e sorrisos maus.

— É toda sua, Kutuzov — fala Chucrute, bastante feliz ao me ver de mãos vazias, imobilizada pelo ruivo que agora segura meus pulsos numa mão e a lança dourada na outra.

Que modo trágico de morrer. Será que eu vou virar pó, também? Ou vou agonizar até Deus sabe quando?

— Você não pode me matar, sardento — dou um sorriso vacilante pra ele. O indivíduo realmente tinha sardas quase que imperceptíveis na pele acinzentada pela morte — Pode tentar, mas não vai conseguir.

Lógico que podia. Ao menos, eu acho que sim. Tudo que eu queria era fazer ele soltar minhas mãos, porque eu podia sentir os cortes nos pulsos pelo aperto.

— Eu matei mais de quinhentos homens enquanto vivo — assim como Chucrute, o ruivo tem um sotaque que faz qualquer palavra soar como um xingamento, mas me parece menos grosseiro que o alemão. É mais.. familiar — Por que não poderia fazer o mesmo com uma garota magricela?

Opa, calma lá. Magricela é relativo.

Fecho os olhos quando a ponta afiada vem na direção do meu rosto, pensando que era meu fim (ou ao menos, um quase fim bem trágico).

— Deuses são imortais, seu idiota! — grito, desesperada — Experimente matar a deusa das nuvens. Te dou um biscoito se conseguir.

Sinto o aperto nos meus pulsos afrouxar, e quando abro os olhos, confusa, vejo a surpresa no rosto do moço. Ele levanta as sobrancelhas ruivas e arregala os olhos vermelhos, a boca num perfeito 'oh'. A surpresa do cidadão é tanta que me deixa espantada. Mas o que me deixa perplexa mesmo é o que ele faz a seguir.

O caboclo me joga por cima do ombro feito um saco de batata e sai correndo desembestadamente.

— Ei! Ei, Kutuzov! — escuto a voz confusa de Chucrute — O que está fazendo?

O soldado levemente doido não responde, muito concentrado na corrida. O que é uma pena, porque é algo que eu também queria saber.

— O QUE VOCÊ ESTÁ FAZENDO, SEU DEMENTE? — berro, batendo os punhos nas costas do infeliz. Minha cabeça doía com os solavancos de ponta-cabeça.

— Salvando sua vida! — ele grita de volta enquanto chuta as portas do teatro, se esgueirando pelos corredores para fugir de Chucrute e do capitão asiático. Ou ao menos é o que imagino, já que não podia ver nada com a cara amassada contra seu uniforme sassy.

— E por que está me salvando?! — não que eu estivesse reclamando.

Ele corre mais alguns minutos antes de me responder. Na verdade, não volta a usar a voz enferrujada nem depois de me jogar sentada no chão do banheiro do terceiro andar da escola.

— Ai, cuidado comigo, seu-- corto minha frase no meio.

Um ex-colega mauricinho estava caído aos pés de uma pia, babando.

— Niké desacordou todos os mortais do prédio. Não estão mortos — explica, agachado a uma distância respeitável, antes que eu pudesse perguntar. Talvez o Muke tenha ido junto. Ótimo.

— Mas..

— Me desculpe pelo que ocorreu no teatro — ele me corta, parecendo desconfortável — Não te reconheci imediatamente, mas quando você disse ser a deusa das nuvens reparei que, apesar das roupas diferentes, seu rosto era o mesmo.

— Reconhecer? Você sabe quem eu sou? — Ele balança a cabeça afirmativamente.

— Hannah Nebavskaya, a deusa das nuvens e outras coisas mais. Lutamos no mesmo lado da guerra, e tenho uma dívida com você.

— O quê?

— Na época das guerras de Napoleão. Não se lembra? — balanço a cabeça negativamente, perplexa — Eu era marechal-de-campo na batalha contra as tropas napoleônicas na Áustria. Você matou um francês maldito quando ele estava prestes a arrancar minha cabeça fora.

— Matei? — pergunto, levemente horrorizada. Não sou nenhuma flor que se cheire, mas matar alguém que não vira pó parece mau.

— Sim. Eletrocutou o coitado com um raio — deu de ombros. Realmente, é a minha cara — Como um filho de Nêmesis, acho justo retribuir.

Analiso o soldado em silêncio. A julgar apenas pelos fios ruivos caindo nos olhos vermelhos e a pele acinzentada sardenta, eu nunca diria que era um filho da deusa da justiça.

— Você também é um semideus russo? — pergunto. Ele parece estupefato.

— Você se lembra?

— Não, é o seu sotaque. Não importa o que diga, parece que está me xingando.

Kutuzov ri pelo nariz.

— Isso é bem americano da sua parte.

— Moro aqui há um bom tempo, sabe. Acabo pegando as manias.

— Percebi — ele observa meu rosto por um instante — Da última vez que nos conversamos foi apenas em russo, não inglês.

— Existem outros semideuses por lá? Ou somos os únicos? — não achava que os deuses teriam filhos num fim de mundo gelado como aquele.

— Existem muito mais meios-sangues naquele país do que você imagina, senhorita — ele ri, como que numa piada interna consigo mesmo.

— Sério? — pergunto animada, e ele faz que sim.

— Ao menos correm as notícias no Mundo Inferior que a Força continua lotada de filhos de deuses até hoje.

Franzo as sobrancelhas.

— Força? O que ser Força?

Ele morde o lábio, arrependido de ter tocado no assunto.

— Você não se lembra. É uma, ahn.. associação de meios-sangues. Desde os tempos remotos nós não tínhamos condições de deixar nosso país para ir atrás do Acampamento, então acabamos por criar nossa própria base secreta.

— Imagino a cara da Annabeth quando descobrir isso — levanto as sobrancelhas, impressionada. Meu Deus, a primeira coisa que farei quando voltar ao Olimpo definitivamente vai ser dar um pulo em Moscou para sair desbravando a cidade.

Kutuzov arregala os olhos.

— Não! É uma base secreta. Apenas membros podem saber de sua existência.

— Então por que me contou?

Ele faz cara de bunda pra mim.

— Bom, junto com os outros deuses, a senhorita foi quem a criou.

Respiro fundo, cada vez mais confusa com esse tanto de informação. Derrotar Napoleão, salvar a vida de um oficial conterrâneo, criar um Acampamento secreto. Minha vida era bem mais fabulosa antes do que agora.

— Não se preocupe, Annabeth é cem por cento confiável. Ela é uma das que está comigo atrás da.. — como um baque, meu objetivo principal volta à minha mente. O último pedaço da Clave, que dará fim à busca — Ah meu Deus.

Vou num pulo em direção ao corredor, sem me lembrar do oficial ruivo. Mas não faz diferença, porque ele me alcança depois de cinco passos.

— Senhorita? — enquanto nos desviamos dos alunos desacordados no chão, reparo que ele dá um passo a cada três meus.

— Uma longa história. Preciso achar algo brilhante. Muito brilhante.

Ele pensa por alguns instantes.

— Feito a lança de ouro de Niké?

Paro abruptamente. Ouro? Ouro!

— Kutuzov, você é um gênio!

Ele franze as sobrancelhas ruivas.

— Sou?

Desço as escadas até o segundo andar novamente, quase tropeçando de tão animada. Meu Deus, como eu não percebi isso? Lerda!

— É sim, camarada — falo quando chego as estantes de Honra ao Mérito da escola. Minha medalha continua ao lado da foto com o governador, com seu brilho anormal de Clave.

Kutuzov aperta o rosto no vidro.

— Aquela garota com cara de retardada é você?

Reviro os olhos. Eu achar que estou retardada é uma coisa, um oficial morto de duzentos anos achar é outra.

— É. E não se fala mais nisso — dou uma cotovelada no vidro e, ignorando o sangue que corre nele depois disso, pego minha medalha e coloco-a no pescoço. Ele a observa com os olhos estreitos.

— Esse é o ouro que procurava, devushka? — faço uma careta ao escutar a palavra — É garota em russo. Achei que falasse a própria língua.

Antes que eu pudesse explicar que não, eu não falo mais russo graças minha amnésia cabulosa, uma sombra passa pelos meus olhos e quando me dou conta, o oficial asiático que surgiu do além acerta meu rosto. Me desequilibro e seguro com força o que está mais perto de mim para não cair, que infelizmente é o vidro quebrado das Honras aos Méritos.

Ao mesmo tempo que contenho um berro pelo soco e pela mão, o Xing Ling grita alguma coisa em japonês, mandarim, enfim. Viro a cabeça ainda a tempo de ver meu mais novo amigo Kutuzov dar um trato no sujeito, algo que eu não devia ter feito. O asiático cai e ali fica, tão inerte quanto os mortais desacordados.

É, nunca subestime o treinamento militar do século dezoito.

— Você.. torceu o pescoço dele? — pergunto quando o ruivo pega uma echarpe no pescoço de uma garota dormindo no meio do corredor e a amarra na minha mão que agarrou o vidro. Faço uma careta, mas não reclamo — Obrigada.

— De nada. E sim, basicamente — dá de ombros com uma calma preocupante — Agora você deve pegar seu ouro e sair daqui, senhorita. Não queremos que Maxi, o alemão, atrapalhe..

Só que, como sempre, ‘não queremos’ dá azar. Muito azar. Ouço a risada enjoada de Chucrute (não me importa o nome verdadeiro do infeliz) na esquina do corredor.

— Vocês falam alto demais, foi tão fácil achá-los quanto acharia um elefante numa planície. Aschlöcher.

Dou uma bufada, irritada com a cara de pau do cidadão.

— Olha aqui, seu--

— Ele nos chamou de imbecis, senhorita.

Hm. Chucrute, você tem cada vez menos o meu apreço.

— Que bom que reconhece, Kutuzov — diz o alemão — Mas como eu já disse, será um prazer torcer seu pescoço, guria. E o seu também, traidor. Meu trabalho quando vivo era matar russos nojentos na fronteira da Polônia mesmo.

Ranjo os dentes. Se esse paspalho não parar de falar, serei obrigada a dar um Pra Matar nele.

Não, espera. Por que não agora?

— E o meu é quebrar narizes, chucrute! — pulo na direção do rapaz e acerto seu rosto com o máximo de força o possível, na esperança de fazer um estrago que só cirurgia plástica resolveria.

Ele grita qualquer coisa em alemão, segura o rosto com uma das mãos e me empurra com a outra. Bato com as costas num armário, a mão enfaixada latejando pelo impacto.

— Maxi — escuto a voz dura de Kutuzov ao longe, sem prestar muita atenção em qualquer coisa — Ela é uma deusa e não deve ser morta.

— Que se dane — responde o nazista com o sangue fresco correndo pela bochecha. Ótimo — Não devo nada aos deuses.

— Seu pai é um deles.

Nein! Ares nem ao menos pode ser chamado de pai. Do mesmo jeito que vocês, russos, não devem ser chamados de gente — Chucrute saca uma arma dos anos quarenta e lá vai pedrada do uniforme marrom e a aponta para mim.

Eu poderia ter me movido, mas não havia onde me esconder. E também, cada milésimo de milímetro do meu corpo gritava de dor. As bochechas cortadas, as mãos e os pulsos machucados latejando, o tronco pelos diversos acertos que eu havia levado. Tudo que pude fazer foi fechar os olhos e me encolher como uma bola.

Mas quando escuto o barulho do tiro, o grito que preenche o corredor não é meu. Também, o baque de alguém despencando não é do meu corpo.

— É isso que fazíamos com traidores no meu tempo, maldito.

Arquejo, percebendo que o ruivo havia pulado na minha frente.

— Kutuzov! Não!

Arrasto-me até o moço esparramado no chão, ignorando a dor nas mãos. Ele treme descontroladamente, o sangue escuro correndo no uniforme (divo) azul. Sou extremamente ruim em anatomia, mas podia jurar que ele havia sido acertado bem próximo do coração.

— Sou um homem de palavra, senhorita — fala sem olhar pra mim, como se ele estar morrendo não fosse nada demais.

— Não, por favor, não morra! Eu imploro!

Kutuzov desvia os olhos vermelhos até mim e ri com certa dificuldade.

— Eu morri há duzentos anos, numa batalha. Fui atingido por um belga — ele geme. A ferida dói mais do que demonstra — Só estou voltando para onde não devia ter saído.

