A vez de Lacey escrita por Camélia Bardon


Capítulo 1
Gerânio


Notas iniciais do capítulo

Oii! Como vão vocês nessa tarde gostosa de sexta-feira? Pelo menos aqui onde eu moro está um clima muito agradável, perfeito para postar as fanfics que já estão prontas.
Pelo motivo de já estar tudo pronto, prometo postar um capítulo por semana por volta de 16h-17h. São doze capítulos, um para cada irmã.

Espero muito que vocês gostem e que dê um gostinho de infância no coração ♥



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Os dezesseis anos de uma garota eram para ser repletos de momentos mágicos e marcantes. No entanto, Lacey sentia-se exatamente como no dia anterior, quando ainda tinha quinze anos. Estava esperando pela grande mudança – um grande romance, talvez? – olhando o pôr do sol por uma das inúmeras varandas do palácio.

Talvez tivesse gasto toda sua cota de magia onze anos atrás. Ou talvez dividir a ocasião com mais duas irmãs fosse mesmo um tanto desalentador... O fato era que, ao menos aos olhos do senso comum: Lacey, a número 12, era e sempre seria a irmã sem diferencial.

E não, ser perita em desastres não contava. Seus inúmeros tombos e cicatrizes não eram ostentados com orgulho pela caçula.

Com o pensamento, Lacey deixou os ombros penderem em frustração. Papai saberia o que dizer para consolá-la... Contudo, assim como a mãe, o querido rei Randolph já descansava na morte. Que termo bonito para um sentimento tão agridoce...

Logo, um sorriso tomou conta de seus lábios. Se sua cabeça estava vagueando por terras sombrias, a luz ao final já era visível. Courtney ficaria orgulhosa de saber que estou tendo pensamentos tão poéticos.

— A festa está chata, querida?

Lacey voltou-se em direção à voz doce que a chamava. Então, ela enumerou os adjetivos que eram cabíveis a figura – Majestade, rainha Ashlyn, a mais velha ou então a número 1 – enquanto sorria. Apesar de já ter passado por três gestações e comandar todo um reino, Ashlyn sempre seria a doce irmã de cabelos acaju e compreensivos olhos azuis. Diziam as boas línguas que a rainha Ashlyn era idêntica à rainha Isabella quando tinha sua idade. Lacey só tinha aqueles comentários a se apegar, afinal de contas. Percebendo estar quieta há tempo demais, Lacey murmurou:

— O que? Ah, não! Eu só vim ver o pôr do sol. A festa está ótima!

— Está dizendo por educação porque sou a anfitriã, porque é gentil o suficiente para não reclamar ou subitamente quer se aperfeiçoar em pores do sol? A mim você não engana, mocinha — Ashlyn bateu o quadril levemente com o dela, acomodando-se ao seu lado na varanda. — Falando sério, Lacey... O que está te incomodando, meu amor?

Ah, e lá estava o tom materno que Lacey tanto amava. Ela não se inibiu quanto a abraçá-la pela cintura e aninhar-se em seu peito.

— Não vai me achar boba?

— Algum dia já fiz isso? — em resposta, Ashlyn acariciou os cabelos loiros da irmã.

— Não, mas... Ah, está certo. Você tem razão.

Lacey respirou fundo, tentando encontrar as palavras certas para se expressar. Ficava mais fácil com o tempo, é claro, porém ainda assim...

— Ashlyn, e se... E se eu nunca tiver nada de especial?

A rainha desvencilhou-se dela com cuidado.

— Como assim, querida? Quem disse que você não é especial?

— Ninguém... Acho que eu mesma. Sabe, não no quesito de personalidade. No mínimo eu sou engraçada, porque todo mundo ri dos meus tombos...

Ashlyn suprimiu uma risada. Contra fatos não há argumentos...

— Mas não há algo que só eu possa fazer. Nada de impressionante como cavalar ou... Jogar. Ou tocar, ou pintar, ou...

— Já tentou?

Lacey franziu a testa ante a interrupção da mais velha. Apesar de Ashlyn jamais falar em tom grosseiro, a ideia não havia passado por sua cabeça – e olhe que Lacey pensava bem mais do que o adequado.

— Bem... Na verdade, não...

— Então deveria! Pode se divertir muito tentando, ou então redescobrir coisas sobre você que finge que não sabe... — Ashlyn deixou a frase no ar, com um quê de sabedoria acentuado.

— Certo... E como eu faço isso?

A mais velha sorriu de escanteio, como se todos seus anos dourados igualmente estivesse passando diante de seus olhos.