Sinto o queixo tremer, e antes que eu possa evitar, estou chorando descontroladamente. Salvei a vida desse moço ruivo a dois séculos atrás, e agora a cena se repetia. Só que ao inverso.

— Quantos anos você tinha? — ele franze ligeiramente as sobrancelhas com a pergunta — Quando morreu?

— Vinte e seis. Quase vinte e sete.

— E quando eu.. — minha voz falha — Te salvei?

Kutuzov olha para o teto e fica inerte por tanto tempo que temo já ter voltado ao Hades. Mas então ele responde com a voz fraca.

— Vinte e quatro. Você me deu quase três anos de vida — ele sorri fracamente, os dentes antes brancos já vermelhos pelo sangue — Obrigado por isso.

Pego sua mão e a aperto, com as lágrimas embassando minha visão. Embora tenha o conhecido a uma hora, duas, meia, que seja, eu estava profundamente abalada por sua morte.

— Para onde você vai? — pergunto entre fungadas e ele respira fundo, com o olhar triste — Por favor, não me diga que os juízes te escolheram punição.

Ele se recusa a responder. Entro um pânico.

— Kutuzov! Você estava nos Campos de Punição?

— Foi justo, senhorita. Como filho de Nêmesis, reconheço isso — ele suspira — Matei muita gente quando vivo. Muita gente inocente — ele geme mais uma vez, não sei se pela dor física ou psicológica — Não só soldados.

Nesse ponto, já estou soluçando e fungando e falando ao mesmo tempo.

— Você só seguia ordens, era seu trabalho! — balanço a cabeça — Eles têm que rever isso.

O ruivo desvia o olhar para o teto mais uma vez, e percebo que se arrepende profundamente das vidas que tirou.

— Não estou brincando — digo. Fungada —. Quando souberem que você me salvou — fungada —, e mais importante, que não se orgulha por matar ninguém — fungada —, vão te colocar no Elísio.

Ele suspira pesadamente, ainda sem acreditar, e aperta minha mão de volta. Ou ao menos, ele tenta.

— Obrigado por ter me salvado, devushka.

Seus dedos se frouxam, e antes que eu possa chorar mais, ele para de piscar. Me encolho onde estou, percebendo que nem ao menos agradeci por ele ter me salvado agora. Poderia muito bem ter ligado o foda-se e ficado parado onde estava, mas não. Fecho os olhos dele e choro que nem um bebê, me esquecendo de quem estava atrás de mim.

— Sinto muito cortar o melodrama, rapariga, mas eu ainda tenho que torcer seu pescoço.

Pronto. Foi isso que me lembrou.

Ranjo os dentes, o choro pelo moço que salvou minha vida tornando-se ódio pelo nazista filho de uma branquela. Com uma força que veio do além, solto a mão fria do ruivo morto (ou duplamente morto, depende do ponto de vista) e coloco-me de pé.

— Vai, torce a droga do meu pescoço. Não ligo, e sabe por quê? Sei que se alguém como o Kutuzov vai ser punido quando voltar pro Hades, você também será. E farei questão de pedir ao Nico que seja a pior punição o possível.

Chucrute dá de ombros. Ele tem o coração mais ruim que já vi, se é que tem algum.

— Posso dar conta de você antes de descobrir.

Me apoio na parede, cada vez mais fraca para ficar em pé. Sinto o sangue quente encharcando a echarpe emprestada e me esforço bastante para conseguir falar novamente.

— Vá em frente, colega.

O soldado anda a passos largos até mim, as botas fazendo barulho no assoalho. O pensamento triste de que muitas pessoas tiveram essa mesma visão antes de morrerem em Campos de Concentração me atinge, e a raiva que tenho dele faz-me cuspir na sua cara quando se aproxima. O moço limpa o rosto com as costas da mão com calma.

— Até que você é uma menina corajosa. Daria uma ótima hitlerista.

— Não, obrigada — rosno — Sou alérgica a filha da putagem.

— Que pena — o alemão balança a cabeça em negação — Resposta errada. Morte pra você — ele tira uma das mãos detrás do corpo, com a lança dourada da Vitória. Eu estava tão entorpecida pela própria dor que nem tinha reparado que ele a tinha nas mãos.

Sem dó nem piedade, ele finca a lâmina perto do meu coração (ou talvez tenha sido no estômago, dos rins, sei lá. Estava muito desesperada pra reparar), atravessando-a. Devo ter gritado, mas sinceramente não tenho certeza de nada além de que qualquer dor que eu já sentira não era nada comparada a essa. Despenco de lado no chão, tremendo, esparramada no próprio sangue.

Chucrute empurra meu ombro com uma das botas até que estou virada pra cima, mas seu sorriso frio no rosto cinzento é apenas um borrão na minha visão desfocada.

— Vejo você do outro lado, saumensch — e ele vira um montinho de pó a centímetros do meu rosto, voltando pro lugar de onde veio.

“Experimente matar a deusa das nuvens. Te dou um biscoito se conseguir”.É, parece que estou devendo um cookie ao Chucrute.


Parte II: Point of View — Percy Jackson

— Não, moço. É Percy.

O caixa do Starbucks, um garoto de aparência mexicana que não fala inglês muito bem, pisca.

— Jesse?

Enterro o rosto nas mãos, não aguentando mais. Eu estava a meia hora dizendo a ele meu nome, e até agora tudo que consegui foi uma tonelada de palavras que rimam com Percy e vários clientes irritados atrás de mim.

— Não, não não. Percy. P-e-r-c-y.

— Mercy?

— Pelo amor de Poseidon, não! Percy, de Perseu!

— Ahhh, de Perseu! — ele levanta as sobrancelhas — Compreendo.

A mulher atrás de mim murmura 'aleluia'.

— Então es un café Califórnia, dos descafeinados e dos frapuccinos de frutas vermelhas — faço que sim. Ele me diz o preço, eu pago, agradeço e volto para a mesa aos fundos. Annabeth e Nico me aguardam, conversando animadamente sobre algo.

— Ei, cadê a Rach e o Orchard? — pergunto ainda de pé, apoiando as mãos na mesa. Os dois se viram para mim.

— Desistiram de te esperar e foram pra um outro Starbucks a duas quadras daqui — responde-me Annie — Por que demorou?

Suspiro.

— Longa história. Problemas com o nome.

Nico também suspira em resposta.

— Compartilho de sua dor — diz — Já colocaram tudo quanto é pérola pra mim. Lico, Rico, Mico... Agora quando perguntam, digo que é João.

Eu e Annie rimos com a seriedade com que ele fala isso.

— João di Angelo. Bonito — bagunço seu cabelo, e ele bufa.

— É, bagunça mesmo. Levei horas pra arrumar.

Annie levanta as sobrancelhas. Realmente, com os fios desgrenhados caindo sobre o olho, o cabelo dele é tudo menos arrumado.

— Você penteia o cabelo? — ela nem se preocupa em esconder a surpresa.

— Lógico que não.

Pisco. Então, por que..

— DOIS FRAPUCCINOS, DOIS DESCAFEINADOS E UM CALIFÓRNIA PARA DIRCEU.

Não. Para. É zoação comigo.

Me levanto e vou até o balcão pegar os cafés. Dou um frapuccino e um descafeinado para um casal da fila, já que os ruivos do grupo nos abandonaram, e volto com três para nossa mesa.

— Isso é meio gay da sua parte — comenta Annie, observando Nico e seu frapuccino, uma espécie de milk shake de baunilha e frutas vermelhas. É uma bebida bastante feminina, se quer saber. Mas ele não se deixa abalar por isso.

— Diz a garota cujo namorado bebe café descafeinado.

Bato a mão na mesa.

— Protesto! É culpa da hiperatividade — falo de boca cheia. Só depois de descobrir ser semideus, entendi porque minha mãe sempre escondia café comum de mim. 'Você é alérgico', dizia. Sei. Ela que tinha alergia às coisas que eu quebrava, correndo pela casa.

Depois de eu defender bastante meu café sem café, começamos a conversar das nossas impressões da cidade da fama: nós fomos direto para um Starbucks depois que Muke e Hannah voltaram à sua antiga escola, ao terminarmos damos uma volta por aí (calçada da fama e afins) e então viemos para esse outro Starbucks perto dos estúdios da Universal. Já era quase de tarde, e a fome do almoço estava chegando.

No meio de uma conversa sobre artistas que não mereciam estrela na calçada, Nico está falando sobre aquela menina da Disney da bola de demolição ("não cara, ela não tá gostosa naquele clipe. Eu não consigo sentir nada vendo aquilo") , quando ele para no meio de uma frase.

— Nico? Que foi? — pergunta Annabeth. Ele continua calado, o frapuccino na metade em cima da mesa, os olhos encarando algum ponto além da gente. Sua respiração se acelera gradativamente até que está como a de uma pessoa que tem asma sem ar.

— Ei, cara. Tá tudo bem com você? — pergunto, preocupado, deixando meu café sem café também em cima da mesa. O Nico não tinha uma dessas crises sobrenaturais faz um bom tempo. Eu e Annie nos entreolhamos.

— Pelo amor de Atena, nos fale o que está acontecendo — minha namorada segura a mão dele que está em cima da mesa, tentando acalmá-lo. Não funciona.

O filho de Hades olha pra Annabeth e depois para mim, sem saber o que fazer. Seu rosto está mais pálido que o normal, os olhos castanhos mostram uma medo que eu não esperava vir deles. Não um medo qualquer, mas o pior deles, o pânico. Um pânico tão grande que sua voz falha várias vezes antes de finalmente funcionar.

— Eu posso ver a Hannah morrendo.

**

Saumensch: imprestável, inútil, preguiçosa, vagabunda. Créditos ao autor de A Menina que Roubava Livros.

Notas finais do capítulo
AH EU SOU MUITO MÁ *risada má* MWAHAHAHAH é que nem um ditado que vi no tumblr: não sabe o que fazer numa história? Pense: qual é o pior que posso fazer a esse personagem? E faça! Mas nem sei se foi muito impactante porque, como comentei, sou uma droga pra escrever coisas assim. Nem chorei lendo g.g triste. Fiz alguém chorar, aí? Bom, até a próxima! :D Ps. ah, e vocês acham meus capítulos grandes demais? Tento manter a média de 4.000 palavras, mas sempre passo g.g




(Cap. 33) “I'm hiding the tears in my eyes 'cause boys don't cry”

Notas do capítulo
Olá gente! *u* Esse é pra todas que leram e comentaram no último, me desculpem pelo choro! E Larissa, desculpa postar antes de você responder, mas é que eu acabei um pouco antes do esperado e já fazia uns dias que eu não atualizava :c Boa leitura! Ps. o título é da música 'Boys don't Cry', do The Cure, e significa 'estou escondendo as lágrimas nos meus olhos porque garotos não choram'. Já é uma prévia do que vem por aí..

33. “I'm hiding the tears in my eyes 'cause boys don't cry”

Parte I: Point of View — Nico di Angelo

— Engraçado — comentei enquanto fitava as escadarias que levavam ao colégio — Não consigo imaginar você dando uma de adolescente normal por aqui.

Hannah riu, como se minha frase fosse extremamente engraçada. Embora eu realmente tivesse dito a palavra 'engraçado', não fora bem nesse sentido.

— Você fala como se acreditasse que fui normal em algum dia da minha vida.

Eram algumas meias horas depois de termos nos beijado. Estávamos na fachada da antiga escola dela, enquanto Muke terminava de fazer qualquer coisa que realmente não me interessava ainda no trailer, a alguns quarteirões, e todos os outros também estavam por lá. Lógico que isso não tinha nada a ver com o olhar de 'fiquem quietos' que eu tinha lançado ao Percy antes de eu e Hannah pisarmos na calçada.

— Talvez você seja normal no seu próprio jeito esquisito. Mas é legal. Eu gosto — essa frase poderia ter sido terminada no 'esquisito', mas por alguma intervenção divina do além, não.

Sendo sincero, eu me sentia feliz, uma palavra que não aparecia no meu dicionário de filho de Hades há um bom tempo.