— Contate cada uma e peça uma aula de teste. Por exemplo, se estiver ansiosa podemos tentar a flauta amanhã. Sempre tiro ao menos dois dias de folga após celebrações — Ashlyn sussurrou como se contasse um grande segredo. Apesar da diferença de idade entre as duas ser de dezenove anos, Lacey jamais se sentiu tão digna das confidências da rainha. — E pensar que essa casa só nos tinha para a tumultuarmos...

Lacey aquiesceu, com um suspiro nostálgico.

— É mesmo. Agora cada uma tem sua nova vida e nem todas moram aqui. Acha que o papai estaria orgulhoso da gente?

Ashlyn olhou-a com carinho. Então, finalmente abraçou a irmã de lado, o choque da realidade do tempo atingindo-a como uma brisa suave no final da tarde.

— Não tenho dúvidas disso, minha querida. Não precisamos seguir caminhos iguais para sermos boas pessoas. Papai sempre teve orgulho de nós, só pecou em deixar que outros o dissessem como se sentir.

Lacey concordou com ela. Mesmo assim, antes que pudesse contestar qualquer comentário, um montinho de cabelos castanhos enfiou-se na vista contrária à varanda.

— Mãe?

— Sim, Cecilia? — Ashlyn abaixou-se na altura de sua caçula.

— Eu sujei o vestido de bolo... Desculpa. Oi, tia! Feliz aniversário!

Ambas as irmãs riram baixo, e a mãe que era requisitada ofereceu a mão para seu pedacinho de gente. E pensar que na idade dela Lacey se ocupava de salvar seu reino com umas gotinhas de água mágica...

Bem, ao menos isso de extraordinário seus tombos fizeram.

❀⊱┄┄┄┄┄┄┄┄┄┄┄⊰❀

O primeiro “bom dia” de Lacey sempre vinha dos raios de sol através das janelas. Lacey particularmente amava observar o trajeto da luz – primeiro não era mais do que um filete. Depois, espantava toda a escuridão do dia anterior como se fosse um espanador de pó. Então, o quarto das princesas reluzia como nunca.

Apesar de não serem as mesmas doze a compartilhar o quarto, uma parte considerável mantinha-se firme ali. Lacey sempre as contava, com medo de perder alguma durante o sono.

Vejamos... Um par de gêmeas ali... Outro par de gêmeas lá... As trigêmeas aqui... E as princesas herdeiras bem ali. E mais uma, contando com Ashlyn. Ficamos em...

Onze.

Após um longo suspiro, Lacey vestiu-se e desceu a escadaria para tomar o desjejum. Se antes era a última em tudo, agora se esforçava para ao menos adiantar-se no café. Afinal, como mais ela poderia provar que a refeição era a sua preferida se nem ao menos fazia o esforço de comparecer à mesa no horário certo?

— Bom dia, Alteza — Vossa Majestade, o rei Theodore, Theo, marido de Ashlyn e único homem real do palácio, sorriu ao cumprimentá-la. Agora era ele a sentar-se numa das pontas da mesa.

— Bom dia, Majestade!

— Como vai o primeiro dia dos dezesseis? — acostumado ao tanto de garotas que o rodeavam, Theo inclinou-se para frente verdadeiramente interessado. — Está indo conforme o esperado?

— Se levar em conta que eu não estava esperando nada demais... — Lacey deixou a frase propositalmente incompleta, fazendo com que o rei risse de seu comentário.

— Nada de mágico ou extraordinário?

— Hm-hm.

Todas as irmãs – e, é claro, e Derek – havia entrado num consenso de manter secreta a história com o pátio de dança. Era de conhecimento geral que o rei Randolph havia sofrido um atentado direto contra a vida – por conseguinte, contra seu reino –, porém o destino da criminosa permanecia um segredo. Imagine só dizer “pois bem, ela se autocondenou a dançar para sempre”. Theo riria dela. O todo o resto também. Apesar do desespero, a esperteza e coragem das princesas – que antes eram selvagens, ora vejam! – ecoaram em todos os reinos vizinhos. E foi então que os casamentos vieram.

Lacey reprimiu um suspiro.

— Não perca as esperanças, Alteza. A magia pode ter se atrasado no meio do caminho até essas terras longínquas.

Lacey finalmente gargalhou bem a tempo de as antigas selvagens adentrarem o salão num ânimo matinal que ela considerava ofensivo às leis naturais das manhãs.

— Bom dia, pessoal! — Delia e seu humor efervescente cumprimentaram o cunhado e a irmã. Edeline, bem mais contida que a gêmea, limou-se a um sorriso caloroso. — Oi, Lace!

— Ah, esse cheiro... — Hadley iniciou.

— Está maravilhoso! — Isla completou, sorrindo com fervor.