— Sua sinceridade me emociona, Nicolau — Hannah respondeu observando a rua, com o tom de voz de quem estava sorrindo — Mas obrigada mesmo assim. Você também é bem normal ao seu modo bizarro, chutando a bunda dos mortos de volta pras tumbas ou sei lá o quê — ela então se virou pra mim — E acredite, um garoto quebrando o cabaré com os mortos é definitivamente um garoto bem sexy.

Um fato divertido sobre aquele momento: nós não sabíamos se deveríamos agir feito amigos ou algo mais, então estávamos nesse meio termo que me deixava bastante confortável. Mas 'sexy' numa frase dirigida a mim ainda tinha o poder de deixar meu rosto queimando. Eu tinha minhas raízes introvertidas, nunca conseguiria mudá-las.

— Aww, você ficou vermelho! — ela cutucou as minhas bochechas — Que coisa mais fofinha!

E isso não ajudou na minha repentina presença da cor vermelha na cara.

— Que isso, te beijo uma vez e você já fica achando que pode me tratar que nem cachorro de rico? — cruzo os braços sobre a caveira mal-encarada da minha camiseta — Não é assim que as coisas funcionam, moça.

Um grupo de adolescentes passara e nos observara atentamente, mas nenhum de nós dois deu a mínima.

— Quantas vezes teremos que repetir até que eu tenha esse direito? — perguntou, o que me fez levantar um dos cantos da boca.

— Duas. Talvez três. Acho quatro um bom número.

Hannah se aproximou de mim, tentando ler minha expressão com os olhos contornados de preto.

— Que tal cinco?

Não segui meu instinto de aumentar novamente a distância entre nós, ignorando a parte do meu cérebro que me aconselhava a evitar o máximo de interações físicas com quem quer que seja. Ela estava lá desde, hum, sempre, mas estava sendo abafada por uma outra parte que me mandava continuar nadando nessa área.

— Meia dúzia me parece um bom começo, leggiadra.

Eu não achava que ela fosse responder, até porque não continuaríamos a aumentar os números até chegarmos em algum múltiplo do infinito. Na verdade, eu já segurava seu rosto entre as mãos e sentia seus braços em volta de mim enquanto nos beijávamos novamente antes que um de nós dissesse que sete seria legal porque, sei lá, é o número da perfeição pros cristãos.

— Já comentei que adoro quando você fala italiano? — ela afastou a cabeça por um segundo, mas ainda se manteve perto de mim.

— Se é assim, vou começar a usar com mais frequência.

— Bom. Muito bom — Hannah disse sorrindo e então me beijou mais uma vez, o que nos havia dado a conta de mais quatro beijos até que ela tivesse o direito de me tratar feito cachorro de gente rica.

Talvez eu devesse ter falado o negócio do infinito.

Ok, deixando a idiotice um pouco de lado, tenho de admitir a todos que nós nos mantivemos nos beijando por mais um bom tempo, porque o lado do meu cérebro que me mandava soltar a franga tinha razão. Embora nossas conversas irônicas e cheias de patadas tanto da minha parte quando da dela fossem bastante interessantes, o que fazíamos naquele momento era ser um pouco mais. É, vivendo e aprendendo.

Certamente, as pessoas que passaram na rua repararam num garoto estilo branco-no-preto beijando uma loira de coturnos por longos minutos intermináveis, mas felizmente ninguém se dera ao trabalho de nos incomodar. Digo, quase ninguém.

— Com licença Playboy, mas a Punk tem coisas mais importantes a fazer agora do que enfiar a língua na sua guela. — Uma frase: não se teve um timing tão perfeito desde que acordei e dei de cara com Percy e Annabeth arrancando as próprias roupas.

Grunhi alguma palavra não muito educada e dei de cara com o Muke, o único cara do mundo cujas roupas combinavam demais entre si. Suspeito.

— Ela tem as próprias prioridades, Solzinho. Uma pena que você não seja uma delas — respondi, e Hannah não conseguiu segurar o riso. O filho de Apolo rangeu os dentes, irritado.

— Estarei esperando você dispensar esse crioulo lá dentro, Punk — ele desceu os óculos escuros estilo policial da cabeça e subiu a escadaria do colégio, se misturando rapidamente entre os outros alunos.

Hannah deu um passo para trás, se afastando.

— Talvez eu deva ir, antes que ele desista de me ajudar — ela acertou a barra da blusa, embora eu não tivesse tocado lá — Você tem razão quanto a essa coisa de prioridades, mas nós podemos continuar depois. Não será um problema, ao menos não pra mim.

A filha de Zeus riu, mas eu estava com o rosto sério.

— Olha, Han... Ainda acho que você não deve ir com ele.

O sorriso dela sumiu por não querer voltar nesse tópico.

— Eu já respondi isso.

— Mas você tem certeza? — reforcei. Nosso colega que combinava as roupas feito um estilista hollywoodano gay continuava não sendo confiável.

Eu percebi que ela hesitou por um momento, como se pensasse melhor na proposta, mas logo se manteve firme.

— Absoluta. Faça o seguinte, a algumas quadras daqui tem um Starbucks, na Sunset Avenue. Vocês podem dar uma pausa por lá pra passar o tempo, e nós nos veremos de novo, assim como todo mundo.

— Não sei, não, Han.

Ela revirou os olhos.

— Deixa de cisma, Nico. Eu sei lutar por mim mesma — ela cutucou meu peito — Aprendi uns esquemas com o melhor, sabe?

Dei um quase sorriso pra ela. Eu sabia que tentar tentar tirar uma coisa da cabeça da Hannah seria como tentar mover o Monte Everest um pouco mais para a esquerda, por isso simplesmente respondi com 'tá certo' e acenei de volta quando ela acenou alegremente para mim do alto da escadaria.

Eu devia ter insistido. Mesmo que ela batesse o pé e reclamasse, sei que devia ter seguido meu pressentimento de que algo daria errado. Eu devia ter dito que, embora eu não admitisse pra ninguém, nem ao menos pra mim mesmo, eu não suportaria que algo de ruim acontecesse a ela.

Mas não. Eu desisti.


Depois de dez minutos procurando juntos pela Hannah no colégio, Percy, Annabeth e eu resolvemos nos separar. A sensação de que ela estava à beira da morte ficava mais forte a cada momento, fazendo minha cabeça doer e o peso do mundo cair sobre meu peito, o peso da culpa de ter deixado ela vir sozinha com o Muke.

Falando nisso, onde estava o Muke? Eu não via o maldito morrendo também.

— Hannah! — berrei seu nome várias vezes esperando alguma resposta, mas até agora eu só ouvia os roncos baixos do resto das pessoas no prédio que se encontravam desacordados no chão: uma obra de algum deus sem o que fazer que eu não tinha tempo pra admirar.

A cada loura que eu via no chão, minhas esperanças aumentavam, e então se esmagavam de novo ao eu ver que não era ela. Eu tinha vontade de socar a primeira coisa que aparecesse na minha frente, frustrado por não ter a certeza de que ela ficaria bem.

Isso não era justo. Nem um pouco.

Tento seguir o rastro da morte que todas as pessoas têm nesses últimos momentos, mas por algum motivo idiota não havia apenas o dela. Eu não via mais ninguém, mas a sensação era de que eu andava num cemitério. O ar estava cheio desses rastros moribundos que me confundiam, o ainda novo da Hannah com outros velhos demais, como se pessoas mortas a quinhentos anos tivessem brotado ali. Eles se misturavam na minha cabeça, me fazendo andar em círculos, enquanto os zumbidos pioravam. A cada segundo que se passava eu sentia que estava mais difícil pra ela se manter viva.

Deixo escapar um grito de frustração.

— Qualquer deus inútil que estiver me escutando, por favor, me faça achar a Hannah! — berro para o teto, esperando que alguma intervenção divina me ajude — Eu estou implorando, pelo amor de vocês mesmos!

O silêncio se fez presente ao meu redor mais uma vez, piorando a dor na minha mente e no meu peito. De repente toda a emoção que eu deixei de sentir, ou ao menos deixei de demonstrar, nos últimos quatro anos voltou com a mesma intensidade de um raio. Se nesses últimos tempos os campistas do Acampamento viviam se perguntando porque eu não sorria (nem mostrava qualquer sentimento humano desprezível, como tristeza, alegria ou amor), agora eu não tinha tempo de esconder o medo estampado em meu rosto.

Um grito cortante preenche meus ouvidos, e por bem ou por mal é uma voz fina de garota. E definitivamente não é Annabeth.

— Hannah! — chamo por ela várias vezes novamente, mas pelo que meu sexto sentido hadístico mostra sei que provavelmente não está me ouvindo.

Agora em vez de um grito eu ouço soluços baixos, como os de um choro abafado. Depois de meio segundo reconhecendo de onde eles vêm, vou seguindo o som até que graças a algum deus de coração bom (ou sádico) eu finalmente a acho. Mas a aura, o rastro, a presença da morte é tão forte que me deixa entorpecido. A única coisa que me faz voltar à plena consciência é quando realmente a vejo.

Ela está em posição fetal no chão, feito um recém-nascido, com os joelhos dobrados e as mãos próximas do rosto. Cada centímetro de sua pele está roxo, machucado ou sangrando; suas roupas se encontram surradas como não estavam e, assim como os fios louros, estão manchadas com o vermelho escuro.

De todas as mortes que eu já presenciei com meus olhos (e não foram poucas), é a pior. Porque a Hannah que eu via agora não era a mesma que passou de uma estranha à primeira garota que me deixava com cara de retardado. Era um reflexo distorcido e doentio da Hannah que me deixara envergonhado hoje de manhã.

E acredite, um garoto quebrando o cabaré com os mortos é definitivamente um garoto bem sexy. Ótimo, eu não quebrei o cabaré dessa vez, quem acabou por ser quebrado foi ela. Ou eu.

Me ajoelho e com o máximo de cuidado o possível a coloco sentada, com as costas apoiadas na parede. Mesmo assim, ela parece não conseguir suportar o próprio peso na coluna e contorce o rosto de dor no processo.

— Oi, Nicolau — ela sorri com dificuldade quando seguro seu rosto, manchando minhas mãos de sangue fresco.

— Han, ah meus deuses, o que.. — minha voz some quando vejo que seus olhos marejados estão de um azul desbotado, doentio. Ela tem a respiração irregular quando aponta a mão trêmula em algo que eu não havia reparado ainda.

A centímetros de mim havia uma lança de quase dois metros de altura, jogada como os alunos adormecidos. Devia ser uma arma muito bonita no passado, mas agora que metade do seu dourado estava coberto de vermelho eu tinha vontade de enfiá-la no olho do dono.

Que por sinal, era a deusa da Vitória. Eu já havia visto miniaturas o suficiente com os campistas do chalé 17, Niké, para saber que era o símbolo divino dela.

— Eu.. consegui tirar ela de mim — os lábios da Hannah tremem — Com.. muito.. esforço.

Se tem algo pior que a dor da ferida de uma arma parecida com uma flecha ou uma lança, é puxar de volta a flecha ou lança. Não é atôa que pude escutar seu grito de longe.

Encosto de leve onde estão suas costelas, e ela geme. Estão quebradas.

— Posso ver onde pegou? — é a única coisa que consigo falar na hora, embora não fosse nem de longe o que eu gostaria. Han faz que sim fracamente, e enquanto levanto sua blusa, posso ver de soslaio que seus olhos se umedecem mais a cada corte que o pano esbarra.

Não era como eu imaginava que seria a primeira vez da minha vida tirando a blusa de uma garota, é verdade. Mas se me perguntarem o que eu vi, a resposta verdadeira é nada. Nada além da ferida um pouco acima do umbigo, à esquerda. Toda a região em volta dela estava roxa.

Eu sabia que as coisas não estavam nada bem. Primeiro porque havia grandes chances de ter acertado o estômago. Aula de biologia básica, estômagos são coisas bem úteis quanto perfeitos, mas de contrário, podem te machucar fatalmente por dentro. Nunca mexam com seus estômagos, pessoal.

Ah, e segundo porque meu sexto sentido estava levando a Hannah cada vez mais pro fundo do poço. A respiração dela agora estava mais devagar do que quando a encontrei.

— O néctar vai ajudar, Han — tento manter a voz calma, mas ela saiu trêmula demais pra isso — Vai.. vai ficar tudo bem.

Ela ri ironicamente, ou ao menos tenta.

— Acha mesmo?

Não. Eu sei que não. Eu vejo que não.

Pego o pequeno cantil de néctar que carrego sempre comigo e passo um pouco na ferida. Sei que sente dor quando toco, mas ela morde o lábio para não gritar.

— Acho. E sabe por quê? Eu não te tirei da rua pra isso. Nós viemos até aqui, na última parte da Clave, e eu proíbo que tudo termine desse jeito — meu sexto sentido fica mais intenso, os zumbidos mais apreensivos. O néctar parece não estar ajudando porcaria nenhuma, então seguro-a pelos ombros com medo que suma de repente — Você é uma deusa, e deuses são imortais, o que quer dizer que você não pode morrer! — fecho os olhos com força e tapo os ouvidos quando os zumbidos na minha cabeça ficam insuportavelmente altos — Você não vai tirar ela de mim, pai!

Sinto sua mão sobre a minha. Hannah entrelaça nossos dedos, e então faz-se o silêncio quando sinto seu aperto afrouxar. Sem mais vozes falando na minha cabeça. Sem mais o som de sua respiração descompassada.

Meu queixo treme involuntariamente, e embora nem ao menos me lembre quando foi a última vez em que chorei na minha vida, sinto o rosto molhado quando ergo o braço e fecho seus olhos.

— Me desculpa — aperto com força a mão dela, que agora já está tão fria quanto a minha. Que irônico, eu mesmo vivo tenho a mesma temperatura de alguém cujo coração parou de bater — Me desculpa por não conseguir salvar você, leggiadra.

Não consigo impedir a mim mesmo de chorar a ponto de soluçar, feito uma criança. Feito quando essas mesmas vozes me disseram que Bianca tinha partido e eu não quisera acreditar.

— Você sabe que eu tentei avisar vocês, não sabe?

Viro-me de uma vez, sem reconhecer a voz atrás de mim.

Não sei quem esperava, mas definitivamente não era quem foi. O deus da Morte está de pé a alguns metros de mim, parecendo desolado com duas asas compridas na frente de um armário de colegial e os adolescentes dormindo aos seus pés.

— Que quer de mim, Tânatos? — passo a mão livre no rosto, limpando qualquer resquício de emoção. Ele não entenderia, assim como provavelmente ninguém mais além de mim. Agora eu era novamente o garoto sem sentimentos já conhecido por todos.

O deus se aproxima a passos largos, parando na minha frente. Como não faço questão de me levantar, pois não quero soltar a mão da Hannah, ele suspira e se senta na minha frente.

Na verdade ele não realmente se senta. Fica pairando a alguns centímetros do chão. Mas que seja.

— Não estou mentindo, di Angelo. Eu realmente tentei avisar vocês.

O já conhecido tablet do deus da Morte surge na sua frente, e após mexer um pouco, ele o vira pra mim. A primeira coisa que vejo é uma foto da Han, sorridente e viva como no início do dia. Tenho que respirar fundo para ler o resto.

“N° 583.956.184 — Hannah Alekseyevna Nebavskaya
Filha de Zeus (posteriormente deusa das Nuvens e da Música)
Nacionalidade: russa
Local de morte: Los Angeles, Califórnia, Estados Unidos da América
Causa: Assassinato
Situação: Ainda a ser encaminhada ao Julgamento.”

Fito a data do arquivo. Era de cinco dias atrás, antes mesmo de irmos a Washington. Ele sabia? Todo esse tempo ele sabia que a Hannah ia morrer?

— É lógico que eu sabia — o tablet some de suas mãos — Sou o deus da Morte. Recebo os nomes tempos antes da pessoa realmente falecer — ele me encara com o rosto duro, os olhos escuros sem nenhuma emoção — Por que você acha que nos encontramos no cemitério?

Encolho os ombros, novamente sentindo como se o ar pesasse uma tonelada sobre mim. Na hora pareceu normal, mas agora é óbvio que encontrar com um deus nunca é coincidência.

— Boatos corriam entre os deuses dizendo que você tinha a salvado, mas não acreditei. Então vi o nome na lista e quis descobrir se era ou não verdade — o deus negro olha para minha mão. Era doloroso sentir a Hannah fria e sem vida, mas eu ainda não havia a soltado — Mas então eu vi vocês dois juntos e pensei que não era justo. Seria cruel demais, até para a Morte, tirar mais alguém de você, di Angelo. Você já perdeu muitas pessoas que ama pra mim. E para seu pai.

Minha mãe e Bianca. Não eram muitas realmente, mas mais do que eu posso aguentar.

— E agora, você levou a Hannah. Obrigado por isso, Tânatos — digo amargamente, fuzilando-o com os olhos.

— Eu a chamei pelo sobrenome. Achei que seria o suficiente para vocês perceberem que o nome dela estava na lista.

Mais uma vez, amaldiçoo minha ingenuidade. Sinto o rosto ficar quente, e de repente a única coisa que sinto é raiva.

— Não foi! — elevo o tom da voz — Você poderia ter nos dito de uma vez, talvez ela ainda estivesse viva agora!

O deus não de deixa abalar pelo meu acesso de raiva.

— Não posso eu mesmo impedir uma morte, di Angelo. Como filho de seu pai, você é quem mais deveria saber disso — o rosto dele se abranda um pouco, vai de 'sem expressão' à 'quase sem expressão' — Mas se quer saber, dei um pouco mais de tempo a vocês. Era para ela ter cruzado a fronteira do Hades pouco antes de você achá-la.

A raiva passa tão rápido quando surgiu.

— Nos deu.. tempo? — pergunto perplexo — Por quê?

Assim que as palavras saem da minha boca, eu percebo por quê. Nem ao menos me lembro de quando mãe morreu, e estava longe de Bianca quando ela se foi também. “Seria cruel demais, até para a Morte, tirar mais alguém de você”.

— Exatamente — diz ele, novamente lendo meus pensamentos — Você não teve tempo de se despedir de nenhuma das duas. Quando gritou ajuda aos deuses para que a achasse, resolvi dá-lo ao menos uma chance.

Fecho os olhos e respiro fundo. Ele poderia ter me dado uma chance pra salvá-la, ao menos.

Tânatos se levanta e pega Han do chão, um braço embaixo de seus joelhos e outro passado em seus ombros. Assim que está em seus braços, ela adquire o tom quase transparente de um fantasma, assim como o de minha irmã, e uma toga branca, como acontece a todos que vão atravessar para o Hades.

A mão dela escorrega da minha, e é como se só agora ela realmente estivesse morta pra mim.

— Não! — me levanto e olho para a Hannah, esbranquiçada e inerte. Não era a última imagem que eu gostaria de ter dela.

— Ela deveria estar de frente para os Juízes nesse exato momento — diz Tânatos.

— Deixe-me falar com meu pai primeiro, por favor — imploro — Talvez.. ele a dê outra chance.

O deus levanta uma sobrancelha.

— Acredita mesmo nisso?

A verdade é que Hades não é um pai muito compreensivo. Mas eu faria meu máximo para que ele me deixasse trazer a Hannah de volta à vida.

— Acredito — respondi, por fim.

Tânatos suspira.

— Aprecio sua força de vontade, mas é meu trabalho. Sinto muito — ele bate as asas e se eleva no ar, fora do meu alcance — O nomos einai dyskolo alla einai o nomos, gios tou Adis. Thanatos kerdizei panta.

“A lei é dura mas é a lei, filho de Hades. A Morte sempre vence.”

~~

Parte II: Point of View — Percy Jackson

Nico surgiu na minha frente, na quadra, meia hora depois de termos nos separado. Antes mesmo dele abrir a boca, sei que havia encontrado a Hannah.

Suas mãos e seus braços estão manchados de sangue, e embora eu não possa dizer o mesmo de sua camisa porque ela é escura, posso apostar que também está. Há uma sombra em seu rosto, que está sem expressão como antigamente, e a única prova de qualquer emoção são os olhos vermelhos de choro, imagino.

Annabeth chega correndo e para do meu lado, ofegante pela corrida. Assim como Nico tem o sexto sentido para saber quando as pessoas morrem, ela certamente tem para quando as pessoas aparecem.

— Nico, ela.. — Annie deixa a frase no ar. Ele não responde.

Respiro fundo, sem saber o que dizer. Quando Annabeth levou uma facada quase que mortal na Guerra dos Titãs, nenhuma das palavras de apoio ditas a mim funcionaram pra me ajudar.

E também, minha garganta estava fechada. Eu estava em choque. Nunca mais veríamos aquela menina doida com quem eu havia conversado há menos de quatro horas.

Annie abraça meu primo, que embora deteste esse tipo de interação social, foi educado o bastante para quase retribuir.

— Eu sinto muito — diz ela — Não era pra terminar assim.

— Ela não está morta.

Annabeth se afasta e arregala os olhos. Eu encaro-o sem entender. Não?

— Não? — repito em voz alta, fitando suas mãos manchadas de vermelho — Como não?

Só falta ser uma daquelas piadinhas de mau gosto hollywoodanas, e agora a Hannah vai surgir no meio da quadra gritando 'surpresa!'.

Mas não. Era um pouco menos alegre que isso.

— Sou o único filho de Hades vivo na terra. O rei dos fantasmas — um brilho surge nos seus olhos, um brilho sombrio que eu não via neles a um bom tempo — Ninguém está morto até que eu diga o contrário.


Eu não gostava do Mundo Inferior. Nunca gostei.

Na verdade, se eu fizesse uma lista dos três lugares que eu menos gosto na Terra, seria mais ou menos assim: Mundo Inferior, topo da montanha em São Francisco onde Atlas segura o céu, e Mundo Inferior.

Legal ressaltar que também não gosto do meu tio com nome de suco de caixinha.

Falando sério, eu só havia estado lá três vezes, e todas as três deram merda. Na primeira quase caí no Tártaro com os tênis amaldiçoados de Luke. Na segunda fui contra minha vontade atrás de uma espada de umas chaves bizarras de Hades e quase fui morto por uns espíritos de doença ou sei lá o quê. E, por último mas não menos importante, na terceira fui prisioneiro no castelo do deus dos Mortos, o que por si só já é quase um suicídio. Três situações traumáticas que não desejo a ninguém. Ou a quase ninguém.

E agora, as sombras haviam me atirado primeiro de uma altura de dois metros, jogando Nico por cima de mim.

— Cuidado por onde nos cospe, colega — resmungo tirando a cara enfiada na terra, enquanto ele sai de cima de mim.

— Desculpe. Eu tento a anos descobrir como fazer essa coisa ser menos barbeira, mas não tive muito sucesso.

Antes que eu possa me levantar direito, Annabeth sai do além e é jogada pra cima de mim também. Mais uma vez, sinto o lindo gosto que é o de terra.

Tá vendo, é só eu pisar no Mundo Inferior que já começam querendo me matar.

— Faça algum comentário sobre meu peso, Cabeça de Alga, e considere-se solteiro — Annie rola pro lado, e eu me coloco de pé.

Olho a minha volta. Estamos pisando numa grama preta bastante pisoteada, debaixo de um teto de caverna. Sombras nos observam atentamente, paradas a certa distância. Que eu me lembre, elas se afastam sempre que Nico passa por perto. Thalia até mesmo já dissera brincando que o levaria consigo na próxima vez que fosse ao shopping, porque ele é muito bom com multidões de zumbis.

— Droga! — Nico xinga irritado — Sombras imbecis, eu pensei Juízes e elas nos trouxeram pros Campos de Asfódelos!

Ele grunhe mais alguma coisa em italiano e sai abrindo caminho por entre as almas, que logo lhe dão passagem. Instintivamente, seguro a mão de Annie quando nós o seguimos até os portões do Campo.

Não sei exatamente por quê. Acho que era por medo dela desaparecer de repente, feito acontecera ao Nico com a Hannah.

— É loucura isso, não é? Como as pessoas podem vir pra cá tão rápido — diz tristemente Annabeth — Num momento estamos comemorando o término na busca, no outro..

Faço que sim com a cabeça.

— Acho que as Parcas não estavam de bom humor hoje.

Silêncio.

— Falando em Parcas, estive pensando numa coisa.. — minha namorada finalmente fala — Se elas não teriam feito isso por um motivo.