Estava mesmo. Os cozinheiros haviam caprichado na torta de mirtilos. Era particularmente difícil aguardar todos sentarem-se à mesa para começar a comer com aquele cheiro...

— ... E você tinha de ver. Lady Winters ficou horrorizada com o meu pobre Hector! — Janessa murmurou enquanto entrava no salão.

Kathleen, que vinha logo atrás dela, exprimiu seu muxoxo de protesto.

— Mas ele é só um camaleãozinho! Deveria ser proibido convidar nobres chatas. Lady Winters disse que o meu cabelo é “muito laranja”!

— Qual o problema com laranja? — Edeline se pronunciou em defesa da cor favorita. Em resposta, Kathleen assentiu e abanou uma mão em frente de si como quem diz “não é?”.

Ashlyn foi a última a entrar, trazendo Cecilia no colo. Acompanhada das outras filhas mais velhas, Adella e Bianca, ela contribuiu para a discussão com seu tom brando:

— Concordo que Lady Winters não é a mais agradável das damas, mas ainda é uma condessa e seu favor para com o reino, infelizmente, é algo essencial.

O restante das irmãs concordou com um grunhido. Se nosso papel no reino é aturar condessas inconvenientes, então que assim seja, Lacey pensou enquanto dava sua mordida da vitória na torta de mirtilos, uma vez que todos já haviam se sentado.

Enquanto Ashlyn, Delia e Kathleen ainda discorriam sobre a “utilidade” da condessa – e Adella e Bianca se entreolhavam perguntando uma para a outra em silêncio se tinha alguma ideia do que era todo aquele alvoroço de adultos –, Lacey olhava para a janela tentando enxergar através das paredes.

O jardim sempre foi o refúgio de Lacey. Além do pátio de dança, ela escondia lá seu coração. Poderia muito bem aventurar-se por ele, se ao menos...

Se ao menos tivesse algo de especial! Ora essa, com sua idade Genevieve já estava se casando! Por sorte, Lacey não era nenhuma desesperada. Se o amor viesse, seria bem-vindo. No entanto, não iria desbravar terras desconhecidas para encontrá-lo. Não, sua jornada a levaria ao autoconhecimento e nada mais, merci!

— Lace! — Ashlyn chamou-a tirando-a de sua folhagem de pensamentos. Lacey parou a torta no meio do caminho até a boca. — Quando terminar aí, podemos descer até o salão de música para o nosso compromisso, o que acha?

Ah, ela me levou a sério! Que vontade de sufocá-la de abraços!

— Claro! Vai ser ótimo!

— Meninas — em seguida, Ashley voltou-se para Hadley e Isla. — Podem brincar com as pequenas hoje? Mas sem as pernas de pau, por favor.

Adella, Bianca e Cecilia emitiram um “ah” tristonho, de início. Entretanto, logo quando as gêmeas confirmaram que o dia de babá seria delas, as princesinhas voltaram a se animar. Não precisavam as pernas de pau, afinal de contas. As tias eram demais sozinhas.

— Obrigada. E as senhoritas, vejam se não me aprontem, hein?

Lacey duvidava que elas fossem manter-se assim tão comportadas. Por isso, sorriu para elas de maneira cúmplice. Em resposta, Lacey recebeu três sorrisos banguelas.

Ela ainda precisava atribuir flores para as três.

Bem... O jardim podia esperar um pouco, certo?

❀⊱┄┄┄┄┄┄┄┄┄┄┄⊰❀

O salão de música, antes conhecido por refúgio de Ashlyn e Fallon, era composto daquela aura tranquila e melodiosa que era naturalmente agradável apenas de se observá-lo. No entanto, Lacey estava ali para ser mais do que uma mera espectadora ou apreciadora.

— Então... Qual gostaria de tentar? — Ashlyn suspirou, como sempre fazia ao sair do papel de mãe ou de rainha.

— Com a flauta, ué...

— Sim, mas qual delas? Há a flauta doce, a flauta transversal, a flauta de Pã...

Céus. A cabeça de Lacey poderia dar um transversal com as novas informações. E olhe que ainda nem tinham começado!

— Doce...? — Lacey chutou.

— Ótimo! Vamos começar, então.

Ashlyn resgatou a tal flauta doce, posicionando o instrumento nas mãos da irmã. Com toda calma do mundo, instruiu:

— Com o polegar da mão esquerda, você tampa o buraco atrás. Os outros três dedos tampam os três buracos da frente e de cima.

— Certo.

— Agora, faço com os buracos de baixo a mesma coisa, só que com a outra mão.

Lacey o fez. Ei, até agora nada difícil!

— Agora é só assoprar?