— Como assim? — franzo as sobrancelhas. Eu não via motivo nenhum para as Parcas matarem a Han. Tá que ela falava demais às vezes, mas isso não era o suficiente.

— Ela e.. você sabe — Annie aponta para o Nico com a cabeça, que estava a uns bons metros de nós ainda abrindo espaço por entre as almas. Ela abaixa o tom da voz num sussurro para que ele não possa escutar — Era óbvio o quanto eles se gostavam.

— Você está dizendo que o Destino pode ter armado pra cima deles? — eu ainda não conseguia compreender seu ponto de vista.

— Sim, mas não como você está pensando. Quero dizer, era o fim da busca, não era? E o que aconteceria depois? — vou responder, mas percebo que era uma pergunta retórica — Zeus certamente trancafiaria a Hannah de volta no Olimpo, com receio que quem quer que tenha a raptado repetisse o feito. E, sendo o pai ciumento que é, daria um jeito de impedir que ela continuasse a ver o Nico, ainda mais por ele ser filho de Hades. Todos sabem o quanto Zeus detesta Hades, e vice versa.

— É verdade, mas.. ainda não entendo por que isso seria um motivo válido.

Annabeth respira fundo.

— Me responde uma coisa, Percy. O que doeria mais em você, que eu morresse e nós não tivéssemos mais nenhuma chance de ficarmos juntos; ou que eu, sei lá, me juntasse a Caçada e você tivesse consciência de que eu estaria sempre lá, vivendo minha vida, mas que seria impossível para nós ficarmos juntos?

Penso por um instante.

— Os dois seriam igualmente dolorosos.

— É, sim, mas qual seria o, como dizer... Mais frustrante?

E então, eu entendo. Uma coisa é perder alguém e saber que você não pôde fazer nada para impedir isso, outra é a pessoa estar sempre lá e você não ser capaz de estar perto dela. A primeira é de certa forma superável após vários anos, já a segunda é frustrante para o resto da vida.

— As Parcas estão poupando o Nico?

— É só uma hipótese, mas talvez — Annie morde o lábio — Além do mais, ela mesma dizia que já tinha treze anos desde seus tempos de escola. E isso tem o quê, um ano? Dois? Ao contrário dele, nunca envelheceria.

— Está dizendo que nós devemos desistir de tentar trazer a Hannah de volta, porque o Nico vai terminar frustrado para sempre? — pergunto, o que faz Annabeth arregalar os olhos.

— Não, de jeito nenhum! — ela balança a cabeça — Não foi uma morte natural, uma morte justa. Ela merece outra chance. E de qualquer forma, se Zeus e Hades realmente tentarem separá-los, conhecendo esses dois sei que estarão pouco ligando para o que os pais têm a dizer.

Sorrio um pouco. Pais olimpianos que não aprovam as duplas dos filhos são mais comuns do que parece.

— Assim como nós, não é?

Poseidon e Atena nunca foram muito amigáveis um com o outro, o que faz com que eles sejam muito ressabiados com nosso namoro.

— É, que nem a gente — Annie apoia a cabeça no meu ombro, ainda segurando minha mão.

Nós chegamos no portão negro dos Asfódelos pouco antes de Nico empurrá-lo.

— Qualquer um pode abrir esse negócio? — pergunto desconfiado. Se for assim, a quantidade de almas que fogem para o Elíseo por dia deve ser catastrófico.

— Não, só eu. Ou meu pai — nós passamos, e ele fecha a passagem novamente. Reparo que quando faz isso o portão escuro brilha levemente em prata, como se estivesse sendo selado. É, passar pro Elíseo não é tão fácil assim.

— A Hannah já está sendo julgada? — quer saber Annabeth quando nós já caminhamos rápido pelas ruas (ou que quer que sejam) do Mundo Inferior.

— Não tenho certeza, mas acho que não — responde com o olhar preocupado. Ele deve estar mais abalado do que demonstra — Mas eu preciso impedir o julgamento. Uma vez que os Juízes decidem pra onde a pessoa vai, é praticamente impossível--

— AI GRAÇAS AOS DEUSES EU ENCONTREI VOCÊS.

Pisco ao escutar a frase. Que coisa anormal, a voz é da..

— Rachel? — perguntamos os três quase que em uníssono ao vermos o Oráculo correndo em nossa direção. Ela chega até nós ofegante, e abraça o Nico daquele jeito que mães costumam fazer, quase nos sufocando.

— Amém que você tá aqui meu filho, nós quase ficamos perdidos nos Campos de Punição. A primeira coisa que seu pai deve fazer ao reformar esse lugar é um mapa de entrada, porque pelamor, não dá pra andar sem guia! E agora você é o guia, obrigada.

Ele se desvincula dela e ofega, sem ar.

— Nós temos um mapa, fica na sala de estar do meu pai — ele espera a respiração voltar ao normal. Então franze a testa — Espera, você disse nós?

— É. Eu e o Oráculo. É melhor pensar assim do que admitir que estava sozinha — ela treme com um calafrio — Deuses, esse lugar é horrível. Você realmente mora aqui quando não está no Acampamento?

— Sim, só que não é como parece, é pior. Mas como exatamente você, ou vocês, estão aqui?

— Começou quando eu tive uma visão — diz ela, mordendo o lábio — Uma visão muito, muito ruim. A Hannah, bom.. Ela tinha morrido.

Nicolau fecha os olhos e respira fundo.

— Ela realmente morreu, Rach. Eu estava lá na hora.

A ruiva coloca as mãos sobre a boca, perplexa.

— Ah, não! Santo Zeus, Nico, eu sinto muito.

Ele encolhe os ombros.

— Já vi várias pessoas morrendo. Tudo bem — mas algo na sua voz dizia exatamente o contrário.

— Rachel. Como você chegou aqui? — Annie repete a pergunta que não quer calar.

A ruiva continuava com os olhos verdes arregalados.

— Eu e Orchard estávamos andando na rua quando tive a visão. Era horrível, haviam vários soldados mortos, e no fim só tinha um nazista que.. — ela olha de soslaio pro Nico e resolve poupá-lo de detalhes — Enfim. Quando fiquei consciente de novo, nós não soubemos o caminho para o colégio novamente então rezei pedindo ajuda a Apolo. Ele ficou puto quando soube e me mandou pra cá dizendo que vocês estariam aqui em alguns minutos, que na verdade foi quase meia hora. Estive rodando sem saber pra onde ir até agora.

— Apolo trouxe você até aqui? — repito — Que coisa aleatória. Porque não foram até o colégio de uma vez? Ele é deus dos médicos, poderia ter feito alguma coisa.

— É... Bom, é um ponto de vista válido — Rach encolhe os ombros — Não pensamos nisso na hora.

— Nenhum deus entra na terra de outro sem que alguém por dentro dê permissão — Nico coloca a mão no queixo com as sobrancelhas franzidas — Apolo não conseguiria simplesmente entrar e..

— Ele só me deixou aqui e foi alertar os outros no Olimpo, com o Orchard.

Nico assente, mas não parece acreditar muito na história.

— Certo — suspira — Nós estávamos indo aos Juízes antes de vocês surgirem. Temos que tirar ela de lá antes de.. de.. Rachel! Você ao menos está prestando atenção no que estou falando? — ele se irrita.

O Oráculo estava olhando ao redor, muito concentrada em alguma coisa.

— Estou sim, é só que... — ela balança a cabeça — Deixa pra lá, continue. Deve estar quebrado.

— O que está quebrado? — agora é minha vez de olhar ao redor, procurando não sei exatamente o quê. Além dos muros negros do Asfódelos e do castelo de Hades ao fundo, nada.

— Não é o que estou pensando, é? — Annabeth parece ressabiada.

— É. Meu Mukômetro. Tive a sensação de que o Muke estava aqui, mas.. — ela fita algo ao fundo concentrada, e logo arregala os olhos — Está funcionando sim! É ele! Oh meu Santo Apolo de Sunga, é ele!

Achei que o ar quente do Mundo Inferior estivesse fritando os miolos de minha amiga, mas vejo o filho de Apolo ao longe, num ponto mais alto, com as mesmas roupas que estava de manhã. Ele parece estar conversando (brigando?) com alguém, mas não consigo ver quem.

— Que coisa bizarra — diz Annabeth — Será que ele também teve algum tipo de visão e rezou pro pai?

Antes que eu me dê conta de alguma coisa, Nico está marchando com sua expressão de 'vou torcer uns pescoços' na direção do indivíduo loiro. Por estarmos no Hades, cercados dessa aura de morte, ele parece mais sombrio do que normalmente é.

— Vocês duas, fiquem aqui — me viro pras garotas — Qualquer coisa, vão para os portões do Elíseo.

Annie assente, mas Rachel não é tão compreensiva.

— Cê tá drogado se acha que eu vou ficar aqui enquanto o filho do Zé Ramalho vai aos tapas com o meu futuro namorado, né?

'Meu futuro namorado'. Hm.

— Talvez eu esteja mesmo, esse ar do Submundo nunca me fez bem — dou de ombros — Você fica com a Annie enquanto eu vou atrás do Nico. Nós viemos aqui pra ele salvar uma vida, não tirar outra.

— Mas Percy! — ela me olha indignada.

— Sem mais, Dare. Sinto muito, seu futuro namoro pode esperar.

Annie me beija, sussurra 'boa sorte, Cabeça de Alga' e sai arrastando a ruiva contrariada (que continua me xingando até onde posso escutar) pra direção contrária. Coloco todo o treinamento de corrida com as ninfas que tive em prática para alcançar Nico. Ele estava no meio de seu caminho para separar a alma do filho de Apolo do corpo.

Seguro-o pela camisa e o obrigo a parar. Ele tenta se desvincular, mas quando vê que é inútil, bufa.

— Será que o senhor poderia me deixar em paz, Jackson? — ele olha com raiva pra mim, parecendo uma miniatura do pai ao fazer faz isso.

— Ei, calma — solto-o — Não vou impedir você de nada. Só quero que saiba que salvar a Han é mais importante que fazer o Muke lamber o chão — diante das minhas experiências do dia, eu podia dizer que isso não é nem um pouco agradável.

Pausa.

— Ele não estava lá na hora — diz, simplesmente.

— Hum?

— Quando ela morreu. Ele não estava em lugar nenhum. Tenho a impressão que parte da culpa disso tudo é dele.

Olho de relance para o garoto distante de nós. Por mais que eu não fosse com a cara dele, nunca esperaria isso. Eu imaginava que ele tivesse um mínimo de consideração pela Han, depois de tanto tempo se intrometendo em (palavra da Annabeth, não minha) Hannico.

Muitas vezes acho que o Nico tem raiva demais pra um garoto de quatorze anos. Mas dessa vez, eu entendia.

— Mudança de planos. Os Juízes podem esperar.

Nico dá um sorriso sádico.

— Vamos chutar a bunda do Solzinho primeiro.

Chegamos até onde Muke se encontra, próximo do Rio Estige. A pessoa com quem achei que estivesse conversando não estava mais presente, se é que realmente havia alguém. Nico vira-o pelo ombro, sem esconder a raiva que sente do rosto, mas Muke não parece surpreso.

— Seriam o Playboy e o peixe espada? — ele sorri debochadamente, sem tirar os óculos aviador dos olhos. Mas as lentes são claras o bastante para que eu veja para onde está olhando — Mas que coincidência.

Maldito. Estou cismado com meu nariz desde que ele inventou essa coisa infeliz de peixe-espada.

— Para dar de inocente — o rosto do Nico está vermelho, tão furioso quanto Hades das últimas vezes que eu o vi — Você largou a Hannah sozinha. Você deixou ela morrer!

Uma sombra passa pelo rosto do filho de Apolo, mas vai embora tão rápido quando chegou.

— Isso foi um ato falho. Um acidente que ainda irei consertar.

— Ah, vai — Nico cerra os dentes — Vai consertar no inferno, Solzinho.

— Já estou nele — ele abre os braços, mostrando a nossa volta — E daqui cara, vocês não vão me tirar.

— Lógico que vamos. Lá em cima você pode se achar, mas aqui embaixo eu que faço as regras.

Muke cruza os braços sobre o peito.