— Calma — Ashley riu graciosamente. — Vamos treinar sua respiração.

A parte teórica estava interessantíssima, de fato. Lacey registrou tudo na cabeça: a boca ocupava só a ponta da flauta. Para respirar, usavam-se as laterais da boca. Quase como um resfriado. E depois vinham as notas e suas nomenclaturas. Finalmente, vinha o tal sopro. Como a nota era a que envolvia todos os buracos estarem tampados, Lacey não teve dificuldades em executá-la.

— Muito bem! Agora, vamos para . Destampe só o buraco onde está o seu dedo anelar.

A cada dedo que soltava e recolocava no lugar, era uma nota que Lacey descobria e esforçava-se para decorar o nome. Ashlyn deu-se por satisfeita e, como dever de casa, Lacey recebeu uma folha pautada com o rascunho de uma melodia principiante para treino.

Sentando-se em seu banco favorito no pátio de dança, Lacey estendeu a partitura no colo. Em seguida, segurou a flauta na frente de si com determinação.

Lacey respirou fundo ao posicionar os dedos. Com lentidão, ela repetiu mentalmente a notas enquanto as reproduzia. Si, si... Dó... Ré, ré...? Ah, sim. Dó, si, lá, sol, sol...

Ao tomar mais fôlego para a próxima série de notas, Lacey notou tarde demais que havia muita saliva em sua boca. Quando inspirou, todo aquele excesso de líquidos fez o caminho contrário. Em uma fração de segundos, Lacey engasgava de uma maneira nada heroica.

Ai, meu Deus! Foi tudo em que ela conseguiu pensar enquanto alternava entre engasgar-se e ter um ataque de riso.

— Alteza? — uma voz despertou-a de sua própria confusão, fazendo com que Lacey pigarreasse com nervosismo. — Está tudo bem? Devo chamar ajuda?

Lacey tratou de se aprumar, uma vez que adoraria passar a impressão de que tinha tudo sob controle uma vez na vida. O garoto à sua frente, que não passava de um jardineiro, era a única pessoa por ali – tirando Janessa e Kathleen, obviamente – que era de idade próxima à sua; como tal, era de suma importância não passar vergonhas daquele tipo. Ao menos... Não na frente de alguém bonito daquele jeito...

— Está tudo bem, Luke — Lacey pigarreou uma vez mais, forçando-se a sorrir. — Eu só estava tocando flauta.

— Ah, então aqueles barulhos eram uma flauta! — de início, Luke disse como se resolvesse um enigma de mil anos. Contudo, ao notar que poderia ser um comentário ambíguo, as bochechas do jardineiro se avermelharam quase que instantaneamente. — Digo, hum... Não é tradicional ouvir instrumentos aqui fora, Alteza.

— Estava péssimo, não estava?

Lacey gargalhou, completamente fora da etiqueta. Foi impossível não rir de sua expressão de desespero, o que acabou sendo algo bom, porquanto que Luke também riu no final das contas.

— Perdoe-me, Alteza. Fui indelicado em meu posicionamento.

— De modo algum, Luke. Não há a necessidade de medir as palavras comigo. Diga-me: qual animal parecia estar sendo degolado cruelmente enquanto eu tentava tocar Hino à Alegria?

Luke riu uma vez mais, voltando a segurar a cesta de folhas que carregava antes do engasgo da princesa.

— Desde quando está interessada na música, Alteza? — Luke indagou enquanto Lacey guardava seus itens da “aula” na bolsa que havia trazido. — Aliás... Tenho algo para a senhorita, Alteza.

Lacey piscou confusa.

— Para mim? Como assim?

— Bem, como sempre faz a gentileza de me ajudar com o jardim, achei justo trazer uma amostra dos gerânios que acabaram de florescer... Sei que não é um presente à altura, mas... Feliz aniversário, Alteza.

Daí, Luke retirou do bolso do avental – como Lacey não o havia visto ali? – um único gerânio, um tanto quanto amassado, mas ainda com a essência intacta da primavera em si. Os olhos de Lacey brilharam de emoção. Ashlyn também ama gerânios...

— Eu amei — Lacey sussurrou, segurando a flor entre os dedos como se fosse um diadema de diamantes. — Obrigada, Luke...

Luke assentiu com as bochechas inflamando-se num tom de vermelho adorável. Lacey teve de fingir que seu coração não pulou uma batida com a expressão; ao invés disso, sorriu.

— Podemos ver os gerânios?

— Estava contando com que dissesse isso, Alteza.


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Notas finais do capítulo

Qualquer dúvida, elogio ou surto estou disponível! Comentários são muito bem-vindos, vou amar saber o que vocês estão achando. Até mais ❤



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