— O que te faz pensar que isso aqui é seu quintal?

Nico franze as sobrancelhas com o desvio do assunto.

— O que me faz... o quê?

— Isso mesmo que você ouviu, Playboy. O que te faz pensar que o Submundo pertence apenas ao seu pai e, consequentemente, a você? — ele ri sem humor, e o tom de deboche sai de sua voz — Você não pode me expulsar, pirralho. Não quando eu tenho tanto o direito de ficar aqui quanto você.

Meus neurônios, embora modestos, ficam em estado de alerta com sua fala. E então entendo o que ele quis dizer, embora não entenda por quê. E os possíveis porquês me deixam preocupado.

— Mas... você é filho de Apolo. Não tem como negar — digo — A aparência, o modo de vestir, de falar... É igual.

Muke me encara com cara de paisagem, e então grita pro nada.

— MÃE!

O ar ao nosso redor se torna esbranquiçado. Minha visão se embaça e quando consigo enxergar novamente, vejo que há uma mulher parada ao lado do Muke.

Ela me é dolorosamente familiar. É alta, usa um vestido prateado que vai até seus pés e tem também um véu sobre os cabelos lisos, que são metade brancos como neve e metade pretos como a noite. Seu rosto e o resto de seu corpo seguem o mesmo padrão, um lado é extremamente pálido e o outro é escuro como piche. Eu só havia visto essa mulher pessoalmente uma vez na vida, e assim como o Mundo Inferior no geral, eu não gostava dela.

— Melinoe?! — o queixo de Nico quase se desprende do resto do rosto ao olhar para a deusa dos Fantasmas — Como assim? Mas.. Não pode! Ela não pode ser sua mãe!

A mulher me fita de cara feia. Melinoe é conhecida por se transformar em fantasmas de pessoas que nós nos sentimos culpados pelas suas mortes, mas no dia que nós nos vimos, eu fui o único que não caiu nos seus truques de ilusão. Todos os meus amigos que haviam morrido naquela época estavam no Elíseo, o que me deixava em paz com eles.

— Ora essa, mas é lógico que ela pode ser minha mãe — Muke revira os olhos — Um casal bem diferente, admito, o deus Sol com a deusa dos Fantasmas. Mas fazer o quê, cada um com suas próprias surubas.

Melinoe semicerra os olhos pretos para o filho. E quando digo isso não quero dizer de íris pretas, mas sim completamente pretos.

— Muquêncio, isso não é jeito de falar sobre seus pais!

Ele suspira.

— Desculpa, mãe.

Nico cambaleia pra trás, ainda em choque, encarando Muke com o pânico estampado no rosto.

— Mas ser filho de dois deuses faria de você... — ele arregala os olhos castanhos e a voz some antes dele terminar a frase. Somente aí a ficha cai em mim, também.

— Um deus — completei — Di immortales, você é um também!

Muke ri de maneira debochada.

— Está começando a usar seu cérebro, peixe-espada! Mas é isso aí. Parabéns pela descoberta de que eu não sou só mais um filho de Apolo.

— Não é possível — Nico balança a cabeça em negação. Eu mesmo posso sentir meus batimentos se acelerando — Você está mentindo.

Melinoe sibila, e imagino que seja sua maneira bizarra de rir. Acho que tudo nela é bizarro.

— Essa foi uma frase bem adequada.

Muke coloca as mãos nos bolsos, suspirando.

— Ah, Nico di Angelo.. o único filho de Hades em todo o mundo. Depois desses dias, finalmente entendi porque seu pai tem tanta vergonha de você — Muke sorri como se soubesse de algo que nós, não — Sou o deus das mentiras, das ilusões e das distorções mentais, e olha que pela primeira vez a muito tempo eu dizendo a verdade — ele levanta os óculos escuros, e embora um de seus olhos continue de um castanho meio verde como antes, o outro tem a íris tão negra quanto os olhos da mãe — Também sinto contar que muito do que vocês viram nessas últimas semanas é apenas verdade distorcida.

Notas finais do capítulo
É agora que a porca vai começar a torcer o rabo, minha gente *risada de suspense* Hasta la vista!




(Cap. 34) Acho que o lema da minha vida devia ser 'vive la mèrde', porque né

Notas do capítulo
Heey ya, pessoal! Como vão todos? *u* Então, vou admitir que foi difícil pra caramba escrever esse, nem sei porque aksjfhakjsfh eu tinha bloqueios intermináveis de ficar meia hora encarando o teclado com uma cara de 'viva la mèrde'. Hm. Pois é, superei um desafio, UHULES. E esse é dedicado à marcellemenezes, Girl of Hades, ComoAgridoce, JuuSmile, Dessa e à todas que leram e tiveram vontade de torcer o pescoço do Muke HUEHEUHE Boa leitura!

34. Acho que o lema da minha vida devia ser 'viva la mèrde', porque né

Point of View — Hannah

Sabe quando você tem um pesadelo muito, mas muito ruim e acorda sobressaltado, respirando rápido e dizendo amém que acabou? Então. Morrer foi mais ou menos assim pra mim. Só que eu não entendi logo de cara que tinha morrido. Foi algo bem de repente. Num momento tudo à minha volta se escurece e logo depois abro os olhos, assustada, de cara num chão de pedra xadrez.

Me coloco de pé com dificuldade e observo ao meu redor. Estou parada numa sala comprida, repleta de portas grandes e de paredes negras cheia de pinturas de pessoas famosas no passado. Reconheço algumas figuras da história, da música, da literatura e do cinema, mas outras não faço ideia de quem sejam. No centro da sala estão posicionadas três tronos de madeira, com os assentos em vermelho. Parecem os tronos dos reis de filmes de Hollywood.

Levanto minha mão para ajeitar o cabelo, mas quando faço isso, ela está translúcida e vejo o que há atrás dela. Olho então para mim mesma. Estou descalça, usando um vestidinho grego, também conhecido como toga, e minha pele está de um azulado quase transparente. Eu esperava sentir meu coração batendo descontroladamente, mas então me lembro de que ele não bate mais.

Eu morri.

Ah meu Zeus.

Ouço uma das portas de madeira de aspecto antigo se abrir, e três homens passam por ela em fila indiana. O primeiro é alto e de certa forma idoso, de cabelos brancos e uma barba comprida da mesma cor, e também usa uma toga, como eu. O senhor se dirige ao trono do meio, que é um pouco mais alto que os outros, logo quando o segundo entra com as botas fazendo barulho no chão de pedra. Ele é mais novo que o primeiro, na meia-idade, e rapidamente o reconheço por ter mais ou menos minha altura. Um metro e cinquenta e seis!, a voz de Niké veio em minha memória. Não foi culpa dele o pai não ser alto!

Uma palavra: sorte. Muita sorte, é o que tenho.

Napoleão usa um uniforme muito parecido com aqueles que eu via muitas vezes nos livros de história; botas pretas altas, calça branca apertadinha, casaco escuro cheio de medalhas e afins, chapéu engraçado na cabeça. Ele se joga no trono à esquerda do senhor idoso sem nem ao menos olhar pra minha cara, o rosto apoiado no punho fechado com uma expressão entediada enquanto o terceiro entra a passos descontraídos. É um homem magro ainda mais novo que Napoleão, talvez em seus trinta, de pele negra e cabelo rastafari comprido. Ele anda quase que num gingado, e assim que se senta largado no último trono, acena para mim.

Acalma o fangirl, Hannah. Acalma.

— E aí, novinha? — diz ele sorridente, e minha voz some ao perceber que a voz dele era realmente a mesma que eu adorava escutar.

— Você.. você é.. — arregalo os olhos e coloco as mãos na frente da boca, chocada. Não era possível.

— Robert Marley, também conhecido como Bob, muito prazer — ele faz uma reverência — Cantor quando vivo, juiz quando morto. Mas só nas segundas, quartas e sextas, que no resto da semana é meu colega Lennon, e nos sábados, domingos e feriados é meu xará Bob Dylan.

O fato de estar de pé na frente do rei do Reggae e ainda escutar ele falando de outros dois dos meus artistas mortos preferidos provavelmente me faria infartar, mas coisa boa que não se pode morrer duas vezes. A não ser que você seja um dos capangas de Niké, porque aí é possível sim.

— Nós somos os Juízes dessa noite, menina — diz o senhor do trono do meio, e ele tem uma voz rouca, antiga — Eu sou Platão, filho de Atena. À minha direita é Napoleão Bonaparte, filho de Niké; e à minha esquerda, embora você pareça já o conhecer, é Bob Marley, filho de Dionísio e neto de Irene, a nem tão conhecida deusa da paz. Nós estamos aqui para julgar toda sua vida e eu, como Juiz chefe de hoje, tomarei a decisão final de seu caminho aqui no Mundo Inferior — ele me encara com os olhos cinza, idênticos aos de Annabeth. O estranho pensamento de que eles são irmãos me ocorre — Dúvidas?

Faço que sim com a cabeça timidamente.

— Você é aquele cara grego dos livros de filosofia?

O cara grego dos livros de filosofia começa a responder, mas é cortado pela risada alta do cantor jamaicano.

— Ela dá pra nois porque nois é Platão — ele cutuca o mais velho —, só pensada violenta!

Franzo as sobrancelhas, cruzando os braços.

— Espero que esse 'ela' não tenha sido dirigido a mim.

— Não foi — Platão suspira — Desde que um brasileiro citou isso a alguns anos, tenho sido relembrado do momento todo santo dia que trabalho com o Robert.

— Você tinha que ter visto, novinha — Marley agora tem lágrimas nos olhos de tanto rir — Chegou um cara do Rio--

Platão lança um olhar carrancudo ao colega.

— Não é hora disso, Bob. Temos mais trinta e sete almas para julgar hoje, lembra?

— Tá legal, tá legal — ele tenta segurar o riso, e quando consegue, diz — Prefiro perder a guerra e ganhar a paz, colega, minha mãe já dizia. Continue.

Platão estende as mãos e fecha os olhos, concentrado. Sinto uma corda invisível me puxando para frente, mas permaneço parada onde estou. É como se ele estivesse fuçando os confins da minha mente e desenterrando memórias que nem mesmo eu lembrava. Quando a sensação de ser puxada termina, o grego olha para mim estupefato e toca a testa do jamaicano.

— Caramba, novinha — Bob Marley diz com o rosto sério — É uma alma bem transtornada, essa que você tem.

— É verdade — Platão parece pensativo — Mas não acho que você saiba por que, sabe, deusa das nuvens?

Assim que escuta a frase do colega, Napoleão, que encarava as pinturas nas paredes com desinteresse, se enrijece. Ele se vira pra mim, incrédulo, não acreditando no que vê.

— Você — sussurra, com aquele sotaque meio bichoso na voz. Encolho os ombros.

— Eu?

— Você! — seu rosto fica vermelho ao me reconhecer — A garrrota sem o que fazerrr que quaz mató Napoleón!

Suspiro. Eu sabia que isso ia acontecer em algum momento.

— Com licença seu Bom nas parte, mas sua mãe já me xingou a beça hoje. Na verdade, foi ela que fez isso — aponto para meu próprio corpo transparente — só porque eu chutei sua bunda a uns trezentos séculos atrás.

Vive la France — ele semicerra os olhos castanhos — Bien feito, se non fosse por vous eu terrria conquistado toda Eurrrropa.

Gente, como que sotaque francês é tão sexy em alguns homens e tão gay em outros? Dúvida da minha vida.

— Não é hora pros seus melodramas, Bonaparte — Platão diz com a melhor voz de autoridade — Um julgamento deve ser imparcial a partir da vida da pessoa, não do impacto da vida dela na sua.

— Non son melodrrrramas! — o grego toca a testa do francês, que imagino ser a forma dele ver tudo que ocorreu em minha vida, e Napoleão faz cara feia — Non prrrecisava saber nada dessa rrrrapariga na minha frrrent parrra dizer que ela merrrece os Campos de Puniçón. Ela congelô todo meu exérrrrcito em 1812. Absurde!

E aqui está a primeira coisa que aprendi no Mundo Inferior: nunca mexa com franceses, ainda mais se eles forem baixinhos invocados. Eles vão te odiar para sempre, mesmo duzentos anos depois de morrerem.

Bob Marley suspira.

— É, bem que nós devíamos ter trocado a escala de hoje. Júlio César teria sido muito mais útil.

Pisco algumas vezes. É desconcertante o quanto eles falam dessas pessoas mortas famosas como se todos fossem colegas de trabalho. Quero dizer, o imperador romano com o rei do Reggae? Normal, normal, saem juntos pra buteco todo santo sábado.

Platão pigarreia.

— Já que nosso colega parisiense não quer ajudar--

— Non suis parisiense!

— Já que nosso colega francês não quer ajudar, preciso que responda a uma pergunta, Hannah. É a única coisa que você tem que fazer.

Dou de ombros.

— Vá em frente.

— Do que você se lembra? — pergunta, me pegando de surpresa.

— Do que eu.. o quê?

— Sobre tudo, desde o começo. Do que você se lembra?

Cerro os olhos, ressabiada.

— Vocês acabaram de ver toda minha vida. Sabem muito bem qual é a resposta.

— Sabemos, mas precisamos ouvi-la de você.

Parecia uma pergunta bem simples. E realmente era, já que a resposta que eu normalmente daria seria nada. Mas por algum motivo, eu não conseguia mentir para aqueles homens à minha frente. As palavras foram arrancadas de mim antes que eu pudesse socar a própria cara para ficar calada.

— Eu me lembro de acordar num orfanato, sendo apresentada aos outros órfãos como uma transferida. De saber meu primeiro nome e ter certeza das coisas que gostava ou não, mas não fazer ideia de onde eu estivera antes como se.. como se algo tivesse sido bloqueado na minha mente. Me lembro de no primeiro dia apanhar da diretora por algo que não fiz, e que o único dos órfãos que fez alguma coisa pra me ajudar não foi um cara baixinho que realmente era culpado, mas sim um loiro que acabou levando o resto da surra, e continuou a assumir as culpas das outras coisas erradas que fiz, ou não, diversas outras vezes.

Me pergunto internamente porque diabo estava falando dessa época, mas não consigo me impedir de continuar. Ah, la mèrde.

— Lembro-me de ficar instantaneamente próxima desse loiro tarado que passava a mão em todas as garotas da redondeza e de até mesmo ter uma pequena queda por ele, que durou só até o infeliz sumir do mapa de um dia pro outro. De ter fugido daquele orfanato infernal antes que ele acabasse comigo, de brigar com grupos barra-pesada, quase ser morta por uns bandidos esquisitos, de viver por mim mesma um ano e quebrado num beco da rua Presidente Eisenhower entre os números 473 e 474, na periferia de Los Angeles, até um garoto branquelo com uma obsessão pouco saudável por preto aparecer.

“Lembro-me de ele me mostrar o Acampamento e, sem querer, acabar me trazendo de volta a um mundo ao qual eu nem ao menos sabia pertencer. De conhecer um filho de Poseidon e uma filha de Atena que são como irmãos mais velhos pra mim; encontrar de volta o loiro tarado que me salvava de apanhar e descobrir que todo esse tempo ele era um semideus filho de Apolo; ficar amiga de uma mortal ruiva que me faz rir todo santo dia pela obsessão que tem homens, embora não possa namorar por ser o Oráculo; e criar apreço por um filho de Deméter caipira que é como um irmãozinho metade mexicano pra mim, agora. De.. de me apaixonar por aquele mesmo garoto branquelo que me salvou da vida miserável que eu tinha nas ruas, que me chamava de leggiadra, que me beijou algumas horas antes de segurar minha mão enquanto eu morria.”

Dou uma pausa, mordendo o lábio. Eu realmente tinha falado que estava apaixonada pelo Nico? Isso era algo que nem eu mesma sabia direito.

— E o mais importante, me lembro de me sentir em casa com todos eles quando nós saímos em busca da minha Clave, e de ver tudo ser levado por água abaixo por eu agora estar falando com vocês e não com os Olimpianos — respiro fundo, abalada por soltar tudo isso de uma vez — Pronto. Isso é tudo que eu lembro. Tudo antes disso é apenas história pra mim.

Os juízes me encaram num silêncio desconfortável, absorvendo todo meu discurso. Exceto Napoleão, lógico, que continuava com aquela cara de tédio habitual, como se tivesse apertado um botão de 'entender apenas francês'.

— Você é uma menina de coragem, novinha — diz Bob Marley, finalmente — Muita gente não conseguiria dizer tudo isso com firmeza.

— Eu tenho que ir em frente — digo —, e enquanto estiver indo, tudo ficará bem.

O jamaicano sorri ao perceber que minha resposta, que de inicio soa sem sentido, era apenas a letra modificada de uma de suas músicas.

— Também admiro sua força, menina. Acho.. — Platão alisa a barba grisalha — Acho que você merece saber.

Se meu coração estivesse funcionando agora, ele estaria acelerado. Mas como não está, eu apenas arregalei meus olhos.

— Saber o quê?

O grego e Marley se entreolham, como se tivessem uma conversa mental. O cantor faz que sim com a cabeça.

— Vá em frente. Eu apoio.

— Non! Ela non merrrece saber nada — Napoleão bate o punho fechado no braço do trono — Merrrece a Puniçón ao que fez ao comigo!

— Calado, Bonaparte! Deixe suas mágoas para Aristóteles. Ele é mais sentimental que eu — Platão pigarreia após levantar a voz para o francês mimado, e vira-se a mim novamente — Aproxime-se, menina.

Permaneço parada alguns instantes. ‘Você merece saber’, disse ele. Pode significar muita coisa. Pode ser que ele diga ‘olha, você merece saber que vai levar o resto dos séculos fervendo em óleo quente nos Campos de Punição, escutando a risada boiolada de Napoleão como música de fundo’. Quem sabe.

Me aproximo dos tronos, hesitante.

— Por quê?

— Você merece ao menos saber quem realmente é — ele estica a mão e toca minha testa, assim como fez com os outros juízes.


Quando as manchas brancas desaparecem da minha visão, eu não estava mais na frente dos juízes, naquela sala de paredes negras e chão xadrez. Estava num cômodo que tinha uma mesinha no centro e paredes bege com algumas panelas e utensílios bem velhos dependurados perto de um desenho de um vale bonitinho com nuvenzinhas no céu azul.

Eu conhecia esse lugar. Ele aparecera no meu sonho, na mesma noite que fui ao cemitério e dei de cara com Tânatos, mas logo percebi que não era o sonho novamente. Naquele dia eu não havia compreendido a frase em outra língua escrita no desenho e agora, cerrando os olhos e encarando-o com atenção, a resposta veio na minha mente.

Старайся стоять твёрдо на земле если твои мысли витают в облаках. “Mantenha seus pés no chão enquanto sua cabeça estiver nas nuvens”.

Ah meu Zeus. Não era pra eu ter entendido isso. Por que eu entendi isso!?

Enquanto eu permanecia parada com as mãos cobrindo a boca, encarando as letras estranhas que pareciam tão normais pro meu cérebro mas não para mim exatamente, o barulho de passos chegou aos meus ouvidos e chamou minha atenção. Uma mulher entrou no cômodo e levei menos de um segundo para reconhecê-la como a mesma moça que morreu no mesmo sonho. Como a via pessoalmente (ou quase), podia enxergá-la nitidamente.

Era alta e tinha os cabelos loiros no tom platinado, aquele que chega a ser branco, presos numa trança até a cintura; sua pele era muito clara e os olhos eram de um azul ainda menos escuros que os meus. Ela poderia facilmente ser confundida com uma modelo se não fosse o cenário e o vestido simples surrado. A mulher, que não devia ter mais de trinta, veio na minha direção e por um segundo achei que pudesse me ver, mas então apenas me atravessou como se eu não estivesse ali.

Ouço barulho de passos novamente. Giro meu corpo a ponto de ver uma garota entrar na sala, e meus olhos se arregalam.

— Oh meu.. — começo a falar, mas então me lembro da fala de Platão: “você merece ao menos saber quem realmente é”.

A garota era exatamente igual ao que vejo todos os dias em frente ao espelho, mas o cabelo era mais comprido, os olhos não tinham nenhum resquício de lápis preto e o vestido, assim como o da mulher mais velha, era estilo camponesa de filme medieval.

Mas não era filme. Era minha vida. Platão estava me mostrando parte de minha própria vida.

Mat? — disse a Hannah-pré-histórica, e fico surpresa ao entender que ela (eu?) havia dito 'mãe?'.

Zdes, Nana — 'aqui, Nana'. Oh meu Zeus. Oh mEU ZEUS.

— Por que me chamou? — perguntou a Hannah pré histórica, na mesma língua. Era estranho ver aquelas palavras bizarras saindo da minha boca, ainda mais entender essas mesmas palavras bizarras.

AR. AHH AR. PRECISO DE AR. Droga, mortos não respiram.

A mulher (oh meu Zeus, agora me ocorreu o pensamento estranho de que é minha mãe ASKJFHAGF) se sentou numa das cadeirinhas velhas e apoiou as mãos entrelaçadas na mesa. Minha eu antiga fez o mesmo.

— Eu falei com Leonov hoje — disse a moça. O nome não surtiu nenhum efeito em mim, que apenas o achei engraçado, mas a Hannah antiga pareceu ressabiada.

— O que ele queria dessa vez? — perguntou.

Minha mãe (?) parecia querer evitar o tópico o máximo o possível, mas sabia que não poderia.

— Ele me pediu em casamento, Nana.

O quê? — a outra eu arregalou os olhos azuis sem maquiagem — Ele te o quê?

— Isso mesmo que escutou — suspirou.

— E você.. disse não. Certo?

Silêncio. Eu (a eu de agora, levemente fantasmagórica e transparente) tentei me sentar numa das outras cadeiras porque não estava conseguindo me manter de pé direito, mas acabei atravessando-a e caindo no chão.

— Mãe. Você disse não, não disse?

— Nana, nossa vida é miserável, você é atacada por monstros todo santo dia. Você tem que entender que isso ajudaria, que não é uma escolha..

— Mas é lógico que é uma escolha!

Há um som de trovão ao longe, mas parece que eu, apenas assistindo a cena, sou a única que o noto.

— Não é — a mulher balançou a cabeça tristemente — É mais que isso.

A eu antiga se levantou, exasperada.

— Mais que sim ou não? — me perguntei se minha voz soa tão fina assim quando brava — Santos deuses, eu não me importo com a porcaria dos monstros! Estou viva até agora, não estou?

— Sim, mas só por algum tipo de milagre — a mãe balança a cabaça — Eles farejam seu cheiro a feudos de distância.

— Mas mas.. é o Leonov, mãe! Com tantos homens na Rússia! — os olhos da outra Hannah começaram a se umedecer — Como pôde fazer isso comigo? E com meu pai?

— Seu pai não tem nada a ver com isso — minha (nossa?) mãe encarou a Hannah pré-histórica com uma expressão severa e percebi levemente assombrada que ficou muito parecida comigo quando brava. Ou eu que parecia com ela. Não sei.

— Papai te amava. Ainda te ama! — minha eu passada continuava com o rosto vermelho, enquanto eu observava tudo calada (elas, nós, enfim, ninguém poderia me escutar de qualquer forma), parada ao lado da mesa e me perguntando como tudo isso foi apagado da minha memória.

Eu não me lembrava quem era Leonov, nem porque minha mãe dissera sim para se casar com ele e muito menos porque eu ficara tão indignada por isso; e o fato de não saber nada me deixava indignada novamente.

O rosto de minha mãe ficou vermelho, e eu, tanto morta quanto no passado, percebi que ela havia chegado no limite.

— Assim como ele ama Hera e as mães de todos os seus irmãos! — bate o punho na mesa — Depois de você nascer, Zeus nunca mais fez nada de útil pras nossas vidas!

— Porque você não deixou!

— Não, porque ele é um deus! Se não liga nem para a filha, quanto mais para mim!

A eu antiga respirou fundo, se acalmando.

— Eu sei que ele não é muito presente, mãe. Mas.. — sua voz vacila — papai já tentou se aproximar várias vezes e você sempre bateu a porta na cara dele, dizendo que nossa vida não é fácil com o trabalho, os impostos, com todo mundo inventando história por você ter me criado sozinha.. Deixar que ele ajudasse a gente uma vez, só uma vez, seria tão ruim?

Pausa.

— Você não vai mudar minha opinião, Hannah. Aceitei ser a esposa de Leonov — disse, finalmente, com o rosto sem expressão — Daqui a duas semanas você será enteada do senhor feudal e nada vai mudar isso.

A Hannah pré-histórica encarou a mãe com raiva, até que deu as costas e saiu pela porta da frente. Enquanto a mãe enterrava o rosto nas mãos, eu atravessei a janela atrás de mim mesma. Passei por uma pracinha de chão de tijolinhos, com várias casinhas simples em volta e reparei que havia um castelo ao fundo. Pelo pouco que eu me lembrava das minhas aulas de história, os senhores feudais moravam em grandes castelos enquanto seus servos se matavam trabalhando pra ele seis dias por semana.

E pelo que eu tinha entendido dessa visão, eu era filha de uma serva que iria se casar com um desses senhores feudais. Por que isso era tão preocupante?

Continuei me seguindo até uma floresta de pinheiros, pairando a alguns centímetros do chão com minha fantasmacidade enquanto a outra eu quase tropeçava nos galhos e era arranhada por eles no meio do caminho. Ela finalmente parou no fim das árvores, na praia de um lago.

Dei alguns passos para trás, sentindo o coração disparado mesmo sabendo que isso era impossível. Lago. Ah deuses, isso não é bom para alguém com fobia de água. Minhas mãos tremeram e o pânico tomou conta de mim, o medo de que eu iria ser puxada por uma força maligna até o fundo e morrer afogada.

Ok, sei que isso não faz sentido. Mas nada na minha vida faz sentido.

De qualquer forma, minha eu do passado não teve nenhum problema com o lago, pois se sentou bastante próxima da margem. Percebi então que eu não tinha nada contra água antes.

— Pai? Pai! Eu sei que você está ai! — gritou com raiva para o céu — Eu preciso falar com você, é importante — ela estreitou os lábios, parecendo ponderar se falava mais alguma coisa ou não — Eu.. aceito sua proposta. Eu aceito me tornar imortal.


Estou de frente para Platão outra vez, e é como se tudo tivesse passado pela minha cabeça no exato momento que ele tocou minha testa. Bob Marley continua me encarando com atenção, Napoleão continua com a cara de desprezo habitual.

A única coisa que mudou é o barulho da minha respiração desnecessária.

— Isso.. isso foi.. — começo, mas minha voz não funciona muito bem. O cara grego dos livros de filosofia alisa a barba.

— Você vai se lembrar de tudo aos poucos, menina. Quando passar pelos portões do Campo que for direcionada já saberá de tudo que o rio Lete apagou.

A simples menção de um rio me faz ter calafrios. Mas também me faz ter uma ideia.

— Rio Lete..? É por isso que eu, hm..

— Tem fobia de água? É, sim — Platão responde — Uma gota do rio do esquecimento faz de você um bebê recém-nascido, e acredito que se afogar nele tenha te traumatizado de tal forma...

Uma das portas de madeira antiga se abre, me fazendo pular onde estou. Estava muito concentrada nas memórias que iam pipocando em minha mente. Como por exemplo, que eu costumava escapulir de madrugada para passeios noturnos na floresta de pinheiros ao lado de casa.

Um garoto entra na sala aos tropeços, ofegante. Ele está com o cabelo castanho desgrenhado e as bochechas rosadas por correr.

— Nico? — arqueio as sobrancelhas, surpresa, e de certa forma aliviada — O que você--

— Mini Hades, quanto tempo irmão! — Bob Marley dá um pulo no seu trono. O dito cujo não responde a nenhum de nós dois, apenas faz uma reverência educada aos juízes.

— Venho em nome de Hades — diz apressadamente — Ele ordena a suspensão do julgamento.

Napoleão bufa.

— Vous ment muito mal, di Angel. Hadès nunca poupou ninguén na histórrrria, porque pouparrria essa rrrrapariga.

Nico fuzila-o com os olhos, irritado. Nunca fiquei tão feliz em ver ele tão pouco feliz.

— Depois de meu pai eu sou a autoridade, então cuidado com o que fala comigo, afeminado — se ele tivesse dado um tapa na cara do imperador não teria o ofendido de tal forma como ofendeu. Acho que o sotaque levemente feminino é um tópico bastante delicado para os franceses.

— Não recebemos nenhuma ordem direta de Hades — reconhece Platão, desconfiado — Não estou chamando-o de mentiroso, di Angelo, mas não posso deixar de suspeitar que seu pai não está envolvido nessa escolha levando em conta a.. proximidade que você tem com a réu.

Nico fecha os punhos, uma expressão mortal no rosto. Eu já havia o visto bravo muitas vezes, mas desta vez parecia diferente. Era como... não sei. Não tive muito tempo pra pensar nisso. Minha mente estava uma casa da mãe Joana, de forma que enquanto ele discutia algo com os juízes metade do meu cérebro pensava em inglês e metade pensava em outra língua. Também, cada hora eu ia me lembrando um pouco mais da minha vida antes, o trabalho diário, as guerras alguns séculos depois de me tornar imortal, porque eu ficara tão preocupada com minha mãe me casar com o tal Leonov. Pelo que as imagens na minha cabeça mostravam, ele era um fanfarrão que não fazia nada além de beber e dar de Don Juan com as moças das redondezas, e ela achava que se morássemos com ele o cheiro insuportável de vodka do sujeito me deixaria livre dos monstros que me rondavam. E então aceitei me tornar deusa para livrar ela disso.

— Certo, filho dos mortos. Nós seguiremos suas ordens — diz Platão, sem estar completamente convencido — Mas saiba que qualquer problema com seu pai, você será quem acertará as contas com ele. Sozinho.

— Com prazer, senhores. Não tenho medo de meu pai, ele que faça comigo o que bem entender quando descobrir — foi por um segundo, um milésimo de segundo, que vi um dos cantos da boca dele se levantar discretamente. Foi extremamente rápido, mas estranhei. Eu via aquele sorriso bastante, mas não no seu rosto.

— Está agora por sua própria conta e risco, di Angelo. Espero, que saiba o que está fazendo.

Nico faz um aceno com a cabeça.

— Passar bem, Sócrates.

— Eu sou Platão!

— Que seja. São todos gregos.

Mando a mensagem mental de ‘o que está fazendo’ ao Nico, mas (poxa vida) ele não parece captá-la. ‘Afeminado’? ’Ele que faça comigo o que bem entender’? ‘Que seja, são todos gregos’? Eu não estava entendendo porque mudara tão de repente seu comportamento. Não que Nico fosse um cara extremamente educado, mas isso tudo não era muito a cara dele.

Ele agarra meu pulso e me arrasta pela sala, a passos largos. Posso escutar Napoleão reclamando de algo em francês (ao menos parecia uma reclamação, pelo seu tom de voz), Platão mandando a próxima alma entrar e Bob Marley gritando ‘não se preocupe com nada, novinha! Vai ficar tudo bem!’

Isso me parecia bastante a letra de Three Little Birds, mas vou deixar passar.

— O que está fazendo aqui? — pergunto num sussurro apreensivo, num tom quase que ingrato. Nico me olha com o canto do olho.

— Preferia que Napoleão a jogasse nos Campos de Punição?

Hm, não falei que soou ingrato?

— Não estou reclamando, só.. Ah, deixa pra lá. Obrigada.

Ele ri sem humor.

— E pela primeira vez na vida, você me agradece por alguma coisa — murmura baixo, e quase não consigo ouvir. Eu queria perguntar o porquê de sua frase, mas no momento ele abriu uma das portas de madeira do salão que levava até o lado de fora e o ar do Mundo Inferior me encobriu.

Um detalhe engraçado: eu não respirava mais, ou ao menos, não precisava. Mas eu continuava inspirando e expirando por costume, então quando aquele ar encheu meus pulmões, o fedor nauseante da morte fez meus olhos arderem e me deu a mesma sensação de asfixia que tenho na fobia, mas trezentas vezes pior. É difícil de explicar com detalhes porque não há qualquer perfume francês na Terra que dê a sensação tão real de que você está encurralado pela morte, mas a única coisa que consegui me impedir de perceber foi que era o mesmo cheiro do Nico.

Tusso algumas vezes, tirando o ar quente e abafado de meus pulmões. Depois disso, prendo a respiração, o que meu corpo não protesta conta. Eu simplesmente paro de respirar e não faz diferença nenhuma pro meu organismo, porque ele não funciona mais.

— Como você consegue fazer isso? — pergunto. Nico para de me arrastar e franze sobrancelhas pra mim.

— O quê?

— Isso — aponto minha mão livre levemente translúcida para a que ele segura — Achei que apenas os juízes não me atravessavam.

Ele parece tenso por um segundo, e me solta.

— Filhos de Hades. Nada demais.

Ele continua a andar pela grama preta em silêncio, enquanto eu o sigo com meus pés pairando a alguns centímetros do chão. Além das lembranças chegando a mil na minha mente, eu estava confusa com a distância com a qual ele estava me tratando, e também o que exatamente estava fazendo. Ele vai me levar pro Elíseo? Me trazer de volta? Por que não faz questão de olhar na minha cara?

SENHOR DI ANGELO EXPLIQUE-SE.

— Só tem um jeito de trazer você de volta — ele diz quando chegamos numa área afastada do Mundo Inferior, onde tudo que posso ver é um chão negro interminável — E temos que ir rápido. Se alguém nos achar.. teremos problemas.

— É algo proibido, pra não podemos ser vistos? — pergunto ressabiada.

— Quanto menos perguntas você fizer, melhor. Acredite em mim.

Escuto o som de uma correnteza, e logo percebo com horror que parte do chão negro interminável ao meu redor era na verdade um rio de águas escuras como piche. O rio Lete. Ferrou-se.

No momento que coloquei os olhos nele, a lembrança de me afogar naquelas águas voltou à minha mente com uma força tão grande que tento correr em disparada para longe dele, mas Nico me segura antes. Depois de perceber que é inútil tentar me afastar, me agarro a ele e enterro meu rosto em seu peito, em prantos.

Acabo fungando contra minha vontade, e a única coisa que me deixa um pouco mais calma é perceber que ele não está com o mesmo cheiro nauseante do Mundo Inferior. Sua pele está com aroma de canela, o que no momento meu pânico não fez questão de estranhar.

— Hannah, por favor, calma — ele segura meu rosto entre as mãos, secando as lágrimas com os polegares — Respira, fica calma.

Eu tentei explicar meu desespero, mas minha voz não estava muito afim de funcionar.

— Eu sei que você está com medo, tá legal? Eu sei — os olhos escuros dele me encaram apreensivamente — Mas essa é a única forma de trazer você de volta, o único jeito de fazer tudo voltar ao que era antes.

Nico me levanta e me carrega, o que em qualquer outro momento seria completamente bem vindo mas agora me faz lutar para longe dele.

— Me deixa no chão! — consigo voltar com minha voz, mas ela sai um pouco mais aguda que o normal. Ele se aproxima perigosamente perto demais da correnteza, meu pânico aumentando com a visão das águas negras batendo com violência nas pedras da margem.

— Você precisa entrar no rio — revela, o que me faz voltar aos prantos. Entrar no rio? Do esquecimento? A garota que tem medo de piscininhas de criança?

Nyet! — minha língua materna sai sem que eu perceba — Me larga, seu.. seu monstro! Você não é o Nico, eu nem quem você é!

Ele não se abala com a violência que uso para tentar (inutilmente) chegar ao chão. Quando desvia o olhar pra mim, com uma expressão que pode ser de qualquer emoção no rosto, vejo seus olhos se parecerem mais claros numa questão de segundos.

— Me desculpa, Punk — ele suspira — Mas te fazer esquecer é o único jeito de deixar você ir embora.

Notas finais do capítulo
Quem adivinhar o que aconteceu com o (pseudo) Nico ganha uma bala Chita, vamo que vamo Sem querer dar spoiler mas dando, próximo capítulo é pov Nicolau, tan tan tan ~musiquinha de suspense~ ~já repararam que todo fim de capítulo meu tem musiquinha de suspense~ ~pois é tenho que parar com isso~ Hasta la vista! õ/




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